Indigna Rosa Negra
30 O Sangue da Rosa – Parte I
Notas iniciais
10 de Abril, Mar do Norte.
O barco cinza chumbo cortava o mar com precisão de uma lâmina, tendo a magia impregnada em suas velas como único piloto. Dois aurores metidos em uniformes pesados mantinham suas posições rigidamente, um na proa, outro na popa, suas varinhas de serviço empunhadas o tempo inteiro.
Dos poucos passageiros que a embarcação levava, um deles, a garota de capuz, permanecia rigidamente apoiada ao costado, os olhos presos no horizonte desde que haviam deixado o continente.Outro se aproximou, o rapaz jovem que lhe acompanhava, acostando-se ao lado dela e falando baixo.
– Você está bem?
– Sim. – disse ela, apesar do nó firme que quase não lhe permitia colocar palavras para fora.
– Tem certeza que quer fazer isso?
– Você não tem que ir comigo se estiver com medo. – ela disse rispidamente, incapaz de controlar seus nervos naquele momento – Ninguém lhe obrigou a entrar nesse barco pra começo de conversa.
– Eu sei – respondeu-lhe ele, superando qualquer possível aborrecimento por conta do tom dela. – Na verdade não é comigo que estou preocupado…
– BD –
Dois meses antes, 15 de Fevereiro.
Wood,
Por motivo de prioridade acadêmica, eu estou retirando a minha participação do assim chamado Clube de Voo. Achei por bem notificá-lo por carta, já que fez tanta questão da última vez.
Atenciosamente,
Black.
– É dela? O que diz ai? Oliver?
A falta de resposta fez Johanne subir no banco de reservas para ler o bilhete por cima do ombro do capitão da Grifinória. Eles já estavam esperando por vinte e cinco minutos agora e nem sinal da sonserina, e muito embora o resto do grupo já estivesse subindo em suas vassouras, a corvinal não conseguia segurar sua ansiedade.
O conteúdo do pergaminho fez seu queixo cair.
– O que ela pensa que está fazendo?
Oliver dobrou o papel e enfiou no bolso, a expressão inescrutável.
– Debandando.
– Mas ela não pode sair assim do nada! O que você vai fazer?
– Eu? Nada.
– Mas você tem que falar com ela! Isso foi por causa do encontro de ontem, foi tão ruim assim?
Ele franziu ligeiramente, como se tivesse recebido um beliscão inesperado.
– É melhor ir pegar a sua vassoura, Loren, já estamos atrasados o suficiente. Hoje é dia do tour pelos terrenos, lembra? Temos um longo voo adiante.
Ela fez uma careta de desagrado, mas obedeceu mesmo assim, sem poder deixar de pensar que se ele estava tão azedo e fizera a monitora Black até deixar o Clube de Voo, devia ter sido o pior encontro de todos.
– BD –
Março.
SERVIÇO SECRETO PARA O MAL
Esse bruxo, embora pareça perigoso e fora de controle na foto acima, teria enganado você caso um dia cruzasse o seu caminho. De fato, Black ludibriou muita gente em seus tempos de juventude — qualquer pessoa que tenha lhe conhecido nos anos anteriores à sua prisão lhe descreveria como um jovem bem humorado, carismático e de boa índole. Sua aparência atrativa e jeito expansivo fazia frequente sucesso com as mulheres, e conta-se que Black teve diversos amores em sua época de formação em magia.
Não obstante, esse bruxo aparentemente comum traz uma história sombria em seu passado. Por meio de declaração concedida por seus tios após a prisão de Black, sabe-se que desde muito cedo em sua infância ele se mostrou rebelde e incapaz de seguir regras. Aceito na Academia de Magia e Bruxaria de Hogwarts e a tendo frequentado entre os anos de 1971 e 1978, Black teria se desviado de vez de suas tradições familiares ao entrar para a casa da Grifinória. A declaração da família, de que esse bruxo teria se associado com pessoas de caracter duvidoso neste ambiente, não foi confirmada, mas sabe-se que aos seus dezesseis anos e incapaz de se adequar às demandas do seu meio familiar, Black fugiu da casa dos seus pais de uma vez por todas. Seu destino a partir daí é pouco conhecido, forte indício das atividades obscuras com os quais pode ter estado envolvido.
Após sua formatura em Hogwarts, não há registros da espécie de atividade que Black se propôs a fazer. Os mais próximos alegam que ele foi uma vez lutador ativo da causa contra Você-Sabe-Quem. Não se sabe quando a sua lealdade virou, ou se vinha mascarando suas verdadeiras intenções já há muitos anos, mas é fato que Black não só traiu seus supostos melhores amigos Lílian e James Potter, pais de Harry Potter, revelando sua localização para o lado das trevas, como matou doze trouxas e um bruxo em plena luz do dia antes de ser capturado pelos aurores, em novembro de 1981. Black foi levado à prisão de Azkaban sem direito à julgamento e lá permanece, encerrado na prisão de segurança máxima até a data de publicação desta edição.
É possível que este terrível bruxo tenha servido de inspiração para o desvio do caminho de outros em sua família: uma das piores comensais da morte conhecidas, Bellatrix Lestrange, era sua prima em primeiro grau…
Os cochichos próximos à lareira fizeram com que Bervely erguesse os olhos da página, impaciente. Era uma sorte que estivesse lendo aquele artigo pela quarta vez, ou então não faria ideia de metade do que ele dizia, tal era a impossibilidade de se concentrar no Salão Comunal da Sonserina aquela noite.
– Você se importa? – chiou rispidamente – Estou tentando ler aqui.
Tara olhou para trás e revirou os olhos para ela, depois jogou a sua cabeleira vermelha sobre o ombro e voltou a conversar com a lareira. Bervely não conseguia dizer qual era o teor do diálogo interminável, mas qualquer possibilidade continuava a lhe soar muito absurda. Até onde ela sabia, era a garota quem estava pagando por aquelas ligações caríssimas de flú internacional que agora aconteciam quase toda noite.
– Quem está ai? – ouviu a voz masculina vinda da lareira perguntar, cheia de curiosidade.
– É só Black. Ela está azeda.
– Ah, legal. – a voz do fogo replicou – mande minhas às lembranças à ela.
– Não vou mandar droga de lembrança nenhuma. – disse a ruiva fazendo cara feira, e o rapaz na lareira riu. Revolta queimou dentro de Bervely e ela sentiu, não pela primeira vez, ganas de tirar Romansek dali pelos cabelos.
Quanto retornara às masmorras no dia dos namorados após o muito impactante encontro com Remus Lupin, tinha se dado com Tara sentada em frente à lareira às gargalhadas, trocando risadas com o mesmo ruivo de cabelos longos e brinco de osso que lhe dera um pé na bunda em dezembro (na verdade nunca chegou a saber como eles tinham terminado, mas o humor pesado de Tara na ocasião lhe servia como indício que a decisão não partira exatamente dela).
Desde então, não havia uma noite em que ela não pudesse ser achada ali no tapete verde escuro, cochichando com o Weasley e impedindo o resto dos sonserinos de terem aquecimento apropriado naquele canto do salão. Ninguém ousava reclamar, porque afinal Tara era a monitora-chefe toda poderosa dos domínios verde-e-prata.
O mais ultrajante era como eles voltaram às boas tão rápido. Bervely gostaria de evitar ter de assistir aquelas cenas deploráveis, mas não tinha para onde fugir. Ler no dormitório era impossível, porque Olga dormia impossivelmente cedo e se incomodava com a menor das luzes acesas. Na biblioteca, havia o risco de se encontrar com certas pessoas de outra casa.
– Oi! Está ocupada? – Pacey se sentou ao seu lado, vinda Merlin sabe de onde, e arregalou os olhos para a pilha de livros sobre a mesa – Meu Santo Slytherin! Tem teste surpresa amanhã e eu não estou sabendo? O que é tudo isso? História da Magia Contemporânea: Personalidades Nefastas? Quem Era Quem na Época de Você Sabe Quem? Acasos e Ocasos das Guerras Mágicas? – ela se inclinou para ler o livro em sua mão – Os Dez Bruxos Mais Perigosos Deste Século? O que raios–?
– É só uma pesquisa – justificou evasivamente, fechando o volume que estivera lendo e o colocando na pilha, fora do alcance da colega.
– Pesquisa pra quê? Você nem pega Defesa!
– Não significa que eu não me interesse pelo assunto. – mentiu. – Você sentou aqui só pra questionar o que eu faço no meu tempo livre?
– Não – a loira claramente continuava desconfiada, mas resolveu relegar o tópico à lista de estranhices de Bervely Black – então, vai pra a primeira aula de aparatação amanhã, não vai? Eu vi seu nome da lista.
– Ah, isso. – quase tinha se esquecido. Andara bem distraída na última semana, em sua nova missão de revirar a biblioteca atrás de livros sobre os participantes da última guerra bruxa. – Que horas é mesmo?
– Você pode escolher pela manhã ou à tarde, eles vão dividir a turma já que somos tantos esse ano.
– De manhã, então.
Pacey franziu ligeiramente.
– Você não tinha aquela, hum, aquela coisa de quadribol com o capitão da Grifinória acontecendo aos sábados? Parou de ir?
Bervely sentiu um breve desconforto, amaldiçoando como as fofocas em Hogwarts se espalhavam rápido, e presenteou Pacey com o seu olhar mais frio.
– Não faço ideia do que está falando.
Romansek se despediu de Weasley na lareira. Ela se levantou, sacudindo a saia do uniforme, e se virou com o resquício de um sorriso satisfeito.
– Boa noite, meninas. – disse num tom alegre, e se lhe perguntassem, com um indiscutível fundo cínico.
– Boa noite, Holmes – Pacey saudou, lhe lançando um olhar peculiar de estranhamento.
– Idiota. – murmurou Bervely alto sem querer, ao observar a garota sumir na direção do seu dormitório privado, toda saltitante.
– O que você disse?
– Eu disse que estou com sono –manejou, ocultando a irritação com um bocejo – Amanhã vai ser um longo dia.
– Se você estrunchar, será também uma longa noite. – disse a outra com uma risadinha.
Bervely recolheu os livros e os levou consigo para o dormitório, sentindo que estrunchar era o menor dos seus problemas. Com a consciência usurpadora de ter ambos os pais criminosos sentenciados à prisão perpétua, como se importar com a acidental perda de algum pedaço do seu corpo? Certamente Mme. Pomfrey saberia lidar com as perdas físicas, mas ainda não existia poção no mundo que pudesse sanar o que ela sentia toda vez que se lembrava do destino dos dois Black sangue puro que tinham lhe colocado no mundo.
– BD –
Aparatação era, como logo descobriu, uma daquelas atividades mágicas que careciam de lógica, e como tal, incomodavam Bervely profundamente.
Porque Poções era sistemático. Você mistura umas tantas coisas, mexe umas tantas vezes, aquece à uma certa temperatura e voilá, uma poção que funciona, seja para curar ou matar. História da Magia lidava com fatos: datas, lugares, acontecimentos e conseqüências, tudo muito bem documentado, obrigada. Plantas eram, em sua maioria, previsíveis. Astronomia, então, profundamente invariável, pelo menos no que se comparava com a brevidade da existência humana.
Mas aparatação? A sensação era mais ou menos a de ser um gato tentando se espremer numa garrafa, só que sem a garrafa, e com muito menos habilidades contorcionistas do que as possuídas pela classe felina.
Ela deu graças quando finalmente foram liberados, após avanços muito insignificantes da turma como um todo. Seguiu para a biblioteca, na esperança que em pleno sábado e tão perto da hora do almoço pudesse devolver os livros sem ser interpelada por ninguém.
– Nenhum desses lhe serviu? – a bibliotecária inquiriu com um ar de quase desafio, quando Bervely despejou no balcão os cinco livros que pegara na terça feira. Eles eram os últimos de uma longa lista de volumes que acessara no último mês, e cuja lógica ligaste fugia do entendimento da bruxa de nariz pontudo – Se você me disser exatamente o que está procurando…
– Eu vou saber quando eu achar – lhe disse tranqüilamente, desviando-se do assunto. Sabia melhor do que confessar que estava pesquisando sobre um bruxo envolvido com artes das trevas que tinha o mesmo sobrenome que o seu. – pode me dizer onde onde mais encontro livros sobre a guerra?
– Que aspecto da guerra exatamente?
– Apenas me diga uma sessão. – suspirou a sonserina – Uma que eu ainda não tenha visto.
Mme. Pince bufou com exasperação, mas sua propensão à ser eficiente era mais pungente que sua exasperação com alunos vagos e imprecisos em seus tópicos de pesquisa.
– Tente a estante 318, de T a Z.
A referida localização trazia diversos volumes sobre os avanços que a guerra bruxa da década de setenta trouxera para a magia. Apesar de saber que aquilo não a ajudaria especialmente, ela acabou puxando um livro entitulado Líquidos Para Embeber o Caos. Trazia descrições das poções que tinham sido inventadas para dar conta de dificuldades específicas do período de guerra, e era positivamente fascinante. Qualquer um que prestasse atenção em História da Magia o suficiente sabia que em tempos de grandes conflitos as mentes criativas floresciam, e as coisas mais incríveis aconteciam no que se referia à inovação.
Folhear livros de poções era uma espécie de masoquismo desde que renunciara à disciplina. As aulas de Snape prosseguiam como grandes torturas; ficava lá sentada com os olhos lacrimejando por causa dos vapores, os braços firmemente cruzados, ignorando ao caldeirão e ao mestre, e sendo ignorada de volta por ele. Mesmo naquele momento, um comichão de necessidade lhe impelia a correr com aquele livro para o laboratório do professor e discutir com ele cada uma daquelas receitas ali descritas. Ele certamente as conheceria, saberia explanar seus pontos fortes e fracos muito melhor do que aquele autor fazia… obviamente isso já não era uma possibilidade, pois Snape claramente desistira dela por completo à essa altura.
– Oi.
Como sempre, Bervely estava tão centrada em si mesma que demorou a perceber que falavam consigo. Para a sua surpresa, quem a abordava era a pequena primeiranista corvinal de cabelos pretos e olhos grandes.
A sua irmã.
– Hey. – disse com máximo de neutralidade que conseguiu reunir. Não a via desde que interrompera a sua freqüência ao Clube de Voo, sem contar as vezes em que se cruzavam por um ou outro corredor no caminho para suas respectivas aulas. Mais de uma vez pareceu que Loren queria se aproximar dela para falar alguma coisa, mas Bervely se evadia tão rápido quanto podia fingindo que não a vira.
Fazer isso num corredor isolado da biblioteca onde só estavam as duas era outra coisa.
– Tudo bem?
Ficou sem ação por um momento. Era engraçado perceber, mas no seu circulo social sonserino aquela pergunta raramente era ouvida.
– Escuta, Loren, eu tenho que…
– Não vá. – a menina arfou. Só então Bervely percebeu que custara à Loren alguma força de vontade para chegar até ela. – Por favor, eu só quero fazer uma pergunta.
– Então seja rápida. Tenho o que fazer depois daqui.
Ela assentiu afobadamente, seu cabelo de cetim preto sacudindo em torno dos ombros.
– Por que parou de ir ao Clube?
Novamente Bervely evocou a neutralidade, o que para ela normalmente resultava em uma postura arrogante.
– Eu perdi o interesse.
– Oh. – a boca de Johanne se abriu em um circulo de surpresa; ela claramente não esperara uma resposta tão seca.
– Isso era tudo? Então se me dá licença…
Por alguma razão, sentia urgência de sair dali e interromper a conversa incomoda. Loren era muito transparente em seus sentimentos, e a decepção era legível nos seus olhos brilhantes.
– Black! – chamou, uma faísca de ímpeto pontuando a sua voz, o que na verdade foi o que fez Bervely parar e se virar.
– O quê?
– Isso não é justo. – rebateu com seriedade. – Não é justo sair assim do Clube, sem mais nem menos. A gente contava com você. Oliver também contava.
Bervely estreitou os olhos.
– Engraçado, eu não estou ouvindo Wood reclamar.
A menininha estreitou seus olhos também, de um jeito parecido com o que a mais velha acabara de fazer.
– Isso é porque você não está reparando direito.
– BD –
Abril.
Se o inferno existia, ele era uma estufa cheia de mandrágoras adolescentes.
Bervely descobrira isso há duas semanas, quando recebeu um chamado urgente da Prof. Sprout no meio da noite, porque as plantas tinham decidido fazer uma festa de arromba na estufa três que saíra completamente do controle. Ainda conservava vívidas lembranças das horas que passara acordada espantando cada planta para seu respectivo vaso e consertando todo o estrago que tinham feito com a dança coletiva dos tentáculos.
A partir desse dia, todas as noites antes do toque de recolher ela se comprometera em passar para checar se as plantas estavam se comportando, uma vez que estas tinham adquirido uma resistência severa à presença da Prof. Sprout em seu ambiente.
“Elas me veem como uma figura de autoridade”, dissera a professora para explicar porque toda vez que tentava entrar na estufa três, as plantas se torciam de costas e se recusavam a lhe encarar ou colaborar. “É normal um pouco de contestação nessa fase da vida. Felizmente elas tem à você, que considera como uma irmã humana.”
Bervely evitou vomitar com palavras tão comoventes. Cumprindo seus deveres “fraternos”, firmou bem os abafadores de ouvido e atravessou a porta da estufa, que agora era exclusivamente habitada pelas mandrágoras, todas as outras espécies removidas pra lhes dar espaço. Seus galhos já tocavam quase o teto em nós retorcidos e folhas roxo escuras, e algumas delas enfiavam as caras para fora do pote a fim de lhe espiar.
Com cautela, alcançou a pesada tesoura de poda num baú onde ficavam os instrumentos de jardinagem, esperando que elas não se sentissem ameaçadas pelas lâminas tão grandes quanto braços de um primeiranista. Precisava tirar algumas amostras de galho e levar até a professora, para que fossem feitas as análises semanais da saúde dos brotos.
– Não leve isso pro lado pessoal – murmurou para a planta que tinha escolhido como amostra, puxando gentilmente um galho próximo, mas segurando-o com firmeza. A coisa não podia ouví-la, e certamente nem ela mesma com aqueles abafadores, mas descobrira que algo na vibração da sua voz acalmava as mandrágoras – Provavelmente nem vai doer… tanto.
Mas antes que pudesse fechar as lâminas em torno do galho, a mandrágora se sacudiu inteira como se estivesse tendo um calafrio, e ejetou uma gosma marrom cheia de grumos direto em seus sapatos. Bervely recuou com nojo, tentando entender o que era aquilo que cheirava fortemente à abóbora estragada.
Para o seu horror, descobriu que os outros vasos também continham traços da gosma pegajosa, e outras plantas apresentavam aqueles espasmos estranhos.
Normalmente só estaria irritada por uma planta ter vomitado em seus sapatos, mas aquela não era qualquer peça de arbusto; pelo menos três estudantes de Hogwarts, um fantasma e um gato estavam contando com o sucesso do crescimento destas para voltar à sua vida normal. Apressando-se, Bervely tirou a amostra e correu de volta para o castelo, direito aos aposentos da professora de Herbologia, que era próximo ao salão comunal da Lufa-Lufa.
A prof. Sprout atendeu a porta usando um robe verde-eucalipto, e pela sua cara, devia ter estado a tirar um cochilo.
– Srta. Black? Alguma coisa errada na estufa três?
– Na verdade sim – adiantou-se, mostrando o galho que trouxera cuidadosamente enrolado numa estola – eu acho que elas estão morrendo.
– Elas não podem estar morrendo! – espantou-se a bruxa idosa – Estavam ótimas ontem à noite!
– Então deve ser um mal súbito. Uma delas ejetou isso em mim quando fui colher a amostra, e elas não param de tremer os galhos. – explicou, mostrando os sapatos arruinados.
– Oh, não, não, isso é terrível… deixe-me ver – recebeu o galho como se fosse um bebê recém nascido, dando uma boa olhada nele – Ah, eu vejo… aqui, as brotoejas amarelas nas folhas? Fungo de bubotúberas com certeza. Isso é terrível…
– Como foi acontecer? As bubotúberas nem ficam na mesma estufa!
– Aquela festa maluca que elas fizeram. Eu bem que imaginei que outras plantas tinham participado! Leve isso ao professor Snape o quanto antes, por favor, Srta. Black. Esse antídoto demora tempo para ficar pronto, e não podemos nos dar ao luxo de perder estas plantas! Oh, Dumbledore me mataria!
Bervely se sentiu murchar.
– Eu tenho e levar pra ele?
A bruxa lhe olhou feio.
– Acha que isso é brincadeira? É bom levara sério esse trabalho, menina, a vida de pessoas está em jogo aqui!
Ela bufou, mas de outra forma pegou o galho de volta e se dirigiu para as masmorras. O vômito de planta em seus sapatos ficava mais grudento à medida que secava, e agora os seus passos faziam um barulho de quac quac no chão de pedra.
Ela bateu na porta dos aposentos de Snape preferindo encontrar a morte lenta em outro lugar. Trocaria aquele encontro facilmente por mais um pouco de gosma marrom em suas roupas e até em seu cabelo, se fosse lhe dada a chance de escolher.
– Entre.
Snape estava debruçado em frente aos diversos frascos de Poção Revitalizante que alunos de alguma turma – provavelmente do quarto ano – deveria ter realizado mais cedo naquele dia. Só de olhar, ela sabia não só o tipo de poção mas que pelo menos a metade delas fora feita de forma insatisfatória, pelo modo como a luz refletia nas garrafas.
– Como eu posso ajudá-la, Srta. Black? – ele disse com bastante desinteresse, sem nem mesmo olhar para ela, como se tornara a maneira habitual de (não) abordá-la agora. Na maior parte do tempo durante as aulas ele se referia a quem quer que estivesse fazendo dupla com Bervely para passar instruções, então era uma surpresa que ele ainda soubesse como falar seu nome.
– As mandrágoras estão infectadas com fungo de bubotúberas. A Prof. Sprout me pediu para trazer uma amostra para que o senhor possa fazer um antídoto o mais rápido possível.
À menção de enfermidade das plantas, Snape foi tomado de certa gravidade. Ele recebeu o galho e o analisou com atenção sob a luz incisiva do laboratório, enquanto Bervely esperava ali sem ter certeza se devia ir embora, agora que a mensagem já estava dada.
– As plantas estão ejetando alguma substância de feitio anormal?
– Sim, uma gosma marrom fedorenta.
– E não lhe ocorreu que eu precisaria uma amostra disso também?
Bervely olhou zangada para ele.
– Talvez queira ficar com meus sapatos, há bastante neles para encher um caldeirão número dois.
O professor analisou os sapatos dela, e Bervely teve a impressão de que em outra situação ele teria zombado disso; mas o bruxo ocultou qualquer divertimento com a situação, nada transparecendo em seu olhar fundo a não ser eficiência.
– Aguardo uma amostra não contaminada até o fim da noite, Srta. Black. De antemão, já adianto que vou precisar de diversos ingredientes para a poção medicinal que você está solicitando…
– Que a professora Sprout está solicitando.
– …inclusive algumas que não tenho no meu estoque. Vou fazer uma lista, por favor verifique com a Prof. Sprout se algum destes componentes se encontram as estufas.
– Apenas mande a lista por Benzoar. – retrucou. Já não bastava precisar voltar à estufa para recuperar uma amostra de gosma, ia ter que retornar à professora? Não é como se Hogwarts fosse fácil de cruzar várias vezes numa mesma noite.
– Minha coruja está caçando. – ele disse com brusquidão, sacando pena e pergaminho e rabiscando tudo que ia precisar, lhe entregando a lista sem dar outra escolha a não ser recebê-la. Bervely passou os olhos pelos componentes citados.
– Flor de sal vermelho? Raiz seca de asiafilia? Esses são ingredientes muito raros, não são?
– Pensei que não se interessasse mais por esse campo do conhecimento. – retrucou com uma nota casual, embora ela pudesse muito bem identificar o tom zombeteiro encoberto em sua nota grave.
– Eu não me interesso, só perguntei porque talvez a Prof. Sprout queira saber também.
– É claro.
– Então se me dá licença, vou fazer as vezes de coruja-correio à serviço de Hogwarts. – resmungou, virando as costas.
– Não se esqueça da minha amostra. – ele lhe lembrou arrogantemente, a irritando ainda mais com o tom desnecessariamente mandão.
…
– Eu não tenho metade dessas coisas! – exclamou a bruxa, que Bervely encontrou na entrada das estufas e vestida com o grosso avental de herbolismo por cima do robe verde que não trocara, na pressa para chegar até as suas preciosas plantas.
– Não dá pra pedir via coruja? O professor Snape faz isso com os pedidos para Poções.
Ela meneou a cabeça com derrotismo.
– Demoraria muito, não temos tanto tempo. Alguém tem que ir comprar pessoalmente, e eu não poderia sair da escola e deixar as mandrágoras sem assistência…
– Qual é – Bervely trocou o peso de pé, impaciente e preocupada – não tem alguém aqui na escola que possa fazer isso? Um funcionário ou algo assim?
– Esse seria Hagrid – ela franziu seus lábios em desagrado – Mas da última vez que eu lhe pedi umas sementes de margaridas, ele achou por bem me trazer umas do tipo carnívora! É uma boa pessoa, o Hagrid, mas não entende das sutilezas de herbologia.
– Eu sinto muito. – disse sinceramente. – Não há outra pessoa? Talvez a senhora possa convencer o próprio professor Snape?
Ela se arrependeu no mesmo minuto da sugestão, temendo que a professora lhe retornasse a missão de sugerir à Snape uma ida às compras. Mas o brilho de esperança que surgiu no rosto da bruxa indicava que ela achara a solução perfeita.
– Você!
– O que tem eu?
– Você é a segunda coisa melhor do que o próprio Snape para comprar esses ingredientes! Não se faça de rogada, todos nós ouvimos sobre o seu talento para poções desde o ano passado!
– Você ouviram?
– Conhece todos estes ingredientes, não é? Que acha que acompanhar o Hagrid nessa tarefa? oh, isso é perfeito! Temos o feriado de páscoa e tudo! O trem estará partindo amanhã à noite, tenho certeza que posso colocar o seu nome de última hora se explicar a situação à Dumbledore!
– Eu…
– Pode notificar à seus responsáveis? Acha que eles se oporiam?
Vez que seu responsável era o próprio professor Snape, Bervely desconfiava que ele acharia muito divertido a ideia de submetê-la à uma viagem com o guarda-caça Hagrid atrás de ingredientes difíceis de encontrar. Isso certamente soaria para ele como uma vingança por ela ter deixado a monitoria tão abruptamente.
– Professora, a senhora tem certeza disso? Qualquer outra pessoa, qualquer mesmo, ia adorar fazer essa pequena excursão para fora da escola, e eu realmente…
– Srta. Black, onde está a sua solidariedade com aquelas pobres crianças petrificadas na enfermaria? Francamente! Não quero ouvir mais nenhuma palavra sobre o assunto, organize-se e esteja pronta para partir amanhã à noite sem falta! O vagão reservado para os alunos parte às sete.
– BD –
Hogwarts realmente separara um vagão para os alunos que iam visitar os parentes no feriado de Páscoa, e a professora Sprout certamente manejou para que Bervely conseguisse um lugar nele. Por fim, ela achou-se jantando mais cedo na sexta feira e saindo da mesa da Sonserina de fininho para encontrar as carruagens do lado de fora, desejando ser boa o bastante em metamorfomagia nesse momento para que ninguém a reconhecesse no meio daquele grupo.
A esmagadora maioria dos alunos ali reunidos provinha de famílias trouxas, pois estas eram as que davam maior importância para os feriados de páscoa. Para os bruxos, aquela era apenas uma ocasião para comer chocolate, mas segundo boatos, para alguns não-mágicos a data tinha significados religiosos importantes e era preciso ter a família reunida, ou algo assim.
Ela teve, não obstante, duas grandes surpresas entre os colegas ali reunidas. A primeira, única sonserina do grupo além dela, Tara, com o cabelo em uma trança que lembrava uma salamandra de fogo caindo sobre o ombro.
A segunda era Wood. Constatar que estaria dividindo um vagão de trem por muitas horas com as duas pessoas com quem menos queria socializar no momento não lhe trouxe qualquer grama adicional de ânimo.
Hagrid os acompanhou até a estação de trem e os dividiu nas cabines, em pares, usando (e atrapalhando-se) com uma lista que presumivelmente alguém lhe entregara a fim de organizar os estudantes. Essa mesma pessoa tivera por ideia separá-los por casa e por turma, talvez tentando deixá-los o mais confortável possível, mas é claro que no caso de Bervely isso tinha de ser a pior decisão.
– Black e Holmes na cabine 4. – ele disse, e depois olhou para Bervely de novo com o rosto enorme se torcendo numa tentativa de sorriso simpático – Ah, é você quem vai se encontrar comigo amanhã, certo? Isso é ótimo. Espero que esteja preparada para bater perna um bocado.
Ela virou o rosto, mortificada. Já não era ruim o bastante viajar com um homem que parecia uma cruza entre humano e gigante, ele tinha de constrangê-la diante de todo mundo? Não havia limite para a sua falta de sorte.
– Você tem um encontro com Hagrid amanhã, Black? – Tara zombou prazerosamente, entrando na cabine depois dela, insinuação maliciosa pingando em sua voz feito veneno das presas de uma cobra – Então você realmente seguiu em frente em grande estilo. Grande estilo, entendeu?
– Eu não vejo de onde você encontra alguma dignidade para julgar a minha vida, Romansek. Ou eu estou errada em supor que você estará pegando o flú internacional assim que chegar em Londres, e então direto pro Egito tomar outro pé na bunda?
Tara lhe olhou como se quisesse matá-la, mas não disse outra coisa. Satisfeita que tinham se entendido nesse ponto, Bervely colocou a sua mochila na prateleira superior e se acomodou em uma das duas poltronas reclináveis. Aquele era um vagão de pernoite, e eles eram supostos a fazer a viagem de muitas horas até Londres dormindo, então ao invés de bancos haviam as poltronas largas e algum espaço entre, maior do que costumavam encontrar numa cabine tradicional. Não o bastante para evitar que o ar se enchesse de essência de Tara enquanto a ruiva se movia para um lado e outro guardando sua maleta e ajeitando as cortinas.
– Feche os olhos.
– Como é? – Bervely se desviou do livro por um momento, não que estivesse conseguindo se concentrar na leitura de qualquer maneira.
– Eu disse feche os olhos, vou trocar de roupa. – explicou num tom óbvio e impaciente.
– Lhe ocorreu que se tivesse simplesmente trocado ao invés de alardear o fato, eu nem ia perceber? Caso não tenha reparado, eu estava lendo.
– Mas você poderia ter parado de ler enquanto eu trocava. – ela retrucou.
– Tara, nós dividimos um quarto por três anos. Você trocou de roupa na minha frente mais que uma dúzia de vezes.
– Isso foi antes. – para a completa surpresa de Bervely, a sonserina tinha as bochechas coradas. Isso estava começando a ficar divertido, pensou, pousando o livro no colo.
– Antes de que exatamente?
– Antes de eu ter… eu não sei, peitos?
Bervely riu.
– Eu pensei que você ia dizer “antes de a gente se beijar” – sugeriu casualmente. – Vá em frente, Tara. Não estou interessada em seus peitos.
– Vá pro inferno, Black. – a ruiva bufou, intensamente vermelha, se virando de costas.
Bevy abriu seu livro novamente na página marcada. Pelo canto do olho podia ver os movimentos de Tara arrancando o uniforme da escola o mais rápido que podia, e enfiando no lugar o mesmo moletom roxo que já a vira usando tantas vezes. Antes de abaixá-lo, Bervely viu a tira do sutiã azul claro dividindo a sua pele muito branca, e o fino sulco da sua coluna ao longo das costas arqueadas.
– Você poderia ter ido no banheiro trocar de roupa, sabe. – comentou como quem não quer nada.
– Lá é muito apertado.
– Fresca.
A saia do uniforme caiu no chão formando uma flor. Bervely sentiu um comichão do baixo ventre que foi solenemente ignorado.
Dali a pouco mais de uma hora onde não houve muito diálogo, Hagrid passou de cabine em cabine checando se todos estavam bem ou se precisavam de alguma coisa, o que foi um pouco constrangedor. Aparentemente ele não estava acostumado em ter responsabilidade sobre tantos alunos, e Bervely se perguntou porque o diretor o deixara acompanhar o grupo, justo o guarda-caças de Hogwarts ao invés de um professor competente.
As luzes se apagaram, e ela ficou com preguiça de pegar a sua varinha na mochila para continuar lendo A Incerteza do Eu vol. 2, Lidando com a Mudança. Era muito cedo para dormir, no entanto, então se conformou a olhar através da janela, para o muito estrelado céu do lado de fora. Fazia tempo que não parava para observar as estrelas, especialmente agora que estavam numa parte estritamente teórica de Astrologia que não envolvia muitas idas à Torre.
Além do mais, não era na matéria que ela pensava quando olhava para o céu.
“O que pensa sobre elas?”
“São pequenas”
“Não, elas só estão longe. Se elas estivessem próximas, nos cegariam…”
“Meu nome é Sirius"
“Você tem nome de estrela”
Cerrou os olhos, querendo que seus pensamentos incessantes a deixassem em paz. Pensar em Bellatrix fazia a tatuagem da rosa queimar em seu braço. Pensar no Homem Cachorro doía… Não conseguia afastar a sensação de que a imagem daquele bruxo estava sendo maculada com as coisas que vinha descobrindo sobre ele. Não podia possivelmente encaixar numa mesma pessoa Sirius-Sorvete-de-Pistache e Black, o traidor dos Potter, o assassino frio de mais de uma dezena de pessoas.
– Acordada? – Tara murmurou, quebrando a sua linha de pensamento. Estivera quieta por tanto tempo que Bervely podia jurar que a garota dormia.
– Estou.
– Você está errada. – ela disse quietamente.
– Você vai ter que ser mais específica.
– Eu não vou para o Egito atrás de Gui.
– Ah. – não pode ignorar a sensação estranha de alivio que lhe ocorreu. – Bom pra você.
– Estou indo para casa. É aniversário do meu irmão…
– Hm, é mesmo. – quase tinha esquecido do irmão caçula de Tara. – Quantos anos ele está fazendo?
– Onze.
Bervely percebeu o desconforto na resposta.
– Ele já mostrou sinais de magia?
Tara demorou uns bons minutos pra responder.
– Não.
– Ele vai, Tara. Ele é sangue puro, vai manifestar magia uma hora ou outra.
– Mas e se ele for um…
– Não pense nisso. – disse taxativa.
Além de um suspiro, a ruiva não voltou a falar. Bervely se ajeitou na poltrona o melhor que pôde, e seus olhos foram se fechando…
Ela estava na sorveteria Florean Fostercue. Era o mesmo domingo chuvoso do seu aniversário de cinco anos, com a excessão de que ela não tinha cinco anos, mas a sua idade atual, e estava sentada na mesa sozinha. Haviam duas taças de sorvete em sua frente, que derretiam rápido demais.
Um homem entrou na loja, fazendo soar um sininho na porta de entrada. Era Sirius, a mesma roupa, a mesma beleza, o mesmos sorriso que ela conheceu um dia, mas havia algo estranho sobre ele que não pode identificar imediatamente.
– Você demorou! Quase perdeu o seu sorvete.
– Hum. Está com o gosto estranho. O que é isso?
– Pistache.
– Não é não.
Ela olhou para baixo, para a taça dele. Ao invés do sorvete, havia um liquido vermelho escuro escorrendo pela borda do vidro. A mesma coisa que estava nas mangas da camisa dele, na barra da sua calça, em suas mãos e respingada no contorno anguloso do seu queixo.
Sangue. Montes de sangue fresco recém drenado.
Ele sorriu sem jeito quando ela percebeu.
– Desculpe por isso. Mas lembre-se que é seu também…
– Não! – negou, afastando-se, tentando se levantar – Eu não fiz isso!
Sirius gargalhava. Uma gargalhada que era uma mistura do que ela tinha ouvido antes, com a nota de loucura que nunca estivera ali.
– É claro que fez. O meu sangue é o seu sangue.
– Não!
Quando tentou fugir da sorveteria, as vidraças, o balcão e as mesas e tudo mais sumiu, dando lugar às paredes cinzentas de uma cela. Grades de ferro grossas impediam o seu caminho. Se virou para ver Black ainda coberto de sangue, intrigado, mas não particularmente preocupado.
– Não era isso que você queria?
– Eu quero sair – ela chorava – me deixe sair.
– Shiuu, garota. Assim vai acordá-la. Sabe que ela fica irritada quando a incomodamos.
Black apontava para uma cama suja no canto oposto da cela. Bervely encarou, com horror, Bellatrix deitada ali com os cabelos todos espalhados pelo travesseiro. Suas mãos também estavam lavadas em sangue, e na mão esquerda fechada, ela segurava duas línguas…
O vagão sacudiu-se ligeiramente, talvez passando por uma parte de trilho ruim, e o movimento despertou Bervely do sonho pavoroso. Ela se sentou com o coração disparado e muito confusa; aquele não fora um pesadelo provocado pela rosa. Tinha sido gerado por sua própria mente, o que era o mais assustador de tudo; incapaz de ficar ali parada revivendo as cenas frescas e loucas da sua imaginação, deixou a cabine o mais silenciosamente que pode, evitando acordar Tara.
Procurou uma água, mas não havia copo e, estupidamente, deixara a varinha dentro da cabine. Pensando que um pouco de ar puro talvez funcionasse tão bem quanto, Bervely atravessou todo o corredor do vagão e abriu a porta na sua extremidade, achando-se na pequena área externa protegida por uma grade baixa, logo antes de onde um vagão se unia ao outro. O forte deslocamento de ar por conta da velocidade bagunçou o seu cabelo, mas ela não se incomodou; na verdade, achou que o frio era bem vindo.
Dali podia ver a sucessão de colinas escocesas em uma ondulação veloz, mas o céu fixo e constante, uma infinita cúpula de estrelas emborcada sobre a Terra. Fechou os olhos, desfrutando da velocidade, muito mais perceptível ali fora, a trepidação e o ruído dos trilhos esvaziando sua mente dos vestígios do pesadelo.
– Ah, é você. Eu devia ter imaginado. – disse uma voz que mal chegou aos seus ouvidos através do vento. Ela virou-se para confirmar quem era o dono; como pensara, Wood estava ali fora, aqueles olhos castanhos cintilando em sua direção. Devia saber que o capitão ia aproveitar a impossibilidade de fuga daquela viagem para encurralá-la, já que ele tinha estado muito quieto naqueles últimos dois meses desde o dia dos namorados.
– Eu estava imaginando quem seria maluco o suficiente para vir aqui fora a essa hora da noite arriscando cair do trem e ser esmagado pelos trilhos.
– E você pode imaginar quem seria ainda mais maluco de seguir essa pessoa.
Ele fez uma careta de desagrado, depois ficou ali parado lhe olhando com os olhos apertados por causa do vento. Bervely tinha plena consciência do caos que devia se parecer, o cabelo desalinhado, a camisa amassada e todo o resto, sem falar as botas com as manchas de vômito de mandrágora que não saíram, não importa o quanto tivesse esfregado. Gostaria que ele parasse de fazer aquilo.
– Motivo de prioridade acadêmica? – disse Wood por fim, mais do que levemente intrigado. Ela rolou os olhos para a citação do termo que usara na carta.
– Tenho muito o que fazer na escola. Estou quase que cuidando sozinha das malditas plantas de Sprout.
– Seria mais fácil pra você se não colocasse tanto esforço em me evitar. – ele rebateu, sem parecer zangado – Faria da sua vida um bocado mais fácil.
– Você não sabe disso. – resmungou, cruzando os braços. Tinha muita coisa em sua cabeça para ficar sustentando aquela troca de farpas com Wood, e gostaria que ele fosse embora. Ou então que apenas ficasse calado, já estava bom pra ela.
– Você sempre faz isso?
– O quê? – questionou impaciente. Não pode deixar de reparar que ele usava uma camisa de algodão branca de mangas longas, mas não muito grossa e que era completamente suscetível ao vento, grudando-se ao seu tronco. Ele devia estar com um bocado de frio, embora não demonstrasse.
– Se afastar das pessoas que se importam com você. – falou sem rodeios. O olhar dele era implacável, mais escuro na noite, e se possível mais intenso.
– Está se referindo à você? – Bervely torceu sua boca numa troça incrédula – Faça-me o favor.
– Não só à mim, à sua irmã também. Lembra-se dela? Pequena, um pouco irritante, mais fofa que um pelúcio cor de rosa?
Rolou seus olhos, apertando mais os braços cruzados.
– Não estou me afastando dela. Apenas não tenho motivos para me aproximar, já que fora o fato que dividimos alguns genes paternos não podíamos ser mais diferentes.
– Você disse a ela que perdeu o interesse. Porque precisa ser cruel? Ela ficou arrasada!
Aquilo arrancou um bocado da sua pose de descaso.
– Eu não estava falando dela.
– Não foi assim que ela entendeu. – ele rebateu, perscrutando seu rosto em busca de uma expressão que denunciasse que Bervely se importava. Incomodada, virou-se de costas para ele, apoiando-se no gradil e inclinando um pouco o corpo para frente, deixando o cabelo pender sobre o rosto.
– Não faça isso! – ele exclamou, se aproximando por trás dela e a puxando pelos ombros. Bervely se chocou com ele e sentiu contato da parte de trás do deu corpo com o peito, quadril e pernas do capitão. Seu coração foi parar na garganta e suas mãos apertaram o gradil com força. Wood se afastou como se tivesse levado um choque. – Desculpe. Você me assustou. Não faça mais isso. – grunhiu.
Ela esperou um minuto para que o seu coração entrasse nos eixos. Tinha plena consciência de que ele ainda estava muito perto, tanto que se chocaria com ele caso se virasse, e a perspectiva a fazia se sentir muito quente. Procurou falar qualquer coisa que a distraísse daquela consciência corporal perturbadora.
– É para o bem dela. – falou por fim, firmando a voz.
– Que bem ficar magoada faria à Loren? – ele perguntou baixo. De onde estava, não precisava mais quase gritar para ser ouvido.
– Você não entende. As coisas que eu descobri aquele dia… ela não precisa saber de nada disso. Ela tem a chance de seguir vivendo tranquila, sem saber quem o pai dela era.
– Mas você não precisa necessariamente contar, precisa?
– Não. Mas ela vai descobrir um dia… e vai me odiar por isso. Por que não lhe poupar o trabalho? Será mais fácil se não tivermos qualquer proximidade agora, e lhe evitará decepção ou arrependimento no futuro.
Ele soprou em descrença. O hálito quente alcançou o pescoço de Bervely e lhe arrepiou todos os pelos.
– Você está querendo evitar que a sua irmã goste de você?
– Eu estava falando de proximidade, mas se você quer por nesses termos…
Ele soprou de novo. Bervely gostaria que ele parasse de fazer isso, em nome do seu autocontrole.
– Tarde demais, Black. Ela já gosta de você.
– Como pode possivelmente saber disso? De repente agora você é algum expert nas emoções infantis e eu não estou sabendo? – zombou, olhando de relance para ele, em tempo de ver um sorriso lateral condescendente se formar.
– Não preciso. Ela fala de você o tempo todo. Nesses dois meses, não houve um sábado em que ela não me pedisse para ir até você, e lhe convidar de volta ao Clube.
O coração de Bervely pesou, ela não sabia o que era aquilo. Um tipo de dor diferente, misturada com culpa.
– Ela vai superar. Pode ajudá-la saber que isso não é uma possibilidade, você não lhe disse isso? Se o próprio capitão não tem mais interesse, ela certamente não alimentaria esperanças.
– Acontece que isso não seria uma verdade. – ele disse perto do seu ouvido. Seu baixo ventre todo se contorceu em agonia, mas ela aguentou firme, se aferroando mais às barras e cerrando os olhos.
– O que quer dizer? Está há dois meses ignorando a minha existência porque secretamente espera que eu volte? Difícil de acreditar.
Ele deu uma risadinha.
– Eu estava lhe dando espaço. Me pareceu que você precisava de algum, depois daquilo no dia dos namorados.
A menção ao dia em que ele a encontrara em prantos no vilarejo de Hogsmeade lhe provocou um desconforto que tentava a todo custo ignorar. Ela não podia se lembrar da última pessoa que a vira chorar, e ela certamente não se recordava de alguém lhe abraçando daquela forma quando estava tão fora do seu controle. Se sentira exposta, nua diante de um estranho, e ao mesmo tempo, quando ele a apertara nos seus braços, o batimento doloroso em seu peito se acalmara. Não completamente, mas se tornando suportável, de uma forma que ela não entendera.
Sentira que não podia olhar para ele, na época, ou mesmo lhe explicar o que tinha acontecido, quando nem mesmo ela sabia. No caminho de volta à Hogsmeade, enquanto pensava em tudo que Remus lhe contou, emoções que nem sabia possuir lhe invadiram; sentimento de vulnerabilidade, de perda, de culpa, saudade de algo que nem chegara a ter, de confusão a respeito de quem ela era, do que estava destinada a ser… até a incerteza do seu lugar no mundo, afinal não tinha uma casa, não tinha uma família, não sabia o que seria da sua vida quando Hogwarts terminasse, a consciência de tudo desabara sobre ela e a levara a explodir naquele choro incontrolável e desamparado no qual o capitão a encontrara.
Mesmo agora não sabia bem como olhar para ele. Sentia que Wood tinha acesso a muito mais do que devia sobre ela, e que poderia ler atrás da sua máscara de indiferença e encontrar as perturbações que a inquietavam o tempo inteiro.
Ele saberia o quanto era fraca, porque ele tinha visto.
– Aparentemente você ainda precisa de algum. – ele murmurou após o longo silêncio dela, e Bervely sentiu que se afastava – não tem problema, eu volto em mais dois meses…
– Não! – ela se virou rápido, ficando sem jeito quando Wood voltou-se surpreso. Bervely suspirou de irritação consigo mesma – pode ficar, apenas… não mencione esse dia. Acha que é possível?
Ele deu um sorriso mínimo.
– É claro. – voltou a se aproximar, não tão perto quanto estivera antes, mas definitivamente perto. – Então… o que está indo fazer fora da escola? Você tem mesmo um encontro com Hagrid?
Ela sentiu o rosto esquentar, precisava lembrar de colocar uma poção de coceira na bebida do meio-gigante por ter dito aquilo para o vagão inteiro.
– É apenas uma tarefa de Herbologia com a qual ele não consegue lidar sozinho.
– Que alivio. Eu já estava ficando com ciúmes.
Ela abriu a boca mas a fechou em seguida, olhando para o outro lado.
– E depois? – mesmo que não estivesse olhando, sabia que ele sorria daquele jeito meio arteiro que fazia às vezes.
– Depois… eu ainda não sei.
– Não vai visitar a sua família? Eles não estão te esperando?
– A minha família é puro sangue, não liga pra a páscoa. – disse, apesar de não saber de qual “família” exatamente estava falando. Percebeu que não pensava mais nos Malfoy desse jeito há algum tempo, e os Tonks… eles festejariam páscoa? Nimphadora não estava no vagão, mas ela ia treinar durante o feriado, como estava fazendo todo fim de semana.
Foi quando percebeu que teoricamente, a família de Wood não devia ligar também.
– E você? Não me diga que é nascido trouxa e mentiu pra mim esse tempo todo.
– Eu não “menti”, mas não contei a história inteira. A minha mãe se casou com um trouxa depois do meu pai, e ela tem vivido meio ao modo trouxa desde então. Eu tenho uma irmã pequena que ainda não manifestou magia, então por enquanto temos lhe dado o melhor dos dois mundos.
Ela arregalou um pouco os olhos para aquelas informações.
– Você tem uma irmã? E sua mãe casou com um trouxa? Você não me disse nada disso no Halloween quando estava tagarelando sobre a sua família!
Ele riu, dando de ombros sem nenhum constrangimento.
– Eu omiti essas informações. Percebi pelo modo como falava que talvez isso te espantaria pra longe de mim antes que eu pudesse te mostrar o quão legal eu sou e ter uma chance com você.
– E você já me mostrou o quão legal você é? – perguntou, erguendo muito as sobrancelhas.
– Sim. Eu basicamente mostrei, sim.
– Eu devo ter perdido alguma coisa então.
– Não perdeu, não. Você riu um bocado aquela noite.
– Isso porque eu não sabia que você era grifinório – se defendeu, tentando salvar alguma dignidade – e aquela bebida horrorosa, Delírio Fumegante, me tirou do meu juízo perfeito!
– Sim, culpe a bebida! – Wood gargalhou. Não pode deixar de notar como ele tinha o sorriso bonito, fácil, branco. – Foi o Delírio Fumegante que estava querendo se aproveitar de mim, também?
– Não sei do que está falando, Wood.
– Não mesmo? Você quase me beijou, não pense que me esqueci disso. Se não fosse Holmes subindo a pedreira, você teria me agarrado ali mesmo.
Ela quase saltou em ultraje.
– Como ousa? Se eu me lembro bem, foi você quem teve a ousadia de roubar um beijo de mim na despedida!
Ele riu descaradamente, sem parecer nem um pouco constrangido por isso.
– Você me largou lá embaixo e passou o resto noite com Holmes no topo da pedreira, eu precisava tirar alguma vantagem!
– Você é desprezível. – acusou, estreitando os olhos para ele. – Eu não acredito que te deixam solto por ai exalando toda essa desprezividade sem uma placa ou alguma coisa assim avisando.
Ele estava gargalhando agora. Vincos apareciam ao lado de seus olhos quando ele fazia aquilo; na verdade ele gargalhava com o corpo todo.
– Eu não tenho certeza que isso daí é uma palavra de verdade. – disse entre risadas.
Bervely cruzou os braços, meneando a cabeça, mas sem poder refrear um sorriso. Seu coração estava aquecido, como há muito tempo não sentia. Eles ficaram em silencio por alguns minutos, mas não havia nada de constrangedor dessa vez.
– Escuta, Black… eu sei que você não precisa, mas se quiser contar comigo pra alguma coisa… é só pedir.
Ela lembrou de todas as coisas que gostaria de fazer, mas não podia, e suspirou pesadamente, o momento leve se dissipando no peso da sua existência complicada.
– Eu não vejo o que você poderia fazer, Wood.
– Companhia. – ele disse prontamente. Ela sorriu de lado.
– Ah, tudo bem, mas eu já tenho Hagrid, ele é mais que suficiente.
– Não, à sério. Não precisa fazer tudo sozinha o tempo inteiro.
Ela riu pelo nariz, descrente da proposta. Desde que fugira da mansão Malfoy tinha a sensação de que estava sozinha o tempo inteiro. Haviam pessoas em torno dela e até ajudando, como os Tonks, mas eles não entendiam. E não via como Wood, sendo quem ele era, tendo a vida perfeitamente nos eixos desde que se entendia por gente, poderia compreender qualquer coisa sobre os seus problemas.
– É. Certo. – ela disse, quando se deu com o olhar intenso e seguro dele pela segunda vez aquela noite. – Vou me lembrar disso.
Ele sorriu.
– Nós devíamos entrar. Sei que você não sente frio, mas eu estou congelando e já deve ser bem tarde.
– Eu suponho. – ela disse mas não se moveu, olhando pensativamente para baixo, onde o chão passava veloz sobre os trilhos. Quando ergueu o rosto mais uma vez, ele tinha dado um passo para frente e estava perto. Tão perto que ela tinha que erguer o rosto um pouco para encará-lo.
– Eu gosto mais de você quando está sorrindo. – disse Wood, abaixando os olhos para a sua boca e provocando mil vespas em seu estômago. – depois daquele dia da festa, fiquei achando que não conseguiria mais te fazer rir, foi uma batia preocupação até hoje.
– Não leve para o lado pessoal. Eu sou assim com todo mundo.
– Eu não sou todo mundo… – ele retrucou suavemente, sem tirar os olhos de seus lábios, e ela soube o que ele faria agora, o que estava criando coragem para fazer.
– Não, você não é. – murmurou, deixando os olhos caírem para a boca dele também.
Os lábios apenas se roçaram quando a porta se escancarou, o barulho fazendo com que se afastassem como dois gatos assustados. Era Tara, parecendo um leão em chamas com o cabelo todo inchado ao redor de si, a expressão não muito melhor que isso.
– Bervely! – ela sibilou irritada – são quatro horas da manhã! Ficou louca? Se o Hagrid te pega aqui? E com… – olhou com desprezo para a sua companhia – ele?
– Imagino que ele ia gaguejar pra mim, todo atrapalhado? Vai dormir Holmes, mas que inferno. Você não tem que agir como a dona do mundo fora de Hogwarts, seu distintivo aqui não vale nada.
– Na verdade tecnicamente ele vale – ela rebateu com orgulho e irritação mesclados – Como eu sou a única monitora no vagão, sou a segunda em comando. E eu não posso te arranjar uma detenção aqui, mas posso muito bem escrever um relatório de indisciplina e enviar pra Snape assim que eu chegar em casa.
– Eu já estou indo – sibilou, ultrajada com a ameaça baixa – não porque você quer, mas porque eu já estava mesmo. Agora, se importa?
Tara se retirou, batendo a porta com força na saída. Bervely estava fumegando, mas Oliver se divertia.
– Ela parece com ciúmes. – ele observou, rindo – Você são um bocado próximas, né? Foi depois daquele dia na pedreira, quando você salvou a vida dela?
– Algo assim. Grande erro, aliás. – praguejou, um comichão em seus dedos para se fecharem em torno do pescoço da ruiva.
– Ela nos interrompeu no meio de uma coisa importante pela segunda vez. Isso está começando a se tornar um hábito.
– Eu tenho que ir, Wood. Seria realmente péssimo se Tara escrevesse aquele relatório para Snape, como se eu já não estivesse despertando a ira dele o bastante, ultimamente.
– Se você diz… boa noite.
– Boa noite.
Ele avançou em sua direção e Bervely se retraiu involuntariamente, então ele se refreou e ergueu suas mãos em rendição.
– É só um beijo de boa noite. Casto. Vê? – se inclinou, encostando e estalando os lábios em sua bochecha, sem nunca tocá-la com nenhuma outra parte do corpo. – Nada demais. Não precisamos apressar as coisas.
Ela assentiu entrando no vagão em seguida, e enfim soltando a respiração. “Nada demais”, dissera ele. No lugar em que seus lábios encostaram, a pele queimava como se marcada à fogo.
– BD –
– Tem certeza que pode fazer isso sozinha? Eu posso acompanhar você se quiser…
– Eu tenho dezesseis anos, não seis. – ela retrucou com arrogância – Posso pegar um flú sozinha, Hagrid.
– Bem nesse caso… está bem, então, obrigado por toda ajuda, eu jamais saberia diferenciar aquelas cepas de descurania… e o líquido cefaloradiano, meu deus…
– Cefalorraquidiano – ela corrigiu pela quinta ou sexta vez naquele dia – Disponha. Foi, hm… foi proveitoso trabalhar com você essa manhã. Tem certeza que não quer que eu envie os ingredientes?
– Não, tudo bem – ele fez um aceno com a mão gigante, quase atingindo um passante que precisou se abaixar para desviar. – Ops, desculpe! Vou passar na central de corujas daqui, e depois no banco, assuntos confidenciais de Hogwarts, você me entende.
– Claro. – ela assentiu, forjando um sorriso. Não podia estar menos interessada no que quer que ele tivesse de fazer com o resto do seu dia – Vá em frente. Não me deixe te atrapalhar.
Enfim o guarda-caças de Hogwarts se convenceu a deixá-la ali, na porta dos fundo do Caldeirão Furado, e voltar para o Beco Diagonal gingando. Bervely exalou longamente em alívio; aquela fora uma manhã complicada, cansativa, trabalhosa, atrás da lista de ingredientes de Snape. Hagrid com certeza não teria conseguido fazer metade do que ela fizera, negociar com boticários e escolher componentes mais frescos ou processados a depender da necessidade, e não aceitar a primeira (e normalmente de qualidade inferior) coisa que lhe ofereciam.
Mas, ela poderia ter feito tudo isso sem o gigante. Ele não era terrível, mas atrapalhado e um tanto desastrado. Se distraia com a maior facilidade – não a melhor pessoa para se ter como companhia entrando e saindo de lojas cheias de coisas estranhas em frascos. Precisara dissuadí-lo de comprar sementes de giravelas mordentes mais de uma vez, explicando-lhe porque não era uma boa ideia plantar isso nos terrenos de um lugar onde crianças circulavam.
Uma vez sua missão cumprida e livre do gigante, Bervely entrou no Caldeirão Furado e sentou na mesma mesa que ocupara há quase um ano, ao fugir da Mansão Malfoy sem nada que as roupas de seu corpo, sua varinha, um livro e uma aranha. Não estava muito melhor agora em termos de pertences, mas pelo menos tinha um objetivo em mente, o que a separava e muito daquela garota perdida que fora na ocasião.
Depositou na mesa duas coisas: a primeira, um folheto informativo, que pegara escondido de Hagrid no módulo oficial do ministério, localizado ao lado da loja de varinhas. O outro era um saco de moedas que o próprio meio-gigante lhe passara mais cedo. “O Prof. Snape mandou lhe entregar. Disse que era para comprar sapatos novos.”
Ali havia muito mais do que suficiente a compra, e Bervely ficaria feliz em devolver tudo a ele com uma resposta da linha “eu não preciso da sua caridade”, mas a verdade é que ela precisava. O que não tinha nada haver com os sapatos novos, aliás.
A primeira coisa que fez foi pedir ao dono do bar – e pagar por – um punhado de flú. Havia uma lareira num canto afastado depois das mesas, reservada para clientes que queriam alguma privacidade, e foi nessas chamas que jogou o pó, falando o nome do morador da casa e esperando que bastasse. Enfiou a cabeça na lareira e sentiu a nauseante sucessão de outras lareiras conectadas enquanto a rede procurava a sua solicitação.
Finalmente uma sala de estar simples e bem arrumada surgiu na sua frente. Uma garotinha brincava de se equilibrar no braço do sofá, e virou o rosto quando ouviu o estalar das chamas. Ela tinha longos cabelos castanhos, olhos redondos da mesma cor, e não parecia surpresa por encontrar uma cabeça na lareira da sua sala.
– Olá. – cantou, prolongando o “a” em sua voz muito infantil.
– Olá. Essa é a casa dos Wood?
– Não. Essa é a casa dos Phelps. A minha mamãe era uma Wood, mas ela mudou de sobrenome quando eu nasci.
– Ah, certo. E por acaso o seu irmão…
– Eu sou a Meghan! – exclamou, ignorando a pergunta de Bervely, provavelmente a achando mal educada por não perguntar – Você quer me ver de cabeça pra baixo?
– Eu não penso que…
Mas Meghan decidiu que ela queria, porque se pendurou pelas pernas no braço do sofá e deixou cair o tronco, seu cabelo se espalhando pelo chão.
– Hum, fascinante. Será que você poderia chamar o seu irmão agora?
– Oliver? Ele não gosta de ficar de cabeça pra baixo! Ele é um chato.
– É, eu não posso discordar de você. – disse, aliviada em saber que milagrosamente conseguira chegar à lareira certa. – Talvez você pudesse chamá-lo, e eu lhe darei um beliscão por isso.
– Oh, você faria mesmo? – ela arregalou muito os olhos em extasiada expectativa. De ponta cabeça a sua expressão era ainda mais engraçada – Promete?
– Não seria um grande esforço.
– Tudo bem!
Meghan se ergueu sem metade da dificuldade que Bervely teria para sair daquela posição, e passou por uma porta no fundo da sala. Mal teve tempo de observar o misto de decoração predominantemente trouxa quando ouviu passos e logo surgiu em sua linha de visão a garotinha e atrás dela, parecendo um bocado descrente, Oliver.
Ele quase engasgou quando viu a cabeça de Bervely pairando ali entre as chamas.
– Sangue de Griffyndor! Black? É você mesma?
– Eu te disse, eu te disse! – a menina cantarolou à sua volta, saltitando como um pequeno grilo. – Eu te disse que tinha uma cabeça na lareira!
Bervely precisou fazer um grande esforço para não rir de Wood; ele usava pijamas muito constrangedores com estampa de pomo de ouro. Seu cabelo parecia um ninho de marfagafos, e a cara amassada indicava que mal tinha saído da cama, embora já fosse quase meio dia.
– É, ninguém além de mim usa essa lareira. Eu nem sabia que ela fazia ligações – murmurou, assombrado, se abaixando no nível do fogo – Aconteceu alguma coisa?
Ela abriu a boca para responder, mas Meghan pulou no colo do irmão e o abraçou pelo pescoço cochichando algo em seu ouvido. Oliver a escutou com um ar de riso, depois a menininha escondeu o rosto em seu pescoço com vergonha.
– Você disse à Meghan que ia me dar um beliscão?
– Eu não– isso… argh. – rolou os olhos – Sim. Mas isso não vem ao caso.
Meghan deu uma olhada de soslaio para Bervely, depois cochichou outra coisa no ouvido do irmão e voltou a esconder seu rosto. Oliver riu.
– Ela quer saber se você é minha namorada.
Ok, aquilo estava ficando ridículo.
– Ah, que saber, Wood? Deixa pra lá, não era importante. Nos vemos em Hogwarts.
– Não, espera! – ele ainda ria, mas só um pouquinho, e tentava ficar sério – Megs, pode ir lá na cozinha avisar à mamãe que eu já acordei e estou morrendo de fome?
– Hoje tem macarrão com queijo! – ela exclamou, e depois disse baixinho – cuidado com o beliscão. – e saiu correndo da sala, tão leve que praticamente quicava.
– Desculpe por isso – ele sorriu mordendo os lábios – Megs pode ficar um pouco ciumenta na presença de garotas bonitas.
– “Garotas bonitas”?
– Palavras dela, não minhas – ele defendeu, erguendo as mãos em remissão de sua culpa – Ela me acordou dizendo isso literalmente, “Ol, tem uma menina bonita na lareira querendo te ver.”
– Sua irmã sabe das coisas. Escuta… o quão ocupado você está agora?
– Meu único compromisso é com o macarrão com queijo.
– Certo – ela rolou os olhos para o comentário – Acha que pode… ir comigo num lugar? Preciso de alguém que seja maior de idade. E você é, certo? Ouvi dizer que já passou no teste de aparatação.
– Sim, fiz durante as férias de natal. Onde quer ir?
Preferiu mostrar o folheto a dizer em voz alta, e isso exigiu que o seu braço fizesse a viagem até a lareira de Wood, o que demorou um pouco. Quando ele viu o nome impresso no papel, ficou sem fala, a boca meio aberta no caminho de um pensamento interrompido.
– E então? – perguntou com impaciência.
Oliver olhou para os dois lados antes de responder bem baixinho.
– Então você vai ver ele?
– Vou tentar. – admitiu, a garganta ficando seca com a perspectiva.
O rapaz considerou por um momento. Ela já estava quase achando que o seu pedido era demais quando ele por fim assentiu.
– Tudo bem. Onde você está? Só vou trocar de roupa e te encontro.
– Não vai almoçar? E o seu macarrão?
– Existem coisas mais importantes que macarrão no mundo.
Ela assentiu, no fundo grata, não achava que conseguia esperar mais tempo com aquela urgência borbulhando dentro de si.
– Estou no Caldeirão Furado.
– Chego ai em quinze minutos.
(Continua…)
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