Indigna Rosa Negra

64 O Maior Medo da Rosa


Notas iniciais
Obrigada pelos comentários. Pelas leitoras lindas que eu tenho. Gabi Germano, obrigada pela recomendação! Forninhos bem seguros? Alons-y, boa leitura!


Fears are there to let you know
that something is worth it.

(Medos estão lá para que você saiba
que alguma coisa vale à pena)


(C. Joybell)

— Apenas me diga o que aconteceu, com calma. E Anne, pare de chorar, você está me deixando nervosa!

Elas estavam no corredor das masmorras, aquele secundário que terminava na porta secreta para o seu dormitório. Bervely só tinha ido dentro do quarto vestir uma roupa descente, dando graças porque Anne não podia ver o conteúdo da sua cama naquele momento, então ela fechou a porta atrás de si, deixando Oliver e Tara ainda adormecidos. Puxou a irmã para um sulco na parede que fazia as vezes de banco, tentando acalmá-la.

— E-eu fui visitar Remus, para ver como ele estava. — soluçou a garota, seu fôlego faltando, o rosto muito pálido — Porque hoje é o primeiro dia da lua cheia, você sabe. Eu queria ver se ele precisava de alguma coisa. Então ele me mostrou um mapa… Um mapa super legal, mostra todos os lugares de Hogwarts e todo mundo dentro da escola. Foi então que ele viu… — ela respirou fundo, tremendo — Ele viu Snuffles no mapa, perto da orla da floresta. E então ele ficou muito, muito nervoso e disse que precisava checar… Me fez prometer que ia ficar esperando na sala e não ia contar para ninguém!

— Certo. — Bervely tomou um fôlego, se atrevendo a se acalmar um pouco — Isso é ruim, mas não é terrível. Sirius vai se esconder quando perceber que Lupin está por perto, e ele vai voltar, achando que o mapa estava errado. Não tem porque entrar em pânico.

— Você não entendeu — Anne reclamou, impaciente — Hoje é o primeiro dia de lua cheia, mas Remus não tomou a Wolfsbane! Antes de ver Snuffles no mapa ele estava justamente comentando que você devia levar a poção para ele antes do jantar e que não tinha aparecido, ele estava querendo ir até o professor Snape saber o que tinha acontecido!

— Ah, merda. Merda, merda, merda. Que horas são, Anne?

— Como eu vou saber? Tarde! Tem um tempo que passou o jantar!

Bervely fez um feitiço com a varinha que lhe mostrou as horas, e teve um calafrio ao perceber que já eram nove e vinte e cinco. O sol tinha se posto há pouco, e a lua ainda não estaria alta o bastante para clamar o lobo dentro de Lupin, com alguma sorte.

— Talvez ainda dê tempo. — Ela se levantou com altivez, decidia a não entrar em desespero antes da hora. — Vou pegar uma dose de Wolfsbane no laboratório e levar para ele, Lupin é sensato, ele vai voltar assim que perceber que a lua está subindo, e talvez eu o encontre no caminho.

Elas rapidamente decidiram que era melhor Bervely ir na frente, pois Anne não conseguiria acompanhar o seu passo e acabaria lhe atrasando. Derrapando nas esquinas de pedra escorregadia, em cinco minutos ela estava na sala de poções, e em meio segundo, dentro do laboratório. Não precisou bater; a porta estava destrancada. O caldeirão de Wolfsbane, que ela tinha deixado pronta há quatro dias, estava em cima da bancada, e uma concha suja jazia sobre o mármore, como se o conteúdo tivesse sido servido às pressas. Ela soltou o ar, aliviada. Severus obviamente percebera que Wolfsbane ainda não tinha sido entregue à Lupin naquele dia e tinha ido lhe entregar pessoalmente…

Ela não podia evitar — percebeu enquanto corria, dessa vez para o terceiro andar, onde ficava a sala de Lupin — aquele sentimento de que era pessoalmente responsável pelo que quer que acontecesse com o lobisomem, uma vez que falhara em lhe entregar a poção. Era estúpido, não era culpa sua, mas ainda assim… Era dessa forma que os grifinórios se sentiam, todos metidos à onipotentes por ai, tentando salvar o mundo?

Bervely chegou até a sala do lobisomem, derrapando e ofegante. A porta estava escancarada e como previu, Snape se encontrava lá dentro. O copo de Wolfsbane estava lá também, fumegando sobre a mesa, e o professor se encontrava curvado, olhando alguma coisa. O mapa, ela percebeu. O cabelo oleoso lhe caia sobre o rosto, escondendo sua expressão.

— Professor! — ela tossiu, uma mão apertando o diafragma que queimava — O professor Lupin está fora do castelo. Se levarmos a poção rápido o suficiente pode ser que dê tempo de fazer efeito!

Ela não conseguiu afastar a imagem de Lupin se transformando num lobo sanguinário e fora de controle no meio dos terrenos da escola. A coisa sobre Wolfsbane era que, se todas as doses não fossem corretamente bebidas antes da transformação, nenhuma delas fazia efeito. E Bervely se lembrava vividamente do que a loba adolescente de Snowfall fizera com aquela estalagem… Nem queria pensar no que Lupin faria numa escola cheia de crianças.

— Professor! — exclamou com urgência, percebendo que Snape não se movera nem parecia com pressa — Já anoiteceu há uns quarenta minutos, se não levarmos a poção imediatamente…

Mas Snape estava num outro plano. Ela percebeu isso quando ele ergueu a cabeça, triunfo estampado em seus olhos negros de besouro, o mapa apertado em sua mão, a varinha escorregando para a outra.

— Black está no castelo. — ele disse, lenta e venenosamente. — Black. Black e o lobisomem. Eles estão mancomunados esse tempo todo. Eu avisei a Dumbledore…

Ela sentiu um calafrio gelado na espinha. Aquele não era o mestre de poções falando, não era o seu professor, nem o seu padrinho. Era um homem que vislumbrava uma vingança e estava cego por ela, um homem que a tinha em seu alcance pela primeira vez em anos.

— Professor, não. Tem muita coisa que você não sabe…

— Fique aqui, Bervely. Eu vou achar esses desgraçados. — Snape largou o mapa na mesa, uma bola amassada, uma promessa do que desejava fazer com a garganta de Black, quando o encontrasse.

Bervely deu um passo duro para o seu caminho, ficando entre ele e a porta.

— O senhor precisa me ouvir. Black está aqui, e Remus está com ele agora, mas eles não estão agindo juntos, e o mais importante… se o senhor me ouvir um minuto…

Snape focou seus olhos nela. Gelados, perigosos. Ela de repente tinha se tornado a coisa entre ele e sua vingança, e não era um bom lugar para estar.

— Por favor, Srta. Black, me diga que você não está envolvida nisso.

Bervely engoliu em seco, a ameaça na voz dele como uma lamina a raspar sobre a sua pele. Nunca tinha sentido medo de Snape, não de verdade, como sentia agora. Medo pelo que ele seria capaz de fazer se ela o deixasse sair daquela sala.

— Black é inocente. — declarou, usando toda a coragem que ela nem sabia de onde vinha. Desafiar Severus Snape era insanidade, mas deixá-lo ir atrás de Sirius sem saber? Isso estava fora de cogitação. Alguma coisa terrível ia acontecer se deixasse, sabia disso sem precisar da intuição refinada de Johanne para alertá-la.

Ele estreitou seus olhos para ela como se fossem facas. Houve uma ferroada no fundo de sua cabeça, outra ainda mais dolorosa em seu braço. Seus olhos se encheram de lágrimas de dor perante a tentativa de invasão.

— PARE com isso! — gritou, irritada. — Pare de tentar entrar em minha cabeça!

— Você ajudou Black a entrar nesse castelo, Bervely? — ele perguntou, sua voz deslizando como uma serpente venenosa, lhe cercando por todos os lados.

— Não. — rosnou com sinceridade amarga e uma ponta de desafio, incentivado pela raiva por ter sua mente açoitada. — Mas eu teria, se ele me pedisse.

O olhar de Snape ficou mais estreito, uma veia pulsou em sua testa, a sua mão da varinha tremeu perigosamente. Corra ou lute, ela pensou. Mas isso era sobre Sirius. Só havia uma opção quando era sobre Sirius.

— Por que — a voz dele tremeu, num misto de raiva e consternação — Por que infernos você ajudaria um assassino, um criminoso, um pária, fugitivo, traidor desprezível, a entrar neste castelo?

— Pela mesma razão pela qual o ajudei a fugir da prisão. — ela se ouviu dizendo. Os olhos de Snape pareciam prestes a saltar das órbitas diante da afirmação. A magia raivosa dele a atingia como as ondas de uma fornalha, ameaçando fritar seus nervos, mas ela ficou firme. — Pela mesma razão que eu faria o que quer que ele me pedisse, e o que for preciso para deixá-lo seguro.

— ELE ESTÁ ENGANADO VOCÊ, SUA MENINA TOLA!

— Não, ele não está.

— ELE COLOCOU UM FEITIÇO EM VOCÊ! O MESMO QUE ESTÁ BLOQUEANDO A LEITURA DA SUA MENTE!

— Black nunca levantaria a varinha contra mim. — ela disse com uma tranquilidade e uma certeza estranha. Por alguma razão, quanto mais fora do controle ele estava, mais confiante ela se sentia.

— E O QUE DIABOS TE FAZ PENSAR ISSO, SUA BURRINHA? BLACK É UM MONSTRO! ELE PODIA MATAR AOS DEZESSEIS ANOS, O QUE TE FAZ PENSAR QUE NÃO PODE MANIPULAR UMA CRIANÇA AGORA?

— Ele é meu pai.

O mundo parou por um momento. Ela sentiu, como se houvesse uma desaceleração mágica agindo na sala, deixando as coisas em câmera lenta. O rosto de Snape estava paralisado numa expressão retorcida de quem tinha ouvido algo repulsivo, impossível. O confronto com um bicho papão que ele nunca imaginara encontrar pela frente.

— Black é meu pai. — ela repetiu, calma, tendo um estranho prazer em ouvir como aquilo soava. Era a primeira vez que falava em voz alta.

O mestre de poções transformou por completo o seu olhar sobre ela; ele era rápido, as peças em sua cabeça se encaixavam com a astúcia amolada pelos anos de serviço duplo, e ele soube que era verdade, que fazia sentido, um perturbador sentido. Balançou a cabeça, enojado.

— Eu devia ter percebido. — disse, desprezo pingando de sua voz encorpada — Eu devia ter... Salazar me perdoe, como eu fui estúpido, você é exatamente como ele.

Se por um lado ele parecia mais contido, agora que a atitude dela fazia sentido, por outro, Bervely sabia que aquela era uma das coisas mais horríveis que ele poderia ter lhe dito, de acordo com os parâmetros do próprio Snape.

— Eu lido com você mais tarde, Srta. Black. Espere por mim.

Ele a empurrou do caminho com um aceno de sua varinha, de forma brusca o bastante para ela cambalear e esbarrar no copo de poção Wolfsbane, que se derramou sobre a mesa, pintando uma trilha fumacenta e brilhante sobre o pinho. Tentando conter o desastre, Bervely percebeu no último segundo que ele fechava a porta atrás de si. O feitiço de tranca estalou, ruidoso e perfeitamente audível até ela.

— SNAPE! — Gritou, saltando na porta selada, batendo seus punhos contra a madeira — SNAPE, NÃO OUSE ME TRANCAR AQUI!

Ele não ouviu nenhum dos seus palavrões, é claro. Já estava longe, na direção de sua sonhada e cega vingança, prestes a cometer o maior erro de todos, o erro que ia tirar Sirius dela mais uma vez, de uma vez por todas, apenas dez meses após recuperá-lo das mãos podres dos monstros de Azkaban.

Bervely escorreu pela porta, finalmente se permitindo uma onda de pânico. Tudo arruinado, porque ela tinha deixado de entregar a maldita poção para Remus Lupin, como é que ela SEMPRE conseguia ferrar com tudo?

— BD —

— Bevy? É você aí dentro?

Bervely parou de jogar todos os feitiços que conhecia contra a porta. Ela já sabia que era inútil, afinal, Lupin teria enfeitiçado a sala inteira para ser impenetrável, era ali que ele se transformava em lobisomem uma vez por mês. Não era ela, uma adolescente incompetente em feitiços, que iria conseguir arrombá-la.

— Sim — falou através da fresta quase inexistente entre a parede e a porta, ao reconhecer a voz de Johanne do outro lado. — Estou trancada aqui dentro.

— Por acidente?

— Por um babaca.

Silêncio. Bervely estava mergulhando num estado modorrento de desamparo, porque ela sabia que o que quer que tivesse de acontecer com Lupin, Sirius e Snape já devia estar acontecendo àquela altura.

— Você não conseguiu, né? — a menina perguntou, quase baixo demais para Bervely escutar através da madeira.

— Não. Snape me impediu. Ele foi... — ela estremeceu, lembrando-se do olhar no rosto dele. Bervely vira aquele olhar no rosto de alguém uma vez. No de Bellatrix... antes que ela fosse assassinar Olivia Loren. Fora a última vez que a vira. — Ele foi atrás de Sirius.

— Mas ele odeia Sirius!

— Sim.

— Bevy, ele vai entregar Sirius para os dementadores!

Ela sentiu um frio em seu coração, uma dor diferente e oca, eco da impotência profunda na qual se encontrava. Era um grande desperdício, na verdade. A única pessoa que faria tudo por Black era aquela que estava trancada numa estúpida sala de contenção de lobisomens. O destino era infinito em sua ironia quando se tratava dos rumos da sua vida.

— Onde eles estão agora? Você consegue ver o mapa?

Ela se arrastou até onde Snape jogara o mapa, mas ao abri-lo no chão, não havia nada nele, era só um pergaminho velho e vazio.

— Deve ter uma senha, ou qualquer coisa para ativar. Não mostra nada. — explicou, desanimada, encostando as costas na parede de novo, largando o papel de lado.

Elas ficaram em silêncio por um tempo, uma de um lado da porta trancada, outra do outro. Bervely só conseguia pensar no sorriso de Sirius quando a Grifinória ganhara a final de quadribol, e depois no rosto desfigurado de Snape quando ele identificou seu desafeto no mapa. Ela teve raiva de si mesma, devia ter dado um jeito de impedir aquele desfecho... Talvez se tivesse contato para Snape mais cedo a verdade...

Não, pensou, amarga. O que vira no rosto do padrinho não era o olhar de um homem que podia ser convencido. Ele só iria odiá-la mais cedo, ela se tornaria a cria do seu inimigo de infância; tudo que se tornaram naquele meio tempo perderia rapidamente o sentido para ele.

— Talvez eu pudesse ir atrás deles. — Anne sugeriu, esperançosa. — Explicar tudo, ou, sei lá. Chamar algum professor para ir comigo?

— Hum, deixa eu ver, você andando às cegas por onde um lobisomem selvagem provavelmente está solto, e Snape está caçando Sirius como se sua vida dependesse disso? Que bem isso faria, Anne? E nenhum professor seria convencido rápido o suficiente.

— Tem razão, foi uma ideia estúpida. Droga, eu sou uma porcaria de uma inútil!

Uma batida frustrada na madeira. Bervely tentaria consolá-la, se ela mesma não estivesse numa queda livre para o poço da auto-piedade, permeada de pensamentos pseudo-esperançosos, afinal, estava tudo tão silencioso... Talvez Remus tivesse se embrenhado na floresta ao perceber que ia se transformar sem Wolfsbane, e estivesse fora de alcance. Talvez Sirius desse meia volta e fugisse de Snape, evitando aquele confronto e seu consequente encontro com os dementadores que Snape com certeza chamaria... Mas quais eram as chances? Era de Black que ela estava falando. Ele preferiria perder sua alma ao recuar numa briga, especialmente se fosse com um desafeto de infância...

Eu vou achar um professor para destrancar você! — Anne exclamou de repente. Pelo movimento do lado de fora, Bervely adivinhou que ela se levantava — Isso é ridículo. Eles vão acreditar em sua palavra, você é monitora chefe!

Bervely riu pelo nariz, incrédula com a inocência de Anne. Sabia que eles diriam a mesma coisa que Snape: estava sendo manipulada, controlada, enganada por Black. Talvez não a mantivessem trancada numa sala, mas ela certamente não seria deixada livre para ir atrás do fugitivo.

— Não vai adiantar, passarinho. Além do mais se você for, como vou saber que não se encontrou com Lupin no caminho?

Ela notou umas fungadas vindas do outro lado, e percebeu que Anne deveria estar chorando novamente.

— Bervely... Tem uma coisa que eu não te contei.

De novo, aquela sensação fria lhe roendo por dentro, de mau presságio, prenuncio de uma catástrofe. Nada está tão ruim que não possa piorar.

— O quê? — perguntou, encostando a nuca na porta, fitando o teto alto e em arco da sala de aula. Havia uma coisa pendurada ali, os ossos de uma coisa na verdade, que podia ser um dragão, mas lhe lembrava um dinossauro. A ossada permanecia indiferente ao drama se desenrolando abaixo dela, morta há tempo demais para se importar.

— Lembra... lembra quando você sumiu no natal e eu fiquei desesperada te procurando? E eu fiquei meio em pânico, perguntando para todo mundo se sabia de você?

— Anham — suspirou, sem saber porque ela também estava trazendo aquilo à tona. Não é como se fosse salvar a alma de Sirius nem nada, só aferroava seu peito com as lembranças de que quando precisou de ajuda e ele estava lá, algo em que ela ia falhar miseravelmente em retribuir essa noite.

— Eu não estava exagerando. Eu vi... bem, eu vi onde você estava. E eu senti que você estava com muito medo. E tive um pressentimento horrível... foi por isso que chamei Sirius, e contei pra ele. Eu nem achava que ele ia acreditar, mas eu precisava dizer a alguém, porque era tão ruim e você estava lá sozinha. E depois, quando ele foi atrás de você, eu ainda pude ver outras coisas... não tudo, mas... Eu vi o homem vermelho te machucando. Eu ouvi você gritar, e o tanto de dor que você sentiu.

Na verdade, isso explicava um bocado, pensou Bervely, atônita. Explicava como Anne nunca lhe enchera de perguntas sobre aquela noite. E explicava como tinha sabido o momento exato de encontrá-los no túnel do Salgueiro Lutador quando eles voltavam.

— Isso é parte de seu dom? — perguntou, numa curiosidade branda, encarando o grande esqueleto no teto, sua coleção de presas arreganhadas na mandíbula enorme. A imagem de presas afiadas de um lobisomem vivo e à solta no castelo atormentavam seu pensamento sem parar, e se concentrar na voz da irmã a distraía.

— Não é um dom. Dom devia ser algo bom, e não é bom ver quando as pessoas que eu amo estão sofrendo ou se machucando. Ou m-morrendo. — completou, e Bervely sabia que ela falava do avô. “Johanne viu o avô falecer, mesmo ele estando em outro país, a milhas e milhas de distância”, Lupin lhe dissera no hospital, ao que parecia séculos atrás.

— Como funciona? Como você faz pra ver essas coisas?

— Eu não faço de propósito, nem consigo controlar. Tem a ver com eu estar tendo esses pressentimentos ruins sobre alguém, e então eu preciso estar com algo dessa pessoa nas mãos, pelo menos foi assim que aconteceu das outras vezes.

Bervely considerou aquilo, então ela desenrolou a coleira do seu braço e a passou por debaixo da porta. Suas mãos estavam geladas e tremiam.

— Isso deve servir, foi dele antes de ser meu.

Houve um minuto de silêncio reticente. Anne pegou a coleira no chão e moveu entre os seus dedos.

— Não sei se eu consigo ver Sirius. — ela justificou, insegura. — E como eu disse, eu não controlo...

Tente. — Bervely rosnou através da porta. Se havia uma possibilidade — qualquer uma — de saber o que estava acontecendo, ela ia agarrá-la com todas as suas unhas e seus dentes. Esperou, em expectativa, voltando a ouvir seu coração dar um sinal de vida, batendo contra seu peito com força. Ouviu algo raspar na madeira, depois um barulho metálico que devia ser Johanne colocando no chão a orbe que costumava usar no pescoço. O silêncio da espera foi agonizante para Bervely, batendo suas unhas no chão, apertando seus dentes, tomada pela impotência de sua prisão.

— Ele está bem. — Anne disse por fim. — Eu acho.

— Como assim acha? Você tem que saber, tem que ter certeza!

— Mas eu não consigo sentir nada! — Anne guinchou de volta, sua voz quebrando em choro de novo. Bervely enterrou seu rosto nas mãos, puxando os cabelos, com vontade de chorar também, mas agitada demais para isso.

Foi quando o uivo mais medonho cortou a noite, erguendo cada fio de cabelo de seu corpo, paralisando seu coração, despertando algo primitivo e defensivo dentro dela, um impulso enlouquecido e urgente de fuga. Parecia vir do lado de fora, mas ao mesmo tempo, do ponto logo atrás de sua nuca, como se a criatura estivesse espreitando às suas costas, os dentes arreganhados, prontos para rasgar sua carne.

É o lobo! — Anne ofegou do outro lado da porta. — Ele se transformou, ele se transformou!

Silêncio. De alguma forma, ela esperava pelo grito. Se ele estava tão próximo, haveria uma vítima. Sirius, ou Snape... O segundo lhe evocando tanta raiva que ela queria que o lobisomem não o encontrasse para que ela mesma pudesse cravar seus dentes nele da próxima vez que se vissem.

— Ah, não! — Anne choramingou, depois de o que pareceu uns cinco minutos de paralisia horrorizada de um lado e outro da porta. — Os dementadores! Estão indo atrás dele! Todos os dementadores! Vão pegar ele, Bevy, vão pegar Sirius!

Bervely se levantou, açoitada por uma onda repentina de adrenalina. Bateu seus punhos já doloridos contra a porta, mais uma manifestação da frustração do que tentativa de se libertar, a essa altura.

— Vá buscar ajuda, Anne! Não podem chegar nele!

— Eu vou chamar alguém! — ela guinchou, seus sapatos rangendo no piso de pedra ao seu levantar — Vou chamar alguém pra ajudar, alguém tem que ajudar!

— NÃO SAIA DA ESCOLA!

Os passos dela foram ficando mais e mais baixos, até que Bervely soube que ela estava fora de alcance. Percebeu que ainda tentava espancar a porta com seus próprios punhos, o que era estúpido.

Mas o que não era? Seu pai ia perder a alma e ali estava ela, impossibilitada de ajudar, praticamente assistindo de camarote seus últimos momentos de vida.

— BD —

No final, quem escutou seu chamado foi a última criatura na qual pusera suas esperanças. Bervely se virou, cega de agonia, um vislumbre prateado capturando seu olhar.

Jinx.

Ele saltou na mesa, o pelo todo eriçado e a cauda dura para cima, enviando até ela os mesmos sentimentos inquietos, completamente ciente do que estava acontecendo.

— VOCÊ TEM QUE SALVAR ELE! — ela implorou para o animal, que miou em resposta. — VOCÊ PROTEGEU CHARLOTTE! VOCÊ É MAGICO! NÃO É POSSÍVEL QUE NÃO HÁ NADA QUE POSSA...

Jinx cabeceou sua mão. Ela sentiu uma onda de calor passar seu corpo, formigando a superfície de sua pele como mágica potencial. De repente algo aconteceu; um ardor pungente em sua cabeça, a sensação de que o seu cérebro aparatava, espremido pelo gargalo estreito de uma garrafa. Então, ela abriu o os olhos... e ela era o gato.

Estava vendo através dos olhos dele. Todas as cores mudadas, bem como seu campo de visão e sua perspectiva. Não era como se pudesse comandá-lo, ele ainda estava ali e no controle, apenas compartilhando sua perspectiva com ela, mas ainda podia sentir suas quatro patas no chão, o odor pungente da poção derramada na ponta do focinho.

Ele lhe perguntou onde deveria ir. Era uma ideia em forma de pergunta, intenção ao invés de palavras. Ela tentou pensar rápido; era mais intuitivo, mais raso, ficou surpresa em saber que conseguia, e então havia essa pessoa, que a essa altura seria sua única chance. Uma aposta arriscada, na qual sequer confiava... Mas Jinx confiava, e naquele momento, era tudo que ela tinha.

Achou que ia precisar de sorte... Algo com que nunca pudera contar, na sua vida inteira.

— BD —

Albus Dumbledore ainda estava em seu escritório, tentando entender exatamente qual tipo de ameaça disparara os feitiços de proteção em torno da escola, quando o gato prateado pulou em sua mesa, derrubando acidentalmente o jarro de balinhas de estouro sobre todos os papeis que ele analisava um minuto antes.

O diretor era um bruxo sensato. Ele sabia que quando um gato pedia a sua atenção ele deveria cedê-la, mesmo (e talvez principalmente) no meio de uma crise. Estava certo — no momento em que sua mão correu pela cabeça redonda e macia do bichano, uma série de imagens pediram passagem para dentro de sua mente. Após verificar que não eram hostis, o bruxo permitiu-se vê-las.

As imagens contavam uma história impressionante de amor, de bravura e expressiva inconsequência. Ele não podia verificar sua veracidade, afinal até mesmo memórias podiam ser manipuladas — mas o sentimento atrelado a elas era forte e profundo, à ponto de transbordar da mente original até a dele, perpassando pelo animal, que era apenas o mensageiro.

Quando, pouco depois, Severus Snape bateu em sua porta trazendo consigo quatro bruxos desacordados, sendo um deles o criminoso mais procurado do mundo mágico e personagem do conto do gato prateado, o diretor já sabia exatamente com o que lidava lidando aquela noite.

— BD —

As batidas através da janela lhe chamaram atenção para o mundo fora da cabeça de Jinx.

Tão profundamente entranhada em sua mente felina, ela demorou um momento para conseguir voltar a si mesma. A náusea lhe atingiu em cheio, junto com a dor de cabeça e as ferroadas em seu braço esquerdo. Bervely persistiu através das três para ir até a janela, abri-la e encontrar Oliver flutuando no ar, sorridente, a vinte e cinco metros do chão.

— Alguém aqui precisando de um cavaleiro num cavalo de madeira aerodinâmico, que atinge oitenta e cinco quilômetros por hora em dois segundos e tem sistema de amortecimento exclusivo?

Mas ele parou com as gracinhas quando viu a expressão no rosto dela.

— Como você acabou trancada na sala de Defesa? Anne não conseguiu me explicar, ela estava meio em pânico, disse que não dava tempo, o que raios está acontecendo?

— Longa história, pouco tempo. — ofegou Bervely, trepando no parapeito. Uma parte dela sem acreditar que estava fazendo aquilo, a outra tão ansiosa para sair da sala que teria se jogado dali de cima antes e sem vassoura, se não soubesse que virar um saco de ossos lá no chão não ajudaria a salvar Sirius.

— Ok, nesse caso, sobe na garupa. — Ele estendeu a mão, uma expressão peculiar em seu rosto, como se achasse em parte graça e n’outra preocupação com a coisa toda, mas estivesse feliz de ser parte da maluquice e ser a pessoa que a tirava do apuro.

Bervely ficou de pé no parapeito, dando uma olhada rápida para baixo. Seu estômago deu uma, duas, três voltas completas, nós cegos enrolando o conteúdo da barriga. Ele estendeu a mão, sorrindo, e ela teve um flashback arrepiante do passado.

Hector indicou duas vassouras encostadas perto da janela larga da torre.

“Ah, não... você sabe que eu não voo.”

“Nem por mim?”

— AI! — Oliver gritou, quando o indicador e o polegar dela pinçaram uma porção generosa de pele do seu antebraço — Por que você me beliscou?

— Só checando se você é real mesmo.

— BD —

Seus pés tocaram chão sólido. Ela evitou por muito pouco desabar feito uma maria- mole, para isso se apoiando no ombro de Oliver; o terceiro voo de sua vida não fez nenhum bem para a sua dor de cabeça ou enjoo, que persistiam e pioravam a cada momento. Para alguém que abominava vassouras, ela estava passando mais tempo nelas do que gostaria, ultimamente.

Notou que haviam aterrissado no pátio do quarto andar, coisa que não pudera perceber do alto, já que estava com seus olhos firmemente fechados por todo o caminho. Tudo estava quieto naquela parte da escola, mas Bervely sabia que em algum lugar os ânimos estariam alterados. Ela se perguntava — e precisava desesperadamente saber — se tudo que mostrara ao prof. Dumbledore através de Jinx fora o suficiente para ele acreditar na inocência de Sirius e tomar uma providência — ou pelo menos lhe dar o benefício da dúvida.

Onde Anne está? — perguntou para Oliver, que retirava o casaco para jogar em cima dos ombros dela. Bervely nem tinha reparado que tremia, embora fosse uma noite quente de começo de verão.

— Pedi pra ela esperar no seu quarto. Ela estava muito assustada. Você vai me dizer o que está acontecendo, ou...

Bervely se virou para o corredor interno, pegando um movimento com o canto do olho. Reconheceu o cabelo enrolado e ruivo e os óculos de aro no mesmo segundo. Percy Weasley devia estar fazendo a ronda, mas ele andava apressado, como se algo melhor tivesse chamado a sua atenção, e ela bem imaginava o que poderia ter sido.

— WEASLEY!

Ele virou a cabeça, surpreso em vê-la ali, depois varrendo isso do caminho, afinal haviam coisas mais importantes acontecendo e que ele estava louco para compartilhar, mesmo que fosse com a monitora-chefe intragável da Sonserina.

— Black! Você soube?

— Do quê? — perguntou com a voz neutra. Não trema, não mostre fraqueza.

— Parece que um professor achou Black nos terrenos da escola! Alguém ouviu Filch comentar que o desgraçado foi trazido inconsciente para a escola, e o Ministro está chegando para tomar o depoimento e, bem, você sabe. Aprovar a aplicação da sentença.

Ela cerrou os punhos tão forte que as unhas se enterraram nas palmas das mãos. Atrás de si, Oliver soltou um palavrão em voz baixa.

— É mesmo? — Sua voz saiu um arremedo de normalidade, arranhada e oscilante — Onde... Onde eles o colocaram?

Percy Weasley deu de ombros. Ele estava genuinamente feliz, quase relaxado, a despeito do fato de que um homem estava prestes a ter sua alma retirada pela boca dentro daquela escola. Ela o desprezou, tanto quanto podia desprezar um ser humano, e viu tudo vermelho, vermelho do sangue de Weasley pintando as paredes do corredor de cima até embaixo. Talvez sua raiva tenha emanado pelos seus poros e atingido Oliver, porque ele pousou uma mão pacificadora em seu ombro.

Enquanto isso, a felicidade no rosto do monitor-chefe foi substituída por outra, ligeiramente intrigada. Ele estava olhando Bervely como se a visse de verdade pela primeira vez.

Black... Você não teria algum parentesco com Sirius Black, teria? Hey, porque isso nunca me ocorreu antes?

O distintivo! Bervely saíra sem ele, é claro, não estava usando o uniforme da escola. A mão de Oliver em seu ombro quase doía.

— Isso são ótimas notícias, Percy. Obrigado pela atualização. — disse o capitão num tom jovial.

— Hum... Não tem de quê! Vou dar uma volta pela escola, ver se descubro onde as coisas estão acontecendo, quem sabe se não consigo até apertar a mão do Ministro? Uma sorte que ele estivesse no castelo, veio assistir à execução do hipogrifo de Hagrid... Assim as coisas correm mais rápido, e essa história de Sirius Black é resolvida de uma vez por todas! Ah, e Black, vê se volta para o seu dormitório... Nada de ficar usando seus privilégios de monitora chefe para namoricos, eu não quero ter que denunciar você para McGonagall...

E ele saiu quicando, feliz como se fosse o próprio captor de Black, enquanto Bervely usava todo o auto-controle em seu corpo e em sua alma para não azará-lo da pior forma que sua magia pudesse fazer. Quando ele sumiu de vista, o aperto de Oliver em seu ombro se intensificou.

— Rose, eu sinto muito...

— Não. — ela rosnou. — Não.

Talvez a ferocidade em seu tom o tenha assustado, porque Oliver ficou quieto, num silencio assombrado, olhando para ela enquanto Bervely fechava os olhos e buscava a consciência do gato nas sombras de sua cabeça. Não, ela não tinha a mínima ideia do que estava fazendo. Nem sabia se podia achar Jinx uma vez que a conexão tinha sido interrompida. A única coisa que ela sabia era que sua dor de cabeça piorava, e não havia nada de normal sobre ela — era como ácido corroendo seu cérebro. Será que estava tendo um derrame?

— Vem, vamos voltar para o seu quarto. Você não parece bem. Além do mais, Anne vai gostar de saber que está inteira.

Ela se deixou guiar, apesar de a sensação de urgência massacrar o seu coração a cada passo. E se Weasley estivesse certo? E se Dumbledore não acreditasse num gato qualquer que pulasse em sua mesa, e que podia transmitir lembranças? Lembranças não eram provas, podiam ser modificadas— era algo que o próprio Sirius tinha lhe dito um dia, quando ela quisera usar as dele para provar a sua inocência.

— Bevy! — Anne pulou nela quando entrou no quarto das masmorras. A mais velha a abraçou de modo automático, registrando vagamente os olhos tomados de prata incandescente da caçula, sua inquietação e medo pungentes, as marcas das lágrimas cortando seu rosto branco e desamparado. — Ele vai ser beijado! Os dementadores estão chegando!

Ela se sentou na cama, muito, muito tonta. Achou que tinha ouvido Oliver perguntar “de onde vem esse sangue?”, mas sua cabeça estava rodando e, com uma breve queda no vazio, ela era o gato de novo. Via pelos olhos dele, ouvia e sentia através dele. Estava numa sala circular, em alguma sala de Hogwarts, não podia identificá-la. Havia uma cadeira no centro, e sentado nela, um homem inquieto. Ela conseguia ler as emoções dele pelo cheiro: medo, ansiedade, tensão. E uma que era a pior de todas, uma conformação tóxica e corrosiva.

Sirius Black cheirava como um homem que estava desistindo.

Ela saltou em seu colo. A parte felina que não lhe pertencia, mas da qual tinha consciência, sabia que não era o primeiro gato a fazer isso naquele dia. Sirius se virou para o animal, um bocado surpreso.

— Como você entrou aqui, pestinha?

A mão ossuda dele tremia quando afagou sua cabeça. Atingido pela parte que era dela, projetada para os olhos de seu pensamento, ele arregalou os olhos, abismado. Seu instinto canino a reconheceu de imediato.

Bervely?

Ela não podia falar, mas tudo bem, porque sabia que ele a compreenderia mesmo assim. A questão é que, quando você é um gato, as coisas são ou não são, não existe a opção de mascarar os sentimentos. Então ele sabia que era ela, e também sabia que ela estava com medo, culpada, assustada, horrorizada com o que estava prestes a acontecer com ele.

— Eu não sei como você fez isso — disse Sirius em voz baixa, perto da sua orelha sensível de gato, que ouvia cada nuance de sua voz rouca e tensionada — Mas é melhor você ir embora. Se eles sequer desconfiarem que esteve envolvida comigo...

Ela cravou suas unhas nas coxas dele, a mensagem bem clara. Não ia a lugar nenhum.

Deve ter algo que eu possa fazer, pensou, desesperadamente. O cérebro de gato não era bom para bolar planos, e no momento tudo em que podia se concentrar era em Sirius e nos sentimentos que transbordavam dele, direto para ela, como lava fervente.

— Não, não tem nada que você possa fazer. — ele coçou atrás de sua orelha, carinhosamente. — Você fez muito... muito mais do que eu imaginei que fosse possível. Você foi incrível, mas vamos ser sinceros... Eu não ia conseguir fugir para sempre.

Mas havia um plano, ela pensou. O que aconteceu com o plano secreto dele, que era suposto a resolver tudo? A razão pela qual ele invadiu Hogwarts duas vezes, se recusando a deixar que ela ajudasse? Soube que sua acusação fluiu até ele, pois Sirius se contraiu ligeiramente com a intensidade disso.

— O plano falhou, Bervely. Eu não podia envolver você nisso, era muito perigoso. Pettigrew...

De repente ele olhou na direção da porta da torre, distraindo-se. Havia movimentação lá fora, conversas que a audição felina podia captar e até interpretar, se quisesse. Mas monitorar as batidas dolorosamente rápidas do coração de Sirius era muito mais importante do que saber o que acontecia do lado de fora.

— Por favor, vá embora agora. — ele implorou, a boca pertinho do seu pelo, a voz tão suave quando os dedos magros que coçavam seu pescoço — Eu não quero que você esteja aqui quando a hora chegar. Por favor, Bervely, eu não quero que você assista isso.

Houve um farfalhar do lado de fora da janela da torre, que devia ser os executores chegando para fazer seu trabalho... mas Bervely nunca soube. Naquele momento a sua consciência humana atingiu seu limite de desgaste e ela apagou de uma vez só, como uma vela soprada pelo vento, deixando Sirius sozinho para encarar o seu destino.

(Continua...)

Notas finais
Aye! Todo mundo sabendo que o próximo cap é o último, certinho? Beleza. É possível que seja dividido em duas partes por causa do limite de palavras recomendado por capítulo no site, mas será postado com no máximo um dia de intervalo entre um e outro ;) Então, até próxima postagem! Ansiosos? Beijocas Indignadas!