Indigna Rosa Negra

17 O Sentimento da Rosa


Notas iniciais
Ueaa, cap passado bateu records em comentários, obrigada seus lindos! Boa leitura!!

“— Você é um amor! — ela exclamou, acrescentando: — Vou me levantar de novo.

Dito isso, sentou-se com o menino na beira da cama e disse que lhe daria um beijo, se ele quisesse. Sem ter a menor idéia do que vinha a ser um beijo, Peter estendeu a mão, esperando.

Será que você não sabe o que é beijo? — ela perguntou espantada.

Vou saber quando você me der um — ele respondeu um tanto ríspido, e, só para não desapontá-lo, Wendy lhe deu um dedal.”

(Peter Pan – James Barrie)


1988 — Normandia, França.

Você podia ao menos fingir que está se divertindo. – disse Charlotte ao seu lado, num tom baixo para não ser ouvida pelos outros, e que era igualmente repreensivo – Assim vai acabar ferindo os sentimentos da sua avó. Foi muita gentileza dela nos aceitar para as férias, sabe.

Bervely rolou os olhos, sem ter certeza que Charlotte pegara o movimento no entanto, já que usava um chapéu com abas enormes sobre a sua cabeça, numa tentativa vã de protegê-la do sol escaldante do verão da Normandia.

Em primeiro lugar, era impossível fingir qualquer coisa num calor horroroso daqueles. Tudo o que podia fazer era ficar bem parada, controlando a sua respiração sufocada pelo ar quente, e no máximo passar mais uma camada de poção bloqueadora sobre a pele, para evitar as queimaduras. Em segundo lugar, não achava que a Madame Malfoy, sua recém descoberta avó, tinha sentimentos a serem feridos.

Como eles tinham ido parar à noroeste da França, essa era uma história engraçada. Começara na primeira semana de férias, ainda na Mansão Malfoy e logo após o seu fantástico primeiro ano em Durmstrang.

Como de costume, ela e Draco estavam tendo uma completamente justificável discussão a respeito dos rumos da incursão em Neverland aquela noite. Ela achava que era a sua vez de ser pirata, mas Draco estava completa e irracionalmente convencido de que só garotos podiam liderar o navio (representado na ocasião pela cama de Hector, já que era muito tarde para brincar do lado de fora). Draco subira no convés e empunhara um cabide, pronto para o duelo.


Charlotte, em certo momento, tentara convencer Bervely de que ela era a fada, não o pirata, e que cada um deles tinha um papel na brincadeira, e depois Hector tentara se fazer ouvir, insistindo que ambos poderiam comandar o navio, bastava que o Capitão Gancho convidasse Sininho a ser a sua co-comandante, lhe dando um tapa olho e posição especial no convés. Bervely ficara ultrajada com a sugestão de reviravolta na história: com se fosse sequer possível Sininho trair Peter e se aliar ao Capitão Gancho, onde Hector estava com a cabeça?

Narcissa, que acabara de entrar no quarto para anunciar o jantar, tentou acalmar os ânimos, mas já era tarde. Bervely, convencida a vencer o duelo e reivindicar o Fera dos Mares, arrebatou o arco de Charlotte, desviou das mãos do primo mais velho, que tentou segurá-la pela gola da camiseta, subiu na penteadeira para um melhor angulo… e atirou.

A flecha zuniu a um centímetro da orelha de Charlotte, que corria em sua direção, errou Draco por muitos metros (ele deu vários vivas zombeteiros) e atingiu Lucius em cheio no joelho, quando ele apareceu na porta do quarto querendo saber a razão de todo aquele caos.

– Já chega! – Narcissa exclamara, muito transtornadamente arrancando a sobrinha do móvel e a segurando em seu colo, onde conseguiu lhe destituir do arco antes que ela atirasse novamente. Olhou preocupada para Lucius, que estava paralisado à porta, lendo os detalhes da verdadeira batalhada que se travava ali. Não ajudava o fato de que, desde o ano passado, o quarto de Hector ainda era metade floresta, com um teto cheio de folhas e tufos de terra e raízes pelo chão. – Lucius, eu sinto muito…

– É isso. Já chega. – ele decretou. – pra mim já chega.

Narcissa o assistiu se virar e sair mancando, muito raivoso. Colocou Bervely no chão, ela que perdera a agitação completamente diante do tom sombrio do tio.

– O que ele quer dizer? – sua voz tremeu um pouco. – Tio Lucius vai nos mandar embora?

– Ele não pode fazer isso – Draco, abandonando o navio, veio correndo para perto da mãe – Pode, mãe? Ele pode mandar todo mundo embora?

– Se ele mandar, seriamos todos meninos perdidos de verdade – disse Hector, o único que parecia bem tranquilo, até animado. – O quão legal seria isso?

Mas eles não viraram meninos perdidos – no lugar disso, os Malfoy os enviaram para o haras de seus avós paternos para passar o verão. Bevy ouviu o tio Lucius comentar que “já era hora de terem uma segunda lua de mel”, mas até agora não houvera muita lua e muito menos mel, e ela não fazia ideia do que os tios estavam falando.

– Eu estou me divertindo – assegurou para Charlotte, que ainda aguardava uma resposta, e começava a fazer cara feia para a sua cara feia – Eu estou me divertindo internamente, eu apenas quero guardar a minha diversão para mim mesma, porque é tão intensa, que ia acabar ofuscando a de vocês.

– Você quem sabe. – ela suspirou, cansada de discutir com a mais nova. – Vai ficar ai? Acho que vou dar um mergulho. Dá pra acreditar na cor desse mar…?

Bervely assistiu, por debaixo da sombra do seu chapéu, o contorno esguio e comprido que era Charlotte em seu maiô fúcsia atravessar a areia branca da praia e se juntar ao igualmente esguio, porém forte e atlético, contorno de Hector na água. Eles protagonizavam uma daquelas cenas que ilustravam as capas de alguns livros da sessão de novelas de tia Narcissa, enquanto espirravam água um no outro, soltavam risadas estridentes e gritos animados, e lançavam-se na água gelada. A coisa toda era irritante, pensou a garota mais nova, agarrando o frasco de poção bloqueadora e espalhando mais dela sobre o nariz e as bochechas, que já começavam a arder novamente.

A alguns metros dali, Draco e Madame Malfoy (eles tentaram chamá-la de vovó no primeiro dia, e não fora nada agradável) davam de comer a um filhote de pegasus que nascera há poucas semanas, mas já era alto o bastante para lamber a testa do herdeiro Malfoy. Desde o começo ficara claro que, como seu neto genuíno, Draco era o único que realmente importava em presença para a matriarca Malfoy, e todos os seus paparicos eram dirigidos a ele em bases diárias.

Não era de todo ruim: deixava os outros três livres para explorar o haras e as falésias sem ter de atrasar o passo por causa do mais novo, mas boa parte da área permitida fora conhecida, e agora restava apenas a praia e a criação de pegasus, ambas coisas que Bervely não particularmente apreciava.

Aliás, qual era o problema de todo mundo ali, como eles conseguiam gostar daquela quantidade insana de sol sobre suas cabeças o dia inteiro?

Preferia ter ficado na casa de campo com vovô Abraxas – esse que realmente se permitia ser chamado de avô, até mesmo por Charlotte, apesar da falta de parentesco óbvia. Ela teria ficado, se Hector não tivesse insistido para que viesse à praia, e tudo isso pra quê?

Ela não tinha certeza que o primo lembrava da sua existência, e desconfiava que tudo isso estava relacionado à Charlotte de maiô correndo por ai.

– Qual é o problema, Bevy? – era Draco que se aproximava, sendo seguido pelo filhote de cavalo alado; o bicho grudara nele como uma sombra desde que foram apresentados. – Você parece emburrada.

Ela ergueu o rosto para olhá-lo, o que foi um erro, pois o sol estava bem acima da cabeça de Draco, e queimou seus olhos.

– Eu odeio a Normandia. – resmungou, cruzando os braços.

Draco sentou ao seu lado na toalha amarela estendida na areia. O pegasus imitou seu movimento, enchendo a toalha de areia e provavelmente de pêlos.

– Como pode odiar? Você já tinha visto um mar tão verde? E as, como é mesmo? Falésias? E a casa de campo! E a Madame, quero dizer, ela é tão legal!

– Ela é legal com você, Draco – rebateu, olhando atravessado para a mulher, que agora sacudia as roupas de seda verde clara e ajeitava o chapéu. Ela era outra que parecia saída de uma novela bruxa, alguma madrasta má que prendia a mocinha no porão para que esfregasse suas botas longas de couro até brilharem. – Além do mais, não é nada disso, é só que…

– Que Hector está um chato. – ele completou o pensamento, seguindo o seu olhar até o mar, na mesma hora em que Charlotte se lançava de uma pedra sobressalente na água e empurrava o garoto pelos ombros, tentando afogá-lo. As risadas eram perfeitamente audíveis à distancia. – Ele só brinca com a Charlotte agora.

Ela assentiu, surpresa que o primo tivesse feito uma leitura tão acurada. No topo dos seus sete anos, Draco era normalmente egocêntrico o bastante para não se dar conta daquele tipo de dinâmica, especialmente se as coisas estivessem sendo favorecedoras para ele.

– Nós podemos forçá-lo. – ele sugeriu, afagando a cabeça do cavalinho, ao mesmo tempo pensativo e astuto.

– Como assim?

– Vamos chamá-lo para brincar de Neverland. Ele nunca recusa, e ele precisa da gente pra isso. Não existe Neverland sem Gancho e Sininho.

Ela sorriu, assentindo. Mas então se lembrou:

– Como vamos fazer isso? O livro ficou em Princeton…

– Não precisamos do livro, precisamos? Você só precisa do seu sino, e eu tenho meu chapéu de pirata…

Ela assentiu, um pouco mais animada. Não era uma ideia ruim, talvez desse mesmo certo, afinal Draco tinha um ponto, Neverland não existia mesmo sem Sininho e Capitão Gancho, e Hector jamais recusaria.

Mais tarde naquele dia, Draco e Bervely aproveitaram a folga depois do jantar para correr até os seus quartos e pegarem o que iam precisar. Eles tinham sorte – talvez porque a Madame e o Monsieur Malfoy não estavam habituados a ter crianças em casa, não havia um toque de recolher. Eles iam para cama quando estavam cansados, ou então quando Charlotte achava que já era muito tarde, e ela estava sempre tão bem disposta devido ao que chamava de “ar das falésias”, que quase sempre os deixava em paz para decidir a hora de cair na cama.

Maison Bellerophont era o nome da casa de campo, toda feita de pedras redondas de silício retiradas da praia, e ela contava com três andares, corredores longos e areados e quartos com janelões que se abriam de dois em dois para os pastos. Havia no terceiro andar uma espécie de varanda ao ar livre, ampla e confortável, repleta de arbustos em vasos, flores brancas pequenininhas em jarros e chaise longs de couro que os cabia com folga. Era ali que gostavam de ficar à noite, vendo um céu limpo de estrelas, e foi ali que encontraram Hector e Charlotte, cochichando de cabeças juntas perto da sacada.

Draco foi sentar ao lado de Charlie, e Bevy saltou sobre o braço da chaise de Hector, pulando em seu colo e o sobressaltando.

– Veja, Peter! – ela disse numa voz fininha e entonada de surpresa – parece que você perdeu a sua sombra!

– Ah, não! – ele fez uma cara de preocupado – de novo não! Onde será que ela foi parar?

Bervely sorriu, satisfeita com a aceitação da brincadeira, que ela viu escrita nos olhos brincalhões e brilhantes do primo.

– Eu acho que ela está em Londres, dentro de uma gaveta, na casa daquela menina! – sondou, especulativa, ao mesmo tempo que sacudia o seu sino no tom das suas palavras. Charlotte gargalhou atrás dela, achando graça da improvisação.

– Vou voar até lá agora mesmo! Você vem comigo, Si?

Sacudiu o sino duas vezes, rápido. “Sim, é claro que eu vou com você, Peter”.

Dali a alguma viagem com pó de fadas para Londres, Peter aterrizou nos aposentos de Wendy Darling, o que na prática lhe custou não muito mais que se voltar para Charlotte, que esperava sua próxima “fala”, numa expectativa risonha.

– Wendy! Você por acaso não viu a minha sombra perdida por aqui de novo, viu?

– Ah, Peter – ela deu um suspiro teatral – eu sabia que era sua, essa danadinha. Guardei para você, mas está um pouco amarrotada. Quer que eu costure?

Ele arregalou os olhos, preocupado.

– Não vai doer, vai?


– Acho que vai doer um pouco – ela avisou, pegando uma das mantas macias sobre a chaise, e jogando sobre os ombros dele – mas já fizemos isso antes, e eu vou tomar cuidado.

Ela fingiu que costurava a “sombra” em torno do pescoço dele, se inclinando em sua direção, e quando o fez, seu cabelo cacheado caiu sobre o rosto, indo para perto do nariz de Hector. Bervely, que observava a cena com muita atenção esperando a sua deixa, teve quase certeza de que Hector acabara de cheirá-lo.

– Acho que eu devia ter passado a ferro – ela disse ao se afastar, passando as mãos sobre o manto, toda zelosa, e consequentemente afagando os braços dele. Bevy franziu as sobrancelhas, certa de que aquela cena estava perdendo o rumo. – Mas acho que vai servir.

– Ah, como eu sou esperto! – ele se vangloriou, abrindo a “sombra” como uma capa. Foi a vez de Charlotte franzir o rosto, fingindo que estava ultrajada.

– Mas é muita pretensão! Eu não fiz nada, não é? – reclamou, fazendo bico.

– Você fez um pouquinho – ele tentou remediar, os olhos indo parar nos lábios franzidos dela, sua concentração se perdendo por um segundo.

– Se eu não sirvo para nada, posso muito bem me retirar! – ela exclamou, fazendo menção de se levantar. Hector prontamente a segurou pelo pulso e a trouxe de volta para a cadeira.

–Não se retire. Eu sempre faço estardalhaço quando estou contente. – e como Charlotte continuou olhando para o outro lado e fazendo charminho, Hector lhe deu o seu melhor sorriso Pan, aquele que dava frio no estômago dez em dez vezes em que ele o usava – Uma menina vale mais do que vinte meninos.

Isso a fez se virar, sorrindo bobamente, e morder o seu lábio inferior. Bervely não podia entender porque estavam prolongando tanto aquela cena, que era na sua opinião, a maior chatice, nem porque a estavam levando tão a sério.

– Você acha mesmo isso?

– Claro. – ele confirmou, em voz baixa, olhando nos olhos dela.

– Você é um amor. – ela disse, cuidadosamente. Embora estivessem sendo fieis ao diálogo, os tons estavam totalmente errados. Como se fossem frases novas e eles não soubessem o que o outro ia responder, apesar de já terem feito aquilo umas mil vezes. – Eu vou lhe dar um beijo… se você quiser.

Charlotte corou depois de dizer isso. Aquilo era um bocado de esforço na atuação, Bervely pensou, impaciente. Draco observava a cena com uma sobrancelha erguida, também não parecia estar entendendo nada.

Hector deu um sorriso maroto e estendeu a mão. Charlie bateu seus olhos na palma estendida e sorriu só um pouquinho.

– Será que você não sabe o que é um beijo?

– Vou saber quando você me der um – o menino soprou, a voz baixa, um tom de desafio.¹

Era agora que a cena se desenrolava; Wendy alcançava o que quer que estivesse ao seu alcance e entregava a Peter, para não desapontá-lo, e eles seguiam para a parte em que percebiam que Sininho estava sumida. A não ser pelo fato de que Charlotte não deu nada na mão de Hector; ao invés disso, ela se inclinou e alcançou seus lábios, plantando ali um beijo estalado.

– Não! – Bervely bradou, ao mesmo tempo em que Hector se aprumava, surpreso com a mudança no roteiro. Antes que um dos dois pudesse dizer qualquer coisa, a menina saltou do colo do primo e empurrou a mais velha raivosamente. – Você estragou tudo, Charlie! Qual é o seu problema?

– Bervely! – a garota exclamou, sem fôlego, segurando as mãos da menina. – Pare!

– Você estragou tudo! Eu odeio você! Eu odeio você!

Bervely! – Hector também chamou, assustado com a sua reação, mas era tarde demais. A Black arrancou o sino de seu dedo e o jogou no chão com força, e raivosamente saiu correndo da sacada, os deixando sem reação, mergulhados num silencio confuso.

– BD –

Se ela já não estava morrendo de amores pelo verão na França antes, após o episódio na sacada Bervely passou a se recusar a sair de casa. Sua justificativa era o sol – não importava quanta poção bloqueadora aplicasses sobre a pele muito branca, acabava ardida e toda vermelha no fim do dia – mas não era a verdade completa. Estava farta da praia, da Madame Malfoy paparicando Draco o tempo inteiro, dos cavalos alados surgindo do nada e lhe assustando, mas principalmente…

Principalmente Hector e Charlotte lhe irritavam muito. Fazia o seu estômago doer toda vez que os via juntos se divertindo, não podia explicar o porquê. Não queria ficar em torno deles, absolutamente.

– Não tem nada de errado em não gostar do sol – disse vovô Abraxas quando ela expôs seus motivos na mesa do café da manhã – eu mesmo não o suporto, por isso passo o verão inteiro em meu laboratório. Você pode vir comigo se quiser, Bervely, estou trabalhando num Sumo de Fortalecimento para os animais que pode achar interessante.

Ela recusou a princípio. Ouvira falar sobre o “laboratório” do Monsieur Malfoy, que a Madame chamava de “caverna congelada”, e na sua imaginação, pareceu um lugar onde também não ia gostar de gastar o seu tempo. Mas ela ficou feliz em dar uma chance, no seu terceiro dia de reclusão, já completamente entediada.

O laboratório ficava no subsolo, onde em casas normais deveria haver um porão. No entanto não se parecia com um: as paredes e o chão eram de cerâmica azul, o teto era baixo e a iluminação, muito boa. O “congelante” se devia ao fato de a temperatura ser cuidadosamente controlada com feitiços de resfriamento, a fim de preservar as poções. Monsieur Abraxas era um Alquimista. Havia um brasão enorme de ouro branco e rubis no lado interno da porta, com um símbolo que Bervely nunca tinha visto antes, um bastão envolvido por uma cobra arqueada, e sobre ele um par de asas e uma coroa.

– O que é Alquimia? – ela se atreveu a perguntar, quebrando o silêncio do laboratório, cortado apenas por sons borbulhantes das poções em caldeiras e o tilintar dos objetos que ele usava para trabalhar.

– É uma antiga arte mágica – respondeu de pronto, a voz asmática de um velho que inalara muito vapor ao longo da vida – criada para combinar e transformar elementos por meio de magia, a fim de conseguir resultados que nenhum encantamento por si só pode alcançar.

– Como o quê?

Ele sorriu para o caldeirão, talvez já esperando a pergunta.

– A morte silenciosa. A vida eterna. O verdadeiro amor.

Assentiu, impressionada, agarrando-se ao banquinho em que fora posta sentada e observando o homem trabalhar. Abraxas Malfoy manuseava aquelas ferramentas como se fossem extensões do seu corpo, e ele às vezes usava a sua varinha, mas ela observou que alguns encantamentos lançados através da mistura fluíam de suas próprias mãos. Tudo se parecia com uma dança lenta, os seus movimentos e os vapores, os silvos e os cheiros, era hipnotizaste de se ver. Sentiu que poderia ficar ali por horas.

Sem querer atrapalhar, esperou ele envasar o líquido no qual trabalhava e selá-lo magicamente, guardando-o numa caixa aveludada.

– Qual deles o senhor cria? – quando o velho lhe olhou vagamente confuso, ela explicou melhor – a morte, a vida ou o amor?

– Ah! – Monsieur Abraxas exclamou com humor, um misto entre tosse e risada – nenhum dos três, minha querida! Isso aqui é só uma poção para os cavalos. A melhor que se poderia ter, mas ainda assim… só para os cavalos.

Ela assentiu, mordendo seu lábio. Não entendia muito daquilo, mas parecia muito desperdício de potencial um homem como Monsieur Malfoy – um Alquimista – ficar fazendo remédios para os cavalos. Quando expôs o seu pensamento, ele assentiu, bem humorado.

– Tem razão sobre isso. Mas é aqui que a Calíope precisa de mim, não é, e eu sou um bom marido, eu sou o que ela precisa que eu seja.

– Calíope? – perguntou, confusa.

– A sua avó. Esse é o primeiro nome dela, não sabia? – pareceu ainda mais divertido com essa constatação. Bevy corou.

– Não…

– Não é culpa sua. Se ela não os deixa lhe chamar de avó, expor o seu primeiro nome também não seria uma atitude esperada. – ele lhe deu uma piscadela amiga – não se preocupe com isso. Ela acha que o segredo da juventude é manter-se indiferente e distante.

– Mas se ela quisesse saber o verdadeiro segredo da juventude – comentou, pensativa – bastava vir lhe perguntar, não é? O senhor saberia… já que é um alquimista.

Monsieur Abraxas lhe olhou com novos olhos, claramente admirado.

– Você pegou o raciocínio, garota. É isso mesmo, muito esperta.

– Obrigada. – disse, satisfeita consigo mesma. Mas agora estava com uma dúvida, uma que não podia nem queria esperar para questionar. – Vovô Abraxas?

– Sim, Bervely? – ele já estava com a cara em outro caldeirão, sua barbicha grisalha pendendo sobre o queixo fino característico dos Malfoy, e quase tocando a superfície da poção.

– Garotas podem ser Alquimistas?

– Sim, sim. De fato, houveram grandes mulheres alquimistas em tempos passados. – respondeu com certa reverência – Enid Píton, Angelis Agrippa, Perenelle Flammel… por que pergunta?

– Acho que eu gostaria de ser uma, quando crescesse. – admitiu, cutucando o assento do banquinho com as unhas.

– Ah, isso seria fascinante, seria mesmo. – mas depois Monsieur Malfoy interrompeu a mistura dos componentes do caldeirão, para olhar para a ela curioso – porque decidiu assim agora?

– Porque eu gosto de poções, e eu… eu gostaria de poder criar o amor verdadeiro, se eu pudesse.

Ele sorriu astutamente.

– Isso não teria algo haver com a sua recusa a sair e aproveitar as férias com os seus outros primos, teria?

Ela arregalou os seus olhos e abaixou a cabeça, sentindo o rosto queimar furiosamente. Não viu, mas ouviu o alquimista dar uma risada discreta, antes de voltar à mesa de trabalho e começar a picar um monte de raízes.

– BD –

– Por favor, Bevy. Por favor, por favorzinho, por favoooor.

– Pára de me encher, Draco. Eu já disse que não.

Draco fez beicinho. Normalmente funcionava com a sua mãe, quase sempre com Charlotte, e com Hector também. Mas não com ela, que achava que o primo já estava grande demais para aquilo, e não deu a menor bola.

– Mas se você não for, eu não vou poder ir também!

– Chama Hector.

– Eu não sei onde ele está!

– Chama Charlotte, então.

Ele rolou os olhos.

– Até parece, ela é a maior frouxa. Além do mais também não sei onde ela está. Vaaamos, Bevy. Eu até deixo você ser a pirata da próxima vez.

A proposta a interessou, tanto que ela largou um dos incrivelmente confusos livros de alquimia do vovô Abraxas e olhou para o primo.

– Promete mesmo?

– Juro que prometo. O navio será todo seu.

Ela ergueu uma sobrancelha, duvidosa.

– E se eu for, não vamos ter que voar, certo?

– Nada de voar. Não vamos sair do chão, eles não voariam conosco, são treinados.

Resignada, largou o livro de lado e foi colocar as vestes de montaria que trouxera, mas ainda não vestira nenhuma vez desde que chegara à Normandia. Apesar de ter uma certa curiosidade sobre cavalgar, não gostava da ideia de que os cavalos tinham asas e poderiam resolver alcançar um petisco no céu a qualquer momento em que ela estivesse sobre o lombo de um deles.

Uma coisa era voar de carruagem – que ela não gostava muito, mas pelo menos não precisava ficar que vendo que estava no céu, agora voar em cima dos pegasus… lá no alto sem poder fugir pra lugar nenhum se algo desse errado… tinha calafrios só de pensar.

– Mas não é que ela está adorável! – vibrou a Madame Malfoy, que tinha costume de fazer comentários sobre eles como se falasse com uma terceira pessoa – agora, prestem bem atenção. Só podem andar nos limites do haras, existem cercas, vocês vão saber. E nada de chegar perto das falésias, ou soltar as rédeas para fazer gracinhas, ouviram bem?

Eles assentiram, Draco muito animado sobre um potro branco com enormes asas azuladas, e Bervely agarrada às rédeas douradas como se sua vida dependesse disso, mas tentando demonstrar tranquilidade apesar dos dentes batendo.

– É isso ai, bom passeio. É bom estarem de volta para o almoço ou vou mandar Epígrades atrás de vocês.

Epígrades era um cão do tamanho de um leão, e que normalmente ficava cochilando na frente da casa de campo. Na verdade Bervely nunca o vira acordado naquelas semanas todas, e duvidava que ele fosse um bom sistema de resgate de crianças perdidas numa propriedade daquele tamanho.

– Sabia que o haras é aqui no litoral porque os pegasus precisam da energia do mar para se desenvolverem? Tentaram criá-los no continente, mas as asas atrofiavam… além do mais, eles só bebem água salgada.

– É mesmo? – resmungou, colocando o máximo de tédio em seu tom. Draco estava cheio daqueles “fatos interessantes” sobre os cavalos alados ultimamente, e ele não se segurava em compartilhá-los com qualquer ouvido incauto ao seu alcance. Era como a obsessão por dragões, tudo de novo, mas dessa vez ele podia interagir com animais dos quais falava, o que tornava tudo mais intenso.

– Você vai achar curioso saber, que na verdade o negócio de cuidar dos pegasus vem da família da vovó, os Morayne… ela já era muito rica antes de casar com vovô Abraxas. Pareceu fazer mais sentido que ele abandonasse o trabalho dele para viver aqui, já que o negócio era tão lucrativo. Vovó acha que não conseguiria viver no clima úmido e chuvoso do Reino Unido, então foi uma boa coisa…

Bervely parou de decodificar a voz do primo, deixando que virasse ruído de fundo, decidindo no lugar disso apreciar o passeio. O dia não estava tão quente, havia a brisa fresca e salgada do mar, e o seu chapelão protegia o rosto e os ombros da pior parte do sol. O lombo de seu pegasus era confortável, ela apoiava os joelhos nas dobras das asas fechadas, enquanto ele trotava tranquilamente e sem rumo, parando as vezes para pastar. As rédeas iam frouxas – embora bem seguras – em suas mãos enluvadas, mas tudo ia bem, e se permitiu tentar relaxar.

Pensando bem, a Normandia era mesmo um lugar incrível. O céu era azul miosótis o dia inteiro, sem sinal de nuvens, havia uma onda de magia fraca e persistente na atmosfera, o bastante para fazer com que os bruxos se sentissem energizados, e pensando melhor, o ar não era assim tão sufocante.

Pensava que talvez deveria parar de implicar com os primos mais velhos, e aproveitar melhor aquela viagem antes que a tal “lua de mel” terminasse (ainda não sabia o que significava, estava esperando voltar para Wiltshare a fim de perguntar à tia Narcissa) quando viu um objeto conhecido esvoaçando na porteira de um dos estábulos espalhados pelo caminho.

Haviam muitos deles, e era, todos iguais: estrutura de pedras brancas e telhados de palha dourada, com valas amplas de ventilação e dentro, espaços com feno, água salgada e sombra para os animais descansarem. Normalmente eles fediam a estrume, então não era uma boa ideia se aproximar. Com a diferença de que nesse havia um tecido esvoaçante preso à porteira, como se deixado ali sem querer.

– Aquele não é o lenço de Charlotte? – ela observou, cortando alguma divagação de Draco.

Ele seguiu a direção que ela apontava e assentiu, surpreso.

– Como será que ele veio parar tão longe?

Ela suspirou, às vezes o primo era bem lerdinho.

– Obviamente ele veio junto com ela. O que será que ela veio fazer tão longe? Acha que foi cavalgar hoje também?

Draco negou.

– Vovó teria me dito – afirmou com segurança. – melhor pegarmos pra devolver a ela. É o que ela usa para Wendy.

De fato, era o lenço azul que Charlie enrolava no pescoço para se parecer uma moça inglesa respeitável durante as brincadeiras. Assumindo as rédeas, eles fizeram os cavalos desviarem o seu curso e irem em direção ao estábulo, Bervely se atrasando um pouco, ao atrapalhar-se com as direções da sua montaria.

Quando finalmente acertou, ela se juntou a Draco perto do estábulo e viu que ele parecia intrigado.

– O que foi?

– Shiu! – ele sussurrou – acho que eles ainda estão ai.

– “Eles”?

– Hector e Charlotte. – explicou, impaciente, como se ela tivesse a obrigação de entender de primeira. – Acho que estão se escondendo, consigo ouvir suas risadas. Vamos pegá-los de surpresa.

Ela assentiu, compartilhando o sorriso arteiro do primo mais novo.

Silenciosamente deram a volta no estábulo, se aproximando sorrateiros da parte de trás, onde havia uma abertura triangular na pedra, e era possível ver o lado de dentro de um angulo alto, estando eles sobre os lombos de seus pegasus. Haviam algumas divisórias dentro do estábulo, mas eram baixas e vazadas, além do mais, os dois primos mais velhos estavam na última delas, bem à vista.

E não estavam se escondendo, definitivamente.

Na verdade, num primeiro momento Bervely achou que eles estavam lutando. O que era estranho, porque Hector e Charlotte nunca brigavam. Além do mais, eles estavam rindo…

E um bolo estranho foi se formando em sua garganta enquanto ela assistia e tentava compreender. As bocas deles unidas – não o beijo casto que ela roubara de Hector há algumas noites, mas uma confusão molhada de línguas e lábios e dentes e suspiros. Ele puxava o cabelo dela, seu dedos entranhados nos fios a partir de sua nuca. A pôs sentada sobre um monte de feno, e descolou os lábios, começando a desabotoar os botões da camisa dela.

Charlotte estava corada, mas não de vergonha, porque ela não parecia querer se esconder dele. Pelo contrário, ela o ajudou a revelar seu sutiã amarelo estampado com girassóis, e também suspirou quando ele correu as mãos por seu estômago.

– O que é que eles… – Draco murmurou, mas emudeceu, quando Hector arrebatou a boca de Charlotte de novo, faminto, e ela correspondeu entrelaçando suas pernas firmemente em torno da cintura dele.

Hector gemeu o nome dela. Draco procurou aterrorizado o olhar da prima, mas não o encontrou. Foi quando ele percebeu que Bervely não estava mais ao seu lado, e o seu horror só aumentou quando viu que o cavalo de Bervely cavalgava em disparada para longe, parecendo fora de controle, com ela em cima, sacudindo precariamente e mal dando conta de segurar as rédeas… ambos em direção às falésias, até onde ele sabia.

– BD –

– Hector! Hector! Você tem que ir atrás dela!

Draco entrou tão abruptamente no estábulo que quase matou o casal de choque. Eles se separaram na velocidade de um raio, e teria sido engraçado perceber a cara extremamente branca de Hector ao ser pego no flagra, ou o terror de Charlotte apenas em suas roupas de baixo, se não houvesse tanta urgência no tom do caçula.

– Draco, calma! O que foi, o que houve? – o mais velho saltou sobre ele, segurando-o pelos ombros. Draco estava sem fôlego e aterrorizado, e o fato de ter interrompido amassos intensos de dois mais velhos não parecia ser uma questão em sua mente no momento – Bervely! Cavalo desgovernado! Precipício!

Hector se aprumou, uma expressão grave no rosto.

– Qual direção?

O primo apontou. Hector prontamente o largou e correu para fora, arrebatou o cavalo alado de Draco e o pegou pelas rédeas como se fizesse aquilo o tempo todo. Ele incentivou o cavalo a correr o máximo que podia, o que era bem rápido, mas quando ele avistou onde Bervely estava, soube que não seria suficiente, então cravou os joelho nos flancos e jogou o corpo para trás, sentindo um frio no estômago quando as quatro patas deixaram o chão do prado, e o par de asas enormes deslocaram o ar ao seu entorno.

– BD –

Bervely sentiu, mais do que viu, o chão fugir. Quando descobriu que se aproximava do paredão de pedras, e consequentemente da queda de trinta metros rumo ao mar, ela não pensou “vou morrer”. Estava em um pegasus, afinal de contas, então o que ela pensou foi “vou voar”.

E a ideia foi mil vezes mais aterrorizante.

Seu estômago deu uma volta inteira quando as asas bateram violentamente ao seu redor. O deslocamento de ar varreu seu cabelo o lançando no rosto, ao mesmo tempo que o chapéu voou de sua cabeça e se perdeu. Ela puxou as rédeas com força, mas isso só fez o animal subir mais alto, para o seu horror. Lá embaixo, o mar brilhava num azul letal, muitos metros abaixo, uma queda fatal.

Começou a gritar e chorar. Não queria voar. Não queria cair. Não queria morrer.

– Não, por favor, por favor, me ponha no chão… – choramingou, desesperada, tentando se equilibrar no lombo que agora já não era confortável, mas instável e escorregadio. Suas pernas doíam do esforço, bem como seus braços. O sol queimava seus olhos quando ela tentava ver, embora ver onde estava também fosse terrível. – ME PONHA NO CHÃO! – ordenou, estridente, puxando as rédeas com todas as suas forças.

O pegasus empinou ainda mais para cima, o bater brusco das asas poderosas lhe lançando num redemoinho de vento, e fazendo as rédeas escaparem de suas mãos. Desesperada, agarrou a crina branca do animal, cravando ali seus dedos como se sua vida dependesse disso.

Foi o seu grande erro. Ao contrário dos hipogrifos e dos hipocampos, os pegasus eram muito sensíveis em suas crinas, e odiavam ser segurados por elas. Aquele em especial sentiu-se ofendido, e começou a tentar expulsar a inconveniente carga em seu lombo, a fim de voar em paz.

Sendo esta uma menina de doze anos sem nenhuma habilidade em voo equino em especial, não demorou muito. As mãos suadas escorregaram, seu corpo foi lançado para trás, e Bervely fez um arco no céu, para em seguida despencar em queda livre em direção ao mar, a toda velocidade. E muito embora houvesse emissão mágica involuntária envolvida, jamais seria o suficiente para salvá-la daquela altura.

Não, ela morreria. Se não de encontro à agua, afogada, com toda certeza. E foi uma sorte o impacto contra a água ser diminuído pela sua própria magia: de encontro ao mar salgado e azul turmalina, mergulhou fundo, muitos metros, debatendo-se. Por quase um minuto inteiro, seu corpo não emergiu.

Hector não esperou. Lá de cima, sobre o lombo do pegasus de Draco, ele mirou e se lançou na água corajosamente. Não era nenhum exímio nadador, mas tinha fé em si mesmo, e isso ia ter que bastar, naquela circunstâncias.

– BD –

No final das contas, a lua de mel de Lucius e Narcissa foi interrompida por um breve bilhete de Calíope Malfoy, avisando que a sua sobrinha caíra cem metros do lombo de um pegasus rumo ao oceano, e quase morrera afogada, mas “passava bem”.

Ela teve, para o desagrado de Lucius, de aparatar até a França para ver com os seus próprios olhos que Bervely estava intacta. Ouviu atentamente a história envolvendo o pegasus desgovernado e o salvamento heróico de Hector, e embora achasse que os detalhes estavam em escassez naquela história, foi convencida pelos sogros a deixarem as crianças ficarem mais um pouco – com a condição de que não chegassem perto dos animais novamente, nem por brincadeira.

Bervely não pretendia se aproximar de qualquer um deles pelo resto da sua vida. Torcera seu pulso ao tentar se segurar, e acabara manifestando uma alergia inesperada ao Esquelecresce, o que significava que precisaria curar ao modo trouxa – o que para ela era castigo o suficiente. Seu braço fora envolvido por grossas talas e imobilizado, e precisaria ficar na cama porque a reação alérgica à poção lhe causara erupções e febre, deixando a pele muito sensível para voltar a se expor ao sol.

A parte boa era que Hector voltara a lhe dar atenção exclusiva. Desde o acontecido, ele vinha trazer seu café da manhã, a ajudava a comer e esfregava o gel refrescante na pele do seu rosto e pescoço, prevenindo as erupções de arderem horrivelmente. Draco sempre estava com ele, e parara de tagarelar sobre os cavalos, para alivio geral. Às vezes brincavam de Neverland, às vezes só conversavam.

Charlie só entrava no quarto em último caso. Se lhe perguntassem, Bervely diria que ela estava constrangida por ter sido pega no flagra. Era bom não tê-la por perto, porque estava tão irritada com ela por… por…

– Coma as suas batatas, elas parecem boas. – disse Hector, lhe tentando com uma colher cheia de comida perto da sua boca. Luz da lua entrava pela janela e batia em seu rosto, iluminando os olhos que tinham a cor do mar, indefinido entre o azul e o verde.

– Não estou mais com fome, pode comer.

Ele deu um riso de lado e obedeceu, finalizando o jantar dela e depois o colocando de lado. Naquele dia Draco não estava com ele, já que era a última noite que passariam na Normandia, e o caçula quis ajudar a alimentar uma nova ninhada de cavalinhos que nascera naquela manhã.

– Como se sente? Está coçando? – perguntou, se referindo ao braço imobilizado. Já preparava o cabo da colher para ajudá-la a alcançar os lugares mais difíceis, mas ela negou. – Então o que? Você está estranha.

– Eu não estou estranha. – rebateu, fazendo cara feia.

– Está sim, mais que o normal. Está sentindo dor? Posso pegar uma poção.

Ela mordeu o seu lábio, incomodada. Queria dizer para ele que não havia poção para aquele tipo de dor, a que sentia desde que o vira com Charlie nos estábulos, a dor que a fizera querer fugir e correr e correr para sempre e que acabara por lançar o pegasus em direção às falésias. Mas não sabia por onde começar, e a frustração a faz se recostar resignada nas almofadas às suas costas, os olhos cerrados.

Sentiu um toque eu sua bochecha, terno e preocupado.

– O que está aborrecendo minha fada? Desembucha, Si. Não pode esconder coisas de mim.

Ela segurou um sorriso à afirmação, mas ele acabou saindo mesmo assim, meio torto pro lado direito.

– Não sou sua fada, sou uma fada.

– Errado. Todo garoto precisa de uma fada, e você obviamente é a minha. Não se faça de boba.

Ela abriu os olhos, deliciada, mas ainda desconfiada. Afinal era uma afirmação muito séria, e ele nunca colocara daquele jeito, mesmo tendo-a chamado de “sua fada” outras vezes.

– Você sabe que eu não posso ser sua fada, porque eu sou uma dama, e você um cavaleiro. – retrucou, parafraseando uma afirmação de Peter em Aventuras em Neverland. Ele fez um aceno com a mão, como se espantasse um inseto impertinente.

– Bobagem. Agora, vai me contar o que está te incomodando?

Ela fez uma nova careta, cruzando o braço bom sobre o engessado, e olhando em outra direção que não a do rosto iluminado dele. O nó em sua garganta voltara, e só se desfez um pouquinho quando Hector pousou a mão sobre os seus dedos e fez um afago de encorajamento.

– Eu… – começou, a garganta seca – eu vi você. E Charlie, nos estábulos.

Admitir lhe custou um bocado, a lembrança ainda queimava. Ninguém tinha falado sobre aquilo, Draco escolhera ignorar como se não tivesse acontecido, e ela perdia a coragem toda vez que o primo estava presente.

– Sim…? – Hector a incentivou, sem tirar sua mão de sobre a dela.

– Vocês estavam… juntos. – disse, por falta de outra palavra melhor.

Ele assentiu.

– Eu gosta da Charlie. – disse de um jeito profundo e sincero. Sabia que se olhasse para ele agora veria verdade e nenhuma sombra de brincadeira, mas não queria, então não virou o rosto. – acho que é muito nova para entender isso, ainda.

– Eu não… eu não gosto disso. – admitiu, apertando os seus dentes, era muito difícil. Achava que ele ia se zangar com ela, que ele ia tirar sua mão de sobre a dela, e ia embora. Mas nada disso aconteceu.

– Tudo bem… você está com ciúmes. – explicou, calmamente, apertando sua mão de leve. – Mas não precisa, sabe?

– Mas você só fica com ela agora, o tempo todo. – choramingou. Sentiu que seus olhos estavam queimando, e odiava chorar, e mais ainda na frente de Hector. – ela quer roubar você de mim.

– Isso não seria possível, é como… vamos ver se consigo explicar. Lembra quando a Si estava muito irritada com o Peter, tanto que até parou de falar com ele, tudo por causa da Wendy?

Bervely assentiu para o ponto no tapete em que se fixara ao invés de olhar no rosto dele.

– Mesmo assim ela voltou e salvou a vida dele, quando ele estava em perigo, não foi? Ela bebeu o veneno por ele, se lembra?

Ela fungou e assentiu de novo, sem saber onde o primo queria chegar.

– Sabe porque ela fez isso? Porque ela é a fada dele, e não importa o que, eles sempre cuidam um ao outro. Como eu fiz com você… eu estava com a Charlie, mas eu sempre vou largar tudo se você precisar de mim. Sempre.

Bervely ficou tão surpresa, e tão emocionada, que olhou para ele de novo. Hector deve ter visto algo em seu rosto, porque abriu um sorriso Pan espetacular.

– Essa é uma promessa entre um garoto e sua fada. Eles sempre protegem um ao outro. Sei que faria o mesmo por mim, se eu precisasse. Tomaria até um copo de veneno no meu lugar, para salvar a minha vida.

– É claro – ela prometeu devotadamente, sem poder evitar as lágrimas de escorregarem pelas suas bochechas agora. – É claro que sim.

– Viu? Não tem porque se preocupar. – a tranquilizou, puxando-a para um abraço e coçando o topo da sua cabeça. – Sou seu garoto perdido. Não vou a lugar algum, sua boba.

Ela se permitiu sorrir, se sentindo mais tranquila. Ainda não gostava do que tinha visto nos estábulos, mas se um jurava cuidar do outro não importa o que, não precisava ter medo de perdê-lo. Ela ia cumprir sua promessa, e mantê-lo por perto para sempre.

– BD –

1992, Mansão Malfoy.

– Eu prometi que ia estar sempre lá para ele, como ele sempre esteve para mim. E agora eu eu preciso ir.

– Ir…? – o menino arregalou seus olhos, alarmado.

Mas não havia razão para alarme, na verdade era muito óbvio, agora ela via, e estava calma, mais calma do que estivera em qualquer momento desde que acordara no Hospital St. Mungus.

– Ir atrás de Hector. Como eu devia ter feito desde o primeiro momento.

Pare de fazer isso, não tem graça, Bervely! – Draco rebateu, num tom tremulo e irritado ao mesmo tempo. Como se de alguma forma, ela decidir que ia atrás de Hector fosse uma ofensa pessoal a ele, e ela se sentiu muita irritada, novamente, com toda a hipocrisia da qual Draco insistia em compartilhar.

– Eu não entendo! – ela exclamou, no fim da sua tolerância – todos nessa casa pareciam amar Hector como um filho, ou irmão, mas no fim só eu me importo! Como podem fingir que ele nunca esteve aqui? Como vocês aguentam isso?

– É só o jeito mais fácil de superar! Será que não percebe?

– Eu não quero superar! A gente não supera as pessoas que a gente ama, Draco, a gente luta por elas! – exasperou-se.

– E foi justamente esse raciocínio que levou tudo a perder, não foi? Você colocou na cabeça que o amava e foi até o fim e os arruinou, e arruinou a nossa família no processo, porque você é simplesmente tão egoísta, Bervely!

– Eu o amava de verdade! Não “coloquei” nada na cabeça!

– Só que você não tinha o direito de amar, era errado, ele era o seu primo! E ele era de Charlotte! E você se meteu no meio e olha o que aconteceu!

Ela estava tremendo da cabeça aos pés, e a sua cabeça rodava e doía.

– Pare de falar sobre ele no passado, porque você continua fazendo isso?

– Por que é assim que a gente fala de quem está morto, Bervely! – Draco bradou, nos limites de sua garganta, explodindo enfim. Ela ergueu o rosto com o peso das suas palavras.

– O quê?

– Você não pode ir atrás dele! Você não pode esperar que ele apareça no Natal! Não pode querer que conservemos o seu quarto para sempre, ou que falemos dele o tempo todo porque DOI! Porque ele não vai voltar! Então PARE de fingir que ele vai, porque isso é uma droga e é loucura!

Draco estava chorando, e seu rosto todo vermelho, e ele enfim parecia desamarrado dos sentimentos que viera contendo desde as férias passadas. Ela estava formigando, e em choque. Porque o primo achava que Hector estava morto?

– Draco… – chamou, cuidadosamente. – Não. Para com isso. – ela riu nervosamente, que coisa mais ridícula… – Hector não está morto.

O caçula Malfoy piscou através de suas lágrimas e fungou. Ele estava bem patético naquele momento, mas não parecia se importar.

– Cala a boca, Bervely.

Ela negou, rindo. Mas que grande idiotice.

– Eu saberia. Eu sou a fada dele.

– Você o que? – sua voz subiu num tom de incredulidade.

– Não importa. Vou achá-lo… Hector, morto? Ah, por favor. – mais calma, ela pegou a mochila que caíra no chão no meio da gritaria, e aprumou no ombro. Não importava que o primo estivesse tomado por aquele delírio sem propósito, e não tentaria dissuadi-lo. Ele ficaria bem – todos ficariam bem – quando trouxesse Hector de volta.

– Você saberia – disse Draco amargamente às suas costas, parafraseando o que ela acabara de dizer – já que a culpa foi sua.

De novo com aquela acusação. Há um ano atrás, realmente acreditara, estava confusa, mas agora? Era parte do delírio, com certeza. Não ia lhe dar ouvidos. Jamais faria mal a Hector.

– Já chega, Draco.

Era a voz de Narcissa. Não só ela, como Lucius, aguardavam no corredor, e parecia que tinham ouvido boa parte da conversa, pelas suas expressões. A de Lucius era dura, mas a da tia, quase penosa…

– Está bem, querida. Obviamente fizemos um juízo precipitado da sua recuperação… pode vir conosco. Tudo vai ficar bem.

Bervely franziu o cenho, sem entender o tom, ou porque ambos estavam empunhando suas varinhas. Ir com eles?

– Para onde? Vocês sabem onde Hector está? Draco está sob a impressão de que ele está morto. Por que disseram isso a ele?

Tia Narcissa franziu os seus lábios só um pouco, mas foi-se embora antes que Bevy pudesse interpretar o que significava. Ela logo estava calma novamente. Seus movimentos eram lentos e deliberados, como se estivessem lidando com algo perigoso e prestes a explodir.

Ela, percebeu. Ela.

– Não vai dizer que também acreditam nessa teoria ridícula? Vai me dizer que Charlotte está “morta” também?

– Bervely… querida. – Cissa entoou, uma tom suave – você não se lembra…?

– Vocês estão todos loucos. – percebeu, seus olhos arregalando-se. – oh meu Merlin, vocês acham mesmo… vocês estão loucos. Hector…

– Está tudo bem, Bervely. Vamos te levar de volta ao hospital, e você vai entender o que…

– Hospital? – alarmou-se.

Lucius rolou os olhos.

– Belo movimento, esposa. – murmurou com deboche. Narcissa bufou, desistindo da postura apaziguadora para uma mais autoritária.

– Bervely, já chega. Obviamente você não está completamente curada. Olha só pra você… precisa vir conosco, agora.

– Eu não vou para lugar nenhum com vocês! – decidiu. Até onde ir ao hospital tinha lhe levado, da primeira vez? Sete meses de coma com pesadelos horríveis, um mês usando a cara de outra pessoa… não queria repetir a dose.

– Isso não é uma opção, Bervely – Lucius interferiu, sua voz grave e ameaçadora – ou você vem conosco, ou…

– Ou o que? – resignou-se, rebelde. Foi a vez de Narcissa se irritar com o rumo da intervenção.

– Lucius!

Mas o marido não estava prestando atenção, na verdade movia-se à beira de um ultimato.

– Ou vai conosco, ou pode se desconsiderar como parte dessa família. A sua presença aqui só nos trouxe tragédia e dor, mas em consideração à sua tia eu lhe dei uma segunda chance. Não satisfeita, você continua a semear a discórdia e a ingratidão e para mim já basta! Ou aceita se curar dessa terrível afecção mental, ou fica longe da minha família e para de perturbá-la com a sua instabilidade!

Ela amargou aquelas palavras por um momento, o significado delas se descortinando na sua frente como uma verdade que sempre estivera ali à espera de ser dita. Lucius nunca a aceitara sob o seu teto como família, nem por um momento, ela sempre fora uma concessão. Ele a odiava. Mesmo quando ela tinha seis anos e queria ir embora, a única razão pela qual ele não deixou foi porque Narcissa ficaria decepcionada. Talvez se arrependesse profundamente de não ter se omitido naquela ocasião, não ter cruzado seu caminho, tê-la deixado ir atrás de sua mãe na noite fria, com o Signo Negro debaixo do braço…

– Certo. – disse por fim, a voz seca de emoção.

– Oh, Bervely, graças a Merlin. – Narcissa suspirou aliviada – pegue algumas roupas, a carruagem já está pronta…

– Não. Eu não vou para o hospital. Escolho a segunda opção.

Os olhos de Lucius brilharam afiadamente, e ela sabia que por dentro, ele estava vibrando em jubilo. O mesmo não podia se dizer da tia, cujas orbes azuis de vidro mostravam medo.

– Não há necessidade de…

– Se decidir ir embora, você não leva nada que não lhe pertença. – avisou Lucius, a voz rastejando sobre os protestos da esposa, como um animal peçonhento, e se envolvendo em torno da garganta da sobrinha. – E você não pisa os pés nessa casa nunca mais.

– Justo. – assentiu, os maxilares travados. Abriu a mochila e arrancou de lá de dentro as roupas que Narcissa lhe comprara, bem como alguns livros, e ingredientes. Só sobraram a sua varinha, o Signo Negro e a caixa com a Sra. Calliway.

– E você não se dirige à minha família e não a procura para o seu benefício. – sentenciou, venenoso. – A partir do momento que pisar fora desta casa, a família Malfoy se exime de qualquer responsabilidade em relação a você.

– Lucius… não pode fazer isso… Bervely, você não precisa! – Narcissa desesperou-se – Você está doente! Necessita de cuidados! Vamos, seja uma boa garota…

Mas ela não era uma boa garota, e até Narcissa sabia disso, como também deveria entender, lá no fundo, que ela precisava, sim. Já não pertencia aquela casa, e já não era parte daquela família, e se sua presença causava dor…

Bervely deus as costas aos lamentos da mulher que preenchera o lugar de sua mãe, um dia. E ao rosto em choque do garoto que considerara tão próximo como um irmão. Mas principalmente, deu as costas ao homem que queria vê-la pelas costas e a queria longe, e que nunca fizera nada mais do que aturar a sua presença, mas nunca nutrira qualquer sentimento por ela, como, agora, ela entendia.

– BD –

Algumas horas depois de deixar a Mansão Malfoy, Bervely Black entrou discretamente num bar sujo e escondido no centro de Londres, o rosto escondido pelo capuz, e se jogou numa mesa vazia lá no canto do fundo, onde ninguém ia ter que olhar para ela.

Era uma pobre infeliz com uma aranha, um livro velho e a roupa do corpo, pensou amarga, fazendo troça de si mesma. Precisara contar com a piedade de elfos domésticos pra chegar até ali; emprestara de Dobby alguns sicles, o suficiente para pegar o Noitibus Andante em Princeton e chegar até ali.

Como se não fosse patético o suficiente não ter dinheiro ou roupas, ela não fazia a mínima ideia de onde ir. Não tinha amigos – afinal, fora bastante cuidadosa em não aprofundar suas relações em Hogwarts naquele ano, por que mesmo? Ah, é. Ela não se importava.

Sua mãe estava presa, e a mera perspectiva de entrar em contato com ela lhe levava às náuseas.

– Em que posso serví-la, senhorita? – o dono do bar, um bruxo caolho e sem dentes, veio até ela e lhe ofereceu um cardápio empoeirado que Bervely dispensou.

– Não tenho dinheiro. – admitiu com desanimo, afinal estava muito mergulhada em autocomiseração para ter orgulho. Logo se arrependeu, e se ele a expulsasse dali porque não ia consumir nada?

Mas o homem lhe deu um sorriso desdentado e sincero.

– Você parece enrascada. Tem alguém para quem queira enviar uma coruja? Por conta da casa.

Negou. Duvidava que as corujas chegassem até Azkaban, de qualquer maneira. Depois pensou melhor, e assentiu, aceitando a oferta.

Não era muito garantido, é claro, mas podia tentar. Se o destinatário que tinha em mente soubesse que ela estava realmente no fundo do poço… talvez não se negasse a oferecer ajuda.


(Continua…)

Grupo no face!

Notas finais
Eu disse, eu disse. Sei que não era o que a maioria estava esperando, mas minha vida é surpreender vocês, fazer o que? 

O que nos leva à: 

Em quem vocês acreditam, nos Malfoy ou em Bervely? Ela sentiria se Hector estivesse morto? Ou ela está mesmo precisando ser internada novamente? 

 A quem a Bervely vai pedir ajuda??

 ¹A cena do beijo entre Peter e Wendy na obra original não se desenrola como no capítulo, como vocês devem ter presumido. Algumas frases ditas pelos personagens foram tiradas da obra original, e eventualmente adaptadas para meus propósitos nefastos. 

 Quero comentários, mas sei que não preciso nem pedir, a essa altura vocês devem estar loucos para me xingar em diversos níveis XD Então, só aguardo aqui *.* 

 E não esqueci do bônus, se tudo der certo (= der tempo) ele sai amanhã lá no grupo!