Indigna Rosa Negra
5 O Nome da Rosa
Notas iniciais
"What's in a name? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet.”¹
(William Shakespeare)
1981, alguns dias mais tarde.
Duas sombras negras surgiram, aparentemente do nada, nos jardins escuros que fronteavam Blackburn Hall. A sombra mais esguia ergueu a varinha e pronunciou a senha que os deixariam passar pelos portões, e quando este se abriu, ela entrou na frente, e pelo modo que andava, era evidente a sua irritação. Uma vez do lado de dentro da propriedade, puderam aparatar para o andar mais alto da casa, onde ficava a biblioteca.
– Agora é uma boa hora para me explicar o que está acontecendo! – Bellatrix, exasperada, tirou a sua capa de viagem. O cabelo escorregou, encobrindo um rasgo grande em sua blusa.
Rodolphos também tirou a capa e a depositou em uma das cadeiras. Ele fitou bem a esposa com os olhos estreitos e perigosos.
– Eu disse para ficar longe daquela casa!
Bellatrix deu uma longa e alta gargalhada forçada.
– Seu paspalho! O que você queria, que eu lhe obedecesse?
– Seria bom uma vez na vida. – ele trancou os dentes, segurando-a fortemente pelo antebraço – Evitaria problemas!
– Você terá problemas se não me largar agora. – ela ameaçou, sacando a varinha e empurrando-a no maxilar anguloso do homem com quem se casara há poucos meses.
– Isso é ridículo.
Ele a largou, percebendo sangue em sua mão. Sangue dela. Estava machucada. Ele riu com aquilo.
– Então a garota feriu a poderosa Bellatrix Lestrange? Mas quem diria...
– Uma pirralha trouxa me feriu com uma emissão mágica involuntária, Rodolphos! – a morena estava lívida, uma veia pulsando insanamente em seu pescoço e a mão da varinha tremendo. – Isso faz algum sentido pra você? — uma cena de perda de controle de Bellatrix era rara, mas o marido começava a criar prática em lhe tirar do sério.
– Ela não é uma trouxa. – ele disse baixo, contrastando com o tom elevado dela. Fitava um ponto em seu ombro, não seus olhos.
– Isso eu obviamente sei, agora. – ela sibilou. A varinha ainda estava em punho, e apontada para ele. – Mas me diga, o que você sabe e esqueceu casualmente de me contar sobre essa missão?
– Não é da sua conta.
– Tudo é da minha conta, Lestrange! – Bella bradou. Um raio de luz disparou de sua varinha, Rodolphos se esquivou e o feitiço atingiu o vidro da janela, estilhaçando-o.
A porta da biblioteca se abriu, revelando o rosto sonolento de Bevy. Ela coçou os olhos com as costas da mão. Olhava confusa para o casal.
– Vocês estão brigando?
– Saia daqui, Bervely! – Bella brigou – Você não tem permissão para sair da cama a essa hora da noite!
– Eu tive um pesadelo. – a menina tentou explicar, estremecendo, todavia a mãe andou em sua direção ameaçadoramente.
– Vá pra o seu quarto agora, não me desobedeça!
– Meu braço dói! – Bevy choramingou, mostrando o pulso onde o lugar da marca da rosa estava roxo e inchado.
– Fora daqui! – com um aceno da varinha de Bella, Bevy foi empurrada para o corredor e a porta da biblioteca fechou-se com um estrondo. A mulher se virou para o marido como se tivesse a raiva duplicada.
– Porque eu não devia ter encostado na casa, Rodolphos? O que havia de tão especial ali? Será que a mulher que matei é uma das suas ex-namoradas? Ou...
– Não seja estúpida, Bellatrix! – ele agora não estava tão calmo. – Aqueles trouxas imundos que vão para o inferno!
– Então qual o seu problema? A garota é o seu problema?
– Sim! – ele bateu o punho fechado na mesa. – A garota é o meu problema! É a minha sobrinha! – revelou com ferocidade.
– O quê? – os olhos da Black faiscaram perigosamente, alargados – você é aparentado com sangues ruins?
– Como se não houvesse escória em sua família também. – ele envenenou – Mas ela tem sangue puro. Era filha da minha irmã com um puro-sangue. Quando morreram, ela foi adotada por aquele casal. E agora eles estão mortos também, por sua causa!
– E por que diabos você se importa tanto? Que eu saiba nunca ouve sentimentalismo familiar dentro desse seu coração de pedra!
Ele a olhou atravessado. Seus olhos tinham uma faísca de mágoa, o tom vinho estava escuro, as pupilas dilatadas.
– Eu amava a minha irmã.
– Que está morta. A pirralha não tem nada haver com isso, Rodolphos.
Rodolphos mal lhe deu ouvidos. Estava perturbado, passou a mão pelo cabelo castanho com nervosismo e fitou a esposa, claramente em meio a um dilema.
– Eu vou buscá-la.
Bellatrix largou o tom ameno imediatamente.
– Você vai o quê? O que você pensa que...
– Vou trazê-la. Ela ainda é uma Lestrange.
– Você não vai a lugar algum, Rodolphos. – Bellatrix tinha a varinha erguida novamente, apontada para o coração disparado do marido. – Eu conheço a história da sua irmã. Ela largou o marido por um homem que, embora puro-sangue, era um aborto, e ela teve um filho com ele. Essa menina é filha de um aborto. Ela não vai viver sob o meu teto.
– A minha sobrinha não é pior que a sua cria com Black, Bellatrix, no entanto eu deixei que ela ficasse!
– Bervely é uma criança poderosa. O Lord tem planos para ela, não é como se você tivesse escolha.
– Tudo que eu sei é que ela é fruto de um incesto asqueroso com um protetor dos trouxas e traidor do sangue! E não me venha com essa de que o Lord tem planos! Você a queria aqui simplesmente porque é uma forma de manter viva a memória do seu priminho desprezível, que você tanto perseguiu!
– Nunca mais repita isso, Lestrange! – Bella urrou – Você acha que sabe das coisas que passam em minha cabeça, mas você nunca vai ter a menor idéia!
– Isso está mais que em sua cabeça, mulher, está escrito em sua testa, sempre esteve.
– Vá pro inferno, desgraçado! Cruccio!
Rodolphos escapou da maldição apenas porque tomou sua forma animaga de raposa.
Mais rápido que o movimento da varinha de Bellatrix foi o pulo que ele deu através janela quebrada, aterrissando na grama aos trancos. Transformou-se em homem novamente, encarando a face pálida e enraivecida da esposa pela janela.
– Eu vou buscá-la, querida. Não me espere para o jantar... – avisou num tom desafiador, correndo e depois desaparatando sob a noite sem estrelas.
– Desgraçado! Desgraçado! – Bella gritou, apontando a varinha a torto e a direito, seus feitiços atingindo as prateleiras e derrubando toda sorte de livros e decoração, provocando um barulho que atormentaria os vizinhos, caso tivessem algum. – Se ele pensa que vai trazer a bastarda... se ele pensa que eu vou aceitar aquela desgraçadinha sob meu teto...
Escancarou as portas da biblioteca, pronta para seguir a passos furiosos pelo corredor, e por pouco não tropeçou em Bervely que, percebeu, se encolhera no canto da parede oposta e a encarava com os olhinhos se destacando na sombra, abraçada aos joelhos.
– Eu mandei ir para o seu quarto – sibilou raivosa. Bevy se encolheu mais um pouco. — Levante!
A criança se levantou e tentou correr dali, um pouco desorientada pela dor do braço e pelos gritos da briga entreouvida. Foi inútil. Bellatrix a agarrou pelo pulso dolorido, provocando um grito, e começou a arrastá-la sob protestos.
– Desculpa, desculpa, eu juro que vou agora pro meu quarto, eu juro que vou… — ela choramingou enquanto era arrastada.
Bella abriu a última porta do corredor e jogou a menina ali dentro com força, fazendo-a cair sobre os seus joelhos.
– Você vai aprender a ser obediente, menina. Vai me agradecer por isso um dia.
Trancou a porta com um feitiço antes que a filha levantasse. Bevy alcançou a porta e bateu as mãos com força, pedindo para sair, até ficar tão cansada que não conseguia mais gritar, e sentou-se, respirando em arquejos o ar pesado do cubículo. Era um lugar frio, escuro, com um cheiro abafado de madeira apodrecida.
Ela não conseguia ver nada e suas sensações pareciam se resumir no pulsar doloroso do elo entre ela e a mãe. Então já não era o escuro que via. Eram olhos vermelhos na penumbra. Era o sibilar de uma serpente enorme se aproximando. Era um assobio desagradável, uma voz ofídica e malvada. Bevy pensou que gostaria de gritar agora, se ela pudesse, mas tudo que lhe coube fazer foi se encolher em um canto segurando o braço e chorar baixinho.
–BD-
Rodolphos encontrou Bella sentada no sofá, ao lado da lareira, com um copo de whisky nas mãos. Aparentava estar mais calma, e o reflexo das chamas do fogo faziam desenhos em seu rosto e no colo leitoso, maculado por arranhões ainda avermelhados.
– Essa é sua forma de retaliação, beber do concorrente? — fez um sinal para a garrafa de wisk de fogo Ogden ao seu lado no aparador.
Bellatrix desfrutou do prazer de ignorá-lo por alguns instantes, terminando a bebida em seu copo.
– Bervely está tendo uma reação ao encantamento do Lord. Mas deve ficar quieta até o amanhecer, eu dei um jeito nela.
– Pobre coração de mãe, deve estar em grande sofrimento.
– Eu saberia se eu tivesse um. – ela enfim se virou para encarar o marido, sua feição inescrutável – Não importa, ela não corre risco de vida. Eu sentiria se corresse. – justificou indicando a flor desenhada no próprio pulso.
– É uma pena. Isso faria o Lord perceber que às vezes superestima demais algumas pessoas.
– Falar nisso, onde está a que foi buscar? – a morena perguntou casualmente, esticando a mão e acenando para o elfo lhe servir mais Ogden.
Rodolphos vislumbrou por um momento o rosto que a sombra das chamas avermelhadas lambiam. Aqueles traços eram tão lindos quanto traiçoeiros.
– Ela está na sala. Está assustada e você a machucou bastante. Consegui explicar algumas coisas no caminho, mas me deixe tranquilizá-la antes que ela precise saber que vai morar com a assassina de seus pais.
– Como quiser – Bella saltou do sofá e se dirigiu à porta. Rodolphos, desconfiado, fechou a passagem com o corpo. Bellatrix suspirou exasperada, se vendo impedida de seguir seu caminho.
– Porque está sendo condescendente de repente? — ele sondou, com toda a desconfiança que a súbita mudança de humor dela requisitava.
– Decidi que tenho uma utilidade para ela. – Bella sorriu indolente. O típico sorriso Black que ela guardava para revelar seus requintes de crueldade.
– Utilidade? Ha uma hora atrás você nem queria ela aqui, e agora tem uma utilidade para ela?
– Ora, Rod. Uma mulher não pode mudar de idéia?
– Se tratando de você, Bella, é sempre uma mudança para pior.
– Fico feliz que já tenha esse conhecimento tão aprofundado de mim. Não será esse um casamento de sucesso? – com uma piscadela, Bellatrix o afastou e saiu da sala, seu olhar indiferente perpassando a porta do closet, de onde vinha um lamento contínuo e baixo.
Rodolphos, a seguindo, achou que o seu longo véu de cabelos negros cintilando na escuridão era um símbolo crônico de mau presságio.
–BD-
Bervely aprendeu a associar a primavera àquela garota estranha que surgiu em Blackburn Hall no final de abril. A única explicação dada fora que, agora que Tamby precisava voltar para a Mansão Malfoy, a garota ocuparia o seu lugar, cuidando dela. Estranhou ter um ser humano fazendo aquele tipo de serviço ao invés de um elfo, mas até que não era ruim. A menina Charlotte era boa em contar histórias, e nada no mundo jamais fora tão azul quanto seus olhos assustados.
– Você não tem que ter medo dos elfos — Bevy lhe explicou um dia, quando ela, não pela primeira vez, se escondeu tão longo uma das criaturas veio fazer a limpeza do quarto — não tinha elfos de onde você veio? Quem limpava a sua casa?
– Meus pais. — disse a menina num fio de voz.
– E onde eles estão agora?
– Mortos. — ela revelou, com um tremor. Morte lembrava à Bervely a caixa, o fundo da terra e as estrelas.
– Qual o seu sobrenome?
– Summers.
Bevy ficou com pena dos pais dela, que não eram Blacks e que não iam ocupar seu lugar entre as estrelas depois de tudo.
A primavera trouxe não só Charlotte Summers, mas uma incrível transformação dos terrenos em torno de Blackburn Hall. O tapete branco de neve derreteu e sumiu, dando lugar à planície que logo se tornou verde esmeralda. Sob ordens de Rodolphos, os elfos plantaram sementes, e o trigo de fogo brotou do chão, bem alto e alaranjado como um exercito em chamas. Do andar de cima, dava pra ver quando o vento soprava e a plantação se inclinava em ondulações que pareciam uma dança. O cheiro do trigo de fogo invadia e impregnava a mansão, às vezes pesando nos pulmões, quando ainda não estavam acostumadas.
Depois ficou bom, tão bom que Bevy começou a esperar os dias de vento que traziam todo o aroma para dentro de casa. Por outro lado, quando não ventava muito, elas podiam ir para o lado de fora, sentar sob a sombra de uma árvore e observar a construção das grandes casas de madeira do outro lado, onde haveria trabalho quando o trigo estivesse pronto para ser colhido.
Charlotte lia em voz alta, encostada a uma árvore que ficava bem abaixo da janela do quarto de Bevy. Esta sentara ao seu lado, os braços cruzados, a expressão aborrecida já há algum tempo. Isso fez a garota parar a leitura e suspirar, depositando o livro no chão.
– Que foi, Bevy? Não está gostando da história?
– Eu não gosto dessas histórias. – ela apontou para o livro de Charlotte – contos de fadas são estúpidos.
A mais velha a olhou com repreensão.
– Onde aprendeu essa palavra? Sua mãe não gostaria de te ouvir falando assim. Ela me mandou lhe ensinar a ler, e para isso você tem que acompanhar a história comigo.
– Mas essas coisas são mentira! Bruxas não tem casas feitas de doce, e príncipes não existem.
– Como pode dizer isso? É claro que príncipes existem. E se a bruxa quisesse, poderia fazer uma casa de doces para morar. Qualquer um poderia.
– Você não poderia. – Bevy se levantou – a minha mãe disse que você não tem magia o suficiente.
Isso pareceu magoar a garota, que levantou-se também.
– A sua mãe está errada. Eu posso fazer mágica sim!
– Não pode nada, ela te chamou daquele nome... aborto! Você é um aborto!
– Eu não sou um aborto! – Charlotte gritou. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela avançou para a garotinha, que recuou com os olhos estreitos.
– Fique longe de mim. Se você encostar em mim a minha mãe vai te castigar, Charlie, você sabe que vai.
– Eu vou contar a tio Rod que você está sendo má comigo.
O pulso de Bevy formigou dolorosamente, e ela o coçou com força.
– Minha mãe quer que eu vá para casa. Está ficando tarde.
Charlotte percebeu que o sol estava se pondo e, respirando fundo, pegou o livro do chão e seguiu em direção a mansão, com Bevy indo na frente.
Quando Rodolphos a resgatara dos escombros da sua antiga casa, ela tinha pensado que ir com ele seria uma coisa boa. Ele era seu tio de verdade, não era como seus pais que a tinham adotado, e ele lhe prometera um lugar seguro, a fizera pensar que seriam uma família. A extensão de seu engano voltava para zombar dela dia após dia em Blackburn Hall.
Naquela mesma noite, após adormecer, foi acordada por cutucões. A figurinha de Bevy numa camisola branca a fez despertar por completo.
– O que aconteceu?
– Quero que pegue um livro pra mim, Charlie. – ela sussurrou.
– O quê? É tarde, Bevy. Amanhã eu pego o livro que você quiser.
– Eu quero agora. – a pequena insistiu, séria.
– Teremos problemas se a sua mãe nos pegar fora da cama essa hora. – advertiu.
Bevy trouxe a mão para perto da luz da vela acesa e mostrou-lhe o que tinha consigo, fazendo Charlotte dar um pulo para longe da cama. Era uma aranha grande, viva e peluda se contorcendo na sua palma.
– Onde conseguiu isso? — perguntou à criança, com os olhos arregalados de repulsa apavorada.
– Eu tenho um monte delas. – Bevy disse – Se você não for comigo vou jogá-la em cima de você e ela vai comer o seu cabelo.
A mais velha mal conseguia expressar seu horror diante do inseto.
– P-porquê você não pega o seu livro sozinha?
– Eu não alcanço. – deu de ombros, um sorriso inocente nos lábios, idênticos aos de Bellatrix.
–BD-
A biblioteca estava silenciosa, assim como todos os corredores e aposentos pelo qual as duas passaram antes. Charlotte seguia o contorno de Bevy, trêmula de apreensão, conferindo o caminho o tempo todo. Por mais que achasse errada a idéia de estar ali desobedecendo o toque de recolher de Bellatrix, a aranha que a garotinha ainda segurava na mão a persuadia a ir em frente.
– Deve estar nas coisas de minha mãe. – Bevy indicou um armário de portas de vidro, onde já vira Bella guardar seus livros mais importantes.
– Não consigo abrir – Charlie forçou as portas do móvel, inutilmente. Bevy arrastou uma cadeira e a subiu, puxando o trinco de ferro, que estalou e abriu com facilidade. Olhou os exemplares antigos lombada por lombada e encontrou o que procurava. O livro grosso encadernado a couro era inconfundível, e ela lembrava do desenho gravado tanto na capa quanto na lombada – uma forma ladeada por dois lobos, e no centro, uma espada e duas estrelas.
– É esse.
Charlotte se esticou para apanhá-lo, mas sua mão tremia tanto que esbarrou numa caixa próxima, que caiu com um grande estrondo no chão, as sobressaltando. Seu conteúdo espalhou-se no carpete da biblioteca. Eram cartas de um baralho, pequenas estatuetas de vidro, fotografias, pergaminhos e um punhal cravejado de rubis.
Bevy pulou da cadeira, se agachando e estendendo a mão na direção do objeto, que tinha lâmina dupla e quatro extremidades cortantes.
– Bevy, é melhor não mexer nisso. – Charlie advertiu, um pouco sem fôlego, certa de que o barulho acordara um dos adultos – Vamos guardar essas coisas, anda.
Ela começou a pôr tudo de volta na caixa, e tentou tomar a arma da mão da menina. Um barulho a fez parar. Eram passos que se aproximavam da biblioteca, vindos do corredor. Isso fez a loira enfiar de volta a caixa no lugar e fechar a porta com um estrondo. Se afastou da mobília no mesmo instante em que uma luz quase a cegou. Piscou, conseguindo divisar a silhueta de Rodolphos, empunhando sua varinha acesa.
– Charlotte? – ele a olhou desconfiado – O que está fazendo aqui?
Ela olhou ao redor com o coração disparado, mas para a sua surpresa Bevy não estava mais a vista.
– E-eu... eu vim pegar um livro. Estava sem sono e lembrei que tinha esquecido um livro aqui então... eu, hum...
– Se já o pegou, é melhor voltar para a cama. Bellatrix odiaria vê-la andando pela casa no meio da noite.
– Eu não achei. O livro. – completou rapidamente – sinto muito senhor. Não queria tê-lo acordado.
– Antes a mim que a Bellatrix – ele disse com um meio sorriso – vamos, eu te levo até o quarto. Não faça isso novamente.
– Sinto muito. – ela seguiu até a porta, dando um último olhar preocupado atrás de si – Não vai se repetir.
Bevy esperou até não ouvir mais passos, então saiu de debaixo da mesa. Soltara a aranha sem querer, mas o livro estava bem seguro contra o peito. Ela admirou a capa cheia de símbolos, lembrando do olhar de sua mãe ao recebê-lo das mãos de Voldemort. Como ela o chamara mesmo? Um nome bonito, ela lembrou. O Signo Negro.
– BD -
Inquieta demais para ficar na cama, Bevy saltou para o tapete, atravessou o quarto e andou até a penteadeira, cujo espelho brilhava sob a luz do luar. Abaixou-se para poder ficar debaixo do móvel e enfiou a mão num buraco da madeira, uma pequena vala que ela descobrira ali embaixo há poucos meses. Era um esconderijo, concluíra da primeira vez que sua pequena mão se embrenhara em todas as teias de aranha, para logo em seguida perceber que compartilhava a sua penteadeira com toda uma família de aracnídeos.
Naquele momento ela esquivou de onde sabia que ficavam as criaturas e agarrou outra coisa – puxou com cuidado o livro pesado, trazendo-o para a para luz azulada que banhava o quarto. Quase não dava para ver os emblemas da capa, embora já a conhecesse de cor. Charlie lhe contara que o desenho era um brasão. Um brasão de família. Bevy gostava de como aquilo soava.
Abriu o livro numa página qualquer, mas não conseguia ver as imagens naquela escuridão. Desejou poder ter uma varinha, como a de sua mãe, para acender as velas, ou usar um Faisqueiro, como Charlie, mas não queria ter de acordá-la para pedir emprestado. Olhou de relance para a sua porta fechada – certamente do outro lado, no corredor, haveria a luz dos archotes acesos, os elfos sempre deixavam um ou outro ligado para não relegar a Blackburn Hall à penumbra.
Bervely, o livro bem seguro entre o braço e o peito, andou silenciosamente até a porta e empurrou, tendo que fazer força para conseguir movê-la uns poucos centímetros. Enfim conseguiu passar pelo espaço estreito, apertando o livro com mais força ao sentir o frio que fazia fora do seu quarto, apesar de já ser verão.
Olhou com atenção para os lados, e logo reparou a porta entreaberta do quarto da mãe, no fim do corredor. Seu coração deu um tranco desagradável ao perceber que alguma luz lá dentro estava acesa, indicando que Bellatrix ou Rodolphos poderiam estar acordados.
Seguiu a direção da faixa de luz, olhando lá dentro com ansiedade, e ficou tranqüila ao concluir que havia somente Rodolphos, roncando baixo no emaranhado de lençóis.
Bevy já esquecera da vontade de folhear o livro, intrigada com a ausência da mãe.
Atravessou o corredor e desceu as escadas, tratando de segurar firme no corrimão e apurar os olhos para não tropeçar em nenhum dos vinte e sete de degraus que a levariam para o andar inferior (agora que já podia contar tão longe quanto vinte e sete, saber o número de degraus lhe contentava muito).
Talvez achasse algum elfo para lhe dizer onde estava Bellatrix. E quando voltava. E se voltava logo, ou se era uma daquelas saídas que demoravam dias, e que deixavam a pequena aborrecida.
A sala da mansão era ampla, composta de quatro ambientes, um em canto, rodeando a imponente escada circular pela qual Bevy acabara de descer. Uma luz alaranjada a fez perceber que a lareira estava acesa e estalava alguns metros a frente, no espaço onde ficavam os sofás de couro preferidos de Rodolphos, perto do bar cheio de garrafas de wisk antigas.
A lareira pareceu uma boa ideia, porque ela tremia sob a camisola de linho. As mangas compridas não bastavam contra a brisa que entrava por algum lugar do amplo salão. E poderia descobrir o que havia de tão bom na poltrona de couro brilhante de Rodolphos que o fazia passar horas ali sentado.
Atravessou a sala até chegar perto do fogo. Bevy não reparou a ampla janela aberta nem a quantidade de estrelas que coalhavam o céu. Subiu a poltrona, o couro lustroso deslizando por suas pernas, e o achou bem melhor que o seu colchão mole. O cheiro já impregnado de álcool, o mesmo das manhãs produtivas com a destilação nos galpões, lhe parecendo menos enjoativo agora.
Abriu o livro na sua parte preferida, onde encontrava as fotos de homens e mulheres usando roupas engraçadas, quase todos a olhando esnobemente de volta para ela. Gostava de observar como algumas semelhanças eram bem evidentes entre eles; o constante cabelo liso e escuro, com poucas exceções, e os pares de olhos penetrantes que possuíam, variando de mortalmente entediados ou malignamente incisivos.
Eram tão obviamente a sua família, e a menina até reconhecera ali um homem muito parecido com o seu avô, um senhor magro e longo que tia Narcissa lhe mostrara uma vez num álbum. Distraiu-se decorando-lhes as feições, principalmente dos mais jovens e dos que achava mais bonitos. Sua preferida era uma mulher, uma das últimas, com um longo vestido que era cinza claro na foto preta e branca, que parecia bastante com a tia Narcissa, exceto pelos olhos muito escuros e repuxados nos cantos. O cabelo loiro lhe caía como um véu pelos ombros magros, até a cintura.
– Belvina Black. Minha tia-bisavó era uma senhora muito simpática.
Bevy deu um pulo, meteu o livro atrás das costas, ao mesmo tempo que girava o pescoço e vislumbrava a figura de Bellatrix, parada ao seu lado feito uma estátua de mármore. A menina mal pode conter a respiração ofegante – saltou da poltrona, tropeçando no tapete, o livro escondido atrás de si e os olhos arregalados para a figura materna. Sairia correndo se as suas pernas não estivessem tremendo tanto, e pediria desculpas se a garganta não tivesse travado.
Bella deu a volta na filha, sentou-se no sofá perpendicular à poltrona de Rodolphos e observou-a, agora sob a luz da lareira. Estivera debruçada no peitoril da janela observando o céu, isso até Bervely descer sorrateiramente as escadas e ocupar a poltrona do seu marido, se entretendo a seguir em folhear o livro que agora era o seu mais constante acompanhante, segundo a fiel Charlotte lhe contara. (E quem não era fiel com doses de Veritasserum em seu leite todas as manhãs?)
Sua mente vagara quando os olhos, presos na figura miúda da filha, presenciaram a cena tão parecida com a que já protagonizara na infância. Talvez excetuando-se a ousadia de ocupar um espaço que era proibido, fora como ver a si mesma própria, há 16 ou 17 anos atrás, roubando livros da biblioteca da sua casa e os folheando durante a noite, tentando obter das figuras o que as letras ainda não podiam lhe dizer.
Ela tinha se aproximado silenciosa para observar as mãozinhas pequenas traçando o contorno dos ancestrais estampados nas páginas. Tão instigante. Tão curioso ver Bervely daquela maneira…
– Você pegou esse livro das minhas coisas sem pedir permissão. – comentou calmamente para a criança assustada.
– Eu, desculpe, senhora, eu não...
– Você não o quê? — Bella contorceu o canto do lábio de leve, demonstrando incredulidade – Você não queria? Não queria o livro? — percebeu, com pesar, que a menina negaria. Intensificou o olhar sobre ela – Sua curiosidade é compreensível – comentou. – Mas não louvável.
– Por favor, por favor, não me prenda no closet novamente. – pediu, esticando o Signo Negro na direção de Bellatrix.
A mulher meneou a cabeça com um longo suspiro. Encostou-se ao sofá, o acetinado do seu cabelo solto vencendo o brilho do couro facilmente. Achou graça das bochechas rosadas de Bervely, que tentava interpretar a calmaria da mãe, querendo descobrir se estava tudo bem ou se ela estava muito, muito encrencada.
– Bevy, Bevy... – estalou a língua com desaprovação – se tivesse me pedido o livro, eu teria lhe dado.
A pequena a olhou com desconfiança.
– Que mal haveria nisso? Esse livro é seu – explicou – ou ao menos será quando você fosse capaz de lê-lo.
– Eu já sei ler. – contrapôs em repto – Charlie me ensinou.
Não era completamente verdade. Podia reconhecer todas as letras e algumas palavras, mas frases inteiras ainda eram problemáticas.
– Esse seria o seu presente. – Bella sorriu de leve – amanhã.
Bevy piscou, confusa. Então Charlie estava falando sério? O dia seguinte seria mesmo o seu aniversário? E Bellatrix ia lhe dar um presente, como a tia Narcissa fazia, e haveria uma festa com um grande bolo, doces e fotos? Bellatrix olhando atentamente para ela, tentando ler sua reação reticente.
– Amanhã – Bellatrix disse de repente, como se tivesse acabado de se lembrar – nós vamos dar um passeio.
– Jura? — Bevy esqueceu imediatamente de ficar nervosa por ter sido pega no flagra. A empolgação a tomara com a menção de sair de casa. Talvez fosse visitar tia Cissa. Ela só esperava que não precisassem ver o Mestre Assustador de novo.
– Vamos ao Beco Diagonal, você precisa de um vestido novo, para o batizado do filho da sua tia.
– O que é o Beco Diagonal? — quis saber, curiosa.
– Você verá amanhã.
O silêncio se instalou entre as duas. Bevy ainda não sabia se Bellatrix estava irritada com ela por ter roubado o livro, e recuou um pouco até encostar as costas no assento da poltrona do padrasto. Um vento frio passou por elas e o cabelo de Bella ondulou da mesma maneira que as cortinas pesadas da sala. Ela não parecia sentir nem um pouco de frio dentro da sua camisola de alças, cor de vinho, que deixava o colo branco e os braços a mostra.
Apreensiva, Bevy pensou que talvez devesse voltar para a cama – não queria, mas nunca podia saber quando Bella ia se aborrecer com ela de repente e a colocar de castigo por estar ali. Talvez mudasse de idéia e cancelasse seu aniversário amanhã.
– Então – a voz de Bella voltou a preencher a sala, baixa, mas completamente audível – gostou do livro? — indicou o Signo Negro com um acenar da cabeça. Bevy assentiu rápido. – Você deve estudá-lo com muito cuidado daqui a algum tempo, vai lhe ensinar coisas sobre a nossa família. Milord foi bom conosco por consegui-lo. – a menção do título fez seus olhos cintilarem, como normalmente acontecia.
Bevy assentiu rápido pela segunda vez, embora um pouco preocupada. Tinha tentado ler uma página do Signo Negro, mas não conhecia aquelas palavras. E não queria decepcionar Bellatrix. Sentiu-se mal pela sua leitura ainda ruim. Seus olhos encontraram a janela aberta, e logo se deu conta dos numerosos pontos de luz salpicados pelo negrume do céu. Ela nunca tinha visto tantos pontos juntos, e ficou impressionada em como pareciam piscar logo quando ela não estava olhando, ao passo que ficavam ainda mais acesos quando prestava atenção.
Percebeu um movimento pelo canto do olho e voltou-se rápido, reparando que Bellatrix sorria. Não muito com os lábios, o que era estranho, pois ainda assim parecia um sorriso mais bonito do que os outros, que eram todos sobre lábios e nada sobre olhos.
– O que pensa sobre elas? — perguntou, um tanto vaga em contraste com o tom que usara para interpelar sobre o livro – as estrelas – completou ao ver o rosto confuso da filha.
– São pequenas. – disse com sinceridade. Aquela expressão diferente de Bella se intensificou.
– Não, elas só estão longe. O que é bom – disse vagamente – porque se estivessem próximas, elas nos cegariam e nos queimariam.
Bellatrix capturou a expressão intrigada da criança e deu outro longo suspiro, rolando os olhos, dessa vez impaciente consigo mesma, se perguntando como chegara àquele ponto, àquele lugar, àquele dialogo com uma menininha de quatro anos.
– Uma delas – pigarreou, o tom levemente mais ostentoso – tem o meu nome.
– Existe uma estrela chamada Bellatrix? — a garotinha exclamou, impressionada.
– Sim. E uma chamada Wallburga, como a sua tia-avó. Cygnus, como o seu avô. Regulus, como um tio seu. Sir…– Bella travou os dentes com uma súbita consternação que ficou evidente em seus olhos. Ela puxou ar, irritada consigo mesma, e quando os abriu novamente, Bevy persistia em sua curiosidade.
– Eu tenho uma estrela com meu nome?
– Não. – seu tom foi inesperadamente cortante, e Bella se levantou – Você não tem. Eu não tinha nenhum livro por perto quando você nasceu.
Bevy se perguntou o que tinha feito para aborrecê-la de repente.
– Vá dormir, criança. Temos muito a fazer amanhã de manhã. E eu não quero mais saber de passeios noturnos, você deve usar a biblioteca durante o dia para ler o seu livro.
Deu meia volta e subiu as escadas com agilidade, e a filha ficou olhando, do mesmo lugar que estava, as pernas brancas de Bellatrix sumirem pela escuridão. Antes de ir para o próprio quarto olhou de relance para o céu e para os pontos brilhantes, desejando que um daqueles pudesse se chamar Bervely, algum dia.
–BD-
Rodolphos saiu cedo, e com Charlotte evitando tagarelar na presença de Bellatrix, aquele foi um café da manhã silencioso. Bevy remexia a mistura de leite e cereais, empurrando alguns pedaços para vê-los boiar logo em seguida, como pequenas cabeças nervosas.
Era um domingo ensolarado. Ao final da refeição, Bella chamou Bevy não em direção aos jardins, onde a garotinha imaginou que a carruagem estivesse pronta, mas ao hall de entrada. Bellatrix dava as últimas ordens para os elfos, sobre almoço e limpeza da biblioteca, quando se deu conta de que Charlotte as seguira até ali.
– O que quer, garota? — inquiriu Bella com desprezo.
– Eu só pensei que... ia acompanhar a Bevy, quero dizer... – atrapalhou-se ela com as palavras.
– Você acha que eu vou te levar comigo? Bem que gostaria disso, não é? Ponha-se no seu lugar Summers, e suma da minha frente! – praguejou com impaciência, e voltando-se para Bevy – venha cá.
– Não vamos de carruagem? — arriscou a perguntar, se aproximando.
– Não, isso nos atrasaria, o Beco Diagonal fica em Londres. Há um jeito mais prático de viajar, segure firme a minha mão. – estendeu o braço para a filha.
Bevy a segurou com nervosismo, os dedos firmes como garras de aço em torno da sua mão. Um calafrio a fez morder o lábio inferior.
– Feche os olhos.
Ela fez como ordenado. Em um segundo, teve a mais terrível sensação da sua vida. Parecia que estava sendo enfiada em algum lugar estreito, espremida pelo gargalo de uma garrafa. Tentou gritar e descobriu que não conseguia puxar o ar. Seu coração nunca tinha batido tão rápido e ela nunca ficara com tanto medo.
Então acabou.
Bevy cambaleou para trás ao encontrar chão firme, mas a mão de Bellatrix ainda segurava a sua e ela lhe estabilizou antes que caísse. Piscou para a luz vendo um grande borrão, seu estômago se revirou e o gosto amargo na boca a fez se inclinar para frente, para prontamente vomitar o que acabara de comer em casa. Quando terminou estava trêmula e de pé somente devido a mão que Bellatrix ainda segurava firme. Gemeu com a outra mão na barriga, os olhos se enchendo de lágrimas.
Bella deu uma checada geral, se certificando de que nenhum pedaço de Bevy tinha ficado para trás, um risco sempre possível na primeira aparatação. Ela acenou a varinha, limpando o vomito da filha de seus sapatos, e esperou pacientemente a tonalidade verde se desfazer do rosto dela pouco a pouco.
– Não precisa fazer uma cena sobre isso. – comentou, retomando o tom ríspido. Recebeu um olhar ressentido e molhado de volta. – Aparatar não é o fim do mundo. Vai querer vomitar de novo?
Ela negou.
– Muito bem, então vamos.
Bevy a seguiu aos tropeços, saindo do beco vazio para uma rua apinhada de pessoas. Um fluxo de bruxos e bruxas atravancavam o caminho de um lado e de outro, entrando e saindo das mais variadas lojas, fazendo tanto barulho que a deixava nervosa e francamente, um pouco assustada.
Depois de andar um tanto, pararam em frente a uma vitrine com manequins encantadas, que se mexiam com as mãos na cintura exibindo suas capas coloridas e chapelões pontudos com penas.
Foi um processo longo. Bevy gostava de vestidos, antes de saber que era tão chato pedir para fazer um novo. Uma velha com pouco cabelo a fez subir num banco de ferro e ela teve que ficar estendendo os braços e esticando o pescoço enquanto uma fita métrica enfeitiçada tirava as medidas de todas as partes do seu corpo. Ela achou que fosse desabar do banquinho, ainda um pouco enjoada por causa do novo jeito de viajar.
Ficou aliviada quando Bellatrix lhe mandou descer e sentar numa cadeira meio mofada, mas que era perto da porta e recebia ar fresco vindo da rua. Devia esperar ali comportada, enquanto a mãe escolhia os tecidos. Olhou para a rua lá fora, para o movimento dos bruxos, animados e barulhentos, para uma loja que vendia vassouras, para um grupo de crianças, acumuladas e empolgadas em torno de alguma coisa, mas o que será que era tão interessante?
Foi ai que ela viu o cachorro.
(Continua…)
Bônus: Mini-flashback
1973, Hogwarts.
A sua ronda noturna incluía a torre de astronomia, onde os casais fugidios se resguardavam para desfrutar das estrelas e da intimidade distante dos olhos do resto do castelo. O treino de quadribol do time da grifinória terminara há menos de uma hora, e Bella sabia quem era a dupla aos sussurros, sem precisar ver uma silhueta de ombros largos e cabelos compridos e a outra de cabelos cheios e claros entrecortados pelo luar azulado. A sonserina encostou-se próximo à entrada, o som da voz do primo soando clara para os seus ouvidos acostumados.
– É aquela. Não aquela estúpida piscando, a mais para o lado, que brilha mais forte.
Uma risada feminina que eriçou os pêlos da nuca de Bella. Raiva
– Não dá pra confundir. Estou começando a desconfiar que com você me ensinado astronomia eu não vou conseguir tirar mais notas ruins, Sirius.
– Vê aquelas três estrelas bem próximas? Fazem parte da constelação de Órion. Ah, e lá estão Rigel e Saiph.
– E aquela?
– A vermelha? Betelgeuse. – informou, o tom cheio de si.
– Uau. Como sabe de tudo isso? — a voz de Loren soava não só curiosa, mas impressionada. Mal sabia ela que Sirius usava aquele artifício com todas as suas outras conquistas, Bella pensou, zombeteira.
– Eu era forçado a aprender astronomia em casa. Acho que é a única coisa que meus pais me obrigaram a fazer e que não desprezo.
Nova risada e um pouco de silêncio. A monitora podia imaginar aquela grifinória oportunista se aconchegando nos braços do seu primo, sentindo o cheiro tão particular do cabelo de Sirius. A varinha de Bella, bem apertada dentro dos seus dedos, certamente gritaria se pudesse.
– Eu ouvi dizer que todos os Black recebem nomes de estrelas, isso é sério? — Loren perguntou num tom de divertimento irritante.
– Bem, sim. É uma velha tradição estúpida.
– Eu acho bonito. Você poderia chamar seu filho de Lynx, se fosse um menino. Ou Spica, se fosse menina.
Sirius riu. O som da sua risada era rouca e musical, provavelmente de propósito. Parte do jogo.
– Iech, por Merlin, não! Se um dia eu tivesse filhos eles iriam ter nomes comuns... você sabe, John, Sam, Bervely. Qualquer coisa que não os fizessem passar vergonha na escola primária.
– "Bervely" não é comum! – a grifinoria protestou entre risos.
– Soa comum pra mim. – disse o Black, encerrando o assunto, provavelmente com um beijo ou algo além, mas Bella não ficou para saber. Decidiu ignorar aqueles dois, preferindo fingir que não estavam fora da cama a ter de interromper a cena e ver mais do que queria.
Com sorte ainda haveria tempo de encontrar um primeiranista incauto em que pudesse descontar o mau humor súbito que a afetou aquela noite.
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