Indigna Rosa Negra
18 O Refúgio da Rosa
Notas iniciais
“As fadas tem de ser uma coisa ou outra, porque sendo tão pequenas, infelizmente só tem lugar para um sentimento de cada vez.”
(Peter Pan – James Barrie)
Uma segunda figura com capuz entrou no bar bruxo no centro de Londres, e não chamou especial atenção. Perscrutou entre as mesas, procurando o remetente da carta que recebera há pouco tempo, e a achou no canto mais afastado do salão, com a cabeça abaixada, rolando a varinha com um dos dedos, o olhar muito distante. Com um suspiro de resignação, se aproximou do alvo, cruzando os braços numa postura de zombaria quando estava perto o suficiente.
– Olha só quem está tão desesperada que resolveu apelar para o lado sangue-ruim da força.
Bervely levantou a cabeça, mantendo a expressão o mais neutra que conseguia. Além de não esperar aquele encontro, era toda orgulho ferido no momento, mas não pretendia dar o gosto de vê-la humilhada.
– O que está fazendo aqui? Eu escrevi na minha carta que esperava uma resposta expressamente via coruja.
Tonks rolou os olhos, abaixando o capuz e revelando um espigado cabelo rosa-chiclete com pontas roxas, e olhos verdes de gato. Ela puxou uma cadeira e se sentou, depois tirou do bolso um papel amassado que Bervely reconheceu como a carta que enviara mais cedo, através da coruja emprestada do dono do bar.
– “Tonks” – Nimphadora começou a ler, numa voz em falsete que na verdade se parecia assustadoramente com dela, Bervely – “Me encontro em alguma dificuldade no momento e apreciaria uma empréstimo, caso não seja pedir demais. Entendo se resolver se recusar, afinal não fui exatamente simpática no nosso último encontro, mas eu não pediria se não fosse urgente. Aguardo a resposta – e a quantia, dez galeões devem servir – através dessa coruja o mais rápido possível.” – a garota lhe lançou um olhar atravessado, retornando à sua própria voz – Dez galeões? O que é um apuro de dez galeões? Precisava ver com os meus próprios olhos, mas agora olhando para a sua cara, estou com medo de que me peça ajuda para enterrar um corpo.
– Muito engraçado – na verdade, Bervely estava aliviada por constatar que a lufa-lufa não estava irritada consigo tanto quanto imaginara. Isso era um pouco surpreendente.
– Como sabia onde eu estava?
– Rastreei a coruja que me enviou. Não é tão difícil, aprendi num livro de treinamento básico para aurores e estava louca pra usar. – sorriu, mas lembrando-se do porque estava ali, ficou séria e intensa de novo – desembucha, no que se meteu? Seu tio suspendeu sua mesada?
– Não… quero dizer, sim. Mais do que isso. – cruzou seus braços, inclinando para trás na cadeira, em querer, mas sabendo que precisava, dizer a verdade – Ele me expulsou de casa.
– Putamerda – a outra xingou, chamando atenção de um casal de idosos ali perto, que torceram os narizes para ela. – Porque eles fariam isso? Você não mora lá desde que nasceu?
– É uma longa história… mas envolve Lucius Malfoy ser um imbecil e eu não suportar ver a cara dele por nem mais um segundo. A questão é que eu não estou certa de como conseguir dinheiro, quero dizer, minha mãe deve ter alguma herança guardada pra mim, mas não sei como ter acesso a ela. Olha – cortou suas divagações, sentando-se direito – eu sei que não tenho direito de lhe pedir nada, muito menos isso…
– Mas está pedindo mesmo assim – sorriu Tonks, divertida.
Bervely rolou os olhos.
– Sim. Por que você tem coração de lufa-lufa e seria incapaz de negar ajuda a uma pessoa em dificuldades, mesmo que seja uma sonserina desprezível.
– Desprezível e rude – ela ajudou, prestativamente. Bevy crispou seu lábios e segurou seu gênio.
– Eu vou te pagar cada centavo, com juros se quiser.
Tonks assentiu, pensativamente, aproveitando para analisar a situação da outra, percorrendo desde sua mochila murcha até as prováveis olheiras que Bervely ostentava a essa altura, em razão da noite mal dormida.
– Eu não vou te emprestar dinheiro, Bevy.
Ela sentiu algo em seu interior murchar e gelar rapidamente diante das palavras. Felizmente, vivera tempo o bastante com os Malfoy para não mostrar decepção ou desamparo em seu rosto, e tudo que fez foi assentir.
– Compreensível. Mas não entendo porque fez questão de vir até aqui me dizer isso.
Tonks começou a rir, seu cabelo ficando mais roxo do que rosa bem diante dos olhos de Bervely, para seu completo espanto. Não conseguiu decidir qual das duas reações era mais estranha, até a lufa falar novamente, entre risos.
– Não seja idiota, eu não vou te emprestar dez galeões porque não tenho, não guardo tanto dinheiro em casa. Mas principalmente, porque se eu te desse o dinheiro você ia sumir no mapa, e você só tem quinze anos… anda, Bervely, levanta dai. Vai dormir lá em casa essa noite.
– Quê? Não. – retesou seus ombros – Você não entendeu, não quero nenhum favor de você, só um empréstimo.
– Jesus, você é tão cabeça dura – meneou a cabeça, como se olhasse para um caso perdido – olha, o negócio é o seguinte: você pode ter vindo de uma família sem coração, que larga adolescentes no mundo sem eira nem beira, mas a minha me ensinou que a gente ajuda os amigos. Sim, eu disse amigos, é o que você é minha, não importa o que prefira pensar. Então, não, eu não vou deixar você se virar sozinha. Não vou aceitar um não como resposta. Amanhã você decide o que vai fazer da sua vida, Bervely, mas essa noite, você está voltando comigo pra o teto mestiço que tanto rejeita, mas que no momento, é a única coisa que você tem. O que me diz? Pegar ou largar. Ou você pode ficar aqui e pedir um quarto a Tom, que eu ouvi dizer que às vezes abre mão do pagamento em dinheiro, se te achar bonitinha o bastante.
O referido dono do estabelecimento estava atrás do balcão, esfregando um copo com um pano encardido, cantarolando uma música frouxa em sua boca sem dentes. Bervely engoliu em seco, pergutando-se intimamente em que momento daquela história perdera o controle da sua vida, e agora precisava escolher entre dormir na casa de uma sangue-ruim ou pagar com favores pessoais um quarto numa estalagem de quinta.
– Certo – rendeu-se, irritada, agarrando a alça da sua mochila e a colocando de qualquer jeito em um ombro – mas será só por uma noite. E com ou seu dinheiro, amanhã cedo estou dando o fora de lá.
– BD –
– Uauu, o que tem de errado com seu cabelo?
Bervely não respondeu de imediato, porque estava lidando com uma onda de enjoo. Elas tinham acabado de aparatar em Ottery. Não lidava muito bem com aparatação conjunta, e precisou respirar várias vezes para evitar colocar sabe Merlin o quê para fora, já que não tinham comido o dia inteiro.
– O que tem o meu cabelo? – sua voz saiu um pouco estrangulada. Acompanhou a colega para onde ela indicava, através de uma sebe meio selvagem e árvores nodosas que não podia identificar no escuro.
– Está cinza.
– Não está não – negou, puxando o capuz novamente por sobre a cabeça. – Deve ser o reflexo da luz.
Um chalé modesto de madeira, com um teto em V alongado e janelas quadradas nos dois andares apareceu diante dela. Havia muito cheiro de grama e ruído de cigarra, além do barulho indistinto de uma correnteza, e tudo isso harmonizava com a simpática construção cravada na relva.
– Vamos dar a volta e entrar pela porta da cozinha, deixei destrancada de propósito. Com sorte minha mãe não reparou que eu sai escondida e não teremos uma festa do discurso superprotetor para nos dar um pesadelo.
O interior da casa era… normal, Bervely supunha. Como casa de bruxos que não eram podres de ricos e exibicionistas devia ser. Ela viu alguns quadros e fotos que se mexiam, móveis de madeira, a mesa da cozinha, que tinha cada cadeira de um modelo diferente… haviam coisas trouxas também. Na sala, uma caixa preta com um dos lados de vidro, já tinha visto uma como aquela em um livro de Estudo dos Trouxas da própria Tonks, uma vez.
Elas tatearam no escuro, guiadas pela luz fraca da varinha da outra, através de uma escada estreita até o segundo andar, passando por duas portas fechadas até a terceira, onde havia um recado escrito em tinta rosa que não conseguiu ler.
Uma vez no interior do seu quarto, Tonks acendeu a luz e quase a cegou com a profusão de cores destoantes ali dentro. Havia uma cama com cobertores magenta, as paredes eram azuis cobalto e o guarda roupa fora pintado amadoramente de cor de laranja, menos as gavetas, que eram verde claro. Como se não fosse o suficiente, ela pendurara lanternas coloridas no teto, estampadas em vários padrões vivos e exuberantes.
– Uau, isso é…
– Difícil para olhos humanos, é o que o meu pai sempre diz.
– Eu ia falar que reflete o seu estado interior – disse, zombeteira. Mas a garota abriu um enorme sorriso, obviamente encarando o comentário como um elogio.
– Pode ficar com o sofá, ele é mais confortável do que parece – ela apontou para o outro canto do quarto, onde havia de fato um sofá, mas estava soterrado sobre várias pilhas de roupas jogadas, por isso não o vira de primeira. Quando a garota acenou a varinha e fez as roupas formarem uma nova pilha sobre o guarda roupas, o sofá revelou-se amarelo gema. Tonks lhe jogou um travesseiro (numa fronha roxa de franjas). – Não precisa dormir de capuz. Podemos continuar fingindo que o seu cabelo não está da cor do seu estado interior.
Bervely ignorou o comentário, deitado a mochila num canto e sentando para tirar os sapatos. Um minuto depois, e a colega já desabara na própria cama, seu cabelo colorido berrante desarmonizando com a cor da roupa de cama. Esperou um pouco, e quando parecia que Tonks tinha caído no sono, se atreveu a levantar de onde estava e dar uma olhada no espelho sobre a penteadeira (que era, adivinhe só, verde, com as gavetas cor de laranja).
Seu reflexo derrotado e mal humorado lhe olhou de volta, o rosto emoldurado por um cabelo que estava, definitivamente, mais cinzento do que preto. O que normalmente lhe deixaria em pânico, apenas provocou um suspiro de resignação aquela noite. Estava tão cansada… e tão cheia de coisas em sua cabeça. Só queria desabar do sofá de gosto duvidoso da sua anfitriã, e ter uma noite sem sonhos, mas não achava que daria tanta sorte.
– BD –
Quando você olha para a escuridão, ela também olha dentro de você.
Não era uma metáfora; a escuridão era um par de olhos, negros e mortos e vivos e loucos. Eram parte de um rosto comido e ossudo, par com uma boca que arreganhava um sorriso perturbador de reconhecimento.
Saber onde estava, com quem estava, o que acontecia, não era tranquilizador. Entrou em pânico.
– Não novamente – murmurou, ouvindo a própria voz como um eco estranho e filtrado. O som se dissipava de forma diferente entre aquelas paredes de pedra escura.
– A criança perdida vem visitar – cantarolou a sua companhia – e traz medo, repulsa, desamparo… medo, repulsa, desamparo… um banquete…
Apertou os ouvidos, tentando não ouvir a voz rouca, e não se deixar prender por ela. A não ser pelo fato de que ali dentro, os seus movimentos não eram seus… e o frio estava chegando. Os Donos estavam se aproximando, também amavam o banquete…
– Me deixe ir embora – choramingou, arranhando os cantos da sua mente, procurando a saída, qual era mesmo? Ela sabia, ela aprendera…
A prisioneira gargalhou, o som era o arranhar da unha numa lousa e repulsou o seu corpo inteiro, porque era dentro da sua cabeça, e cavava…
– Você não tem para onde ir, criança. Melhor ficar aqui comigo.
– Não novamente. – implorou.
– Mas eu sinto falta… falta do banquete… – ela argumentou, as unhas pontudas se cravando em sua pele como garras. Ficava ali, ano após anos, afiando-as no chão áspero de pedra, aquela harpia.
– Não! Isso dói. – seu pulso queimava horrivelmente, os espinhos se cravando bem fundo, procurando com o que se alimentar, porque a mulher, ela já estava seca, e o Frio estava vindo…
– Renda-se, Bervely. Agora já não há mais nada lá fora. Fique aqui comigo.
Sua cabeça latejou em repúdio à invasão forçada, e não podia se lembrar, embora tivesse certeza que aprendera a saída uma vez.
– Você me pertence, criança. Renda-se. Renda-se…
– NÃO!
O grito a arrancou do pesadelo, se é que isso era possível, e ela despertou no chão, embolada na manta que usara como coberta. Por um momento não conseguia respirar, e se curvou sobre a barriga, lutando por oxigênio. No pulso, a rosa ardia como se fosse uma ferida recém aberta até o seu osso. Estava aterrorizada, porque depois de tanto tempo, voltara para o seu pesadelo, e estivera mais lá do que na sua realidade, sentira a pedra sob os pés, sentira o encarceramento da jaula, a aproximação dos monstros sugadores de alma. E não conseguira acessar a lembrança que a protegia, aquela do cão no beco diagonal… percebeu que a coleira se soltara de seu pulso durante a noite, e jazia embolada no chão do quarto de Tonks.
– Droga! – resmungou, alcançando-a e rapidamente enrolando de volta no braço, onde escondia a tatuagem quase completamente. O contato do couro com a pele ardia, mas não se importou muito, pois com ela de volta, sentia-se mais tranquila. Ia precisar de mais poção do sono, mas por hora estava a salvo, e as batidas descontroladas do coração foram se lentificando.
Só então percebeu que não estava sozinha no quarto. Todo o seu estardalhaço não dera conta de acordar Tonks, ainda roncando num redemoinho que fizera com os cobertores enrolados em seu corpo.
Sorrateiramente, Bervely calçou os sapatos, alcançou sua mochila e varinha e deixou o quarto. Achou um banheiro no fim do corredor, onde lavou o rosto e enxaguou a boca com uma poção anti-séptica. Não fazia a menor ideia de para onde estava indo… é claro que ainda pretendia seguir o plano original e achar o primo, mas antes disso precisava de dinheiro, e de roupas e mantimentos e mapas… distraída, desceu ao primeiro andar e fez o caminho igual ao da noite anterior, mas não percebeu o cheio de canela no ar, ou as vozes baixas, e quando se deu conta, estava parada no meio da cozinha, e duas pessoas lhe olhavam de volta, surpresas, talvez mais até do que ela própria.
Uma delas era um homem de uns quarenta anos, um pouco acima do peso, com marcantes olhos azuis e cabelo loiro cortado rente. Ele vestia um macacão laranja escuro, e parara para encará-la em meio à missão de dar fim numa pilha de panquecas. A outra pessoa era uma mulher, alta e bonita com um rosto comprido, aristocrático… familiar.
– Bervely? O que…
– Ah, mas que merda. – ela praguejou, nervosa, ao perceber de onde conhecia a mulher – eles mandaram você atrás de mim? Não adianta insistir, não vou voltar para o hospital. E se for usar a varinha para me obrigar, saiba que eu era a primeira da minha classe de duelos em Durmstrang.
Era uma grande mentira, mas achou que cabia na circunstancia. A bruxa – que acontecia de ser, como acabara de identificar, a chefe-temporária da ala de danos por magia do hospital St. Mungus, piscou de volta, admirada e confusa.
– Lhe levar para o hospital, porque eu faria isso?
– Por que outro motivo estaria aqui, então? – retrucou, pensado num jeito de pegar a sua varinha que, estupidamente, guardara dentro da mochila. Não ia se deixar enganar tão fácil, e se Narcissa achava que era tonta o bastante para se permitir capturar por um funcionário, teria uma grande decepção.
– Eu moro aqui. Eu é quem devia perguntar o que você está fazendo na minha casa, se não fosse algo um tanto indelicada para se dizer à uma visita à essa hora da manhã.
Foi quando a coisa toda começou a se encaixar, bem devagar em sua cabeça, que estava lenta em razão do pesadelo e dos últimos acontecimentos. Era uma idiota, nunca pensara em relacionar o sobrenome da medibruxa – Tonks, ao de sua monitora em transfiguração e agora anfitriã, Tonks.
– Você é parente da… Tonks? Digo, da Nimphadora. – se achou boba perguntando, mas a mulher parecia muito jovem para ter uma filha de dezesseis anos.
– Sou a mãe dela. E esse é o pai, Ted Tonks.
O homem loiro, que tinha observado a interação com um leve interesse, lhe deu um aceno simpático e uma piscadela. Bervely teve a impressão de que ele estava se divertindo com o mal entendido.
– Apresentações feitas, pode se sentar que vou lhe servir alguma coisa. Dora já deve estar descendo.
– Ah, não… – disse sem jeito, trocando o peso de pé – não posso ficar. Tenho um… compromisso urgente em outro lugar.
Andrômeda lhe olhou com estranheza, Ted deu uma risadinha, mas foi uma voz atrás de si que quebrou o seu argumento.
– Não, ela não tem, mãe – Nimphadora entrou na cozinha coçando os olhos, ostentando um cabelo verde desbotado bem curto e cara amassada – pode servir um prato grande com ovos, bacon e waffles, porque até onde eu sei, Bervely não comeu nada ontem.
Sua barriga roncou, roubando seu direito de usar qualquer argumento contrário. Ela realmente estava faminta, e não parecia haver nada de terrível em escapar após o café da manhã. Tonks lhe deu um sorriso brilhante e puxou para ela a cadeira cor de rosa, sentando-se numa que combinava com o tom do seu cabelo naquele momento. Andromeda naturalmente colocou outro prato e talheres em sua frente e perguntou como gostava dos seus ovos…
E Bervely se viu inserida numa cena da qual jamais cogitara participar: um café da manhã de uma família comum. Sem elfos se curvando, sem tortas elaboradas e esculturas de clara de ovo, sem Lucius reclamando que o seu chá chinês de acônito estava frio, e pedindo para reaquecer trezentas vezes. Só um pai, uma mãe e uma filha jogando conversa fora, apesar de a coisa ter ficado um pouco desconfortável quando ela se tornou o assunto principal.
– Como Bervely chegou até aqui, se é que eu posso perguntar? – a Sra. Tonks indagou simpaticamente, servindo-os com uma nova leva de panqueca e e calda de pêssego. Tonks lançou um olhar maroto para Bevy antes de responder.
– Ela me mandou uma carta ontem a noite pedindo dinheiro emprestado. Foi expulsa de casa.
A mulher congelou com a jarra de leite no ar, a expressão grave.
– Ela foi o que? Você foi expulsa da casa dos seus tios, Bervely?
Ela quis se afundar na cadeira, e também desejou que Tonks tivesse enfeitado um pouco mais a história. Não era suposto que lhe desse cobertura, já que tinha colocado na cabeça que era sua amiga?
– Tudo bem, eu já estava querendo sair mesmo. Estava um pouco insuportável. – confessou, cortando um pedaço da comida e mergulhando na calda, ao invés de fazer contato visual.
– Por que, o que houve?
Estranhou o interesse excessivo da Sra. Tonks na sua história, mas então, precisava lembrar que ela fora a medica responsável pelo seu caso. Devia ser algum vestígio de preocupação com a sua condição, cogitou.
– As coisas andam complicadas… desde que sai do hospital. – viu-se confessando. O silencio que reinou na mesa fez ela levantar o rosto, e só para encontrar um olhar profundamente preocupado da bruxa sobre si. – Mas eu tenho um plano. Eu… tenho uma herança. Eu acho.
– Uma herança. – foi Ted quem repetiu. Ela pegou o olhar que trocou com a sua mulher, mas não o compreendeu.
– É, a minha mãe… eu acho que deve haver uma espécie de conta, mas não sei bem como recuperá-la.
Mais um pouco de silêncio constrangedor. Se permitiu engolir sua panqueca (por sinal, a melhor que já tinha experimentado). Será que os pais normais eram sempre assim, excessivamente preocupados?
– Bervely, você sabe… onde a sua mãe está, certo? Que ela não está morta…
– É claro. Ela está em Azkaban. Não é como se fosse precisar de algum dinheiro tão cedo. – seu tom era descomprometido, de forma proposital. Não queria levar a medibruxa a pensar que ela tinha questões com Bellatrix estar em Azkaban, ou pior ainda, que acabara de visitar a mãe em um sonho perturbador e muito, muito assustador. Toda a posição preocupada de Andromeda sobre ela já era recebida com muita estranheza.
Só quando a conversa se voltou para outro assunto (uma grande encomenda de tamboretes extensíveis que Ted havia recebido, aparentemente ele fazia móveis mágicos), Bervely percebeu que a colega lufa-lufa ao seu lado não mostrara surpresa à menção de que a sua mãe estava em Azkaban. Quanto ela sabia sobre a sua família, e como? Será que a medibruxa tinha discutido o seu caso em casa? Aquilo era inapropriado em muitos níveis, e ela ficou repentinamente irritada por não ter a sua privacidade respeitada.
Quando, mais tarde, Ted se despediu dizendo que ia para a oficina, e Tonks correu para sala a fim de ver uma “reportagem” sobre um “campeonato de malabarismo” na “televisão” (três coisas que não faziam muito sentido para Bervely), ela se viu sozinha com Andrômeda na cozinha, e a sua insatisfação venceu, obrigando-a a se pronunciar.
– A senhora contou para Tonks sobre a minha família – acusou – não tinha o direito.
Andrômeda lhe olhou surpresa, enxugando as mãos no avental que usava sobre um vestido branco. Por alguma razão, lavava a louça ao modo trouxa.
– Do que está falando, querida?
– Ela não pareceu surpresa ao ouvir que a minha mãe está presa em Azkaban. E eu tenho certeza que não mencionei isso para ela na escola.
– Hum. Eu penso que Dora sabe sobre Bellatrix desde que tinha o que, seis ou sete anos? Não é o tipo de coisa que eu escondo, imagino que outras mães esconderiam, mas uma família deve usar os erros uns dos outros para aprender. – quando ela percebeu que Bervely estava completamente confusa sobre como aquilo era possível, sua expressão se abriu em entendimento – então você não sabe? Eu pensei que ela teria lhe contado, a essa altura.
– O que? – perguntou rispidamente. Não queria ser mal educada com a mulher, mesmo que ela fosse uma amante de sangue-ruins, só que também não gostava de estar por fora do assunto.
– Que também somos parte da sua família. Tonks é sua prima, e eu sou sua tia.
Aquilo de novo. Ela franziu seus lábios, céptica.
– Eu não acho que isso seja possível, Sra. Tonks, com todo o respeito… a minha família é conhecida por uma tradição muito estrita de relacionamentos, eles… não se casam com mestiços, a senhora entende.
Andrômeda deu um sorriso afiado. Perturbadamente familiar, tanto que provocou uma ferroada estranha em seu peito.
– Eu compreendo, Bervely, sou bem informada com as tradições dos Black. Mas há muitas coisas sobre a sua família que você desconhece.
– Não – ela suspirou, estava cansada daquela insistência sem propósito – na verdade eu sei muito mais sobre a minha família do que a maioria dos seus membros jamais souberam. Eu ganhei um livro da minha mãe, quando eu era pequena, e ele tem absolutamente tudo que há para se saber sobre a linhagem Black, há uma árvore genealógica, fotos, biografias, ascensões sangüíneas, contratos de casamento… – para provar o seu ponto, e terminar de uma vez com aquela história, puxou a mochila e tirou lá de dentro o Signo Negro, procurando a página onde havia a grande e encantada árvore genealógica, que era magicamente atualizada sempre que um integrante nascia, de forma que era a prova de erros. – Vê? Não há seu nome, ou o do Sr. Tonks nele, ou o de Nimphadora…
A bruxa encarava o livro como se ele fosse uma cabeça decepada sobre a sua mesa da cozinha. Os seus olhos se arregalaram, o seu rosto ficou pálido, e Bervely teve bastante certeza que viu as suas mãos tremerem.
– Bellatrix deu isso pra você? Quando?
– Quando eu fiz cinco anos…
– Aquela mulher insana! Dar isso a uma criança! Esse monte de bosta de trasgo!
Bervely observou, atônita, a respeitável medibruxa e mãe de família perder a compostura diante dos seus olhos, até suas bochechas tingindo-se de rosa, quando puxou raivosamente uma cadeira e se sentou na sua frente.
– Isso é a coisa mais absurda que já ouvi. Eu devia ter insistido em ficar com você quando tive a chance! O Signo Negro para uma criança, onde já se viu? – folheava o livro raivosamente, e Bervely teve de segurar o impulso de tomá-lo dela, mas congelou diante da frase.
– Desculpe, o que disse? Ter “ficado comigo”? O que isso quer dizer?
– Quer dizer que se eu tivesse insistido apenas mais um pouco, a esta altura você seria uma adolescente alegre e sem preocupações maiores do que as sua tarefas de férias! Sem drama, sem hospital, sem ser expulsa de casa aos quinze anos, francamente! – ela abrira na página onde estavam listados os Black atualmente vivos, numa parte do livro manchada de grandes faixas pretas que lembravam queimaduras químicas. – eu sou sua tia, Bervely, sou irmã da sua mãe, mas isso é algo que esse livro ridículo nunca te diria, porque eu fui queimada de todos os registros familiares quando fugi de casa para me casar com o Ted.
Apontou para uma das manchas que precediam o nome de Bellatrix no livro. Não provava nada, é claro, mas mesmo assim o coração de Bervely se acelerou.
– Queimada…?
– É isso que eles fazem quando alguém se desvia dos planos para “manter a linhagem pura”. Eles o abandonam e riscam o seu nome e de repente é como se você nunca tivesse existido. Foi assim comigo, e com… outras pessoas.
– Eles te expulsaram de casa? – perguntou, perturbada.
– Não, eu sai porque quis. Eles me expulsaram de suas vidas. Perdi o direito de usar meu sobrenome, de identificar os meus progenitores como pai e mãe… perdi o direito à herança. Para todos os efeitos, deixei de ser uma Black quando escolhi a vida ao lado de um nascido trouxa.
Ela abriu sua boca, mas percebeu que não tinha palavras, e a fechou de novo. Sabia que a família Black era extremista em sua política de pureza de sangue, mas nunca parara realmente para pensar como puderam garantir que, ao longo dos séculos, ninguém saísse da linha. Fora tão ingênua… quantas pessoas, como Andromeda, tinham sido expulsas da família por cogitarem um caminho diferente?
– Tudo que eu quero dizer é, esse livro não conta os bastidores da história. E enfeita bastante a verdade.
Como que para manter-se ocupada, ela deixou o livro e recolheu o prato de Bervely e os outros da mesa, os levanto para a pia, enquanto a garota observava as suas costas, seu cabelo cheio e cacheado solto. A conversa a deixara desconfortável, incomodada… não podia definir no que pensar. Porque Andrômeda estava errada em se queixar, certo? Ela escolhera aquele caminho, ela deixara ser ser uma Black no momento que decidira misturar o seu sangue. Crescera sabendo que era imperdoável, uma atrocidade, e traíra a sua família, não era ter seu nome queimado uma consequência previsível, e até mesmo justa?
Mas não teve coragem de lhe dizer aquilo. Ainda havia outras coisas em sua mente, e elas pareciam mais urgentes.
– Então a senhora sabe, não é – colocou com cuidado, modulando a sua voz para parecer casual e relaxada – dos bastidores da história.
– Hum. De qual história estamos falando, exatamente?
– A senhora teve acesso a minha ficha, sabe o que aconteceu comigo para ser levada ao hospital. – foi direto ao ponto. Como se estivesse esperando por aquele momento, ela largou o que estava fazendo e se virou, assentindo. Havia pesar em seu rosto.
– Sim… sabe que sim. E eu realmente sinto muito por tudo, Bervely. O que não entendo, é porque qualquer dessas coisas tem haver com ter sido expulsa de casa. Não vejo Narcissa permitindo uma coisa dessas acontecer.
O modo familiar como pronunciou o nome de sua tia lembrou a Bervely que eram irmãs, o que era um tanto difícil de acostumar. Sempre imaginara Bellatrix e Narcissa crianças, e nunca houvera uma terceira parte, não fazia ideia de como Andromeda se encaixaria naquela relação. Era também sua tia, e não fazia ideia de como ela era, de quem era.
– Ela me culpa… pelo que aconteceu. – confessou, falando mais do que esperava pela segunda vez aquele dia. Não sabia o que estava errado consigo, mas de repente, diante de Andromeda, já não parecia tão importante ser reservada. As respostas eram mais urgentes do que manter os segredos.
– Mas não faz qualquer sentido lhe culpar… você também foi prejudicada… passou sete meses no hospital, quase perdeu o seu rosto, pra não comentar que por um momento, cheguei a acreditar que nunca fosse acordar.
O tom de preocupação verdadeira trespassou a confissão da bruxa, pegando Bervely de surpresa. Por todo o tempo que estivera internada, percebeu, Adrômeda estivera por perto, irmã da sua mãe, e não fazia a menor ideia. Gritara com ela em seu escritório, exigira o seu quarto de volta, fora impertinente… e a bruxa tinha lhe tratado com paciência e calma, mesmo que não exatamente tivesse merecido.
– Eu não sei porque. Achei que poderia me contar. Meus tios e Draco parecem sobre a impressão de que… – por um momento, as palavras não vieram. Era difícil dizer aquilo em voz alta, mesmo quando não acreditava – de que Hector está morto.
– Então você ainda não se lembra? Pensei que toda a sua memória tivesse voltado.
–Eu também – suspirou, esfregando o rosto, e afastando a franja desordenada da testa. Felizmente olhara no espelho aquela manhã, e o seu cabelo tinha voltado à cor original. – mas aquele dia, o dia depois do Natal, ainda é totalmente confuso. E as coisas que eles estão dizendo… eu jamais faria mal a Hector. Jamais. É mentira, não é? Precisa ser mentira. – nas últimas palavras, sua voz estava falando. Tinha medo do que obteria como resposta.
– Querida, tudo que eu sei é o que a sua tia me contou quando a levou para o hospital. Até hoje não tive motivos para duvidar das palavras dela.
– Me conte. – pediu, juntando uma boa dose de coragem – me conte tudo que sabe. Eu estou cheia de conversas cortadas, e segredos, e acusações sem fundamentos.
– É claro – a mulher sorriu compreensivamente, mas também de modo triste – é algo recorrente nessa família, meias palavras e um monte de fuga. Eu jamais agiria assim com você… todo mundo tem o direito de saber da verdade, não importa o quanto possa machucar.
– BD –
26 de dezembro de 1990, Hospital St. Mungus.
Quando Andrômeda assumiu a chefia temporária do departamento de Danos por Magia, porque o titular precisara tirar uma licença paternidade, ela não esperava que dali a um mês precisaria lidar com um dos casos mais difíceis da sua carreira, e da sua vida. Principalmente porque, como chefe, era suposta a supervisionar o trabalho sem se envolver, mas tudo o que quis ao ver Narcissa Malfoy em prantos no corredor do quarto andar do hospital foi deixar tudo para trás e abraçar a sua irmã mais velha.
Não era como esperava-se que funcionasse. Elas não se viam há alguns anos agora, a não ser casualmente em lugares bruxos públicos comuns, onde nunca se falavam, afinal, não era de bom tom que a Sra. Malfoy cumprimentasse traidores do sangue. Isso não lhe causava mágoa – a irmã estava agindo de acordo com as expectativas, e enquanto sua vida toda fora baseada em ser o que esperavam que ela fosse, sabia que se realmente houvesse uma necessidade, poderiam contar, mesmo que secretamente, uma com a outra.
Com acontecera há quase quinze anos, ao descobrirem que Bellatrix estava em apuros por causa da sua gravidez na adolescência. Elas tinham dado um jeito, tudo tinha se resolvido no final das contas, ou assim ela pensava…
Até ver que Narcissa trouxera Bervely consigo, e algo estava terrivelmente mal com a sua sobrinha. Era a primeira vez que a via depois de sumir da sua casa, embora sempre pensasse nela lhe desejasse bem. Lembrava daquele pequeno bebê que amamentara no lugar de Bella, e lhe enviava os seus melhores votos de boa fortuna…
Até vê-la naquela maca, os olhos vidrados, sangue sobre o seu suéter azul.
– O que houve, Narcissa? Pelo amor de Merlin, o que aconteceu com ela? – exigiu, passando a mão pelo cabelo grudado da sobrinha, afastando o da testa quente. Não teve tempo de notar as suas feições, só sabia que se tratava dela porque vira seu nome na ficha de entrada, e viera correndo.
– Eu não sei… eu não f-faço… eu não… oh, ela está respirando? Está viva? Eu não sei se está viva, não sei o que há de errado com ela!
Os medibruxos de plantão naquele dia mediram os sinais vitais de Bervely, e constataram que apesar de algumas anormalidades de temperatura, estava estável. Mas inconsciente, apesar dos olhos abertos. Conseguiu levar uma Narcissa relutante para a sua sala, onde tinham privacidade, e acalmá-la até que conseguisse contar o que tinha acontecido.
Segundo Narcissa, acordara no dia após o Natal com um horrível grito, e som de um tombo. Ao sair correndo do seu quarto, encontrara a garota Charlotte Summers no final das escadas, sangrando, e no topo dela, olhando a cena completamente congelada, Bervely… a não ser pelo fato de que havia algo errado com o seu rosto, suas feições estavam diferentes, usava a face de outra pessoa… para ser mais precisa, o rosto da personagem de um livro infantil que, junto com os primos, costumava ler repetidamente.
A história ficava mais estranha. Draco chegara correndo e gritando “Você o matou! Você o matou! Assassina!”, ele próprio completamente transtornado, fora de si, o rosto lavado de lagrimas. Parava ao ver o corpo de Charlotte caído no chão, completamente em choque, e acusava a prima de tê-la jogado dali de cima.
– Por que Bervely faria isso? – lembrava de ter questionado, tentando entender a intricada relação daqueles personagens sobre os quais nunca tivera conhecimento antes – porque empurraria Charlotte da escada? E quem Draco a acusava de ter matado?
– Hector. Draco voltava do jardim, onde achou o corpo do primo. Quanto à Charlotte… eu não sei bem. – Narcissa tinha a voz tremula, prestes a se quebrar de dor – ela tinha ciúmes, é certo… nós sabíamos que Hector e Charlotte estava desenvolvendo uma espécie de romance juvenil, mas não pareceu importante interferir, na época. Achamos que se desfaria naturalmente, quando as férias terminassem, Hector perderia o interesse… mas Bervely, ela é… era muito apegada à ele.
– E como ela ficou do jeito que está? Paralisada… e com uma transfiguração de face?
– Eu não saberia explicar. – disse, murmurando, seus braços envolvendo a si mesma numa tentativa paca de consolo – quando olhei para cima novamente, ela sentara-se e fitava o nada, como se estivesse desconectada. E por mais que eu chamasse, não respondia. Acha que foi alguma magia?
– Acho que ela está em choque – disse, sincera. – Mas outros exames serão feitos. O mais provável é que passe naturalmente, vamos lhe dar algum tempo, pelo que está me contanto, foi uma sucessão de acontecimentos extremamente perturbadores. E a outra garota, Charlotte? Como ela está?
– Lucius a trouxe também, está na emergência com ela. Perdeu muito sangue… – de repente se interrompeu, tapado a boca com as mãos, como se tivesse se dado conta de algo terrível – se ela morrer, se ambos morrerem, oh, que desastre isso será, Andie!
– Vai ficar tudo bem, querida – tentou consolá-la, embora ela mesma estivesse profundamente mobilizada com o desenrolar dos acontecimentos. – vamos tratar de Bervely, e da garota também. E quando o falecimento do seu afilhado for esclarecido, tudo vai se encaixar.
Narcissa aceitou um lenço, e com ele enxugou os olhos. Era muito raro vê-la em tal estado de nervos, pois era a pessoa mais controlada que Andie jamais conhecera, exímia em momentos de crise. O medo que havia em seu rosto desestabilizava Andrômeda de forma muito intima.
– Eu quero acreditar que Bervely não tem nada haver com esses acidentes, Andrômeda. – confessou, sombriamente – mas para ser completamente sincera, não vejo como isso possa ser possível.
– BD –
1992, Chalé dos Tonks.
– Eu não o matei. – Bervely jurou, sentindo a necessidade de falar aquilo em voz alta, de ouvir a si mesma garantindo que não o fizera, sem nenhum temor de dúvida.
Andrômeda assentiu rapidamente.
– Não pensei que tivesse feito mal ao seu primo nem por um momento, Bervely. Narcissa estava muito… muito abalada naquele dia. Não estava pensando com clareza.
– Não empurrei Charlotte da escada, tampouco. – disse, mas mesmo ela sabia que não estava tão segura daquilo. A história contada por Narcissa, e repassada por Andrômeda era incompleta, e não deixava claro o envolvimento de Charlotte. Mas se ela fosse culpada, mesmo que minimamente, por fazer mal a Hector, Bervely não podia garantir que não tinha-na empurrado de propósito. Odiava ser traída por sua própria mente, por não lembrar justamente daquele dia, do único dia que realmente importava e mudava tudo.
– Pode ter havido uma emissão mágica involuntária… ela pode ter tropeçado… nunca saberemos, vocês são as únicas que estavam lá no momento que aconteceu.
O que lhe lembrou, é claro, que uma segunda pessoa tinha a resposta.
– O que aconteceu com Charlotte, depois que foi ao hospital? – forçou-se a perguntar. Àquela altura, não se importava de verdade, o coração todo preenchido de agonia por Hector.
– Ela se recuperou, e teve alta. Nunca retornou para a Mansão Malfoy, deixou um bilhete para os seus tios avisando que não suportaria vê-los após a morte do seu primo, que sentia muito, e que agradecia toda a ajuda recebida, mas que ia viver a sua própria vida a partir de agora.
Bervely franziu, achando a história estranha. Oportuna. Se tivesse culpa no cartório, também ia querer sair de fininho no meio da confusão e se fazer de vítima. Ela se preparou para a pergunta mais difícil, a que espremia o seu coração inteiro só de pensar em dizer em voz alta.
– E Hector? Como ele… como ele morreu? – a palavra quase não saiu, mas Andromeda entendeu sua dificuldade, e não prolongou a tortura.
– Envenenado. Poção do Morto Vivo.
Esperava uma resposta completamente diferente, algo plausível. Aquela quase lhe trouxe alívio, um alívio perigoso e traiçoeiro no qual sabia que não podia se fiar.
– Essa poção não é um veneno – disse com segurança de causa – só faz com que a pessoa pareça morta por um tempo, mas então depois de algumas horas ela volta normalmente, como se tivesse apenas ido tirado um cochilo.
– Não foi o que aconteceu com o seu primo, infelizmente. Segundo a perícia, houve algo de errado com o efeito da poção, eles não puderam decidir se foi uma reação inesperada, ou se foi produzida de forma incorreta, mas ele não voltou, estava definitivamente morto.
Enquanto fitava o tampo da mesa, seu pensamento vagava rapidamente pelos acontecimentos daquele último ano. As acusações veladas de Narcissa, e as explicitas de Draco. A tia a culpava porque devia achar que ela influenciara Hector a tomar a poção, por complicar a sua vida amorosa, mas quanto ao primo…
– É por isso que Draco diz que foi culpa minha! – exclamou de repente, com tal ímpeto que fez Andrômeda pular – Ele acha que eu fiz a poção errada, ou até mesmo que dei pra ele beber! O único lugar que Hector poderia ter acesso à Morto Vivo era no meu estoque!
A constatação era quase alegre, tirava um peso das suas costas. Porque se a fonte da poção tivesse sido o seu estoque – e parecia ser a única possibilidade – então não havia perigo. Tinha certeza de que a executara perfeitamente todas as vezes, jamais erraria uma mistura tão básica, aprendera quando ainda cursava o seu segundo ano em Durmstrang. Estava se desfazendo o nó em seu peito quando fez a pergunta seguinte:
– O corpo de Hector, o que fizeram com o corpo?
A bruxa lhe deu um olhar estranho, sem compreender a súbita mudança de ânimo.
– Não sei… e não acho que Narcissa saiba, tampouco. Lembro-me de ela falando algo sobre ter sido enviado de volta, não penso que sequer houve um enterro. Foi tudo tão impactante para a sua tia, e para Draco, perder vocês três ao mesmo tempo, que ela reagiu querendo uma distancia absoluta de qualquer coisa que a lembrasse da dor.
– Então não há corpo – ela repetiu, sentindo-se leve – nenhum enterro, nenhuma lápide?
– Bervely, isso não faz diferença… seu primo está morto. Sinto muito, mas ele está.
Ela assentiu, só porque achava que Andrômeda ficara realmente perturbada com a sua reação, e queria deixar a bruxa tranquila. Tão tranquila quanto estava agora.
– Querida, há outras coisas que quero discutir com você… sobre essa sua ideia de usar a sua herança de família, por exemplo. Não poderia fazer isso, mesmo se a conta não tivesse sido congelada quando a sua mãe foi presa. Esse tipo de dinheiro só passa para você quando se torna maior de idade.
– Tudo bem, arranjo outro jeito. – deu de ombros. A conversa com Andrômeda lhe dera uma nova injeção de ânimo, sentia que não havia problema suficientemente grande que não pudesse transpor. Até a expulsão de casa parecia mínima.
– Pode ficar aqui o quanto quiser, Bervely. Sei que tem as suas ressalvas, mas somos a sua família. Será um prazer tê-la para o verão, pode fazer companhia à Tonks, sair com seus amigos, experimentar uma vida normal, para variar. O que acha disso?
Suspirou pesadamente. Os problemas até podiam parecer menores, mas não é como se tivessem desaparecido.
– Talvez por algum tempo, eu acho. – rendeu-se, por fim – até eu pensar no que vou fazer a partir de agora.
– Ótimo! Ah, Bervely, isso é ótimo! – ela abriu o seu amplo sorriso, mais natural e acolhedor do que qualquer expressão que as suas duas irmãs já tinham feito na vida. Era um tanto impressionante pensar que aquela mulher doce e gentil viera do mesmo lugar que Narcissa, e especialmente, Bellatrix. – Vai adorar Ottery! A vizinhança é ótima, e o rio… vou mandar Tonks te levar no rio! Tem roupa de banho?
Bervely negou, achando um pouco de graça de toda a empolgação. Tonks veio voltando para a cozinha, como que pressentindo que a parte séria da conversa chegara ao fim, e ela imediatamente tropeçou na mochila que Bervely largara no chão, esbarrou a mão no pote aberto de calda, que fez um arco no ar e acabou despejando-se inteirinho em seu cabelo.
A mãe, ao invés de reclamar com ela por ser tão estabanada, se pôs a gargalhar. Nimphadora fez uma careta, mas logo não conseguiu se aguentar e começou a rir também, o cabelo empapado tingindo-se de cor de laranja desde a raiz…
E Bervely esboçou um sorriso relutante, tentando convencer a si mesma que talvez, só talvez, passar algumas semanas no covil dos sangue-ruins enquanto armava o seu plano de ação não tivesse de ser assim, tão degradante.
– BD –
Querido Hector,
Eu compreendo agora. Leve o tempo que precisar, mas volte quando puder.
Sinto sua falta. Sinto sua falta toda vez que respiro.
Conte comigo,
Sua fada.
(Continua…)
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