Indigna Rosa Negra
63 A Rosa de Domingo
Notas iniciais
Everything you ever wanted
is in the other side of fear.
Tudo o que você sempre quis
está do outro lado do medo.
(George Addair)
Poções no primeiro horário da segunda-feira era, para a maioria dos alunos, um capricho sádico do destino. Mas não para Bervely; mesmo terrivelmente atrasada para a aula e tendo pulado o café da manhã, ela sentia um arrepio de satisfação ao entrar nas masmorras e aspirar seu ar gelado e úmido repleto dos primeiros vapores.
— Elixir da Riqueza. — dizia Snape no momento em que ela entrou. O mestre de Poções ergueu o rosto em sua direção, franziu ligeiramente as sobrancelhas negras ao medir seu aspecto geral e anuiu — Bom dia, Srta. Black.
— Professor — ela fez um breve aceno de cabeça, avaliando o nível de ironia na voz dele e decidindo que não era perigoso. Deslizou até a sua mesa de trabalho na frente da sala, lado esquerdo, o lugar que se sentava desde o seu quinto ano em Hogwarts, mas não foi a sua parceira de poções habitual a pessoa que encontrou na cadeira.
— Tara? Cadê Sia? O que você fez com ela?
A sua colega, antiga parceira de magia e affair ocasional lhe olhou de cima a baixo, com muito mais detalhismo do que Snape fizera. Ela usava seu cabelo num coque alto hoje, expondo o pescoço longo, e não estava de gravata, mas com a gola do uniforme aberta, inclusive o primeiro botão para o colo branco. O batom do dia era da cor do vinho tinto e suas mãos, que tinham parado no meio da seleção dos ingredientes, estavam cheias de anéis.
— Ela estava me devendo um favor, então trocamos por hoje. — explicou, ainda analisando Bervely. Torcendo o pescoço, Bervely conseguiu ver Sia no fundo da sala, ao lado de Olga, com a cara de quem estava prestes a raspar a cabeça da garota (ou de qualquer um) com uma faca de raízes. A negra olhou feio para a monitora-chefe, que virou a cabeça rápido para frente.
— Você não pode simplesmente enxotar minha parceira de poções quando te dá na telha. — reclamou em voz baixa, puxando o livro de instruções para perto. Ela tinha consciência de que Tara ainda não interrompera sua checagem visual, e começava a ficar impaciente.
— Nós sempre fizemos poções juntas, desde o começo, então sim, eu posso. — retrucou. Bervely rolou os olhos, achando a página do elixir e conferindo os ingredientes que Tara tinha separado até então na mesa. As sementes de sândalo estavam boas, mas achou a raiz de Toulouse meio murcha. Estava perto a comentar isso quando a ruiva voltou a falar: — Onde você passou a noite?
— Como assim? — Fez-se de desentendida, virando para a outra página, onde as instruções estavam.
— Como em: eu passei no seu quarto e você não estava lá.
— Cheguei tarde, fiquei estudando na Sala dos Monitores até depois do jantar.
— Mentirosa. — Bervely sentiu Tara se inclinar e fungar. Ela se ergueu indignada quando percebeu que a menina a cheirava.
— Mas o que é que—
— Que cheiro é esse? — ela a interrompeu, intrigada, os rasgos verdes que eram seus olhos se estreitando ainda mais — Parece sabonete, mas não é o seu sabonete...
— Você é maluca. — Bervely acusou, a empurrou por um ombro e levantou para pegar uma raiz melhor no armário de ingredientes. Quando voltou, Tara tinha sua cabeça inclinada, acompanhando seus movimentos. Ela espiou dentro das vestes negras do uniforme de Bervely, encontrando a borda do blusão verde que não era exatamente uma parte do uniforme diário.
— Você estava usando isso ontem! Você não trocou de roupa! Bervely Black, você fez a caminhada da vergonha esta manhã?
Snape, algum ponto mais à direita de onde estavam, fez um “psiu” severo por entre seus lábios, lançando seu olhar perigoso para Tara. Ela esperou o professor olhar para o outro lado para continuar, seu tom ainda dividido entre acusação e intensa diversão, embebida no prazer requintado de azucrinar Bervely com comentários constrangedores.
— Não me diga que você teve uma recaída com o capitão delícia! Eu sabia!
— Cala a boca, Tara. Poções não combina com seu tagarelar sem fim!
Um sorriso amplo cresceu nos lábios dela, esticando sua certeza em um arco vermelho que Bervely não deixou de notar mesmo através da sua visão periférica. Ela cutucou Bervely nas costelas com aquela garra pontuda que chamava de unha, fazendo a menina se esquivar e praguejar.
— Oh, me conte como isso foi acontecer, você não estava resmungando que tudo entre vocês acabou há uma eternidade?
Bervely suspirou, olhando de esguelha para ter certeza que Snape estava longe delas e não podia ouvi-las profanando a sagrada produção de poções com conversa de garotas. Sabendo que aquelas seriam longas horas de amolação se não desse o que Tara queria, ela abaixou a voz e sibilou entre os seus dentes.
— Não foi nada demais. Ele passou para deixar a Taça de Quadribol na Sala de Troféus e eu era a única que estava lá para abrir. Então fomos forçados a conversar.
— E? — Tara encorajou, alargando seus olhos e fazendo o sinal com suas sobrancelhas para “prossiga”. Claramente ter qualquer ajuda com o Elixir da Riqueza estava fora de questão, e desde que todo mundo já havia começado, Bervely achou por bem iniciar a sua própria. Ao menos podia fingir que estava comentando a respeito das instruções, e não sobre a sua vida amoros... a sua vida.
— E então depois disso ele foi voar com a vassoura de Potter. E.. — ela mordeu a ponta de sua língua, medindo a quantidade de água certa a ser colocada no caldeirão, enquanto a lembrança arrepiava sua coluna, mesmo agora. — Eu fui até o campo.
— Você foi atrás dele? — Tara se espantou, reagindo como se ouvisse o desdobramento de um romance de banca interessante.
— Eu fui até o campo — repetiu severamente, acendendo a chama embaixo do caldeirão com a varinha. Era mais fácil se não precisasse olhar para a expressão de Tara naquele momento — E nós...
— Se pegaram ali mesmo? — sugeriu a ruiva, maliciosa.
Antes fosse, pensou Bervely com amargor, e para a parceira de poções:
— Voamos.
— Não entendi. — ela piscou, confusa. Estava esperando um clímax e dera de cara com uma passagem obscura e anticlímax da história.
— Nós voamos. Na vassoura de Potter. Ele me convidou para dar uma volta e eu... fui.
— Você o QUÊ? — sua voz estridente reverberou pela masmorra, através do murmurinho de trabalho dos colegas, e alguns deles olharam para elas de cara feia. Snape soltou uma praga e veio morcegando para o lado delas, emitindo sua costumeira aura de ameaça, sacudindo a capa negra.
— Algum problema com a produção do Elixir, Srtas. Black e Holmes?
— Nenhum, digníssimo mestre. — Tara murmurou, ainda abismada, olhando para Bervely como se visse antenas e uma calda bifurcada.
— Ela se queimou, professor. — Bervely disse zangada, por entre os dentes, e depois com ameaça implícita em seu olhar para Tara — talvez aconteça de novo.
— Tentem manter um certo grau de silêncio enquanto se matam, se possível. — ele recomendou, dedicou um olhar especialmente significativo para Bervely por um momento (“Esperava mais de você a essa altura, Srta. Black”) e se afastou ondulando.
Bervely puxou a faca e as raízes frescas, esperando que Tara tivesse finalizado o seu inquérito, mas é óbvio que não.
— Você não voa. — ela murmurou, assustada. — O que está acontecendo?
Ai estava algo que ela também gostaria de saber, pensou. Deu de ombros, feliz que pelo menos o corte de raízes era algo que ela dominava à perfeição. Todo o resto parecia estar fora de controle, e explicações era algo que ela não tinha no momento para oferecer à garota.
— Bem, — ela disse, especulativa, assistindo Bervely acrescentar as raízes ao caldeirão e mexer. — Valeu a pena? Digo... Valeu à pena o voo?
— BD —
Tinha certeza que Oliver estava se vingando dela, subindo tanto e indo tão rápido quanto podia. Ela sentia que seu coração e todas as coisas que moravam em sua barriga tinham ficado lá embaixo em terra firme. Tinha os braços firmemente presos em torno da cintura dele, afinal não queria escorregar da vassoura e morrer; seu pânico não era suficiente para permiti-la ignorar o cheiro dele (suor e loção masculina) nem os músculos firmes do abdômen sob os seus braços. É claro que isso fazia parte da tortura.
Oliver arremeteu a vassoura por cima das torres do castelo, através do lago e da floresta. Bervely pensou em várias coisas aterrorizantes nesse ínterim, desde quantos ossos ela quebraria se caísse, até o que aconteceria se topassem com um dementador lá no alto. Um vento gelado se infiltrava pelo seu cabelo e roupas, e ela tremia por inteiro, pedindo a morte.
Ele diminuiu a velocidade, ao que ela arriscou abrir uma fresta dos olhos. Estavam sobrevoando o campo de quadribol, e ainda muito, muito alto. Então era assim que eles viam as arquibancadas? Todo mundo devia parecer miúdo lá de cima. Bervely choramingou ao sentir que ele arremetia, pressentindo que se subissem mais, entrariam em órbita.
— Olha só essa vista! — Oliver instigou, imune a todo o terror que a paralisava.
— Eu não consigo abrir os olhos. — ela disse rigidamente. Sentiu as costas dele vibrarem; é claro que estava se divertindo com seu sofrimento. Não era isso que os grifinórios faziam com o resto do mundo?
— Quer descer?
— Sim. Já está bom.
Ao invés de descer de uma só vez e muito inclinado, Oliver fez um trajeto em espiral até a ponta do campo, perto da base das balizas, e terminou num pouso suave. Quando seus pés tocaram o chão, Bervely escorregou da vassoura até a grama como se fosse feita de gelatina. Ela enfiou a cara na terra firme com felicidade, amando o cheiro de mato e sua segurança rígida embaixo dela.
— Nada mal para um primeiro voo. — ele zombou, sentando ao seu lado.
— E último. — sua voz saiu embargada. — Como é que vocês conseguem...—mas achou melhor parar, porque o almoço estava dando sinais de retorno. Ficou só ali deitada bem parada até as entranhas se aquietarem.
— Não existe nada melhor do que voar. — ela o ouviu explicar, num tom que insinuava que ela deixara passar algo importante na aula prática. Ele tinha dito algo muito parecido da primeira vez que eles tinham realmente conversado, naquela detenção de Bervely no sexto ano. Ela lembrava. — Mas você precisa deixar o medo de cair no chão. É o medo de cair que te derruba, não a altura, sabia?
Oliver não era exatamente o tipo de palavras profundas, de forma que Bervely olhou para ele com as sobrancelhas franzidas, recebendo um balanço dos ombros largos em retorno.
— Elliot Scarlight disse isso. É um teórico de quadribol na década de oitenta.
Bervely rolou os olhos, agora deitada de barriga para cima no gramado, seus braços estendidos e as mãos para cima, recebendo no rosto o que mal era uma chuva. Parecia mais como o spray com que ela molhava algumas plantas frescas da estufa número três, só que numa escala muito maior.
— Eu estou tentando. — disse, quietamente. — É mais fácil falar do que fazer.
Oliver estava sentado na grama ao seu lado, as pernas estendidas, a vassoura no chão. Sua camisa molhada transparente, colando-se nas partes de sua anatomia que se projetavam, evidenciando os sulcos da musculatura, de uma forma que fez Bervely se lembrar dele ensopado (e sem roupa) no vestiário. Ela teve um arrepio na coluna que não tinha nada a ver com o frio, e tomou seu corpo tão violentamente que achou melhor se levantar.
— Obrigada pela carona, de qualquer maneira. — zombou, para quebrar o silencio contemplativo de Oliver, que olhava para o outro lado. Ele se voltou, um sorriso resistente, quase como se estivesse se forçando a ser educado.
— Às ordens.
Educado. Agora ela começava a ficar constrangida por aquilo tudo; ir atrás dele no campo, aceitar seu convite, subir na vassoura estúpida e ter pedido para descer, mesmo que (precisava admitir isso), não tivesse sido tão terrível quanto imaginara. Ela sabia que Oliver não a deixaria cair, e essa era a única razão para ter subido, para começo de conversa. Mas o que isso queria dizer na atual circunstância? Era só mais uma razão para se constranger — não era um voo de vassoura que ia ajeitar as coisas entre eles.
Achando que já podia confiar nas próprias pernas de novo, ela ficou de pé, ajeitando a própria saia. Oliver fez o mesmo, passando os dedos pelo cabelo, para trás, deixando os fios molhados todo arrepiados. A barriga dela doeu, como uma ferroada, com uma inveja louca dos dedos dele.
— É melhor a gente voltar pro castelo...
— Eu voo para esquecer. — ele declarou de repente. Bervely se virou, vendo mais do que queria nos olhos castanhos. Era ruim quando Oliver fingia indiferença, mas era ainda pior quando ele se expunha daquela forma e deixava ela saber. Assentiu, desviando o olhar.
— Me esquecer. — murmurou, num tom que presumia neutro, olhando na direção do castelo mas sem vê-lo de verdade.
— Você quem quis saber. — disse ele em tom de acusação. — Aliás, porque veio até aqui agora? Só porque eu entrei no seu campo de visão e você se lembrou que existo? “Olha, aquele garoto, como é mesmo o nome dele? Ah, é, Oliver! Estou tão entediada, acho que vou ali me distrair jogando com ele um pouco, pra ver se o tempo passa, enquanto não tenho nada melhor pra fazer, ou ninguém mais interessante para... Para...”
Bervely se virou bruscamente, e ao bater os olhos nela ele não continuou. Seu rosto era uma máscara de mágoa, ele não escondia nada, nenhuma parte do ataque que ela não estava esperando.
— Mas foi você quem disse que estava cansado! — exclamou, seu corpo todo tremendo, até sua boca. — Você que parou de... Você decidiu isso! Por causa dessa vassoura idiota! — completou, apontando para a grande culpada, que jazia no gramado pegando friagem.
Ele fez um gesto brusco e impaciente com seus braços, os olhos queimando em cima dela.
— Não tem nada a ver com a vassoura, Bervely! Nunca teve! Pelo amor de deus! Essa foi só mais uma coisa que você se recusou a me dizer! Será que você realmente não entende a desigualdade disso tudo? Será que você não vê que às vezes tudo que alguém quer é um pedido de desculpas?
— Não eram meus segredos para contar! — ela guinchou, cruzando os braços, querendo fugir dali. Ela não gostava do que estava sentido, nem de como o tom dele doía nela. Não devia ser assim. Era pra ser simples. Era para ser fácil. Era para Wood ser a distração dos problemas, não o maior deles. — Eu não fiz nada de errado para me desculpar, Wood! Eu só estava tentando não mentir pra você!
Ele fez um ruído incrédulo entre os seus dentes.
— Tem certeza que era isso, Rose? Pra mim, você estava tentando me manter tanto quanto possível fora da sua vida!
Ela abriu sua boca, sugou uma respiração e fechou de novo, balançando a cabeça negativamente. Mas o que é que ele estava dizendo?
— Você não quer isso! Não faz ideia do que está pedindo! Minha vida é um caos, é perigosa, é completamente maluca. Você viu o que minha vida é, Oliver! Azkaban, dementadores e tatuagens que tiram meu sangue! Hospital e dementadores e...
— Sim, eu QUERO! — A voz dele reverberou pelo campo vazio, num eco amplificado que espremeu o coração dela dentro do peito. — Bem, eu queria. Até eu perceber que você nunca ia deixar, então eu tive que me afastar porquê eu estava ficando louco com isso, e eu precisava estar são! Eu precisava de paz em minha cabeça, você sabe!
— Para o quadribol. — ela disse com azedume, estreitando os olhos, olhando com tanta raiva para a vassoura que ela poderia muito bem se desintegrar.
— Sim, para o quadribol! Para as coisas que são importantes pra mim, e para as quais você nunca deu a mínima. Eu sempre te apoiei nas coisas mais malucas, eu estive lá, mas você não pode nem mesmo... — Oliver se interrompeu, sacudindo sua cabeça, como se decidisse que não valia à pena. Ele ficou de repente muito sério, quase raivoso. — Bervely, porque você veio aqui hoje?
Ela gostaria de ter uma resposta. Uma que não a envergonhasse, ou confirmasse a teoria dele de que ela estava entediada e buscando uma distração, o que bem podia ser verdade. Ela revisou o impulso que a fizera deixar a sala dos monitores após uma longa deliberação, após a interpretação do impulso que estava crescendo em seu peito desde que ela tinha assistido o jogo e tido um vislumbre do que a vida poderia ter sido, se tudo não tivesse ido tão terrivelmente errado para ela e para Sirius.
— Porque eu confio em você. — murmurou, baixo, mas sabendo que ele ouviria. Oliver pressionou seus lábios um no outro por um momento, ela notou que os olhos dele estavam vermelhos. Provavelmente os dela também estavam.
— Eu não sei o que isso significa. — declarou ele, mexendo a esmo no seu cabelo de novo e depois deixando o braço cair. — Você não age como se confiasse.
Eu acabei de subir numa maldita vassoura com você, pensou ferozmente. Achou que não conseguiria usar esse argumento, já que o nó no topo de sua garganta estava começando a se apertar diante do tom chateado dele. Oliver respirou fundo, seu peito tremendo levemente, como se o ar fosse ácido. A chuva fina continuava caindo, mais irritante do que efetiva.
— No Natal — ele recomeçou a falar, a voz mais controlada — Quando Anne me chamou pela lareira em casa, perguntando se você estava comigo, porque você de repente não estava comigo, a primeira coisa que eu pensei foi “talvez ela esteja vindo”. — deu um sorriso sem humor, balançando a cabeça — eu sei, iludido. E depois eu pensei: talvez ela esteja com problemas. Por que essa é você, você se mete em problemas e não avisa a ninguém. E eu tive uma merda de Natal, uma parte achando que você poderia aparecer a qualquer momento, a outra pensando se talvez não estivesse precisando de mim enquanto eu estava ali comendo rabanada e rasgando papel de presente.
Agora os olhos dele estavam definitivamente vermelhos, além disso, evitava olhar na direção dela. Ao voltar a falar, o tom controlado da voz tinha ido embora, dando lugar a um muito mais contorcido e instável.
— Você não parece se dar conta dessas coisas. Como as pessoas se preocupam com você ou como elas gostariam de alguma consideração. E você me disse que isso é seu jeito, mas honestamente, Bervely? Eu acho que você apenas não se importa o suficiente.
Ela limpou uma coisa ácida, salgada e quente que tinha escorrido pela sua bochecha. Seu peito também queimava do mesmo jeito, como poção venenosa borbulhando dentro do coração.
— Eu não sabia...
— Então eu te perguntei como tinha sido seu Natal — ele continuou, sem se dar conta de que ela tentava dizer qualquer coisa. — Na esperança de que algo justificasse a razão pela qual o meu natal foi completamente agoniante, e você disse “Luminoso”. Luminoso, Bervely. — ele deu aquela risadinha sombria de novo, procurando os olhos dela — E eu sabia que tinha sido mais do que isso, porque dava pra ver que você estava diferente, de alguma forma, mas e daí? Eu sou só o garoto que você pega — pegava — às vezes. Eu não preciso saber de nada dessas coisas.
— Não era para a Anne ter ligado para você. Ela exagerou...
Raiva cresceu nos olhos dele, e inflando seus ombros, avermelhando seu rosto.
— Não ouse culpar a sua irmã por isso! Ela é a única com o mínimo de sensatez nessa coisa toda! Ela é a única que me considerou como alguém desde o começo! E ela ficou arrasada quando soube que eu e você não estávamos mais juntos, mas foi compreensiva o bastante para não insistir, porque me chame de louco, mas eu acho que ela entende muito melhor do que você como eu me sinto nisso tudo, apesar de só ter treze anos!
Bervely, seus braços ainda apertados em torno do tronco; uma tentativa inútil de amainar a sensação perturbadora oprimindo seu peito, ficou encarando duramente um ponto à esquerda dele, seus olhos turvos e prestes a transbordar. Pareceu que ele tinha terminado, então assentiu, sentindo o pescoço rígido.
— Eu acho que você está certo. Como eu sempre tentei te dizer... E você sempre ignorou... Eu não sei fazer isso. Não estou nem perto de ser o que você gostaria, e não há a menor possibilidade de chegar lá, de forma que... — Bervely engoliu em seco. "De forma que você está certo em se afastar em ir buscar sua paz de espírito." Porque não conseguia falar em voz alta? Arriscou olhá-lo, foi um erro, ele parecia esperar alguma coisa dela, qualquer coisa, mas ao mesmo tempo e no fundo, sabia exatamente que não tinha nada. Bervely sempre fora explícita com ele sobre quem ela era, e o que ele podia esperar. Sobre isso, ela nunca tinha mentido. Ela tomou um novo fôlego, sem desviar o olhar mesmo que fosse difícil — Mas você deve saber que você nunca foi algo que esteve tapando um buraco, enquanto algo melhor não aparecia. Você é algo melhor. E — ela estava mesmo dizendo aquilo? Era quase mais difícil do que voar de vassoura — eu sempre ficava melhor quando você aparecia.
O olhar dele fraquejou. Foi como se ela tivesse jogado um balaço em seu peito, e demorou um segundo para recuperar a respiração, mas é claro que a mágoa ainda estava lá, e animal pegajoso como era, se recusava a ir embora facilmente. Ele cerrou seus dentes, desafiador.
— Eu vou perguntar uma última vez, Bervely: porque você veio aqui hoje?
— BD —
A aula de poções chegou ao fim com a realização correta do Elixir da Riqueza, que Bervely entregou para Snape num frasquinho de amostra, orgulhosa de sua cor de rubi brilhante. Ele lhe fez um aceno de aprovação, passando a lista onde ela assinava declarando a entrega.
— Como vai o seu projeto?
— Bom. — murmurou, os olhos no papel. Não tinha trabalhado nem um minuto sequer no projeto aquele fim de semana, por conta da final de quadribol e, bem, do domingo, e achou que Snape podia ler essa verdade vergonhosa através de sua cabeça.
— Posso esperar uma amostra até sexta feira?
— Sim. Não... Melhor sábado. Sexta tem reunião dos monitores à noite.
— Você está bem? — ele perguntou num tom mais baixo, sutilmente acusador, como se ela devesse estar, mas não se esforçasse o suficiente. Bervely, surpreendida pela questão tão pessoal no meio da aula, achou que ele tinha notado as suas olheiras e a forma desmazelada do seu cabelo, que ela tinha penteado com os dedos apenas antes de sair. Ou o fato de que não vestira o uniforme completo por baixo das vestes, nem estava com seu distintivo de monitora. Na verdade, era gentil da parte dele não lhe dar uma advertência por seu desmazelo, sendo o diretor de sua casa. Então ele completou — Você tem a aparência de alguém que passou a noite em claro. Ficou trabalhando em sua poção?
Ela se viu grata por ele mesmo ter oferecido uma saída e assentiu.
— Sei que a sua rotina está sobrecarregada no momento, mas você deve organizar os seus horários de forma a ter boas noites de sono. Pocionistas insones ficam desleixados.
Ela não sabia como lidar com Snape versão padrinho preocupado. Assentiu, sem jeito, lhe entregando o pergaminho e a pena.
— Vou me lembrar disso.
— Sobrecarregue Weasley se precisar. Faça a existência dele valer a pena. — completou o mestre, indicando o monitor-chefe discretamente com o queixo, num ponto mais atrás da sala. Isso fez Bervely sorrir, apesar de tudo.
Tara tinha guardado um lugar para ela na mesa do almoço, provavelmente para prosseguir seu interrogatório, interrompido na sala após Snape ameaçar cortar a nota delas pela metade. Assim que Bervely se sentou, a ruiva lhe passou a travessa de salada e uma pergunta afiada à tiracolo:
— Então rolou algum tipo de DR molhada e depois cada um foi pra o seu canto? Nada de amassos nas arquibancadas?
— Quem deu amassos nas arquibancadas? — perguntou Sia, que tinha acabado de deslizar para o lugar do outro lado de Bervely. Hoje ela estava cheia de trancinhas, destacando o belo formato de coração do seu rosto. Os olhos castanho-amarelados cintilaram com interesse.
— Ninguém. — sibilou Bervely, olhando feio para Tara, que deu risada.
— Que pena, é um ótimo lugar para uns amassos. Especialmente com os meninos do quadribol, eles adoram o fato de ser o “território” deles — Sia usou os dedos para quotar “território” — Ficam todos acesinhos com isso.
Bervely rolou seus olhos, ignorando as duas, puxando a travessa de macarrão e se servindo. Estava faminta, afinal havia pulado o jantar e o café da manhã, ou seja, não tinha uma refeição decente há quase vinte e quatro horas. Ela enrolou seu cabelo caótico num coque para que não caísse na comida, notando que eles pareciam maiores do que o normal. Será que a sua metamorfomagia estava mudando seu cabelo de forma inconsciente?
— Isso ainda não explica onde você passou a noite. — Tara voltou a investigar, tendo ela se servido também, de bem menos comida do que Bervely colocou em seu prato.
— Não tem o que explicar, Tara, pelo amor de Circe, vá cuidar da sua vida. — se impacientou, ocupando então a boca com frango e macarrão.
— Você não precisa me esconder as suas aventuras amorosas, B. — ela disse, aduladora, remexendo a ponta do cabelo de Bervely — Sabe que eu não sou ciumenta. Eu sei muito bem dividir...
— Os seus brinquedos, é, eu sei. — Soltou a mecha de cabelo dos dedos de Tara com um movimento da sua cabeça — Acontece que eu não sou um brinquedo seu, e não existo para o seu entretenimento egoísta...
— Meu entretenimento nunca é egoísta. —reclamou a outra, fazendo um bico amuado. — Você entre todas as pessoas deveria saber disso.
Bervely a ignorou, apesar de ser a mais pura verdade. Se certificando mais uma vez de que Sia não estava ouvindo nenhuma parte daquela conversa (distraída discutindo os melhores lugares de amassos em Hogwarts com Evie Parkinson), se concentrou na comida. Sua barriga doía de necessidade. Ela esqueceu Tara por abençoados minutos, até que...
— Ah, meu deus, o que é ISSO? — Tara exclamou, puxando a gola da blusa de Bervely e apontando algo em seu pescoço. Alguns colegas olharam na direção delas, uns girando os olhos para o escândalo já habitual da ruiva, outros dando sorrisos maldosos. Wood escolheu aquela exata hora para entrar no salão comunal, acompanhado de uns colegas barulhentos. O olhar dele veio direto em Bervely como um dardo, depois em Tara ao seu lado (quase em cima dela). Ela fez um movimento brusco para livrar a gola de sua blusa.
— Pare de me tocar no meio do Salão Principal! — chiou, irritada.
— Santo Salazar, mas que humor espinhoso. E eu achando que a sua noite tinha sido divertida, mas pelo visto, toda a sua tensão ainda está aí acumulada nessa sua...
— Calada, Tara.
Wood escolheu um lugar em sua mesa, ao lado de Katie Bell e Jorge Weasley. Os dois falavam com ele, mas ele não dava sinais de que os ouvia. Seus olhos ainda presos nela como ganchos através do salão inteiro.
— BD —
— Eu vou perguntar uma última vez, Bervely: porque você veio aqui hoje?
Sangue de Salazar, aquilo era mais difícil do que voar. Bervely fechou seus olhos, puxando um fôlego que lhe desse tanto oxigênio quanto coragem.
“Você tem que deixar o medo no chão”
— Eu senti sua falta.
Não abriu os olhos. Tinha receio de ver incredulidade ou desprezo no rosto dele, duas coisas que a fariam se arrepender terrivelmente. De forma que ela não viu que ele se aproximou, apenas ficou surpresa quando a voz dele soou muito mais próxima de seus ouvidos.
— Por quê? Por que você sentiria falta?
— Eu não sei, Oliver, porque é que eu sentiria? — retrucou com sarcasmo, a defesa que ela conhecia. — Por que você sentiria?
— Ah, não senhora, não vamos virar isso pra mim. Por quê — ele repetiu, devagar e articulando, o sotaque escocês evidenciando pelo peso que colocava nas palavras — você sentiria minha falta?
Bervely olhou para ele. Oliver tinha cílios tão longos que estavam realmente molhados com a chuva, tão longos que rivalizavam com os dela. Os olhos dele pareciam mais claros, quase cor de mel, apesar de a luminosidade não ser grande coisa ali.
Porque eu não sentiria?
Ele sabia que ela já tinha cedido muito, mas queria ainda mais, e talvez aquela fosse a questão, a grande pergunta, será que ela poderia...? Numa estranha sucessão de lembranças, ela reviu os momentos em que ele estivera presente naquele último ano, e tentou encontrar uma linha única que perpassasse todos eles, uma sensação comum atrelada ao grifinório impertinente e bobo que se metera em sua vida pela obra mais mal acabada do acaso. Algumas vezes ele se intrometia, em outras ela lhe chamava. Quando ela podia, ela chamava. Quando não era perigoso pra ele, nem colocaria o olhar de medo em seu rosto, como ela viu surgir daquela vez em Azkaban.
Oliver ainda esperava. Ela sabia que aquela era a última resposta que ele estava disposto a esperar em toda a conversa.
— Eu te disse. — murmurou, já que ele estava perto o bastante para lhe ouvir sem precisar gritar através da chuva rala — Eu fico melhor... É melhor quando você aparece.
— Mas você não faz questão. — ele lhe respondeu, pensativo e triste.
— Não, eu não faço. — Bervely concordou. — Não posso fazer. Não posso fazer questão de ninguém, Oliver. As pessoas, elas... Não estão lá o tempo todo. E menos ainda quando você espera que estejam.
O capitão balançou sua cabeça, e nunca houve um olhar mais intenso que aquele, ela achou.
— Eu poderia. — outro riso sombrio, outra vez os dedos através de seu cabelo encharcado, mais bagunçando do que arrumado — Diabos, eu gostaria.
O bolo que trancava a garganta de Bervely agora parecia mais um planeta entalado em sua garganta. Seu coração espancava as costelas sem nenhuma piedade ou compostura, e ela só queria...
— Me deixa. — ele pediu baixinho, se aproximando ainda mais, um passo incerto na direção dela. O torso de seus dedos tocou a lateral escorregadia do rosto de Bervely. O coração se contorceu como um louco. — Me deixa...?
Ela assentiu, ansiosa para um alívio, ou iria explodir naquela agonia terrível. Mesmo assim, foi com calma que os lábios de Oliver escorregaram para os seus, salgados e com gosto de chuva. Coisas sólidas derreteram dentro dela; a começar das articulações de seus joelhos, deixando suas pernas moles. Bervely o segurou como se ele fosse o dono de um tipo de oxigênio que ela nunca tinha respirado antes, suas duas mãos entrando no cabelo molhado por onde estava louca para correr seus dedos desde o começo. Em resposta, e para sua enorme satisfação, as mãos dele se fecharam firmes em torno de sua cintura, alastrando os já conhecidos, mas muito saudosos arrepios coluna acima e abaixo.
Ele a levou e a encostou contra a base da trave — que sabia exatamente onde estava sem precisar nem olhar, diga-se de passagem — e devorou sua boca devagar e minuciosamente. Ele dizia, cada parte dessa boca é minha. Sua língua, seus dentes e seus lábios. Ela deixou Oliver ter tudo, pegar tudo, se desfazendo sob ele, se derretendo, mesmo que a única coisa que ele tocasse com as mãos fosse a sua cintura, ainda em seu aperto possessivo e firme.
Ela percebeu que adorava, e nunca tinha valorizado como se devia, a firmeza das coxas dele, especialmente quando uma delas se encaixava entre as suas e sustentava seu corpo, pressionando sua pélvis para trás e fazendo fricção contra a sua calcinha toda vez que ela estava de saia. E percebeu que não se importava com o beijo calmo e profundo dele, mesmo que há um segundo atrás estivesse molhada e tremendo. Ela continuava molhada — bem, ela estava ficando mais ainda — mas o calor tinha nascido de dentro para fora na sua pele em todo lugar que roçava contra a pele de Oliver, que era sempre quente.
Bervely gemeu quando a barba áspera se arrastou pelo seu pescoço, os lábios quentes e mágicos descendo por seu queixo a caminho do ponto especialmente sensível em seu pescoço, abaixo da orelha. Ela se lembrou da “magia Wood” de uma remota troca de cartas e riu. Depois ele chupou sua pele sem piedade, alastrando uma onda de prazer que ela sentiu reverberar na base de seu ventre, e soltou um lamento, deixando seus olhos rolarem para cima. Ele lhe apertou ainda mais forte, e em seu torpor, Bervely teve a vaga impressão de que ele deixaria a marca de seus dedos impressa na pele dela..
— Eu quero você, Rose. Por favor, eu quero você. — ele ofegou em seu ouvido, o pedido desesperado de um homem fora de si. O alívio de ouvi-lo chamando-a pelo nome do meio novamente foi tamanho que Bervely abriu um novo sorriso. Oliver espalhou beijos por seu queixo, subindo de novo, o lugar do chupão ardendo, e veio olhar em seus olhos — Você me quer?
— Você realmente vai me fazer dizer tudo, não vai? — reclamou, o tom saindo menos debochado do que deveria por conta da respiração entrecortada. Ele assentiu com um olhar mordaz.
— Sim, eu vou fazer você dizer tudo. — afirmou, brincando com a barra da sua blusa de madrinha de goles. Logo as pontas ásperas dos dedos dele roçavam sua barriga, atiçando sua pele num caminho para cima. Ele encontrou a base de seu seio, sorrindo ao perceber que não havia outra peça de vestuário impedindo seu acesso. Bervely sentia tudo queimar, ela podia muito bem estar dentro de um caldeirão fervendo. — Rose?
— Sim, Wood, eu quero você — elaborou cada palavra, os olhos estreitos para ele, que sorriu amplamente, satisfeito com a resposta. Rodeava seu seio esquerdo com a paciência de um torturador profissional, sem nunca tocar a parte mais sensível.
— Que tal aqui?
O polegar dele roçou seu mamilo, a mais leve das carícias, fazendo com que Bervely arfasse e mordesse seu lábio inferior. Ela podia sentir a calcinha encharcada, mas ainda não estava louca.
— Aqui? Oliver, ainda é dia. Quem quer que olhe do castelo...
Ele não parecia se importar. Tomou sua boca de novo, dominando sua língua ao mesmo tempo em que apertava seu seio inteiro entre os dedos, pressionando seu corpo — sua ereção mais do que pronta através da calça folgada —, que em resposta, ondulou debaixo dele, fazendo o máximo de atrito que podia com o corpo dele.
— Aqui? — ele voltou a perguntar, um suspiro exigente em seu ouvido, quase varrendo seu poder de argumentação com aquela massagem, agora esfregando e apertando seu mamilo intumescido.
— Você é maluco. Você nem queria fazer aquele dia no vestiário...
— Ah, eu queria. — a corrigiu de um jeito feroz, por entre os dentes apertados — Eu só estava me fazendo de bom menino. E nós não fomos pegos, fomos?
— Não estávamos ao... ahh — gemeu, ao sentir um beliscão mais forte, que fez sua vagina se apertar de vontade. Ela procurou as palavras dentro de sua cabeça, tinham sido todas espalhadas como se atingidas por um vendaval. — Não estávamos ao ar livre.
— Confie em mim. — ele pediu manhoso, e ao mesmo tempo persuasivo, acarinhando o lugar que tinha apertado. — Você disse que confiava, não faz nem cinco minutos. Eu sei um jeito...
Ele estava mordiscando seu pescoço novamente, perto do local ainda sensível onde com certeza deixara uma marca. Bervely já sentia as ondas de adrenalina eletrizando seu sangue com a ideia de fazer algo tão perigoso, mil vezes mais perigoso do que aquela vez no vestiário que pelo menos tinha portas a serem trancadas. Ela sabia que Oliver não ia tocá-la muito mais além se ela não concordasse, pelo cavalheiro que ele era, e Merlin lhe ajudasse, ela estava ficando louca com aquela urgência pulsando entre as suas pernas.
— Está bem. — disse a ele, correndo as mãos pelas suas costas até a barra da camisa, onde ela achou uma brecha até a pele dele. — Aqui.
— BD —
— É definitivamente um chupão. — Sia teve a graciosidade de se desviar da sua torta de frango para interpretar a mancha roxa no pescoço de Bervely. — Dos bons. Uau, estou quase com inveja.
— Obrigada pelo diagnóstico, Rockwood. — disse a dona do chupão, puxando a gola para cima o máximo possível e fechando a cara — Já pensou em seguir a carreira de medibruxaria?
— Porque ela está tão azeda? — Sia perguntou para Tara por cima da cabeça de Bervely. Elas raramente conversavam uma com a outra, mas estava claro que para atentar a monitora-chefe não viam problemas na socialização — Quem fez isso com ela?
— Eu sei que eu não fui. — Tara se defendeu, num tom de pretensa desaprovação — Estava colocando minhas fichas no capitão delícia, mas não sei interpretar se o olhar que ele está lançando pra ela da mesa da Grifinória é de ódio ou de fome.
— Tara! — Bervely resistiu ao impulso de beliscá-la. É claro que ninguém levava a sério o que Tara falava, mas ainda assim, não precisava ter a casa inteira especulando sua vida amo.. A sua vida.
— Provavelmente os dois. — disse Sia, sábia e inabalável, tomando um gole de suco, admirando Oliver por cima da taça — Ah, os amores sonsinórios, sempre pontuados de animosidade... — ela deu um cutucão na costela de Bervely, o segundo do jantar, fazendo-a pular — Sorte sua, Bervely! Ele é uma delicinha. Mas pensei que estava com a Bell, eles não vivem agarrados?
— Ok, já chega. — ela exclamou, levantando de uma vez da mesa, esbarrando no prato e quase o derrubando. — Pro inferno vocês duas. Perdi a fome.
— Não, B., espera, é brincadeira...
Ela já tinha saído, embora o vazio em sua barriga a fizesse se arrepender no mesmo instante. Infernos, ia ter que passar na cozinha para pegar alguma coisa, se não quisesse cair dura de fome. Sorte que Dobby, o velho elfo dos Malfoy e agora aquisição de Hogwarts, estava sempre disposto a lhe repassar comida fora do horário de refeição, em nome dos velhos tempos. Velhos hábitos nunca morrem...
— BD —
— Olha pra mim, Rose.
Por um momento, ela achou que ele ia mudar de ideia. Que ele ia se lembrar de que prometera lealdade a outra garota, talvez, naquele meio tempo? Mas ele só tinha parado um momento para pegar a varinha e conjurar um preservativo trouxa lá do seu quarto, na torre da Grifinória. Ah, as vantagens de ser bruxo... E agora ele estava ali, lhe dizendo o mesmo que tinha dito na primeira vez deles. Olha para mim, como se ela fosse louca de não olhar. Será que ele tinha noção do quanto era atraente, com o rosto corado e as pupilas dilatadas daquele jeito, os lábios inchados de tanto beijar e das mordidas dela?
Havia um ângulo exato em que eles ficavam fora de vista tanto de quem chegasse pelo castelo quanto de quem pudesse vir da direção da floresta. A baliza era larga o suficiente para esconder seus corpos, e quando ele os posicionou, Bervely teve a nítida impressão de que ele já tinha feito isso antes, ali, com outra pessoa.
— O que foi? — perguntou, ao perceber que ela se distraíra. Acabara de colocar o preservativo, a calça puxada para baixo só o bastante para deixar livre sua virilha e o membro apontando para ela, logo abaixo da barra da camiseta. Deusa do céu, se ele não era a imagem da perdição, um braço apoiado na baliza ao lado de sua cabeça, o outro acariciando o seu quadril por baixo do elástico da calcinha.
— Nada. — ela murmurou. Seu coração palpitava com a tensão, o medo de serem pegos, a expectativa de serem pegos.
— Fala — pediu, inclinando e beijando sua clavícula. Lábios tão quente e macios se arrastando por sua pele. A mão livre indo para debaixo de sua saia, dedilhando a coxa por dentro até encontrar a calcinha.
— Você já... — O torso do dedo dele fez contato com a parte mais quente, úmida e sensível dela através do pano. Bervely estremeceu, mordendo a boca para não choramingar. — Nada.
Ele riu, continuando a sua provocação lenta sobre o pano, achando que ela ainda tinha nervos para aguentar aquilo, e bem, ela não tinha. Sua mão envolveu o pênis dele, fechando os dedos por cima do látex que ela não amava, que a impedia de sentir o quanto ele era macio, apesar de duro feito uma flecha. Mesmo assim, o capitão deu o gemido mais delicioso em seu ouvido.
— Ah, Rose...
— Para de enrolação. — pediu, usando o tom de monitora-chefe, ao mesmo tempo que dava um apertão mais forte na ereção dele, que ofegou.
— Tudo bem. Você quem manda.
Uma mão dele foi para debaixo da sua coxa, erguendo sua perna até que se encaixasse na cintura dele, a outra afastando sua calcinha para o lado, e depois tudo o que ela soube foi uma explosão de prazer quando ele deslizou para dentro até o fim, a preenchendo inteira. Não houve qualquer modo de interromper o gemido longo que escapou de sua boca, e que fez par com o grunhido satisfeito dele em seu ouvido.
— Ah, Rose, meu deus, que saudade. Que delícia. Você é tão...
Apertada. Quente. Pulsante. Ela sabia, era como ela se sentia em torno dele, era o que a fazia ondular seu quadril e se esquecer momentaneamente de onde estavam, quando se desmanchava nele. Não achava que qualquer outra vez que tinham feito sexo se comparava com aquela, temperada com o perigo de serem pegos ou vistos e com a ardência das pazes recém feitas. Então ela se perdeu nele, no cheiro, nas sensações, na voz rouca, em tudo que ela gostava de ter de volta, sem se importar se era dela ou se não era.
Bervely gozou antes dele, o ápice queimando em todos os seus nervos igual a um curto circuito de três tempos, enquanto se contraía em torno e dizia seu nome. Ela nem estava em si mesma, propriamente falando, quando ele gozou também, uns dois minutos depois. Ela estava toda dormente. Da ponta do pé até sua testa, mas mesmo assim ela via o sorriso (satisfeito e orgulhoso) estampado no rosto dele.
— BD —
— Estão você teve mesmo sexo na noite passada.
Bervely, que tinha acabado de tomar um banho e estava saindo do banheiro enrolada na toalha, lançou um olhar de “por favor, supere isso” para a colega e foi buscar uma roupa no armário. A sonserina tinha vindo até o seu quarto um tempo após o jantar, se encarapitando em sua poltrona e recomeçado o interrogatório implacável.
— Anda, B., pare de fazer suspense!
Bervely se virou com irritação, um suéter amarelo na mão e uma calcinha na outra.
— Por que, em nome de Cassandra, isso é tão importante pra você? Você já disse que não se importa! Que pra você não faz diferença se eu fico com mais alguém ou não, que você divide as porcarias dos brinquedos e blá, blá, blá, então será que você não tem outro brinquedo mais interessante para perturbar hoje? Pela GRAÇA de Morgana?? — completou, exasperada.
Tara piscou, atônita. Ela fez uma cara magoada que Bervely não sabia se era real ou teatral.
— Minha nossa, ninguém te ensinou a ter uma conversa de amigas na vida? Amigas dividem coisas. Falam sobre garotos.
Ela soltou seu ar longamente. Pessoas difíceis. Estava rodeada de pessoas difíceis.
— Você não é minha amiga, Tara. A gente compartilha saliva e... Bem, e outras coisas. É estranho ter essa conversa.
Ela se levantou, cruzando os braços. Bervely estava começando a achar que a ofensa tomada era verdadeira.
— Se eu soubesse que seria assim, preferia não ter compartilhado nenhuma dessas coisas com você.
A Black estreitou seus olhos para ela, procurando o blefe.
— Bobagem.
— Não, é sério. — ela se manteve de pé e resistente, olhando para Bervely com toda seriedade. — Você é a minha melhor, e vamos combinar, única amiga desde sempre. Eu jamais trocaria nossa amizade por uma sessão de amassos. Aliás, se isso faz o resto parecer estranho, eu estou oficialmente terminando com você agora mesmo. Diabos, você tem uma boca linda e deliciosa Bervely, mas não é a única boca do mundo. Mas é a única que pode ser sincera comigo e me falar as verdades quando eu preciso ouvi-las, então é com isso que eu fico em qualquer termo.
Oh, o monstro da culpa. Enorme e escamoso, se contorcendo em suas entranhas e liberando o seu veneno. Bervely tomou um segundo para odiar aquele surto inesperado de sinceridade que estava rondando as pessoas à sua volta e as levando às declarações, o que era aquilo tudo, a época do ano? Conjuntura estelar?
Mas sobretudo ela odiou a si mesma. A última coisa que estava sendo com Tara era sincera e verdadeira, há um longo tempo.
— Você está certa. — murmurou, vencida, deixando cair os braços da calcinha e do suéter — Sentimental e anti-sonserina, mas certa.
Tara ergueu uma sobrancelha, demandando a continuação do assunto em pauta.
— Se quer mesmo saber, sim, nós fizemos sexo. No campo de quadribol, atrás da baliza central.
— Oh, puta que p... Sério?
— Sério. — Bervely deixou um sorriso atravessado emergir, revisitando as memórias. — Uma completa e absurda loucura. Se alguém nos pegasse lá...
— Eu vou erguer um altar pra você. — disse Tara, um sorriso escancarado na boca pintada de vermelho escuro, quase prestes a gargalhar — De verdade! Santa Bervely do Atentado ao Pudor. E pensar que Snape te deu o cargo de monitora-chefe! Porque ele achou que você era melhor do que eu! Meu Merlin, você é uma PERVERTIDA!
— Ah, vai pentear um Grindylow, Tara. — reclamou, seu rosto ficando quente frente ao entusiasmo da outra. Sabia que era inútil tentar impedir aquela reação dela, mas no fundo nem queria. Era bom dizer aquilo em voz alta, bom de um jeito estranhamente... Bem, pervertido.
— Você NUNCA teria concordado em dar uns amassos comigo tão em público. — ela reclamou, fingindo um ultraje mortal.
— Não foi em público, não tinha ninguém mais lá.
— Acho que vou ter que fazer um altar para Wood também. Capitão Wood, o deus do sexo pervertido. OU, eu posso apenas enviar uma carta pra ele com meus préstimos, meu reconhecimento...
— Nem sonhe com isso. — ela disse perigosamente, sabendo que Tara era bem capaz de algo assim. Ouviu sua gargalhada rouca enquanto vestia a calcinha e se enfiava no suéter, indo se olhar no espelho. — Essa cor fica horrível em mim.
— É porque é meu suéter. — avisou-lhe a ruiva, ainda rindo.
— E porque raios está na minha gaveta? — revoltou-se, arrancando-o fora. Viu pelo reflexo a sonserina olhando interessada para o seu corpo, e lhe dando uma piscadela quando capturou seu olhar. Bervely jogou a coisa cor de gema de ovo em cima dela e foi procurar outra coisa para vestir.
— Então vamos recapitular — disse Tara, acompanhando com os olhos a colega caçar peças de roupas nas gavetas, andando pelo quarto só de calcinha. Ela se cansara de perguntar o que tinha acontecido com a tatuagem de Bervely para ficar daquele jeito, sem obter nenhuma resposta clara.. — Vocês quebraram trezentas e oitenta e duas leis da escola com uma fornicação nas balizas, e depois...
— Depois a chuva aumentou, e tivemos que sair para não morrermos congelados. — disse com sintetismo.
É claro que Tara não apreciou a economia de palavras. Ela mordeu sua unha longa, pensativa.
— Pra onde vocês foram? Para cá que não foi...
Bervely lançou um olhar analítico para os seus lençóis revirados, sabendo que os deixara perfeitamente arrumados antes de sair, na manhã de domingo.
— Você dormiu em minha cama essa noite, sua peste?
Ela deu um sorriso amplo e arteiro por trás da unha ainda presa entre os dentes. Bervely rolou os olhos, sabendo que a ruiva era o caso mais perdido de todos.
— BD —
Cerca de uma hora depois de jurar que nunca mais ia subir numa vassoura, Bervely estava de novo voando. Dessa vez não foi nem de longe tão terrível, já que ainda estava meio flutuando pelas coisas que Oliver a fizera sentir minutos antes, e mal prestou atenção no caminho. Isso, e ela foi com o rosto enfiado na curva do pescoço dele, embora jamais admitiria isso se alguém lhe perguntasse.
Ele lhe prometeu um lugar quente e seco e foi o que entregou; acontece que o referido lugar era o seu dormitório na torre da Grifinória, que ele dividia com outros quatro colegas na ala norte do castelo. No minuto em que passaram pela janela estreita e ela viu as camas de baldaquino, as cortinas de veludo vermelhas e os edredons com o brasão dos leões, se voltou para ele com o olhar acusador de “eu confiei em você, e você me trouxe pro covil das feras!”.
— Não se preocupe, eles não vem aqui durante o dia. Carleton e McArley estão num grupo de estudos, Otto Grant passa o fim de semana com a namorada na comunal da Lufa-Lufa e Percy... Bem, Percy está sendo Percy por aí.
— Você divide quarto com Weasley? Que pesadelo miserável. — condenou, ao passo que dava uma boa olhada ao redor enquanto ele fechava a janela. Ela viu meias e sapatos espalhados, papel de doce, lençóis contorcidos, uma cueca pendurada na ponta de uma trave do baldaquino. Uma única cama, do outro lado, que ela teve certeza que era a do monitor-chefe, só pelo nível obsessivo de arrumação. Será que ele e Pacey Oltman já tinham sido apresentados? Aí estava um “romance sonsinório” que não ia ter nenhuma animosidade, só mutua afinidade e compartilhamento de TOC”.
— Ele não gosta muito de você, sabia? — comentou Oliver, no que ela chamaria de o eufemismo do século.
— Me pergunto porque, eu sou tão adorável.
O capitão riu pelo nariz.
— Algo relacionado a você ter roubado a vaga de monitora chefe da namorada dele, Penélope Clearwater. Parece que ela era a favorita para o cargo antes de você surgir na disputa.
— Ah. Isso. — Tentou evocar uma imagem da namorada de Percy Weasley, mas achou que nunca tinha olhado para ela mais do que uma vez, era uma existência completamente insignificante em sua vida.
Oliver guardou a vassoura cuidadosamente em seu armário, de onde tirou uma toalha e jogou em torno dela.
— Você devia tirar essa blusa, está encharcada. Não acho que um feitiço de secagem vá resolver qualquer coisa.
— Mas eu adoro a minha blusa de madrinha de goles. — provocou, vendo o rosto dele se contorcer numa careta. Assistiu a raiva dele reascender e se tornar evidente pela vermelhidão em seu rosto e pelo fogo ultrajado em seus olhos.
— Você fez isso de propósito para me irritar, não fez? Você odeia quadribol. Não há razão no mundo que explique você aceitar essa proposta de ser madrinha de um time, a não ser porque sabia que eu ia odiar a ideia.
Ela riu sonoramente.
— Quanta pretensão sua, capitão. Até onde eu sabia, você não podia se importar menos com o que eu fazia ou deixava de fazer na época. Além do mais, Flint pediu tão gentilmente...
— O quão gentilmente? — ele estava no pé dela num minuto, seus maxilares trincados, aquela cara de capitão perigoso que ele fazia quando um adversário ia cobrar o pênalti.
— Tanto quanto a diplomacia entre colegas exige. — disse ela com suavidade, achando graça disso. Provocar Oliver lhe dava um tipo engraçado de cócegas na boca do estômago.
— Ele te fez beijar a goles?
— Isso não é uma tradição? — ela piscou, inocente.
— Você beijou a goles de Flint, Rose? — ele rangeu entre os dentes, parecendo um rosnado.
— Só uma vez. — ela disse, a voz baixa, tentando ficar séria.
— Eu não acredito numa coisa dessas! — Oliver jogou as mãos para o alto, revoltado em toda a sua estatura — Não dá pra acreditar, sério!
Ela estava lutando para conter uma gargalhada que ameaçava estourar para fora. Oh, Merlin, isso era difícil. Oliver se virou, tão irritado quanto se ela tivesse acabado de dizer que tinha feito sexo com o time da Sonserina inteiro.
— Vá. Tirar. Essa. Blusa.
Bervely teve o impulso de arrancar a blusa ali mesmo, para calar a boca dele, mas então ela se lembrou que não podia, por causa do seu braço.
— Me dê outra coisa para vestir.
Oliver foi até seu guarda-roupas e escolheu uma blusa de mangas branca, com a gola em V, que ela já conhecia do dia em que eles quase tinham se beijado no trem de Hogwarts, há mais de um ano. Ele indicou o banheiro, para onde ela foi e saiu poucos minutos depois, vestindo só a camisa dele, já que o resto da sua roupa estava ensopada e ela não confiava nos próprios feitiços de secagem; tinha incendiado uma calça da última vez que tentara.
— Tem certeza que ninguém vai aparecer aqui? Digo, não que eu me importe, mas se uns de seus colegas de quarto me verem assim, eles vão sonhar comigo beijando a goles deles.
O capitão lhe lançou um olhar de censura irritada, deixando passar a graça do comentário. Ele tinha trocado as próprias roupas para uma bermuda de algodão azul e um moletom trouxa liso, cinza elefante. As cores pasteis lhe deixavam meio jovial, ela achou. Terminou de enxugar o cabelo com a toalha, um pouco preocupada com a porta, se perguntando como ia embora dali sem ser notada. Talvez tivesse que se metamorfomagizar em um grifinório... Não, preferia dar de cara com McGonagall sem suas calças.
— Vem aqui — chamou Oliver, interrompendo seu fluxo de pensamentos de fuga. Ele também puxou a barra da camisa que fazia as vezes de vestido nela, expondo um bocado de coxa. Bervely se deixou levar até a cama dele, que ficava no canto direito do quarto, contra a parede. Também não estava arrumada, mas pelo menos nenhuma cueca estava servindo de bandeira de paz.
Ela sentou no colo dele de bom grado, retribuindo um beijo lento e despretensioso. Apreciou o contraste dos lábios macios e da barba áspera em volta de sua boca, escovando de leve sua pele. Até mesmo dos beijos que queriam ser só beijos ela sentira falta, o que era uma droga, porque depunha contra o seu argumento de que só tinha subido em uma maldita vassoura com ele porque era um amante incrível.
— Fica comigo hoje? — ele pediu, interrompendo o beijo para olhar em seu rosto.
— Aqui?
— Aqui. — riu, assentindo.
— Não me diga que é outro dos lugares que você gosta de fazer... coisas com garotas.
— Não, não é. E não, não é em sexo que eu estou pensando agora.
— Então no que você está pensando? — Ela sinceramente não fazia a menor ideia. Com um sorriso misterioso, Oliver lhe passou para a cama, depois fechou a cortina vermelha e ainda jogou um feitiço Abaffiato em torno deles.
— Pronto. — ele anunciou, finalizando o arranjo.
— Pronto o quê, Oliver? Você quer tirar uma soneca ou algo assim? — zombou — Quer que eu vele seu sono?
— Se é o que quer. O que você quiser, o que eu quiser… Temos tempo. — pelo sorriso vitorioso em seu rosto, era como se eles tivessem ganhado um prêmio, um saquinho de tempo extra só pra eles. — O que você sugere?
— BD —
— Os dormitórios da Grifinória não são nada comparados aos nossos, mas até que são confortáveis. — foi o veredicto de Tara, dando de ombros do seu jeito afetado de sempre, num suspiro conformado. — Eu suponho que depois de um sexo quente em público, vocês precisavam de um passeio na normalidade missionária.
— Pare de usar a palavra “público”, você pode? — reclamou Bervely, se olhando no espelho, ajeitando o cabelo que definitivamente estava mais comprido do que o tamanho habitual, na altura do ombro. Decidiu que gostava assim, para dar uma variada. — Já falei que não tinha ninguém lá, além de mim e Oliver.
— Que você saiba. — os olhos dela correram espertamente para a foto ainda espetada ali, no espaço entre a moldura e o espelho. Tendo visto a forma de cão de Black aquela vez em sua última invasão, ela naturalmente o reconhecera no momento em que pousara os olhos na imagem. — Você não mencionou que seu pai costuma dar umas voltas pela orla da floresta quando está entediado? Nunca se sabe…
— Não! — Bervely exclamou, horrorizada com a mera probabilidade de Sirius ter lhe visto… bem, naquelas circunstâncias. Tara deu um sorrisinho de quem estava gostando de vê-la se torturar.
— Meu pai me pegou transando uma vez. Foi divertido. Ele ficou sem conseguir olhar pra mim por semanas.
Ela não conseguia imaginar o falso Gavril Romansek sem graça, nem ela queria imaginá-lo de jeito nenhum, na verdade. Ansiosa para mudar de assunto, principalmente antes que Tara começasse a mencionar o misterioso silêncio dele de novo, ela retomou o relato.
— Eu perguntei a Wood sobre Katie Bell. — declarou, séria, obtendo sua atenção de imediato.
— E então, o que ele disse sobre a vadia de bolso?
— BD —
No fim das contas, a coisa que Bervely mais queria fazer — de novo — era sexo. Sem objeção da parte de Oliver, eles repetiram a dose, dessa vez com calma e prestando mais atenção nas reações e no corpo um do outro, uma vez que a ameaça da expulsão já não pairava sobre suas cabeças. Era estranho, uma vez que ela tinha outra experiência para comparar. Agora ela prestava mais atenção em como ele fazia as coisas com ela, nela. Ele tinha a chance de ser descuidado ou brusco, mas ele nunca era.
Estava sorrindo quando desmoronaram no colchão. Por alguma razão, isso o fascinou imensamente. Ele contornou os lábios dela com a ponta dos dedos, que por acaso tinha o cheiro adocicado da lubrificação dela, mas isso nem de longe a incomodou.
— Eu sou louco pelo seu sorriso. — ele murmurou, seus olhos transbordando. — Você devia fazer isso mais vezes. O tempo todo.
E ela pensou: eu não o mereço. Lá no fundo, enterrado por umas sete camadas de orgulho sonserino e Black, ela sempre soubera que Wood, com seu sorriso puro e sua disponibilidade infinita, era digno demais pra ela. Era por isso que, vez ou outra ou sempre, ele ia acabar gritando em um campo, com os olhos vermelhos, rachados de mágoa, que ela não fazia o suficiente.
— Posso te contar um segredo? — ele perguntou, ainda sorrindo feito bobo, a mão agora parada embaixo do seu queixo, os dedos acariciando de leve o seu pescoço.
— Se você acha que é uma boa ideia ficar dividindo seus segredos com uma sonserina…
Ele achou graça, mas depois ficou sério de novo. Ela não sabia se queria saber.
— Ontem, quando eu ganhei o campeonato, quando eu segurei aquela taça, foi o dia mais feliz da minha vida. Eu não estou dizendo que não terei outros mais felizes — acrescentou, quando ela lhe deu o olhar exato de “não é pra tanto” — Só estou dizendo que, até o momento, esse ponto da minha vida foi o mais feliz de todos. Então eu segurei a taça, e eu olhei para os lados. Senti falta de alguma coisa, mas demorei a entender o que era.
O coração dela se apertou. Ah, não.
— Foi quando eu percebi que era você que eu estava procurando. O dia mais feliz da minha vida, e era com você que eu queria dividir aquele momento.
Mas que catástrofe, ela pensou sombriamente. Como deixara isso acontecer?
— É claro que não te achei. Você nem o assistiu, né? Digo, eu sei que você odeia quadribol e tudo, mas…
— Eu assisti — corrigiu com pressa, porque era algo que ela podia fazer — Só não estava na arquibancada.
— Ah! — os olhos dele se acenderam, empolgados — O que você achou?
— Que você roubou a cena completamente e a Sonserina nunca teve chance.
Ele estreitou os olhos, desconfiado. — Não seja sarcástica, quero saber sua opinião sincera.
— Estou sendo sincera, Oliver.
Outro sorrisão. Outro beijo no canto de sua boca, na sua jugular, atrás da sua orelha. Ele a envolveu com seu braço, juntando seus corpos, e Bervely se deixou deslizar para perto, encaixando o rosto da curva do pescoço dele, onde estava concentrado o cheiro mais maravilhoso. Essência de Oliver. Ele escorregava as mãos pelas suas costas, por baixo da blusa que ela não tinha tirado, acompanhando a linha da sua coluna.
— Eu tenho algo para te dizer. Mas não quero que ache que precisa dizer de volta.
O estômago dela se contorceu. Aparentemente era algo importante, que precisava ser dito olhando nos olhos, porque ele se afastou para terem contato visual. Ela deixou suas pálpebras caírem, se recusando a encará-lo.
— Por favor, não. — E depois, quando ele ficou em silencio. — Você vai arruinar o momento.
Ela sentiu o dedo dele deslizar pela lateral do seu rosto.
— Olha pra mim, Rose.
E ela olhou. Ele disse com a boca o que seus olhos já vinham dizendo há um bom tempo, o que ela no fundo já sabia.
— Eu estou apaixonado por você.
Ela fitou o rosto dele, repleto de desafio e impetuosidade grifinória estúpida, certamente se achando muito heroico.
— Mas que droga, Oliver.
— É. — aquiesceu com um suspiro. — Achei que deveria saber.
Ela fechou os olhos de novo, sentindo como se um grande bloco tectônico tivesse acabado de deslizar e se encaixar em outro, formando uma nova configuração do mundo. De repente, ele tinha definido como aquilo ia terminar. E, céus, ela devia ser indiferente, mas aquela definição ardia de todas as formas.
— Bell. — ela disse depois de um tempo, lembrando-se. Oliver franziu as sobrancelhas, interrogativo. — O que ela acha disso?
— Porque ela tem que achar algo. Ah, espera. Você acha que eu e ela estamos juntos?
Ele começou a rir. Bervely deu de ombros, não gostando de ser alvo da piada, de forma que deslizou para longe dele a mão que tinha pousado em sua cintura, mas Oliver a segurou no meio do caminho.
— Não tenho nada com Katie! Só uma antiga amizade, desde antes de Hogwarts, ela era minha vizinha quando eu morava na Escócia. Jesus, eu a vi nascer, Rose! Você sabe que ela é três anos mais nova, né?
— Mas ela tem ciúmes de você! Eu tenho certeza que ela quer ter algo, acredite em mim, eu conheço aquele olhar faminto, ela quer seu corpo nu numa bandeja como prato principal, e eu tenho certeza que é a minha cabeça que ela quer como entrada!
— Pelo visto ela não é a única com ciúmes por aqui… — ele insinuou, risonho.
— Como assim “aqui”? Ela já esteve aqui? O que ela veio fazer aqui no seu quarto?
Ele gargalhou sonoramente, apertando Bervely e carimbando um beijo em sua boca crispada.
— Você é adorável.
— Eu não sou “adorável”, Wood. Eu sou perigosa, eu sou uma faca afiada pronta para entrar num golpe fundo e voltar trazendo um monte de tripas!
Ele riu ainda mais e demorou a parar, mesmo com ela lhe dando sucessivos beliscões na barriga.
— Ouch, para com isso, faz cócegas! Tá tentando me deixar excitado de novo?
Ele segurou suas duas mãos pelos pulsos e Bervely tentou se libertar, resistindo. A pequena luta de forças fez com que seus corpos roçassem um no outro. Isso e os apertões foram lhe deixando com vontade, mas antes que pudesse enredá-lo no terceiro round o capitão a imobilizou, uma questão presente em seus olhos escuros.
— O que é que Holmes acha disso?
Bervely demorou a entender o que Tara tinha a ver com qualquer coisa. Depois ela se lembrou que não fora só ela a flagrar Oliver e Katie juntos naquele dia, o contrário também acontecera. E elas estavam em posição bem mais comprometedora, precisava admitir.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Holmes não tem que achar nada disso.
— Vocês não estão juntas? — ele sondou, apertando a pálpebras, tentando extrair qualquer coisa de Bervely que não fossem evasivas.
— É complicado. — Ela sentiu que ele estava lhe soltando e se afastando, e achou por bem acrescentar: — Nós não estamos namorando nem nada assim.
— O que vocês estão, então? Ela age toda possessiva em torno de você, ela sempre está por perto ou aparece do nada! Quer dizer, o que ela quer? O que vocês são? Como exatamente…?
— Como eu disse, é complicado. — repetiu com desanimo. Ele estava inquieto, ainda apoiado em cima dela, os braços sustentando o peso do corpo para não esmagá-la, os olhos pensativos.
— Você é… Você sente atração por homens e mulheres?
Ela deliberou por um momento, mordendo a parte interna da boca.
— Eu sinto atração por você e pela Tara. E isso é tão longe quanto eu posso ir em termos de definição, eu acho.
Ele assentiu, depois de um tempo em silencio, fitando-a.
— Bem que eu queria que você não sentisse. — admitiu um pouco incomodado, em seguida afundando o rosto na curva do pescoço dela, deixando o corpo pesar em cima de Bervely. Ela afagou com as unhas o cabelo em sua nuca, pensando no tanto de coisas que ele podia lamentar ao invés daquilo.
— BD —
— Então vocês dois se acertaram — Tara concluiu, bocejando. — Ótimo. Hey, pra onde você vai essa hora?
— Ronda. — Bervely foi para a frente do espelho ajeitar o vestido.
— E desde quando é preciso colocar perfume pra a ronda? Ah, Merlin desavergonhado, você vai cabular ronda para ter um encontro, não vai? Bons tempos em que eu podia fazer isso! Agora preciso ficar me esgueirando por aí feito uma criminosa, nos cantos escuros para ver se a chata da monitora-chefe não me pega.
Bervely girou os olhos, colocou as vestes negras da escola por cima da roupa e alinhou a gola do vestido. Jinx já estava em seus calcanhares, como sempre pronto para ser seu fiel escudeiro castelo afora, aniquilando todos os ratos e aranhas que achava pelo caminho. Bervely normalmente virava o rosto para não ver o assassinato das últimas, torcendo intimamente para que a Sra. Calliway fosse mais esperta do que aquelas pobres vítimas.
— Por que você não o traz para cá? Te garanto, os cantos escuros do castelo não são nem de longe tão confortáveis.
— Por que você acha, Tara, que eu não o trago pra cá? — insinuou com um sarcasmo musical, para ver se ela se tocava. — Por que você acha que nós não viemos pra cá depois das balizas ontem?
— O quê, por causa de mim? — ela arregalou muito seus olhos maquiados, injustiçada perante os homens com uma acusação tão absurda — Eu não ia incomodar vocês! Eu ia ficar quietinha! Digo, você ia me deixar assistir, né? Porque agora eu quero assistir, você sabe, fora dos meus sonhos eróticos de toda terça feira.
— Pervertida.
Bervely decidiu que estava pronta. Com uma última olhada no espelho, ela pegou sua varinha e colocou no bolso das vestes. Alguém bateu na porta no exato momento.
— Oh, ele ainda bate. — a ruiva zombou, divertida. — Que amorzinho.
— Veja e aprenda. — aconselhou, indo abrir a porta. O visitante, em vestes informais e ascendendo a sabonete e frescor de banho recém tomado, lhe roubou um beijou e depois outro, capturando sua cintura. — Tara está aqui. — ela disse, num intervalo do ataque. Ele fez uma careta implicante.
— É claro que ela está. — e enfiando a cabeça para dentro do cômodo, todo formal. — Boa noite, Holmes.
— Boa noite, Capitão Delícia. — ela respondeu com uma piscadela.
Oliver corou. Bervely dedicou seu olhar mortal para a ruiva, que piscou pra ela também, cheia de candura.
— Não ligue pra ela, a tinta ruiva corroeu seu cérebro, pobrezinha.
— COMO VOCÊ OUSA—
Bervely fechou a porta, abafando o grito, e os dois sorriram. Ela ficou satisfeita em ver que Oliver estava encarando razoavelmente aquilo tudo, apesar do leve vinco entre suas sobrancelhas que prenunciavam uma nota de nervosismo.
Ou talvez fosse só porque eles tinham um encontro. Oficialmente.
— Senhorita? — ele lhe ofereceu o braço, como da primeira vez. Quando ele era Victor e ela Rose e os dois usavam máscaras pretas e não tinham nenhuma ideia de onde estavam se metendo.
Ela ainda achava que eles não sabiam, mas aceitou seu braço mesmo assim.
— BD —
Um mês mais tarde.
6 de Junho de 1994
Alguém estava tentando derrubar a porta. Essa constatação atravessou a sólida parede da inconsciência de Bervely, penetrando em sua mente adormecida com a exigência das coisas inadiáveis. Diabos, que barulho. Sua cabeça doía. Quantos hipogrifos tinham lhe atropelado na noite passada?
Abriu os olhos, piscando, confusa, sem saber direito que horas eram. Ela se moveu para tentar alcançar o relógio, e seu corpo nu fez contato com outro, quente e igualmente desnudo. E então outro. Ao mesmo tempo em que suas costas estavam apoiadas contra um sólido peito e um abdômen com seis gominhos, ela tinha o braço passado sobre uma cintura fina, e seus seios roçavam numa pele muito macia. Cabelo ruivo e aromatizado de cereja fez cócegas em seu nariz. Atrás dela, a voz masculina e sonolenta murmurou alguma coisa.
— Oh, merda.
As batidas na porta continuavam, cada vez mais desesperadas, mas a sucessão de lembranças fez a dança da vergonha na cabeça de Bervely assim que ela passou os olhos pelo quarto, tentando reconstruir o que exatamente acontecera após os testes dos N.I.E.M.S no dia anterior. Haviam garrafas de Delírio Fumegante e Cerveja Amanteigada pelo chão, um monte de cartas de Strip Snap, um monte de peças de roupas, só uma parte sua. O poste e o palquinho que Tara tinha transfigurado ainda estavam ali, firmes e fortes. Todos os CDs que Oliver tinha enfeitiçado para “educá-las no rock trouxa como se devia” também estavam por ali espalhados, suas faces brilhantes refletindo a água do lago e fazendo um efeito dramático nas paredes do quarto. Se lembrou que não era cedo, mas tarde: foram dormir algum momento depois que o dia já tinha amanhecido.
As batidas insistentes prosseguiram. Às vezes era um tormento ser monitora-chefe.
— Estou indo! — praguejou, procurando alguma coisa com que cobrir seu corpo. Olhou de relance para a cama, para a cena que merecia ir para um quadro (que não poderia ser pendurado em nenhuma sala respeitável); Tara Romansek e Oliver Wood adormecidos, nus em pelo, lado a lado, separados apenas pela distância que o corpo de Bervely tinha ocupado. Enquanto os admirava, Tara rolou de costas no colchão, ficando de barriga para cima, os seios expostos, as aureolas rosadas muito convidativas. A encapetada era sexy mesmo dormindo depois de uma noitada.
Bervely quis voltar para cama, num pensamento ainda sonolento. Eles eram quentes, macios e cheirosos e ela queria voltar. Mas quem quer que estivesse violentando sua porta não concordava com esse curso de ação.
— Espero que não seja aquele insuportável do Weasley — falou em voz alta para ninguém em especial. Esperava apenas que pudesse se fazer ouvir através da madeira, se fosse ele batendo para informar que Sirius invadira a escola mais uma vez atrás de grifinórios, aquilo já estava perdendo a graça. Abriu só uma fresta, garantindo que o conteúdo do seu quarto não ficasse visível.
Foi quando ela olhou para o corredor e seu coração caiu.
O rosto de Johanne estava pálido, a própria imagem do desespero, tremia como se tivesse cruzado com a morte em pessoa. Os joelhos de Bervely fraquejaram, e ela sentiu um gelo pungente em suas entranhas. O que quer que tinha feito a irmã atravessar a escola inteira até das masmorras não podia ser bom, e conhecendo sua sorte...
— O que foi, passarinho? — perguntou com a voz fraca, se apoiando no umbral da porta, uma grande parte dela resistente em ouvir a resposta.
— Bevy, você tem que vir. É Snuffles… alguma coisa muito ruim está prestes a acontecer.
(Continua…)
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