Indigna Rosa Negra
34 O Desfavor da Rosa
Notas iniciais
Sweet reunion
We're like how we were again
(Doce reunião
Estamos como antigamente)
A distância entre Dandeon e Snowfall era uma caminhada de trinta minutos; a segunda opção seria pegar carona em uma das carroças usadas pelos moradores para transitar entre o vilarejos, mas as duas bruxas entraram num acordo mútuo de que subir no transporte trouxa não se configurava uma opção aceitável.
À medida que se aproximavam do vilarejo, que ficava no topo de uma colina, a temperatura caía e o dia chegava ao fim. Um sol laranja forte tocava a borda do horizonte, se preparando para começar a sumir; as cores do crepúsculo acendiam o cabelo vermelho de Tara como a ponta de uma tocha; ela tinha desfeito sua trança enquanto saiam do vagão.
Os três seguiram pela principal (e possivelmente única) estradinha que ligava ambas as cidades, as duas por demais à oeste da Grã-Bretanha para ter qualquer importância. Tara pousara uma mão no ombro do irmão – que olhava para o chão e arrastava seus pés. Bervely ia um pouco atrás observando-os e se mantendo à parte do clima pesado.
Eles chegaram até uma placa indicando a entrada da vila. Não era em nada especial, com casas pequenas de madeira de aparência antiga e bucólica.
– Vamos perguntar ali – Tara apontou para uma casa de dois andares, ampla e verde musgo, que se anunciava como pub e estalagem de nome Flake. – Podemos perguntar se alguém a viu, numa cidade deste tamanho, alguém notaria uma ruiva forasteira.
Mas Bae estancou à porta, lançando um olhar torturado para a irmã.
– Ela não vai me querer. – ele falou, baixinho, em tom de desabafo, como se viesse segurando aquilo durante toda a viagem.
– Ela vai, Bae. Ela queria te levar com você, lembra? E se ela tem se correspondido…
– Não é como se ela tivesse me chamado nem nada, só perguntava como eu estava indo.
– Ok, Bae, escute aqui – Tara lançou um olhar de pedido de ajuda para Bervely, que deu ombros, tão perdida quanto a ruiva – Talvez você esteja certo. Talvez ela não queira. Mas você quer certo? Você quer vê-la novamente. Então, nós vamos fazer isso. E se ela disser não... Bem, pior para ela.
Ele assentiu, fungando. No mesmo momento alguém escancarou a porta da estalagem, fazendo retinir um sininho que arrepiou Bervely até o ultimo fio de cabelo do seu corpo.
– Olá! – a voz da garota também era aguda e arrepiante – como posso ajudá-los?
Ela não podia ter mais de quinze anos e soava incompreensivelmente alegre. A julgar pelo contexto – a cidade esquecida, a estalagem decrépita e o por do sol mais melancólico do mundo – sua alegria era completamente fora de lógica. Tara e Bae ficaram encarando-na ainda meio atônitos e Bervely se adiantou.
– Olá, nós procuramos uma mulher… chamada Berennin. – completou, lembrando-se com dificuldade do nome da mãe deles – Ela deve ter morado aqui há cerca de três anos, ou ainda mora.
– Desculpe, mas nunca ouvi falar.
– Ela é ruiva. – Bae ajudou. Depois enfiou a mão no bolso da calça e tirou uma foto que entregou para a garota, enquanto Tara arregalava os olhos, sem saber da existência do objeto na posse do irmão.
Bervely ficou aliviada em constatar que a foto não se mexia.
– Ah! – a menina abriu um grande sorriso. – Ah, é claro! Essa é a Sarah! Eu a conheço. Vocês querem entrar? Temos café quente e torradas.
– A não ser que você tenha também essa mulher aí dentro, não queremos entrar, obrigada – Bevy disse azeda, rechaçando aquele excesso desnecessário de alegria. A garota piscou, sem compreender.
– Oh, não, não, Sarah não está aqui. Ficou hospedada por um tempo, então se mudou.
– Para onde?
– É perto da minha casa! Posso levar vocês lá.
– Não, se você apenas nos der o numero...
– Nah, eu faço questão! Só me de um momento para fechar tudo.
Ela sumiu para dentro da casa, e Bervely e Tara trocarem olhares de confusão. A garota alegre voltou quase saltitando; aquele devia ser o evento mais empolgante do seu mês, quiçá da sua vida, a julgar pelo quanto aquela cidade parecia parada – então ela trancou a porta e indicou o caminho – o único existente.
– Por aqui!
– E se alguém aparecer para se hospedar? – Bae se preocupou.
– Ah, não – a nativa fez um movimento de descaso com a mão – ninguém nunca se hospeda aqui. Ninguém visita Snowfall – ela deu uma risadinha – a não ser Sarah, mas isso faz séculos! Ela já é moradora agora. Vocês são da família?
– Hum. Sim. – Tara respondeu com alguma resistência. A garota os levava para o fim da rua principal, na direção oposta a que tinham vindo. O sol se punha e a cidade toda estava alaranjada – incluindo os telhados com telhas de barro e um estranho reflexo provocado pelo chão, que era cravado com pedras bem polidas.
– Ela vai adorar. Ela nunca teve visitas antes, não que eu saiba!
– Vocês, ahn… são próximas? – a ruiva ensaiou puxar conversa, apesar da postura desconfortável.
– Não realmente. Sarah trabalhou na estalagem antes de mim, mas ai eu fiquei de maior, e pude trabalhar, e depois ela se casou...
– Ela o quê? – Tara parou bruscamente. Bervely, que estava logo atrás e distraída, esbarrou nela e enfiou a cara em seu cabelo, engasgando com o forte cheiro de cereja.
A garota virou seu rosto sorridente e redondo, sem perceber que aquela noticia não estava sendo bem recebida.
– Ela se casou! Com Gabe, o nosso pastor. Foi uma festa bonita! Se vocês tivessem vist–
– Com um trouxa!? – Tara fez um estranho barulho de hiperventilação. A garota franziu o rosto como se estivesse tentando descobrir o que era um “trouxa” e se o pastor estava sendo ofendido. Bervely pousou uma mão no ombro da colega.
– Tara… – tentou chamá-la à sensatez. Tudo que não precisavam era outra explosão como aquela que a sonserina dera no apartamento. Não ali, onde podiam ser descobertos.
– Eu não acredito! Ela casou! Ela nem mesmo assinou os papeis de divorc– Bervely lhe deu um beliscão.
– É aquela casa – apontou sua guia, um pouco menos feliz do que antes, duvidosa na verdade, ao ver o rosto de Tara se tingir de um tom perigoso de vermelho. – Eles devem estar fazendo a ceia, o pastor gosta de seguir os horários.
Acabara de indicar uma casa azul clara e branca, com uma cerca branca baixa e violetas na janela, que estava aberta; entrevia-se por ela uma sala mobiliada com móveis claros. Um cachorro – um enorme e bonito labrador amarelo – colocou sua cabeça para fora da janela e latiu para as visitas.
Tara estava atônita. A mão de Bervely se encontrava paralisada em seu ombro. A mochila que Bae carregava escorregou de seu ombro e caiu com um baque surdo no chão.
– Eu posso chamá-la... – a menina se ofereceu, olhando de um para o outro sem entender muito bem o que estava acontecendo.
– Não. Eu faço isso. – Bae anunciou, reunindo toda a bravura que os seus onze anos lhe permitiam ter e dando um passo até a sacada. Enquanto observava ele bater na porta – e olhar para a irmã buscando um sinal de apoio – Bevy sentia Tara tremer levemente sobre os seus dedos. Seu próprio estômago estava se contorcendo de tensão. Enfim a porta da casa-perfeita se abriu e um cara sorridente (qual era o problema com as pessoas daquela cidade?) apareceu e viu Bae.
– Olá rapazinho. O que eu posso fazer por você?
– Eu estou procurando Berennin Romansek.
O tal, presumivelmente o pastor, franziu um pouco. Ele tinha uma cara comum, Bervely pensou que não o olharia duas vezes se o visse numa multidão. Cara de trouxa, nada especial.
– Desculpe, eu não sei quem...
– Ela é minha mãe, sabe. Mas está usando o nome “Sarah”.
Isso fez o trouxa se calar e empalidecer de forma visível mesmo com as cores do por do sol.
– Espere um pouco aqui.
Ele sumiu para dentro da casa, e Bae lançou mais um olhar inseguro para a irmã. Nesse meio tempo a mulher apareceu, e o momento em que Bae a viu foi mesmo em que uma pedra de gelo se instalou no estômago de Bervely. Ela teve um breve vislumbre de Berennin – uma mulher magra e mais nova do que imaginara, com um cabelo alaranjado seco e aparência nervosa. Antes que qualquer um deles pudesse ver mais sobre ela, Berennin reconheceu seu filho.
– Meu Bae! – ela se lançou sobre ele num abraço impulsivo, e começou a beijá-lo no rosto como se esperasse por aquele momento por cada dia dos últimos sete anos. Ele a abraçou de volta e por um momento congelado as três garotas ali paradas presenciaram o reencontro, acometidas sentimentos muito diferentes.
A nativa ostentava um sorriso bobo no rosto. Tara estava lutando contra uma tempestade de incerteza e mágoa e Bervely, bem, ela não podia deixar de sentir um pouco de surpresa com a reação de Berennin.
– Oh, Bae, eu nem mesmo acredito, como você chegou até aqui? – ela olhou para além do filho e seus olhos bateram em Tara. Sua expressão mudou para o choque. – Tara? Minha filha, é mesmo você?
– Eu suponho... – Bervely deu um aperto de repreensão em seu ombro. Ela soltou o ar de sua resistência – Sim, sou eu.
– Ah, Tara, Tara! Eu escrevi tanto à você! – Berennin deu passos na direção delas e Tara deu um para trás, encostando em Bervely, que não soltou seu ombro. – Por que você não respondia as minhas cartas, filha?
– Por que você eu não tinha nada para te dizer. – ela respondeu por entre os dentes.
– Eu compreendo… Mas pensei que se te explicasse as coisas você mudaria de ideia sobre vir comigo… É claro que seu pai teria desmentido tudo na primeira chance…
– Meu pai não disse uma palavras sobre você desde que nos abandonou. – respondeu-lhe, endurecida. – Você deixou de existir para nós no momento que foi embora.
Berennin era uma mulher de expressões transparentes, e sua agonia se fez visível por todo o seu rosto.
– Tara, querida...
Tara recuou e seu corpo colou no de Bervely. A Black teria lhe dado algum espaço, recuando, mas então, não achou que fosse o que Tara estava procurando.
– Sarah – o pastor chamou da porta – diga-lhes para entrar. Podemos conversar aqui dentro. Está frio e... os vizinhos estão começando a se perguntar.
Ele tinha razão, algumas pessoas estavam começando a olhar pelas janelas das suas casas.
– Você pode entrar se quiser, Bae. Eu estou indo embora. – disse a ruiva, friamente. Bervely, que estava com a boca exatamente do lado do ouvido de Tara, achou que era o momento de intervir.
– Nós viemos de muito longe para não esclarecer as coisas.
– Ela está casada! – a outra sussurrou ríspida – e ela ainda é esposa de meu pai!
– Tai – a voz rouca e chorosa de Bae interveio na situação tensa. – entre, por favor. Só um pouquinho.
Ele parecia assustado com a possibilidade de a irmã largá-lo ali com a mãe que, no fim das contas, era uma desconhecida, e ainda vinha com um padrasto e um cachorro de brinde. Ela percebeu a mesma coisa, e arrefeceu.
– Só uns minutos. Eu realmente não tenho nada para falar com essa mulher. Black...
– Eu vou voltar para a estalagem. Te espero lá com a... ela. – indicou a outra garota com um gesto vago – demore o quanto precisar.
– Alguns minutos – insistiu Tara, teimosamente. Com um último aperto encorajador em seu ombro, Bevy a soltou e os assistiu caminhar para dentro da casa azul e branca.
– BD –
Tara não demorou alguns minutos. A sensação de Bervely foi de esperá-la por horas, mas isso foi em parte pela sua companhia. A Garota Feliz não parava de falar desde que chegaram, e se ela não tivesse lhe servido ponche e torradas, Bervely estaria puxando a varinha para petrificá-la agora mesmo.
– …então eu tenho esse tio em Calgary, que faz balões. Sim, daqueles que voam de verdade! E ele me manda cartas as vezes, ele disse que um dia voou até Alberta em um balão sozinho! Quero pedir ao meu pai para visitar Calgary um dia, e eu vou voar de balão e será tão incrível, você pode imaginar, como voar deve ser?
– Vagamente – disse a sonserina, entediada até o ultimo fio de cabelo – Aposto que te daria náuseas.
– É claro que eu precisaria pegar um avião para ir a Calgary – continuou irrefreável – então eu já teria voado antes de ter voado com ele! Mas então eu voaria duas vezes! O quão o máximo isso é?
– Hum – acenou com as sobrancelhas, desejando que Garota Feliz tivesse um botão de desligar.
– Você nunca voou? Você tem cara que já voou. Onde você mora?
– Longe. – suspirou – Escuta, você tem algo mais forte que isso?
– Posso ver um gim do meu pai. Ele mesmo faz... Ele diz que é bom. Nunca bebi, é claro, porque eu sou menor. – lançou um olhar de dúvida para Bervely – você já é de maior?
Recebeu de volta um olhar tão feio que dispensou a necessidade da resposta verbal de imediato.
– Vou pegar, só um segundo.
A garota sumiu pela porta atrás do balcão e Bervely suspirou em alivio, agradecendo o silencio e tentando ignorar as sensações conflituosas dentro de si. Ela não gostava de estar em ambiente trouxa – se sentia vulnerável sabendo que não podia resolver as coisas com sua varinha. E então, não conseguia parar de pensar em como as coisas estavam indo com Tara e sua mãe. Por fim, perturbava-a o fato de se importar tanto com isso.
– Eu espero que eles se entendam, seus amigos e Sarah – voltou Garota Feliz, com uma garrafa empoeirada de liquido âmbar – ela é uma mulher muito boa.
– Ela se chama Berennin. Esteve aqui fingindo ser outra pessoa por todo esse tempo.
– Tenho certeza que ela teve um bom motivo – disse a outra, leal até o ultimo fio do seu fino cabelo – Às vezes as pessoas tomam as decisões erradas pelos motivos mais certos.
Bevy se serviu do gim trouxa. Era forte, doce e quente e desceu rasgando sua garganta. Era perfeito. Sentiu a necessidade de confrontar aquela pequena trouxa tagarela que estava soltando lição de moral sem ser solicitada, então a encarou com seu melhor olhar desafiador:
– O que você sabe sobre decisões erradas, hein, garota? Que tipo de decisão importante você poderia tomar nesse fim de mundo esquecido? Qual vaca vai ordenhar primeiro? Que par de meias vai calçar por baixo dessas suas botas velhas?
Os olhos dela – que já eram bastante grandes – cresceram mais ainda.
– Por que você é tão má?
No mesmo momento o sino da porta da estalagem retiniu e Bervely virou a cabeça para ver Tara entrando sozinha, a expressão ilegível. Ela identificou o copo de Bervely e o virou de vez, sem respirar. Apertou os olhos e a boca por um momento enquanto a bebida descia, então tossiu.
– O que diabos é isso que está bebendo?
– Gim. – Bevy disse simplesmente. Tara olhou para Garota Feliz, só então notando a sua presença.
– Você me consegue um quarto?
A nativa se acendeu como uma luz de natal.
– Claro!
– BD –
O quarto alugado por Tara em Hogsmeade era um palácio de luxo em comparação a este no Flake. Tinha acabado de trancar a porta com um feitiço, por precaução, quando Tara se trancou no banheiro.
– Romansek? Você está bem?
– Eu estou! – ela gritou com a voz embargada – Só me de um minuto.
Bervely sentou na cama, uma pequena nuvem de poeira se erguendo do edredom quando fez isso. Acompanhou o barulho da torneira abrindo, e podia ver a imagem em sua cabeça – Tara se inclinando para lavar o rosto, os cachos ruivos escapando de suas mãos e se molhando. Torneira fechada, um feitiço de secagem; porque não tinha a menor chance de ela tocar numa toalha de rosto daquele lugar, pensou Bervely, em genuína concordância com a decisão.
– Eu estou bem – repetiu ela quando voltou, sentando na extremidade da cama. A ponta do seu nariz e a borda dos seus olhos estavam vermelhos. – E você me chamou novamente pelo sobrenome.
– Você me chamou de Black na frente da casa do pastor – rebateu, irônica – Achei que tínhamos voltado às formalidades.
Tara fez uma careta.
– Eu fico formal quando estou nervosa.
– Então… como foi tudo? – questionou, procurando pistas no rosto da garota.
– Nauseante. Ela continua insistindo que foi a vítima da coisa toda! Como seu meu pai fosse algum tipo de monstro que a separou de nós! Acredita nisso? Enquanto isso ela tem vivido aqui com o trouxa!
– Como ela enviava cartas para o seu irmão por coruja, se está vivendo como trouxa?
– Eu não sei! Ela deve ter uma coruja de estimação escondida dele. Argh, não importa. Quero dizer, ela sabe onde a gente mora! Ela podia ter tentado descobrir se Bae tinha ou não magia, isso evitaria todos os problemas! Não que fosse mudar alguma coisa pra mim. Ela é uma traidora do sangue, ela desistiu de ser bruxa! Que tipo de pessoa – que tipo de sangue puro – faz isso?
Tara procurou seu olhar, esperando concordância.
– Tara, talvez ela...
– Não! – a ruiva a cortou, suas mãos começando a tremer, apertando o edredom com força. – ela se casou com ele, Bervely! Como ela pôde! Eu digo... Um trouxa! – repetiu com desgosto e nojo em seus olhos verdes – Isso é ainda pior que um sangue ruim! Isso é o que a gente vê acontecer com lufa-lufas! Argh! E ela ainda é oficialmente casada com o papai!
– Eu acho que se você vai ter um casamento trouxa, é diferente de um casamento bruxo.... – Tara lhe olhou exasperada – Eu sinto muito. Isso tudo é péssimo.
– Sim! É! – agora os ombros dela também estavam tremendo. Não era de raiva. Era muito pior.
– O que mais... O que mais vocês conversaram?
– Ela disse – a ruiva respirou profunda e tortuosamente – ela disse que eu podia ficar, se quisesse. Bae e eu. Que ela sempre esperou por esse momento. Você acredita que ela teve a audácia... – Tara deu um pequeno grito de agonia e desabou em choro. Choro real, magoado e triste do jeito que sonserinos não eram supostos a chorar, – Eu só... Eu vou... – a ruiva se levantou envergonhada tentando escapar para o banheiro, onde poderia esconder suas lágrimas, mas Bervely teve o impulso de segurar sua manga para impedi-la.
– Roman… Tara – se corrigiu, enfática – Você não tem que ir à lugar nenhum.
– Eu estou apenas despejando tudo isso sobre você – ela soluçou, incapaz de se fazer parar – E eu sei que você odeia fazer parte do drama alheio, e pessoas chorado em sua frente… E de mil maneiras idiotas eu sempre tenho despejado coisas sobre você nos últimos anos.
– Eu vou superar. – ela suspirou. – Você quer mais um pouco de gim?
– Não – ela disse de um jeito embargado, esfregando o nariz com as costas da mão. Não, Bervely se corrigiu, rolando os olhos internamente, não havia nada de fofo sobre aquele gesto. Mesmo que sentisse cócegas estranhas em seu estômago. – Eu só quero dormir um pouco.
– Nós sempre podemos ir pra casa. Digo – se corrigiu rapidamente – Hogwarts. O que seja.
– Não, eu vou ficar. Eu tenho que checar Bae pela manhã – Bervely nunca a vira tão derrotada. Sua voz estava rouca e baixa. – mas você pode voltar se quiser. Não seja louca de perder a aula de poções. Eu tenho dinheiro na bolsa, trouxa e bruxo. Quanto você vai querer por...
– Ah, por favor – Bervely bufou, contrariada – Eu não vou embora.
– Por que não? – ela disse surpresa. Como se pensasse que Bervely ia querer escapar na primeira chance.
– Bem… – era uma boa pergunta. Ela não fazia ideia de porque não queria ir embora, apesar do sem número de problemas que ia arranjar. – Que tipo de parceira mágica eu seria, se te deixasse aqui sozinha com Garota Feliz?
– Garota Feliz?
– A louca da recepção! – sibilou, fazendo Tara rir. O primeiro riso da noite; aliás, o primeiro riso do fim de semana inteiro.
– Merlin, ela é insuportável! Ela nunca cala a boca? – as duas riram em concordância, experimentando aquela estranha cumplicidade há muito esquecida.
Bervely, que não tinha trazido roupas extras, tirou seus próprios sapatos e deitou na ponta da única cama do quarto, um tanto pensativa. Tara, que apesar do riso continuava amotinada e miserável, vestiu um moletom lilás que ela já a vira usando antes, com estampa de alce; apagou a luz trouxa que ficava pendurada no teto e depois deitou encolhida na outra ponta, passando a encarar o nada. O quarto não estava escuro; a luz de um poste na rua estava bem à altura da janela, e encheu o ambiente de sombras e meia-escuridão através da qual podiam ver os contornos uma da outra.
Cansaço e o efeito da bebida foram rapidamente lhe carregando para um sono pesado.
– Ela disse que é feliz aqui.
Bervely abriu os olhos, puxada para fora do inicio de um sonho. Piscou um pouco, conseguiu localizar a sombra das pálpebras abertas de Tara.
– Como ela pode? Nesse lugar trouxa completamente... – e a palavra para descrever Snowfall lhe faltou, mas Bevy podia imaginar algumas à altura – E depois ela me perguntou se eu sou feliz.
Bervely esperou, mas só ouve silencio. Na penumbra do quarto havia os olhos enormes de Tara e mais nada.
– Você é?
Tara piscou, puxando ar e mais ar. Ela estava prestes a chorar de novo; e Bervely descobriu que não queria deixá-la. Num impulso, se aproximou o bastante que os rostos quase se tocassem. A sua mão livre afastou o cabelo da bochecha de Tara, que agora lhe fitava com olhos bem abertos, e prendera a respiração.
– O que está fazendo? – a ruiva lhe perguntou, quando o rosto de Bervely apenas pairava em frente ao dela, uma respiração se misturando com a outra.
– Cometendo um erro gigantesco.
Sentindo a força daquele impulso agir mais uma vez, o obedeceu, capturando para si o par de lábios entreabertos que pareciam estar pedindo pelos seus o dia inteiro.
I cheated myself
Like I knew I would
I told you I was trouble
You know that I'm no good
(Eu traí à mim mesma
Como eu sabia que eu faria
Eu te disse que eu era encrenca
Você sabe que eu não presto)
– BD –
A claridade incomodou os olhos de Bervely, mas antes de realmente abrí-los ela tentou entender porque outro corpo estava encostado ao seu. Um forte cheiro de cereja fresca sob o seu nariz lhe indicou a identidade da pessoa, e as memórias da noite passada foram voltando um pouco nubladas pelo gim. Ela aproveitou a proximidade por um momento que não deixou de ter um pouco de constrangimento de sua parte (principalmente por gostar de como Tara de encaixava a ela).
O rosto de Tara estava encaixado em seu peito, a respiração dela esquentava o espaço entre seus seios, através da blusa. Seu próprio braço a envolvia e seus dedos estavam emaranhados nos cachos dela; Bevy lembrava vagamente de acaricia-los para acalmá-la. A mão de Tara estava na curva de sua cintura, espalmada, irradiando calor.
A despeito de seu orgulho próprio, seu nariz agiu por conta própria e inspirou o cabelo de Tara, absorvendo o máximo possível do aroma de cereja. Era bem típico dela — a garotinha mimada do papai — usar algo tão adocicado e infantil. Ela cheirou de novo, os olhos fechados, tentando entender como podia ser tão bom e ser cereja ao mesmo tempo, mas tudo que conseguiu foi uma onda de prazer e relaxamento se espalhando por suas terminações nervosas, causando um formigamento muito peculiar.
– Eu posso te emprestar quando voltarmos pra Hogwarts.
Bervely se afastou com o susto do flagrante.
– Desculpe?
– Meu shampoo. Já que gosta tanto dele.
– Seu shampoo é extremamente irritante – retrucou. Tinha certeza que estava, infernos, corando; conseguia sentir as bochechas quentes. Então ela realmente olhou para Tara que era uma confusão de cachos vermelhos e estampa lilás de alce. – Seu suéter, aliás, também é muito irritante.
Tara sorriu preguiçosamente, se movendo com a malemolência de uma gata. Bocejou.
– Bae me deu, presente de aniversario atrasado.
– Comovente – azedou, ainda escondendo o quanto estava sem graça.
A mudança na expressão do rosto de Tara deixou claro que ela estava se lembrando dos eventos complicados do dia anterior. Esfregou o rosto por um momento, e Bervely se viu desejando que ela não chorasse novamente. Mas em vez disso ela respirou fundo e olhou para a morena – de alguma forma os olhos cor de oliva sendo impactantes mesmo sem toda a maquiagem que costumava acompanhá-los. Talvez até mais.
– Eu não sei o que fazer.
Bervely foi beliscada por um incomodo que tinha a ver com Tara deixando a cama. Pare com isso, ralhou racionalmente consigo mesma.
– Eu não estava sabendo que havia uma escolha – disse, mais ácida do que o necessário.
– Eu não sei... se devo deixar Bae ficar.
– Não é sua decisão, realmente, é?
– Mas o que meu pai vai dizer! – suplicou, franzindo as arqueadas sobrancelhas ruivas – Ele vai ficar tão chateado!
– Eu tenho a impressão de que ele não vai ficar muito surpreso, na verdade.
– Mas eu o ajudei. Isso faz de mim uma traidora também.
Bevy assentiu, a olhando nos olhos.
– Isso faz, você está certa.
A ruiva voltou a se sentar e deixou o rosto cair nas mãos, o cabelo escorregando para a frente e fazendo uma cortina ao seu redor. Bervely se sentou ao lado dela, sentindo-se muito mais incomodada com a dor de Tara do que se sentia sobre os sentimentos de alguém em muito tempo. E impotente. Impotente não era bom, era… sufocante.
– Bae nunca vai usar uma varinha. – disse a ruiva por entre as mãos, a voz abafada e quase incompreensível – Nunca vai usar um estúpido Lumus, nem… voar numa vassoura.
– Voar é superestimado. – retruco. O que era aquela obsessão geral sobre voar, de repente?
– Ele nunca vai comer um sapo de chocolate, vencer o seu bicho papão, duelar, ter uma coruja. Nunca vai explodir um caldeirão, ou… ou… eu sei lá, aparatar! Como alguém vive sem aparatar?
– Pegando trens, aparentemente.
– Ele nunca vai jogar uma estúpida partida de Snap Explosivo! – ela ergueu o rosto, horrorizada – Que tipo de vida é essa, Bervely?
– Não é culpa sua, nada disso. – lembrou-lhe. Como dissera antes… sabia reconhecer o sentimento quando o via.
Os ombros de Tara desabaram em desânimo.
– Fui eu quem infernizei papai para esperar mais tempo. E, se eu tivesse ajudado ela a levar o Bae com ela quando foi embora, então ele não teria de sofrer nada disso agora!
– Você não tinha como saber!
As palavras pareceram penetrar na mente perturbada da garota, pois ela se aprumou, respirando fundo, abrindo seus olhos, encarando Bervely profundamente.
– Eu sei, apenas… você já se sentiu tão responsável por alguma coisa, mesmo que não pudesse ter feito nada diferente para mudá-la?
A pergunta fez Bervely dar um sorriso quebrado.
– Sim. É como eu me sinto o tempo todo.
– BD –
As duas andaram até a casa do pastor novamente, dessa vez sem Garota Feliz tagarelando em seu pé de ouvido. A despeito de ser um vilarejo trouxa, isolado e desinteressante, Bervely finalmente reconheceu uma certa peculiaridade em Snowfall. Era melancólica e abandonada, tinha a beleza dos lugares esquecidos.
Distraída com o pavimento brilhante, ela meio que pulou um batimento de seu coração quando a mão de Tara alcançou a sua. Olhou para baixo surpresa e a ruiva sorriu meio de lado, desviando rapidamente o olhar para frente. Bevy deixou seus dedos se entrelaçarem, sentindo asas batendo bem abaixo de suas costelas. Elas não falaram sobre aquilo, e elas soltaram as mãos quando chegaram em frente à casa do pastor.
Tara bateu, relutante. Desta vez sua mãe atendeu. Elas trocaram um olhar, havia uma duvida em Berennin, uma pergunta suspensa, mas Tara era nada mais que deliberação fria.
– Quero falar com Bae.
– Claro querida, entre. Ele está tomando café com Gabe. Vocês são bem vindas para se juntar a nós.
– Nós já comemos. – mentiu, seca, e fez um gesto na direção de Bervely – essa é... uma amiga. Bervely. – acrescentou.
– Olá, Bervely. Obrigada por trazer meus filhos até mim. Bae me contou como você ajudou.
A Black não respondeu qualquer coisa, preferindo ficar neutra no campo minado de Tara. As duas entraram na casa – simples, confortável e familiar, apenas acolhedora como uma casa devia ser – e logo viram Gabe e Bae sentados comendo suas panquecas. Bae conversava empolgado – aparentemente inteirando o novo padrasto dos aspectos de sua vida até ali – mas ele se calou quando viu a cara de profundo desgosto da irmã.
– Oi, Tai.
– Precisamos conversar. A sós. – olhou para o pastor incisivamente, e ele se levantou dizendo um "fique à vontade, vou esperar na sala". Uma vez a sós (Bervely se recostou ao balcão, achando que seria menos estranho ela ficar ali do que sozinha na sala com os adultos), Tara começou a ralhar com ele – Então você fica aqui por uma noite e você já trocou o papai?
– Eu não troquei! – se defendeu Bae assustado, obviamente não esperando o ataque – Eu só estava... Gabe é legal, ok!
– Ele ao menos sabe que ela ainda é casada com papai?
Bae bufou impaciente, como se Tara estivesse se fazendo de boba de propósito.
– Ele sabe de tudo, Tara! Ela não mentiu pra ele! Bem, quase nada, só a magia, é claro. Mas ele sabe papai e mamãe nunca se casaram na igreja trouxa, então para Gabe não vale como casamento de verdade!
– Não vale! – ela fez aquele barulho de aspiração de novo – Oh, meu Slytherin. Qual é o seu problema, uma noite e você já está falando igual a ela! Ok – a ruiva respirou fundo retomando o controle de si mesma – Então é o que você quer. Você vai ficar. Com ela.
– Sim! Pra onde mais eu iria? Reintegração?
– Eu só estou dizendo, Bae… eu não confio nela…
– Mas ela me quer de volta. Nos quer! – os olhinhos dele, apenas uma parcela do verde encontrado nos da irmã, brilharam esperançosos – Você devia ficar também. Ela sente sua falta.
– Você ficou louco? Além de todas as razões, você pode imaginar o que isso faria ao papai? Ele ficaria devastado.
– A culpa toda foi dele, para começo de conversa! Se ele me aceitasse...
Bervely não achava que aquela conversa estava tomando um rumo agradável, de jeito nenhum.
– Tara, nos vamos perder o trem.
O que não fazia o menor sentido, porque elas não tinham combinado ainda como voltariam à Hogwarts.
– Eu estou indo embora, Bae. Se você precisar de qualquer coisa... Ou se mudar de ideia, me mande a Cherry. Vou enviá-la para checar você regularmente.
Bae levantou, deu a volta na mesa e abraçou a irmã. "Eu vou sentir sua falta, tem certeza que não quer ao menos tentar...?" Mas mesmo ele sabia que Tara não ficaria de forma alguma, ela tinha muito a perder... Toda a magia, Hogwarts e um futuro excepcional depois disso.
– Não fale ao papai que você me ajudou.
Ela lhe deu um sorriso triste e beijou o topo da cabeça dele.
Quando saiu, Bevy a seguiu silenciosa. Na soleira da porta, sua mãe lhe interpelou novamente.
– Obrigada por trazê-lo, filha, fez a coisa certa. Você é bem vinda aqui a qualquer tempo.
Tara se esquivou do abraço, avançando para o lado de fora.
– Não me chame assim. Não sou sua filha. Bae pode ter te perdoado, mas eu nunca vou.
Sem olhar para trás, e portanto sem ver o olhar ferido de Berennin, ela andou em direção à saída da cidade, Bervely em seu encalço. Não demorou muito para atravessar a rua principal e voltar à estrada estreita e vazia.
– Ele vai ficar ok. – quebrou o silêncio.
– Ele vai, eu acho. – ela suspirou – E isso é o pior de tudo. Depois do que ela nos fez... – mas decidiu que não valia a pena terminar aquele pensamento, novamente. – Escuta… se aparatarmos para Hogsmeade, ainda dá tempo de pegar a primeira aula, às nove.
– Eu não poderia. – confessou à contragosto. – Não me confio ainda à essa distancia.
– Posso aparatar nós duas. – disse, e suspirou para o olhar desconfiado de Bervely – Qual é, meu pai me ensinou há séculos. Ele sempre disse que um bruxo que se preza deve saber desde cedo como se livrar de uma situação complicada.
– Soa bastante como seu pai.
– Então? Confia em mim?
Não, era a resposta padrão de Bervely. Não para ela, mas para qualquer pessoa. Só que Tara estendeu a mão, e ela a pegou, pela segunda vez aquele dia.
– BD –
– Então… quanto eu te devo?
Tara acabara de colocá-las para dentro da escola por outra passagem secreta completamente desconhecida que ligava o Cabeça de Javali à um armário de vassouras no sétimo andar, no qual ainda estavam, e agora elas precisavam se separar para retornar às masmorras como se não tivessem sumido da escola há um dia e meio.
– Não quero seu dinheiro, Romansek.
A sonserina sorriu divertida.
– Eu imaginei que não. Talvez eu possa te pagar em shampoo de cereja?
Bervely estreitou os olhos, não apreciando a zombaria por aquele momento de fraqueza de manhã cedo.
– Vai pro inferno.
Tara, que já estava bastante perto por causa do tamanho reduzido do armário, se aproximou mais ainda, até que a sua respiração fez cócegas no nariz de Bervely. Sua mão fria se precipitou para a curva da cintura da Black, procurando pele por baixo da blusa, provocando um calafrio.
– Eu posso estar sendo um pouco ingrata em não comentar o quanto apreciei o seu beijo ontem à noite.
– Você pode estar sendo. – murmurou de volta. A resposta fez a ruiva sorrir amplamente.
– Eu sabia que você estava louca pra repetir a dose desde o natal, Black. Você nunca me enganou.
– Só fiz para ver se você calava a boca e parava de se lamentar. – retrucou secamente. Não queria ficar alimentando o convencimento da ruiva. Além do mais estava ficando difícil pensar em respostas espirituosas quando a mão de Tara se precipitava para a sua coluna, pele contra pele.
– É, diga o que quiser. Você pode ter começado por isso, mas porque foi que continuou?
Uma batida na porta do armário sobressaltou as duas, e Bervely teve um pequeno ataque cardíaco acreditando que seria Filch a flagrá-las ali dentro, o que era constrangedor além de qualquer explicação racional. Mas Tara olhou pela fechadura e era só Wy, sua coruja de bico de ferro.
– Como ele te achou aqui? – assombrou-se, enquanto Tara desenrolava e lia o pergaminho sob a luz da varinha.
– Ele é um bom rastreador… Droga! Meu pai está em Hogwarts, quer falar comigo com urgência. Disse que se eu não aparecer em dez minutos, vai mandar os aurores atrás de mim. Vou ter que ir, Black.
Bervely não estava deixando de reparar o uso do sobrenome, mas era bom ter uma certa dose de normalidade depois de um domingo tão surreal como o que acabara de ter.
– Não me deixe te segurar, Romansek.
Os olhos de Tara brilharam com malícia, mas ela obviamente estava com pressa demais para fazer o comentário que aquela afirmação merecia. Já tinha pisado os dois pés para fora do armário quando se voltou, inclinando-se no ouvido de Bervely para sussurrar.
– Não deixe o capitão saber, Bervely. Ele não vai entender.
Três minutos depois, na virada do corredor, uma distraída Bervely quase esbarrou com alguém estacionado, braços cruzados, expressão suspeitosa. Seu coração literalmente caiu no chão quando percebeu que era Severus Snape.
– Senhorita Black? – ele entoou lentamente.
Ela sentiu que não havia sangue o suficiente nas proximidades da sua boca para formular resposta. Seus lábios formigavam.
– Professor Snape.
– Eu acabei de vê-la sair de um armário de vassouras em companhia da Srta. Holmes?
– Hum. Possivelmente. – empalideceu.
– Eu deveria me preocupar com a sua associação nas atividades escusas da Srta. Holmes, senhorita Black?
O olhar de Snape estava prestes a fazer dois buracos em seu crânio.
– Não… senhor.
– Então se eu lhe perguntasse, você me diria que não tem relação, ou esteve associada, com o sumiço da Srta. Holmes dos terrenos da escola neste fim de semana?
Bervely pensou por uns trinta segundos na resposta que a manteria viva.
– Não, senhor.
Snape a olhou atentamente. Ambos sabiam que a negação permitia duas interpretações. Nenhum deles se mobilizou a destrinchá-la.
– Me faça o obséquio de ir para o seu dormitório, Srta. Black, e não se meter em problemas tão grandes quanto a sua colega se encontra nesse exato momento.
Não era um pedido.
Ela abaixou a cabeça. Apesar de tudo, um relutante sorriso cresceu em seu rosto, quase indetectável.
– Sim, senhor.
– BD –
Quarta feira, dois dias depois.
Bervely saiu devastada de mais uma tarde lidando com as mandrágoras, agora quase adultas, que dominavam a estufa três. Para fazer um resumo do seu estado, haviam galhos e folhas secas entranhadas profundamente em seu cabelo, e pela quantidade de terra em suas roupas daria para se supor que ela mesma se enterrara em um dos vasos de um metro e meio que abrigavam as plantas naquele momento.
Nada no mundo lhe faria entender como a professora Sprout acreditava que ela, uma mera bruxa adolescente de dezesseis anos, podia com trinta mandrágoras de dois metros (quatro se contassem com os galhos) e que tinham parado de lhe considerar uma “irmã humana”, lhe rebaixado ao posto de pior inimiga só porque Bervely não queria deixá-las fofocando umas com as outras a noite inteira, ou saírem para explorar as outras estufas ou, pior ainda, a floresta proibida.
“Mas você é uma bruxa” – diria a professora gordinha e com cara de tia simpática, mas que agora, Bervely sabia, tinha as intenções de um demônio sugador de energia vital – “deve ser capaz de lidar com algumas plantas teimosas, faça-me o favor, Srta. Black”.
Tonks lhe esperava do lado de fora. Fazia parte da nova política da escola que ninguém andasse sozinho nos terrenos, mesmo no horário de aulas. A lufa-lufa arregalou os olhos em choque quando viu o seu estado.
– Você cavou o caminho para fora da sua própria cova, ou o quê?
– Sem gracinhas. Se meu humor pudesse ser encontrado em estado líquido agora, eu poderia muito bem engarrafar e vender como veneno de trasgo.
– É, e se o seu cheiro pudesse ser engarrafado agora, eu nem vou te dizer que parte do Trasgo ele seria… Ah, olha. Algo que vai te animar.
Ela apontou para a entrada do castelo, onde um monte de grifinórios estavam amontoados conversando de modo tenso. Bervely começava a perguntar porque um grupo da casa rival seria animador, quando percebeu que um deles era Wood, e que acabara de avistá-la. Ele parecia estar arranjando uma desculpa para se afastar dos amigos discretamente.
– Não, anda logo. Eu não quero falar com ele… – ela rosnou, apressando o passo.
– O que há, trasguinha? Está com vergonha do capitão? Não se preocupe, esse visual de lutei-contra-o-salgueiro-lutador-e-venci é até bem sexy.
– Tonks…
Elas não foram rápidas o bastante; estavam no meio do hall do térreo quando a voz dele se destacou na multidão de alunos que saiam da última aula.
– Hey, Black!
Ela se encolheu; discrição definitivamente não era uma característica presente na índole grifinória. Ao seu lado, Tonks ria convulsivamente, incapaz de se conter. Bervely se virou com toda a dignidade que a sua cara cheia de terra pôde encontrar.
– Wood, algum problema?
– Nenhum, eu só… – ele se interrompeu para olhá-la de cima a baixo. – Você está bem?
Tonks engasgou ao seu lado. O grifinório percebeu a presença dela e fez um aceno simpático, sem entender o motivo da graça ou porque Bervely estava tão mau humorada.
– Melhor impossível. Você ia dizendo…?
– Eu… uh. Não tenho te visto por ai.
Bervely piscou.
– Nem eu tenho te visto. Era só isso?
Ele franziu as sobrancelhas grossas, com um pouco de confusão. Não era como se Bervely fosse a mais doce das criaturas, especialmente não em público, mas ele captou a hostilidade que vinha dela e percebeu que era maior do que a usual. Seu tom de voz baixou.
– Eu fiz alguma coisa que te aborreceu…?
– Não sei do que está falando, Wood. Você andou batendo a cabeça?
Ao seu lado, Tonks tinha parado de rir e estava lhe dando aquele olhar feio, enquanto ele se esforçava para ler nas entrelinhas o que raios havia de errado. Olhou para a lufa-lufa um tanto perdido, e ela deu de ombros constrangida.
– Não ligue para ela, dia difícil com as mandrágoras. Vamos, Bervely, você precisa de um banho e da sua própria pancada na cabeça antes do jantar. Vou garantir que consiga ambos.
Saiu arrastando Bervely dali pelo braço, depois de dar um olhar de desculpas ao grifinório, e esperou até estarem na escada para as masmorras antes de lhe dar um beliscão.
– AI!
– O que há de errado com você? Mas que droga! Oliver é um cara legal, você tem que tratá-lo desse jeito?
– Eu estava sendo normal – protestou, esfregando o braço – Ele que veio do nada falar comigo no meio do salão como se nós fossemos próximos!
– Por que vocês SÃO – exasperou-se. Alguns alunos olharam espantados para as duas, e Bervely cruzou os braços, encarando feio a lufa-lufa, cujo cabelo estava tomando um tom laranja-elétrico perigoso. – Não são?
– Não sei do que está falando. – cruzou os braços, virando o rosto e se fazendo de desinteressada.
– Pra cima de mim, Bervely? Não me diga que isso é sobre vocês serem de casas rivais! Porque essa seria a justificativa mais ridícula para tratar um garoto legal como o Oliver desse jeito!
– Você não entenderia, você é da Lufa-lufa. – desdenhou. Tonks ergueu um sobrancelha cor de laranja para ela. – E não, não é só por isso, embora essa seja uma razão ótima para ele não ficar gritando o meu nome no meio do castelo. Sabe o que a amizade com um grifinório faz com a reputação de alguém na Sonserina?
– Você tem uma amizade com uma lufa-lufa, qual a diferença?
Bervely fez um gesto de descaso com a mão.
– Ninguém se importa com lufa-lufas, Tonks.
– Nossa, eu estou pensando muito em cumprir aquela coisa da pancada na cabeça.
– Tanto faz, apenas pare de se meter no que não compreende. A coisa toda com Wood… é muito mais complicada do que pensa.
Fez um movimento para descer as escadas, mas Tonks a segurou pelo cotovelo, lhe olhando muito intensamente.
– Não é complicado, Bervely. Você gosta dele?
– Ah, pelo amor de…
– Você gosta?
Ela suspirou irritada. Não podia acreditar que estava tendo uma discussão com Tonks sobre seus sentimentos por Wood no meio do corredor. Nem que estava considerando seriamente aquela pergunta. O que ela sentira quando Wood lhe arrebatara em seus braços e tomara a sua boca como se tivesse jurisprudência sobre ela?
O que ela sentira, em contrapartida, quando ela se aproximara de Tara no escuro e capturara seus lábios macios e úmidos entre os seus?
– O que olhar é esse em sua cara? – Tonks perguntou desconfiada. Bervely se empertigou, na defensiva.
– Que olhar?
A menina balançou a cabeça, como se espantasse uma ideia sem sentido que lhe acometera.
– Escuta, Bervely, se não quer mais nada com o garoto, apenas avise pra ele. Porque Oliver está claramente caído por você, e não está entendendo nada.
– BD –
Para a janta, tudo que ela teve foi um pedaço de torta de carne, mesmo assim precisando convencer o seu estômago a aceitá-la a cada garfada. O clima na escola se tornara um bocado mais sombrio após os últimos ataques e petrificações do sábado, e isso se refletia num silêncio anormal nas mesas das três outras casas. Os alunos falavam baixo uns com os outros, como se o tom normal fosse irritar o monstro da câmara. Riam menos, como se rir fosse um insulto a quem não podia fazê-lo, nesse momento, estando petrificado na enfermaria.
Para completar a estranheza da situação, o Guarda-Caças de Hogwarts fora levado à Azkaban e Dumbledore fora suspenso da diretoria. Bervely ouvira Draco se gabando de ter sido Lucius o responsável pelo segundo fato, e precisou se controlar para não ir esganá-lo. Hagrid ser um suspeito dos ataques também não fazia qualquer sentido… um bobalhão como ele, controlando uma fera do próprio Salazar Slytherin? Que piada.
A casa da sonserina não ligava tanto para o clima pesado; permanecia quase normal. Ao seu redor, Sia e Pacey davam risadinhas maldosas e faziam comentários cruéis sobre o seu assunto preferido desde a segunda feira: A Desgraça de Tara Holmes. À algumas cadeiras, a mesma comia em silêncio, dignamente, como se não ligasse para o fato de que ao seu redor já não havia um grupinho de admiradores bebendo cada palavra que saia dos seus lábios bem moldados (Bervely tirou os olhos dos tais lábios, no momento que se pegou olhando para eles).
Tara perdera não só o seu distintivo de monitora-chefe na segunda feira, quando Snape conseguiu encontrá-la, como todos os seus privilégios adquiridos, especialmente o quarto particular do qual gostava de se gabar. Uma cama foi acrescentada para ela no dormitório das meninas, para a insatisfação do restante das ocupantes incluindo a ex-amiga Olga, que parecia ser quem mais a queria debaixo da sola de Snape, esmagada.
Como parte do castigo, Snape não retirara nenhuma das suas obrigações. Ela ainda precisava fazer rondas, escrever relatórios e tomar conta dos novatos. Continuava sendo a responsável por reportar o que acontecia no salão comunal, dar conta dos materiais de manutenção da casa e responder pelo mal comportamento dos sonserinos em suas horas livres. Ela ainda resolvia todos os problemas. A diferença é que não podia mais tirar pontos, e qualquer decisão precisava ser passada à Snape primeiro. E, bem, obviamente nenhum sonserino lhe respeitava, agora que não podia mais usar o seu distintivo.
Isso sem falar que ela conseguira detenção até o fim do ano por estar fora da escola durante o fim de semana sem permissão. Obviamente, Snape sabia que Tara usara a carruagem da escola para escapar no sábado.
Da visita de seu pai à Hogwarts, a única coisa que Bervely sabia viera da marca que a garota ostentava na face esquerda, quando a viu novamente ao meio dia. Tara não fez comentários àquilo, e escondeu o vergão vermelho com um monte de maquiagem.
Mas Bervely sabia que Tara não queria a sua compaixão, ou a de ninguém, então se manteve distante. Se havia um jeito de lidar com a humilhação – e elas tinham isso em comum – era com o isolamento e o silencio, até que as feridas pudessem curar. Se segurou, naqueles últimos três dias, para não lhe oferecer uma receita para o inchaço no rosto. Todas as vezes que Tara chegou tarde da noite no dormitório, após a sua detenção, Bervely fingiu que estava dormindo.
Ela foi desperta pelo barulho dos colegas deixando o salão em grupos, com o fim do jantar. Após uma breve olhada para a mesa da Grifinória, andou até a mesa dos professores e deu uma palavra rápida com a Profa. Sprout. Avisou à Pacey e Sia que as encontraria mais tarde no salão comunal e saiu de fininho, mas ao invés de seguir pelo corredor como os outros colegas, se apoiou numa pilastra grossa, meio nas sombras, e esperou.
– Hey, Wood. – chamou, quando viu o topo da sua cabeça castanha entre os colegas de casa. Não falou alto, mas ele ouviu mesmo assim, procurando a direção da voz e estreitando os olhos quando a reconheceu ali no escuro. Pareceu em dúvida por um momento, mas por fim desviou o caminho e andou até ela.
– Black. – respondeu com neutralidade, embora o ressentimento estivesse ali no fundo da sua voz. Ela estava ficando boa em reconhecê-lo.
Observou seus traços à meia luz por um momento. Wood não era bonito, como era, por exemplo, aquele Cedrico Diggory da Lufa-Lufa, ou aquele setimanista Brunn Greyson. Ele não era de tirar o fôlego como Hector fora (e aqui seu coração deu uma pontada, mas Bervely a superou com um sobrefôlego).
Na verdade era um tipo comum: cabelos castanhos, sobrancelhas bagunçadas, olhos marrons arredondados. Uma boca fina, e uma testa meio grande. Mas havia algo sobre o capitão da grifinória, algo no jeito que ele olhava e sorria (apesar de estar muito sério no momento, o que acentuava a força do primeiro fator, o olhar profundo e em expectativa que lhe dedicava). Seus lábios eram finos e rosa claros, e estavam meio estreitos no momento, se apertando enquanto ela demorava de dizer porque o chamara.
– Black? – ele repetiu, trocando o peso de pé, fingindo que estava impaciente. Mas ele não era muito bom em fingir, como ela era.
– Vamos dar uma volta? – Bervely sugeriu, antes que perdesse a coragem.
O capitão ergueu uma sobrancelha, um tanto cético.
– Mesmo se isso fosse possível, e não houvesse um toque de recolher às seis nesse castelo no momento, eu não vejo porque você ia querer dar uma volta com alguém que obviamente andou batendo a cabeça.
Bervely franziu a boca; ele também não era bom com ironia.
– Eu vou checar as mandrágoras mais uma vez antes de dormir. A prof. Sprout me deu um passe – lhe mostrou a ficha mágica de permissão, pendurada em seu pescoço. – Mas tecnicamente preciso ir acompanhada de outro estudante, por precaução.
– Ah. Então essa é uma daquelas ocasiões que a sua intenção é me usar para suas próprias necessidades egoístas.
– É, basicamente.
Wood olhou para trás, como se tivesse alguém lhe esperando (não tinha), depois coçou a nuca, um gesto indeciso que era uma das coisas charmosas sobre ele. Ela ignorou o apertãozinho que essa percepção provocou em seu estômago.
– Tudo bem. – suspirou por fim – se é para prevenir você de se encontrar com o monstro da câmara no caminho, melhor eu ir. Não queremos dar essa experiência traumática ao coitado.
– Ouch. Essa doeu. – um sorriso torto, no entanto, foi surgindo em seu rosto. Pelo menos ele era bom com o humor negro.
Atravessaram a distância na direção das estufas em relativo silencio, curtindo o frescor da noite de primavera; definitivamente o frio tinha ficado para trás. Era uma pena que justamente agora, quando o clima estava ameno, não podiam mais ficar até tarde do lado de fora após as aulas, respirando o ar puro e matando o tempo à beira do lago. Lá em cima, as estrelas estavam todas visíveis, lembrando à Bervely as suas atividades de astrologia atrasadas.
– Sabe, eu vi você nas arquibancadas no último jogo, antes de ser… cancelado. – puxou conversa. O amargor em proferir a última palavra foi tão evidente que Bervely teve vontade de rir. – Pensei que você odiasse a coisa toda, tinha algo que te interessou lá dessa vez?
– Não foi por sua causa, se é isso que está pensando.
– Não, é claro que não. Posso saber porque, então?
– Não que seja da sua conta, mas eu estava entediada.
– Humm. – ela viu pelo canto de olho um sorrisinho divertido crescer o rosto dele. Ali estava. O motivo. – Escuta, hoje mais cedo, quando você foi totalmente uma grossa comigo…
– Gentil.
– …eu saquei, ok? Você não quer que eu fale com você em público. Orgulho sonserino e coisa e tal. Né? Eu fui mesmo um pouco brusco. Desculpe.
– Eu já reparei que você também não gosta de bater papo comigo quando o seu time está por perto.
Ele encolheu os ombros, um pouco constrangido, olhando para ela de relance.
– É só… não é nada pessoal. Mas a rivalidade entre as nossas casas é uma das coisas que torna o quadribol tão emocionante. Se de repente o capitão do time começa a não se importar com isso, como fica a tradição?
– Tradição – ela estalou a palavra em sua língua.
– É só parte da emoção. Eu não tenho nada contra você em particular…
– Apesar de eu ser sonserina.
– Ah, qual é. Você tem que concordar comigo que sonserinos são um tanto…
Ela parou, se virando para ele com inocente curiosidade.
– Um tanto o que, Oliver?
Os olhos dele se arregalaram com o uso do seu primeiro nome. Ele engoliu em seco.
– Imprevisíveis.
Ela teve certeza de que ele tinha mudado a palavra de última hora.
Bervely recomeçou a andar no passo despreocupado, e Wood a seguiu.
– Pra mim imprevisível é bom. – comentou a sonserina casualmente.
– Às vezes.
– E eu acho que o que você ia dizer era “indignos de confiança¹”. – sugeriu, a voz tão neutra quanto possível. Ao seu lado, ele guardou silencio por um tempo, digerindo o que quer que houvesse nas entrelinhas daquela afirmação.
Chegaram ao nível onde começavam as escadas para as estufas.
– Por que está dizendo isso? – ele perguntou por fim – Eu confio em você.
Isso a fez rir com uma pontada de sarcasmo.
– É, mas você não deveria.
Em frente à estufa três, ela tirou a chave grande e quadrada do bolso, que abria a porta.
– Me espere aqui fora, se você entrar elas podem ficar alvoroçadas.
Bervely checou as mandrágoras com só metade da atenção com que fazia normalmente, muita coisa em sua cabeça no momento. Também o fez em metade do tempo que normalmente usaria, constatando que tudo estava bem ali dentro, cada uma em seu respectivo vaso e nenhum indício de festa de arromba sendo programada para as próximas horas.
Quando saiu, Oliver estava de costas, um pouco mais à frente, as mãos nos bolsos das calças folgadas, a cabeça inclinada, olhando para o céu. Ela se prendeu por um segundo à estatura dele, aos ombros largos, a sugestão sutil dos músculos de jogador sob a camisa de mangas mostarda que usava. O angulo do seu pescoço, a forma como o cabelo castanho espetado encontrava a nuca, aparentando maciez. Coisas sobre as quais ela nunca prestava atenção em garotos, mas então…
– Já terminei. – avisou num tom alto, que sobressaltou tanto o rapaz quanto aos pensamentos impróprios rondando a sua mente. – Estão todas comportadas.
Ele se virou pensativo, e sorriu para ela. Porque ele sorria para ela daquele jeito? As pessoas não sorriam para ela assim, não as que realmente a conheciam.
– Ainda quer dar uma volta? – ele perguntou.
– Pensei que tínhamos acabado de fazer isso.
– Não, isso foi você me usando para seus fins egoístas. Minha vez, Srta. Black.
Ela sentiu um calafrio involuntário.
– O que isso quer dizer, Wood? Desde quando um grifinório como você tem “fins egoístas”?
Ele lhe deu um olhar maroto e fez um aceno com a mão, passando um braço por seu ombro assim que ela esteve perto o bastante. Todos os seus alarmes soaram para o contato, mas por qualquer razão ela não se esquivou, como teria feito em outra situação. Curiosidade?
Wood a guiou pelo espaço entre as estufas três e quatro, dando a volta por elas e atravessando uma pequena barreira de árvores, que os levou até a clareira onde às vezes a Prof. Grubbly-Plank dava aula, apresentando-os a animais de grande porte como unicórnios e barretes. Ele a guiou um pouco mais adiante – Bervely muito consciente do calor do corpo dele irradiando para o seu, por todo lugar onde seu tronco fazia contato com o dela, e mal percebeu quando atravessaram uma nova barreira de árvores até uma segunda clareira, essa menor e cheia de raízes altas.
– Cuidado aí, Rose – ele advertiu, quando ela fez menção de continuar andando. Wood a segurou a tempo de não cair sobre uma ribanceira não muito alta, mas o suficiente para descortinar a vista do que, ela percebeu, era o Lago Negro e um pedaço do campo de quadribol, o qual reconheceu pelas balizas.
– Eu não conhecia essa lugar – comentou, admirada pela vista inesperada. Vinha trabalhando nas estufas por quase quatro meses agora, e nunca tivera a curiosidade de ver o que havia atrás delas.
Ele sorriu com um certo convencimento, que lhe caiu bem.
– Quase ninguém conhece esse lugar. Mas eu o vejo perfeitamente quando estou defendo o aro da esquerda, em todos os treinos e jogos, desde que entrei para o time. É um ângulo muito específico.
– Privilégios de ser goleiro, eu suponho. – comentou com ironia, os olhos ainda pregados na vista. Era o céu, que clamava a sua atenção. A quantidade absurda de estrelas que havia ali aquela noite mexia com ela de uma maneira peculiar, mas fazia tempo que não se deixava atingir por aquela consciência.
Wood se recostou no tronco, bem onde havia uma raiz grossa e plana que servia como uma espécie de banco. Bervely permaneceu de pé, um pouco mais à frente, os braços também cruzados, de lado para ele e observando seus movimentos pela visão periférica.
– Você gostou? – perguntou depois de um tempo de silencio. Ele olhava a brisa suave perturbar o cabelo fino dela, e a pele pálida do rosto corar com o frescor. Observava a curva do seu pescoço e a postura elegante, mas sempre retraída, reticente. Observava coisas que Bervely nem fazia ideia… a inclinação de seus cílios, o ritmo de sua respiração, o jeito com que ela se posicionava em relação a ele. Sempre na defensiva.
– É… imprevisível.
Oliver sorriu. Imprevisível era bom.
– Você teve um bom fim de semana?
Bervely lhe olhou de relance, mas não respondeu.
– Não te vi pelo castelo – justificou, encolhendo os ombros – Esteve estudando? Comemorando o quadribol ter sido suspenso indefinidamente? – sugeriu, um ar de divertimento contrariado, mas Bervely lhe deu outro olhar atravessado.
– Isso é um monte de perguntas, Wood.
– O que aconteceu com “Oliver”?
– Isso é só para quando eu quiser desestabilizar você. Vai perder o efeito se eu ficar usando o tempo todo.
Ele riu gostosamente, e esperou mais um tempo, um minuto ou dois, onde ela continuou parada e meio de costas, olhando as estrelas, os braços firmemente cruzados. Então se levantou e andou até onde ela estava, chegando tão perto quanto chegara da última vez, aquele dia no trem, sabendo que a proximidade tinha um efeito sobre ela. Escorregou uma das mãos pela cintura fina, a outra afastando o seu cabelo do ombro, deixando espaço onde encostar seus lábios, sentindo pelo jeito que ela se retesou que causara um arrepio.
– E o que eu faço pra te desestabilizar?
– Wood, não…
Bervely fechou os olhos quando os lábios dele roçaram na pele do seu ombro. Como sempre, ele a amparou como se soubesse que os joelhos ficavam fracos, mas ele não tinha como saber do resto, dos calores e contrações que espalhava pelo seu corpo quando a tocava.
Ele cheirou sua pele, e beijou, sem qualquer pressa, o mero roçar áspero da barba em uma área tão sensível causando mil tipos de arrepios. Ela ficou parada, divida entre os impulsos de matá-lo ou agarrá-lo por lhe causar aquelas coisas.
Logo ele estava girando seu corpo (ou ela que estava se voltando para ele?) e uma mão se encaixou em sua nuca, por baixo do seu cabelo, a outra ainda firme em sua cintura, o polegar pressionando o ponto bem abaixo das duas costelas. Ele brincou com a proximidade de seus lábios, num jogo de roçar e afastar, até que ela inconscientemente os abriu, ao mesmo tempo pegando um fôlego e pedindo a língua dele dentro da sua boca.
Oliver não fez desfeita ao convite, aprofundando o beijo com a fome que atribuíam ao mascote da sua casa; mas nesse momento Bervely o afastou, firmemente, e tão bruscamente que o grifinório achou que a havia machucado sem querer.
– O que foi? – perguntou com preocupação.
Ela parecia quase irritada.
– Pare com isso! – exclamou, deixando-o ainda mais confuso.
– Isso o quê? Te beijar? Pareceu que você também queria!
– Não! Isso de fingir que isso – ela fez um gesto nervoso que era suposto a envolver eles dois – faz sentido!
Ele deixou os braços caírem da cintura dela, com frustração.
– Mas do que é que você está falando? Eu pensei que a gente já tinha decidido que não faz, mas que ainda assim é bom, e que se dane! Ah, não – ele interrompeu o próprio discurso, alarme em sua voz – Você vai fazer de novo, não vai?
– O quê?
– Tentar me dar um pé na bunda.
– Eu posso te dar um pé na bunda no minuto em que eu quiser, Wood! – exclamou. O jeito com que ele dissera, como se fosse uma coisa estúpida à se tentar, e fadada ao fracasso, a enervara.
– Então vá em frente – ele fez um gesto impaciente – Vá em frente, Black, eu estou esperando!
Ele cruzou os braços, se apoiou num dos pés e ficou olhando pra ela desafiador, as sobrancelhas muito erguidas. Bervely sentiu um gelo no estômago, e virou o rosto para não ter de encará-lo.
– Essa não é a questão. – disse, muito amarga.
– Por favor me diga qual é a questão, Srta. Black.
Bervely olhou de novo para ele e sua tentativa fracassada de usar ironia. A cabeça dela se inclinou levemente, os seus olhos se estreitaram, a sua raiva borbulhou na superfície, e ela sabia, sabia que ia ver aquele olhar de novo no rosto dele, era inevitável. Era sobre quem ela era.
– Tenho algo a te dizer, e você não vai gostar de ouvir.
– Você me fala coisas que eu não gosto de ouvir o tempo todo.
–É, – ela riu zombeteira – não como essa.
– Bem, me surpreenda.
O sorriso dela aumentou, mas não havia nada de humor nisso.
– Eu beijei outra pessoa, domingo.
A postura de desafio dele foi se desfazendo, à medida que processava a afirmação.
“Não conte ao capitão. Ele não vai entender.”
– Por que está me dizendo isso?
– Talvez para você saber que eu não sou confiável como pensa? Eu não sei, Wood, eu sou uma sonserina. É isso que eu faço. Surpreendo.
– Você está falando isso só pra me chatear? – ele sondou, desconfiado. – Para fazer eu me afastar de você?
– Estou lhe dizendo isso porque é verdade. Como você vai se sentir, isso é problema seu.
Ele assentiu lentamente, seus olhos arredondados e escuros brilhando na penumbra. Olhando para o rosto dela de novo e de novo, procurando entrelinhas. Só que não haviam entrelinhas, ou ao menos era o que Bervely pensava.
– Bem… essa pessoa que você beijou, você gosta dela? Ela é importante para você?
– Que diferença isso faz?
– Toda. – ele disse baixo. – Então fale a verdade.
Ela assentiu, olhando para o rosto dele. Prevendo o olhar.
Inevitável.
– Sim. Ela é importante pra mim.
I cheated myself
Like I knew I would
I told you I was trouble
You know that I'm no good
(Eu traí à mim mesma
Como eu sabia que eu faria
Eu te disse que eu era encrenca
Você sabe que eu não presto)
– BD –
Vinte minutos mais tarde, Bervely atravessou o salão comunal da Sonserina (que depois daquele maldito toque de recolher às seis da tarde só vivia cheio como o inferno) e subiu direto para o dormitório. Estava vazio, com excessão de Tara, que cantarolava uma ciranda romena.
– Oi! – ela se virou quando Bervely entrou, Havia um sorriso enorme em seu rosto, contraste violento com seu humor sombrio dos últimos dias.
– Pra que tanta felicidade? – retrucou com brusquidão.
– Nada demais. – a ruiva suspirou, sentando na cama como se fosse feita de nuvens. – Eu acabei de falar com Gui na lareira, na verdade.
– Ah, é?
– Sim. E adivinha? Ele me quer de volta. Então, estamos namorando de novo.
Then you notice a likkle carpet burn
My stomach drop and my guts churn
You shrug and it's the worst
Who truly stuck the knife in first
(Então você percebe uma queimadura no tapete
Meu estômago cai e minhas entranham desabam
Você dá de ombros, e isso é o pior
Quem foi que apunhalou primeiro?)
(Continua…)
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