Indigna Rosa Negra

32 A Rosa e o Capitão


Notas iniciais
OBRIGADA OBRIGADA OBRIGADA PELOS VIDEOCOMENTÁRIOS, VOCÊS SÃO LINDOOOOS! Aos comentários normais também!!! Boa Leitura!


Um raio de luz amarela passou zunindo pela sua orelha esquerda. Ela se esquivou, usando uma pilastra como proteção, e o segundo feitiço tirou lascas da parede bem perto ao seu ombro. Abaixando-se, inclinou-se para lançar um feitiço em sua oponente.

Tarantalegra!”, pensou, surpreendendo-a pela sua mudança de nível. O feitiço foi combatido por um feitiço-escudo. Uma onda de luz verde-elétrica veio em seguida, e pegou seu tornozelo, que ficou grudado no chão como se pesasse uma tonelada.

Expeliarmus! – a duelista gritou, e a sua varinha saiu rodando no ar até a mão dela pela quarta vez aquele dia.

– Esse foi verbal! – reclamou, erguendo-se e espanando a saia do uniforme, ainda sem poder mover um pé do chão – Pensei que estivéssemos treinando duelo não verbal!

– Eu sei, eu sei – Nimphadora, que tinha um sorriso vitorioso e convencido no rosto, se aproximou e lhe estendeu a sua varinha de volta – Mas a sensação de vitória é maior quando a gente desarma em voz alta.

Finite Incantatum – Bervely liberou o seu pé, rolando os olhos – Não acho que os seus examinadores vão ligar para a sua sensação de vitória nesse caso. Oh, pelo amor de Merlin, pare de parecer tão convencida!

A garota deu uma gargalhada divertida.

– Você não sabe perder!

– Bem, não foi uma vitória injusta de qualquer maneira. – rebateu, cerrando as pálpebras com descaso.

– Talvez essa não, mas e as outras três?

Bervely não respondeu, e a lufa-lufa continuou rindo enquanto concertava os danos feitos à sala de treino. Do lado de fora fazia um dia mais seco do que qualquer um no último mês, mas elas estavam ali desde cedo treinando o módulo de duelo para o teste de Tonks; com a data cada vez mais próxima, o seu nervosismo estava aumentando e com ele a necessidade de treinar ainda mais intensamente nos fins de semana.

– Tudo bem, vamos dar uma pausa para o lanche. Achei que poderíamos almoçar aqui, e levar até o fim da tarde?

– Tudo bem, não é como se eu tivesse uma vida social ou qualquer coisa, afinal. A não ser que um monte de madrágoras cheias de hormônios adolescentes contem como socializar…

Tonks lhe jogou a comida que conseguira na cozinha mais cedo, um monte de sanduíches de atum e suco de abóbora, e elas se sentaram no espaçoso parapeito da janela aproveitando-se da luz do sol, que dera o ar da sua graça.

– Você é boa em feitiços de campo, mas está fora de prática. Porque não pegou a matéria com Flitwick?

Ela deu de ombros.

– Eu tive duelos em Durmstrang por muito tempo, e era divertido, mas quais as chances de usar isso na vida real? Não é como se eu fosse me inscrever para ser auror nem nada. E todos os outros feitiços, domésticos e essas coisas, você pode apenas pegar um livro e aprender.

– Talvez você não tenha um livro por perto quando precisar dele.

Ela rolou os olhos para aquela ideia fixa de Tonks de que era possível um ataque ocorrer a qualquer momento, devia ser uma coisa de auror que ela já estava internalizando. Tendo terminado seu sanduíche, puxou o manual do teste e voltou a folheá-lo, ticando com a varinha os pontos que já tinham coberto. Tonks estava bem em feitiços não verbais, e seu feitiço escudo fora eficiente o bastante para rebater qualquer coisa que lançou, então talvez pudessem mover para o próximo ponto.

– Como foi a sua aula de aparatação hoje? – Tonks voltou a perguntar, pegando um segundo sanduíche e comendo com vontade. – Já conseguiu algum avanço?

– Consegui aparatar uma unha ontem. Aparentemente minhas unhas tem mais determinação, deliberação e destinação do que eu. – murmurou sem tirar os olhos do livro, na parte de “bônus para pontuação extra”.

Tonks deu risada.

– Não se preocupe, quando menos esperar o resto do seu corpo segue você.

– Não estou preocupada.

– Já descobriu quem pagou o seu curso, por falar nisso?

Ela fez uma careta, torcendo o canto da sua boca em desagrado.

– Na verdade, já.

Tonks ficou aguardando o resto da resposta, mas Bervely nada fez além de passar uma página distraidamente.

– Foi Snape, não foi?

Isso a fez erguer os olhos com surpresa.

– Por que você diria isso?

A metamorfomaga deu um sorriso sem graça.

– Eu meio que vi uma carta dele lá em casa, durante o feriado de Natal, e achei que era alguma coisa sobre mim, você imagina como a gente fica assustada quando Snape decide escrever para seus pais! Achei que ele estava me expulsando da matéria ou algo assim, e então eu não poderia prestar o exame de auror porque eu preciso dos NIEMs em Poções… – Bervely lhe deu um olhar severo de “prossiga para a parte que me interessa” – Então, eu perguntei à mamãe porque Snape estava escrevendo, e ela acabou me contando que ele é seu padrinho e tinha levado você lá, e só queria notícias.

– Hum. – disse, pregada no livro e ignorando a sensação de incomodo em saber que o mestre de poções estivera perguntando por noticiais suas no Natal. Na verdade, que ele vinha se correspondendo com Andromeda tendo ela, Bervely, como assunto, não era uma informação nova desde a segunda feira após a páscoa.

– Deve ser louco ter seu padrinho como seu professor de poções.

– Você poderia dizer isso.

Tonks se inclinou para pegar o terceiro sanduíche, e seu cabelo cintilou na luz, num tom verde iridescente com alguns reflexos prateados

– Hey! Você não me contou como foi a sua páscoa! Te procurei no castelo e você não estava, então alguém me contou que você foi fazer compras com Hagrid? – seu tom era divertido, como se sair num passeio com o meio-gigante fosse um evento só um pouco fora do normal e levemente engraçado, e não humilhante e perturbador.

– Não foi nada demais, só algumas coisas para as mandrágoras. – mentiu, fingindo que lia a lista de feitiços avançados que poderiam render à Tonks uma dianteira no teste.

– E o que houve com seu braço?

– Um acidente na estufa.

– Ah! Aquelas plantas satânicas, eu precisei reenvasar um bocado delas no meu segundo ano. Tropecei numa raiz e deixei cair meus abafadores de ouvido. Só acordei uma semana e meia mais tarde, perdi o dia das bruxas e tudo!

A tagarelice da garota era alvo de só meia atenção de Bervely, que acabara de avistar no livro um feitiço que prendeu a sua atenção. Ela o apontou para a lufa-lufa.

– Você conhece esse?

Tonks se inclinou para olhar, e novamente seu cabelo refletiu a luz. Bervely precisou fechar os olhos para não sofrer nenhum dano nas retinas.

– Patrono? Sim, já ouvi falar, dizem que é um feitiço de defesa muito avançado.

– Diz aqui que funciona contra dementadores.

– É mesmo? – sua curiosidade aumentou, a fazendo até pousar sua metade comida de sanduíche no colo para pegar o livro. – Você acha que eles iam ficar impressionados se eu soubesse fazer um? Acho que os aurores vez ou outra precisam fazer uma visitinha à Azkaban, não é, deve ser bom saber um desses… isso sem falar dos que estão soltos por ai.

Bervely sentiu um calafrio, e sua voz falhou.

– Tem dementadores soltos por aí?

– Segundo o Prof. Lockhart – Tonks deu de ombros, ao mesmo tempo que ia lendo a descrição do feitiço – Em um livro dele, ele disse que enfrentou um bando sozinho em Apenglow. Acha que ele aceitaria me ensinar?

– Lockhark é um idiota, podemos muito bem aprender sozinhas.

Nimphadora levantou a cabeça com um sorriso luminoso e empolgado em seu rosto. Combinando isso ao seu cabelo refletor, ela estava quase insuportável aos olhos.

– Sério, vai me ajudar?

– E eu já não estou ajudando com tudo mais? – resmungou, rolando os olhos.

– Você é a melhor prima, sabe disso, não sabe?

– Ok, apenas, sem abraços, por favor. Não precisamos ficar sentimentais. – a advertiu, prevendo o perigo iminente.

– BD –

Seis dias antes, segunda feira após o feriado de páscoa.

Seu braço estava dolorido, mas Bervely não queria pensar sobre isso; decidira que ignoraria as bandagens tanto quanto pudesse. Tivera medo do que aconteceria quando pregasse os olhos na noite de sábado após a visita à Azkaban, e se precisaria lidar com a ira de Bellatrix em seus sonhos… mas nada disso aconteceu. Foi surpreendida com um sono pesado e profundo, talvez devido à exaustão que ainda se encontrava por causa dos dementadores.


O mesmo aconteceu no domingo, já no castelo. Abriu os olhos surpresa, já de manhã, tendo a impressão de que acabara de fechá-los, mas todas as meninas já estavam acordadas e saindo para o café da manhã.

Bervely pulou a refeição, sem querer atrasar para Poções, não devido à qualquer ansiedade, mas porque quando chegava atrasada normalmente Snape lhe lançava algum olhar torto que parecia dizer “antes nem tivesse vindo”. E o resto da turma tendia a cochichar, como sempre tentando especular porque a aluna prodígio de Poções de repente se tornara a medíocre, aparentemente por vontade própria.

Resultou que ela foi a primeira a chegar na sala. Como Snape não estava à vista, se sentou em sua cadeira usual, folheando o livro. De acordo com o cronograma, hoje era o dia de debridar a Poção do Sono Sem Sonhos. Ela riu da ironia.

– Parece que você não vai ter problemas nessa – uma voz sugestiva soou do seu lado, e um mundo de cabelo vermelho escuro lhe informou a sua origem. Tara Holmes acabara de jogar a mochila aos pés da cadeira ao lado da sua.

– O que está fazendo?


– Vou ser a sua dupla hoje. Não quero aguento mais Olga, ela está um saco.

– Ela está sempre um saco. – pontuou, sendo a pessoa que precisava dividir o dormitório com a dita cuja. – Hoje de manhã ela fez um escândalo porque alguém mudou a ordem de suas poções estéticas no banheiro, e ela passou a pasta de espinhas no cabelo em lugar da hidratação.

– Eu sei, ela veio resmungando isso o caminho todo. – suspirou, irritada – Como se alguém se importasse com a droga do cabelo dela.

– É, todo mundo sabe que você só se importa com a droga do seu cabelo – Bervely disse com um sorriso de lado. Para a sua surpresa, Tara sorriu também, puxando Estudos Avançados no Preparo de Poções para si – Então, me deixe ver do que vamos precisar hoje.

O resto dos estudantes começaram a entrar, e Bervely viu pelo canto de olho Olga Greengrass varrer a sala com o olhar, avistar a amiga e estreitar os olhos perigosamente.

– Ela vai fazer um barraco – Bervely murmurou, mas sem se importar muito.

– Não vai, não. – Tara disse com segurança, sem nem olhar na direção da loira. De fato, Greengrass pareceu pensar melhor, e jogou suas coisas mal humoradamente numa carteira do fundo e deixou de ser alvo de qualquer interesse de Bervely no mesmo momento.

– O que raios significa isso? – Sia acabara de chegar, encontrando seu lugar de hábito ocupado.

– Sem dramas, Rockwood, faça o favor. – Tara rolou os olhos verdes, mas a negra não lhe deu atenção, virando-se de cara feira para Bervely.

– O quê, vocês estão amigas agora? Era só o que faltava!

Snape tinha acabado de entrar na sala, e identificou o foco de confusão com seus olhos de besouro.

– Sia, apenas puxe uma cadeira e coloque aqui do lado. – Bervely mandou, pondo fim ao conflito – Você vive reclamando que tem feito tudo sozinha, hoje pode ter alguma ajuda de Holmes.

A garota sentou, praguejando ainda qualquer coisa sobre Holmes ser mais um incomodo que uma ajuda, mas Snape se adiantou para o púlpito e o silencio obediente imergiu a sala.

~~


Bervely foi deixada copiando o relatório do debridamento, visto ter se recusado a participar ativamente das outras etapas do processo durante a aula. Sia já estava acostumada com a sua abstenção em poções, mas Tara se irritou com a sua falta de ajuda e saiu pisando duro da mesa assim que foram liberados, murmurando algo sobre “talento desperdiçado e cabeça mais dura que a de um pedregulho”.

– Tomara que isso a convença a não tentar fazer dupla com você de novo. – Sia disse esperançosa, depois que a menina tinha ido embora. – Existe alguma razão cósmica para essa confluência de vocês duas hoje?

– Ela apenas cansou de Greengrass.

– E desde quando você é a segunda opção dela? – rosnou, inconformada. Bervely considerou a pergunta um instante.

– Acho que eu era a primeira, e ela só está tentando voltar às origens.

– Isso é estranho – a sonserina cruzou os braços – Não gosto de coisas estranhas.

– Não precisa ser tão territorialista. Eu posso ser inútil em poções para ambas, sabe?

Sia fez uma careta, mas acabou cedendo, provavelmente porque o relógio badalou as dez da manhã.

– Apenas resolva essa merda, eu não gosto de ficar confusa sobre quem preciso odiar, e eu sou feliz odiando Holmes. Pode terminar de fazer o relatório sozinha? Eu tenho aula de DCAT agora, mas o seu horário é vago, né?

– Sem problemas.

Sia foi embora sinuosamente, como ela normalmente andava, e Bervely procurou adiantar as notas. Ainda queria passar na biblioteca e fazer uma pesquisa sobre o feitiço Patrono, e prometera à Mme. Pomfrey dar uma olhada na estufa antes do almoço. Finalmente escreveu a última linha, assinou o seu nome e o das colegas e enrolou o pergaminho. Quando levantou-se, percebeu que só restara ela e mais um grifinório qualquer terminando a atividade.

– Prof. Snape – chamou, estendendo o rolo de pergaminho para ele. O mestre, que estivera remexendo alguma coisa no armário de ingredientes, voltou-se com o vinco entre as sobrancelhas grossas.

– Sra. Black, lembra-se onde guardamos a sálvia desidratada que chegou no lote de outubro?

– Eu coloquei no armário do laboratório. – lembrou-se, um pouco surpresa com a pergunta. – O senhor mesmo requisitou isso, porque os alunos ficavam confundindo a sálvia com a ortela, e causando aquele problema com as bolhas, sem falar no prejuízo.

– Ah, agora me lembro. Pode localizá-la para mim lá dentro? Você deve se lembrar onde está e não quero perder tempo procurando.

Bervely olhou suspeitosamente para o mestre, mas este já tinha pego o pergaminho em sua mão e juntado ao restante da pilha, depois virou-se e foi apertar a mente do grifinório que ainda não entregara a atividade. Com um suspiro, ela seguiu caminho para a porta que levava ao laboratório dele, ocupando-se em lembrar exatamente onde guardara o ingrediente seis meses antes. Fora exatamente na época em que estivera sob efeito da Poção do Sono, e tendo alucinações com Hector. Sua memória para as atividades cotidianas daqueles dias não era das mais confiáveis.

Num caldeirão de prata sobre a bancada borbulhava à fogo lento um líquido de consistência pastosa cor de mostarda, cujo cheiro lembrava gengibre e terra. Supôs que seria o antídoto para o fungo das mandrágoras, pois um dos ingredientes que fora buscar no Beco Diagonal era justamente o zerimbatae, uma raiz africana cujo cheiro era idêntico ao da iguaria. Curiosidade aflorada, ela se aproximou do caldeirão, admirando a consistência perfeitamente homogênea da poção. Só um mestre como Snape poderia ter feito aquele balanceamento tão rápido, conseguindo harmonizar os ingredientes, que ela sabia serem de difícil dissolução, em apenas um dia. Teria lhe tomado, no mínimo, uns quatro para encontrar o ponto certo.

As anotações dele estavam ao lado do caldeirão. Snape tinha uma letra garranchosa e difícil de compreender, mas ela ficara boa em desvendá-la durante os breves meses como monitora. Aparentemente, ele tinha feito suas próprias adaptações à poção original.

Cortar o zerimbatae em tiras, não esmagar.”, “Dissolver a flor de sal em álcool antes de acrescentar ao estágio três de cozimento”, “Usar sálvia desidratada, e não fresca, para aumentar o tempo de duração da poção”.

Filho da mãe genial – praguejou baixo, inclinada sobre o papel – como eu nunca pensei nisso?

Sálvia era um ingrediente muito usado em receitas medicinais, mas costumava diminuir o tempo de vida das poções consideravelmente. Substituir pela sua versão ressecada era uma solução simples e prática que teria poupado muito desperdício em medibruxaria, se tivesse sido pensado antes.

– Você vai gostar de saber que a poção antídoto do fungo de bubotúberas ficará pronto em algumas horas. – a voz profunda de Snape preencheu o laboratório, e ela se afastou rápido do balcão de trabalho.

– Ótimo.

Se dirigiu ao armário, não tendo problema em encontrar o pode grande de sálvia desidratada no canto superior direito, onde os feitiços anti-umidade estavam mais concentrados. Cuidadosamente o tirou dali e levou até a bancada.


– Ai está.

– Obrigado.

Ele estava bloqueando a porta, o que lhe deu um indicio que talvez ainda não tivesse terminado com ela. Bervely começou a suspeitar de que aquilo era uma armadilha, e o professor a estivesse tentando com o caldeirão borbulhando e aquela receita cheia de ingredientes atípicos. Não ia funcionar, disse a si mesma.

– Vejo que comprou sapatos novos.

– É. – ocultou algum constrangimento com a observação dele. – Obrigada pelo dinheiro. Assim que eu tiver algum, lhe retornarei o montante.

– Não seja ridícula. – ele afastou a ideia como se fosse um mosquito inoportuno – No entanto devo alertá-la que as suas botas estão em desacordo com a padronização do uniforme.

– Vai me tirar pontos? – ela desafiou – ou me dar outra detenção?

Os lábios dele se estreitaram ligeiramente, como que num espasmo de desagrado. Ela sabia que Snape não tinha alcançado o ponto de seu interesse ainda e esperou, já que ele bloqueava a porta. Fora mesmo uma armadilha.

– O que mais fez no feriado, Srta. Black? Contando que não foi para a casa da sua tia após as compras com Rúbeo Hagrid?

Bervely cruzou os braços, suspeitosa.

– Como pode saber disso?

– Sinalizei à sua tia de que estava à caminho, então ela esperou, e estranhou quando não apareceu para a páscoa.

– Você o que? – exasperou-se – De onde tirou o direito de avisar qualquer coisa da minha vida para Andromeda? Ela não é nada minha, não é como se eu tivesse obrigação de ir pra lá em qualquer momento!

– Está sendo ingrata. Srta. Black. A Srta. Tonks lhe acolheu em sua casa quando ninguém mais estava disponível. Ela se preocupa com a sua segurança e, não importa quais ideias errôneas tenha acumulado a respeito de sua posição para os parâmetros defasados da família Black, ela é a sua família. O seu único parente de sangue que parece disposto e interessado no seu bem estar. Eu não dispensaria esse interesse se fosse você.

Bervely estava, a esse ponto, quase soltando fumaça pelo nariz. Como Snape se atrevia?

– O senhor parece sob a impressão de que pode exercer algum controle sobre a minha vida, professor Snape! Primeiro decidindo que eu ajudaria nas estufas, depois me matriculando sem o meu consentimento nas aulas de aparatação e agora se comunicando com a amante de trouxas a meu respeito! Eu não vou mais aturar esse tipo de intromissão em minha vida, está bem?

Ele ergueu uma sobrancelha muito cética e perigosa. Se Bervely soubesse melhor, não estaria ali cutucando a fera quando já estava emboscada, mas as estratégias eram todas engolidas em favor do orgulho aflorado.

– Atente à sua língua, garota. Eu tenho sido paciente com suas atitudes impensadas nos últimos meses, muito mais do que eu provavelmente deveria. Mas você deve se lembrar que como seu responsável legal, é o meu papel direcionar as suas escolhas para um caminho sensato quando você parece incapaz de fazê-las de forma coerente!


– Eu não estou incapaz de– ela arfou – Quem pediu a você para agir todo “responsável legal” de repente, de qualquer maneira?

– Isso não está em questão, Bervely. Eu não fujo às minhas responsabilidades.

– Eu não sou responsabilidade sua!

– Sim você é, até que seja maior de idade. Sinto muito que o fato lhe cause tamanho desagrado e repulsa, mas é a lei mágica que diz isso, não eu.

– É bom que saiba que me causa repulsa!

– Grato pela ratificação. – ele disse acidamente. – E devo avisá-la que, da próxima vez que usar um termo preconceituoso como “amante de trouxas” para se referir à sua tia, ou qualquer outra pessoa, aliás, não vai ser só uma detenção que levará.

Ela o olhou um tanto surpresa, o tom era sério, quase letal. Nunca pensara que esse tipo de termo incomodaria ao professor tão particularmente, mas o olhar em seu rosto dizia que se sentia mesmo implicado.

– E só para constar – ele acrescentou, o tom mais apaziguado, embora não menos intenso – Eu não acredito que perdeu o interesse em poções. Você me pareceu bem interessada em minhas notas um momento atrás.

Ela deu de ombros, contrariada e sem encará-lo.

– Eu só estava olhando.


– É. Eu conheço esse tipo de olhar, já o vi antes. – o professor provocou. Bervely suspirou com incomodo, porque na verdade a falta que sentia do laboratório e das lições do próprio Snape faziam seu peito doer, especialmente quando estava ali dentro e tinha as possibilidades tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe. Snape continuou parado à porta, lhe perscrutando com seu olhar profundo e sabedor, enigmático o suficiente para lhe fazer sentir qualquer coisa, de ansiosa à culpada. – Bervely, as vezes as pessoas fazem coisas estúpidas.

Era a segunda vez que ele usava seu primeiro nome. Queria odiar o tratamento intimo, mas na verdade o som do seu nome na voz de Snape abria mais o buraco de culpa.

– Essas coisas estúpidas feitas por outras pessoas não justificam as suas próprias escolhas estúpidas.

Por algum motivo, seus olhos se encheram de lágrimas. Fazia falta aquela Bervely antiga que não estava sempre à flor da pele, não tinha um monte de feridas abertas e não se deixava atingir facilmente. Essa nova Bervely, bem, não sabia como lidar com ela. Virou-se um pouco de lado, fingindo que olhava para o caldeirão borbulhando, inclinando um pouco a cabeça para o cabelo tapar o rosto, e respirou fundo. Já podia se afogar ali mesmo na poção fervente se derramasse uma maldita lágrima na frente de Snape.

Finalmente ela sentiu que podia falar.

– Como foi, quando… – ela pigarreou – Quando você errou a Poção de Adormecer, e alguém a bebeu? A pessoa… o que aconteceu com ela?

Snape demorou tanto para responder que ela pensou que talvez a pergunta fosse pessoal demais e ele finalmente fosse expulsá-la dali como ela merecia.

– A minha parceira em Poções da época de escola a bebeu, por acidente. Eu tinha feito algumas modificações na fórmula, e a aparência lembrava a poção energizante. Era época de exames finais, então ela estava tomando poção energizante de manhã e de noite para ficar acordada estudando.

– Mas então a interação…

– Eu consegui reverter a interação, mas não fui rápido o bastante, então a poção fez o seu efeito esperado, mas se tornou menos reativa ao antídoto. Ela não acordou.

Bervely arregalou os olhos.

– Por quanto tempo?

– Quatro meses.

– Merda. – xingou. A principal coisa sobre a Poção de Adormecer era que, quanto mais tempo a pessoa estivesse sob o seu efeito, mais difícil era que despertasse. E à uma certa altura, podia praticamente ser considerada morta.

– Linguagem, Srta. Black.

– E então? Como ela foi acordada? Ela foi acordada, certo? – lembrou-se da parte do livro que falava sobre a história dessa poção: centenas de pessoas que a tinham tomado inadvertidamente acabaram por ser declaradas mortas embora continuassem respirando, depois de anos dormindo sem qualquer esperança de solução.

– Então eu encontrei o antídoto. Você está familiarizada com as lendas que fazem referência à essa poção, na literatura trouxa? Foi delas que eu tirei a resposta.

Bervely lhe deu um olhar completamente cético. Ela acabara lendo as malditas lendas da Bela Adormecida, depois que os primeiranistas tinham falado tanto sobre isso.

– O quê? O beijo do amor verdadeiro?

Snape torceu o nariz para o termo.

– Quase isso. Existe uma fórmula lendária em poções, que diz-se retirar qualquer mal mágico que acometa uma pessoa, se for feita da maneira correta. Chama-se O Beijo Encantado, apenas porque deve ser passada dos lábios de quem a faz para os lábios de quem foi prejudicado.

– E precisa ser feita por alguém que tenha sentimentos profundos pelo receptor da poção. – ela completou, lembrando-se da lenda. Havia um livro de lendas mágicas na biblioteca da Mansão Malfoy uma vez, ela o lera todo num dia de tédio das férias.

– É um nome estúpido, de qualquer maneira. – sentenciou ele, amargo.

– Então você fez uma poção lendária quando estava no colégio. – ela disse, um tanto impressionada, embora a essa altura já devesse estar acostumada com o potencial de Snape. – E não acredito que deixaram você dar essa poção à ela, uma coisa tão suspeita, quando tinha sido você à envenená-la, em primeiro lugar.

– Eu dei a poção à ela escondido, obviamente. – uma sombra insuspeita de sorriso pairou por seu rosto. Snape estava longe, mas logo percebeu o desvio e substituiu a expressão pela carranca habitual. – foi uma insanidade. Eu poderia tê-la matado.

– Mas a salvou. – ela pontuou num tom de estranhamento – Me espanta ninguém ter escrito uma lenda trouxa com a sua história.

– Não me aprecia a sua zombaria, Srta. Black.

Então tinham voltado ao tratamento formal. Bervely afastou a cena de um Snape jovem e apaixonado buscando poções impossíveis para salvar a vida da sua amada, porque toda a ideia era perturbadora e surreal. Não tinha noção de porque o professor estava lhe contado aqueles fatos muitos pessoais de sua vida, a não ser porque ela lhe perguntara.

– Bem, ela ficou viva, não é? – disse por fim, amargamente – Nenhum dano feito. Você não é um assassino.

Uma sombra passou pelo olhar dele, mas nada disse. Bervely aproveitou que ele se movera de perto da porta para sair dali.

– Srta. Black, está desperdiçando um futuro brilhante em razão de uma culpa que não é sua.

– Você não entende. – ela engoliu em seco – Eu não posso voltar.

Ele a assistiu sair a passos lentos. Bervely não ouviu Snape murmurar, visto que ele falava para si mesmo.

– Não pode voltar ainda – ele disse, a expressão mais fechada do que nunca, ao vê-la deixar a sala – Mas vai, cedo ou tarde.

– BD –

Três dias tinham se passado desde a segunda feira após a páscoa, e Bervely viu a si mesma atravessando os terrenos da escola após a aula de Trato das Criaturas Mágicas. Passara por uma ferrenha briga interior nestes últimos dias, parte dela em urgência para recuperar o que era seu e a outra, orgulhosa e irredutível, brigando contra a primeira.

Seu orgulho perdeu, e estava dolorido e amuado enquanto descia a colina rumo ao campo de quadribol no fim da tarde de quinta. Assim que avistou as balizas o sol tocou o horizonte, aprofundando os tons vermelhos, alaranjados e rosados de um por do sol tão bonito que era quase ofensivo. Os sete jogadores de quadribol da casa dos leões estavam no ar e, tingidos do dourado crepuscular, pareciam feitos de ouro. Ela não era especialmente afeita ao quadribol – não tinha muita paciência com o jogo, na verdade – mas precisou admitir que eles eram bons, como um time. Eles sabiam o que estavam fazendo, se moviam em harmonia, como as abelhas de uma mesma colmeia a armar uma dança.

Se sentou numa das arquibancadas, e os assistiu treinar sabendo que ia arranjar problemas se fosse vista ali; espiões de outro time, em especial da sonserina, era um assunto levado às últimas consequências. Por precaução, tirou a gravata verde e prata e as vestes (estava um dia úmido, mas não tão frio), ficando apenas com a saia escolar e a camiseta, que eram iguais para todos os alunos. Se algum deles a visse lá de cima, não ia saber a qual casa pertencia.

Um dos jogadores, o menor e mais franzino, fez um arco no céu que parecia impossível, e capturou o pomo (Potter, ela lembrou-se. Potter era o apanhador da Grifinória, como Draco resmungara incessantemente no último verão que ela passara na mansão Malfoy). O resto do time parou para aplaudir, e Wood saiu das balizas e foi voando até ele, bagunçando o cabelo já caótico do garoto.

Depois ele apitou, e começaram outra partida. Bervely passou a observar Wood voando; ele era hábil, adivinhava o percurso da bola e estava sempre onde devia. Os jogadores não conseguiam golear um dos aros sob a sua guarda, apesar de serem três; seu corpo esguio se esticava na vassoura à cada captura da bola vermelha, sem fazer grande esforço.


Num certo momento, uma das artilheiras conseguiu passar a goles no aro, e Bervely, que se distraíra por um momento, procurou o goleiro com os olhos. O achou voando em zigue-zangue, um tanto atordoado, segurando a parte de trás da cabeça.

A mesma garota que acertou o gol veio atrás dele, e embora Bervely não pudesse ouvir, o viu apontar para a bola preta que acatava os jogadores.

– WEASLEY, O BALAÇO ACERTOU O CAPITÃO, ONDE DIABOS ESTÁ VOCÊ?

– EU ACHO QUE ENCONTREI UM ESPIÃO! – gritou uma voz, tão perto de Bervely que ela pulou uns quatro centímetros. Absolutamente não vira o ruivo pousar perto dela na arquibancada, e logo reconheceu um dos gêmeos lhe olhando acusadoramente. – Saia das sombras, criatura vil.

Ela rolou os olhos e se levantou.

– Não estou espionando, idiota.

Fred a reconheceu, piscando.

– Black? Pela meia suja de Merlin, pensei que fosse melhor do que isso. Não, espera. – ele reavaliou – Não, não pensei não. Cogumelos venenosos não negam a sua natureza.

Ela sabia que a rivalidade entre as casas ficava mais exacerbada em véspera de jogo, então não se ofendeu. Lá embaixo, Wood apitou, obviamente querendo saber quem estava espionando seu treino.

– Não ligo se é amiga de Tonks, vou ter que delatar você.

– Vá em frente. – ela deu de ombros.

Quando o Weasley montou em sua vassoura e foi passar a informação para o capitão, ela viu Wood franzir à distância, depois dar uma olhada na sua direção e falar alguma coisa. O time pareceu resistente, e precisou de mais dois apitos para voltarem às posições. Mesmo irritada por ter sido flagrada, Bervely sorriu altivamente. Era interessante pensar que Wood não lhe considerava uma ameaça.

– BD –

– Não me diga que conseguiu outra detenção aqui. Você não consegue ficar sem se meter em problemas? – o capitão falou secamente, sem olhar na sua direção, quando Bervely entrou no vestiário mais tarde. O resto do time tinha ido embora (ela esperara até que eles fossem), e o sextanista ficou para trás a fim de organizar o material usado – vassouras velhas e baús com as bolas encantadas. Ele ainda usava seu uniforme de quadribol, todo o aparato que incluía os protetores de couro claro para braços, peito, canelas e pulsos, por cima da calça e casaco de listras vermelhas e douradas. Era uma visão e tanto, na verdade, o jeito com que as peças abraçavam seu corpo e lhe davam um ar indefectível.

Mas ela não fora ali para admirar Wood. Imaginara que ele estivesse azedo depois da sua despedida no sábado, e era bom que estivesse; pretendia ser breve.


– Você tem algo que me pertence, só quero que devolva.

Ele a considerou por um momento, os olhos um tanto estreitos, depois tirou algo do bolso.

– Você quer dizer, isso? Essa tira de couro velha e estranha?

– Você esteve carregando com você esse tempo todo? – estranhou.

– Pensei em jogar fora. – disse, dando de ombros. – Mas ai eu ia estragar a sua desculpa para me procurar.

Ela se irritara com a mera menção de jogar a coleira fora, e arrancou a peça da mão dele num movimento hábil.

– Não é uma desculpa, Wood. A não ser que seja a sua, para me fazer vir atrás de você, e por isso não tenha me devolvido no sábado.

– Eu não esqueci de entregar de propósito, Black. Da mesma forma que você só esqueceu porque o braço onde a usa estava todo enfaixado. – ele desceu os olhos para o braço dela, mas estava é claro coberto pela manga da blusa.

– Tanto faz. Obrigada por guardar e coisa e tal. Boa noite.

Se virou para ir embora, enfiando a coleira no bolso da mochila, mas a voz aborrecida dele a alcançou quando já estava na porta.

– Você é um tanto ingrata, sabia.

Bervely suspirou pesadamente.


– Não é a primeira vez que eu ouço isso, e de todas as pessoas que tem me dito, você é a que menos me preocupa no momento.

– É, tanto faz, mas sabe – ele se precipitou até onde ela estava, e barrou a porta. Bervely se perguntou vagamente qual era a de todo mundo em lhe encurralar aquela semana. – Eu andei pensando no que eu tinha feito de errado no sábado, para você me dispensar daquela maneira. Eu pensei um bocado, na verdade. E sabe a que conclusão eu cheguei?

– Não poderia me importar menos.

Nada. Eu não fiz nada de errado. Eu te atendi quando você precisou, fui até Azkaban com você quando a grande maioria da comunidade bruxa preferiria entregar a própria varinha a te acompanhar, e depois eu ainda cuidei de você, na volta. Mesmo assim, você foi grossa e injusta comigo.

– É, Wood – ela deixou cair suas pálpebras, um tanto cansada – É assim que eu sou. Ingrata e injusta. Além de perigosa e maluca, e com origens maternas e paternas duvidosas, mas isso você já sabia. Eu sou um grande inconveniente ambulante, como eu lhe disse no citado sábado. Você faz bem em se afastar de mim.

– Nós temos um problema nesse raciocínio.

– Que problema? – perguntou, impaciente.

– Eu não quero me afastar de você. Por algum motivo intangível até mesmo para mim, eu não me sinto nem um pouco inclinado a me afastar. Você vê, eu gostaria, porque eu estou muito puto com você nesse momento. Quando eu vi você na arquibancada há pouco, depois de toda merda que você me disse no sábado, eu quis pessoalmente rebater um balaço em você: isso é o tanto que estou zangado agora, porque eu não sou uma pessoa violenta.

Ela observou com perene surpresa o discurso sem fôlego dele.

– Você terminou? – disse por fim, quando pareceu que o olhar fixo e pregado dele ia engolí-la.

– Na verdade não – Wood retrucou – tem mais, coisas que eu deveria ter dito no sábado, ao invés de ir embora calado. Eu não dou a mínima pra se você é filha de dois criminosos em Azkaban, nem se você tem uma tatuagem estranha em seu braço, ou reage aos dementadores machucando a si mesma. Isso não me assusta, nem, veja bem, me deixa com pena de você. Eu não te chamei pra minha casa por compaixão.

– Wood…

– Eu te chamei para a minha casa porque queria você lá. Não sei porque diabo de razão eu queria, ok? Você é uma garota arrogante, sonserina e prepotente, que acha que está sempre certa e não admite a ajuda de outras pessoas, mesmo quando obviamente precisa. Você não sabe dizer obrigada, e nunca admite que está errada. Você não gosta de voar! Tem noção do que isso significa? Que tipo de pessoa não gosta de voar?

Wood.

Me deixe falar, que eu estou chegando na parte importante.

– Eu pensei que me ofender fosse a parte importante.

– Não, tem uma mais importante. Há todas essas coisas sobre você, das quais eu estou perfeitamente ciente, a maioria delas há algum tempo, já. E elas me irritam, especialmente as últimas, toda atitude sonserina dona do mundo insuportável. Mas ai, toda vez que eu olho para você, não é nada disso que eu vejo.

– Ah, não?

– Não. Eu olho para você, parada aí toda intragável com seu nariz empinado e olhar superior, e eu só consigo pensar na chance que eu perdi.

– A chance que perdeu? Do que é que você está falando? – ela nunca tivera paciência para rodeios, e houve um alerta no fundo da sua cabeça quanto a ele estar invadindo seu espaço pessoal.

– Aquele dia no trem, que eu esperei demais. E perdi essa chance.

Dessa vez ele avançou rápido, tanto que Bervely nem teve a chance de recuar. Num segundo ele a puxou, uma mão em seu ombro, outra em sua cintura, sem grande delicadeza.

E a beijou. Primeiro lábios e depois língua, exigindo passagem para a sua boca de forma autoritária, bem capitanesca na verdade. Quando o coração dela voltou a bater (tinha parado por um segundo, devido ao choque), ela lhe deu passagem, sem querer pensar no que aquilo significava. A língua quente encontrou a sua e fez uma carícia, e depois outra; suas pernas amoleceram ligeiramente, mas Wood segurava firme. Bervely não se lembrava mais o que era respirar.

Suas mãos, como se tivessem vida própria, se ergueram e envolveram-no em torno do pescoço. Ele aproveitou o sinal de incentivo para apertá-la contra si ainda mais forte, ao mesmo tempo que os guiava até a parede mais próxima, onde a pressionou sem reservas. Seu corpo grande de goleiro, com todo aquele uniforme poderoso, fez contato com o dela, e Bervely se sentiu derreter internamente.

Deveria ser proibido uma coisa tão errada ser tão boa, a parte dela que tinha juízo pensou. As outras partes estavam pensando coisas ainda mais comprometedoras.

Wood se afastou para retomar o fôlego. Suas pupilas estavam dilatadas, deixando o olhar ainda mais escuro, e havia um rosado em suas bochechas. Bervely odiou-se por achá-lo adorável naquele momento, mas não havia outra classificação ao alcance.

– Eu sabia que não ia me arrepender disso – suspirou ele, rondando a boca da sonserina com a sua, preparando o próximo ataque.

– Dê tempo ao tempo – lhe recomendou, estranhamente ofegante.

– Pare de falar, Rose. – ele rosnou um pouco feroz, apertando sua cintura em alerta. Arrepios correram por sua espinha, irradiando pelo resto do corpo.

– Eu? Você foi o senhor discurso hoje. Você deve saber que sonserina não é uma ofensa, à propósito.

– Cala a boca, Rose. – o capitão advertiu, perigosamente. Quando ela abriu a boca para protestar o seu tom (“Não aceito ordens de grifinórios”), ele atacou de novo. Persuasivo. Exigente. Ela esqueceu-se do que ia dizer na mesma hora.

Aparentemente, ia ter que parar de usar “grifinório” como uma ofensa ela mesma, a contar de agora.


– BD –


– Aqui diz que você deve se concentrar numa memória feliz. – Tonks leu com atenção, de um livro tão antigo que ia se esfacelar em sua mão a qualquer momento. – O feitiço é Expecto Patronum. Se fizer certo, é suposto que saia pelo menos uma fumaça prateada da sua varinha.

Ambas tinham pesquisado sobre o feitiço por uma semana inteira antes de arriscar praticá-lo, mas aparentemente não havia porque ter tanto receio: o encantamento em si era tão complexo que a maioria das pessoas não conseguia qualquer efeito nas primeiras vezes.

Elas arranjaram a sala de treino afastando tudo para perto da parede, e Tonks transfigurara algumas cadeiras em “dementadores”, mas eles não pareciam nada assustadores; ficavam pairando ali como lençóis pretos meio desorientados, muito menos ameaçadores que patéticos.

– Aqui no livro diz que que costumava-se usar alguns poltergeists aprisionados para o treino. Acha que conseguimos convencer Pirraça a nos ajudar?

– Eu gostaria de ver você tentar – disse Bervely com um sorriso torto.

Não tinha dito à Tonks o seu real motivo para estar interessada naquele feitiço; que queria ter algo com que se defender, da próxima vez que se visse frente à frente com as criaturas asquerosas que guardavam Azkaban. Também não lhe dissera que, caso fosse mais do que medíocre em Transfiguração, poderia reproduzir as coisas de maneira mais fiel, vez que estivera tão perto deles na véspera de páscoa.


A preocupava, no entanto, a memória feliz, o que exatamente isso significava. Conseguia pensar em diversas memórias da sua infância que poderiam ser felizes, aquelas junto aos primos, e em Neverland, mas achava que estas não iam servir, já que sempre traziam consigo a consciência de tudo que ela perdera com a morte de Hector.

Também havia a sua memória feliz que envolvia o Homem do Cachorro (Sirius Black, se corrigiu mentalmente), mas também não estava segura de sua eficácia, devido à todas as questões sobre aquele homem, que persistiam na ronda da sua mente. Enquanto não soubesse quem Black era de verdade – o bruxo grandioso e apaixonante da sorveteria, ou o assassino, traidor e comensal da morte, ela estava colocando aquela lembrança numa redoma de incerteza.

– Qual memória está usando? – perguntou à Tonks que se preparava para lançar o feitiço, tendo treinado o movimento do pulso várias vezes. A garota a olhou surpresa, provavelmente se admirando de Bervely fazer uma pergunta tão pessoal. Não que ela ligasse de responder, era a sonserina que raramente as fazia.

– O último Natal. – quando Bevy franziu, a lufa sentiu a necessidade de se defender – O quê? Foi legal pra mim! Estávamos em família, e tudo estava bem. Eu sei que você e mamãe tiveram aquela pequena briga, mas eu estou falando de antes.

Bervely deu de ombros, fazendo um sinal para que ela continuasse. Era estranho como Tonks podia fazer qualquer leitura positiva do último natal, quando tudo que ela se lembrava era de dor e incerteza, angustia e pesadelos.

Nada saiu da varinha de olmo da garota. Ela suspirou conformada.

– Ok, sua vez.

A Black mordeu seu lábio, pensando em usar o seu último aniversário. Talvez não feliz, mas certamente fora divertido. Parecia ter se passado um longo tempo desde que se sentara na sala do chalé em companhias tão inusitadas quando os gêmeos Weasley, Cedrico Diggory e Sia Rockwood, jogando Snap Explosivo, e depois o caos completo de ter seu bolo explodido pelos fogos filibusteiro.

Expecto Patronum!

Nada aconteceu. Elas continuaram tentando uma e outra vez lançar o feitiço e a tarde foi caindo, sem grandes avanços. As cadeiras dementadas flutuantes agora planavam baixo e mais lentamente ainda, parecendo de saco cheio.

– Não estamos usando memórias felizes o bastante. – Tonks resmungou, frustrada. Para uma lufa-lufa, era de se supor que ela fosse mais paciente. – Já sei, tente a festa do Halloween. Foi um dia feliz, não foi? Você se divertiu, certo?

Bervely rememorou o encontro com “Victor”, e as horas que tinham passado conversando, depois de salvar Tara em cima da pedreira e então terminar a noite (que já era dia), nos braços de Hector. O da sua imaginação, mais ainda assim. Sem falar que pensar em seu acompanhante da noite lhe deu um apertozinho no estômago.

– Bom, eu sei que você se divertiu – zombou, tirando o foco de si – Com a sua língua dentro da boca de Hugo a noite toda.

– É – ela disse sonhadora, e sem nenhum constrangimento. – Mas já tentei usar essa, e nada. Acho que foi mais proveitosa do que feliz, se é que me entende.

– Me poupe dos detalhes – pediu, fazendo uma careta. Tonks veio se sentar ao seu lado na mesa de treino, dando o dia como encerrado e começando a destransfigurar as cadeiras. – E você, já descobriu quem é Victor?

Ela pensou em mentir. Mas com que propósito? Tonks era boa em captar aquele tipo de coisa.

– Já.

Obviamente a resposta não a satisfez. A lufa deu um salto interessado para mais perto, afastando o cabelo (curto e espetado, lilás e cinza) do rosto.

– E aííííí?

Bervely lhe olhou com condescendência.

– Tonks, eu sei que você sabe quem é. Não tem a menor condição do seu amigo grifinório não ter lhe dito, a essa altura.

Ela deu um sorriso constrangido.

– Desculpe, eu prometi não contar. Mas e então? – o tom dela era pura empolgação – Vocês se encontraram? Você gostou dele, não foi? Eu lembro que você se divertiu.

Bervely a olhou como se a garota fosse (e ela era) louca.

– Ele é um grifinório. – grunhiu, tentando implantar lógica na cabeça avoada da lufana – E ele é insuportável.

– Oh, pela bunda cabeluda de Merlin! – ela exclamou, pescando no ar as pistas – Você está considerando!

– Você ouviu a parte que ele é insuportável? E grifinório?

– Me conte agora o que aconteceu! – ela exigiu, ignorando os protestos vãos de Bervely – Porque eu sei que algo aconteceu! Está estampado em sua cara que aconteceu!

– Não tem nada em minha cara!

E o resto da noite foi perdida, visto que Tonks continuou atazanando a Black para lhe contar o que acontecera, e seguiu assim até precisarem se separar na hora do jantar. A lufana saiu cantarolando baixinho “Bervely e Oliver sentados sob a arvore”, de forma tão irritante que Bervely julgou ser capaz de usar a metamorfomaga como alvo para um Expecto Patronum, num lugar de algum poltergeist.

– BD –


Sexta foi mais um dia que ela acordou e percebeu que dormira a noite inteira sem nenhum pesadelo.
Nenhuma psicopata tentando barganhar sua alma.
Ou lhe chamando de indigna e traidora.


Nenhuma dor em seu braço.

Tirando o referido braço de debaixo das cobertas, afastou a coleira de couro e olhou com atenção para a rosa. Continuava do mesmo jeito que há quatro dias, quando Bervely finalmente tomara coragem de retirar as bandagens feitas em Azkaban. Estava, honestamente, com medo do que veria.

E a rosa não mais estivesse lá?

Mas estava. Fechada em botão, encolhida, com o caule enrolado em torno de si, ocupando menos espaço do que jamais vira. Adormecida, Bervely achava. Era difícil entender porque: seu palpite era de que Bellatrix desistira dela por completo após a sua conversa em Azkaban, a considerava muito ingrata até para ter sua mente invadida, e resolvera lhe deixar em paz.

Era bom demais para ser verdade, mas a ideia lhe apaziguava um pouco.

As cicatrizes, no entanto, eram bem assustadoras. Quatro linhas verticais em seu antebraço, da dobra do seu cotovelo até o pulso, sendo as três primeiras mais fortes e a quarta, apenas um risco. Suas unhas tinham feito um grande estrago, e suspeitava que a curandeira de Azkaban nada fizera para prevenir cicatrizes. Estava curando, mas talvez não pudesse se livrar das marcas.

Ou talvez pudesse. Se toda a coisa da metamorfomagia vingasse, podia escondê-las eventualmente, certo? Isso tinha acontecido naturalmente com as outras cicatrizes, talvez nem precisasse se esforçar. Resolvendo não se preocupar, planejava levantar para mais um dia quando uma coruja bateu à janela.

Ela abriu a porta para o exemplar cinza claro e simpático. Ao invés de bicar seus dedos, a corujinha esfregou a cabeça em sua mão, como se fosse um gato, quando Bervely lhe deu um salgadinho roubado do criado mudo de Sia.

Ela desenrolou o bilhete.

Pode me encontrar no campo hoje, após as aulas?


Victor.

Suspirou para o pergaminho. Não via o capitão da Grifinória desde o fatídico dia no vestiário, porque as coisas tinham ficado um pouco corridas para ambos. Wood estava treinando cada vez até mais tarde, obcecado com o jogo, e Bervely estava fazendo turno duplo com as Mandrágoras, que estavam quase prontas. Mas o tempo lhe dera clareza, então ela pegou uma pena da sua gaveta e rabiscou no verso da carta.

Podemos. Na verdade, precisamos mesmo ter uma conversa.

A coruja levou a sua resposta e Bervely foi tomar banho, se achando sensata e madura. Algumas coisas, afinal de contas, precisavam ser manejadas da maneira mais lógica.

– BD –

O dia passou lento, mas terminou rápido demais, se é que isso fazia sentido. Bervely fechou os livros de Transfiguração e fez o caminho para o campo de quadribol, pensando primeiro na qualidade do seu feitiço glamour (nada decepcionante, se contar com as suas experiências prévias em transfiguração, mas também não muito confiável, visto que a sua metamorfomagia poderia estar inadvertidamente ajudando), e depois, quando uma brisa fria soprou seu rosto, o pensamento voou para o capitão do time da casa vermelha e dourada.

Ele aguardava no lugar onde normalmente aconteciam os encontros do Clube de Voo, perto dos bancos de reserva, e já vestia o uniforme de quadribol completo. Wood provavelmente sabia o quanto ficava bem dentro aquilo, Bervely pensou, já que o usava tanto quanto podia.

Quando a viu, deu um sorriso que pretendia ser luminoso, mas foi contido no último minuto. Outra pessoa estava com ele.

– Eu te disse que ela vinha – ele cantou vitorioso para a sua companhia.

– Tudo bem, dessa vez você ganhou. – disse a menina de uniforme azul e bronze.

– Apostando com crianças, Wood? Você não tem nenhuma vergonha?

– Estamos apostando gols e torcidas.

– Como é? – ela franziu para a garotinha sorridente que já não via ha algum tempo, e não fazia ideia do que estava fazendo ali com o capitão.

– É simples. Se eu ganhar, ele deixa passar o primeiro gol de propósito amanhã, e o dedica a mim. Se ele ganhar, eu preciso torcer para a grifinória amanhã, vestida de vermelho e dourado.

– Eu já ganhei – ele lhe lembrou, dando um peteleco no cocuruto dela – pode tratar de ir transfigurando o seu cachecol e os seus pompons, garotinha.

Johanne rolou os olhos, fazendo uma careta, e Bervely também rolou os seus, por toda aquela baboseira de quadribol que tinha acabado de ouvir.

– Wood – ela olhou significativamente para o capitão, que ainda sorria – o que Loren está fazendo aqui, mesmo?

– Ela pediu para assistir o último treino – ele deu de ombros – e chegou mais cedo.

– Ah, então uma corvinal pode assistir seu treino, mas quando é uma sonserina, há todo um drama de espionagem com que lidar.

Ele deu risada, ao mesmo tempo que Loren saltou animada.

– Você veio assistir o treino? – ela perguntou à Bervely, e então voltou-se para Wood, convencida – O que foi que eu te disse?

Ele a ignorou de propósito.

– Ela pode assistir, porque à essa altura não há nada que poderia contar para o time rival, nesse caso a lufa-lufa, que os levasse a mudar qualquer coisa de hoje para amanhã. E se ela deixar escapar o quão bons nos somos, isso só ajudará a deixá-los com medo. E eu deixei você assistir ao treino aquele dia porque não importa o que você visse, não ia conseguir explicar depois, e além do mais, não vejo você delatando qualquer coisa para a lufa-lufa, entre todas as casas.

Ela se sentiu ultrajada, mas no fim das contas ele estava certo. Johanne saltou do banco com seu cabelo longo sacudindo na brisa.

– Eu vou esperar nas arquibancadas, vocês devem estar querendo ficar sozinhos. Boa sorte, Ol. Te vejo por aí, monitora Black.

Quando a menina saiu, saltitante e alegre, Bervely fuzilou Wood com seu olhar mortal mais sonserino.

– O que você contou pra ela?

– Nada, juro. Mas ela pega as coisas no ar, essa menina. É espantoso.

– Fique com o bico fechado, Wood, se sabe o que é bom para você.

O sorriso dele aumentou.

– Ah, as ameaças! Nada como uma boa ameaça no fim da tarde para ajudar na digestão. – ele parou de sorrir quando percebeu que ela estava perdendo a paciência. – Eu falo sério, não disse nada para Johanne. Mas então, você disse na carta que precisamos ter uma conversa? Por que eu sinto que isso não vai ser bom? Ninguém avisa antes quando quer ter uma conversa boa.

Ela olhou ao redor, procurando onde pudessem falar mais privadamente. Tudo que não queria era o time da Grifinória chegando e os vendo juntos mais uma vez, ou iam começar a pensar coisas. Dali para alguém espalhar inverdades a respeito deles dois para o resto da escola era um pulo.

Havia uma árvore próxima da borda do campo, e ela puxou Wood para trás do seu tronco, onde ficariam fora das vistas de quem vinha do castelo.

– Hey, hey hey, eu ainda estou relativamente zangado com você, não vem me puxando assim para cantos escuros só porque eu sou irresistível.

– Já chega de brincadeira, Wood. – mandou, fechando a cara – Eu só vim avisar que isso não vai, obviamente, dar certo. Seja lá o que isso for. Isso é completamente ilógico e sem propósito. Quero dizer, olha pra a gente. Uma receita pro desastre.

– Por que eu sou só um garoto que mora com trouxas, e não sabe quando está sendo usado por uma garota? – repetiu suas palavras, e também não estava mais sorrindo.

– E porque eu não… eu não… faço essas coisas.

Uma sobrancelha dele se ergueu em arco.

– Essas coisas o que, beijar? Me pareceu que você fazia, no último sábado lá nos vestiários.

Ela sentiu as bochechas esquentarem, mas se manteve firme.

– Aquilo que aconteceu em Londres… vai acontecer de novo. Eu não vou deixar de ser o que eu sou, então você sempre vai estar me odiando no final do dia.

– Você está pretendendo muitas excursões para Azkaban nos próximos dias? Porque foi isso que aconteceu em Londres. Ambos estávamos assustados e cansados, cheios de energia negativa de criaturas das trevas, e você passou por um mau bocado entre não te deixarem ver seu pai e te deixarem ver sua mãe.

Ela silvou, impaciente, olhando para o lado. Wood era cabeça dura. Era o ser mais cabeça dura do universo.

– Como está seu braço? – o ouviu perguntar de repente.

– Eu ainda o tenho. – respondeu com sequidão. – Então acho que podia ser pior.

– Posso ver?

Ela resistiu em deixá-lo, mas logo ele tinha pego seu braço esquerdo com uma mão e estava puxando a manga da camiseta para cima com a outra. Sentiu-se estranhamente exposta, como se estivesse nua, as cicatrizes mais claras que o resto da pele, no sol que começava a se por. Ele traçou um dos arranhões com os dedos, e o lugar, ainda sensível, formigou. Bervely sentiu um choque elétrico pela coluna com o contato inesperado.

– Eu sinto muito. – ele disse baixo, e depois: – Não como “eu sinto dó de você por isso”. Eu apenas sinto muito, acho que vai ficar uma marca.

– Talvez – respondeu, desconfortável. Ele afastou as tiras da coleira para cima, procurando a rosa. O estômago dela embrulhou em antecipação.

– Estava diferente aquele dia. Meio assustadora.

– É porque tinha um bocado de sangue nela.

Ele riu levemente.

– O que é? Alguma coisa… de famílias sangue-puro?

– Você poderia dizer que sim. – afirmou, grata por ele mesmo ter fornecido uma resposta.

– Machuca você?

– Às vezes – viu-se dizendo, surpresa consigo mesma por isso – Só… não agora.

Wood assentiu, liberando seu braço e encontrando seus olhos. No dourado do sol, ele parecia meio feito de ouro, com olhos de zircônio.

– Acho que você estava tentando me dar um fora. – disse baixinho, a olhando intensamente. Bervely sentia presa com um gancho.

– É. Eu estava. Você me interrompeu.

– Sinto muito. Quer ir em frente?

– Eu…

Ele se inclinou e capturou seus lábios. A pele dela se arrepiou inteira no mesmo segundo; braços e nuca e até as pernas. Quando o capitão pegou nos dois lados da sua cintura e a trouxe para si, enrolando a sua língua na dela, a mente de Bervely nublou. Todos os argumentos reunidos sensatamente ao longo da semana perderam o sentido.

Não podia ser tão bom se era tão errado.

Ele se afastou, antes do que ela teria considerado necessário. Havia um brilho divertido em seus olhos, apesar de estar sério quando disse:

– Eu preciso ir, tenho treino agora. Fica pra a próxima vez, esse fora?

Bervely estreitou os olhos para todo aquele deboche, mas ele lhe deu um beijo leve no canto da boca depois disso, igual ao que tinha lhe roubado no dia do Halloween.

E foi embora.

– BD –

Hogwarts ficava insuportável em dia de jogo. Essa era a opinião geral de Bervely, que não aguentava a euforia exagerada que envolvia os colegas naquelas ocasiões, dando a impressão de que o evento era algo muito maior do que quatorze estudantes voando em vassouras e perseguindo bolas sob as regras mais loucas que se pode inventar.

Ela acordou mais tarde de propósito, já que a aula de aparatação fora cancelada em razão do jogo. Também não haveria treino com Tonks, que decidiu acompanhar a partida e torcer pela sua casa. Quando Bervely se levantou, ela achou o quarto vazio e foi bocejando para o banheiro, mas antes de pisar lá dentro alguém enfiou a cara pela porta.

– Tara? Ah, Black, é você. – reconheceu a loira com desprezo.

– É, eu durmo aqui, lembra? A sete passos da sua cama. E por que raios Holmes estaria aqui?

– Eu não sei, já a procurei por todo canto, menos nos dormitórios.

– Já te ocorreu que ela pode estar se escondendo de você, Olga? Aceite e siga em frente, até os piores relacionamentos precisam de um fim.

– Vai pro inferno, Black. – a garota xingou e bateu a porta. Com um suspiro bem humorado, Bervely entrou no banheiro e encheu a banheira de água quente e bolhas. Irritar Greengrass era um jeito bem satisfatório de começar o sábado.

~ ~


Encontrou Pacey e Sia na mesa do café da manhã, comendo os últimos bolinhos de arroz antes de se reunir ao restante da escola nas arquibancadas. As meninas não estavam torcendo para nenhum dos times aquele dia, mas aparentemente quadribol era uma atividade social imperdível para a boa manutenção do status no castelo.

– O que você está fazendo? – Sia arregalou os olhos quando percebeu que Bervely as seguia para o campo.

– Andando. Pensei que ainda era permitido.

– Você sabe para onde estamos indo, certo? – Pacey quis se certificar.

– Parem de fazer tanto alarde. Eu só vou assistir a droga do jogo, porque não tem mais nada pra fazer nesse castelo hoje.

– Mas você nunca assiste jogo! – Sia guinchou – pare de querer mudar as coisas! Primeiro toda amiga de Holmes e agora isso, você me deixa desorientada, eu quero o meu mundo exatamente como estava, Black!

– Bervely está amiga de Holmes agora? – Pacey colocou a mão no peito, como se estivesse checando o estado do coração após a notícia – Como isso aconteceu? Ela tomou uma poção de mudança de personalidade?

– Ela cansou de Olga – Sia disse numa voz de falsete irritante – e aparentemente Bervely era a próxima da fila.

– Eu não estou amiguinha de Tara – protestou, exasperada – e nem sou segunda em fila nenhuma! Nós já nos conhecíamos antes mesmo de vir para Hogwarts!

– Ela a chamou de Tara! Você ouviu isso, Pacey? Acho que vamos ter que amarrá-la naquela cadeira de tortura das masmorras e lhe submeter à feitiços de choque até ela recuperar o bom senso!

– Pela graça de Slytherin, vocês duas – a Black perdeu a sua paciência, adiantando o passo – me procurem quando a sessão de drama tiver chegado ao fim, se não se importam.

Acabou entrando na arquibancada antes delas, mas já estava quase cheia. Havia um lugar perto de um monte de segundanistas, entre eles, Draco. No momento em que a viu, ele desviou o olhar com uma careta e puxou uma amiga com cara de porco para preencher o espaço.

Bervely rolou os olhos. Já fazia um bom tempo que ela e o primo eram completos estranhos convivendo na mesma casa, e não se via inclinada a mudar isso. Olhar para ele agora lhe fazia lembrar imediatamente de Lucius Malfoy, o que por sua vez lhe ocasionava espasmos de puro rancor.

Sentou num espaço vago mais à frente, perto de um setimanista chamado Corey que mal notou sua presença, e se concentrou no campo. Passou seu olhos pela arquibancada da corvinal e sorriu: havia um único ponto lá em vermelho e dourado, o cabelo preto em tranças, um pompom em cada mão. Eles tinham mesmo feito a estúpida aposta.

Os times finalmente entraram em campo sob aplausos estrondosos. Wood foi o primeiro a subir em sua vassoura, para um vôo de aquecimento em volta das balizas, e ela acompanhou a sua figura à olhos estreitos; Madame Hooch lançou as bolas. Os jogadores da Lufa-Lufa, que jogavam de amarelo-canário, estavam amontoados num bolinho, discutindo táticas de última hora.


Bervely viu Potter fazer um movimento pra montar na própria vassoura (que não era uma das velhas da escola, mas uma reluzente e bem polida), quando a Prof. McGonnagal invadiu o campo e veio correndo até o centro do gramado, um enorme megafone púrpura na mão.

Ela não tinha qualquer experiência prévia com a rotina do quadribol, mas algo parecia errado. Suas suspeitas se confirmaram quando a professora falou.


— O jogo foi cancelado.


Ouviram-se vaias e gritos.


Wood, arrasado, pousou e correu para a professora sem desmontar da vassoura, de um jeito não exatamente elegante.

— Mas, professora! — gritou, audível até dali de cima — Temos que jogar, a taça, Grifinória...

McGonagall não lhe deu atenção e continuou a falar pelo megafone:

— Todos os alunos devem se dirigir às salas comunais de suas casas, onde os diretores das casas darão maiores informações. O mais rápido que puderem, por favor!


Bervely exasperou-se. Poderia ter ficado em sua cama ao invés de toda a mobilização para ver o maldito jogo.

Não era a toa que não gostava de quadribol. Até quando não acontecia, era irritante.

– BD –

– Todos os alunos devem voltar à sala comunal de suas casas até as seis horas da tarde. Nenhum aluno ouse sair depois dessa hora. Um professor os acompanhará a cada aula. Nenhum aluno deve usar o banheiro a não ser escoltado por um professor. Todos os treinos e jogos de Quadribol estão adiados. Não haverá mais atividades noturnas. – a voz de Snape reverberava pelo salão, enquanto ele lia as novas diretrizes de segurança da escola. Bervely ouvira dizer que mais alunos tinham sido petrificados, a amiga de Potter da Grifinória e a monitora da Corvinal. Os alunos tinham se calado assim que Snape entrara no salão comunal, porque ele claramente estava fumegando – E pela graça de Merlin, ALGUEM VIU A SRTA. HOLMES?

– Não desde a manhã. – Greengrass deu com a língua nos dentes. Snape fechou os seus punhos. Holmes, como monitora chefe, deveria comparecer a todos os jogos de quadribol para resolver qualquer problema que acontecesse nas arquibancadas. Ela não estivera presente para guiar os estudantes da casa todos de volta ao salão comunal, e o próprio Snape precisara assumir a tarefa.

Isso não o deixou nada feliz.

– Se vocês por acaso a virem – ele prosseguiu, tão gelado quanto ameaçador, como se cada um ali tivesse culpa particular pelo sumiço da monitora – Digam a ela que pode vir me entregar aquele maldito distintivo imediatamente. Black – chamou, e Bervely virou o pescoço com alarme – Vigie a porta. Não deixe que ninguém saia. Se alguém tentar, você está autorizada a impedir com magia. Entendeu?

– Sim. – acrescentou, pega completamente desprevenida pela atribuição de responsabilidade. – Sim, senhor.

Ele saiu do salão comunal com um rodopio da capa, deixando para trás o clima tenso e muito burburinho. Havia tanto a se especular, e os sonserinos amavam a especulação tanto quanto ao oxigênio.

– Ela está tão ferrada. – Pacey cantarolou, sentando-se no sofá ao lado de Bervely. Estava feliz. Sua preocupação com os estudantes petrificados eram mínima, se comparada com a satisfação em ver Tara demitida da monitoria – onde será que se enfiou? Será que é ela quem está atacando os alunos?

Até a própria sonserina achava que era alguém da Sonserina. Era realmente suspeito que ninguém da casa das cobras tivesse sido atacado.

– Eu não acho que–

– Não ouse defender sua amiguinha. – a menina ameaçou, estreitando as sobrancelhas brancas. Quando ela fazia aquilo, seu nariz se franzia junto, e acabava com qualquer efeito ameaçador que pudesse ter almejado. Bervely tentou não rir.

– Vou tomar conta da porta, Pacey. Segura a sua alegria, você está tão despreocupada que daqui a pouco vão achar que o monstro da câmara é seu bicho de estimação.

– BD –

Holmes não voltou até tarde naquela noite. Quando os últimos alunos subiram para o dormitório (por acaso estes foram Draco, e seus capangas Crabbe e Goyle, parecendo decididos à desafiar a persistência de Bervely em cumprir as ordens dadas pelo diretor da casa), ela selou a porta com um feitiço de alarme e achou que já era hora de subir. Se alguém tentasse sair sua varinha avisaria, emitindo faíscas vermelhas.

Caiu no sono no minuto em que seu corpo tocou o colchão, ou assim lhe pareceu. Fora um dia sem muita atividade, mas mentalmente cansativo. Ouvira boatos de que, se os ataques continuassem, Hogwarts poderia ser fechada. A ideia lhe perturbava – para onde iria, se a escola fechasse? Sem se formar, como teria algum dinheiro para sustentar à si mesma até receber sua herança?

As perguntas foram dissolvidas na imagem de um sonho. Aquela ínfima parte que às vezes permanece consciente quando se está sonhando se alarmou, achando que finalmente a rosa acordara, e Bellatrix viera retribuir a visita.

Não precisava ter se preocupado, no entanto. O cenário era um gramado, parecido como que vira nas memórias de Olivia Loren no seu apartamento em Londres. O cão negro estava ali, enorme como ela se lembrava, o pelo luzidio e longo, a cauda abanando no ar. Ele veio gingando até ela e lambeu suas mãos, empurrando o focinho gelado entre seus dedos.

Ela afagou o focinho comprido, se sentindo bem por ele estar ali. Seu pêlo era macio e agradável. O cão deu uma lambida eu seu rosto, quente e pegajosa, mas isso não a irritou. Depois ele se afastou e latiu. Andou mais um pouco, se virou e latiu.

Ela entendeu que ele queria ser seguido, pretendia levá-la à algum lugar. Talvez a uma sorveteria, ela pensou. Ele gostava de sorvete.

– Bervely – uma voz sussurrou, ultrapassando as barreiras protetoras do sonho – Bervely, acorda.

Piscou para o breu do quarto, sem entender, num primeiro momento, o que estava acontecendo. Quando deu por si, um mundo de cabelo com forte cheiro de cereja fazia uma tenda dos dois lados de sua cabeça, e estava olhando diretamente para um rosto inclinado em cima do seu.

– Quê…? Quem… Holmes? – se ergueu tão rápido que pegou a invasora de surpresa, e seus narizes se esbarraram. – O que foi? Aconteceu alguma coisa? É melhor alguém estar morrendo ou no mínimo petrificado para você ter me acordado.

Tara esfregou o nariz, mas um sorrisinho suspeitoso marcou seu rosto.

– Você estava sonhando?

– E daí se eu estivesse?

– Nada. É só que você estava sorrindo. Escuta, Bervely…

– Não, escuta você! – chiou, sussurrando também para não acordar mais ninguém. – Tem noção do quanto está ferrada? Você sabe que dois alunos foram petrificados, e Snape estava procurando você enlouquecido, mas você não estava em lugar nenhum, e ele quer tomar o seu distintivo?

– Snape acha que eu petrifiquei dois alunos?

– Não! Ele só queria que estivesse aqui para cumprir suas obrigações de monitora-chefe!

– Ah, – ela se aliviou, fazendo um aceno com a mão – Esquece isso. Preciso te pedir uma coisa. E preciso que venha comigo, mas não necessariamente nessa ordem.

– Onde? Você não está entendendo? Hogwarts pode ser fechada! Estamos com toque de recolher, a escola toda.

– Merlin Pai, você é tão certinha às vezes. O monstro da câmera não vai mexer conosco, Bervely, somos sangue puro, lembra-se?

Ela esfregou o rosto. Queria ter certeza que ainda não estava sonhando, ou melhor, não trocara o seu sonho feliz com o cachorro para um pesadelo com a ruiva. Mas quando terminou, Tara ainda estava ali e lhe olhando ansiosamente.

– Tara, me lembre porque raios eu sairia da minha cama no meio da noite para atender um pedido seu, e porque isso não pode esperar até amanhã.

– É urgente, e você me deve uma.

Bervely estava esperando por aquilo. Sonserinos sempre cobravam os seus favores. Romanseks também.

– Você nem cumpriu ele ainda, não pode me cobrar um favor que não foi feito!

– Isso não pode esperar. – ela insistiu. Aquele olhar perturbado que rondara seu rosto no último mês, e que Bervely pegara algumas vezes, estava lá de novo. Exasperou-se consigo mesma por se importar, não havia chance no mundo de aquilo não ser uma enrascada, como bem sabia.

– Tudo bem, Tara. Eu sei que eu vou me arrepender disso, mas… para onde é que precisamos ir, afinal?

(Continua…)

Não está participando do Indignad@s em Ação? Ainda dá tempo!!! Mais informações no grupo da fic no face.

Notas finais
*ouço gritos dos Rolivers enlouquecidos* Alguém mais notou Snape abrindo seu coração?? Também estou chocada. Sobre o Indignad@s em Ação > O segundo desafio já saiu no dia 11/07 (sábado) e vai até 12/07 (domingo), isso mesmo, é relâmpago! Corre lá no grupo pra ver! Tem a ver com VASSOURAS!!