Indigna Rosa Negra

66 O Adeus da Rosa - Parte II


Notas iniciais
CALMA. Essa ainda não é a parte final. Para quem leu o cap anterior até hoje (17/07), eu o dividi em dois porque estava grande demais, mas continua o mesmo, salvo algumas correções que fiz numa segunda revisão. A parte final sai loguinho!


Against the spell of time
You know you cannot fight
It doesn't matter what you do
You cannot hide

(Contra o feitiço do tempo
Você sabe que não pode lutar
Não importa o que você faça
Você não pode se esconder)

Spell of Time – Scelerata

Bervely fingia que Severus Snape não existia desde a noite da fuga de Sirius. Se não fizesse assim, ela achava que não poderia ignorar a vontade de colocar um veneno forte em sua bebida durante o jantar. Ela o desprezava. Ela o culpava pela fuga de Pettigrew e por Sirius não poder comprovar sua inocência mais uma vez, mais do que culpava a si mesma.

Sabia que não precisava se preocupar, porque a recíproca era verdadeira. Snape a desprezava por ser filha de Sirius, afinal. E que ele fosse ao inferno com isso! Se estava tão disposto a guardar rancor de Sirius pelo resto de seus dias por causa de uma brincadeira infantil, ela podia muito bem guardar rancor dele pelo resto da vida por trancá—la naquela sala e ir chamar os dementadores para sugar a alma de seu pai.

De forma que a última coisa que Bervely esperava era uma aparição de Snape após o jantar daquela noite, enquanto ela se arrumava para a cerimônia de formatura e já estava enfrentando um dragão chamado nervosismo, que fazia um inferno dentro da sua barriga.

— Oh, era só o que faltava, pela graça de Salazar. – disse com desprezo, virando as costas para ele ao abrir a porta e percebê—lo ali parado, empoado, cheio de morbidez nos olhos pretos. – Por que não vai dar uma volta no inferno, professor Snape?

— Eu não admito que fale comigo nesse tom, Srta. Black. – ele rebateu, cortante, dando um passo para dentro do seu quarto. – Exijo o mínimo de respeito.

Ela balançou a cabeça, incrédula. O olhar fixo e incógnito de Severo Snape lhe acompanhando pelo quarto não estava ajudando em nada.

— Você perdeu meu respeito quando foi atrás de um homem inocente para entregá—lo aos dementadores!

— Se tem uma coisa que Black não é, nem nunca foi, é inocente, Bervely.

Ela puxou sua varinha, querendo realizar um feitiço que trouxesse até ela os sapatos que Andrômeda enviara com o vestido. Não encontrava os malditos saltos em lugar nenhum.

— E de repente o senhor é algum especialista em Sirius Black? – retrucou, desdenhosa – O senhor por acaso sabia sobre o caso dele com Bellatrix? Sabia que ele é meu pai?

Snape torceu o rosto com desgosto.

— Pare de falar como se tivesse orgulho disso! – esbravejou, sua voz poderosa sacudindo o quarto como uma caixa de brinquedos.

— E se eu tiver? – Bervely disse, com uma tranquilidade e uma segurança que ela não sentia. Ela não precisava – não precisava — de Snape para piorar aquele dia. O que ela precisava era de todo o seu auto—controle para entrar no salão de baile. Isso não ia acontecer se ele ficasse ali gritando com ela.

— Você está tão errada sobre Black! — prosseguiu o professor, alheio ao seu desejo de que evaporasse de volta ao armário mofado do qual viera lhe assombrar — E eu digo isso para o seu bem, Bervely, porque ele vai decepcionar você, vai mostrar sua verdadeira face. E quando isso acontecer, a quem é que você vai recorrer? Quem é que vai segurar as pontas, quando o pai do ano mostrar o grande imbecil que é?

— Você é o grande imbecil! – ela rebateu, transtornada. Snape estava tomado pelo furor do ataque, o que não o tornava menos letal em nenhum aspecto.

— Ele nunca quis nenhum filho, você sabe? – Snape continuou, venenoso – Eu estou errado, ou ele não assumiu você quando soube que Bellatrix estava grávida? Ele fugiu...

— Cale a boca. — Bervely mandou através dos dentes. As coisas que ele estava dizendo não deveriam atingi—la, eram só uma tentativa de desestabilizá—la, certo, precisava ignorar...

— Black é o mais covarde de todos. — Snape declarou, a cercando por todos os lados com sua voz de trovão. – Onde ele estava quando você precisou dele, Bervely, por todos esses anos? Onde ele estava quando você quase se matou, quase se jogou de cima de uma torre e se matou, porque não conseguia elaborar o luto do seu primo?

— Atrás das grades, foi onde ele estava! Por causa de gente como você, que o sentenciou por conta de um preconceito próprio, enviesado, rancoroso e nojento, e nunca lhe deu a chance de se defender das acusações!

Seus ombros tremiam; seu corpo todo tremia dentro do vestido de festa; ela sentia que explodiria se Snape puxasse mais uma corda sequer. Enterrou seu rosto nas mãos, respirando fundo, muito fundo. Não podia perder o controle – essa noite era a grande noite, e com sorte, a última noite de sua agonia. Não tinha o privilégio de ser fraca.

— Olhe... – falou a ele, lutando para firmar a voz. – Eu não tenho qualquer interesse nessa conversa. Se o senhor veio aqui para discutir, vá embora. Esqueça que eu existo. De preferência para sempre.

Snape também parecia estar na borda do descontrole, os olhos coléricos, uma veia pulsando na testa, os maxilares tão travados que podiam ser uma só peça de ferro. Demorou quase uma eternidade para que ele se movesse, rígido, e tirasse algo do seu bolso. Um envelope azul, com selo em cobre, que jogou o coração de Bervely no chão e pisoteou sete vezes.

— Ah, não. — Reconheceu, seus ombros despencando. No afã dos acontecimentos, se esquecera por completo que o prazo para a resposta do Instituto Flamel se aproximava. Há algumas semanas, Bervely teria ficado exultante, mas agora as coisas tinham mudado e o resultado de sua aplicação era a última coisa de que precisava naquele momento.

— A coruja chegou há alguns minutos, mas não pôde encontrá—la aqui, então deixou a correspondência comigo. Eu não abri.

Ele fez o envelope flutuar até a mesa na qual Bervely estava apoiada, olhando para a carta como se fosse um escorpião venenoso.

Apenas dê um fim nisso. Disse a si mesma com severidade. Seja lá qual for a resposta, dê um fim, tire do caminho.

Ela pegou o envelope, lascou o selo e leu as poucas linhas da carta. Não precisou reler, a mensagem era muito clara. Deixou a mão despencar ao longo do corpo, seus olhos formigando incomodamente.

— Eu passei. Consegui a vaga.

Silêncio. Podia sentir seu coração batendo — ou era porque o estava ouvindo bater em suas orelhas? Não foi assim que imaginara esse momento. Certamente não com Snape querendo as suas tripas para fazer um cachecol, nem com ela sentindo que perdia muito mais do que ganhava.

— Algo positivo ao menos. Meus parabéns. Apesar de tudo. — ele grunhiu de má vontade.

Apesar de tudo. Apesar de você ser a filha de Sirius Black. Apesar de você ser uma garota marcada. Apesar do irreversível, do que já foi decidido, sem revogação, ela pensou amarga.

— Eu não vou.

Perdão? — Uma nota de alarme se insinuou na voz dele.

Mas não era nenhuma mensagem criptografada o que ela estava dizendo.

— Eu não vou. – repetiu com maior segurança, arriscando olhar para o padrinho. — Não vou aceitar a oferta. Não vou para a Academia Flamel. Não vou me formar em Alquimia.

Era como se tivesse dado com o fundo de um caldeirão de estanho, tamanho trinta e dois reforçado, bem na cara dele. Ela até julgou ver algum sangue fluindo para a superfície do rosto do mestre de poções, trazendo um vermelho manchado por trás do amarelo macilento.

— Isso é insensato, Bervely. Se está fazendo isso por orgulho, ou para provar um ponto, honestamente...

Eu não tenho nada para provar. — disse, cansada. Colocou a carta sobre a mesa, lembrando que ainda não tinha achado os seus sapatos... ou qualquer outra desculpa para não ter que olhar para Snape naquele momento.

— Se isso é por causa de Sirius Black... — sua indignação crescia a níveis alarmantes.

— Não é por causa de ninguém! É por causa de mim, está bem? De mim! E a decisão é minha, eu decidi que não vou, porque você está falando qualquer coisa? Minha aprovação não te diz respeito. Minha vida não te diz respeito, Severus. Sinto muito se lhe dei essa impressão, mas estou explicitamente a desfazendo agora. Você esfregou na minha cara que Black nunca quis um filho, mas você também nunca pediu por uma afilhada, não é? Então qual a diferença? Agora, saia —ela repetiu com bastante ênfase — da minha vida.

Aquele foi o golpe final no orgulho de Snape. Bervely teve certeza, profunda e coerente em seu coração, que o homem cumpriria o seu pedido à risca, para o fim dos seus dias, e nada no mundo o faria mudar de ideia. Não se permitiu lamentar. Afinal ele tinha lhe trancado e tentado violar sua mente, não para a sua proteção, mas para que ela não atrapalhasse sua vingança mesquinha. No final Snape conseguira, tivera a sua vingança. Ela não merecia que Bervely se sentisse nem remotamente mal por mandá-lo ao inferno.

Snape deu uma última olhada cortante em sua direção, fez uma meia volta e saiu, largando a porta aberta. Bervely acompanhou os passos dele para longe, os passos duros no mesmo ritmo agonizante do seu coração.

Depois, ela se permitiu por um minuto reabrir aquela carta azul e reler as linhas de um futuro que poderia ter sido seu, numa outra vida.

Depois, ela jogou a carta no fogo e seguiu em frente.

— BD –

A festa de formatura aconteceria no Salão Principal com toda a pompa e circunstância. Como no ano anterior, as mesas das casas foram afastadas para as extremidades do salão, e no lugar delas foram dispostas mesas circulares, uma para cada setimanista e sua família. O púlpito onde os professores costumavam fazer as refeições se transformou num pequeno palco, com quatro colunas de bancos, uma sobreposta à outra como numa arquibancada, e era lá onde os setimanistas estavam sentados, com suas vestes negras da escola por cima das vestes de gala, alinhados por ordem de casa e alfabética para receberem os seus chapéus de bruxos formados.

Essa era a parte longa, que Bervely também achara um tanto chata quando assistira à formatura de Tonks no ano passado. O diretor se levantava e falava sobre educação mágica, os valores da escola, os tempos difíceis e os divertidos, blá, blá, blá. Sentada na segunda fileira, no terceiro lugar a contar da esquerda, Bervely passou os olhos pelos convidados que estavam de pé lá embaixo; parentes e amigos próximos dos formandos, a grande maioria em vestes bruxas respeitáveis, um ou outro de terno e gravata tipicamente trouxas. Bervely reconheceu o rosto redondo e sorridente da mãe de Oliver no meio da multidão. Ela segurava a mão de uma garotinha de marias-chiquinhas castanhas, usando um vestido branco de bolas vermelhas com um enorme laço de fita na cintura, que parecia ter sido roubado de uma boneca. A garotinha não conseguia parar de olhar pra cima, embasbacada com o céu encantado.

Passou seus olhos pela multidão mais um pouco. Não demorou a achar a família Tonks, Andie com um espetacular longo cor de caramelo queimado, em perfeita sintonia com seu cabelo e Ted alinhado num terno cinza claro. Um pouco mais à frente estava Nimphadora, mas Bervely quase não a reconheceu; ela usava um vestido alinhado, roxo escuro, com a gola encorpada e acompanhado de luvas até os cotovelos. Escolhera para a noite um cabelo loiro curto, todo desfiado para o lado, como se um vendaval tivesse lhe pegado de surpresa no caminho para a festa. Ela acenou para Bervely, depois cutucou os pais e os fez acenar também. Logo os colegas de um lado e de outro de Bervely estavam reparando quem era aquela família fazendo uma cena no meio do discurso. Bervely desviou o olhar, rápido, fingindo que não os conhecia.

Os representantes das casas levantaram para fazer seus discursos. A primeira foi Tara, a barra de seu vestido aparecendo por debaixo da barra negra das vestes. Ela tinha optado por um vermelho da cor de sangue venoso e sapatos tão altos, com saltos tão finos, que poderiam ser usados para apunhalar o coração de um desavisado.

Por algum tempo, o salão foi preenchido por seu sotaque romeno áspero, cuidadosamente articulado, de forma que todas as pessoas até a última fileira podiam entendê-la e se encantar com a entonação envolvente de suas palavras. Ela falava sobre orgulho, honra ao nome e à família, êxito e destaque em posições importantes na comunidade bruxa, coisas do gênero. Sobre como todos os sonserinos estavam destinados ao sucesso e carreira brilhante. Era um monte de merda, Bervely sabia; logo se deixou capturar somente pelo ritmo das palavras, deixando seu significado passar através de si com desinteresse.

O discurso terminou, as pessoas bateram palmas (os sonserinos mais efusivos do que os demais), e agora era a vez do representante da Lufa-Lufa. Ele falava sobre coelhinhos fofinhos e passeios no arco-íris, e sabe-se lá o que mais que lufanos gostavam. Bervely suspirou, cerrando os olhos e deixando as costas se apoiarem no encosto do assento, tentando ficar calma.

— Tudo bem aí? — Uma voz sussurrou em seu ouvido, ao mesmo tempo em que sentiu uma mão pousar ao seu ombro.

Olhou para trás, espantada. Pela ordem alfabética, não havia como Oliver estar alinhado logo atrás dela.

— Você trocou de lugar! — acusou muito baixo por entre os dentes, fazendo-o sorrir amplamente, nem um pouco culpado. – Sua criatura vil e traiçoeira!

— Parece que estou andando muito com sonserinos.

— Parece que você faz questão de persegui-los!

O Lufa-Lufa terminou seu discurso e voltou pimpão para o seu lugar, de forma que era a vez de Oliver. Ele lhe deu uma piscadela (totalmente desnecessária, pública e condenável que ela não correspondeu) e andou até a frente do palco, o peito estufado, a própria encarnação do orgulho Grifinório. Bervely teve certeza que ouviu duas meninas suspirarem na fila da Corvinal, e se perguntou se, de onde estava, conseguiria chutá-las discretamente.

Foi a vez do sotaque escocês, agradável e sincero de Oliver preencher o salão. Ela reparou sorrisos involuntários surgirem nas faces dos ouvintes, porque Oliver era esse tipo de pessoa pela qual todo mundo se apaixonava instantaneamente. A mãe dele era a mais sorridente de todas. Bervely não achava que alguém já tinha olhado para ela, ou olharia algum dia, com o tipo de adoração que havia nos olhos da Sra. ex-Wood.

Oliver teve a decência de fazer um paralelo com a vida real no final, só para não ficar parecendo que usou seus dez minutos de discurso a contar vantagem por terem vencido o campeonato de quadribol ("De forma que somos todos vencedores, e assim continuaremos na época vindoura..."), e foi quando Bervely localizou Anne no meio dos convidados, perto de um homem que ela quase não identificou, porque Remus Lupin parecia elegante e descansado em roupas que não tinham buracos nos cotovelos. Anne também sorria, ouvindo o discurso que ajudara a transformar em algo digno de ser lido em frente a pessoas que não falavam quadribolês.

Enfim foi a vez de Corvinal, que sem surpresa, elucidou trabalho duro, a persistência na busca do conhecimento e da verdade, e blá, blá, blá, grandes nerds metidos que eram. Quando Penélope Clearwater terminou houve uma nova salva de palmas, endossada pelos adultos, porque ela usara palavras difíceis o suficiente.

Os setimanistas foram convidados, um por um, a se levantar e receber do diretor de sua respectiva casa o seu chapéu de bruxo formado e sua varinha. Era uma entrega simbólica, é claro; os chapéus de ponta curta eram um presente da escola, e representavam as suas posições como magos iniciantes no longo caminho de seu aprendizado mágico.

Um por um os nomes foram chamados, Bervely sendo a quinta. Ela andou até o diretor de sua casa, mas permaneceu com o olhar aferroado para além do ombro de Snape enquanto ele lhe entregava a sua varinha e posicionava o chapéu em sua cabeça.

Sapienter uti futuro— disse ele, a frieza em sua voz se cravando nela como uma lâmina. Bervely podia perceber que ele usava as palavras cerimoniais com ironia, deixando claro que pensava o contrário do que dizia, Use o futuro com sabedoria.

Depois que todos receberam seus chapéus e varinhas, foram autorizados a deixar suas vestes escolares numa pequena plataforma atrás do palco. Havia um espelho para ajeitarem suas roupas, pois dali eles poderiam se juntar aos familiares e convidados, serem cumprimentados e posarem para as fotos. Ela se aproximou de um dos espelhos, ajeitando as mangas do vestido sem saber direito se melhorava ou piorava seu aspecto. Andrômeda lhe enviara um longo vestido negro, liso da cintura baixo e cuja parte de cima era feito de uma delicada renda de rosas negras, adornando seu tronco, ombros e braços até os pulsos. Ele fazia um bom disfarce para seu braço esquerdo, confundindo os traços que eram dela com aqueles pertencentes ao vestido.

Do decote entre os seus seios pendia um colar de obsidiana verde, que lhe fora presenteado há quase um ano. Nenhuma maquiagem ou metamorfomagia fora capaz de disfarçar a palidez do seu rosto ou a expressão mordaz de quem estava caminhando para o abate aquela noite.

Tara estava ali perto, deslizando em seu vestido de seda, que agora ela via, tinha um decote afiado e profundo na frente. Nada apropriado para usar numa escola, mas não era como se a garota se importasse. Ela observou Bervely através do reflexo, sua expressão inescrutável por detrás da maquiagem.

— Grande discurso, Holmes. — comentou para o reflexo da ruiva no espelho, fingindo alinhar o seu penteado. Tara crispou os lábios, sem lhe dignar atenção. Bervely persistiu. — Não pude ver ninguém da sua família lá embaixo, alguém está vindo?

— O que isso interessa à você? – retrucou ela com arrogância.

— Nada, eu só...

— Com licença, Bervely.

Tara deu as costas antes que a garota falasse qualquer outra coisa, dando a volta no púlpito e entrando no salão novamente. Bervely foi logo em seguida; uma pequena banda de três bruxas tocava Spell of Time em visantos de cerejeira, a melodia se infiltrando e emoldurando as vozes excitadas dos formandos e dos convidados.

— Uma salva de palmas para a mais nova bruxa adulta da família! — Andrômeda lhe saudou, cheia de pompa, vindo lhe dar um abraço caloroso que Bervely sabia por experiência que era melhor aceitar de bom grado. Ted também lhe deu os seus cumprimentos, e depois disso Tonks lhe esmagou três costelas, elogiou seu vestido e a cegou por uns quatro ou cinco minutos, batendo o flash de sua máquina encantada na cara deles até ter cerca de quinhentas fotos, se Bervely calculou corretamente.

Remus Lupin e Anne conseguiram atravessar a pequena multidão de parentes e alunos barulhentos até chegar neles. Anne também lhe deu um abraço (Bervely começou a notar que estava sendo lentamente vencida pelos abraçadores da família), exigiu uma foto com todos juntos ("para colocar do lado daquela, você sabe qual") e depois perguntou se o discurso de Oliver não tinha ficado um máximo. Lupin se aproximou, lhe cumprimentou com um aperto de mão civilizado e parabenização sorridente. Bervely confirmou o que vira de longe, do palco: ele tinha um aspecto descansado, seus olhos estavam mais brilhantes e quase não se via traço das pesadas olheiras sob os seus olhos, que ela julgara serem crônicas. Quando ele se inclinou para lhe cumprimentar, murmurou de forma inaudível para qualquer pessoa além dela:

—Pads manda lembranças. Ele queria vir, mas não achamos vestes de gala para um cão do seu tamanho.

— Você o achou? —ela engasgou, recebendo com surpresa a primeira notícia boa do dia.

— É claro que eu o achei. Pra onde é que você acha que eu fui no minuto que deixei a escola? Eu não acredito que não me contou que ele era inocente!

Bervely teve a impressão de que subestimara a intensidade da amizade entre eles, depois de tudo.

— Ele está seguro? — Tinha consciência de que os sussurros entre eles logo iam começar a chamar atenção dos outros, mas precisava saber.

— Sim, é claro que está. Não se preocupe.

E ela não se preocupou. Com aquilo. Aquela noite.

— Rose! — Um gritinho estridente cortou sua linha de raciocínio, vindo de algum ponto da esquerda. – Mãe, mãe, mãe, essa é a namorada do Oli, eu me lembro dela!

A garotinha de maria-chiquinhas castanhas se aproximou puxando a mãe, que sorriu constrangida para Bervely e o resto do Tonks.

— Eu sei, querida. Eu a conheci no verão... rapidamente. Olá, Rose. — A mulher cumprimentou, estendendo a mão em sua direção. Ela tinha os olhos do exato castanho-café do filho. – Parabéns pela formatura!

— Obrigada. — Apertou educadamente a mão da mãe de Oliver, depois olhou para baixo – Olá, Megs.

— OI! MÃE, ela lembra meu nome!

Oliver se aproximou do grupo, e ninguém estava mais constrangido do que ele. Bervely notou, com muita surpresa, que o grifinório vestia um paletó preto e um kilt com tartan quadriculado em tons de verde escuro e vinho. A gravata trazia o mesmo padrão, como mandava a tradição. Ele estava elegante, um bruxo escocês da maneira mais clássica.

— Sinto muito por... Bem, minha irmã. Ah, esse é o meu pai, Octávio Wood. Pai, essa é a Rose.

A Rosesaudou o homem barbudo e quase uma cabeça mais baixo que Oliver, se aproximando para cumprimentá-la. Oliver parecia ter herdado do pai o sorriso fácil, embora não a compleição física. Bervely teve a impressão de que o Sr. Wood era como Oliver, adorado onde quer que chegasse sem precisar fazer esforço. – Minha nossa, eu ouvi tanto o seu nome no verão passado, menina, que é de se pensar que você era a única Rose que restou no mundo!

— Obrigado, pai. Obrigado família pelo talento em me constranger. Vamos nos retirar agora, antes que mais estrago seja feito. – Oliver começou a dizer, mortificado.

— Sr. Wood! – Ted acabara de se aproximar, todo sociável e animado como habitual, praticamente um raio de sol entre as três mulheres Black que o cercavam. – O senhor se lembra de mim, Ted Tonks, comprei o terreno em Catchpole com você há alguns anos!

Eles apertaram as mãos de um jeito efusivo, o Sr. Wood se lembrando imediatamente da venda e perguntando sobre a construção do chalé, o que era a pergunta errada a se fazer, porque é claro que Ted poderia falar horas inteiras sobre seu trabalho em marcenaria. Foi quando alguém teve aquela ideia maravilhosa:

— Por que não nos sentamos todos juntos numa só mesa? Assim podemos colocar a conversa em dia e não separamos o casal! – Isso tinha vindo de Nimphadora. Bervely sentiu a nota de zombaria, bem escondidinha lá no fundo, só para ela, e soube que havia um olhar de horror em seu rosto, enquanto todos os adultos concordavam.

— Eu vou trucidar você. — Bervely avisou para a prima por entre seus dentes, quando eles seguiam para as mesas como um grande comboio de Tonks, Woods, Blacks e Lupin.

— Eu te amo, prima. — A aspirante a auror cantarolou, passando um braço pelas suas costas. – Minha nossa, senti falta dessa sua rabugice. O que você está aprontando essa noite?

— Nada. – Bervely afirmou com completa inocência.

— Srta. Black – Oliver puxou uma cadeira para ela na mesa que estava escrito "Black, Bervely", num pergaminho flutuante acima do arranjo de flores. Ele parecia divido entre satisfação por aquela união interfamiliar e receio de que Bervely começasse a protestar.

— Pare, você está apenas se exibindo. — ralhou ela, se sentando. Ele sorriu. Se ela não conhece Oliver tão bem (ou se ele não fosse tão fácil de ler), quase acreditaria que não havia nada lhe incomodando. Mas estava lá, a sombra por trás do sorriso, assombrando-o.

Oliver se sentou de um lado seu, Anne correu para sentar do outro. À direita de Oliver se sentou Megs, depois sua mãe, e em seguida a ela se acomodaram Remus e Tonks. Andrômeda tomou o lado da filha (ficando assim em frente à Bervely, do outro lado da mesa), e depois dela estavam Ted e Octávio Wood. Assim que as cadeiras encantadas de Hogwarts perceberam o novo arranjo dos convidados elas vieram quicando da mesa reservada a Oliver até a de Bervely, de forma que todos puderam se acomodar confortavelmente.

A música se tornou mais animada e as bebidas começaram a ser servidas. Bervely olhava distraidamente para os lados, procurando através dos convidados. A única pessoa que conseguiu triangular foi Tara, mais ao fundo do salão, perto da mesa de bebidas, conversando com um grupo de meninos que talvez fossem da Corvinal, mas era difícil saber daquela distância e sem os uniformes. A mesa reservada para os convidados de Tara, logo atrás, estava vazia.

— Está pensando em chamar ela pra cá? – Oliver perguntou, ao perceber a direção do olhar de Bervely. Ela fez um ruído de incredulidade com a boca.

— Como se isso não pudesse ficar mais estranho. — devolveu, apertando os lábios. — Ou você quer apresentar ela aos seus pais como sua outra namorada? Ou a minha namorada...?

— Ok, já entendi seu ponto. — ele resmungou, deixando Bervely saber que tinha lhe deixado sem graça. Talvez ele nunca superasse o fato de que se deitara com duas sonserinas ao mesmo tempo, uma das quais sempre jurara odiar, e para sempre valeria a pena atormentá-lo sobre isso.

— Hey, eu sou a Megs! — Meghan exclamou através de Oliver e de Bervely, se esticando toda. A menina estava sem os dois dentes superiores da frente. — Sou irmã do Oli, e você?

Anne a olhou daquele jeito complacente e superior que as crianças mais velhas olham para as mais novas, sorrindo com educação.

— Sou Johanne, irmã da Berv... hum, da Rose.

— Se você é irmã da namorada do Oli, o que você é minha então? – a menininha perguntou, cheia de curiosidade.

Megs —Oliver a advertiu, ao mesmo tempo em que Tonks respondia através da mesa:

— Irmãs de consideração. Mas só depois que eles se casarem.

—LEGAL! Eu sempre quis ter uma irmã, e você é bonita! Posso ver seus óculos?

Bervely lançou seu olhar mais assassino para a prima através da mesa, ao que Tonks mordeu o lábio, divertindo-se. Ao seu lado, Remus Lupin, que discretamente fingia não ouvir a conversa, retraiu um sorriso, olhando para o outro lado.

Ótimo. Com Tonks ali, era só uma questão de tempo para toda a mesa estar se divertindo às custas dela. Porque a convidara mesmo?

— Oli, Oli, me põe no seu colo pra a Rose ver meu vestido!

— Jesus Cristo, Meghan, você é impossível. — ele reclamou, ajudando-a a subir em seu colo. A garotinha estendeu sua saia direito sobre as pernas e apontou para as bolas vermelhas, que agora Bervely notava não serem bolas, mas enormes morangos.

— Olha Rose, meu vestido é da Moranguinho! O seu vestido é de quê?

Anne começou a rir ao seu lado e através da mesa, Bervely viu Tonks se preparar para responder a pergunta. Ela se adiantou apressadamente.

— Meu vestido não é de nada, Megs. Mas estou bastante surpresa que o seu seja de morangos.

— Se a Bervely pudesse, ela teria um vestido de limões bem azedos, né, prima? — Tonks comentou, sorridente, prestativa e sem medo da morte. Bervely gostaria que sua perna fosse longa o bastante para chutá-la por debaixo da mesa. Talvez ela conseguisse alcançá-la se fizesse um pouco esforço com a metamorfomagia...

— Vou pegar umas bebidas. Me acompanha, Rose? — Oliver sugeriu, pressentindo o clima perigoso que aquele lado da mesa estava tomando.

— Mas eles estão servindo os drinks na mesa, Oli. — disse Nimphadora bondosamente. Bervely já estava de pé, no entanto, dando a volta da sua cadeira.

— Vamos.

Oliver ainda ria quando eles chegaram até a mesa de canto, onde enormes jarros de bebida estavam dispostos com líquidos coloridos, borbulhantes em seu interior. Eles eram parte da decoração, já que os elfos estavam mesmo servindo nas mesas, mas isso não impediu Oliver de alcançar um copo e despejar um pouco de delírio fuMeghante nele. Era uma das poucas festas em Hogwarts em que bebidas alcoólicas eram permitidas, já que agora eles eram, pelo menos legalmente falando, adultos.

— Minha nossa, sua prima está inspirada hoje.

— O quê? Ah, é só jeito dela de demonstrar seu amor por mim. Ou isso, ou ela está com impulsos suicidas, o que eu posso facilmente dar um jeito. — Enquanto falava, Bervely passava o olho pelo salão daquele novo ângulo, atenta a qualquer rosto diferente na multidão.

— Você está esperando mais alguém chegar? — Oliver perguntou. Ela aceitou o copo de sua mão, mas não bebeu.

— Não.

Ele lhe olhou longamente. Sabia quando ela mentia. Talvez o problema fosse que já estivessem juntos a tempo demais e estavam começando a conhecer um ao outro mais do que o recomendado.

— Vamos dançar. — sugeriu ele por fim, pegando a mão dela.

— Eu não danço. — lembrou-lhe, fazendo-o rir. Dissera o mesmo naquele dia na pedreira, a primeira vez que saíram juntos, na festa proibida de Halloween do sexto ano.

— Eu também não, lembra? Mas é isso ou voltar para a mesa, e eu não acho que Megs vai sossegar antes de lhe mostrar os sapatos, as meias e a calcinha da Moranguinho dela.

Ela pensou em recusar, afinal estavam em público, mas o que importava isso agora? Dali em diante, não seriam mais sonserina e grifinório, pelo menos não com o peso das exigências de suas respectivas casas pairando sobre suas cabeças.

— Tudo bem. – suspirou, vencida. Deixou seu copo intocado sobre a mesa, permitindo que Oliver a arrastasse para a pista de dança improvisada no centro do salão, onde as estrelas refletidas brilhavam mais forte. Pouca gente estava dançando, mas ao menos a música era lenta e eles quase não precisavam se mover.

— Você dança sim — ele constatou, surpreso, ao perceber que ela acompanhou seus movimentos sem tropeçar nos próprios pés, se confundir ou pisar nos pés dele. Na verdade Bervely o seguia com certa graça, ondulando na saia do longo vestido preto.

— Eu nunca disse que não sabia dançar. Apenas que não danço, se eu puder escolher. Eu tive aulas de dança de baile quando era pequena, na Mansão Malfoy. Os instrutores eram velhos horríveis, fedendo a naftalina, que empurravam meus joelhos quando eu errava alguma coisa. Então... eu odeio.

O peito dele vibrou um pouco contra o dela. Oliver os girou pelo salão; ele tinha o jeito, mas não a técnica. Dava para ver que toda a sua aprendizagem em dança fora modelada por tentativa e erro ao longo da vida.

— E comigo, você odeia? — perguntou suavemente em seu ouvido, os levantando pouco a pouco para circular até o outro lado da pequena pista. Bervely pegou vislumbres de olhares incrédulos, espantados e até invejosos dos colegas. Vão todos ao inferno.

— Não. — murmurou, deixando ele lhe levar pela melodia, para um lado e outro, e depois de volta ao princípio.

— Eu gosto de dançar com você. — ele sussurrou contra seu pescoço exposto, num tom que era quase um pedido de desculpas. Era feito da mesma matéria que estava atrapalhando a plenitude dos sorrisos dele aquela noite. — Poderia fazer isso pra sempre.

— Ah, Oliver. — Ela fechou os olhos e apoiou o queixo no ombro dele. — Nenhuma música dura para sempre.

— BD ­—

Ao voltarem para a mesa, duas conversas paralelas estavam acontecendo. A de Ted, Octávio e Andrômeda, que era sobre a situação do mercado bruxo de ações imobiliárias, e a de Tonks, com Lupin e a mãe de Oliver, a qual a metamorfomaga monopolizava, falando sobre seu treinamento de auror de um jeito empolgado. O loiro de seu cabelo começava a pender para o rosa, mas nenhum dos três parecia ter percebido.

Do outro lado da mesa, Megs estava tagarelando com Anne, que, com uma mão apoiando o queixo, parecia prestes a cair no sono. Pelo que Bervely pôde perceber, a irmã de Oliver explicava com minúcias uma história que tinha Moranguinho como protagonista, e que poderia ter acontecido num livro ou num filme, Bervely não tinha certeza.

— Ela está um pouquinho obsessiva. — justificou Oliver, dando um cascudo carinhoso na irmã e lhe pedindo para mudar de assunto, mas sendo prontamente ignorado.

— Vamos pedir à um elfo para trazer um balde de morangos para ela, quem sabe ela come até enjoar e muda de assunto.

— Não acho que é assim que funciona. — le riu, pegando outro copo de Delírio FuMeghante de uma bandeja flutuante passando perto da mesa.

— Melhor maneirar nisso. — Ela indicou a bebida. Oliver deu de ombros.

— Você não vai beber nada?

— Estou me poupando para mais tarde.

Oliver virou metade do conteúdo do copo num gole só, provando para quem quisesse que se poupar não fazia parte do modus operandi Grifinório. Quando a conversa sobre o mercado de ações murchou, Andrômeda sacou a câmera e tirou mais fotos deles, explodindo aquele flash barulhento em suas caras e deixando todos com luzes pretas piscando nas vistas.

— É para o seu álbum de escola, Bervely! – Ela censurou a sobrinha, ao entreouvir seus resmungos.

— Mas eu não tenho um álbum de escola.

— Exatamente! Nunca é tarde para começar um.

Ia retrucar que a formatura talvez fosse a definição de tarde demais, pelo amor de Merlin, mas do outro lado da mesa, Remus e Sra. Mãe de Oliver explodiram em risadas incontroláveis por algo que Tonks acabara de dizer. O cabelo dela ficou rosa chiclete tão vivo que quase cheirava à tutti—fruit; o sorriso genuíno e amplo do rosto de Remus o deixou dez anos mais novo e duas vezes mais bonito. Era como se ele realmente aparentasse a idade que tinha, trinta e quatro, e tivesse sido feliz nos últimos doze. Bervely viu que a diferença não passou desapercebida para a prima; ela o olhou com a boca ligeiramente aberta, as pontas de seu cabelo ficando vermelhas.

— Aquele é Lucius Malfoy? O que ele está fazendo aqui? — Ted perguntou, desviando a atenção de Bervely para onde apontava.

O bruxo, arrogante, aristocrático e parado como se o universo lhe devesse reverência, parecia estar ali quase por acidente.

— Ninguém da família Malfoy está se formando. – Oliver observou. – A não ser que... Rose, você não comentou uma vez que tem um parentesco com os Malfoy? Talvez ele veio ver você?

Em sua inocência, Oliver não tinha como saber o que o seu comentário suscitava nos diversos ali presente. Por exemplo, ele não entendia o olhar protetor de cria que surgiu no rosto de Andrômeda. Ele não podia compreender o desconforto de Nimphadora ou a ruga de preocupação se formando na testa de Ted.

— Eu não acho que seja o caso. – Bervely disse baixo, desejando que o assunto nunca tivesse sido trazido à tona. — Então, Megs... Oliver me falou que suas meias também são de moranguinho?

Não precisou dar a deixa duas vezes. A menina destrambelhou a falar e exibir orgulhosamente as meias ("DA Moranguinho, que é uma menina, mas que também é um morango"), e tudo que Bervely teve que fazer foi ignorar o olhar desconfiado de Andrômeda sobre ela, através da mesa.

A mãe de Oliver (Bervely achava que era tarde mais para aprender o nome dela agora) decidiu que já estava tarde e era hora de Meghan ir para a cama, então ela se despediu de todos e fez a filha se despedir também.

Sem surpresa, Meghan era da turma dos abraçadores. Ela pulou no colo de Bervely sem aviso e envolveu seu pescoço num abraço estrangulador que vinha acompanhado de um gritinho. Bervely olhou para Oliver com um desesperado e mudo pedido de ajuda, mas como sempre ele estava achando graça.

— Foi tão bom te ver se novo, Rose! Quando você vai visitar a gente? Vou te mostrar todas as minhas Barbies! Ah, você leva a sua irmã Johanne? Johanne, você gosta de Barbies?

— É de comer? — A menina perguntou, pensando nos moranguinhos. Por alguma razão, Oliver e a mãe explodiram de risadas.

— Vou acompanhar vocês até a lareira. — Ele avisou para ambas, e soltou um "volto já" para o resto da mesa.

— Rose, Rose, você vai na minha casa? Você brinca de casinha comigo? Você casa com meu irmão e vira minha escrava de brincadeiras e penteados pra sempre, por favor, por favor, por favorzinhoooo? Eu vou te chamar de limãozinho e te amar pra sempre! — Tonks guinchou, imitando com perfeição a voz de Megs, fazendo uma parte da mesa rir, o que obviamente não incluía Bervely.

— Muito engraçado, Nimphadora. Como se sente em seu último dia na face da Terra?

— Você vai me matar, Limãozinho? — Ela piscou grandes pestanas cor de rosa, seu cabelo ficando do exato tom e formato de um morango maduro, incluindo as pintinhas das sementes.

Bervely estava se preparando para espetá-la no coração com a faca de petiscos e lidar depois com as consequências quando uma garota ocupou a cadeira ao lado de Lupin, que fora recém-abandonada pela mãe de Oliver. Era Sia. Estava deslumbrante num vestido branco, o cabelo arrumado num penteado intrincado, os olhos já naturalmente grandes destacados com maquiagem acobreada.

— Professor Lupin — ela cumprimentou com maciez, usando todo o potencial sexy e rouco que a sua voz tinha, especialmente depois dos drinks que certamente tomara aquela noite.

Remus deu um pequeno pulo, como se a cadeira tivesse dado um choque em seu traseiro.

— Srta. Rockwoood.

— É Sia, amor. Você não é mais meu professor, se lembra? Pode ficar à vontade em usar o meu primeiro nome.

Lupin deu um sorriso mais amarelo, tão sem jeito quando um professor podia ficar quando abordado por sua aluna dezessete anos mais nova.

— Ah. Hum... Parabéns pela sua formatura.

Sia estendeu sua mão magra e cheia de anéis caros para ele.

— Me concede a honra de uma dança, Remus? Em nome da celebração desta noite?

O que Bervely ouviu foi: será que o senhor me acompanharia, de bom grado e bem mansinho, para o meu ninho, onde eu vou me enrolar em torno de você e quebrar seus ossos um por um, e depois te devorar inteiro?

Lupin pareceu ter ouvido mais ou menos a mesma coisa.

— Acho melhor não, eu...

— Você não tem mais desculpas. — Sia sorriu amplamente. Tinha os dentes compridos e muito brancos, uma arcada impecável. Na verdade, Sia era encantadora quando se empenhava. Bervely não sabia como Lupin teria resistido a um ano inteiro de suas provocações, aula após aula, enquanto lecionara em Hogwarts. — Você não é mais meu professor e eu não sou mais menor de idade. Todas as regras ficaram para trás, lobinho, e agora só há eu, você e diversão...

Lupin pareceu prestes a entrar em combustão, tentando recusar educadamente, mas Bervely achava que talvez ele levantasse e saísse correndo da emboscada a qualquer momento.

— Na verdade ele tem sim uma desculpa. — disse Tonks de repente, tomando partido para pôr um fim no sofrimento do "lobinho". — Ele me prometeu a próxima dança, que é exatamente essa que está começando agora. Vamos, Remus?

Que outra opção ele tinha? Lupin levantou e levou Tonks para a pista de dança, sob o olhar desapontado de Sia.

Mal sabia ele que seu sofrimento estava apenas começando.

— BD —

Os convidados mais velhos estavam indo embora, em sua maioria. Em pouco tempo só restariam eles, os formandos, no salão principal. Eles teriam até o amanhecer para se despedir de Hogwarts, dos colegas e da infância. Quando o dia virasse, precisariam ser adultos e encarar o mundo real.

Passava das onze agora, e a cada número que o relógio avançava, o coração de Bervely se apertava mais um pouco. Sequer reparou quando Tara Romansek surgiu ao seu lado na mesa de doces, a não ser quando ela estendeu uma mão e lhe deu uma ordem.

Venha dançar comigo.

Bervely olhou para um lado e outro, analisando com quem mais a garota podia estar falando. Mas não havia mais ninguém, só ela. Tara tinha bebido um bocado, o que Bervely percebeu pelas suas pálpebras um pouco tombadas, a atitude de 'foda-se o mundo, farei o que quiser' ligada na potência máxima.

Bervely não tinha bebido nenhuma gota. A bebida não era confiável aquela noite.

— Tudo bem — suspirou, cansada de antagonizar. Haveriam outras coisas pelo que brigar, antes que a noite terminasse. Discutir com Tara era desgastante, roía seus nervos.

Tara a arrastou para a pista, ainda firme em seus saltos, e a abraçou pela cintura quando a música começou, uma balada lenta sobre uma paixão entre o sol e a lua. O cheiro alcoólico adocicado dela também a abraçou, como sempre fazia. Bervely passou seus braços em torno do pescoço da colega e acompanhou seus movimentos, cuidando para não chegar perto demais.

Mas a atitude ‘foda-se o mundo’ estava começando a contagiá-la.

— Eu amo o seu vestido. — disse Tara, rouca e arrastando os erres romenos, afagando um ponto em sua cintura. Bervely gostaria que ela não fizesse isso, pois tirava seu foco.

— Obrigada. — Tentou pensar de forma racional. — Você me odiava há um par de horas. O que te fez mudar de ideia?

— Eu estou com medo, B.

Elas giraram uma e duas vezes, nos loopings da música, quando a lua, doente de amor e arrasada pela impossibilidade de seu relacionamento, tinha a brilhante ideia de se afogar no mar.

Realmente, quem escrevia aquelas músicas?

— Do que você tem medo? — perguntou, rodopiando a ruiva para longe dos tios. Andrômeda e Ted dançavam tão entretidos um no outro e tão colados que eles não teriam notado se Bervely dançasse com Rúbeo Hagrid. Eles pareciam muito mais com um casal de adolescentes apaixonados do que metade dos casais de estudantes naquela festa.

— Da vida lá fora.

— Você não precisa ter. – suspirou. Era a única que podia mentir ali, afinal. Precisava se aproveitar disso.

Tara riu com acidez em seu ouvido, quase tropeçando quando mudaram de direção.

— Você sempre foi a mais corajosa de nós duas.

— Humm. Não tenho muita certeza disso. — Quando rodaram de novo, Bervely teve um vislumbre de Oliver numa extremidade do salão, falando com seus amigos de casa. Trocaram um breve olhar, o tempo de uma batida. Havia um vinco entre as sobrancelhas bagunçadas de que ela aprendera a gostar tanto.

— Você lembra... Você se lembra da nossa garrafa? Nossa poção especial de parceiras de magia do primeiro ano? – Tara devaneou, rindo um pouco, como se o fato fosse engraçado.

— Sim, claro. Que tem ela?

— Mandei trazer da Romênia. Achei que seria uma boa a gente beber hoje, sabe... Para celebrar. Depois que você foi embora de Durms, achei que seria impossível nos formamos juntas... Então isso é meio que um milagre. Eu não quero que nenhuma briga estúpida fique em nosso caminho hoje. Eu quero celebrar com minha parceira de magia e brindar com ela.

Bervely sentiu aquela pontada já conhecida de culpa. Ao invés de dar uma resposta direta, ela rodopiou Tara mais uma vez, aproveitando um pico sonoro da música (a lua, tendo inundado a Terra após a sua genial tentativa de afogamento, pedia desculpas ao sol por sua estupidez).

Foi quando ela viu. Ela o viu. Parado perto da porta, olhando diretamente para onde estavam. Como uma aparição. Um anjo do passado. Seu peito doeu de uns cinco jeitos diferentes, todos terríveis, e Bervely quase tropeçou na barra do seu vestido. Tara a segurou no último momento.

— Ops. Bebeu além da conta, mocinha?

— Parece que sim. — Ela se desvencilhou de Tara o mais sutilmente que pode. — Vou voltar para a mesa, preciso perguntar uma coisa à minha prima.

Se Tara estava chateada com a interrupção abrupta, não demonstrou. Seus olhos, normalmente muito afiados estavam anuviados. Ela os estreitou para Bervely.

— Nós brindamos mais tarde, então?

— Claro.

— BD —

Através da sala, os olhos do homem ainda estavam cravados nela como duas estacas. Bervely respirou fundo (será que a alma de alguém podia ficar trêmula?) e andou a passos controlados até a própria mesa. Só Tonks e Remus ainda estavam lá, envolvidos em uma conversa empolgada sobre... eletricidade trouxa? Para harmonizar com o tema, o cabelo de Nimphadora agora estava laranja elétrico. Céus, ela era tão vergonhosamente óbvia.

— Dora, uma palavra?

— Quê? Ah, sim. — Dragada de volta ao mundo, ela precisou piscar algumas vezes para se lembrar quem era Bervely e porque ela se importava — Que foi?

— Vem aqui, é particular. — chamou, indicando a cadeira ao seu lado.

Tonks pediu desculpas pelos maus modos de sua “prima caçula" e Remus fez um aceno de "sem problemas". A metamorfomaga deu a meia volta na mesa e se sentou na cadeira com bondosa tolerância.

— Em que posso servi-la, sua criança selvagem achada no mato e criada com cutucões de vara?

Bervely não tinha tempo para aquilo.

— O bruxo que eu te falei na carta, você pesquisou sobre ele?

— É claro que sim. Mas honestamente, não achei muita coisa... Nada suspeito ou que valha investigar, não sem testemunhas ou ao menos uma vítima. E sinceramente, Bervely? Esse cara tá morto faz um tempão.

— Eu não acho que ele esteja. — afirmou, inquieta.

— Tá, mas o que te leva a pensar...

— Apenas ouça. Você garante pra mim que se ele estivesse solto por ai, isso seria o suficiente para uma averiguação? Se alguém que o conhecesse pudesse garantir que há pelo menos uma possível vítima?

— Sim, claro. Mas, Bervely...

— Você trouxe o seu Acionador? — perguntou, desviando o assunto de propósito.

— Lógico que que sim, ganhamos um ao entrar na Academia, precisamos andar com ele o tempo todo... Mas eu te disse isso por carta. Será que você não presta atenção em nada que eu escrevo? Honestamente, Limãozinho...

— Preciso ir agora. — Bervely se levantou, tomando um fôlego. Tonks ficou olhando para ela um tanto perdida, observando a prima se afastar.

Bervely não foi muito longe. Estava a cerca de dez metros das portas duplas quando Oliver apareceu em seu caminho. Já não havia muito vestígio do sorriso de antes em seu rosto.

— Podemos dar uma volta?

— Não é uma boa hora, Oliver. — devolveu, apreensiva. Oliver virou a cabeça na direção que ela olhava, mas não viu nada ali. Não entendeu a expressão ao mesmo tempo vulnerável e decidida nos olhos dela.

— Isso é importante, Rose. Muito.

Ela suspirou, olhando para o relógio pendurado no alto das portas duplas, que marcavam onze horas e quarenta e cinco.

— Tudo bem. Se for rápido.

— BD —

A clareira por detrás da clareira. Há quanto tempo eles não iam ali, só os dois? Bervely não se lembrava de nenhuma vez desde o fim do ano passado. Era formatura de Tonks, ela estava usando seu vestido verde com uma cobra de prata nas costas, e Oliver (gravata verde para combinar com o seu vestido) lhe pedira uma chance pra eles, uma espécie de vale anti-pé-na-bunda. Ela deu um riso tenso, sem acreditar em como as coisas eram ridiculamente simples há um ano atrás.

— O que é engraçado? — ele perguntou, curioso, andando até a borda aberta da clareira, onde o campo e as estrelas eram visíveis. Bervely se aproximou também, tendo alguma dificuldade por causa dos saltos na terra fofa. Ele a apoiou, segurando-a pelo cotovelo.

— Só lembrando da sua gravata verde.

— Você não gosta dessa? — Ele passou os dedos pela gravata quadriculada e tipicamente escocesa que usava, fingindo-se ofendido.

— Não. Não combina com meu vestido.

— Não precisa ser da mesma cor para combinar, sabe.

Oliver a puxou contra si. Bervely tentou parecer relaxada, a última coisa que ela sentia. Apoiou o lado do rosto no peito dele, ouvindo o coração do capitão da Grifinória bater um pouco fora de compasso. Aquele era o último dia em que ele poderia ser chamado de capitão... O que de certa forma era triste, porque era algo que ela apreciava sobre Oliver.

Por outro lado, gostava da ideia de que ele não seria capitão para mais ninguém depois dela. Não o capitão da Grifinória, pelo menos. Enquanto divagava, sentiu Oliver tomar fôlego para dizer alguma coisa e desistir no meio do caminho.

— Apenas diga de uma vez. — suspirou, vencida por uma noite que nem sequer estava perto do fim.

— Não é algo ruim. — ele disse na defensiva. Os braços que estavam passados em torno da cintura dela ficaram tensos. — São duas coisas, na verdade.

— Certo. Vamos ouvi-las.

— Bom... Você sabe o jogo final do campeonato, em que todo mundo, até você, concordou que eu joguei fantasticamente?

— Eu nuca usei essa palavra.

— Acontece que haviam olheiros de um time de quadribol nesse jogo. Às vezes eles visitam a escola, assistem um jogo e reparam em quem tem talento e potencial para compor algum time da Liga Europeia. Bem... os caras do Pluddlemere United me viram jogar e gostaram de mim. Eu recebi um convite hoje, bem de surpresa na verdade, me chamando para fazer os testes para a equipe reserva. Os testes são burocracia sabe, eles praticamente já confirmaram que me querem lá, começando o programa de imersão intensiva esse verão.

— Imersão intensiva? — ela repetiu, identificando um certo amargor no significado do termo.

— É. Isso significa treinar um bocado, todos os dias, viajar com o time para onde quer que ele vá, estar disponível vinte e quatro horas e todo o resto.

— Isso não é meio que o seu objetivo de vida? Tipo... Grande Sonho do Oliver, edição capa dura e ilustrada?

— Sim! Bem, seria capa dura se eu fosse titular, mas se eu fizer tudo certo, é só uma questão de tempo. Quero dizer, eu sou bom. Eu vou me esforçar. Eu vou ser o melhor reserva e então serei bom demais para ser só reserva, e eles vão ter que me promover. — O tom febril se fez notar em suas palavras, carregando o rastro do ardor apaixonado por quadribol que ela já conhecia.

— Então você já decidiu que vai?

— Honestamente, Rose... Não há muito o que decidir. O Pluddemere é um ótimo time, quero dizer, não é o meu favorito nem o campeão da Liga, mas é bom, e eu acabei de terminar a escola... não podia haver uma oportunidade melhor.

— Claro. – Bervely se mexeu desconfortável no abraço dele, que de repente tinha ficado estranho. Oliver resistiu em deixá-la se afastar.

— Quero dizer, você tem seus grandes planos também. E aquela aplicação para a escola dos alquimistas?

— Recebi o resultado hoje. — disse com frieza. — Eu passei.

— Ah, Rose, isso é ótimo! Parabéns!

Oliver teve sua empolgação minada ao perceber que ela não parecia nem um pouco exultante.

— Eu não vou. — Bervely suspirou. — Recusei o convite.

Por que? —Ele se escandalizou. No mundo encantado de Oliver, recusar uma vaga numa instituição prestigiada como a Flamel era uma heresia que nenhuma razão no mundo poderia justificar. — Você pensou direito nisso? Eles não oferecem essas coisas duas vezes!

— Não perca seu tempo. Snape já me disse tudo sobre o quão idiota eu sou por recusar.

— Oh, ele deve ter ficado puto da vida.

O que era um eufemismo, mas honestamente, já tinham inventado uma palavra para o humor de Snape após aquela nova rodada de decepção com ela? Não que fizesse diferença, Bervely relembrou a si mesma.

— Então... — Oliver chamou, depois de um tempo em um silencio que começava a pesar. – A segunda coisa.

Ele se moveu para alcançar algo no bolso. Bervely se aprumou, deixando de se apoiar nele, uma crescente agonia preenchendo seu corpo. Ela olhou para trás, na direção do castelo, se perguntando que horas eram. Será que seria muito ofensivo se ela fizesse um feitiço horário para verificar?

— Rose?

Havia um anel na mão dele. O fino aro de ouro cintilou ao encontrar-se com a pouca iluminação que filtrava através das árvores, e algo dentro dela se contorceu de horror.

— Ah, Merlin.

— Eu só pensei... estamos indo e vindo há mais de um ano. E eu não sei como as coisas vão acontecer a partir de agora mas eu gostaria... eu gostaria que fosse com você, de um jeito ou de outro.

— Você vai estar do outro lado do país. — Ela lhe lembrou, os lábios gelando. – E eu vou... eu nem sei onde vou estar, honestamente.

— Somos bruxos, podemos dar um jeito. — Oliver forçou o otimismo, tentando um sorriso – Olha, Rose, isso pode parecer precipitado, mas... é só um anel. Só quer dizer que estamos dando um passo adiante.

Ele pegou sua mão direita, trazendo-a para o alcance dos seus olhos. Bervely achava que o oxigênio da clareira estava sendo drenado por algum encantamento cruel.

— Oliver, esse não é um bom momento. Na verdade, não poderia ser um momento pior.

Ele ainda segurava sua mão entre os dedos. Sem querer olhar para seu rosto, Bervely reparou que o anel tinha uma pequena pedra verde e outra vermelha, que se entrelaçavam como se se abraçassem.

— Você está fazendo isso de novo. — disse ele, num tom diferente do esperançoso de um minuto atrás. Sombrio, mas também resignado. Como se já esperasse o que estava acontecendo agora.

— O quê? O que eu estou fazendo? — perguntou, ficando na defensiva. Velhos hábitos eram difíceis de abandonar.

— Isso! "Não é um bom momento, Oliver". Nunca é um bom momento, sempre tem alguma coisa acontecendo na sua vida que é mais importante do que nós dois! Essas coisas nas quais eu nunca sou incluído!

— Não faça isso. — Lhe advertiu, muito séria. Ela sabia a razão pela qual ele estava tendo um surto de sinceridade, mas Oliver não.

— O quê? Dizer como eu me sinto? Dizer que eu estou cheio de ser deixado de lado sempre que algo mais importante surge na supersecreta vida de Bervely Black? Que depois da nossa conversa aquele dia, quando fizemos as pazes, eu pensei que você poderia passar a se importar, e que eu fui um idiota por esperar isso?

— Oliver, já chega. Você bebeu demais, mas que droga.

— Eu não estou bêbado, nem perto disso. — retrucou ele, chateado. Tinha largado a mão dela a essa altura. Seus olhos brilhavam no escuro, partidos de mágoa.

— Não foi o que eu quis dizer. Não deveríamos ter essa conversa hoje, é uma noite atípica...

— É claro que é atípica! É a nossa formatura, pelo amor de Merlin! O dia que devíamos nos divertir, ser saudosos sobre o que passou e quem sabe pensar um pouco no futuro! Não ficar olhando sobre os ombros dos outros, completamente fora do ar, como você ficou a noite inteira!

Bervely esfregou seu rosto nas mãos, agoniada. Precisava saber que horas eram, tinha medo de que se não fosse pontual, ele viesse atrás dela. Não queria estar com Oliver quando acontecesse.

— Tudo bem. — disse, voltando-se para ele com renovada deliberação – Você está chateado, eu entendo. Mas eu realmente não posso fazer isso agora, Oliver. Mais tarde...

— Será que você vai poder mais tarde, Rose? Ou algum dia, realmente? Algum dia vai haver um espaço pra mim? Por que eu acho que não. Eu estou começando a ter certeza que não.

— Isso é ridículo. Vamos conversar amanhã. — Ela meneou a cabeça, vendo que ele ainda segurava o anel no punho apertado. — É melhor voltarmos ao castelo.

— Não. — O grifinório fincou seus pés na terra da floresta. Estava mais rouco que o normal. Mesmo na pouca luz, ela conseguiu ver a resolução se formando em seu rosto, dura como pedra. — Não vai ter outra conversa, só essa. Então, apenas responda de uma vez.

Bervely estreitou seus olhos. O que raios ele estava dizendo?

— Eu não gosto de ultimatos, Wood. — lhe alertou perigosamente.

— Então é isso. — ele assentiu com rigidez. O anel foi para o seu bolso de novo, Oliver abaixou o rosto e olhando para baixo, inspirou longamente, seus ombros estremecendo. — Quer saber, Rose? Vá em frente. Você tem outras coisas para fazer, não é? Eu não quero te atrapalhar.

Só que agora, agora que ela percebia o que ele estava fazendo, seus pés tinham virado chumbo.

— Oliver... você está terminando comigo?

Ele não respondeu imediatamente. Demorou até que olhasse para ela, e quando o fez, o peito de Bervely ardeu. Os olhos do capitão da grifinória estavam injetados, cheios de desamparo.

— É. É, eu acho que eu estou.

Bervely deu um riso incrédulo pelo nariz, meneando a cabeça. O acaso era uma vadia com ela, nunca falhava.

— Você vai se arrepender disso amanhã, sabe. — disse com sinceridade. Ele assentiu, dando um sorriso amargo.

— Provavelmente. E pelo resto da vida. Não que faça diferença.

Ela levou sua mão até o rosto; estava trêmula. Lá longe, em algum lugar, um relógio badalou meia noite. Era encantado para soar através dos terrenos da escola, lembrou. O grande relógio da torre de Hogwarts.

— Por favor, Rose, vá logo. — ele pediu, sua voz quebrando. — Eu quero ficar aqui mais um pouco. Sozinho.

Bervely abriu a boca... e fechou em seguida. Não havia mais nada a dizer. A dimensão daquilo tudo nem a alcançava, mais iria. No seu peito, o coração parecia um animal se debatendo no escuro.

— BD —

Focou em seus saltos afundando na grama, durante o caminho de volta. Se sentia entorpecida, um grande vazio insondável dentro dela. Talvez seja melhor assim, não parava de repetir mentalmente. Talvez sejam só as coisas se arranjando do melhor jeito.

Bervely sabia que quando atravessasse a orla da floresta, ia ter que deixar Oliver e qualquer outro sentimento para trás. Coisas que a enfraqueciam, que a distraiam, precisavam sair do caminho agora.

O castelo de Hogwarts estava iluminado suavemente pela luz da lua minguante, como numa pintura. No minuto em que pisou no gramado, soube que não estava mais sozinha. Uma sombra se aproximou suavemente, até alinhar seu passo com o dela.

— Noite difícil?

Ergueu seu queixo, olhando as estrelas. Era de lá que a força devia vir, certo? Para os Black, ao menos?

— Um pouco. Mas está tomando seu rumo.

Seu acompanhante sorriu amplamente.

— É um deleite encontrá-la de novo, Srta. Black.

Bervely sorriu, olhando-o de perto pela primeira vez. Para o seu corpo verdadeiro, para o seu rosto, para os olhos da cor do mar de verão da Normandia, da cor do seu passado e naquele momento, do seu futuro também.

— Gostaria de poder dizer o mesmo, Sr. Carmichael.

(Continua...)

Notas finais
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