Notas iniciais
Precisei dividir o capítulo em dois porque não nasci com o gene da concisão. A segunda parte sai em breve (talvez domingo, vamos ver isso aí.) Boa leitura!

Durmstrang, 1990.

– Bervely, acorde – um sussurro perturbou a superfície do seu sono tranquilo, e a menina relutou um pouco para então abrir os olhos. O rosto de Tara pairava à sua frente, e a escuridão detrás dela lhe informou que o dia sequer amanhecera.

Aconchegando-se mais aos seus cobertores, murmurou o seu descontentamento e decidiu ignorá-la. Não era por mal, nem de propósito; apenas estava muito cansada. Estavam na semana de exames finais, estes realmente exigentes em Durmstrang, e parecia insanidade levantar ainda mais cedo do que precisaria, dali à poucas horas.

– Bervely, por favor.

Ela suspirou. Um aviso no fundo da sua cabeça sinalizou que se Tara estava pedindo, devia ser importante, e que precisava lhe dar o beneficio da dúvida por todas as vezes que a garota fora acordada acidentalmente em razão dos seus pesadelos.

– O que foi? – perguntou, enquanto sentava-se na cama e coçava os os olhos inchados. A ruivinha sentou em seu colchão e suspirou contrariada.

Ela fez novamente.


Bervely se deu conta, então, a data específica do mês em que estavam. Era junho; mais precisamente, esta era a madrugada de dezoito de junho, o dia em que Tara completava quatorze anos. Naqueles últimos dois anos, nesta mesma época, cenas semelhantes aconteceram.

No seu primeiro ano de escola, Bervely fora despertada por um choro baixo vindo da companheira de dormitório. A primeira vez, das poucas, que veria Tara chorando. No segundo ano, elas esperaram acordadas a coruja chegar, e estavam prontas para a sua vinda.

Nesta terceira, Bervely particularmente pensara que não aconteceria, mas claramente se enganara.

– O que diz?

Tara olhou irritada o pergaminho em sua mão, que aparentemente fora amassado e depois aberto novamente.

– O mesmo de sempre.

– Bem – disse de uma maneira franca. – Então faça o mesmo de sempre. – e quando os olhos verdes a fitaram com incerteza, Bervely rolou os olhos, dura em sua opinião. – Queime.

A ruiva assentiu prontamente, encorajada. Levantou-se da cama e foi jogar o pergaminho no nocte ignis que queimava em sua lareira (tratava-se de um fogo enfeitiçado que não emitia luz, apenas calor). Bervely a assistiu, orgulhosa ao não capitar hesitação em seu movimento. O papel queimou, perturbando o encantamento por um momento, a combustão ascendendo chamas douradas e o cheiro característico enchendo o quarto, mas logo se dissipando. Contra a luz repentina, o cabelo de Tara acendeu como uma chama.

Depois ela voltou para a cama de Bervely, silenciosa. A garota puxou as pernas, lhe dando espaço para sentar-se e encostar à parede.

– Como se sente?

– Melhor.

– Você não precisa dela. – lhe assegurou, prestando atenção em seu rosto, tentando descobrir se falava a verdade. Queria que Tara parasse de sofrer com aquele assedio.

– Eu sei. – disse, rouca.

– Ano que vem, se ela escrever novamente, vou me livrar da carta antes que chegue até você. – prometeu. Tara lhe olhou com surpresa, e depois grata.

– Isso seria bom. Obrigada.

Aquela foi uma das muitas promessas que Bervely fez à Tara Romansek, e nunca cumpriu.


– BD –

Hogwarts, abril de 1993.

Tara a levou até o seu quarto, e antes mesmo que Bervely protestasse, elas atravessaram o aposento até uma outra porta que deu diretamente no fundo das masmorras, onde ficavam uma série de celas cuja existência num castelo construído para fins educacionais era extremamente contraditória. A menina olhava ao redor com assombro as grades enferrujadas e o chão escorregadio de cera de vela, enquanto atravessavam um longo corredor, Tara com a ponta da varinha acesa.

– Mas por que raios tem celas aqui embaixo? – acabou perguntando, a curiosidade levando a melhor.

– Slytherin levava as detenções à sério. – disse Tara à guisa de explicação. Ela continuava brusca e concisa, e Bervely reparou, levava uma mochila pesada nos ombros.À medida que adiantava o passo, o coração da Black disparava levemente, não só pelo esforço, mas pela ansiedade.

– Não me diga que você prendeu alguém aqui embaixo. A não ser que tenha sido a Greengrass, porque nesse caso você tem meu total apoio.

A ruiva não deu mostras que captara o seu humor negro, o que era um mau sinal.

Felizmente elas ultrapassaram o corredor de celas até o fim e todas estavam desocupadas, mas qual foi a surpresa de Bervely ao constar que havia uma porta na outra extremidade e que, ao apresentar o seu distintivo de monitora chefe, a passagem se destrancou e deu acesso ao exterior do castelo.

Uma das carruagens de Hogwarts, que normalmente levava os alunos de Hogsmeade até o castelo em primeiro de setembro, estava ali esperando. O testrálio preto lustroso olhou diretamente para Bervely com sua orbe preta e macabra, e ela desviou o olhar, incomodada.

Como você conseguiu essa carruagem?

– Privilégios de monitora-chefe – disse com pressa – Entra logo, antes que alguém nos veja.

Bervely subiu no coche, com Tara logo atrás. Prontamente elas começaram a se mover, em direção aos portões do castelo, e ela se perguntou como, possivelmente, poderiam conseguir sair de Hogwarts depois de toda a segurança ser reforçada naquele mesmo dia.

– Você vai ter que dar adeus aos seus privilégios, falar nisso. – lembrou-lhe – E dar tchau ao seu distintivo amanhã bem cedo.

Ela franziu seus lábios ligeiramente, ainda tensa, olhando o tempo todo pela janela da carruagem, provavelmente preocupada de que fossem impedidas à meio caminho.

– Um problema de cada vez.

– Você já pode me falar porque eu estou sendo sequestrada no meio da noite? – questionou com certa impaciência, o descaso que Tara estava dando à perda do seu posto de monitora lhe irritando. A ruiva fizera tanta questão do cargo, e agora estava disposta a jogá-lo ao alto com tamanha displicência, como era possível?

– Em um segundo. – avisou-lhe. A carruagem tinha chegado perto dos portões principais, mas agora estava fazendo um desvio à esquerda e aumentando o ritmo. Bervely mal teve tempo de raciocinar quando a cabide deu uma guinada brusca, e o frio em seu estômago a avisou que estavam no ar.

Ela soltou um grito e se agarrou ao assento. Tara se espantou com a reação, mas depois seus lábios se curvaram.

– Ainda não superou esse medo de voar, Black?

– Vá pro inferno.


O testrálio arremeteu para baixo de novo, e com outro tombo, estavam de volta ao chão. Bervely olhou pela janela com o coração aos saltos, e percebeu que estavam na estradinha que levava ao vilarejo.

– Acabamos de pular os muros do castelo, ou é impressão minha?

– Precisamente. – Tara estava satisfeita do sucesso de seu plano.


– Como…?

– Isso não vem ao caso agora. – ela voltou a parecer ansiosa. E Bervely, irritada. Ser pega num voo surpresa não melhorou em nada o seu ânimo, muito menos o mistério de toda aquela situação.


– Por que exatamente estamos indo à Hogsmeade, Holmes?

– Não me chame de Holmes. – ela retrucou. – Você sabe que não é meu nome de verdade, então não faz o menor sentido.


– Ok, então, Romansek.

Bervely… – suspirou com frustração, fechando os olhos. Depois os abriu, a analisando com atenção. – Escuta, toda essa história sua sobre ter desistido de poções é só parte da sua maluquice com Snape, né? Você não parou de verdade…

– Como isso é relevante no momento?

– Eu preciso da sua genialidade para salvar a vida do meu irmão. – foi direto ao ponto, a gravidade da declaração pegando Bervely desprevenida.

– Como é?

– Bae. Você se lembra dele, certo?

– É claro que eu me lembro do seu irmão. Ele está doente ou algo assim?

Bervely não entendia. Se lembrava do garotinho, seis anos mais novo que Tara, apenas o suficiente para saber que se ele estivesse doente, o pai dela moveria mundos para curá-lo. Contrataria os melhores porcionistas do mundo mágico, e não uma estudante do sexto ano. A não ser que…

– Você comentou que ele tinha feito onze anos. – ela lembrou-se, Tara tinha lhe dito isso no trem, na páscoa. – E não tinha dado sinais de magia. Por acaso ele já…

– Não.

– E o seu pai quer…

– Reintegrá-lo, sim. – a ruiva completou, pálida.

Elas se encararam, Tara agora deixando transparecer o seu medo, e Bervely com uma sensação fria no estômago, diante da afirmação. A carruagem parou e a porta estalou, magicamente aberta, mas nenhuma das duas se moveu.

– Que merda. – disse Bervely por fim. – Só não entendo onde eu entro nisso.

– Vamos entrar. – ela disse, arrastando a mochila e a jogando no ombro. – Ele não gosta de ficar sozinho por muito tempo.

– O seu irmão esta aqui? – espantou-se, saindo da carruagem atrás dela. – Tara, que diabos?

– Não pergunte a mim, ele é um idiota. Se o meu pai descobrir… aqui. – indicou uma porta estreita onde havia uma placa. Era um prédio de três andares meio torto na parte residencial de Hogsmeade, cuja porta abriu quando a ruiva disse a senha (Misotropos). Elas subiram três lances de escadas estreitas e forradas de um carpete que fedia ligeiramente à mofo. – Esse foi o único lugar que me deram um quarto sem pedir a varinha para identificação. – explicou, ao mesmo tempo que abria a segunda porta, desta vez, do quarto.


Bervely se perguntou há quanto tempo ela estava fora de Hogwarts sem que ninguém tivesse percebido. Assim que a porta se abriu, um vulto atravessou o aposento e agarrou a ruiva pela cintura, a fazendo cambalear. Tara retribuiu esfregando a cabeça do garotinho, que tinha o cabelo mais claro e acastanhado que o seu.

– Você demorou! – ele reclamou. Seu sotaque era mais forte que o de Tara, e Bervely se surpreendeu de ele estar sequer falando inglês. – Quem é essa? – virou-se, olhando desconfiado para ela.

– Uma amiga, ela vai nos ajudar. Entre, Black.

Ela deu um passo para dentro do quarto de estalagem, fechando a porta atrás de si. Devia ser o melhor que o prédio tinha a oferecer, mas ainda não era bom. O cheiro estagnado de mofo fazia os seus olhos arderem, mas era espaçoso, com uma ante-sala e cozinha americana, um sofá e um dormitório separado.

– Eu trouxe comida – entregou a ele um pacote, tirado da mochila que trouxera – vá comer na cozinha, eu e Black vamos resolver o problema, certo? – seu tom era bondoso e seguro. Bervely percebeu um pouco do medo no rosto do menino abrandar, quando ele as deixou e foi para a pequena cozinha, que na verdade era um balcão, uma mesa e uma coleção de utensílios.

Tara fez um aceno silencioso para irem até o outro lado, onde ficava uma salinha com um sofá e uma poltrona. Ela abriu a janela, e o ar fresco da noite aliviou os pulmões de Bervely, que ficou grata pela iniciativa.

– Seu irmão fugiu de casa e veio até aqui? – ela perguntou espantada, olhando Bae por cima do ombro. Ele era franzino, tinha o mesmo nariz fino de Tara e a compleição estreita, mas as semelhanças terminavam ai. Bervely só podia supor que puxara os olhos castanhos redondos da mãe. – Como isso é possível?

– Ele não veio até aqui, só chegou em Londres e se perdeu. Fui buscá-lo noite passada e voltamos de trem, já que eu não podia aparatar com ele nem usar o Noitibus. Foi uma longa viagem, e meu pai… Bae ouviu papai falando com alguém do ministério sobre a Reintegração e entrou em pânico.


– Mas você já sabia que ia acontecer, não é?

– Sim – ela admitiu em tom derrotado – meu pai me avisou que faria se Bae não demonstrasse nenhum sinal de magia até o seu aniversário, e isso foi na Páscoa. Ele disse que já tinha esperado demais, e que esse era tanto quanto podia aguentar, porque quando Bae não recebesse a carta de nenhuma escola, a nossa reputação iria ser arruinada.

Bervely assentiu. Reintegração era uma prática relativamente comum para as famílias sangue-puro de bruxos, usada para se livrar de eventuais abortos – bruxos sem magia – que porventura nascessem em suas famílias. Quando a criança passava dos sete anos sem qualquer manifestação mágica, fazia-se a limpeza da sua memória e ela era entregue à uma família de trouxas, cuja memória também era modificada para crer que sempre tivera aquela criança.

Os abortos reintegrados viviam o resto da suas vidas como trouxas, e nunca entravam em contato com o mundo mágico novamente. Eles também eram esquecidos pela sua família bruxa de origem, todos os registros de nascimento apagados, assim evitava-se a mácula que o nascimento de um aborto ocasionava à uma linhagem puro sangue.

– Mas, Tara – ela pontuou, cruzando seus braços, sem aperceber-se de que estavam se tratando novamente pelos primeiros nomes – se ele é mesmo um aborto… é a melhor solução. Dentro da sociedade bruxa, ele sofreria todo tipo de preconceito.

– Ele é meu irmão, Bervely. – ela disse com perturbação. – E se fosse um parente seu? E se ele não quiser esquecer?


Ela puxou ar, desconfortável.

– O que eu tenho a ver com tudo isso? – perguntou por fim. Ser arrastada para o drama familiar de Tara era a última coisa que esperava para o seu fim de semana, especialmente quando elas já não eram nada mais como amigas. O status de sua relação se encontrava um tanto incerto desde o beijo no natal, e então as provocações, depois as várias conversas civilizadas, mas para Bervely entre isso e o nível de proximidade que elas um dia chegaram a ter ainda havia um grande abismo.


– Bem, eu achei que se nós pudéssemos provar ao meu pai que Bae não é um aborto, ele o deixaria em paz.


– Mas ele tem onze anos e não demonstrou magia!

– Ele está sob um monte de pressão desde que ela foi embora! – Tara defendeu, sua expressão ficando áspera à menção da mulher – Eu acho que isso pode estar afetando-o e inibindo a magia dele se manifestar!

– Tara, isso é loucura!

“Ela”, Bervely sabia, era uma referência à mãe dela e de Bae. Desde que a mulher os deixara, quando Tara tinha dez anos e Bae, quatro, a garota não a chamava pelo nome.


Observou os indícios de desespero na outra garota. Sua aparência era cansada, amarrotada, os movimentos inquietos, e os olhos estavam vermelhos e irritados. Não se parecia nada com a Tara arrogante e superior dos últimos meses, de cabelo brilhante e uniforme reluzente. Não, ela estava um caco. As coisas que a gente faz pela família, Bervely pensou, amarga.

– Bervely – ela chamou, interpretando seu silêncio como uma negativa – eu sei que você me odeia. Eu sei que eu não tenho o direito de lhe pedir ajuda, muito menos para algo assim, e que eu tenho repuxado os limites da sua paciência nos últimos meses e sido uma péssima colega de casa. Na verdade, eu nem sei porque você aceitou vir até aqui comigo, para começo de conversa. E eu sei que eu não tenho o direito de lhe cobrar por um favor que além de não ter sido feito, será cobrado pelo meu pai, e à um preço bem caro.

Ela vai implorar, um alarme soou no fundo da mente de Bervely.

– Tara…

– Não, me deixe terminar. Eu posso pagar à você. Quanto quer? Tenho muito dinheiro em minha conta.


Ela parecia disposta a pagar com um rim, se Bervely assim lhe pedisse. Mas esta não conseguia disfarçar o sentimento incomodo contorcendo o seu estômago.

– Eu não te odeio, Tara.

A ruiva piscou. Sua boca se abriu num espanto atrapalhado, não esperava por isso.

– De onde tirou essa ideia? – continuou Bervely, cansada – Eu preciso lembrá-la que foi você quem decidiu me odiar porque eu fui embora de Durmstrang, e depois de me arrancar desculpas, chegou à conclusão de que preferia que continuássemos a nos odiar?

– Sim. Mas depois eu beijei você, e você ficou enfurecida comigo.

– Vamos não falar disso, por favor. – adiantou-se, a mera lembrança do episódio lhe trazendo um calafrio. – Como acabou de dizer, você me arrastou até aqui, e aqui eu estou. Ainda não sei o que eu poderia fazer para provar que o seu irmão tem magia, no entanto. Eu suponho que tenha um plano, e ele tem a ver com a minha genialidade?

Ela assentiu nervosamente, ainda espantada com a boa vontade de Bervely, mas, como uma boa sonserina, sabendo tirar proveito da situação vantajosa.

– Há uma poção. Eu apenas ouvi falar dela, mas supostamente revelaria a presença de magia em quem a bebe. Se pudéssemos fazê-la antes que o meu pai descubra onde Bae está, eu poderia prová-lo que ele não é um aborto e não precisa de Reintegração.

– Eu nunca ouvi falar de tal poção. – mexeu-se desconfortável na cadeira. Não se via mais chegando perto de um caldeirão, jurara que não o faria novamente.

Tara acenou a varinha e trouxe a mochila para perto. De lá de dentro começou a tirar livros impossivelmente grossos que nunca poderiam caber ali todos ao mesmo tempo. Ao ver a cara de espanto de Bervely, explicou.

– Feitiço de expansão indetectável. Honestamente, porque diabos desistiu de Feitiços?

Bervely não se dignou a responder, bufando. A pilha de livros cresceu até a altura dos seus joelhos, e ela notou que eram todos compêndios de poções, ou seja, livros que apenas descreviam poções e suas utilidades, mas não traziam as instruções de preparo.

– Trouxe tudo que eu achei que podia servir.

– Isso é de Hogwarts? Você assaltou a biblioteca?

– Privilégios de monitora-chefe – deu de ombros.

– Mesmo que a gente ache uma poção que eu nem tenho certeza que existe para começo de conversa, ainda assim não teríamos a receita, ou os ingredientes, e eu nem sei se eu saberia como fazer. – ou se seria capaz disso, acrescentou mentalmente, resistente.


A ruiva rolou os olhos.

– Bervely, você é a melhor em poções que já existiu em ambas as escolas, as melhores da Europa. Snape inventou um posto de monitora só para trabalhar com você. É claro que vai saber fazê-la!

Em lugar de se sentir lisonjeada com o exagero, Bervely achou-se um tanto chocada com a informação nova.

– Snape o quê? Quem te disse isso?

– Eu era monitora na época, esqueceu? Acompanhei o trâmite para a criação do cargo. Você não tem ideia da burocracia pela qual ele passou e o quantas declarações assinou atestando que se responsabilizaria pelas suas atividades, e que garantia a sua capacidade para o tanto de exigências previsto pelo cargo. Ai depois você largou a monitoria, que idiotice. Não sei como ele não te deu uma suspensão.

Seu choque virou uma leve náusea. Se soubesse melhor, poderia nomear aquela terrível sensação na boca do estômago como remorso. Sem ter qualquer coisa para dizer, puxou um livro da pilha e apoiou sobre as pernas. Tara estava lhe encarando.

– O quê? – se vamos achar uma poção sobre a qual nunca ouvimos falar e não sabemos muito bem como funciona, melhor parar de perder tempo, não?

A garota piscou, mas logo um sorriso cruzou seu rosto cansado.

– Claro – ela puxou outro livro, e abriu sobre as pernas. Depois olhou de relance para Bervely, que já começara a ler as descrições da primeira página – Eu sabia que você ainda guardava o coração em algum lugar ai dentro, Black. Você não vai se arrepender.

– BD –


Bervely estava arrependida. Ela tinha a mais plena certeza de que o que estavam procurando não existia, após horas sentada na mesma posição, folheando compêndios, apertando os olhos para ler as letras pequenas até que eles estavam ardendo. As suas costas lhe matavam, os dedos doíam de traçar linha após linha sem nenhum sucesso.

Tara não estava muito melhor, ela não parava de bocejar e seus olhos lacrimejavam tanto que era impossível que conseguisse ler qualquer coisa. Em algum momento da noite Bae viera se deitar ao seu lado no sofá, e apesar de estar todo torto e encolhido, se recusara a ir para cama sozinho.


Tara bocejou de novo, abrindo tanto a boca que parecia a ponto de rasgá-la.

– Vá dormir. – Bervely disse, sem tirar os olhos do livro.

– Não até acharmos algo. – retrucou teimosamente.

– Não seja estúpida, vá dormir, de que adianta passar a segunda noite seguida em claro se não consegue nem ler duas linhas sem dar um bocejo?

– Terceira. – disse baixo. – Não dormi na anterior também, eu estava preocupada, então levantei e fui fazer o meu relatório de transfiguração.


Vá dormir. – rosnou, ao ouvir aquele absurdo. Não espantava que ela parecesse tão acabada. – Leve o garoto, ele vai acabar tendo uma torcicolo deitado desse jeito. Eu vou continuar procurando. – acrescentou, ao ver o olhar persistente dela – Não vou parar até que acorde. Sério.

– Obrigada. – a ruiva suspirou, aliviada. Ela quase ia se levantar, mas algo lhe ocorreu, enquanto observava Bervely atentamente e suas sobrancelhas se franziram. – Você está diferente.

– Como é? – questionou distraída, virando a página. Aquele era o terceiro livro completamente inútil. Ainda faltava mais ou menos uns doze.

– Há algo sobre você… que não estava aí antes. Você mudou, Black.

Ela parou por um momento e levantou o rosto, então seus olhos se encontraram. O seu cansaço era tão grande — não o daquela noite, em especial, mas o dos últimos acontecimentos e descobertas da sua vida — que não se viu sem forças para contestar a observação ou fazer algum comentário sarcástico. Aquela era Tara, afinal. E ela entendia, via através dela, como Bervely também via, por mais que ambas tivessem decidido ignorar os seus laços antigos naquele último ano.

– Eu tenho passado por bastante coisa. – admitiu, resumidamente. Tara balançou a cabeça em concordância pensativa.

– Vejo que sim. Se houver algo que eu…

– Eu estou bem. – disse prontamente. Os ombros de Tara caíram, mas ela deu um sorriso sabedor, como se já esperasse a resposta.

– Claro que está. Bervely…

– Vá dormir.


Tara foi, levando um Bae cambaleante consigo. Bervely os assistiu entrar no quarto e fechar a porta, então se voltou para o livro, piscando para afastar o sono. Espantando aquele calor estranho em seu peito, que acontecia sempre que as suas conversas com Romansek não terminavam em farpas e asperezas. Não ia durar, disse a si mesma. Tão logo resolvessem aquele problema com Bae, iam voltar ao que eram em Hogwarts, seja lá o que isso significasse.

– BD –

– Para onde está indo?

Bervely estancou com a mão na maçaneta. Um Bae despenteado e rouco lhe flagrara saindo do aposento, e ela detectou o tremor em sua voz. Virou-se para o par de olhos alarmados. Eram quase dez horas da manhã e ela não o ouvira acordar e sair do quarto onde estivera dormindo com a irmã desde a madrugada.

– Só vou buscar café da manhã.

– Posso ir com você? – a expressão dele era um misto de alívio por ela não estar indo embora, e estranha apreensão – Tara ainda está dormindo. Não quero acordar ela, mas também não quero ficar sozinho.

– Não vou demorar.

Por favor – ele choramingou. Seus olhos brilharam, ela percebeu, num prenuncio de lágrimas. Droga, pensou.

– Tudo bem, mas tem que prometer que não vai fazer nem falar nada estúpido. Ninguém pode desconfiar que estamos nos escondendo.

Ele assentiu. Bervely modificou a sua aparência para ficar mais velha, como tinha feito para ir até Londres visitar a casa de Olivia Loren, usando o espelho como referência. Mas quando a expressão muito parecida com a de Bellatrix lhe olhou de volta, ela piscou incomodada. Ao abrir os olhos de novo, ele estavam num tom límpido de azul. Melhor.

– Uauuu! – o menino exclamou, embasbacado – como você faz isso? Sem nem usar sua varinha?

– Segredo.

– Pode fazer em mim?

– Melhor não. Anda, pirralho, antes que eu desista de te levar comigo.

Ele se apressou e pegou a sua mão quando saíram pelas escadas. Bervely se espantou com o contato num primeiro momento, mas achou que levantariam menos suspeitas se parecerem mãe e filho, então o segurou em retorno.

A única coisa aberta naquela manhã de domingo em Hogsmeade era, por mais improvável que parecesse, a Dedosdemel. Qualquer criança normal ficaria louca ali dentro, mas Bae mal se abalou, sem nem mesmo largar a sua mão, ao que ela concluiu que ele devia estar mesmo assustado. Querendo fazer daquela uma visita curta, pegou alguns bolos de caldeirão, sapos de chocolate, garrafas de cerveja amanteigada e suco de amora. Depois, pensando melhor, voltou e pegou uma garrafa de suco de cereja também.

– Tara adora esses. – ele falou, pela primeira vez desde que tinham entrado ali.

– Eu sei. – disse, distraída.

Felizmente trouxera dinheiro consigo, o troco das botas, e o entregou para o caixa, que não olhou duas vezes para uma mãe e seu filho fazendo compras numa manhã calma de domingo. Ela fez uma nota mental para cobrar aquela compra à Tara, enquanto voltavam à estalagem.

– BAE! – um grito os recebeu quando entraram no quarto vinte minutos mais tarde. Bervely teve um rápido vislumbre de Tara com o cabelo inchado feito uma juba de leão e a cara amassada, antes de ela se jogar sobre o menino e apertá-lo. – ONDE É QUE VOCÊ ESTAVA! O QUE EU LHE DISSE SOBRE SAIR DO QUARTO?

– Eu fui comprar o café da manhã com a sua amiga! – ele disse rápido, atropelando as palavras em inglês com o sotaque de erres pesados – você estava dormindo!

A ruiva se levantou lívida.

– Ficou maluca? Tirar ele daqui enquanto meu pai o está procurando pelo país inteiro nesse momento!

– Não venha toda histérica pra cima de mim, ele implorou para ir, estava com medo. Bom dia, à propósito. – respondeu com azedume.

– E o que há com a sua cara? Que olho azul é esse, e porque você parece que passou por uma azaração de envelhecimento?

Bervely xingou, se esquecera de voltar à aparência original no corredor.

– Feitiço glamour – mentiu, correndo para o espelho.


Felizmente, Tara estava mais preocupada em ralhar com Bae do que reparar na sua transformação, ou teria notado que Bervely não usou a varinha para voltar a ser ela mesma. Quando retornou ao balcão ainda estava de mau humor por ter sido recebida à gritos, mas a ruiva não parecia se lembrar da sua explosão recente.

– Achou alguma coisa? – perguntou quando Bervely se sentou no banco alto.

– Não. Mas vou continuar procurando. – acrescentou. A outra assentiu com afinco.


– Eu também. Não devia ter dormido tanto, estamos perdendo tempo. Bae, coma um bolo de caldeirão. Você não comeu nada ontem à noite.

O menino aceitou a oferta, de má vontade. Bervely pegou o olhar preocupado de Tara sem querer, e a garota logo o desviou, o vinco de preocupação em sua sobrancelha persistindo. Ela própria não comeu nada – só bebeu todo o suco de cereja direto do gargalo.

– Snape saberia se essa poção existe. – comentou casualmente. Pensara naquilo a noite toda, o mestre de poções era uma enciclopédia muito mais eficiente que todos aqueles livros juntos.


– Eu sei. Mas ele deve estar querendo me enfiar num caldeirão fumegante no exato momento, se tudo o que você disse é verdade. E uma pergunta assim levantaria suspeitas se chegasse aos ouvidos do meu pai. Talvez se fosse você à lhe perguntar…

– Ele não está muito feliz comigo, tampouco. – cortou-a da ideia antes que tomasse forma. Os ombros de Tara caíram em desânimo.

– Vou tomar um banho para continuar procurando.

Quando sumiu quarto a dentro, Bervely notou a expressão culpada no rosto de Bae.

– É melhor você comer, pirralho. Quando acharmos a poção, ela pode fazer mal se a sua barriga estiver vazia.

Ele encarava duramente o balcão. Bervely se lembrava de Bae ter sido uma criança bem empolgada das vezes que o vira de relance no porto, e que talvez estivesse abatido com a situação além do que se consideraria esperado para alguém de onze anos.

– Você vai ficar bem – ela se viu dizendo, meio à contragosto, tal era sua inabilidade em lidar com crianças, principalmente à guisa de consolo – Não é nenhum fim do mundo, sua irmã vai dar um jeito nisso.

– Não vai não. – ele disse baixinho.

– Não a deixe ouvir você falando assim, moleque ingrato. – sibilou – Tem noção de tudo que ela está sacrificando por sua causa? Ontem ela perdeu a monitoria-chefe, e se descobrirem que ela ainda não voltou ao castelo hoje, pode muito bem ser suspensa ou até expulsa.

Os ombros dele se encolheram ainda mais.

– Eu sei. – a voz dele era quase um murmúrio inaudível – Eu não quero que ela faça isso, não vai… não vai adiantar nada.

– Como é?

– A poção. Vai dizer… vai dizer que eu não tenho magia. Que eu s-sou um aborto.

O coração dela se apertou. Não deveria, porque ela não deveria estar se envolvendo pessoalmente com os dramas familiares dos Romansek, mas se apertou mesmo assim.

– Bae, você não tem como saber disso.

– Sim, eu tenho. – ele disse para o mármore. Tão baixo que Bervely quase duvidou que tinha ouvido.

– Tem alguma coisa que você está deixando de nos contar, garoto? Se tem, essa é a hora. Eu não virei a minha maldita noite procurando por uma poção que talvez nem tenha sido inventada porque um moleque de onze anos está brincando com um assunto sério como a Reintegração!

Bae começou a chorar. Ele realmente começou, explodiu em lágrimas e soluços, deixando Bervely sem ação. Talvez tivesse sido um pouco dura, mas achou que não justificava a reação repentina e exagerada. No mesmo momento, Tara vinha do dormitório enrolada numa toalha, ainda molhada e com o cabelo pingando, olhando para o garoto e depois acusadoramente para Bervely.

– O que você fez com ele?

– O que acha que eu fiz com ele? O espetei com minha varinha? Ah, pelo amor de Merlin!

Ela foi abraçar o irmão, o olhar ferido para Bervely como se ela tivesse mesmo o espetado com a sua varinha. Demorou um bom tempo para acalmar o garoto, durante o qual Bervely só foi ficando mais e mais desconfiada, seus olhos se estreitando à medida que reconhecia o tom daquele choro.

– Bae, o que aconteceu, fala pra mim!

– Culpa. – disse Bervely, sua voz carregada de certeza atravessando os soluços de Bae.

– Como é?

– Ele está escondendo alguma coisa de você, e está se sentindo culpado por isso.

Tara lhe olhou com espanto. Bervely lhe fez um aceno de encorajamento.

– Pergunte você mesma. Conheço culpa quando vejo.

A ruiva lhe deu um longo e emblemático olhar, depois se virou para o seu irmão mais novo, acariciando seus cabelos cor de cobre, mais terna e paciente do que Bervely jamais vira, nem parecia a mesma pessoa que na sonserina chamavam de Princesa Serpente.

– Bae, ela está falando sério? Tem alguma coisa que não me contou?

Ele recomeçou uma nova onda de choro, que fez Bervely rolar os olhos. Definitivamente, sua paciência com crianças era menor que a sua paciência com a humanidade em geral; nunca seria aquele tipo de irmã. Loren tinha sorte de ela ter decidido se afastar… estava divagando, mas foi puxada de volta ao drama quando o garoto resolveu desembuchar, a voz recortada pelos soluços.

– Eu n-não s-ou um bruxo. Eu t-tenho certeza.

– Bae, eu já lhe disse… toda a pressão lá em casa pode ter inibido a sua magia, e toda a expectativa em cima de você…

– N-não, Tara. Eu nunca lhe contei… mas eu não posso ver, nada. N-nunca vi.

– O quê? – ela pestanejou, sem entender do que ele falava.

– Q-quando você foi para Durmstrang, você disse que um navio magnifico levava você para a escola… mas tudo que eu sempre vi foi um pequeno e feio barco de pesca, que poderia ser um barco abandonado no cais. E q-quando v-você me mostrou a sua nova escola ontem… da janela do trem, tudo que eu vi foram r-ruínas. E hoje na loja de doces… – ele deu um suspiro torturado – eu sei que eles tinham doces incríveis lá, porque você me contou sobre eles, mas tudo que eu pude ver foram caixas cinzentas e empoeiradas. A mesma coisa que os trouxas veem, não é? Eu não consigo ver através… dos feitiços para t-trouxas.

O silêncio reinou no quarto depois disso, como se Bae houvesse explodido uma bomba ali, e os tivesse deixado ligeiramente surdos. Tara começou a balançar sua cabeça negativamente, teimosa.

– Não, isso não significa…

Mas ela encontrou o olhar de Bervely, e se calou. Ela sabia – ambas sabiam – o que significava. Àquela altura, se houvesse qualquer resquício de magia no sangue de Bae, ele não teria sido enganado com feitiços para despistar trouxas. Especialmente uns tão fracos como os que eram lançados nos doces, e principalmente não o que acometia à Hogwarts, pois toda criança mágica era por definição capaz de enxergar o castelo.

– Tem outra coisa. – o menino disse, disposto a despejar tudo, agora que começara. – Eu tenho falado… – ele respirou fundo – eu tenho me correspondido com mamãe.

– Você tem o QUÊ?

Até Bervely sentiu o choque da afirmação. Mas nada se comparou ao tom de alarme perigoso que acometeu Tara.

Bae voltou a se encolher no banco e olhar para qualquer lugar que não a irmã.

– Eu quero ir até ela, Tai. Quero… quero ir ficar com ela.

– VOCÊ TEM QUE ESTAR BRINCANDO COMIGO!


Bae parecia prestes à desabar no choro novamente, mas dessa vez Tara não estava inclinada à consolá-lo.

– VOCÊ TEM SE CORRESPONDIDO COM ELA E ESCONDIDO ISSO DE NÓS?

– Eu sinto muito, Tara! – ele choramingou.

– HÁ QUANTO TEMPO, BAE?

– Eu sabia que você ia ficar irritada…

– HÁ QUANTO TEMPO, BAE?


– Alguns… – ele estava quase sumindo para debaixo do balcão. – anos.

– ANOS? ANOS?


Tara não era do tipo que perdia o controle fácil. Ela fingia que perdia, porque gostava de um bom drama e às vezes de um barraco para chamar atenção para si, mas era na grande parte das vezes, um teatro. Quando alguns moveis começaram a ranger sobre o piso, e o espelho perto da porta estalou perigosamente, Bervely soube que era hora de interferir.

– Bae, vá para o quarto. !

O menino saltou dali e correu para o quarto, fechando a porta atrás de si. Bervely prontamente lançou um olhar significativo para a ruiva, que ainda estava ensandecida.

– Se controle, Romansek. Está aterrorizando o menino.

– Consegue acreditar nisso? – ela exclamou, sem nem ouvi-la – ANOS! Com aquela mulher! Anos! Ele é um traidor, como ele pode, depois de tudo que ela fez?

– Eu não acho que ele se lembra do mesmo modo que você. – disse com franqueza, sem alterar a sua voz – Ele só tinha quatro anos. Além do mais, vocês são diferentes. E Bae é como ela. – lhe lembrou.

– Ela escolheu ser o que ela é. É culpa dela que ele não tenha magia!


Bervely puxou a sacola de papel e tirou de lá outra garrafa, oferecendo a ela com complacência.

– Beba. Vai se sentir melhor.

Tara olhou para a bebida de cara feia.

– Isso é cerveja amanteigada. Como vai me fazer sentir melhor?

– O que você queria? – a ruiva lhe deu um olhar sugestivo e óbvio. – Tara, são dez horas da manhã!

Com um suspiro cético ela arrebatou a garrafa e bebeu até a metade. Enquanto se acalmava, o peito subindo e descendo em fortes arquejos, Bervely reparou que ela ainda estava enrolada na toalha, e o cabelo molhado vermelho escuro caindo embaraçado pelas costas e ombros, em contraste com a pele rosada. Os olhos verdes se destacavam no rosto pálido, mas definitivamente menos arrasado que na noite anterior. As horas de sono tinham lhe feito bem.

– Ótimo. Agora vá por algumas roupas, e vamos pensar num plano B.

– O que minhas roupas tem a ver com qualquer coisa?

– Não consigo raciocinar com você vestida assim. – rolou os olhos, como se aquilo fosse óbvio o bastante. Mas Tara conseguiu arranjar um sorriso maldoso, o que provou que ela levara o comentário para o mau sentido.

– É mesmo, Black?

Nem mesmo comece.

A ruiva bufou, retornada a sua irritação, e pousou a garrafa vazia na mesa, indo para o quarto onde o irmão entrara à pouco.

– BD –

– Mande uma carta para ela. – Bervely sugeriu, cerca de meia hora mais tarde, estando os três reunidos na saleta e trabalhando em seu próximo movimento.

Tara colocara roupas – uma blusa macia de algodão e calças justas, e penteara o seu cabelo molhado em uma trança jogada ao lado do seu ombro. Estava mais calma, inclusive não mais lançando olhares assassinos ao irmão caçula de dois em dois minutos.

Bae, por sua vez, se encolhera miseravelmente na poltrona e encarava o tapete puído. Eles tentavam descobrir como entrar em contato com a mãe deles, mas a tarefa era mais difícil do que podia se supor à princípio.

– Ela não me responderia, Black – rebateu, seu rosto se torcendo no que Bervely sabia reconhecer como a mistura especial e raiva e mágoa que os filhos acabavam desenvolvendo por seus pais – bem, e eu não estou certa se que quero mandar, também.

– Há quanto tempo ela não lhe manda nada em seu aniversário? – perguntou, adivinhando.

– Há dois anos. Dois anos desde que ela desistiu. – o tom deixava bem claro o seu rancor. Tara passara a vida odiando receber as cartas da mãe em seu aniversário, mas aparentemente deixar de recebê-las era tão ruim quanto.

– Ela não desistiu – disse Bae rapidamente. – Só percebeu que talvez estivesse incomodando você, por causa da sua resposta da última vez.

Tara nada disse.

– Mande você então, uma carta para ela. – disse Bervely, se virando para o garoto. – Peça para ela vir até aqui lhe buscar.


– Eu não sei o endereço. As cartas dela chegam por uma coruja, sempre sem endereço, e eu uso a mesma coruja para responder. Acho que ela faz assim porque se o papai descobrisse, não saberia onde ela está.

Tara soltou um bufo de incredulidade.

– Não seja ridículo. Papai sabe exatamente onde ela está. Como se alguém como ela fosse conseguir se esconder do Olho de Hórus. Ele só não se importa.

O menino olhou a irmã com mágoa.

– Não fale assim da mamãe, Tara.

– Mãe uma ova, minha que ela não é.

Okay – Bervely interferiu, prevendo outra explosão dos humores precariamente equilibrados naquela sala. – Tara, as cartas que ela lhe mandava em Durmstrang tinham endereço de retorno. Você lembra…

– Eu as queimei, esqueceu?

– Não esqueci. Mas você lembra de qualquer coisa do endereço, pelo menos a cidade, ou sei lá, o país? Nem sabemos se ela voltou mesmo para cá ou se ficou na Romênia.

Uma das poucas coisas que Bervely lembrava sobre a mãe de Tara é que ela era inglesa. O silêncio se prolongou até a ruiva admitir, à contragosto:

– Ela voltou, sim. – e com um suspiro resignado – Snowfall. Foi o último lugar do qual ela me escreveu.


– Ótimo! – vibrou, satisfeita que tinham evoluído em algo ali, pois a tensão da situação estava positivamente insustentável – Vocês podem partir daí.

– Eu não vou até lá, nem sob meu cadáver. Não vou atrás dela.

Bae pareceu prestes a cair no choro novamente. Bervely sentiu vontade de gritar a sua frustração, mas sabia que isso não ajudaria, então apenas respirou fundo e se preparou para trazer algum senso à antiga amiga e parceira de magia.

– Honestamente, qual outra opção você tem agora? Seu pai a essa altura deve estar à caminho de Hogwarts, Tara, e como você mesma disse, ele é o Olho de Hórus. Quanto tempo acha que vai levar até encontrar vocês aqui? Me surpreende que ele não esteja entrando por essa porta nesse mesmo momento. Além do mais, sabe que ele nunca vai deixar seu irmão viver entre vocês, se ele é mesmo uma aborto. Ou Bae vai ficar com a sua mãe… ou ele vai morar com um par de completos estranhos e vocês nunca mais vão se ver. O que é que prefere?

Ela ergueu o olhar para Bervely, relutante. Sabia que estava pedindo demais, pois aquele não era um assunto de sensatez, não quando envolvia tanta mágoa. Bervely pensou se por alguma razão voltaria, por exemplo, à procurar Narcissa um dia, numa situação parecida. Não, pensou imediatamente. Jamais.

Mas então, não havia ninguém em sua vida com quem se importasse como Tara se importava com Bae. Ninguém por quem engoliria orgulho e humilhação ou colocaria acima de suas próprias necessidades.


Quando o olhar de Tara caiu, e ela soube que a ruiva cedera, Bervely agradeceu intimamente por isso. O amor deixava as pessoas vulneráveis. Se tivesse compreendido isso antes de se apaixonar por Hector, jamais teria sofrido a dor imensa de perdê-lo, mas agora ela aprendera sua lição e não ia cair de novo.

– Tudo bem – Tara murmurou, tirando-a dos seus devaneios. – Você tem razão.

Os irmãos trocaram um olhar cheio de significado, receio e antecipação ao que estava por vir. Encontrar a mãe deles, isso mudava tudo.

Sentindo que haviam atingido um ponto de resolução, e que agora era apenas uma intrusa na missão familiar, Bervely se desapoiou do parapeito e se ajeitou.

– Nesse caso, vou voltar para Hogwarts, antes que alguém dê falta da minha presença e ache que eu sou a herdeira de Slytherin no projeto de vingança contra os sangue-ruins.

– Espera ai. – a ruiva ergueu a cabeça com alarme – você não vai conosco?

– Por que eu iria?

Tara abriu a boca, mas ela realmente não tinha uma boa razão, então fechou novamente.


– Não há mais nada que eu tenha a fazer aqui, certo? Se já não precisam da poção.


Para a sua surpresa, Tara se levantou e a pegou pelo braço, lhe arrastando até o quarto, e fechou a porta atrás de si, deixando Bae na sala. Bervely teve um segundo para notar que o estado do quarto não era muito melhor que o da sala até a ruiva bloquear sua visão, o semblante urgente.

Bervely – começou, mordendo seu lábio inferior cor de rosa com apreensão premente – eu realmente… Apenas… vamos conosco. Eu falo sério. – Bervely ia abrir a boca para um comentário ácido sobre manter distância de dramas familiares alheios, mas não teve a chance – Eu não posso. – gesticulou nervosamente com a mão – ir sozinha. Atrás dela. Não dá. Não tem a mínima possibilidade. – negou freneticamente com a cabeça, a trança sacudindo com o movimento.

– Mas, Romans…

Pare. Para se me chamar pelo sobrenome. – ela arfou – Me chame só de Tara. Venha comigo.


Alguma coisa em seu estômago virou calor e aperto. Ela fechou os olhos, e a despeito de si mesma, se achou assentindo.

– BD –


Precisavam pegar o trem para oeste até Blackinnon, e então de lá para Dandeon, a cidade mais perto de Snowfall. Ao que tudo indicava, chegariam no fim da tarde ao destino final, e ninguém tinha certeza se encontrariam mesmo a ex-senhora Romansek no vilarejo trouxa do qual ela escreva à Tara anos antes.

– Se ela não estiver lá, eu sigo em frente com Bae e você retorna no Noitibus. – Tara lhe disse, apoiada no guichê onde pagava a passagem dos três. – Droga, queria que pudéssemos aparatar, simplesmente.

– Sim, duas não habilitadas e uma criança abortada. Como se isso não fosse receita para o desastre.

Tara lhe lançou um olhar meio insatisfeito, e Bervely percebeu que podia estar sendo indelicada. Bem, não era sua culpa, também preferiria aparatar à passar o resto do dia num trem, mas na verdade a sua irritação tinha muito a ver com a privação de sono.

– Eu peguei uma cabine separada para você – Tara avisou lhe entregando o bilhete, adivinhado os seus pensamentos – Assim você pode dormir em paz. É o mínimo que eu podia fazer.

Tara grata e prestativa era uma novidade, mas não teceu comentários quanto à isso.

Quando embarcaram no trem só faltava dez minutos para meio dia, não obstante Bervely não pensava em comida. Ela desabou no banco da sua cabine – que era para quatro pessoas, mas ocuparia sozinha – e apagou quase instantaneamente, a vibração dos trilhos servindo como um balanço para o seu sono.

Acordou dali a três horas, com batidas na porta. Tara entrou, ainda com sua trança, e uma bandeja de comida de trem – batatas, pão, geleia e suco de abóbora.

– Você pode voltar a dormir. Só achei melhor trazer logo, porque eles encerram o almoço às três, e então você só comeria quando chegássemos em Blackinnon. – ela pousou a bandeja no outro banco e se virou para sair.

– Tara.

Bervely se sentara, o sono completamente perdido. A ruiva se virou, e elas se encararam por um momento, em silencio. Tara esperando, Bervely esquecendo-se do que ia dizer.

– Bae – lembrou-se por fim – onde ele está?

– Pegou no sono. Sempre foi fraco para trens. – deu um sorriso leve, mas que logo se tornou triste. Seu olhar vagou perdido até a janela do vagão.

– O que é? – Bervely questionou, sabendo que algo a incomodava. Era estranho como elas voltavam à velha dinâmica de se entenderem por olhares e expressões, mesmo se não faziam isso há tanto tempo.

– Nada, é só… eu vou perdê-lo. Vou perder Bae, de uma forma ou de outra.

Quase se arrependeu de ter perguntando, afinal não sabia o que fazer com a resposta. Não era boa em consolar pessoas.

– Ao menos ele não vai se esquecer de você. – disse por fim.

Tara olhou para o banco vago, duvidosa, e por fim decidiu sentar-se.

– Acha que eu estou fazendo a coisa certa?

Outra coisa que Bervely não sabia fazer era dar conselhos.

– Não. – disse com sinceridade. Os olhos verdes de Tara se arregalaram, e ela se apressou a completar – Não acho que haja uma coisa certa a se fazer em um caso como esse. Você já está fazendo o melhor que pode.

A ruiva assentiu, olhando pensativa pela janela. A paisagem era um prado com carneiros, e mais ao longe, um céu azul claro bem limpo. Tara não estava vendo nada disso.

Ela foi embora quando Bae tinha quatro anos. É claro que com essa idade, tudo que ele se lembra é da torta de amoras que ela fazia e de como cantava musica trouxa para ele pegar no sono.

Bervely percebeu que seria submetida à biografia do drama familiares da outra, versão estendida sem cortes, e pegou-se surpresa em não se importar. Nunca tinha ouvido a história inteira, só pedaços, confissões magoadas e recortadas por lágrimas, em madrugadas de aniversário.

– Ele não se lembra de como meu pai e ela brigavam o tempo todo. – a ruiva continuou, fitando além da janela, enrolando a ponta da sua trança no indicador. – Eu nem sei porque eles se casaram, para começo de conversa. Desde que meu pai começou a desconfiar que Bae podia ser um aborto, as brigas ficaram piores. Sabe, os Romansek mostram magia muito cedo… normalmente com essa idade ele já teria feito algo levitar até o berço, ou uma mamadeira sumir, essas coisas. Então, ele a culpava. Ela não era trouxa – completou rapidamente, como que para assegurar Bervely disso – mas os pais dela renunciaram à magia na época da guerra. Muita gente fez isso, e ela não... Bem, ela não tinha escolha, tinha? Ela viveu sua infância e adolescência sem fazer magia. Sem ir à escola. E ela... Ela gostava de levar uma vida trouxa, até conhecer meu pai. Ela ficou tão apaixonada que mentiu pra ele.


Tara tomou um grande gole de fôlego e mordeu seu lábio inferior. Se envergonhava da história, e o jeito como seu rosto de franzia quando falava da mãe deixava claro seus sentimentos.


– Quando ele descobriu a mentira, ela já estava grávida de mim. Papai a mandou embora, é claro... Ficou muito aborrecido. Ele tinha certeza que eu ia nascer sem mágica, você sabe o que dizem. Além do mais ela era uma traidora do sangue de qualquer maneira, mesmo que fosse capaz de fazer magia se quisesse.


Bervely assentiu. Tinha lido sobre o que acontecia quando um bruxo renunciava à magia – sempre existia o grande risco de a magia renunciar ao bruxo. E então eram enormes a chances de os filhos desse bruxo não herdarem magia em seu sangue.

– Ele só voltou com ela depois que eu nasci, porque eu tive uma emissão mágica no mesmo dia. – sorriu orgulhosa, como se tivesse qualquer lembrança sobre o acontecimento – eu salvei a pele dela. Salvei o casamento. Você poderia supor que ela tivesse aprendido, mas não, ela... – a ruiva suspirou, fechando os olhos por um segundo, – ela não gostava de fazer magia. E mesmo que meu pai insistisse, bem, com o passar dos anos... Dai ela engravidou de Bae. E meu pai esperou por quatro anos que ele tivesse uma emissão. Cada ano que passava o casamento ia ficando pior, é claro. Até o dia em que ela disse que ia embora com o Bae e comigo pois não aguentava mais a pressão e as acusações.


Bervely ergueu as sobrancelhas num leve sinal de surpresa. Tara assentiu, seus olhos se desviando para ela só por um segundo ates de voltarem à janela.

– Ela queria nos levar para a sua família trouxa. Ficava dizendo que magia não era tão importante, que podíamos viver sem isso. Bem, eu logicamente disse que não ia com ela. Eu não ia, certo? Viver com os trouxas? Bae quis ir, mas o que ele sabia afinal, com quatro anos de idade? Meu pai não deixou. Disse que se ela queria ir embora de volta para os traidores seria sozinha, sem seus filhos. E então – a ruiva soprou uma nota de incredulidade pelo nariz – ela foi. Sem olhar pra trás. Nunca mais voltou.

– Mas ela procurou você… – completou, mas quase se arrependeu quando a ruiva mostrou-se raivosa.

– Porque tinha remorsos! Mas do que me adiantam remorsos? De que adianta remorsos para uma garota que precisa da sua mãe? Ela fez uma escolha. E ao invés de ela se ater à essa escolha e me deixar em paz, foi covarde o suficiente para continuar infernizando a minha vida. E a de Bae! Eu não acredito que ela teve a audácia de procurá-lo!


Bervely nada tinha a dizer sobre aquilo. Se pegou subitamente pensando em sua própria mãe, que escolhera as trevas à ela desde o princípio, e não a criara de verdade devido à essa escolha. Seria remorsos, o que fazia Bellatrix manter a conexão com a rosa viva, e nunca deixá-la em paz?

Afastou o pensamento sentindo-se tola. Era preciso um coração para se ter remorso, e Bellatrix deixara bem claro não possuir um, em sua visita à Azkaban. Aquela mulher era um monstro, uma casca vazia cheia de ódio, e jamais poderia ser uma mãe.

Apesar de sentir um certo desprezo pelas escolhas da mãe de Tara, ela achava que Bae, e até mesmo a própria Tara, tinham certa sorte. Podiam escolher virar as costas também, mas teriam até onde ir, se um dia precisassem dela, como Bae estava precisando agora. Havia uma esperança.


Mas para onde ela, Bervely, correria se precisasse? Acometida por uma sensação de desamparo inesperada e maior do que jamais experienciara, acabou não dizendo qualquer coisa. Por fim lembrou-se da bandeja e pegou o pão, desprezando o suco de abóbora, que na sua opinião era a coisa mais nojenta jamais inventada pelos bruxos.

– Não é de abóbora – Tara se adiantou – é só a embalagem, mas dentro eu coloquei vinho.

– À sério, Tara? Qual o seu problema com bebida alcoólica em horários inadequados?

– Não existe horário inadequado para beber vinho – ela rolou os olhos – Se você não quer, eu mesma bebo.

– Não, tudo bem – alcançou o copo, antes que ela o pegasse.


Elas caíram num silencio quase confortável, enquanto Bervely comia. O sol à meia altura passou a iluminar a cabine, acendendo, como sempre, o vermelho do cabelo de Tara. Quando eram mais novas, Bervely costumava perturbá-la dizendo que seu cabelo roubava o sol porque tinha inveja. A lembrança lhe trouxe um breve sorriso, que Tara captou inadvertidamente e ficou curiosa.

– O que foi?

– Nada. – se apressou em dizer, um pouco constrangida de ser sido pega no ato. Isso fez Tara sorrir também, desconfiada.

– Sabe – ela disse num tom de conversa que pretendia ser casual – o seu namorado deve sentir a sua falta no castelo hoje.

– Meu o que? – engasgou com o vinho, tossindo. Tara riu sonoramente.

– Seu namorado, Bervely. O bonitinho, capitão da Grifinória. Eu vi vocês quase aos beijos no trem aquele dia. Não precisa ficar envergonhada, sonserinos e grifinórios flertam há séculos.

– Eu não tenho nada com Wood – disse, os olhos arregalados.

Tara estava divertindo-se.

– Tem certeza?

– Tenho. Aliás, desde quando minha vida intima é da sua conta? Não confunda as coisas, não é porque você escancara a sua vida pessoal por ai que eu vou querer escancarar a minha.

– Não precisa ficar toda espinhenta. – a ruiva segurou o riso, fazendo com que as covinhas em suas bochechas se aprofundassem.

Bervely procurou desesperadamente um assunto que arrancasse o sorriso resplandecente do seu rosto.

– Por acaso o seu namorado sabe que você está se metendo em encrenca e perdendo a sua monitoria por isso? Ele foi monitor-chefe também, não foi? Não vai ficar nada satisfeito.

– Eu não saberia dizer – ela deu de ombros – Eu e Gui não estamos mais juntos.

– Como não? – Bervely esqueceu-se que acabara de reclamar seu não interesse nas conversas sobre a vida alheia – Se vocês enchem o saco do salão comunal inteiro com as conversas intermináveis na lareira toda noite?

– Não é toda noite. E aquilo é amizade, nos decidimos ser amigos a partir de agora.

Amigos? – perguntou ceticamente.

– Sim. As coisas ficaram complicadas com ele no Egito.

– Foi por isso que vocês terminaram no natal? – ela se viu questionando, antes que pudesse se conter. A lembrança trouxe irritação ao rosto bonito da sonserina.

– Não. Aquilo foi porque ele é um idiota que não sabe aceitar presentes. – vendo a expressão confusa de Bervely, ela rolou os olhos, se pondo a explicar – eu dei à ele a passagem para vir do Egito visitar os pais. Veja bem, eu não estava sendo altruísta, eu o queria aqui pra poder ficar com ele também. Mas então Gui acidentalmente viu o quanto custou para trazê-lo de última hora, e surtou. Me chamou de maluca.

– Quanto custou? – interrompeu, curiosa.

– Trezentos e cinquenta galeões. Mas isso não vem ao caso. – insistiu – A droga do dinheiro é meu, faço o que eu quiser. Ele disse que eu estava maluca em gastar isso com ele, e que ia me devolver todo o dinheiro com juros do seu trabalho. Tem noção de quanto tempo ele precisaria trabalhar para me pagar todo esse dinheiro, isso se ele me entregasse o salário inteiro do mês?

– Não…

– Uns sete meses! Daí fui eu quem chamei ele de idiota, porque veja bem, ele estava sendo, eu dei a ele um presente e era uma batia falta de educação querer me pagar por isso! E então ele disse que desse jeito pra ele não dava!

Bervely não pode deixar de rir. De um orgulhoso para outro, entendia perfeitamente a atitude de Guilherme. Agora que ela não tinha dinheiro, qualquer empréstimo era uma alta ofensa ao seu ego; o presente de Snape, por exemplo, embora tivesse sido útil, ainda estava entalado em sua garganta como uma dívida eterna. Trezentos e cinquenta galeões dispensados como se fossem troco por sua namorada devia ter deixado o Weasley louco de humilhação.

É claro que Tara não entendia, nunca tivera que se preocupar com quantias. Aquele dinheiro para ela era troco.

– Do que está rindo? – a ruiva perguntou com exasperação, fazendo Bervely rir ainda mais.

– Nada.

Naquele momento Bae entrou na cabine, sentando ao lado da irmã e se aconchegando em seu abraço como um filhote carente, e Bervely precisou rolar os olhos para a janela de novo, um tanto desconfortável com as demonstrações de carinho entre os irmãos.

– BD –


Já era quase quatro e meia da tarde quando finalmente trocaram de trem em Blackinnon. Dessa vez se tratava de um trem trouxa, que parava em vários vilarejos do interior e estava cheio; conseguiram, à muito custo, uma cabine só para eles no última vagão, e mesmo isso foi uma sorte.

Se aproximava o momento em que chegariam à Snowfall, e os irmãos Romansek ficavam cada vez mais silenciosos. Bae deitou novamente no colo de Tara, e ela acariciava distraidamente o seu cabelo, os dedos finos indo e voltando nos fios acobreados, guardando um silêncio introspectivo que Bervely não se achou no direito de interromper.

Quando o sol começava a se aproximar do horizonte, e Bervely estava mergulhada num torpor sonolento olhando a paisagem se suceder na janela, o trem foi diminuindo de velocidade até parar, e Bae se ergueu, olhando o monitor analógico do corredor através da janela do vagão.

– Parece que chegamos.

Tara assentiu, séria e tensa. Bae se atrapalhou para recolher a mochila no porta-bagagens, e Bervely sentiu uma apreensão empática pelos irmãos. Lembrou-se das palavras de Tara mais cedo, imaginando o que ela estaria sentindo agora.

“Eu vou perdê-lo. Vou perder Bae, de uma forma ou de outra.”

(Continua…)

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Notas finais
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