Indigna Rosa Negra
31 O Sangue da Rosa – Parte II
Notas iniciais
Once I had a dream
And this is it
Once there was a child's dream
One night the clock struck twelve
The window open wide
Once there was a child's heart
The age I learned to fly
And took a step outside*
*Uma vez eu tive um sonho/E este é ele:/Era uma vez um sonho de criança/Uma noite o relógio disparou às doze/A janela escancarou-se/Era uma vez um coração de criança/A idade em que eu aprendi a voar/E dei um passo para fora. (Dark Chest of Wonders, Nightwish)
~
Quando ela tinha cinco anos, tentara fugir de casa para chegar à Azkaban. Nem sabia que ainda guardava essa memória até estar navegando no barco que levava os visitantes para a ilha dos dementadores.
“– Vamos fazer um trato, sim? Pela manhã você lhe diz que quer ir embora, e eu a levo para onde desejar.”
“– Até mesmo para Azkaban?”
A expressão casual de Lucius desapareceu imediatamente.
“– O que você pensa que vai fazer em Azkaban?”
“– Vou salvar minha mãe. – explicou, séria e decidida.”
Um arrepio assolou a pele da Bervely dez anos mais velha, acompanhada de uma leve náusea. Não tinha nada a ver com o balanço da embarcação sobre o mar agitado, no entanto; ela podia jurar que tinha a mesma origem do queimor persistente da marca da rosa em seu braço.
– Você está bem? – Wood veio lhe perguntar, estreitando a distância entre eles. Novamente, Bervely evitou olhá-lo como vinha fazendo desde que embarcaram.
– Sim.
– Tem certeza que quer fazer isso?
Ela riu pelo nariz e lhe deu uma resposta ácida qualquer, para ocultar a crescente sensação de que o grifinório não deveria estar ali. Precisara dele, é verdade, para embarcar, pois de acordo com o folheto informativo sobre a prisão, não era permitida a visita de menores desacompanhados. Mas então, era Wood. Wood eu-amo-vassouras e peça-pra-mamãe-aprontar-meu-almoço. Sua presença naquele barco era simplesmente errada.
– Uma vez que desembarcarmos, você me aguarda do lado de fora. – avisou-lhe, sem dar espaço para contestação – Ou vai embora, o que preferir.
O capitão lhe fez uma expressão teimosa.
– Sob o meu cadáver eu vou embora daqui sem você.
Haveria réplica, mas naquele momento eles viram o primeiro contorno da prisão, e o fôlego foi perdido.
Azkaban era principalmente uma torre alta, entremeada por uma fortaleza negra gigantesca de muros, sobre uma terra dura e infertil. Uma horda de nuvens cor de chumbo pairava sobre a ilha inteira, fazendo às vezes de blindagem contra qualquer luz. À medida que o barco deslizava em sua direção, ficava mais e mais frio. Mas não era como nenhum frio que já tinha sentido antes.
Vagarosamente o barco se atracou a um cais que poderia ter brotado da água, e outros guardas bruxos vieram até eles para a escolta, os acompanhando através de uma trilha de pedra bruta até as paredes da fortaleza. Na borda da ilha, ela reparou, a costa fora soerguida com pedras negras do mesmo material de que era feita a prisão, de forma que nada vindo do mar, a não ser alto o bastante como era o barco, pudesse subir.
– Eu pensei que Azkaban não tinha guardas humanos – Wood cochichou procurando o olhar dela, mas Bervely permanecia pregada à frente, tomando conta para as suas expressões não lhe traírem.
Ela sentia como se, deliberadamente, tivesse vindo de encontro aos seus piores pesadelos. Aquelas criaturas famintas pela sua alma, que costumavam visitar seus sonhos, agora escolhera encontrá-las por vontade própria.
Eles por fim chegaram aos portões de entrada da prisão: dois arcos pontudos que se fechavam com gradis da largura do braço de um homem, com uns sete metros de altura cada. Havia então um pátio circular e sulcos retangulares nas paredes, onde foram orientados a esperar. Logo, onde antes havia pedra sólida, surgiu uma janela e o rosto de um funcionário sisudo e idoso.
– Nome. – ele exigiu, lhe olhando tão duramente que ela podia muito bem ter cometido algum crime só por estar ali.
– Bervely Rose Black – disse firmando a voz. Wood fora posto a aguardar na janela ao seu lado, mas entre eles havia muita distancia para ouvir as suas respostas.
– Varinha. – o homem estendeu uma mão coberta com uma pesada luva de couro preto.
– Eu vou ter que…? Ok – obedeceu, entregando sua varinha, que logo foi posta fora de vista.
– Tem outro objeto mágico consigo?
– Não.
– Está de alguma forma amaldiçoada, encantada, sob efeito de poções ou implicada com qualquer forma de magia que possa interferir em seu livre arbítrio, manipular suas vontades ou nublar o seu julgamento?
– N-não.
– O que é isso em seu braço? – ele perguntou de supetão, sobressaltando-a.
– É só uma coleira. – ela arfou. O bruxo estendeu a mão. – Eu não penso que…
– Visita negada! – ele avisou para os guardas, que começaram a vir na sua direção.
– Tudo bem! – exclamou, nervosa, arrancando a faixa de couro do braço com a outra mão tremula e lhe entregando – Desculpe!
O velho bruxo analisou o objeto e sumiu com ele, ao mesmo tempo que o coração dela se afundava em agonia. Ele deu uma boa olhada na flor desenhada em seu braço, seus olhos se estreitaram suspeitosamente, e voltou a encará-la como se quisesse perfurar um buraco em seu crânio.
– A quem deseja visitar?
Ela sentiu os espinhos da rosa se cravando em sua pele, uma dor pungente e horrorosa que fez muito esforço para ignorar, a voz impassível quando respondeu:
– Sirius Black.
O bruxo lhe deu um último olhar, depois o paredão de pedra se solidificou em sua frente e Bervely piscou, aturdida. O que tinha acabado de acontecer? Fora negada novamente? Ou o seu requerimento para ver Black era tão fora do usual que o bruxo decidira alertar instancias superiores?
Iriam interrogá-la?
Olhou para o lado, com medo de os guardas estarem vindo para ela com as varinhas erguidas, mas eles ainda mantinham distancia e nem olhavam em sua direção. Wood lhe fitava intrigado no entanto, tendo ele próprio terminado de falar com o seu funcionário designado, e Bervely quase abriu a boca para perguntar se ele também fora deixado abruptamente, quando o bruxo velho reapareceu.
– Sua requisição foi negada. – ele disse numa voz enfadonha – seus pertences foram levados para análise, você deve aguardar para reavê-los e retornar ao cais para partir na próxima embarcação.
– Negada? – arfou – porquê?
– Não estou autorizado a passar essa informação. – ele disse, e depois, novamente para os guardas – Visita negada! Próximo!
Ela aguardou, paralisada no mesmo lugar, um dos guardas vir andando a fim de lhe tirar do caminho. Felizmente Wood chegou antes dele e lhe puxou para fora da fila, que ela acabara de perceber atrás de si, com outras pessoas esperando para visitar seus entes queridos dentro da prisão.
– Você deve aguardar naquele local para pegar as suas coisas – disse um dos guardas, a voz inflexível, apontando para o outro lado do pátio.
– Mas eu tenho que vê-lo! – ela protestou, um tanto aturdida.
– Me desculpe, senhor – Oliver disse ao homem fardado com uma voz constrangida – Nós vamos aguardar ali.
Ele a levou através do pátio até alguns bancos do outro lado, onde não havia ninguém além deles. Aparentemente, ela fora a única a ter seu pedido negado, entre todas a dúzia de pessoas que pegara o barco naquele dia.
– Eu não entendo porque eles não devolvem as suas coisas na hora.
Ela lhe deu um olhar perdido e depois focou quando viu que ele também não estava com a varinha.
– Porque entregou a sua?
– Era obrigatório. Que será que eles fazem com…
Mas se interrompeu, quando Bervely curvou seu corpo para frente de repente e soltou um urro abafado. Primeiro achou que ela ia vomitar, mas então notou que espremia o braço esquerdo no colo. Rapidamente saltou para perto dela, colocando uma mão em seu ombro e tentando entender o que acontecia.
– Rose? O quê foi?
– Eu… – ela arfou, contendo a todo custo os gritos de dor que queriam explodir por sua garganta – me deixe, se afaste…
– É claro que não! – exclamou, preocupado. – Me diga o que você tem ou vou chamar os guardas!
– Não seja um idiota! – ela grunhiu – Isso não vai nos ajudar em nada!
Mas a dor estava ficando mais forte, mais do que jamais estivera em toda a sua vida, e ela entendeu que fora claramente um grande erro ter ido até ali. Como pudera ser tão estúpida, e julgar que podia ir até Azkaban sem ser percebida? Sem ser requisitada?
– Rose por favor – Oliver grunhia ao seu lado – Me diga o que está acontecendo!
– O que quer que você faça – arfou, nada em sua mente além das ferroadas agonizantes dos espinhos da rosa, cravando tão fundo em sua pele que pinçavam seus nervos – Não me deixe ficar inconsciente.
– Como é? – ele estava mais horrorizado a cada minuto, e quando ergueu os olhos para os guardas, percebeu que um deles já vinha em sua direção, a sua varinha segura ao lado do corpo, não exatamente em riste, mas pronta a se erguer caso houvesse necessidade.
Ao mesmo tempo, Bervely caiu de joelhos no chão, encurvada sobre si mesma, a mão direita cravada sobre a esquerda, todo o seu corpo tremendo a olhos vistos.
– Eu não sei o que há de errado com ela! – ele exclamou quando o guarda estava perto o suficiente. – Ela simplesmente… do nada…
Mas o guarda não parecia alarmado.
– Tudo bem, acontece. Alguns são mais suscetíveis do que outros. Coloque isso – o bruxo lhe estendeu uma espécie de colar, que Oliver jogou no pescoço. Um foi jogado em torno do pescoço de Bervely também, embora ela mal se deu conta. – Vocês, crianças, deviam saber melhor do que visitar esse inferno, nenhuma pessoa vale isso…
O guarda ergueu a garota com facilidade em seus braços, meio de pé, meio arrastada, e saiu andando com ela em direção a uma porta atrás deles. Depois olhou zangadamente para Oliver, que permanecera paralisado no mesmo lugar.
– O que está esperando? Me acompanhe! Eu tenho cara de babá de adolescentes?
– BD –
Oliver se viu entrando com ele por um longo corredor escuro e gelado, ainda preocupado com Bervely (que continuava a gemer coisas inteligíveis), e depois de de muito caminhar sem cruzar com ninguém, foram dar em portas duplas amareladas com duas luas crescentes, uma virada para a outra, e inscrições em runas sobre elas.
Não era muito bom em runas, mas conhecia aquelas. Significavam “cuidados em saúde” e eram usadas em qualquer lugar onde medibruxos ou curandeiros trabalhavam.
– Sr. Atnor! – uma mulher albina que devia ter a idade da prof. McGonnagal pulou sobre eles assim que entraram – mais um?
– Uma pequena infeliz – ele confirmou, ajudando a colocar Bervely em cima de uma maca. – Eles nunca aprendem. Pode assumir à partir daí? Vou pedir a um Quarter para assumir a guarda. Eles já estavam de saída quando aconteceu.
A mulher concordou, dando uma breve olhada para Oliver e depois se virando para um armário de medicamentos ao seu lado.
– O que há de errado com ela? – perguntou, observando-a procurar alguma coisa num vão do armário, sem muita pressa, apesar de Bervely continuar a se contorcer.
– O que há de errado com todos. – disse secamente. – Aqui, beba isso, menina.
– O que está dando para ela? – exigiu saber. Havia um líquido grosso e marrom no copo que parecia algum tipo de poção asquerosa. A bruxa rolou os olhos impaciente.
– É chocolate, apenas. Beba, menina burra!
– Não fale assim com ela, não é culpa dela! – ele brigou, irritando-se com a medibruxa – Como chocolate vai resolver qualquer coisa?
A bruxa xingou sua exasperação jogando as mãos pro alto, e sumindo entre os nichos da enfermaria. Aparentemente, Bervely não era sua única paciente, nem a mais urgente, e quando Oliver voltou-se para a garota ela parara de gemer e conseguia quase se sentar ereta de novo. Seus rosto estava lívido, os olhos assombrados.
– Rose…
– Não se aproxime. – advertiu, pálida. Ele arregalou seus olhos, alarmado.
– Não vou machucar você.
– Eu sei. Eu apenas… só fique longe. – disse, num tom rouco e estranho. Bebeu o copo de chocolate como se estivesse sorvendo lama, seu rosto torcido em nojo, depois o pousou e uma leve cor voltou às suas bochechas. Olhou ao redor levemente surpresa. – Estamos dentro.
– O que acabou de acontecer? – ele perguntou, mortificado. O fato de estarem dentro de Azkaban não lhe tinha a menor importância diante do ataque que ela acabara de ter. Mesmo agora tinha a impressão que ela estava apenas aturando a dor e se controlando para não começar a gritar novamente.
– Algo que eu devia ter previsto. – suspirou, movendo o braço esquerdo com redobrado cuidado e puxando a manga para baixo – minha ousadia em vir aqui claramente não vai passar em branco.
– Eu não entend…
Ele foi interrompido por outra presença na enfermaria. Um novo bruxo fardado acabara de entrar. Ele não parecia como os outros; seu uniforme era cinza claro quase azulado, ao invés de chumbo, e suas feições eram inacreditavelmente jovens. Além disso, Oliver nunca vira olheiras tão profundas em ninguém antes.
– Olá. – disse o recém chegado, estendendo a mão para Oliver e depois para Bervely – Está tudo bem por aqui?
– Tudo. – disse Bervely seguramente, apesar dos seus lábios muito brancos e apertados. O rapaz lhe olhou com atenção antes de assentir.
– Ótimo. Fui informado que teve uma reação aos dementadores. Trabalhamos ao máximo para evitar isso, mas nem sempre é possível. Algumas pessoas são mais sensíveis à…
– Eles me negaram a visita. – ela disse de supetão. Oliver sentiu-se espremer internamente, desejando que Bervely pudesse ficar calada sobre aquilo. Como ainda quereria entrar, depois de ter sido afetada pelas criaturas daquela maneira?
O Quarter assentiu, muito sério.
– Você requisitou visita à um prisioneiro de segurança máxima para o qual não tem permissão de ver. Nesse caso, não há nada que se possa fazer.
Ela assentiu, ainda agitada e um pouco aturdida. Seus olhos vagavam pelo cômodo e pelo guarda sem realmente se prender a nada.
– Quem pode ver Black?
O rapaz hesitou antes de responder. Mas Oliver a viu como ele devia estar vendo-a, uma menina assustada e que tinha viajado um longo caminho para ter seu pedido negado, e então ser afetada de tal maneira pela atmosfera maligna do lugar que fora parar na enfermaria.
– Família. – ele disse finalmente. – Seu nome não consta nos registros.
Se havia qualquer cor restante no rosto de Bervely, fugiu naquele instante. A sua boca se abriu a meio caminho de alguma palavra que no entanto foi deixada de lado.
– Sinto muito. – o guarda completou, parecendo mesmo sentir. – Há algo mais que eu possa fazer por você?
Outro copo de chocolate quente, foi o que veio à mente de Oliver. Ele finalmente se lembrara que aquele era o melhor remédio contra os efeitos dos dementadores, aprendera algo assim em Defesa Contra as Artes das Trevas no seu terceiro ano. Mas não foi o que Bervely pediu, quando assentiu para o outro rapaz.
– Sim. – ela disse ao invés disso, o foco se perdendo mais uma vez enquanto assentia de forma resoluta para o nada – Eu quero ver minha mãe.
– BD –
Eles foram guiados às profundezas do inferno.
Não literalmente, mas era assim que Oliver se sentia. Na última hora, tinham sido levados através de uma dúzia de burocracias para receberem permissão de visita ao que aparentemente era uma prisioneira de segurança máxima tão perigosa quanto Black.
A mãe de Bervely.
Ela não lhe dissera uma palavra. Andava concentrada atrás do Quarter, sua cabeça baixa, como se, caso perdesse a concentração, fosse começar a gritar de novo. Ele foi permitido a seguí-la meramente porque era o maior responsável por ela, mas era o nome Black que abria as portas. A cada vez que era mencionado, as pessoas trocavam discretos, porém significativos olhares umas com as outras e lhes deixavam passar.
Eles atravessaram as alas externas, corredor após corredor, agregando escolta à medida que se aproximavam do centro da fortaleza. Estava cada vez mais frio, enregelante, claustrofóbico. Apesar do colar em torno do seu pescoço – que percebeu ser algum tipo de proteção anti-dementador – pensamentos perturbadores cruzavam sua mente o tempo todo.
O maior deles tinha a ver com a própria Bervely. Não pela primeira vez, a ouviu murmurar coisas baixinho. “Estou chegando”, ela disse de forma quase irritada, para ninguém em especial.
Seu comportamento lhe dava calafrios.
– Por favor aguardem aqui. A prisioneira será transferida para a sala de visitas. Estejam avisados que os dementadores acompanharão todo o processo a partir de agora.
Foram deixados numa ante-sala que lembrava muito as masmorras de Hogwarts, fora o fato de que a luz entrava por frestas próximas ao teto, e havia um fedor de podridão persistente e frio, como de algo que tinha morrido no mar. Ele estava muito grato por ter pulado o almoço.
Já observavam por quase meia hora um cartaz pendurado na parede oposta, num mural de recados outrossim vazio, onde lia-se “Intervenção Avaliativa do Conselho Internacional dos Bruxos – em breve em Azkaban; recruta-se membros; interessados devem entrar em contato por correio coruja” quando, ao seu lado, Bervely votou a esfregar nervosamente o braço esquerdo.
– O que há de errado com seu braço? – ele arriscou perguntar, a voz ecoando abafada na caixa de pedra que estavam.
– Ela está ansiosa.
– Quem é ela? Você? Está falando de si mesma na terceira pessoa?
A garota lhe lançou um olhar atravessado, como se ele fosse o louco. O que era irônico, a julgar pelo modo como vinha agindo desde então.
– Não eu, ela.
– A sua… mãe?
– Sim. Ela.
Ele mordeu seu lábio para se impedir de falar qualquer coisa. Ela percebeu, e um tipo perturbador de sorriso surgiu em seu rosto.
– Está assustado, Wood?
– Você não está sentindo? – ele rebateu, tendo mais um dos muitos calafrios que o assolavam cada vez mais desde que se entranharam na fortaleza – As coisas… o frio… dos dementadores?
Bervely assentiu.
– É como um sonho.
A frase não fez qualquer sentido, além de ter soado um tanto macabra. Ia perguntar sobre o que ela estava falando, mas a porta atrás deles se abriu e o Quarter saiu por ela.
– Vão ter que entrar um de cada vez.
– Só eu vou entrar. – disse Bervely, rouca mas taxativa.
– Tudo bem. Lembra-se das recomendações? Eu vou estar olhando através da parede o tempo inteiro. Não ultrapasse a linha, não importa o quê. E, eu devo alertá-la, a prisioneira pode não estar em condições de um diálogo coerente.
Bervely assentiu. A porta se abriu para a sala de visitantes, e ela cruzou o portal sozinha, deixando ambos os rapazes para trás na sala de espera.
– BD –
Seus olhos demoraram a se acostumar com a escuridão. Ao contrário da sala anterior, esta não recebia iluminação natural nenhuma, só a luz amarelada de archotes fracos em cada canto.
A poucos metros havia, no chão, uma linha branca traçada sobre a pedra, e como fora informada, carregava um feitiço de repulsão poderoso que a manteria fora de contato com a prisioneira.
Enxergou primeiro os dois dementadores. Criaturas tenebrosas, mas de forma alguma estranhas à ela; reconheceu de imediato as suas capas esvoaçantes de matéria negra apodrecida, o seu constante ruído de sucção, as mãos nodosas e cinzentas, cobertas de podridão, segurando correntes…
Correntes estas que se atinham aos pulsos de Bellatrix Lestrange. Do que a poderosa bruxa fora, carregava apenas o nome; com crescente horror, Bervely foi absorvendo o que já vira em sonho, mas fora incapaz de processar como uma imagem inteira: os muito longos e embaraçados cabelos, o corpo esquelético coberto de pele amarelada, esticada sobre suas quinas, forrando os ossos aparentes por onde deixava entrever um uniforme cinzento de prisioneiro aos farrapos. O seu rosto era o mais aterrador de tudo, porque um dia fora o mais bonito que Bervely já conhecera. Agora não passava de ossos e enormes, fundas covas que abrigavam os seus olhos, estes, buracos negros e opacos que lhe tragavam como vórtices.
Ela arreganhou a boca partida, deixando entrever um monte de dentes amarelos imundos.
– Ela veio… – disse Bellatrix, deleitada, quase cantando – A menina veio… a menina veio.
Bervely fechou os olhos para aquela voz que ecoou no espaço até preencher seu cérebro. Era rasgada e desafinada, no lugar de rouca e suavemente perigosa como se lembrava. O sarcasmo no entanto estava todo ali, e acariciou uma parte dela que ansiara por ouví-la novamente desde os seus cinco anos. O restante de si, no entanto, tremeu em repulsa.
– Sim. – disse por fim, forçando-se a abrir os olhos e encarar a mulher – Você sabe, eu sou… Bervely. Lembra-se?
O boca da prisioneira se torceu, a ponta do seu lábio se erguendo em, talvez, humor irônico. Era difícil dizer, pois as expressões em seu rosto pareciam todas erradas e retorcidas.
– Não seja tola, criança. É claro que eu sei quem você é.
– Você sabia que eu estava aqui. – murmurou, procurando a rosa no pulso da bruxa, mas era invisível entre os farrapos de suas vestes da prisão.
– Eu sei de todos os seus passos.
Bervely sentiu um calafrio gelado. Uma parte dela, uma ínfima, ingênua parte, se agarrara à esperança de que Bellatrix não estivesse, por todos aqueles anos, mexendo com sua cabeça através da rosa de propósito. Mas o orgulho que seu tom acabara de assumir dizia o contrário, e muito rápido todos aquele suplício em forma de pesadelo e medo ferveram nela, tudo de uma vez, sem aviso.
– Você me arrastou aqui de propósito – acusou – por todos esses anos. Você me manteve aqui por seis meses inteiros, você q-quis… quis pegar minha alma no inverno passado!
– Você deve entender, os dementadores gostam de ser adulados… uma alma perturbada como a sua…
– Minha alma não é perturbada! – exclamou, a voz ficando aguda de repente, e a cabeça girando.
Bellatrix gargalhou. O som tiniu em seus ouvidos como unhas arranhando um quadro, provocando aquela sensação de agonia que gera uma vontade de arrancar a pele fora.
– Você sabe o que é delicioso para eles, menina? – ela continuou sibilando através de seus dentes amarelos, o escárnio embebendo a sua voz – culpa. Culpa. Quanto mais intensa, mais irresistível… me diga, o que vê quando olha para eles?
Bervely tentou resistir à visão, mas mesmo ali de pé e com o colar que deveria protegê-la do pior das criaturas, as imagens passavam e inundavam seu cérebro. O corpo de Hector no chão, gelado e estirado sobre a neve… os gritos de Draco, “Você o matou!”, e depois aquela lápide, com o sino dourado pregado nela, e todas as suas cartas que ele nunca recebeu…
– Não! Saia da minha cabeça!
Bellatrix gargalhou novamente, amando o olhar transtornado no rosto de sua filha. Ela estalou seus lábios secos.
– Me deixe ter orgulho de você, Bervely. – entoou, quase musical. Isso fez a menina piscar, confusa. Bella soube que tinha sua atenção e continuou – Você sabe a única razão pela qual lhe deixei nascer?
– Q-qual?
– Para servir ao Lord. Servir ao Lord é o propósito da sua existência.
Bervely negou com a cabeça, alarmada.
– Ele está morto, foi derrotado. Sabe disso.
– NUNCA! – Bellatrix gritou abruptamente, lançando o corpo para frente, forçando as correntes que a seguravam pelos pulsos, seus olhos rolando nas órbitas. Os dementadores não se moveram nem um centímetro, pairando como abutres de cada lado dela, mas Bervely recuou por instinto, tropeçando e se apoiando na parede atrás de si.
– Srta. Black? – uma voz ampliada na sala fez-se ouvir, e ela a reconheceu como sendo o Quarter que a trouxera até ali. – Algum problema?
– Não! – exclamou para ele, a voz um tanto trêmula. Pigarreou, controlando-se. – Não, está tudo bem. Só mais alguns minutos.
Quando se voltou para a comensal da morte ela ainda estava à frente, na borda da linha de contenção, lhe encarando como uma fera pronta a atacar.
– Você deve saber que o momento se aproxima, Bervely… o momento de buscar por ele… o Lord está lá fora, e aguarda. Seja sua melhor serva, e será recompensada com glórias as quais não pode imaginar!
– Você está completamente maluca – murmurou, alarmada com o tom obsessivo que tomou Bellatrix ao falar do seu antigo mestre – Ele se foi, Harry Potter o matou!
– MENTIRA! O LORD NEGRO PERSISTE, ELE AGUARDA SEUS SERVOS! Eu posso sentí-lo! – ela arreganhou a sua manga rasgada, exibindo a horrível Marca Negra em seu braço. Bervely desviou os olhos para a visão da caveira com a cobra, com repulsa. Isso pareceu enfurecer Bellatrix mais do que qualquer coisa que fizera até ali – COMO OUSA VIRAR O ROSTO PARA O SÍMBOLO DO SEU MESTRE?
– Ele não é meu mestre! – exclamou, enojada. A ira em Bellatrix cresceu, deformando seu rosto, e Bervely quase agradecia a força das correntes que a continham quando a rosa em seu braço ardeu como se estivesse pegando fogo. Mordeu o lábio furiosamente, segurando o grito, sabendo que se gritasse o guarda entraria e interromperia a visita. Seus olhos se encheram de lágrimas.
– Criança indigna! – Bellatrix rosnou ensandecida – Como ousa vir aqui blasfemar o nome do seu dono! Se a única razão pela qual está viva é porque te prometi à ele! Ingrata!
– Isso não importa mais – grunhiu, através da dor que ela lhe infligia através da conexão. – Ele se foi…
– Quanto ele retornar, há de pedir perdão por sua blasfêmia de joelhos e servi-lo em todas as suas vontades… ou eu mesma me certificarei de que pagará por suas palavras, criança tonta!
O tom era tão perigoso que por um momento a bruxa que um dia conhecera cintilou através da imagem destruída da mulher. Bervely sentiu um arrepio sacudir o corpo ao ter a visão clara da mãe de dez anos atrás, embora ter sua ira dirigida à ela fosse nada menos que aterrorizante.
Entendia porque Bellatrix fora uma das comensais mais temidas, e muitos tinham se sucumbido até mesmo sob o peso de suas ameaças. Mas então houve algo, um estalo em sua mente, ou o que fosse, que lhe levou a erguer a cabeça e encarar aquele par de olhos enfurecidos.
– O que você vê – ouviu-se perguntando suave, quase calmamente – O que você vê, quando eles estão por perto?
A bruxa lhe lançou seu mais feral olhar.
– Eu estou aqui há muito tempo, criança. Acha mesmo que algum medo me resta?
– Sim. – arriscou, sentindo a boca seca e grudenta e a dor ainda latejando em seu braço – Eu acho. Você o cobriu de certeza mas ele está ai, e deixe-me dizer, ele é real. – certificou-se de olhar bem dentro dos olhos dela, por mais que eles lhe perturbassem no fundo da sua alma – Ninguém está vindo, mamãe. O Lord se foi. Ninguém vem resgatar você. Ninguém se importa.
Bella deu outro de seus sorrisos tortos e asquerosamente irônicos.
– Você veio.
Bervely negou.
– Não por você.
A prisioneira inclinou a cabeça com indolência.
– Eu sou tudo que você tem agora, Bervely. Por quem mais viria? Não seja tola.
– Sirius Black. – sua voz não tremeu, nem por um segundo, carregada de desafio – Eu vim por Sirius Black.
– BD –
Oliver podia ver através da parede entre a sala de espera e a de visitas. O guarda a fizera invisível com um aceno da sua varinha, permitindo um vislumbre dos quatro ocupantes do cômodo contíguo. Bervely estava de costas, e era impossível saber o que conversava com a prisioneira.
Bellatrix Black se encontrava meio oculta pelas sombras, ladeada pelos dois dementadores. Seus gritos eram audíveis, mas incompreensíveis. Tudo levava a crer que o Quarter estava certo sobre a falta de coerência da prisioneira. Os minutos se arrastavam enquanto acompanhavam o encontro, observando, e no caso de Oliver, se agonizando com ele.
Viu quando Lestrange gritou pela primeira vez, Bervely se assustou e o guarda lançou um feitiço na própria voz para ser ouvido na sala, perguntando se estava tudo bem. Depois, ele não interferiu mais, apesar de a prisioneira ter se descontrolado outras vezes.
Bervely parecia mal estar se aguentando sobre os pés, os punhos cerrados muito firmemente aos lados de seu corpo.
– Isso é loucura – Oliver murmurou perturbado ouvindo mais ecos de gritos – Ela tem que sair de lá.
– Só restam mais alguns minutos – o Quarter também parecia ligeiramente preocupado, vigiando através da parede e ao mesmo tempo checando um relógio em seu pulso. – Não devo interferir a não ser que a segurança da visitante esteja ameaçada.
– E quanto à segurança emocional? Ela não vê a mãe há não sei quantos anos, e a encontra assim, completamente…
Ele sequer completou o pensamento, desistindo no meio da frase. Não havia palavras em seu vocabulário para definir o pouco que via de Bellatrix Lestrange.
– BD –
– Sirius Black? – repetiu a bruxa como se o nome tivesse um sabor peculiar.
Bervely olhou incerta para ela, sem saber que tipo de reação aquele nome suscitaria. Mas tinha ido muito longe agora, e estava com muita raiva e dor, e queria machucá-la também, se pudesse.
– Sim. Meu pai. Você deve conhecê-lo, já que a noiva dele foi uma das pessoas que você matou antes de vir parar aqui.
– Como ousa – lava brilhava nos olhos da mulher – Sua traidora desprezível, como OUSA chamar aquele VERME de pai? ELE JAMAIS MOVEU UM DEDO POR VOCÊ, ELE A DESPREZOU NO MOMENTO QUE SOUBE DA SUA EXISTÊNCIA! E SIM, EU MATEI AQUELA ESCÓRIA, E MATARIA NOVAMENTE SE TIVESSE A CHANCE, E ENTÃO EU JOGARIA O CORPO MORTO DE BLACK SOBRE O DELA E QUEIMARIA AMBOS NUMA PIRA DE FOGO INFERNAL!
Bervely puxou ar corajosamente. Sua cabeça palpitava, e através da rosa, as emoções de Bellatrix a inundavam todas de uma vez: ódio, principalmente ódio genuíno e vivo que obliterava as outras emoções. Felizmente, ódio era tudo que Bervely queria sentir no momento.
– Mentirosa. Você foi embora e me levou aquele dia no Beco Diagonal sem nunca deixá-lo a verdade!
– GAROTA ESTÚPIDA!
– Black teria ido atrás de mim se soubesse! – protestou, irada.
– GAROTA ESTÚPIDA E CEGA, ELE DESPREZOU VOCÊ!
– NÃO! Você me desprezou! Você me entregou na primeira oportunidade para Narcissa e depois para Voldemort, você nunca olhou para mim sem me ver como um objeto! Você me usou a partir do momento em que eu nasci e todos esses anos, usou minhas memórias para alimentar os seus monstros e quis a minha alma para lhes dar no lugar da sua! E EU ESTOU FARTA!
– Está errada! Garota estúpida…
– A única razão pela qual eu vim até você hoje – ela continuou, o ódio de ambas palpitando tão forte em seus ouvidos que parara de ouví-la – foi para conseguir as respostas que só você saberia me dar. Eu já sei que fez tudo para arruinar a vida de Black, não preciso ouvir nada sobre isso.
– Ele queria que eu matasse você. – ela sibilou venenosamente. Bervely balançou a cabeça.
– Ele era diferente. – disse com firmeza. – Não teria me usado, como você fez. Faz.
– Traidora… – ela rosnou – Cega, e burra, e traidora como ele… vai queimar como ele…
– É culpa sua, não é? Que ele está aqui? Você o fez entregar os amigos, você de alguma forma o forçou, ele jamais entregaria de outra forma…
– Sua peste traidora! Você não merece carregar este nome, e nem merece essa marca! DESONRA!
Bellatrix saltou novamente para frente, como um borrão. A próxima coisa que Bervely sentiu foi uma dor excruciante em seu braço, como se a sua carne se rasgasse desde a parte interna do cotovelo até o pulso, e depois, escuridão.
– BD –
– ELA DESMAIOU! – Oliver gritou. O guarda já tinha percebido e correu para dentro da sala. De lá, a risada ensandecida de Lestrange ecoava, enregelando seus ossos muito mais do que a presença dos dementadores poderia.
Pela segunda vez, ele viu a garota ser trazida nos braços de um guarda, e imaginou que ela tivesse novamente sucumbido à exposição das criaturas; foi quando percebeu, pra o seu completo terror, o seu braço esquerdo encharcado de sangue.
– BD –
Sentiu o balanço das ondas antes de ver, e constatou que estava de novo no barco. As lembranças das últimas horas eram turvas, desde que caíra diante de Bellatrix e perdera os sentidos. Fora, sabia, reanimada pelo guarda, levada de volta à enfermaria, tivera poções administradas e então ficara sob observação por um tempo, tudo isso envolta por um manto turvo de tontura que a impedia de estar completamente alerta.
Tinha a consciência de, por todo esse tempo, Oliver estar por perto, fazendo perguntas, ansioso e preocupado. Mesmo agora sabia que ele estava lá, e foi a primeira coisa que viu, o par de olhos chocolates alarmados num rosto muito pálido.
– Está acordada? Consegue me ouvir?
Ela assentiu, ainda zonza. Ele lhe empurrou um copo de chocolate quente.
– Beba. A curandeira de Azkaban disse que se você não acordasse durante a viagem, eu devia lhe levar até o St. Mungus e avisar ao seu responsável legal.
Isso a fez sentar completamente, tão alerta quanto pôde.
– Não precisa chamar ninguém, estou bem.
Era mentira. Havia um nó em seu estômago, seu corpo doía, mas acima de tudo seu braço doía; uma breve olhada lhe informou que fora enfaixado com gaze branca. Oliver acompanhou seu olhar e uma expressão peculiar surgiu em seu rosto; preocupação e receio.
– Eles disseram que pode acontecer. – falou quietamente – Mas que é muito raro.
– Sim, imagino que seja uma falha de segurança um tanto preocupante também. – zombou sobre o chocolate que grudava em sua língua, doce demais para o seu agrado. Oliver franziu.
– De segurança?
– Sim… não era suposto Bellatrix me alcançar, sabe. Ela estava bem presa por correntes.
– Do que está falando? – ele empalideceu sensivelmente – Não foi Lestrange. Você… foi você quem fez isso consigo mesma.
Bervely arregalou seus olhos. Lembrava-se claramente das unhas imundas e afiadas de Bellatrix cravando-se em sua pele, a contorção animalesca em seu rosto ao decidir que ela não mais era digna da marca que Voldemort um dia lhe presenteara. Mas então, um breve olhar para sua mão direita mostrou traços de sangue sobre as unhas. Seu sangue.
– Ah.
– Eu devo avisar ao Quarter do barco que acordou. – ele disse rapidamente, e se afastou. Bervely olhou para onde ele tinha ido, reconhecimento amargo do olhar no rosto dele, que já vira antes lhe sendo direcionado.
Medo.
– BD –
Tão logo desembarcaram no cais do continente, Oliver os aparatou até o Caldeirão Furado, a amparando pelo cotovelo quando Bervely oscilou levemente de encontro ao chão. Ele tinha seguido estranhamente silencioso por todo o caminho, mas não é como se ela quisesse muito diálogo também.
– Tem certeza que está bem? Você devia ir no hospital, de qualquer maneira.
– Eu estou bem. – lhe garantiu, sem no entanto encará-lo.
– Sabe… você poderia ir lá pra casa… passar a noite, ou o que seja. Amanhã é páscoa, minha mãe sempre faz bastante comida–
– Não faça isso. – lhe cortou friamente. Ele pestanejou.
– O quê?
– Se compadecer de mim.
– Como é?
– Você está com pena. Pobre Bervely com ambos os pais em Azkaban, além de ser uma completa maluca e nem conseguir resistir aos dementadores sem arrancar um pedaço de si mesma! Poupe-se, Wood. Não preciso da sua pena ou da sua caridade.
– Não é nada disso! – ele rebateu, mas sem muita firmeza.
– Ouça a si mesmo! Foi uma idiotice lhe pedir para ir comigo. Você é esse garoto perfeito com a família perfeita num mundo perfeito, não há espaço para esse tipo de drama em sua vida! Então faça um favor para nós dois e siga o seu caminho e me deixe seguir o meu.
– Não, você está inventando isso, eu não…
– Olhe nos meus olhos – disse com frieza – e me diga que não estava morrendo de medo daquele lugar.
– É claro que eu estava! Você viu aqueles dementadores? Ou o jeito como começou a se contorcer naquele pátio, antes mesmo de… e sem falar de Lestrange, eu sei que ela é sua mãe, mas, Rose! Ela claramente não é alguém que você quer atravessar o mar para visitar!
– Vê? Esse é o meu mundo, Wood. E é demais para você.
– Devia ser demais para você também! Isso é loucura. – ele percebeu o olhar no rosto dela e arfou – Não me diga que está pensando em voltar lá? Rose, por favor!
– Esqueça que esse dia aconteceu, Wood.
Ele puxou ar, teimosamente fincado no chão.
– Vamos pra casa comigo. Por favor, você precisa descansar e comer todo o chocolate que conseguir.
– Eu não vou para a sua casa trouxa. Você não está me ouvindo? Você viu quem eu sou? Quer mesmo colocar a filha de dois criminosos dentro da sua casa? Perto da sua irmãzinha?
Ele titubeou.
– Você não é como eles.
– Você não sabe disso, sabe? O que sabe sobre mim, afinal? Hoje eu te arrastei comigo para o pior lugar da terra, e nem mesmo te disse que minha mãe estava lá também. Eu tenho mentido para você, e eu vou continuar mentindo, sabe por que? Eu não confio em você. E você não deve confiar em mim. Isso não é esperto da sua parte.
– Você não confia em mim? – ele piscou. Ela ficou um pouco irritada por aquilo ser tudo que o garoto tinha absorvido da sua afirmação.
– É claro que não. Já olhou pra você? Um grifinório, vive no meio de trouxas, e nem percebe quando está sendo usado por uma garota. Você foi útil hoje, mas isso é tudo. Pode ir agora. Foi um longo dia.
Ele abriu a boca, mas as palavras não vieram. Ela manteve o olhar duro e decidido sobre ele e pode assistir as linhas de sua teimosia caindo uma por uma diante da verdade em sua declaração.
– Eu gostaria que você estivesse falando tudo isso da boca pra fora….
– Mas eu não estou.
– Você não está. – concordou. – Boa noite, Bervely.
– Boa noite, Wood.
Ele lhe deu uma última olhadela, depois virou-se e foi embora usando a lareira do bar. Bervely, o coração endurecido e dolorido, mais até que o braço machucado, deixou-se cair na cadeira rigidamente.
O fundo de seus olhos formigava. O peito pesava. Tudo estava um caos, e se sentia machucada e inadequada. A visita à Bellatrix lhe trouxera diversas inquietações que seriam matéria vasta para seus próximos pesadelos.
Quando pôde se mover de novo, foi até Tom, o dono do bar, e lhe pediu um dos quartos no andar superior. Poderia lidar com o mundo no dia seguinte, mas naquela noite precisava de uma cama que nada lhe cobrasse, e não lhe olhasse como se ela fosse algum tipo de aberração.
– BD –
O dia seguinte ser um domingo de páscoa lhe garantiu muito chocolate, que ela comeu mais como remédio que por afinidade. Ainda se sentia fraca por causa dos dementadores, mas estava se recuperando. O braço, por outro lado, continuava doendo. Não arriscou remover as bandagens.
Rodou pelo Beco Diagonal, sozinha e clandestinamente como nunca fizera antes. Entrou em cada loja que lhe deu vontade, e passou nelas o tempo que lhe apeteceu, mas não comprou nada, afinal, do dinheiro dado por Snape, que já gastara com o barco para Azkaban, com o quarto no Caldeirão Furado e com a comida, lhe sobrara uma pequena parcela.
Finalmente encontrou o que queria, quando já era quase hora de ir embora; entrou na loja, experimentou e pagou, sentindo uma satisfação superficial que não devia ser tão prazerosa, mas era. Tinha uma mãe louca, estava quebrada, espantara as várias pessoas que chegaram a se importar com ela naqueles últimos meses, fora a responsável pela poção incorreta que levara o primo a morte, e o seu pai também estava em Azkaban para prisão perpétua: tudo isso era muito terrível, mas pelo menos tinha botas novas.
E eram bastante respeitáveis. Olhando-se na vitrine do empório de corujas, viu o reflexo da sua nova aquisição; longas e de couro escuro, com as bordas dobradas e adornadas em runas elegantes. Havia até um pequeno salto envolvido. Sorriu. Talvez parecesse levemente louca ali sorrindo para a vitrine, mas não ligou.
As coisas estavam mesmo loucas.
Mais tarde, pegou o trem na estação King’s Cross, de volta para Hogsmeade. Se enfiou na mesma cabine que dividira com Tara na vinda, cuidando para não esbarrar com ninguém (ninguém de olhos castanhos magoados, pelo menos) no caminho. A ruiva chegou minutos mais tarde, parecendo mau humorada, mas lançando um olhar à colega de cima a baixo e abrindo um sorriso de aprovação.
– Uau, B. Botas legais.
– Obrigada.
– O que houve com seu braço?
– Acidente de percurso.
Tara ergueu uma sobrancelha, mas não insistiu. Alguma coisa estava incomodando a ruiva, Bervely podia dizer claramente, mas naquele momento pouco ligava. Esperou até a menina se acomodar para puxar uma folha de pergaminho com anotações da mochila. Uma das coisas que fizera no Beco Diagonal durante o dia fora reunir aquelas informações, que passou para a ruiva junto com uma pergunta.
– Escuta, Tara, já ouviu falar sobre isso?
A sonserina franziu o cenho para o sigla.
– Intervenção Avaliativa do Conselho Internacional dos Bruxos. – Bervely se apressou em explicar.
– Sim. Não é aquele pessoal que faz as análises das instituições mágicas subordinadas ao governo?
– Isso. – mordeu seu lábio, ansiosa.
– E daí?
– Acha que pode me botar dentro?
– Por que você ia querer…
– Não posso te dizer. Na verdade a pergunta é: acha que seu pai pode me botar dentro?
Tara olhou duvidosa para o papel, e depois para a colega.
– Meu pai pode fazer tudo, Bervely – disse com uma leve irritação – mas isso vai te custar caro.
– Não tem problema, o que quer que seja, eu pago.
– Vou ver com ele. – lhe prometeu, enfiando o papel no próprio bolso, e então sondando, curiosa – Qual organização eles vão avaliar dessa vez? Todo ano é uma diferente, certo? O que vai ser nesse?
– Azkaban. Eles vão avaliar Azkaban, esse ano.
(Continua…)
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