Indigna Rosa Negra
67 O Adeus da Rosa - Parte III
Notas iniciais
Save your twisted enemy
So you might earn forgiveness
You know your whole world is waiting
So why can't you speak?
(Salve seu inimigo retorcido
Então você pode ganhar perdão
Você sabe seu mundo inteiro está esperando
Então, por que você não pode falar?)
Enquanto retornava ao castelo na companhia do homem que quase lhe matara da última vez, Bervely se viu capturada por uma inesperada lembrança do passado.
Era início de verão em Durmstrang, o que significava que as primeiras férias escolares da sua vida estavam se aproximando. De um ponto alto dos terrenos da escola, ela e Hector observavam a cerimônia de formatura do sétimo ano, que não tinha nem metade da suntuosidade da que acontecia em Hogwarts todos os anos. Acontecia durante o dia, antes que o navio de Durmstrang chegasse para levá-los até as suas casas, e tudo que exigia era a presença de um adulto da família para servir de testemunha à entrega oficial da varinha.
Normalmente as formandas entravam com seus pais e os formandos com as suas mães, que os acompanhavam até o tablado onde o diretor da escola os cumprimentava, posicionava o chapéu curto em sua cabeça e os proclamava bruxos graduados.
Bervely tinha quase doze anos, idade em que uma preocupação muito distante pode se tornar algo muito urgente. Ela acabara de pensar: quem iria entrar com ela quando se formasse? Quem lhe entregaria a varinha de bruxa adulta? Ela não tinha um pai, e não conseguia imaginar Lucius Malfoy preenchendo esse lugar. Quando manifestou sua inquietação em voz alta, Hector a resolveu com grande facilidade:
— Não seja boba, fadinha. É claro que eu vou entrar com você.
Ele disse aquilo num tom complacente, que trazia uma pergunta implícita: como não pensou nisso sozinha? É tão óbvio!
— Os irmãos mais velhos podem ocupar o papel do pai. – justificou, apontando exemplos na turma de alunos que compunham a cerimônia. De fato, algumas bruxas eram acompanhadas por bruxos novos demais para serem seus pais.
Foi uma das poucas vezes que Bervely não ficou incomodada em ser colocada por Hector na posição de irmã. Na verdade, ela se sentiu aliviada e até conseguiu visualizar um Hector mais velho (ele teria o quê, vinte anos quando ela se formasse? Isso era um bocado velho!) de braços dados com ela. Em sua imaginação, ela tinha o cabelo longo e brilhante (como era o de Bellatrix, em sua lembrança) e parecia muito adulta, uma bruxa poderosa e pronta para qualquer coisa. Então ela lembrou que Hector também não tinha quem entrasse com ele em sua formatura, que estava muito mais perto, era dali a dois anos.
— Eu posso entrar com você na sua também. – sugeriu. Era uma troca de favores, parecia justo. Não lhe ocorreu que Narcissa, como madrinha dele, gostaria de ocupar o lugar, e nem Hector contestou.
Engraçado como naquela época, tudo parecia tão bem arranjado.
— Você está anormalmente calada, para alguém que sempre andou por aí cheia de opinião. — Thor Carmichael provocou, virando-se para ela com zombaria.
Bervely apertou seus punhos por reflexo, olhando na direção do castelo. Eram os únicos naquele gramado, tão longe da escola.
— Vamos retornar para a festa. — ela sugeriu, sua garganta arranhando. O Olho de Hórus lançou um olhar curioso na direção da floresta.
— E quanto ao seu acompanhante? Devo me preocupar que ele venha procura-la?
Ela teve um vislumbre amargo de Oliver sozinho na clareira. Sabia muito bem porque Oliver estivera tão ansioso para que ela fosse embora; chorar na frente da sonserina que acabara de recusar seu anel de compromisso era humilhação demais para o ego do capitão da Grifinória.
— Não. Ele não vai nos incomodar.
— Nesse caso. – o homem sorriu amplamente, oferecendo seu braço para ela. – Vamos dar prosseguimento aos nossos negócios.
Negócios. Bervely deslizou seu braço para dentro do dele, apesar do protesto de cada célula do seu corpo. Ela se recusava a mostrar qualquer sinal de vulnerabilidade ou medo. Nenhuma estrela naquele céu a veria abaixando a cabeça para aquele monstro, nem agora nem nunca.
Eles seguiram em direção à entrada de Hogwarts, onde Filch guardava a porta, embora tivesse deixado Bervely sair com Oliver mais cedo sem problemas. Eles eram a monitora-chefe e o capitão, afinal. Agora, o zelador fez uma pequena reverência com sua cabeça pelada à Thor, respeitoso. Devia achar que ele era algum bruxo importante, pelas vestes caras e a petulância que trajava aquela noite. Mas ela sabia que no momento que passassem por ele, Filch se esqueceria de tê-los vistos, se esqueceria do rosto de Thor. O feitiço de distração em torno dele, semelhante ao que Snape colocara em seu sobrenome, era várias vezes mais poderoso. Ninguém que não o conhecesse antes daquela noite seria capaz de testemunhar sua presença ali, nem mesmo sob Veritasserum.
— Lidere o caminho, Srta. Black. — Ele disse com suavidade, um passo atrás dela, quando adentraram o Hall.
— É nas masmorras. Precisamos atravessar o Salão para chegar até lá. — disse rigidamente. Thor fez um pequeno aceno de concordância com a sua cabeça, muito cortês para alguém que tivera sua casa e doze de seus vasos queimados por ela da última vez. Bervely só podia imaginar que ele estava escondendo sua ira sob as várias camadas de cinismo que podia portar. A consciencia não a deixava mais tranquila.
— É um fantástico vestido, esse que está usando. E ainda mais bela é a joia em seu pescoço, quem escolheu para você tem um bom gosto excepcional.
Bervely olhou atravessado para Carmichael, não pode evitar. O colar de obsidiana em seu pescoço fora presente dele no verão anterior, uma chave de portal até a sua mansão, na primeira vez que se encontraram. Era a única joia que ela tinha, e combinara perfeitamente com o seu vestido, mas agora quase se arrependia de portá-la, apenas por ver o sorriso asqueroso pregado àquele rosto terrivelmente familiar.
A festa ainda estava viva no Salão Principal, talvez até mais agora que a maior parte das famílias dos formandos tinham ido embora, os deixando mais à vontade. A iluminação mágica diminuíra em todas as partes a não ser no centro, próximo à pista de dança, dando ao espaço uma atmosfera mais intimista. Alguns casais dançavam abraçados, se despedindo do amor juvenil e escolar que deixavam para trás. Três lufa-lufas e um grifinório faziam uma coreografia engraçadinha em câmera lenta, obstruindo a visão de Bervely para a sua mesa, do outro lado do salão.
— É naquela direção. — ela apontou as portas que levavam ao corredor secundário, e descia até as masmorras. Mas não obteve resposta e, quando se virou para olhá-lo, Thor Carmichael fitava-a pensativo.
— Não tão rápido, Srta. Black. — ele esgarçou um de seus sorrisos felinos, que eram idênticos em má intenção apesar de aparecerem num rosto diferente — Antes, vamos dançar.
Ela achou que estava tendo alucinação auditiva. Não seria a primeira vez.
— Perdão?
Thor estendeu sua mão branca e comprida, a palma virada para cima, exigindo a dela. O brilho em seus olhos denunciava que ele se deliciava com a expressão de repulsa no rosto de Bervely.
— Vamos lá, Bervely. Se o meu filho estivesse aqui, sei que você faria questão de dançar com ele essa noite. — Num tom mais baixo, cúmplice, ele completou — Eu sei que ele faria questão de dançar com você. Sim, eu sei de tudo que ele pensava sobre você. Inclusive as promessas que nunca cumpriu.
Ela desviou o olhar para longe dele, com receio de que deixasse transparecer a forma como tinha ficado ao mesmo tempo dormente e sem chão.
— Você não é o Hector. — foi tudo que disse, entre os dentes cerrados.
— Sou o mais perto que pode ter, minha garota. — A música mudou. Thor fez um movimento incisivo com a sua mão na direção dela, exigindo retorno. — Não me faça obriga-la. Você sabe que eu posso.
A contragosto, Bervely se viu acatando a terceira dança da noite. Ela sabia o que ele estava fazendo. Estava sendo o Olho de Hórus, deixando evidente que poderia controlar cada aspecto daquela noite mesmo fora do seu território. Poderia controlar inclusive o corpo dela, porque não havia nada que ela pudesse fazer sobre isso.
Bervely já esperava isso. O que não previu era que ele, em seu corpo original, se parecesse tanto – e tão dolorosamente – com seu filho, a ponto de concordar exatamente com o que sua imaginação construíra para uma versão mais velha de Hector.
Desde o formato do rosto até a cor exata e incomum dos olhos, Thor se assemelhava ao filho em cada maldito detalhe. Ele tinha os mesmos lábios finos e prontos para sorrir ou retrucar – só que nele os sorrisos eram distorcidos, e os gracejos sempre carregados de intenções cruéis. Ela o vira uma vez quando tinha quatro anos, no dia em que conhecera Hector, mas não se lembrava de eles serem parecidos; a sua impressão era de que Thor era um homem de feições nórdicas rudes, uma compleição grosseira, as quais foram suavizadas pela combinação aos traços delicados e franceses de Dallas Malfoy, resultando em Hector. Talvez a sua mente estivesse pregando peças. Talvez eles não fossem tão parecidos, era apenas a sua necessidade autodestrutiva de procurar Hector nele porque como ele mesmo dissera... era o mais perto que ela poderia ter.
Só sabia que quando olhava para ele e via a malícia perigosa do Olho de Hórus perdida no azul turquesa, e não a ternura do seu garoto perdido, ela sentia algo dentro de si morrer devagarinho.
Thor a levava pelo salão e Bervely nem se dera conta. Mais uma vez, ele a movia como a uma boneca para satisfazer seu ensejo. O mestre das marionetes estava de volta, ela o chamara ali. Sentiu um arrepio que varreu seu corpo inteiro, um prenuncio de horror. Ao se dar conta do quão facilmente ele a guiava, seus músculos dos braços e pernas tiveram espasmos de agonia.
Mas ela se forçou a continuar dançando.
— Minha aparência lhe perturba, Bervely? – ele perguntou com divertimento.
Se Bervely não soubesse que ele era incapaz de ler sua mente, estaria muito preocupada agora. Mas aquele homem não precisava ler mente, ele era – sempre fora — um especialista em degustar cada nuance do medo.
I feel it coming over me
I'm still a slave to these dreams
Is this the end of everything
Or just a new way to bleed?
(Eu sinto isso está vindo para cima de mim
Eu ainda sou uma escrava destes sonhos
Isso é o fim de tudo
Ou apenas um novo modo de sangrar?)
Nimphadora Tonks olhava intrigada para a pista de dança. Ela era a única que restara em sua mesa, depois que Remus Muito Interessante Lupin fora embora e sua mãe e seu pai ainda estavam tendo um momento de rememoração da adolescência na pista de dança. Anne tinha se retirado para o próprio salão comunal depois que Remus tinha ido embora, alegando que ainda precisava arrumar seu malão para a partida no dia seguinte. Ela também não tinha esperança de se despedir de Bervely, afinal a irmã saíra do Salão com Oliver, quais as chances de aquilo ser rápido?
Só que agora, Tonks tinha certeza de que estava olhando para a prima dançando com um desconhecido que não era, em hipótese alguma, Oliver Wood. Estreitou os olhos, mas estava difícil ver as características do seu par, que a levava com habilidade pelo salão.
Ele era familiar, no entanto. Ela teve a alarmante impressão de que era Lucius Malfoy, ao que virou a cabeça para onde o bruxo estivera estacionado a noite inteira, e se aliviou ao encontra-lo ainda ali parado. Não fazia ideia do que diabos o seu tio do lado mau da família estava fazendo na festa, mas pelo menos ele não estava coagindo a sua prima, o filho da mãe.
Na verdade, ele estava olhando na direção de Bervely e do estranho na pista, um vinco entre suas sobrancelhas quase invisíveis de tão loiras. Então um elfo chegou até sua mesa oferecendo uma bebida; Lucius recusou, claramente desgostoso de fazer contato com a criatura.
— Aceita cerveja amanteigada, senhorita?
— Ah, sim, por favor, obrigada. — Tonks agradeceu ao elfo que viera servi-la, apesar de ter evitado beber a noite toda (ninguém gostava de uma recruta que aparecia de ressaca para as lições da segunda feira). Fez questão de ser educada com o elfo só para contrariar a atitude grosseira de Malfoy, mesmo que ele não pudesse se importar menos ou sequer vê-la da sua posição.
O elfo saiu com as orelhas vermelhas para tanta gentileza. Tonks virou um gole e sentiu um toque sutil, muito sutil de amêndoas em sua bebida. Se ela não estivesse justamente no meio do seu treinamento de adulteração mágica de alimentos, nem teria notado.
Mas notou.
Tonks levantou-se de sua cadeira com decisão, sua preocupação com Bervely e seu parceiro misterioso de dança completamente varrida de sua mente.
— BD —
“Vamos lá, você não disse que era uma Black?
Pensei que fosse tão destemida quanto os seus antepassados!”
Fazia tempo que Bervely não ouvia a voz de Hector dentro da sua cabeça. Desde que você visitou o túmulo dele, lembrou-se. Naquela noite, era como se ele estivesse ali de novo, assombrando. Gostaria de não pensar assim, mas não estava conseguindo evitar.
— Me conte, Bervely, o que a fez mudar de ideia? — A voz do homem interrompeu o silencio tão logo ela fechou a porta atrás deles.
Estavam na sala das masmorras que Bervely preparara para o seu encontro aquela noite. Era a mesma em que ela se deparara, mais de uma vez, com Tara se embriagando para encharcar os problemas de sua dramática vida; a sala que ficava no caminho até o seu quarto e que tinha o grande vidro de aquário no lugar de uma das paredes, provendo uma vista do interior do lago.
Chamas cor de laranja crepitavam alegremente ao seu lado direito, atrás do púlpito, mas não eram de muita utilidade para aquecer a sala perpetuamente gelada. O ar de abandono da velha sala de aula era acalentado pela iluminação quente e a mesa posta para dois, uma cortesia que o elfo fizera para ela em agradecimento às meias despareadas com que tinha lhe pagado. O senso de obrigação que Dobby ainda sentia por ela, tendo sido membro da família Malfoy um dia, era algo que ele não podia evitar, mas ainda assim ele lhe pedira um “pagamento”, porque agora era um elfo “livre”. Dobby não entendia a natureza daquele encontro, ele achava que era uma confraternização.
Não um sacrifício.
Bervely serviu o vinho de sabugueiro que os esperava sobre a mesa nas duas taças. Milagrosamente, suas mãos estavam firmes. No mesmo momento, as duas outras taças mais baixas e bojudas se preencheram com água, obedecendo ao encantamento impregnado na prataria da escola. Ela bebeu o vinho, apesar de a garganta seca pedir água. Olhou para ele por baixo de suas pálpebras – a luz calorosa do fogo mascarava as marcas do tempo no rosto de Thor, o deixando muito mais jovem do que era. O bruxo devia ter mais ou menos a idade de Lucius Malfoy, ela achava – uns quarenta anos – mas ele não aparentava mais do que trinta. Talvez porque usasse tão pouco aquele corpo, o seu original... e na luz do fogo, ele podia ter ainda menos.
Ele podia ser Hector, comemorando com ela a sua formatura, fazendo planos para o futuro...
Pare com isso. Hector está morto. Esse homem é o monstro que matou Fritz, tentou matar você e quer usar o seu corpo como um vaso!
— Bervely?
Ela percebeu que ele ainda esperava uma resposta. Não tinha qualquer pressa, até se sentara para saborear o vinho calmamente. As ondas de ódio e repulsa que reverberavam através do corpo dela, fazendo-o ferver com a força de mil sóis, não o atingiam.
— Eu tive uma conversa com o Prof. Dumbledore há alguns dias. – revelou Bervely, cerrando seus olhos por um momento, enquanto escolhia bem as suas palavras. – Sobre... minha marca negra. Marcas.
Thor fez um sinal imperativo para que continuasse. Ela teve o vislumbre exato do bruxo romeno ruivo fazendo o mesmo, exato sinal com sua mão, sentado em seu escritório na Mansão Romansek, um copo poligonal de uísque de fogo numa das mãos, e seu estomago se enrolou em agonia. O coração começando a disparar demandava fuga. Acalme-se. Você não tem para onde fugir.
— Ele me explicou... — Bervely suspirou pesadamente. – Bem, você sabe o que ele me explicou. De um jeito ou de outro, não se pode fugir de uma marca negra. Estou ligada à Bellatrix, que por sua vez está ligada à Voldemort... e quando ele voltar, ele vai ter controle sobre mim. Vai me fazer ser a sua serva, como Bellatrix prometeu que eu seria.
Sua voz falhou. Bervely se calou por um momento, permitindo-se descobrir que efeito suas palavras causavam em Thor. Ele lhe olhava com interesse científico que beirava a indiferença. Não lhe importava minimamente o que ela sofreria nas mãos de Voldemort, só o que ele ganharia com isso. Sempre.
Thor deu um novo e pensativo gole em seu vinho.
— Há algum tempo você me parecia muito convencida de que Voldemort jamais retornaria, se eu bem me lembro.
Bervely olhou para o chão. As muitas marcas cavadas no chão de pedra pareciam com os arranhões que aquele homem abrira em sua vida ao longo dos últimos meses. Ela continuou.
— O prof. Dumbledore me deu a prova de que ele está vivo. Ele me mostrou alguma literatura sobre marcas negras, e todas elas concordam num ponto principal: elas são vínculos tão profundos com um mestre que, quando ele morre, seus “servos”, as pessoas marcadas por ele... morrem também. E eu sei que os Comensais da Morte estão todos vivos, minha mãe sendo um deles.
Thor lhe deu um amplo sorriso em troca daquela pérola de sabedoria de artes das trevas sobre a qual ele obviamente já tinha conhecimento. Fez novamente o aceno de prossiga. Aquele gesto petulante que arranhava seus nervos como a ponta de uma faca, fazendo-a apertar seus dentes para não explodir ali mesmo.
— Ele também me explicou que a razão pela qual eu venho sentindo tanta dor e incomodo em meu braço é porque uma marca está disputando com a outra por controle. Minha alma – ou essência mágica, ou sei lá o que – não pode pertencer a dois mestres e eu preciso escolher — pigarreou, quase sem suportar o olhar de convencimento divertido no rosto dele — Preciso escolher um mestre, antes que algo pior aconteça.
Thor mal cabia em si. O brilho em seus olhos era perigoso, como o brilho do mar da Normandia quando quisera afoga-la, na ocasião em que caíra de cima daquele pegasus. Mas Hector não estava ali para salvá-la daquela vez. Ninguém estava. Ela cuidara para que ninguém estivesse, na verdade.
— Então você escolheu seu mestre. — Ele concluiu para ela prestativamente, fazendo um aceno lisonjeiro na direção de si mesmo. — Obviamente o meu Olho de Hórus venceria no final, mas escolher realmente torna as coisas menos dolorosas para você. Sábia decisão, garota.
Ela sentiu os olhos arderem. Nas entrelinhas das palavras dele haviam todas as promessas do que faria com ela no minuto em que Bervely estivesse finalmente sob seu domínio. Ela não duvidava nem por um segundo que ele se vingaria por cada vaso que ela destruíra naquela noite, dada a chance. Talvez a deixasse consciente e impotente dentro de sua própria mente, enquanto seu corpo era dominado por ele e forçado a fazer coisas horríveis.
De repente sua garganta estava seca como se tivesse engolido uma lixa, pedindo desesperadamente por água. O vinho só a deixava com mais sede, mas ela o bebeu mesmo assim, um longo gole, ignorando a taça cheia de água.
Thor bebeu a água como se para tentá-la, engrandecido pela sua vitória naquela noite. Bervely juntou as mãos sobre a mesa, as sentindo frias e suadas.
— Você não quer saber os meus motivos para escolher você, e não Lord Voldemort? — ela perguntou, cuidadosa.
— Parecem óbvios para mim. Você não quer seguir o caminho que a sua mãe escolheu para você. Uma pequena ingrata você é, Bervely Black. – debochou, divertindo-se, como se Bervely fosse uma garotinha rebelde e estivesse contrariando a mãe em algo banal como a hora de ir para a cama – Você é indigna de todos esse futuro triunfante que Bellatrix armou, no fim das contas. A traiu em cada parte do caminho.
Agora sua visão definitivamente estava ficando turva com as lágrimas que se acumulavam em seus olhos. Bervely piscou, impedindo-as de cair. Preferia queimar no fogo atrás de si do que mostrar qualquer sinal de fraqueza na frente daquele homem.
— Você está errado. Quando Bellatrix fez esses planos ela não sabia que Voldemort seria derrotado. Eu estou escolhendo pelo mais forte... ela deveria se orgulhar.
Ele a olhou com uma espécie descarnada de pena.
— Não é amaciando meu ego que você será poupada, garota, é bom que saiba. Vai ter que me pagar primeiro, por cada prejuízo que causou. Pode ser que fique desprovida do seu corpo por um longo tempo... e quanto mais tempo, menor a chance de voltar à tona, sabe. Alguns diriam que está se entregando à morte certa essa noite.
Ela sorriu com amargura.
— Há coisas piores do que a morte.
Thor achou grande graça.
— Acho que vai entender isso na prática muito em breve.
Parecia que aquela conversa estava chegando ao fim. Ele esvaziou sua taça de vinho e se levantou, espanando das vestes de gala elegantes um pó imaginário.
— Foi uma surpresa que tenha resistido às minhas tentativas de contato por todos esses meses, mas pensando bem, você teve ajuda, não foi? – perguntou Thor com quase desinteresse.
Bervely sabia que ele falava de todas as vezes que tentara invadir sua mente desde o natal, usando a conexão que tinham através da marca queimada em seu ombro, e como fora incapaz de acessá-la. Aquilo devia tê-lo deixado maluco...
— Severus Snape é um grande oclumente, e por acaso também é meu padrinho.
Ele assentiu, seus olhos já na lareira acesa. Havia pó de flú num pote redondo, em um suporte sobre o console. Thor logo o tinha em suas mãos. Bervely se ergueu atrás dele, a visão da sala momentaneamente substituída pela do Salão Principal, só que de um ponto e vista mais baixo, com outro esquema de cores.
Estamos prontos, ela pensou.
O gato prateado pulou em cima de uma das poucas mesas que ainda estava ocupada a essa altura.
— Você tem que prometer que vai deixar a minha família em paz. — ela disse de repente a Thor, voltando à sala das masmorras.
Aquele era o ponto crucial, afinal de contas. Thor se virou com uma incredulidade cínica crepitando nos olhos, que estavam dourados pelo fogo.
— Eu não tenho que lhe prometer nada, garota. Você já está nas minhas mãos.
Ela assentiu, apesar das narinas infladas de raiva, odiando ouvir a petulância e dominação na voz dele.
— Eu sei que você me odeia... por ter destruído a sua casa e estragado seus vasos, mas eles não têm nada a ver com isso. A única razão pela qual Sirius foi até lá é porque ele queria me proteger. Ele vai perder uma filha... e eu acho que isso é mais do que você poderia querer, em troca da mão que ele arrancou de você.
A menção à amputação modificou a expressão no rosto de Thor. Ele parecia mais o monstro descontrolado e sanguinário daquele dia na mansão Romansek, e menos o lorde nórdico que a convidara para o que provavelmente fora a última dança da sua vida em que estaria controlando as próprias pernas.
— Você tem uma filha, acho que sabe o quanto sofreria se ela desaparecesse sem deixar vestígios... — continuou, persuasiva — Então apenas... deixe-o em paz. E deixe os outros também. Minha irmã, os meus tios... os meus amigos. Todos eles.
Thor olhava atentamente para ela agora, como se tivesse acabado de se dar conta da grande jogada. Seus olhos se estreitaram numa compreensão astuta de quem encaixa a última peça do quebra-cabeça.
— Então é isso. — ele sibilou, triunfante. — Essa é a razão pela qual a orgulhosa Bervely Black está abrindo mão da sua existência, entregando seu corpo puro-sangue precioso para a pessoa que mais odeia no mundo – e não tente negar Bervely, eu sei que eu sou essa pessoa. — disse ele em um tom orgulhoso — Você tem medo, não tem? Do que Voldemort a obrigará a fazer com esse bando de traidores quando ele puser as suas mãos em vocês?
Bervely fechou os olhos, incapaz de encará-lo. Esperava que não tivessem que chegar a isso, mas porque estava se iludindo? O Olho de Hórus era esperto demais para deixar passar.
Thor deu dois passos à frente, se aproximando dela até ficar a centímetros do seu ouvido — Por que se preocupar, Bervely? Você não sofreria. Você nem saberia.
Ela sentiu de novo aquele calafrio de repulsa, horror, e a dúvida de se qualquer coisa que estava fazendo aquela noite daria certo. Ouviu mais do que assistiu quando Thor pegou um punhado de pó de flú e se preparou para jogar na lareira, ditando seu próximo destino. O lugar onde ele pretendia completar o ritual que começara no natal...
A não ser pelo barulho peculiar de uma garrafa de vidro tombando, num canto escuro da sala, atrás do púlpito. Thor tinha a varinha em sua mão em meio segundo, apontada para a origem do barulho. Era a primeira vez na noite em que Bervely o via alarmar-se. Ela quase se alegrou por isso.
— Quem está ai? — exigiu ele. Não havia nenhum traço romeno na voz de Thor Carmichael, fazendo Bervely se perguntar se ele fingia o sotaque por todos aqueles anos em que estivera ocupando o corpo do outro bruxo. Provavelmente sim, da mesma forma que copiara a cor dos olhos do outro, o verde intenso de lodo do fundo do rio. — Se revele!
Houve um silencio seguido de um suspiro enfastiado. No minuto seguinte, uma silhueta magra cambaleou para fora das sombras, trazendo nas mãos a garrafa que certamente fora origem do barulho. Os olhos profundamente verdes – e no momento bastante maquiados e avermelhados de Tara Romansek correram de Thor até Bervely, no qual se estreitaram num misto de raiva e ironia.
— Não vai me apresentar sua nova companhia, Bervely? Pensei que estávamos compartilhando esse tipo de coisa agora.
— BD —
Lucius Malfoy não entendeu bem como o gato de sua prima Dallas surgira em cima da mesa em que ele estivera ocupando por toda a noite. Apesar da indiferença crônica com a qual o bruxo encarava a vida, a presença inesperada daquele animal o afetou, o desestabilizando por um momento.
Seria possível que Dallas estivesse ali em Hogwarts? Por todo o tempo desde que a garota nascera, onde ela ia o gato também estava, até que transferira a sua lealdade ao sobrinho, Hector.
Racionalmente, ele sabia que ambos, Hector e Dallas estavam mortos. Não via o gato desde o falecimento do primeiro, então... a quem ele devia a sua lealdade agora?
Jinx se aproximou, querendo lhe mostrar algo que não era a resposta para aquela pergunta.
— BD —
Tara se encontrava visivelmente embriagada, embora a garrafa em sua mão estivesse cheia. Bervely reconheceu o líquido ali dentro de imediato – era a poção da seleção, que unia suas memórias com as de Tara e as tornara parceiras de magia há sete anos. Claramente a garota estivera lhe esperando para o brinde que Bervely lhe prometera mais cedo, e decidira se esconder quando Bervely entrou na sala com companhia.
O olhar no rosto de Thor, Bervely viu pelo canto do olho, era quase cômico, se ela não conhecesse o potencial do homem para a destruição. Ele fora pego desprevenido pela presença da própria filha, depois de evitar o contato com ela durante tanto tempo. Bervely só podia imaginar o que estava se passando pela cabeça dele agora.
— Onde vocês estavam indo? — Tara exigiu, antes que qualquer um pudesse dizer qualquer coisa. Ela se voltou para Bervely, incisiva. — Onde vocês estavam indo?
— Tara, eu sei que isso parece estranho, mas se puder ouvir um segundo — Bervely começou, se perguntando o quanto ela bebera no total da noite. A ruiva parecia completamente suscetível à uma explosão e incapaz de qualquer bom senso. Ótimo.
— EU SABIA QUE VOCÊS ESTAVAM AGINDO JUNTOS! – ela começou a gritar de repente, como Bervely previu que aconteceria. – EU SABIA! TODAS AS VEZES QUE EU PERGUNTEI A VOCÊ SE TINHA NOTÍCIAS DELE E VOCÊ DISSE QUE NÃO!
— Então você sabe quem eu sou. — reagiu Thor, com uma ponta de surpresa e outra de alívio. Era quase como se tudo estivesse resolvido, o que do ponto de vista de Bervely era muito ingênuo. Ela observou o desenrolar das emoções no rosto de Tara; raiva, irritação, frustração, mágoa.
— É claro que eu sei quem você é! Acha mesmo que usar um corpo diferente ia me fazer não te reconhecer? Ao meu próprio pai? — ela se exasperou. — Você não responde minhas cartas há cinco meses!
— Eu tive minhas razões, Tara. — ele disse severamente, mas também parecendo sincero. Era premente a mudança em sua atitude, só porque Tara entrara em cena. – Lhe explicarei tudo quando formos para casa... A nossa nova casa. Já que a sua amiga aqui nós fez o favor de destruir a última.
Tara não estava mais ouvindo. Olhava para Bervely com tanta intensidade eu parecia decidida a fazer furos em sua pele com aqueles cacos de vidro afiado que eram seus olhos.
— Você. VOCÊ causou isso. Você o machucou. – acusou, a voz tremulando.
Bervely assentiu com paciência.
— Só o corpo dele. Só queimei o corpo dele, não havia mais nada lá do seu pai, acredite em mim.
Ela piscou, aturdida. Incapaz de compreender como Bervely podia admitir aquilo com tamanha calma.
— Só porque ele de alguma forma conseguiu escapar para outro corpo! – Isso a fez voltar os olhos, assombrada, para Thor – Como o senhor fez isso? Como... quero dizer, o corpo do pai de Hector? Como isso aconteceu?
Bervely resolveu intervir, percebendo o rumo errado que o raciocínio de Tara estava tomando.
— Esse é Thor Carmichael, Tara. Sempre foi. Desde que você pode se lembrar, ele é Thor, usando o corpo e a vida do seu pai como um parasita nojento, fingindo ser ele para você e para o resto de sua família.
— Quê? Não! – a ruiva negou, certa de que Bervely falava uma grande asneira. – Ele é... ele foi... – A ruiva olhou com grande confusão na direção dele, seu estado de embriaguez se dissipando à medida que era forçada a raciocinar aquela possibilidade assustadora – Você é meu pai, certo?
— É claro que sou, querida. Nossa Bervely aqui está confusa. – disse tranquilamente, sorrindo para ela. Bervely bufou com tamanho cinismo. Ele realmente acreditava que era, ou não poderia fazer tal afirmação, mas a sua loucura não mudava os fatos. Não deixou Tara curtir seu breve e errôneo momento de alívio.
— Tara, me escute. Você sabe que as bebidas da escola foram adulteradas essa noite, certo?
— Claro. — ela se virou, uma nova onda de aborrecimento em vigor – Isso foi você? Mas que droga, Bervely. Percebi assim que comecei a admitir um monte de coisas idiotas por ai, foi você não foi? Diluiu poção da verdade no estoque de água? Todas as bebidas que os elfos fizeram essa noite ficou com aquele gosto estranho de poção e todo mundo ficou ridiculamente sincero. Você arruinou a festa, fique sabendo.
Sim, Bervely pensou com acidez. Ela tinha arruinado a festa.
— Você o viu bebendo a água há alguns momentos. Então pergunte se ele é Thor Carmichael, ele não pode mentir.
Tara olhou de novo para seu suposto pai, em dúvida. Nesse momento Thor já tinha dado um passo à frente e pousado uma mão no ombro esquerdo de Bervely.
— Já chega, Black. Não me faça perder a paciência com você.
— Pergunte a ele. – Bervely encorajou Tara entre os dentes, o ignorando.
Thor encostou a varinha em seu braço, na altura da sua marca, espalhando o que parecia um forte choque elétrico. Bervely gemeu e se torceu, a dor incinerando o interior de seus músculos. Os olhos de Tara se arregalaram. A longa experiência com os castigos físicos do pai lhe diziam que era infrutífero interrompe-lo. Bervely não fez qualquer menção de pegar sua varinha; não adiantaria.
— Vamos para casa, Tara. Eu lhe explicarei tudo quando chegarmos lá.
Só que Tara não se moveu, enquanto ele foi empurrando Bervely na direção da lareira. Agora havia uma certa urgência nos movimentos dele, como se já estivesse ansioso em finalizar aquele “negócio” antes que os termos fugissem do seu controle.
— Tara? – exigiu, a voz cheia de impaciência.
— Você é Thor Carmichael?
Ele estreitou os olhos com irritação. Seu aperto em torno do ombro de Bervely indicava que a culpava por colocá-lo naquela situação desagradável e que mal podia esperar para lhe oferecer retaliação.
— Em casa, Tara.
— Não vou para lugar nenhum antes que me responda. – disse a ruiva com teimosia. Ela era naturalmente mais teimosa quando bebia, ao que Bervely agradeceu cada grama de álcool que se encontrava no sangue da garota agora.
— Tara Romansek, não me obrigue a castiga-la por me desobedecer, você sabe melhor do que isso. Não é possível que já esqueceu como deve se comportar em minha presença!
— Pergunte a ele de novo. A poção vai impelí-lo a responder. – Bervely insistiu. Thor a sacudiu e lhe deu outro choque.
— Calada!
Bervely gemeu de dor. Os olhos de Tara ficaram injetados e decididos. Ela parecia fincada àquele chão como uma âncora.
— Você é Thor Carmichael?
Silêncio. Thor suspirou contrariado.
— Sim. Mas lhe explicarei tudo quando estivermos em casa.
— Não vou para casa com você. — ela disse friamente. — Onde está meu pai?
— Eu sou seu pai! – vociferou. Atrás deles, a proximidade do fogo tornava o calor insuportável, mas Thor não parecia se dar conta. Seu aperto sobre o ombro de Bervely era tão forte que ela achava que os dedos dele romperiam sua carne por cima da renda fina do vestido.
— Onde está Gavril Romansek? — a ruiva voltou a perguntar, fincada ao chão. Bervely quase podia ouvir a tentativa de Thor de lutar contra o efeito da poção, que mesmo diluída era forte o bastante para impelí-lo a dar respostas diretas. Ele poderia optar por não falar, mas então sabia que teria de obrigar Tara a ir de maneiras mais extremas, coisa que ele parecia resistir a fazer.
— Morto. — respondeu enfim, a voz carregada de morbidez. – Gavril Romansek está morto.
— Desde quando? — Tara rebateu de imediato. O furor decidido de saber a verdade emanava dela, tornando suas perguntas uma sucessão de flechas.
— Desde 1979.
A ruiva fez o cálculo rapidamente. Tinha três anos em 1979. Todas as suas memórias do seu pai eram, na verdade, memórias daquele impostor.
— Você o matou?
— Sim. Mas...
Ela não o deixou completar qualquer argumento. Recebeu a resposta com um fechar de olhos mortificados e já tinha próxima pergunta pronta:
— Você matou outras pessoas?
— Tara! Já chega!
— MATOU?
— Sim! – ele rosnou, uma fera acuada. Um monstro acuado contra o fogo, vítima do ataque de uma garota que tinha o seu coração na mão.
Irônico.
A pergunta seguinte fez o coração de Bervely fraquejar também, embora ela já soubesse a resposta há muito tempo.
— Você matou seu filho, Hector Carmichael?
— Eu... – Thor estremeceu. Ele poderia ir embora, pensou Bervely. Sua poção não era assim tão forte a ponto de obriga-lo a ficar e responder. Era Tara, sua expressão destruída, que o segurava ali. Tara, que era a sua fraqueza, e que não deixava de ser mesmo agora.
— Sim. — ela ouviu a voz do homem queimar pela sala e através do seu cérebro. Ele se apressou em completar – Eu nunca quis... não foi intencional. Eu o amava, do mesmo jeito que amo você, Tara.
Bervely não sabia se ele esperava mesmo dissuadir a garota com aquela declaração de amor seguida de duas confissões de assassinato, mas nunca descobriu. Naquele momento a porta se escancarou, como Bervely sabia que aconteceria.
Havia alguém ouvindo atrás da porta, e ele já ouvira o bastante.
But it's my, my heart, my life
That you're calling a lie
I've played this game before
And I can't take anymore
(Mas é meu, meu coração, minha vida
Que você está chamando de mentira
Eu joguei este jogo antes
E eu não aguento mais)
— BD
Tonks se lembrava muito bem do caminho para a sala da vice-diretora da escola, afinal, não foram poucas as vezes que ela fora mandada até lá por vários professores, que pareciam achar que sua charmosa tendência ao desastre era intencional. Eles não entendiam que ela era um anjo, só que não tinha controle completo da interação dos seus membros com o ambiente nem qualquer noção de espaço.
Quantas vezes recebera detenções por quebrar bolas de cristal ou entornar caldeirões cheios em algum colega, e pelo menos uma vez (ok, duas, e não sabia como o fizera em nenhuma delas) esbarrar em uma estante da biblioteca forte o suficiente para fazê-la desabar e bater na próxima, e assim sucessivamente, causando um efeito dominó que devastara por completo a organização da biblioteca?
Mas estava divagando. Naquele dia não se dirigia à McGonagall para receber sua sentença, mas para fazer uma denúncia. Quando bateu na porta, a diretora demorou uns minutos para atender – apareceu com uma toca bordada e um penhoar mostarda estampado com penas de escrever.
— Srta. Tonks! — Reconheceu de imediato. — A que devo a honra dessa visita tão fora de horário?
A prof. McGonagall era uma das que entendiam que Tonks não tinha como missão pessoal dizimar o mundo, um vaso de porcelana de cada vez, e sempre aliviava nas detenções. Havia um prenuncio de sorriso em seu rosto que significava que Tonks não estava em apuros por bater em seus aposentos no meio da noite.
— Acredito que a bebida da escola foi adulterada com poção da verdade. — Explicou sem rodeios, mostrando seu copo de cerveja artesanal para a bruxa — O que poderia ser uma brincadeira de mal gosto, mas eu sinceramente acho que as implicações podem ser maiores do que isso.
Minerva deixou os olhos crescerem à menção do fato, abrindo espaço para sua antiga pupila entrar em seus aposentos. Se a hipótese da garota se confirmasse, ela teria que acordar Severus Snape, algo que nunca se desenrolava de forma agradável, já que seu humor no meio da noite não era melhor do que ao longo do dia.
— BD —
Lucius Malfoy estava diante da porta da sala e a única pessoa que não parecia surpresa com a sua presença ali era Bervely Black. O Olho de Hórus poderia estar vendo um bicho-papão, e Tara não podia estar mais confusa, olhando para o bruxo e tentando entender como ele se encaixava no desenrolar daquela noite estranha.
— Lucius Malfoy — Thor enfim saudou, embora a ponta varinha que antes se direcionava para Bervely tivesse mudado discretamente a sua direção. — Meu velho amigo, não tinha me dado conta de que estava no castelo essa noite.
Lucius por outro lado, não disfarçava a varinha em riste ou o ódio em seu rosto.
— Eu aposto que não teria acabado de confessar o assassinato do meu sobrinho se soubesse.
Thor tentava aparentar sua costumeira soberba tranquila. Não estava tendo muito sucesso.
— Você está tirando as coisas do seu devido contexto, velho amigo. Sabe que eu nunca agiria contra o meu filho...
Lucius avançou, um passo após o outro, como uma serpente naja armando o bote. Ele não olhou para Tara, nem para Bervely. Elas não lhe importavam, ou qualquer outra coisa dentro daquela sala.
— Dallas. — ele disse incisivamente, sua voz arrastada parecendo um chiado — Você a matou também, não foi? Minha única prima. Sua esposa. A mulher que a minha família cedeu para você de bom grado, confiando que cuidaria dela!
— Ok, isso é o bastante. — O Olho de Hórus exclamou, contrariado, apontando sua varinha para Bervely novamente. — Você planejou tudo isso, não foi, sua cobrinha peçonhenta? Muito bem. Parabéns. Espero que esteja satisfeita. Não sei o que esperava conseguir, mas acaba aqui. Lucius, sempre um prazer vê-lo, mas essa conversa vai ter que ficar para um outro dia.
Ele fez um floreio, pronto para sumir pela lareira levando Bervely, que estava bem presa ao seu braço, mas Lucius foi mais rápido. Com um aceno da varinha atingiu a mão de Thor, fazendo com que o pó de Flú se dispersasse pelo chão, inútil.
Thor respondeu ao ataque com um feitiço na direção de Lucius, raios vermelhos que foram bloqueados prontamente pelo adversário. Bervely conseguiu se desvencilhar dele e se abaixou, procurando Tara. Com surpresa, percebeu que Thor fizera uma barreira mágica de cadeiras na frente dela, para a sua proteção. Mesmo que tentasse, ela não conseguiria sair dali tão cedo.
Os bruxos continuaram duelando ferozmente, e encolhida num canto, ela assistia-os trocarem feitiços que não atingiam os alvos e resvalavam na sala. Uma azaração de Lucius animou a mesa atrás de Thor e o fez ataca-lo como um grande animal de quatro patas; Thor fez a coisa voar através da sala na direção do Malfoy, que esquivou. Com um grande baque, a mesa de madeira maciça se chocou contra o vidro, onde surgiu uma grande rachadura que lembrava um relâmpago.
Havia uma diferença de intenção no duelo, Bervely notou. Thor queria escapar; tentava chegar à lareira a todo custo e alcançar o Flú, mas Lucius lutava para matar. Um brilho assassino, bem conhecido de Bervely, tomava seus olhos. E porque ela sabia que ele queria vingar as mortes de Dallas e Hector, estava torcendo por Lucius Malfoy.
Estava torcendo por Lucius Malfoy. Jamais pensou que algo assim aconteceria, após o modo como ele lhe expulsara de casa. Ainda o odiava, mas ele era um duelista à altura de Thor, no momento, era o que importava.
Bervely fechou os olhos, tentando achar Jinx, porque dele dependia a última parte do seu plano.
Ache Nimphadora.
O gato estava no salão principal, onde poucos alunos persistiam à essa altura. Encolhida e tendo conjurado um escudo em torno de si para evitar a rebarba do furioso duelo que continuava acontecendo, Bervely viu pelos olhos do gato quando este rodeou a festa, mas Tonks não estava à vista.
Ela não pode ter ido embora!, pensou com uma ponta de desespero. Via seus tios, ainda estavam por ali, sentados na mesa, sorrindo e conversando um com o outro como se mais nada no mundo importasse. Só esperava que Nimphadora não tivesse resolvido ir embora sem os pais.
Jinx, ache ela! Rápido.
Uma onda de calor ardeu em sua pele, derrubando seu escudo, forçando Bervely a retornar à sala nas masmorras onde a luta acontecia. Só que não parecia uma sala, e sim uma arena de destroços que antes tinham sido cadeiras e mesas de aula. A rachadura no vidro se enraizara para cima e para os lados como uma estrela, cada vez maior, e o mais importante... a sala estava pegando fogo.
Bervely percebeu que era Lucius quem controlava o feitiço. Ele conjurara uma chama da lareira, que se tornara uma serpente de fogo e se enrolara no chão ao redor de Thor. O Olho de Hórus tentava se defender, mas nenhum de seus feitiços surtiam efeito. As chamas eram azuis esbranquiçadas e pareciam muito letais dali. A sala toda estava quente como um forno.
— Eu vou acabar com você — avisou Lucius, sibilando, sustentando o feitiço com sua varinha longa de ébano. — Como você fez com Dallas. Tudo que sobrou dela foi um corpo carbonizado. Vamos ver como você se sente enquanto derrete, seu desgraçado.
Bervely se levantou, um pouco tremula. Ela sabia que, diferente de Sirius, o tio o mataria sem pestanejar. Ele tinha feito isso antes e com desafetos menos pessoais, se tudo que ouvira ao seu respeito na época na guerra fosse verdade.
— Ele já sabe como é. Eu o queimei em dezembro, o outro corpo que ele usava, de Gavril Romansek.
Lucius a olhou, como se fosse mesmo a primeira vez que a visse ali. Ele estreitou os olhos num misto de descrença e admiração.
— Você fez aquele estrago na casa de Romansek? — para a sua surpresa, ele deu uma risadinha sardônica. — Não nega as origens, a bastarda. Sua mãe também era uma piromaníaca descontrolada.
Bervely apertou seus dentes, recebendo a menção à Bellatrix como um tapa. Ela ouvira coisas como aquela de Lucius mais vezes do que gostaria, ao longo de sua infância. Costumava ficar lisonjeada com as comparações. Isso não acontecia mais.
— Eu só estava me defendendo.
O sorriso dele se ampliou. Ainda atiçava o fogo contra Thor, mantendo o feitiço controlado. A pele do bruxo estava ganhando um tom alarmante de vermelho agora, e ele se via mais desesperado lutando contra as chamas. Mas era fogomaldito. Uma vez dentro dele, havia pouco que um bruxo podia fazer, Bervely sabia.
— Isso é o que você diz para os aurores, garota. Não para mim. Não há necessidade de ser modesta. Venha até aqui.
Bervely hesitou. Receber ordens de Lucius Malfoy era um golpe cruel no seu ego, mas decerto ele lhe ajudara... Ela atravessou a sala até onde o tio estava parado, a varinha em riste, as feições compenetradas na lenta tortura que performava.
— Vamos matá-lo juntos. — ele ofereceu generosamente quando ela chegou ao seu lado, aguentando com bravura o forte calor das chamas que fazia seus olhos e toda pele arderem. — Pegue a sua varinha.
Bervely olhou para Thor, através das chamas. Mas não foi Thor que olhou de volta, e sim Hector. Tudo que ela podia ver dele eram os olhos, os brilhantes olhos de Neverland. Não havia qualquer suplica nele, no entanto, só a promessa. Faça, porque se eu me livrar disso, farei pior com você.
Ela pegou sua varinha, o que deixou Lucius muito satisfeito. Um sorriso atravessou o rosto dele como um corte de faca.
— Talvez você não seja uma perda total de tempo, Bervely. Será que eu me enganei ao seu respeito?
Ela não lhe respondeu qualquer coisa. Seria capaz de matar? Matar o homem que arrancara Hector dela, uma parte inteira do seu coração que ela nunca recuperaria?
Você já matou antes, lhe disse uma voz que se parecia muito com a de Gavril Romansek, apesar de saber que era impossível. Matou doze pessoas naquela casa.
Mas eu estava me defendendo.
— Destrua seu inimigo, Bervely. — disse Lucius ao seu ouvido, quase um adejo paternal. – Era o que Bellatrix faria. Ela ficaria orgulhosa, você sabe que ficaria.
E quando Bervely se deu conta, era ela quem estava sustentando o feitiço. Sentiu o peso e a potência dele em sua varinha, na varinha que um dia pertencera à Bellatrix. Se quisesse... se apenas desejasse, o fogo se fecharia sobre Thor como um torno, o transformando numa pira humana, lhe dando uma das mortes mais dolorosas, agonizantes e cruéis que um ser humano poderia ter.
E ele merecia.
Thor gritou quando as chamas tocaram sua pele. Foi um grito longo, desesperado e desprovido de dignidade. Aquele era o seu último corpo e se fosse queimado, ele deixaria de existir para sempre. O medo que Thor tinha de morrer era maior que a dor que sentia, e era por isso que ele gritava...
— NÃO!
O protesto veio do canto, atrás da barreira de cadeiras. Um feitiço se chocou contra Bervely e Lucius com violência, derrubando os dois. O fogomaldito se espalhou pela sala, se abrindo num anel amplo para longe de Hórus, que saltou para longe.
Tara se livrara de sua barreira a tempo de atingi-los. Lucius, Bervely percebeu ao olhar para cima, fora lançado contra a quina da mesa e estava desacordado. Sangue escorreria de sua têmpora, num fio elegante e profundamente vermelho.
Merda.
Antes que Bervely pudesse raciocinar, uma mão de Thor estava fechada em torno do seu pescoço, como um gancho de ferro aquecido pelo fogo a que fora submetido há pouco. Ele a ergueu com uma mão e com a outra, rasgou a manga esquerda do seu vestido, enquanto ela lutava para se desvencilhar.
Estava querendo a sua apólice, ela pensou. O corpo de sacrifício. Devia estar agonizando naquele, todo queimado. Um dia difícil para o Olho de Hórus. Privada de ar, era esse tipo de pensamento desconexo que flutuava em sua mente.
— Fac me introire— murmurou ele, apontando para o ombro dela, onde devia estar sua marca.
Nada aconteceu. Nada a não ser o mundo de Bervely ficando escuro, que era o que acontecia quando o oxigênio dos pulmões se esgotava.
— Como...?
Ele a soltou. Devia ter percebido que onde deveria haver um Olho Egípcio marcado em sua pele, pronto para servir de porta de entrada à sua possessão, não havia nada mais do que uma cicatriz desfigurada. Ramos espinhentos de roseira o tinham desfigurado por inteiro, atravessado a pupila, alargado e deformado o desenho até torna-lo irreconhecível. Os ramos continuavam lá, é claro. Se cravavam em sua pele toda vez que alguém tentava ameaça-la. Arrancavam seu sangue. Impediam a passagem.
Sinto muito por estragar sua arte, Sr. Carmichael, pensou. Teria dito em voz alta, mas sua garganta não estava funcionando direito. Desabou no chão, e foi quando seus joelhos tocaram a pedra que as outras coisas aconteceram.
Chamas estalaram e se tornaram verdes num ponto ao seu lado direito. Um alarme agudo disparou, torturando e revirando seu cérebro dentro do crânio. O paredão de vidro chegou ao seu limite, explodiu em mil punhais de vidro, e tudo ficou negro.
By drifting far beyond the edge
Freedom
Freedom
Can't you feel the ground caving in
Estou à deriva muito além do limite
Liberdade,
Liberdade
Você não consegue sentir o chão cedendo?
— BD —
— Então você não conhece aquele homem? Nunca o viu antes em sua vida?
— Eu nunca o vi antes. – ela repetiu mecanicamente, e pelos seus cálculos, pela terceira vez.
O auror não acreditava nela.
— Ainda assim você o acompanhou até uma sala nas masmorras da escola, sozinha? — ele perguntou com evidente desconfiança.
— Ele me disse que era pai do meu primo, Hector. Eles são muito parecidos. Bastou para mim. — deu de ombros. Sabia que parecia estúpida. Ao seu favor, contava o que Mme. Pomfrey chamara de “trauma” causado, na ordem, pela: “ameaça de sua vida”, “exposição ao fogomaldito” e “quase afogamento”. Aparentemente, eram três coisas que poderiam deixar uma pessoa confusa e meio babaca, especialmente se reunidas numa só noite.
— Eu não vejo como a Srta. Black possa estar mentindo. — Interferiu uma voz grave do canto da ala-hospitalar, carregada de impaciência. — Como informei ao seu superior mais cedo, o corpo docente constatou que todo o estoque de água da escola foi adulterado com poção da verdade esta tarde, decerto alguma peça suposta a tornar a festa mais interessante. Achamos traços de álcool no sangue da aluna, consequentemente, ela ingeriu a poção também, e ainda está sob o seu efeito.
O auror, que era negro, alto e eficiente, com uma voz tão profunda que rivalizava com a de Snape, olhou longamente para o professor de Poções. Eles tiveram uma pequena disputa de quem olhava mais duro, a qual o auror abandonou antes.
— É possível que você seja chamada para depor novamente, Srta. Black.
— Então eu direi o mesmo que disse ao senhor. — informou, cansada.
O auror fechou seu bloco de anotações, guardou a pena no bolso do uniforme e pediu licença. Bervely o assistiu sair, passos deliberados, seu olhar atento vagando por lugares da ala hospitalar para os quais outros normalmente não olhariam. Parecia o tipo de pessoa que via coisas que os outros não viam; como a mentira deslavada no depoimento inicial de Bervely. Por mais sincera e em “choque” que ela soasse.
Quando ele foi embora, restaram só Snape e ela na enfermaria, o que não era bom de nenhuma maneira. Bervely procurou ignorá-lo, tão resoluta quanto possível. Apertou mais o cobertor magicamente aquecido em torno de si, mas o frio não passava. Havia algo de mágico nas águas do lago que faziam seu sangue gelar, mesmo horas depois de ter sido submersa pela água que invadira a sala das masmorras após a explosão do vidro.
Bervely não lembrava de nada da inundação. Ela só lembrava de acordar na ala-hospitalar e ouvir da curandeira que um auror queria falar com ela sobre os acontecimentos daquela noite, e que ela poderia se recusar se estivesse se sentindo fraca ou confusa.
Bervely não tinha recusado. Fez questão de deixar bem claro que não fazia ideia de quem era aquele homem insano que tentara sequestrá-la na noite da sua formatura. Que fora uma sorte Lucius Malfoy ter aparecido bem em tempo de salvá-la. E que ela não tinha a mais vaga ideia do porque o homem tentara levar também a sua colega, Tara Romansek.
— Mentiras. — anunciou Snape, levantando-se do seu lugar nas sombras, tornando impossível para que ela o ignorasse mais um pouco. — Cada palavra do que disse. Sabe que, se for descoberta, pode ser acusada de obstrução da justiça?
Bervely olhou atravessado para ele. O que Snape estava fazendo ali de qualquer maneira? Não devia estar cuidando da inundação em suas masmorras? A sonserina em peso tivera que ser evacuada, ela ouvira dizer. O salão comunal estava todo debaixo d'água, bem como as salas de aula. Metade dos professores estavam tentando conter os estragos, a outra tentando lidar com as exigências do grupo de aurores que ainda estavam na escola averiguando os fatos.
— Não sei do que o senhor está falando. Obviamente não posso mentir, também fui vítima da bebida adulterada com Veritasserum.
Snape andou até sua cama, pousou as mãos sobre a grade aos pés da cama e se inclinou em sua direção, como um morcego empoleirado. Bervely recuou, assustada com a súbita proximidade do padrinho e a expressão acusatória em seu rosto.
— Você adulterou a água da escola, Bervely. Não teria sido idiota de bebê-la. É claro que, seja lá o que tenha bebido essa noite, não foi nada produzido na escola.
Ela estreitou seus olhos também. Tinha encarado o demônio aquela noite. De novo. Não ia se deixar ser acuada por Snape.
— O senhor tem provas? Por que eu tive a impressão de que acabou de apoiar o que pensa ser mentira, diante do auror Shacklebolt. Um pouco contraditório, não é?
Ele voltou à sua postura ereta, a veia da contrariedade pulsando em sua têmpora como uma pequena convulsão.
— Eu não queria ter que presenciar o espetáculo sofrível da senhorita se enforcando em sua própria mentira quando o auror começasse a pressioná-la. Eles têm seus métodos de arrancar a verdade, quando querem, e são melhores do que poção diluída em água, acredite em mim.
— Claro. — ela disse de má vontade.
Odiava admitir, com todo o restante de suas forças, que ficara grata por Snape insistir em estar presente durante o seu depoimento. Ele postulara que era sua obrigação, como diretor da casa dela, mas Bervely sabia que isso era uma grande mentira.
— Madame Pomfrey pediu para avisar que a senhorita está de alta e, se preferir, pode se dirigir ao Salão Principal, onde encontrará um saco de dormir a aguardando. Por precaução, não deve conversar com seus colegas sobre o acontecido. Os aurores pediram sigilo das informações para que isso não dificulte a investigação.
Bervely deu de ombros, se levantando. Daria tudo para poder chegar ao seu quarto nas masmorras e desabar em sua própria cama na sua última noite em Hogwarts, mas é claro que ele também estaria debaixo d’água. Passar a noite na ala-hospitalar também não era uma opção, ali não conseguiria nenhuma informação e não ia aguentar a presença de Snape muito mais.
— Toda essa mentira sobre Thor Carmichael é para proteger Black, não é? — Snape perguntou com amargor enquanto Bervely recolhia seu vestido de festa encharcado (será que nenhuma roupa de gala que usava podia sobreviver por mais de uma noite?). Se virou para ele com uma postura defensiva.
— O que infernos uma coisa teria a ver com a outra?
— Eu não sei. — Snape sibilou, visceral. — Mas eu sinto o cheiro podre de Black em tudo isso.
— O senhor está completamente maluco, professor Snape. – disse num muito digno deboche. – Nem tudo no mundo é sobre Black.
Mas a questão é que ele estava certo. No fim, era tudo sobre Black.
Bervely não podia dizer nada sobre o Olho de Hórus aos aurores, porque então ela precisaria explicar como descobrira aquelas informações. Como se envolvera com o Olho de Hórus. A única razão para ter se envolvido com ele era, é claro, conseguir chegar à Sirius.
Confessar seu envolvimento com o Olho de Hórus era o mesmo que confessar seus crimes. Ela iria para a cadeia. Ela colocaria Sirius em risco, eles poderiam força-la a leva-los até ele mesmo contra a sua vontade. E mesmo se eles nunca encontrassem Sirius através dela, eles nunca mais se veriam.
Não é como se Sirius pudesse lhe fazer uma visita em Azkaban.
O idiota provavelmente se entregaria ou qualquer coisa assim meio corajosa e estúpida típica do ranço grifinório que ainda possuía.
Era nisso que Bervely vinha pensando em seu caminho da ala-hospitalar para o Salão Principal. O colégio estava um caos, no que tangia aos professores, fantasmas e aurores. Havia pelo menos meia dúzia destes últimos na escola, correndo de um lado a outro, ajudando os professores a conter a inundação, interrogando alunos do sétimo ano que estavam na festa.
Bervely entreouvira o auror que a interrogara e Mme. Pomfrey conversando, então ela sabia mais ou menos o que tinha acontecido depois que ela desmaiara. Percebendo que não conseguiria possuir seu corpo, já que sua marca fora destruída pela Rosa, Thor tentara fugir pela lareira, levando Tara consigo à força. Mas a lareira, que Bervely era suposta a ter adulterado para leva-los para fora da escola aquela noite (o próprio Thor lhe mandara a descrição detalhada dos feitiços que abririam uma ligação temporária com a rede de Flú, em resposta à carta dela, há alguns dias), na verdade estava ligada diretamente à lareira da sala da vice-diretora. De forma que um Thor Carmichael assado em carne viva arrastando uma aluna irrompera pela lareira de McGonagall enquanto ela conversava com Tonks sobre a adulteração da água da escola.
Tonks estar lá no momento certo fora um golpe de sorte. Bervely planejara que ela estivesse no Salão Principal, onde Jinx a encontraria e sinalizaria que usasse o Acionador. Mas Tonks tinha reconhecido Thor no mesmo momento e chamara reforço, conseguindo junto à McGonagall impedi-lo de fugir, até os outros aurores chegarem.
Enquanto isso, o uso de uma lareira não autorizada para a rede de Flú perturbara os feitiços de segurança da escola, disparando o alarme ensurdecedor que Bervely ouvira. Logo em seguida, o vidro da sala se partira, deixando a água do lago invadir a sala num turbilhão descontrolado. A água tomou as masmorras, mas os professores, despertos pelo alarme, estavam alertas e conseguiram evacuar os alunos a tempo de prevenir uma confusão ainda maior.
Lucius Malfoy e Bervely foram resgatados de debaixo d’água por Snape, o professor mais próximo da fonte da inundação. Ele levara ambos para a ala hospitalar, mas Lucius despertou no meio do caminho e começou a exigir que o assassino de dois membros da sua família pagasse pelos seus crimes.
A essa altura, os aurores já estavam na escola. Alguns deles podiam não simpatizar com Malfoy, mas todo o Departamento de Execução das Leis da Magia levava a palavra do membro do Conselho muito à sério para não tomar uma rápida providência. Thor Carmichael foi detido na torre e teve a sua prisão preventiva decretada, mas honestamente, quem iria soltá-lo, agora que a ira vingativa de Lucius Malfoy fora despertada?
Ninguém prestou atenção em Bervely até estar perto das portas duplas do Salão, já que ela usou a metamorfomagia para mudar a sua aparência o bastante para não chamar atenção no caminho, mas a pessoa que guardava a entrada do salão principal não se deixou enganar.
— Limãozinho!
Bervely se deixou abraçar. Tonks cheirava à eletricidade e água do lago, por cima de um perfume de pêssego. Ela trocara as vestes de gala por outra, um uniforme cinza claro com um brasão da Academia de Aurores do lado direito. O cabelo estava castanho claro, caretíssimo. Ou talvez só estivesse daquela cor porque a bruxa se encontrava nervosa demais para ficar colorida.
— Kim pegou o seu depoimento? Ele saiu daqui há algum tempo dizendo que se ocuparia disso. Não me deixaram fazer porque você é minha prima. Ah, e também porque disseram que eu já fiz o bastante essa noite e que devia deixar o resto com os adultos... claro que não com essas palavras, mas foi o que quiseram dizer... você está bem?
Abençoada fosse a anatomia humana que obrigava pessoas como Tonks a pararem para tomar folego, Bervely pensou. Imaginou seu aspecto, não devia ser nada bom. Estava vestindo um uniforme da escola emprestado por Mme. Pomfrey, muito amarrotado, mas que era melhor do que o vestido arruinado. Seu cabelo começava a secar, mas fazia isso em grumos embaraçados. E havia, é claro, sua mais nova estampa de estrangulamento. Ainda levaria uma noite inteira para as marcas dos dedos de Thor sumirem do seu pescoço.
— Vou sobreviver. — deu sua resposta de praxe. — Onde... onde ele está?
Tonks lhe olhou com gravidade, mordendo o lábio inferior.
— Eu meio que não tenho permissão para te dizer isso.
— Tonks. — Bervely lhe olhou com severidade, o que foi o bastante para a prima quebrar em sua resolução. Ela olhou para os lados antes de responder, como se um dos aurores “de verdade” pudesse estar à espreita esperando que ela quebrasse os segredos da investigação.
— Lá em cima, na sala do professor Flitwick. Estamos esperando os dementadores para escolta-lo até Azkaban. Prisão preventiva até o julgamento.
Bervely deixou um suspiro estrangulado escapar. Na mesma sala em que prenderam Sirius, será que eles não aprendiam? Esperava que alguém tivesse ficado dentro da sala daquela vez, para prevenir escapes misteriosos de última hora. Além do mais, Thor não era Sirius. Ninguém apareceria em sua janela com um hipogrifo, ninguém viajaria no tempo por ele.
A não ser...
— E Tara? Já pegaram o depoimento dela?
Aquela era a maior preocupação de Bervely. Se Tara resolvesse falar tudo que sabia e descobrira aquela noite, então suas histórias não se encaixariam e eles iam precisar descobrir quem estava falando a verdade. Mas pela expressão de Tonks, havia uma notícia por vir, pior do que discrepância de depoimentos.
— Tara Romansek não foi encontrada. Ao que parece, ela conseguiu escapar no meio da confusão da captura e evadiu... — Nimphadora de novo olhou para os lados, e abaixou o tom — Estão achando que ela está envolvida com os planos do Sr. Carmichael essa noite, pela sua atitude suspeita. Acho que vão colocar um alerta para ela.
— Não! – Bervely se exasperou — Tara é inocente! Ela não sabia de nada!
Tonks não parecia muito certa disso.
— Ela não está agindo como alguém inocente, Bervely. Se você sabe onde ela pode ter ido, é melhor nos dizer agora. E se ela for mesmo inocente, vai poder explicar isso quando a encontrarem.
— Aquela idiota. — xingou, revoltada. Ela não queria lembrar, mas as expressões no rosto da garota estavam bem frescas em sua memória à medida que lançava suas perguntas ao Olho de Hórus, uma após a outra, como chicotadas. Sabia, com a experiência de quem já passara por algo assim, que alguma coisa fora quebrada dentro da ruiva além da reparação naquela noite. A possibilidade de que estava em algum lugar por ai, sozinha, tentando lidar com o esfacelamento de tudo que dera por verdade desde os seus três anos de idade perturbava Bervely. — Eu não sei onde ela pode ter ido.
Era outra mentira. Mas ela mesma ia atrás de Tara, quando tivesse a chance. Precisava consertar as coisas entre elas. A voz de Tara a acusando de machucar seu pai ainda ardia em sua memória, precisava ter certeza de que ela compreendia que não havia mais nada do verdadeiro Gavril Romansek no corpo que ela queimara no natal.
— Bevy — Tonks chamou, pousando uma mão em seu ombro. Ele estava sensível, mas Bervely não se esquivou. — Vá descansar. Você já fez bastante essa noite. Sem você, esse psicopata nunca teria sido capturado. E agora, pode ter certeza que Malfoy vai fazer com que ele passe em Azkaban cada dia do resto da sua miserável vida. Eu nunca vi alguém tão furioso antes, me deixaram assistir o depoimento... eu meio que entendo porque tem gente no DEM que morre de medo dele. Ah! Não deixe de escrever para mamãe assim que acordar amanhã. Ela queria ficar, esperar você e te levar para casa assim que tudo terminasse, mas os aurores mandaram embora todo mundo que não podia ajudar na investigação. Ela não ficou nada feliz.
Bervely assentiu, só ouvindo metade da recomendação. Estava prestes a entrar no Salão Principal, mas se virou, mordendo o lábio inferior.
— Dora?
A prima se voltou, as mãos nos bolsos. — Sim?
— Eu acho que eu deveria... — suspirou, resignando-se. — Obrigada.
Ela lhe deu um sorriso divertido.
— Olha pra ela, aprendendo a agradecer, que orgulho.
O Salão Principal fora convertido num grande espaço de camping, como acontecera da vez que Sirius invadira o castelo do dia das bruxas. Os sacos de dormir tinham sido espalhados para os seus colegas da Sonserina, que a essa altura já estavam dormindo, vigiados de perto pelo Barão Sangrento, sempre pronto para dar um sopro gelado de morte em quem estivesse cochichando.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O fantasma flutuou até Bervely quando a viu entrar.
— O Barão ouviu histórias sobre a ameaça à vida da Srta. Black, foram estas verdadeiras?
Ela sorriu para o fantasma que pouco falava e, quando o fazia, era sempre na terceira pessoa. O Barão tinha fama de terrível – e ele podia ser, quando queria, com seu aspecto perturbador de enforcado – mas no geral era a timidez que o tornava pouco comunicativo.
— Estou bem, Barão. Eu assumo a partir daqui, obrigada.
Ele fez uma reverência, lhe desejou boa noite e saiu flutuando através de uma parede lateral, a deixando sozinha. Bervely localizou seu saco de dormir, mas não estava com sono. Atravessou o silencio profundo do salão, interrompido somente pelo ronco ocasional de uns colegas, mas mesmo estes ruídos se perdiam na imensidão acústica que o pé direito alto proporcionava.
O arranjo de bancos sobre púlpito não tinha sido desmanchado. Bervely subiu por ele e através das três fileiras de cadeiras até o ponto mais alto, onde tinha uma visão do salão inteiro. Inclinado um pouco a cabeça, também podia ver o céu de verão tomado de estrelas.
As estrelas não estavam mais zombando dela.
De algum lugar, Jinx surgiu, saltando ao seu lado e esfregando a cabeça macia em sua perna. Ele tinha sido excepcional aquela noite, e Bervely o deixou saber disso. Sem o Familiar, nenhuma parte do plano teria sido possível. Thor estava errado... ele não era o último resquício de Hector que ela poderia ter. Coçou entre as orelhas peludas, recebendo em retribuição um ronronar satisfeito.
Sorriu, apesar do corpo dolorido, apesar do frio entranhado na pele. A rosa em seu braço formigava, mais desperta do que nunca, os ramos cheios de espinhos espiralando por seu braço, do pulso até o ombro, enrolando-se como uma serpente negra. Sua conversa com Dumbledore naquele dia na ala-hospitalar, sobre a sua marca, fora breve e nem um pouco como ela descrevera para Carmichael.
Nada sobre ela precisar escolher um mestre ou agonizar. Nada sobre morrer quando o mestre da marca morresse. O que Dumbledore tinha lhe dito, após analisar a nova aparência de sua rosa com atenção, os olhinhos azuis brilhando cheios de interesse por trás dos óculos, fora o mais inesperado:
A rosa está protegendo você, Srta. Black. É ela quem tem defendido a sua mente, impedido qualquer tentativa de invasão como a que foi empreendida pelo professor Snape.
A rosa negra mudou sua lealdade... ou você a fez mudar. Nunca presenciei algo assim antes, mas...
O único mestre ao qual sua Rosa Negra responde agora é a você.
(Fim)
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