Indigna Rosa Negra
65 O Adeus da Rosa - Parte I
Notas iniciais
Maybe a life time
Could be shorter than a rhyme
Longer than a moment
Longer than a sigh
The measure of a dream
Beyond infinity
(Talvez uma vida inteira
Possa ser mais curta que uma rima
Mais longa que um momento
Mais longa que um relance
O tamanho de um sonho
Para além do infinito
(Spell of Time — Scelerata)
O ar cheirava como há três anos atrás. Por um momento, Bervely teve certeza de que abriria os olhos para as paredes nuas do quarto número dose da Ala de Danos por Magia do Hospital St. Mungus, e que tudo aquilo que ela pensara ter vivido nesse meio tempo fora uma ilusão. Ainda era a garota sem rosto, que não sabia seu nome. Ainda era...
Por que eu quero que tudo tenha sido um sonho?
— Você está acordada? – uma voz ansiosa interrompeu o fluxo de seus pensamentos. Uma curandeira querendo lhe ministrar alguma poção, pensou. Continuou com os olhos fechados. Queria saborear o fim do sonho, mesmo que o gosto residual fosse agridoce.
Notou que não sentia seu braço esquerdo, o que não era necessariamente ruim. Será que alguém o tinha finalmente cortado fora? O pensamento flutuou no ar, embebido por uma curiosidade quase esperançosa. Percebeu que estava cansada de sentir dor. Tão cansada.
— Bevy, por favor, fala alguma coisa se tiver acordada!
A voz era aguda demais para pertencer a uma curandeira; além do mais, descobriu que era familiar. Com alguma dificuldade, Bervely abriu só uma fresta dos olhos. A luz os queimou e ela fechou novamente, apertando as pálpebras com força. O rápido vislumbre lhe confirmou que estava num hospital, mas não no quarto doze. Talvez de volta à Ala Janus Thickey para Casos Irrecuperáveis?
— Acorda, sis. Você já dormiu mais de doze horas seguidas.
Bervely fez uma nova tentativa de abrir os olhos, dessa vez lutando contra a luz até as pupilas se contraírem o quanto precisavam. Sentada ao seu lado estava a garotinha de grandes olhos prateados, embora usasse os óculos escuros para escondê-los. Remexia entre os dedos o colar longo, que terminava em uma pedra redonda leitosa, e seu cabelo caía dos dois lados do rosto tenso, com o peso e a escuridão herdados do lado paterno da família.
O lado paterno. Sirius.
A lembrança retornou como um refluxo ácido de uma refeição mal digerida: Sirius. Se tudo fosse real, Sirius teria perdido a sua alma.
— Os dementadores! – ela exclamou num fôlego só, se sentando na cama, tentando fazer a cabeça funcionar aos trancos, o medo apertando seu coração – Eles... eles o pegaram?
Johanne saltou da cadeira, chegando até a cama e tateando até encontrar seu ombro.
— Não pode falar isso em voz alta, lembra? – reprimiu por entre os dentes, severa. Bervely, para quem o ato brusco de se sentar rendera uma tontura forte, piscou várias vezes, manchas pretas dançando em frente aos olhos.
— Os dementadores deram o beijo? – exigiu, irritando-se. Porque Anne estava tão calma? Será que ela não entendia que isso era urgente?
— Não. Não beijaram, ele...
— Ah, Srta. Black, finalmente! – A curandeira idosa se aproximou das duas, trazendo uma bandeja de poções consigo. Como sempre, Madame Pomfrey aparentava ligeira consternação, como se os pacientes na enfermaria fossem convidados inconvenientes que não sabiam a hora de ir embora. – Pode se afastar, Srta. Loren? Preciso fazer alguns testes na sua amiga. Oh, olha só quem também está aqui, como esse gato entrou?
Só então Bervely teve a chance de perceber a bola de pelo prateada perto dos seus pés, na cama, era Jinx. É claro que ele estaria ali, não se cansava de bancar sua sombra durante o dia...
Mme. Pomfrey deixou a bandeja ao lado da cama e puxou a varinha, jogando uma luz no rosto de Bervely, checando suas pupilas, depois usando outros feitiços para verificar seu pulso e pressão sanguínea. Bervely ainda piscava por conta do clarão quando a curandeira lançou um encantamento em seu braço.
— Sente alguma dor aqui? – perguntou, indicando o membro que, Bervely percebeu, estava mais uma vez todo enrolado em ataduras do topo do ombro até o pulso.
— Não. Não sinto nada.
— Ótimo! Usei algumas pomadas de anestesia bem fortes, deve ficar assim por mais algumas horas. E sua cabeça?
— Dói um pouco. O que foi que aconteceu...?
— Isso é esperado, se piorar podemos administrar uma poção analgésica. O professor Dumbledore pediu para avisá-lo assim que acordasse. Com licença. Não fique fazendo esforço, está bem?
Assim que a mulher se afastou em direção à própria sala, Anne achou seguro se aproximar de novo.
— Você desmaiou no quarto ontem à noite, depois de ficar toda estranha e fora do ar. Oliver te trouxe pra cá, mas estava a maior confusão no castelo. – ela mordeu seu lábio inferior, incerta sobre como passar a próxima informação – Pelo que eu entendi, ele escapou antes de os dementadores chegarem.
Bervely achou a informação não só boa demais para ser verdade, como totalmente impossível. Estivera na sala com Sirius em seus últimos momentos – bem, Jinx estivera – e tinha dado uma boa olhada na sala em que o prenderam. Havia uma única saída, fortemente guardada, e a janela estreita ficava a muitos metros do chão para ele saltar, ainda mais sem uma varinha...
— Anne, você tem certeza?
— Sim. – afirmou a menina com energia – O professor Snape estava furioso hoje no café da manhã. Ele até... – ela engoliu em seco, uma ponta de revolta sobressaindo em sua postura agitada – Ele contou para todo mundo hoje no café da manhã que...
As portas duplas de abriram, interrompendo Johanne. O diretor da escola entrou, suas vestes compridas e azul celestes, bordada com luas e estrelas, flutuando ao redor de seus passos. Dumbledore pousou os olhos nela enquanto se aproximava, talvez pela primeira vez desde que Bervely entrara em Hogwarts. Seus olhos eram surpreendentemente penetrantes, tomados de um brilho vivaz.
— Espero não estar interrompendo um momento importante de família – Ele sorriu bondosamente para Anne. A menina mostrou surpresa, mas Bervely não; afinal, ela abrira sua mente e entregara as suas lembranças para o diretor através de Jinx, em sua tentativa de salvar Sirius. Dumbledore saberia bem com o que estava lidando ali, mais do que ela teria gostado que um estranho soubesse, numa situação normal.
— Eu posso voltar mais tarde, professor. – disse Anne, se afastando da cama.
— Isso seria gentil, Srta. Loren. Quero discutir alguns assuntos com a sua irmã, mas não deixe de retornar quando terminarmos.
Anne assentiu e pediu licença, tateando seu caminho para fora da enfermaria, usando as camas como referência até a porta. O professor Dumbledore a acompanhou com os olhos, pensativo, voltando-se para Bervely quando ficaram sozinhos.
— Tremendo avanço a sua irmã está tendo, não é, no lidar com as limitações impostas pela falta da visão.
Bervely não respondeu. Estava mais preocupada em descobrir o que o bruxo queria com ela, a ponto de precisarem conversar assim que ela acordasse. Tudo que Bervely sabia sobre o diretor eram resquícios do julgamento dos Malfoy, que nunca foram favoráveis. Será que ele pensava que ela inventara as lembranças? Que fora manipulada por Sirius? Que podia entregar ser convencida a colaborar em sua recaptura?
— Black é inocente. – ela se viu na urgência de repetir. – Ele não... Ele nunca...
O diretor fez um breve aceno com sua mão, indicando que esperasse, e com um movimento de seus dedos as cortinas se fecharam ao redor deles. Com outro gesto, os sons que vinham de fora ficaram abafados, e ela soube que estavam sob um Abafiatto muito forte; nada do que fosse dito ali escaparia para ouvidos curiosos do lado de fora das cortinas.
— Melhor assim. Eu tive a chance de conversar com Sirius na noite passada, uma conversa breve, dadas as circunstâncias, mas na qual ele pôde esclarecer algumas lacunas. E embora eu esteja convencido da versão dos fatos que você e ele me apresentaram, não existem provas, no momento, que possam ser apresentadas ao Ministério que os façam sequer reavaliar a situação de Black. Você deve imaginar que, escapando debaixo de seus narizes mais uma vez, Sirius os deixou com muita raiva.
— Então ele escapou mesmo? – perguntou, permitindo um fio de esperança incrédula despontar. Seu senso de realidade continuava insistindo que a possibilidade era surreal, e que se Sirius não fora beijado ainda, era só por alguma questão burocrática do Ministério.
— Sim. Um escape bastante impressionante, eu me atreveria a dizer, a não ser pelo fato de que nada sei sobre isso. – O bruxo lhe deu uma piscadela cheia de significado. Bervely franziu o cenho, afinal eram significados que estavam só na cabeça dele.
— Então não foi o senhor que o ajudou?
— De forma alguma. Estive o tempo todo em companhia do Ministro, salvo o breve momento em que conversei com o Sr. Potter e a Srta. Granger ontem à noite, aqui mesmo na enfermaria-
— O que Potter tem a ver com tudo? – ela o interrompeu, levemente irritada. Era possível que algo acontecesse naquela escola sem que o nome de Potter estivesse no meio? A pergunta, por alguma razão, fez Dumbledore sorrir.
— Se fizer a mesma pergunta ao Prof. Snape, ele terá muito a lhe dizer. Está plenamente convencido de que o garoto teve participação na fuga de Black, mesmo quando todos sabemos que Harry esteve aqui o tempo inteiro após seu encontro com Black na noite passada, do qual foi trazido desacordado de volta ao castelo pelo próprio Snape...
Seu estômago embrulhou: não queria pensar no padrinho. Além do mais, outra coisa lhe chamou atenção na afirmação.
— Potter se encontrou com Black ontem à noite? Por quê? Eu pensei que apenas Lupin e o Prof. Snape tivessem ido atrás dele!
— Bem, Srta. Black, há muitas coisas sobre a noite passada que precisam ser esclarecidas, e algumas delas não me cabem explicar. Vamos apenas dizer que algo do interesse do Sr. Black estava em posse do melhor amigo de Harry, uma coisa levou à outra e uma reunião improvável tomou lugar na Casa dos Gritos que, como a senhorita já sabe, é o destino final da passagem sob o Salgueiro Lutador. Você vai me perdoar por não transmitir os detalhes, mas eu não faria jus às nuances tão bem quanto alguém que esteve lá.
Ela assentiu, sentindo a cabeça doer ainda mais à medida que tentava raciocinar. O que Sirius poderia querer, que estava em posse do melhor amigo de Potter? Tinha que ser a coisa que ele tentava pegar dentro do salão comunal da Grifinória ao longo do ano, a coisa que ele não podia apenas pedir para que ela para recuperasse, pela qual preferia arriscar a vida para obter e causar todo um alvoroço desnecessário na escola a cada falha...
— Espere... Pettigrew. – disse lentamente, à medida que as peças se encaixavam. Sirius dissera o nome do bruxo na noite anterior, quando ela pensara no "plano" secreto dele. E se ela bem lembrava pelos desenhos nas paredes da Casa dos Gritos, o animago de Pettigrew era um rato... E não era o Weasley mais novo que tinha aquele rato horroroso de estimação, sobre o qual os sonserinos gostavam de fazer troça? Mas não era possível, Pettigrew estava... – Ele está vivo?
— Surpreendentemente. – Dumbledore afirmou, seu olhar mostrando admiração pela conclusão a que ela chegara – Peter enganou o mundo todo durante uma dúzia de anos, se escondendo no seio de uma família bruxa, incógnito enquanto esperava a poeira baixar e depois, eu presumo, acomodado demais para se dar ao trabalho de voltar à forma humana e arriscar ser reconhecido.
Ela sentiu a onda de indignação crescendo em seu peito. Seus punhos se cerraram, as unhas enterrando-se nas palmas. Por causa de um rato covarde imundo Sirius tivera que perder doze anos de sua vida em Azkaban.
— Onde ele está? – perguntou entre os dentes apertados. Sua esperança era de que Dumbledore lhe desse a localização exata. Tinha nojo de ratos em geral, mas esse ela faria questão de esmagar em suas próprias mãos.
— Infelizmente, ele também escapou na noite passada, após se revelar para os antigos amigos, Black e Lupin, e descobrir que jamais seria perdoado. Houve um imprevisto, com a transformação acidental do prof. Lupin em meio à confusão, o que deu a Pettigrew a oportunidade perfeita para fugir uma segunda vez, embrenhando-se no meio da floresta e de lá, sabe-se lá mais para onde.
Bervely abaixou a cabeça, constrangida. Aquela era, afinal, a sua parcela de culpa. Se não tivesse dormido o dia inteiro após uma noitada de diversão inconsequente com Oliver e Tara, perdendo a hora de levar a poção à Lupin, ele não teria se transformado numa fera descontrolada diante da lua cheia, e talvez... Talvez Pettigrew não tivesse conseguido escapar.
— Ninguém a culpa por isso, Srta. Black. – disse o professor, de forma tão acurada que ela receou que ele estivesse lendo os seus pensamentos. – Apesar de a senhorita ter tomado para si a execução da poção, a responsabilidade ainda era do Prof. Snape. Eu me equivoquei ao pensar que ele poderia deixar as suas diferenças de lado integralmente, é claro, de forma que a culpa no fim das contas deve ser completamente atribuída a mim. Não terá sido o meu primeiro erro de julgamento... Como os demais, eu derrapei no estratagema de Peter e deixei passar aquilo estava bem diante dos meus olhos.
— A covardia daquele rato. – ela rosnou com amargura, odiando-o ainda mais do que tinha odiado ao saber a primeira versão da história, aquela em que ele se explodia e explodia a rua inteira para não encarar as consequências de sua traição.
— Não. A lealdade do cão. – Dumbledore a corrigiu – Nunca me foi dado motivos para duvidar da lealdade de Sirius na época em que o conheci, e ainda assim eu duvidei, eu fui levado a acreditar que ele poderia ter traído Lily e James, como parecia. A guerra faz isso conosco... Nos torna céticos.
Ele olhava para Bervely com intensidade, como se ela também soubesse algo sobre guerra e ceticismo. Porque ela era uma filha da guerra, pensou, e era isso que o bruxo via quando olhava para ela.
— Eu acreditei nele desde o primeiro instante.
Não era mentira. Ela tinha cinco anos e não confiava em adultos estranhos, mas aceitara seu sorvete, o presente "do seu cachorro" e sua amizade quase instantaneamente.
— Curioso. – o diretor sorriu, enigmático como uma esfinge.
Bervely engoliu, sentindo a garganta e a língua secas, mas sem coragem de interromper a conversa para beber qualquer coisa. Além do mais, ela não fazia ideia de onde estaria a sua varinha... e haviam questões mais urgentes no mundo do que sede.
— Onde Sirius está? Para onde ele foi?
— Receio não fazer a mínima ideia. – suspirou o diretor, levando sua mão até Jinx, que ainda estava enrolado em uma bola de gato ao pé de sua cama.
Jinx respondeu ao afago girando e expondo a sua barriga prateada, que Dumbledore coçou com as unhas longas, sorrindo. De repente, ele era um velho engraçado se divertindo com um gato, nada mais. Bervely piscou, e lá estava o bruxo imponente, um dos mais poderosos de sua época, sentado diante de sua cama, lhe dando o tempo que ela precisava para processar tudo.
— Uma criatura bastante rara, esta que você tem em sua companhia, Srta. Black – ele comentou, agora coçando Jinx embaixo do pescoço. O gato não parecia nada raro no momento, se rendendo aos afagos de um estranho sem nenhuma dignidade.
— É uma herança de família.
— Fascinante.
— Hum... Professor?
— Pois não, Srta. Black?
Ela hesitou. Se sentia estúpida por perguntar, vulnerável por admitir e ingênua por acreditar que ele teria todas as respostas. Não era um conjunto de sensações muito agradáveis.
— O senhor sabe por que eu... Porque eu desmaiei na noite passada?
— Achei que perguntaria. – Dumbledore interrompeu seus mimos à Jinx, voltando a olhar para ela. Pensativo, daquele jeito "qual é a maneira menos ruim de falar isso?" que Bervely já vira no rosto de outros adultos, antes de notícias ruins. – Sobrecarga mental, eu diria. Essa conexão mental que você e seu gato compartilham exige energia mágica de ambos, e se for levada ao extremo, como na noite passada, pode muito bem levar ao esgotamento.
Ela olhou para Jinx, pensativa. Sabia que havia mais do que isso. Ela e Jinx trocavam impressões o tempo todo, e o máximo que sentia, às vezes, era uma dor de cabeça leve no fim do dia. Nada como sua cabeça explodindo, a sensação das facas se cravando em seu cérebro, e – agora se lembrava – pouco antes de desmaiar, Oliver mencionara sangue. Não precisava ser adivinha para descobrir de onde viera; não era à toa que o braço estava todo enfaixado e precisara ser anestesiado.
— Srta. Black – recomeçou Dumbledore, num tom de voz mais cuidadoso, seus potentes olhos azuis a observando com cuidado. – Há outras coisas que eu gostaria de discutir, e que acredito que podem ser também do seu interesse, se estiver disposta.
Ela, é claro, sabia ao que o diretor se referia. Mais do que a sua relação com Sirius vazara através das memórias que entregara à Dumbledore. Coisas que ela vinha evitando admitir a muito tempo, mas que já não podiam ser ignoradas. Coisas para as quais ela suspeitava que, se alguém teria respostas, era o bruxo sentado à sua frente, aguardando paciente.
— Eu estou disposta, professor. Podemos conversar agora.
— BD –
Pouco depois da saída do professor Dumbledore, Anne retornou à enfermaria, dessa vez trazendo Oliver. Ainda estava remoendo tudo que acabara de ouvir do diretor, tentando amaciar as verdades e conseguir respirar propriamente de novo, quando o par se aproximou da cama.
— Hey, você. – Oliver cumprimentou ao chegar perto. Ela era a única paciente da ala-hospitalar naquele momento; pelo que tinha ouvido, Potter, Granger e Weasley tinham sido liberados pouco antes de ela acordar. Dessa forma, ele se sentiu audacioso o suficiente para plantar um beijo em sua testa. – Correndo o risco de soar repetitivo aqui: você nos assustou como o inferno.
— É um dom. – brincou, embora tivesse consciência de que o seu sorriso zombeteiro era forçado. Ele deve ter notado também, porque ficou sério e lhe olhou com mais atenção.
— Você está bem?
— Eu vou ficar. – disse, lhe dando uma piscadela. Anne pousou um saco barulhento ao lado dela, retirado do interior de sua mochila.
— A gente trouxe pra você.
— Para apimentar sua vida. – complementou Oliver. Ela se viu desejando que estivessem no quarto, e não na enfermaria, de forma que ele se sentisse à vontade para chegar mais perto.
— E tio Remus te mandou isso. – Anne lhe entregou uma barra de chocolate do tamanho de uma tampa de caldeirão, que devia ser estoque para um mês inteiro.
— Ah, é. Como ele está, depois de ontem?
Os ombros de Anne voltaram a cair, e até Oliver pareceu triste. Será que o lobisomem fizera alguma vítima na noite passada? E se essa vítima não estava na ala-hospitalar, só podia estar...
— Quem ele matou? – perguntou numa voz neutra, já imaginando algum aluno estraçalhado nos jardins, membros separados e vísceras expostas (em sua mente, por alguma razão, a vítima vestia o uniforme da Lufa-lufa).
— Credo, Bevy, ninguém! – Anne protestou, horrorizada – Foi outra coisa... Eu ia lhe dizer, mas o professor Dumbledore chegou bem na hora. Aliás, o que ele queria?
— Nada demais. Continue.
— Bem, tá. Remus se demitiu hoje de manhã. Ele foi embora há pouco. – disse ela, chateada.
— Por que ele faria isso? Pensei que nada lhe dava mais prazer do que colocar pirralhos barulhentos para lutar contra seres das trevas à base de gargalhadas.
— Aquele... Aquele cabeça de sebo do Snape contou para todo mundo sobre o problema peludo dele, no café da manhã. – ela disse com raiva. – Foi vingança, vingança covarde e sonserina, ele estava com raiva de Sirius e descontou em Remus, não é justo!
Apesar de entender a injustiça da situação, Bervely precisou segurar o riso bravamente para a escolha de palavras de Anne. Oliver também deixou escapar um sorriso, apesar de genuinamente chateado pela situação.
— Então o professor Lupin era um lobisomem, hum? Eu nunca adivinharia. – zombou Bervely, fingindo espanto. Oliver deu de ombros.
— Ainda foi o melhor professor de Defesa que essa escola já viu. Snape é um babaca.
— Sim, ele é. – concordou, para a surpresa dos outros dois. Felizmente não precisou explicar-se, já que naquele momento mais alguém entrou na ala-hospitalar. Era Tara, que veio desfilando até eles com um ar afetado e os cachos vermelhos ondulando a cada passo, multicor pelo efeito da luz entrando pelas janelas.
— Aí está você! – ela exclamou, como se Bervely estivesse trapaceando no esconde-esconde – E a pet. – passou seus olhos por Anne rapidamente, e depois: – Ah, olá, capitão.
O tom malicioso incutido no cumprimento fez as bochechas de Oliver corarem. No meio de toda a confusão, Bervely não se perguntara como teria sido para eles acordarem em sua cama, sem ela. Que tipo de diálogo teria se seguido às suas aventuras pós NIEMs? Queria ter uma penseira, só para obrigá-los a lhe entregar aquela memória.
— Eu não gosto de ser chamada de pet. – Anne anunciou, uma nota de irritação na voz, tomando a atenção deles. – Eu tenho nome, sabia?
— Bem, desculpe, bonitinha. Nós nunca fomos apresentadas. – riu a ruiva, estendendo para Anne sua mão magra e de unhas impecáveis – Eu sou Tara Holmes, a melhor amiga dessa criatura problemática – e aqui ela lançou um olhar acusador à Bervely, que rolou os olhos.
Anne estendeu sua própria mão, pequena e pálida, e tateou até encontrar a de Tara no ar, a apertando.
— Eu sou Johanne Loren, irmã dessa criatura problemática.
Tara olhou com incredulidade para Bervely, que deu de ombros. Não era como se pudesse colocar as palavras de Anne de volta para dentro, e nem queria. Estava começando a ficar cansada de todos os segredos.
— Bem – Tara disse acidamente, analisando Anne de cima a baixo, ainda falando com Bervely – Você pretendia me contar que tem uma irmã, algum dia?
— Eventualmente. – disse, sem querer fazer daquilo uma grande coisa. Merlin sabia como Tara podia ser uma drama queen, quando lhe era dado o devido espaço. – Hey, alguém viu minha varinha?
Oliver, que estava rindo da expressão ultrajada de Tara, tirou a varinha de Bervely do bolso e lhe entregou.
— Desculpe, acabei esquecendo no quarto ontem a noite quando trouxe você.
— Lamentável, Wood.
Ela conjurou água para encher o copo em sua cabeceira, matando a sede enquanto observava Tara, que por sua vez media Anne, como se faria a um tipo novo e peculiar de inseto a ser catalogado.
— Pare de olhar a minha irmã assim. – mandou, pousando o copo vazio sobre a mesinha.
— Ela é uma Black? – Tara fez uma careta duvidosa.
— Ela pode responder por si mesma.
— Eu sou uma Black. – disse a menina, num tom de desafio. – Por parte de pai.
— Bom, nesse caso, parabéns – disse enfim a ruiva, com uma nota de humor. – Seu pai acabou de se provar, mais uma vez, o bruxo mais escorregadio da Europa. Ops. – se recriminou, colocando a mão na boca e olhando para Oliver como se tivesse cometido uma garfe.
— Ele sabe. – Bervely informou, ao mesmo tempo em que Oliver disse "Eu já sabia", num tom convencido. Isso não ajudou a melhorar a situação do orgulho da ruiva, que se virou para a paciente de cara feia.
— O que, então você pode saber de todas as minhas tretas familiares, mas eu sou a última a saber das suas? Onde está a justiça nisso?
Mme. Pomfrey apareceu em boa hora para expulsá-los todos da ala-hospitalar, porque "Se Bervely estava pronta para receber três visitas de uma vez, estava pronta para receber alta" e ela foi poupada de dizer para Tara que sabia muito mais de suas tretas familiares do que a ruiva poderia sonhar.
Não que Bervely pretendesse dizer qualquer coisa — ainda.
— BD –
Bervely retomou o revezamento de rondas naquela mesma noite, principalmente porque não queria dar a Weasley motivos para dizer que estava fugindo de suas responsabilidades como monitora, mas quase se arrependeu disso. Estava louca para voltar ao dormitório e tomar um banho longo e completo em sua banheira, onde podia se esquecer do mundo, mas Oliver a encontrou a meio caminho das estufas, a essa altura mais do que conhecedor de suas rotas de ronda.
— É tão bom que eles finalmente tiraram os dementadores, não é? – comentou o grifinório, alinhando seu passo com o dela, as mãos enfiadas no bolso da calça do uniforme, inclinando a cabeça para olhar o céu limpo acima deles.
— Certo. – concordou, embora soubesse que ele não estava ali para falar sobre isso.
— Você está estranha desde a noite passada. – pontuou, olhando-a de relance. A luz amarelada que vinha do castelo chegava só até certas partes do dele, acentuando os ângulos do seu rosto. Era engraçado como agora ela conhecia todos, mesmo no escuro.
— Pessoas diriam que eu sou estranha. – comentou, evasiva. Não que isso tivesse funcionado com ele alguma vez.
— Está preocupada? Com seu pai?
Bervely nunca entendeu como ele aceitara tão fácil o fato de que o pai dela era um criminoso. Oliver, como todas as outras pessoas, pensavam que Black era culpado pelos crimes aos quais lhe acusavam.
— Não... Ele sabe se cuidar. Desde que esteja longe daqui, e dos dementadores. – ela virou a cabeça para olhá-lo, dessa vez. Achou-o sério, o rosto inclinado para baixo, acompanhando os passos deles na grama. – Acho que se você o conhecesse, ia se surpreender.
— Sério? – Oliver se espantou, diminuindo o passo – Você quer que eu conheça seu pai?
Ela rolou os olhos.
— Não desse jeito. – bufou. – Porque você sempre precisa levar as coisas para esse sentido?
— Me diga você, existe outro sentido em conhecer o pai da namorada?
Ela perdeu uma boa parcela de ar.
— Eu não sou sua... – suspirou. Pôde ouvir o ruído impaciente que ele fez ao seu lado.
— Sim, você é. – retrucou com teimosia.
— Você podia ao menos perguntar, não?
— E te dar a chance de dizer não?
Ela deu uma risadinha.
— Pare de andar tanto com sonserinos, Oliver, isso está estragando você.
Eles estavam andando em direção ao lago agora, área que não fazia parte da ronda nem quando existia uma ronda nas áreas externas do castelo, mas ela não achou que alguém se importaria. Hogwarts era sempre um pouco caótica na semana após os exames finais, e parecia haver uma certeza implícita de que Black não era mais uma ameaça à segurança ao castelo, porque ele não seria idiota de voltar ao lugar em que fora capturado, certo? Sem dementadores oprimindo o céu, e o verão se estabelecendo com firmeza, caminhar ao ar livre voltara a ser agradável.
— Você acha que ele ia gostar de mim? – Oliver perguntou, a alcançando de novo, quando o primeiro vislumbre cintilante do lago alcançou suas vistas. Ela ponderou, lembrando-se da final de quadribol.
— Infernos, acho que sim. Acho que ele já gosta. Ficou impressionado com você, durante o jogo final.
— QUÊ? Ele... Sirius Black me assistiu jogar? COMO...
— Isso, grite para a escola toda que o fugitivo da prisão esteve acompanhando o quadribol de perto, isso vai deixá-los tranquilos. – zombou, olhando para ele com censura e quase conseguindo não rir de Wood pirando.
— Ah, ok, então... Black gostou do meu jogo? – Havia um sorriso perigoso se alastrando pela cara dele agora, beirando o campo do convencimento.
— Baixe a bola, capitão. Ele talvez odeie você se souber o que faz comigo quando não está em cima de uma vassoura.
Ela falava por falar. Não achava que Sirius daria a mínima, era mais provável que ele se unisse numa conversa interminável de quadribol com Wood e sequer lembrasse da existência dela por horas. Mesmo assim, foi bom ver na expressão dele um pouco de preocupação.
— Você acha que ele viria pra cima de mim se soubesse que nós... Digo, que eu fui o seu primeiro...
— Sim, com certeza. – assentiu, fazendo um esforço para ficar séria. – Se eu fosse você, tomava bastante cuidado.
Eles conseguiram andar em silêncio por uns bons cinco minutos, Bervely com a impressão de que Oliver pensava nas implicações de estar com a filha de Sirius Black, a julgar pelo vinco instalado entre as suas sobrancelhas. Eles chegaram até o salgueiro em que um dia, não tanto tempo assim atrás, Oliver e Kate tinham se encontrado com Bervely e Tara sentadas, numa posição ligeiramente comprometedora.
— Vamos sentar um minuto, estou um pouco sem fôlego. – ela pediu, escorregando pelo tronco da árvore e se acomodando entre as raízes, onde tufos de grama macia cresciam. Ele se sentou ao lado, a preocupação de volta ao semblante.
— Você está bem? Está com febre de novo?
Esticou a mão para medir a temperatura em sua testa, mas Bervely se esquivou, impaciente.
— Eu estou bem, Oliver.
— Você pode estar tendo uma recaída, Mme. Pomfrey disse que poderia acontecer, e não é como se você tivesse feito todo o repouso recomendado!
Ela bufou, virando o rosto. Ele se referia à intoxicação mágica que ela contraíra justamente na semana anterior aos exames, e que quase arruinara por completo suas chances de fazer bons NIEMs. A intoxicação também era a razão pela qual, no fim das contas, Tara e Oliver tinham se aproximado muito mais do que Bervely julgara ser possível, sem que a deflagração da segunda guerra bruxa estivesse envolvida. Bem, um outro tipo de consequência fora deflagrada por toda aquela aproximação, se ela bem se lembrava de como acordara após o último dia de exames, num agradável sanduíche de Capitão e Romansek.1
— É o seu braço? – ele voltou a perguntar, arrancando-a das boas lembranças que ela cultivava em sua memória.
— Não. Pomfrey colocou tanta poção anestesiante aqui que eu nem voltei a senti-lo ainda.
Oliver deu um suspiro longo e frustrado ao lado. Sentiu que ele entrelaçava os dedos nos seus da mão esquerda, que também estava dormente.
— O que está acontecendo, Rose? Por que sua rosa está te machucando de novo?
E lá estava, o tom amortecido e temeroso que ela não queria ter que ouvir. Ela não entendia porque ele tinha que se preocupar tanto, como se as coisas que aconteciam com ela pudessem afetá-lo diretamente. Como se, de alguma forma, o que doía nela pudesse doer nele também.
— Ela não está... – suspirou. Era impossível explicar isso sem explicar tudo, e não havia motivo no mundo para dragá-lo até esse pântano de horrores – Não está me machucando. Não se preocupe com isso.
— Como assim, não me preocupar com isso? Eu vi o que fez da última vez! Eu estava lá, se lembra? Em Azkaban? – Ele baixou a voz para um sussurro temeroso – É a sua mãe, Rose? Ela está tentando... Você sabe... Chegar em você de novo?
— Não. – riu sem alegria. – Não tem nada a ver com Bellatrix.
Ela quase gostaria que tivesse. Ele se remexeu desconfortável ao seu lado. Bervely se perguntou o quanto aqueles assuntos o perturbariam. O que será que ele pensava sobre ela ser marcada com magia negra? Nunca perguntara. Não parecia pertinente agora.
— Eu não pude deixar de notar a.... mudança da sua rosa. Você sabe, na noite em que... Você sabe.
Na noite em que Bervely, ele e Tara dividiram uma cama. Ela achou graça de ele não conseguir falar com todas as letras, depois de tudo. Provavelmente algum senso de virtude tardia em curso, um que convenientemente fora deixado de lado na noite em questão.
Ela não queria falar sobre a marca com ele. Escondera tanto quando possível, mas quantas pessoas conseguiam se preocupar com roupas durante uma noite como aquela? Ela permaneceu silenciosa, na esperança de que ele deixasse pra lá.
— O que... aconteceu com ela? – ele insistiu, de toda maneira, porque era Wood, e era isso que ele fazia.
— Eu não sei, Oliver. – murmurou, incomodada e ansiosa para mudar de assunto.
— Você acha que é permanente?
Ela engoliu em seco. A superfície do lago cintilava, refletindo as últimas nuances de luz do dia, roxo e azul, violeta e rosa. A conversa com Dumbledore estava fresca em sua mente, todas as verdades e as implicações evocadas.
— Sim. Eu acho que sim.
Ficou olhando a água de forma fixa, tentando parecer tão impassível quanto a superfície lisa e espelhada, quando na verdade ela se sentia como uma tormenta no mar, ondas e relâmpagos, navios náufragos se partindo contra as pedras. Oliver ofereceu seu ombro para que ela recostasse, mas ela resistiu, evitando olhar pra ele. Havia uma linha fina entre se render e resistir, e ela sentia que mostrar sua vulnerabilidade era o que bastaria para ultrapassá-la.
Ele soltou um suspiro frustrado ao seu lado, e se contentou à distância.
— BD –
Para a turma de setimanistas de Hogwarts, a última semana de aula era cheia de pequenas decisões a serem feitas. Eles precisaram optar por quem faria o discurso de formatura, como organizariam sua festa e tinham que entregar uma lista de convidados para McGonagall. Havia reuniões com representantes das quatro casas para as deliberações, mas Bervely ficou tão longe destas quanto possível, não importava quanto argumentassem que ela deveria tomar a frente, por ser monitora chefe.
Por fim, Tara tomou a tarefa de representante da Sonserina, para a alegria de Bervely e insatisfação de muitos. Tara perdera bastante de sua popularidade entre os colegas naquele último ano, desde que parara de ajudar a promover as festas secretas dos alunos e dispensara o séquito de seguidoras barulhentas. De fato, o olhar de Olga Greengrass para a ruiva foi tão maligno quando ela foi elegida a representante da turma que Bervely decidiu ficar atenta aos estoques de ingredientes de poções da escola, para o caso de os componentes da poção de queda capilar sumirem misteriosamente.
Fugir do correio de Andrômeda Tonks, por outro lado, foi uma tarefa impossível. Com a aproximação da formatura, a tia passou a lhe bombardear com corujas, mais de uma vez por dia, com catálogos de vestidos de baile, clamando para que ela escolhesse o seu modelo o quanto antes ou teria de ir nua para a cerimônia. Bervely rolava os olhos para cada uma das opções, com Tara cada vez mais impaciente ao espiar por cima de seu ombro e constatar que ela não fizera nenhuma escolha.
— Esse azul com contas é maravilhoso. – ela exclamava, cravando sua unha na página para impedir Bervely de passá-la com desdém.
— Muito bufante.
— E esse, cinza grafite com apliques de renda?
— Tem uma saia estranha.
— É evasé. É linda!
— Estranha.
Ou então, Tara surgia do nada com um pedaço de papel retirado de alguma revista de moda bruxa, das dezenas que recebia via coruja, e sacudia em sua cara.
— Olha esse, vai ficar maravilhoso em seu corpo.
— É vermelho, Tara.
— E qual o problema com vermelho? – o tom de ultraje deixava claro que levava aquilo pro lado pessoal.
— Ela só gosta de vermelho no uniforme de quadribol da Grifinória, né, Rose? – Oliver, que por acaso estava por perto nessa ocasião em especial, deu uma piscadela para Bervely, zombando da sonserina, que estreitou seus olhos perigosamente.
— Se eu bem me lembro, ela sempre mostrou bastante apreço pelo meu cabelo vermelho – a isso se seguiu uma jogada dos cachos ruivos na cara dele, com ênfase – Ah, e da minha lingerie.
Decidindo que não havia jeito de ser mais assediada ou publicamente constrangida do que aquilo, Bervely rabiscou uma nota rápida para Andrômeda no verso de um horrendo vestido amarelo de gola alta e ombros pontudos:
"Preto e com mangas. O resto você pode decidir, me surpreenda."
Esperava que a tia captasse a ironia do "me surpreenda". Será que era demais pedir por algo sóbrio, sem babados e que não dobrasse o tamanho do seu quadril, pelo amor de Merlin!
Ainda naquela noite, Bervely estava distraída trabalhando em uma poção complexa em seu caldeirão, mas era constantemente distraída pela conversa de Oliver e Anne, ambos sentados em sua cama, elaborando o discurso que ele faria em homenagem aos colegas no grande dia.
— Bervely, você viu minha saia da Blue Spell? Aquela que o bolso da varinha fica escondido na costura? – Tara acabara de enfiar a cabeça pela porta.
— Oi, seus dedos vão cair da mão se você bater, uma vez na vida? – reclamou, torcendo os lábios.
— Por que, por acaso tem alguém pelado aqui dentro? – a ruiva rebateu, olhando como se flagrar algo assim fosse sua exata intenção.
— Por que haveria alguém pelado aqui dentro? – Anne perguntou, intrigada o bastante para interromper sua citação à pena de repetição rápida de Oliver.
— Ah, oi, pet... Digo, Blackinha. Não se preocupe com isso, você ainda não está na idade.
— Tara! –Bervely advertiu, antes que a ruiva resolvesse detalhar com o que Anne deveria se preocupar quando a idade chegasse. – Eu não peguei nenhuma saia sua. Não está aqui.
— Tem certeza? Eu posso ter esquecido aqui quando... Hum, você sabe quando, Oliver sabe quando, e não queremos dizer isso em voz alta na frente da audiência infantil.
— Você é ridícula – Bervely sacudiu a cabeça, voltando para o caldeirão – Olhe nas gavetas, apenas fique quieta e pare de poluir a cabeça da minha irmã com sua devassidão interminável.
— Nossa devassidão – ela corrigiu baixo, rindo, mas depois indo revirar as já bagunçadas gavetas de Bervely.
— Eu sinto que perdi alguma coisa. – Anne comentou com vago interesse, mas nenhum dos três se dignou a lhe responder e Oliver deu umas batidinhas enérgicas nos papéis na frente dele.
— Foco, irmãzinha, meu discurso não vai se escrever sozinho. Então, depois de "vicissitudes"...
Bervely conseguiu terminar a receita, engarrafá-la ainda quente e admirar seu tom perfeitamente límpido e incolor através do vidro. Já puxara o segundo vidro quando Tara saltou atrás de si com algo dourado em suas mãos.
— Uau! Porque você não usa esse na formatura? É maravilhoso!
Bervely se virou, horrorizada ao reconhecer o que ela segurava. Era o vestido do natal – aquele que o Olho de Hórus mandara fazer sob medida para a sua filha amada, e que Bervely jurara que tinha ido parar no maldito lixo no minuto em que o tirou de seu corpo, manchas de sangue e cinzas e tudo mais. Só podia supor que algum elfo o tinha recuperado, lavado e colocado em seu guarda-roupas de novo.
— Tara, não, deixa isso aí!
Mas ela já tinha corrido para o espelho, desdobrado o vestido e o posicionado em frente ao corpo. O tecido iridescente e delicadamente escamado se desdobrou, brilhante como se fosse novo. Bervely notou que os danos também tinham sido concertados pelos elfos, porque ela não via os rasgos provocados pela luta ou pela fuga. Mesmo assim, vê-lo, e ainda mais nas mãos de Tara, deixava seu coração num descompasso alarmante.
— É maravilhoso! Onde conseguiu isso? – Tara analisou a frente e as costas do vestido, seus olhos brilhando, como os de um pufoso que acabara de achar uma pilha alta de moedas de ouro. – Posso provar? Acho que cabe direitinho em mim!
— Não! – rosnou, irritada, mas sendo ignorada por completo. A ruiva correu e se trancou no banheiro. Bervely bateu com a garrafa de amostra tão forte na mesa que ela rachou. – Mas que droga!
— Jesus, Bevy, é só um vestido. – Anne se espantou do outro lado do quarto. Oliver olhava para ela com as sobrancelhas franzidas, um questionamento mudo em seus olhos. Ela crispou os lábios, respirou fundo e pegou outra garrafa na gaveta, mas é claro que agora a sua mão tremia e não haveria jeito de engarrafar a poção sem entornar tudo.
— É como se tivesse sido feito pra mim! – Tara exclamou, rodopiando para fora do quarto, uma pira dourada de luz, o contraste forte dos cabelos vermelho escuros com o dourado do tecido. Ela conseguira, de algum jeito assombroso, ficar ainda mais deslumbrante do que a própria Bervely ficara nele, usando o corpo dela. — Será que ele tem um encantamento para se ajustar no corpo?
— Não, eu não acho que–
— Ficou maravilhoso! – ela se admirou no espelho, dando meia volta para o lado e meia para o outro, fazendo a saia formar um leque em torno de suas pernas compridas. – Posso usar na formatura, já que você não quer? É muito mais bonito do que o que eu encomendei!
— Não! – Bervely exclamou, agora muito irritada.
— O que você acha, capitão? Ficou bom?
Oliver, que estava fingindo que não prestava atenção nos acontecimentos do outro lado do quarto, se sentiu autorizado a levantar a cabeça propriamente e dar uma boa olhada, de cima a baixo, avaliando como fora solicitado.
— Eu acho que você parece com uma taça de quadribol, com tanto dourado.
— Viu? – ela se virou para Bervely com um sorriso radiante e provocativo – Ele gosta.
– Vá tirar o vestido agora, Tara. – ela exigiu por entre os dentes, tentando não pular e matá-la.
— Credo, se isso tudo for ciúmes, não precisa não, tenho certeza que...
— AGORA! – gritou, sua explosão repentina fazendo Tara congelar no lugar, os olhos arregalados. Bervely levantou bruscamente, a cadeira caindo barulhenta atrás dela, e avançou na garota, agarrando-a pelo braço e arrastando até o banheiro – Eu disse agora! Você não me ouviu? Agora, Tara!
Jogou Tara dentro do banheiro sem nenhuma gentileza e bateu a porta atrás dela, arfando. Quando se virou, sabia que o olhar de Oliver estava pregado nela, e Anne tinha uma expressão escandalizada no rosto. Ignorou os dois, andando dignamente até a cadeira, a levantando e sentando-se. Ver Tara dentro daquele vestido lembrava-lhe vividamente quando ela esteve dentro do vestido, de volta àquela noite, acuada, espancada e açoitada por Gavril Romansek, e ela até podia sentir a dor em sua pele, o chiado, o cheiro de carne queimada...
Tara saiu minutos depois do banheiro, toda empinada e séria. Dava para ver pelas bordas vermelhas dos seus olhos que não estava assim tão indiferente. Ela pousou o bolo de pano dourado em cima da mesa de estudos.
— Tem alguma coisa muito errada com você – disse, ressentida, por entre os seus dentes, os olhos verdes brilhando.
— É, eu sei disso. – Bervely disse com indiferença, sem nem mesmo olhar para ela. Tara meneou a cabeça com desprezo.
— Maluca.
Ela saiu, pisando duro, batendo a porta com força ao passar. Bervely apertou a garrafinha quebrada em sua mão, sentindo a borda pontuda do caco de vidro ser pressionado contra a sua palma. Estava começando a entender que algumas cicatrizes nunca se curavam totalmente, a não ser que fossem machucadas ainda mais fundo.
— BD –
Apesar de o tempo não poder estar mais perfeito em Hogwarts – sol brilhante durante o dia, noites frescas e de céu limpo, repleto de estrelas – o clima não foi capaz de melhorar o humor de Bervely após aquela discussão com Tara. Mais uma vez, elas não estavam se falando nem havia qualquer indício de que voltariam tão cedo.
Talvez algumas coisas só pudessem ser remediadas um certo número de vezes, Bervely se pegou pensando com pessimismo, na véspera do último dia letivo. Talvez dessa vez as rachaduras tivessem atingido seu ponto máximo. E por mais que sentisse falta da sonserina pavoneando em sua vida, fazendo comentários embaraçosos e provocando ciúmes injustificados em Oliver (ou fazendo o capitão corar com comentários obscenos, o que era sempre adorável, porque ele tentava fingir que não ficava constrangido), Bervely tinha muito o que fazer até a formatura.
Ela sabia que os olhos afiados de Tara estavam lhe acompanhando pela escola, cada vez mais desconfiados. Volta e meia, Bervely se deparava com a garota de braços cruzados, estreitando seus olhos para ela, sem se dar ao trabalho de desviar quando era pega no flagra.
Então, Tara devia saber que Bervely subornara um certo elfo na cozinha por um par de meias descasadas, em troca de um favor muito questionável. Ela também devia saber que Bervely escapou da escola na quarta-feira, pela passagem secreta das masmorras, para enviar três corujas pelo correio de Hogsmeade.
E ela com certeza sabia que Bervely tinha deslizado sorrateiramente do seu quarto no meio da noite, deixando Oliver adormecido e perfeitamente inocente em sua cama, a fim de ativar um feitiço extremamente contraindicado na lareira da velha sala nas masmorras onde Bervely costumava pegar Tara bebendo do gargalo de alguma garrafa, quando a vida não estava indo a contento.
De fato, Tara a seguiu até lá. Ela apareceu à porta como uma sombra, em seus pijamas, encontrando Bervely agachada em frente às chamas da lareira, adicionando uma série de pós e encantamos ao fogo para tentar torná-lo verde esmeralda.
— O que você pensa que está fazendo? – ela perguntou bruscamente, sobressaltando Bervely. A monitora olhou para trás, deu um muxoxo impaciente e voltou ao seu trabalho.
— Nada da sua conta.
— Você pode explodir a escola, sabia? Ou ir presa. Não que você se importe. Pra você é tudo uma grande aventura, não é?
Bervely riu sem emoção. A última coisa que ela tinha naquele momento era qualquer gosto pela aventura.
— Parecem duas opções muito boas. – disse com secura. – Nunca pensei que meu futuro seria brilhante, de qualquer jeito.
Tentou não prestar atenção em Tara se movendo atrás de si, afinal o que fazia exigia muita concentração. Mas foi difícil ignorar quando o corpo quente dela se inclinou bem atrás do seu, o cheio doce da garota lhe envolvendo como um véu, os lábios dela quase colados à sua orelha.
— Eu sei que você está tramando alguma coisa, Bervely. – ela sussurrou, arrepiando todos os pelos de seu corpo, alguns que ela nem sabia que podiam arrepiar.
— Eu não faço ideia do que está falando – disse tranquilamente.
— Talvez eu devesse dizer – Tara continuou, no mesmo tom suave e perigoso de antes – Que eu lembrei onde vi você usando aquele vestido.
— É mesmo?
— Sim. – ela soprou. – No natal. Eu o vi na sua foto com papai, aquela presa em seu espelho.
Bervely não disse nada e até prendeu a respiração, suas entranhas se contorcendo nesse meio tempo. Tara se levantou, se afastando a passos lentos.
— Tente não arruinar a formatura fazendo alguma idiotice, está bem? Eu nunca te perdoaria.
Bervely balançou a cabeça para as chamas. Você nunca me perdoaria de qualquer maneira.
O fogo se tornou verde, da cor da maldição da morte, da cor dos olhos de Tara. Quando Bervely se virou, ela tinha ido embora.
— BD –
O último dia letivo atingiu Hogwarts como um trem, para o alívio de alguns e saudosismo de outros. Com ele vinha a entrega dos resultados dos exames, evento que sempre envolvia um certo grau de tensão, mas que era centuplicado para os setimanistas que esperavam os resultados dos NIEMs, num envelope amarelão espalhafatoso trazido por corujas também amarelonas e espalhafatosas.
Bervely abriu o seu durante o café da manhã, achando que sua barriga não podia ficar mais embrulhada do que já estava. Ela não estava muito certa do desfecho daquela noite, quanto mais o do seu futuro; de toda forma, logo descobriu que conseguira todos os cinco NIEMs pleiteados, com destaque de nota máxima em poções e – quem diria – Transfiguração.
— E então? – Pacey chamou sua atenção do lado oposto da mesa, com um sorriso de trinta dentes no rosto. – Como foi?
— Sobrevivi. E você? – ela sabia, é lógico, que a única razão para Pacey perguntar sobre as suas notas era poder exibir as suas logo em seguida.
— Consegui todos os sete! – ela esfregou o papel na cara de Bervely, que não podia estar menos interessada. – Todas as notas máximas, até Aritimância, que disseram que era impossível!
Sirius Black também fez, metida. Ali por perto, Tara estava encarando sua folha de notas com as sobrancelhas franzidas, e lá adiante na mesa vermelho e dourada, Bervely capturou uma expressão vitoriosa em Oliver. Ele percebeu que ela estava olhando e fez um aceno mínimo, que ela respondeu com um movimento de sua sobrancelha.
Não muito depois, Jinx pulou na mesa do café, arrancando alguns resmungos dos colegas próximos, e esfregou sua cabeça na mão de Bervely de uma maneira urgente. Ela pegou um vislumbre de algo que não gostou nem um pouco de ver, de forma que logo deixou a mesa, deixando seu café da manhã quase intocado.
Bervely seguiu o gato pelo exterior da escola, onde fazia um dia quente e maravilhoso que só se via descrito em livros de fantasia. O lago brilhava como uma joia, a floresta parecia mais verde, até a grama tinha um rico tom de verde escuro, estalando sob seus pés enquanto avançava. Tudo indicava a melhor noite possível para a festa de formatura, o que não deixava de ser um ponto positivo. Era bom por poder contar, pelo menos, com o tempo estável.
Como vira na transmissão de Jinx, Anne estava sentada na borda de uma paredinha de pedra, resquício dos antigos muros que um dia cercaram a área das estufas. Havia uma cobertura de árvores ali, suficiente para evitar o sol sobre suas cabeças. Segurava um pergaminho da escola em uma mão, meio amarrotado, a varinha apoiada na amurada, ao lado de sua perna. Mas o que mais chamou atenção de Bervely foi as suas bochechas manchadas de lágrimas. Dava para ver que estivera chorando mesmo com os óculos. Enquanto Bervely se aproximava silenciosamente, ela fungou e coçou o nariz um par de vezes.
— Quem...? Ah, é você. – reconheceu, rouca, antes mesmo de Bervely falar qualquer coisa. Como ela fazia aquilo, só pela graça de Merlin.
— Sim, sou eu. E você está chorando.
— Obrigada por me avisar. – ironizou, torcendo os lábios num bico. Bervely estreitou os olhos para a ironia, que não era muito típica dela. Sentou ao lado dela, a superfície da pedra muito quente embaixo das suas pernas.
— Você vai me dizer...? – antes que concluísse a pergunta, Anne lhe estendeu o papel com as suas notas do segundo ano.
Feitiços – Aceitável
Transfiguração – Aceitável
História da Magia – Excede as Expectativas
Poções – [sem nota]
Astronomia – Péssimo
Defesa Contra as Artes das Trevas – Excede as Expectativas
Herbologia – Aceitável
— Hum... não é o fim do mundo. Tirando Poções, que você saiu...
— Eu perdi em Astronomia! – ela guinchou, amortecida. – Como eles esperam que eu entenda mapas estrelares, gráficos e céu noturno se eu não posso ver nada?
Bervely achou que ela parecia um pouco histérica.
— Não tem problema, Anne, Astronomia nem é obrigatório a partir do terceiro ano.
— Três Aceitáveis! – ela voltou a pontuar, o nariz começando a ficar vermelho de novo – Nenhum "ótimo"! Sabe o que acontece com gente como eu na Corvinal?
— O quê? Vão para a forca? – perguntou, tentando forçar uma certa perspectiva ali.
— Tutoria! – exclamou, a voz muito aguda. – Ano que vem vão colocar um aluno mais velho para ficar estudando comigo o tempo todo, o meu tempo livre todo, até tudo entrar na minha cabeça e se não entrar, eu sinceramente acho que eu vou ser forçada a mudar de casa, se eu tiver qualquer senso se vergonha! Mas nenhuma casa vai querer alguém com essas notas, e eu terei que me mudar para a cozinha e trabalhar com os elfos!
— Aposto que a Lufa-Lufa te aceitaria... Olha, você está exagerando. Tutoria não é o fim do mundo.
— Aceitável em feitiços! Eu sou... Eu era ótima em Feitiços! A melhor da sala! Agora eu não consigo nem apontar a droga da varinha pro lugar certo!
Ela pegou a "droga da varinha" e a jogou longe, fazendo-a desaparecer entre os arbustos.
— Eu sou tão burra!
— Ok, já chega com isso, agora mesmo, Johanne Black. Você não é burra. Você é a criança mais inteligente que eu já conheci, e olha que eu me conheci na sua idade, e eu era muito esperta. Por favor, quem mais fala vicissitudes na sua idade? Quem mais poderia aprender como ler aquela língua de pontinhos dos trouxas cegos? Sozinha! Johanne, você joga xadrez sem enxergar e ganha.
Ela ficou calada por um tempo longo depois disso, o que não era bem o que Bervely esperava, especialmente dada a sua expressão de espanto.
— Do que... do que você me chamou?
— Do que? Criança? Você é criança. Não me venha dizer que é pré-adolescente, porque eu não vou aceitar esse argumento até você ter os primeiros pelos embaixo do braço.
Ela sacudiu a cabeça com veemência.
— Não, você disse... Johanne Black.
— Eu disse?
É, ela tinha mesmo dito. Lhe escapara tão naturalmente quanto possível.
— Bem, é o seu nome verdadeiro, não é?
— Soa legal. – Anne mordeu o lábio, pensativa. – Talvez quando Sirius provar a inocência dele, eu possa começar a usar assim.
Ela estava sorrindo com a ideia, apesar da ponta do nariz ainda avermelhada. Bervely deu uma risadinha zombeteira.
— Sua avó vai adorar isso.
— Eu não vou voltar para a casa de minha avó, Bevy. Nunca mais. – Anne promete. – Eu não me importo se eu tiver que fugir dela, eu farei isso e eu vou para outro lugar. Com você, com tio Remus, ou com... – ela hesitou, torcendo a barra da saia do uniforme – ou com o Sirius.
O sentimento agridoce de ciúme e afeto se enrolou no peito de Bervely, que suspirou, se perguntando quando – em que realidade alternativa – aquilo poderia acontecer do jeito que Anne gostaria. Agora, com Pettigrew sabe Merlin onde, era mais improvável do que nunca que Sirius conseguisse provar sua inocência. Houve um tempo que ela gostara de sonhar, mas o último ano tinha lhe incutido realidade goela abaixo em várias doses amargas, e agora tinha o gosto em sua língua o tempo todo.
— Eu sinto falta dele. – Anne confessou, a cabeça baixa. – Eu sei que é bobo... Quer dizer, eu só o vi duas vezes, mas... Desde que eu soube que ele era uma pessoa legal, era bom saber que ele estava por perto. É como se ele estivesse sempre com a gente, só a um passo de distância, sabe?
Bervely sabia, e como sabia. Não ter notícias de Sirius era como lidar com a ausência de uma parte do seu próprio corpo.
— Você acha que ele vem para a sua formatura? – Anne perguntou esperançosa. Bervely balançou a cabeça.
— Eu espero que não. Não seria seguro.
— Tem razão. – ela disse com tristeza. Bervely pegou a própria varinha e conjurou a de Anne de volta, entregando o artefato em suas mãos, pensando em Sirius e se perguntando quando teria a chance de vê-lo novamente.
Se teria a chance de vê-lo novamente.
(Continua...)
Fale com o autor