Notas iniciais
Obrigada pelos comentários, sempre vale a pena esperar, vocês são super observadores e curiosos, adoro! *.* Alerta de grandes emoções para o cap, prepare o seu coração.

“O que deixou Peter zonzo foi a injustiça (…). Ele ficou sem ação, olhando fixo, horrorizado. Toda criança reage dessa forma na primeira vez em que recebe um tratamento injusto. Tudo que ela se acha no direito de encontrar quando se aproxima de alguém é justiça. Poderá amar de novo uma pessoa que foi injusta com ela, porém nunca mais será a mesma criança.”

(Peter Pan — J. Barrie)

– É excepcional! Excepcional! Como nunca pensei nisso antes? Você é um espanto, menina, um espanto! — a Madame Grandgnol (“me chame de Ignes, benzinho") saltava pelo laboratório, numa reação que a paciente considerou bastante deselegante para alguém que era pocionista-chefe de um hospital do porte do St. Mungus.

Não devia ser uma novidade para a mulher que, adicionando almóvia fresca ao quinto estágio da poção restauradora, conseguia-se uma mistura perfeitamente inodora e que não interferia no paladar do paciente. Ela ficou observando, uma mão apoiando o rosto e o cotovelo apoiado no balcão de trabalho, a pocionista de um metro e meio fazer a sua grande festa sobre a almóvia.

– Onde você aprendeu isso?

– Escola — respondeu num tom arrastado de tédio, mas a outra não pareceu perceber, ou então não se importou. Continuava se balançando cheia de energia.

– Escola, é mesmo? Eu era levada a fazer poções medíocres na escola, o tempo todo! Winggeweld, Polissuco! Mas nada realmente útil, eu tive que aprender tudo sozinha para chegar até aqui, você já tentou fazer uma Esquelecresce num porão sem ventilação? oh, nem tente… ou então use uma capa anti-chamas… para qual escola está indo? A Hogwarts de Alvo Dumbledore?

– Uma melhor que essa. — bocejou. Esticou uma olhada para onde a receita de sua Poção do Sono Sem Sonhos adaptada cozinhava, e o tom prateado bolhoso indicou que estava quase pronta.

Desde que recebera permissão para “assistir” a produção de sua poção, vinha todos os dias até o laboratório, e a concessão de meia dúzia de dicas para incrementar as receitas da Mme. Grangnol lhe compraram o direito de, ela mesma, fazer a sua, ao invés de somente observar.

A mulher era empolgada ao ponto da inconseqüência, e com certeza falava mais do que a boca, mas a paciente doze não estava reclamando. Ao contrário do quarto branco e claustrofóbico, o laboratório com os seus vapores e cheiros a fazia se sentir melhor, apesar da tagarelice, que ela podia ignorar.

– Você deveria seguir a carreira em poções, há tanta coisa que se pode fazer, pode vir trabalhar aqui, você pode, tanta gente incompetente, semana passada precisei demitir um rapazinho novo, imagine que ele colocou cloqueária e lingusta numa poção para repor o sangue, e eu lhe perguntei, o que diabos, você está fazendo uma poção de confundir?

A garota se dirigia até o caldeirão para finalizar a sua poção quando a porta se abriu e uma curandeira enfiou a cabeça para dentro da sala, buscando-a com os olhos. Ela se afastou do caldeirão discretamente.

– Você é a paciente do quarto doze, não é? O Dr. Fritz pode lhe ver agora, me pediu para chamá-la.

Ela rolou os olhos quando a curandeira saiu, e a Mme. Grandgnol veio gingando e sorrindo até sua poção.

– Pode ir, eu termino aqui e mando para o seu quarto, benzinho, não se preocupe.

– Não mexa na receita — avisou, tentando soar perigosa o bastante — Atingiu o equilíbrio há cinco minutos. Envie ao meu quarto quando estiver fria.

Se a pocionista se incomodou com a arrogância dela, não demonstrou. A garota deixou o laboratório e fez o caminho agora conhecido através dos corredores do quarto andar do hospital, passando por algumas enfermarias conjuntas e pela parte dos quartos individuais, o que incluía o seu. Ao final desse corredor havia uma ampla área de convivência onde os internos eram autorizados a gastar o tempo, desde que não estivessem infecciosos ou descompensados.

Apesar das janelas amplas, do piano e da estante com livros, além das mesas e poltronas, o lugar nunca a atraíra. O cara que comia pergaminho estava lá, e também uma velha que coaxava quando estava irritada, e um par de gêmeos endiabrados, cujo dano mágico deveria ser possessão demoníaca. Ela desviou de um deles para não ser atropelada, e acabou esbarrando em outra pessoa.

– Desculpe — disse automaticamente para a mulher franzina, que lhe olhou vagamente, piscou duas vezes e estendeu a mão, lhe oferecendo uma embalagem de chiclete amassada. Ela fez uma careta — Hum. Não, obrigada.

Atravessar a sala de convivência a deixou de mau humor, e ela bateu a porta do doutor Fritz com mais força do que o necessário.

– Você queria me ver? — perguntou num tom acusatório. Ele, que fazia mais das anotações intermináveis no pergaminho, lhe fez um sinal para esperar que só a deixou mais irritada. — Ótimo, estarei em meu quarto aguardando a sua boa vontade.

– Pronto, terminei — imune ao tom azedo dela, o doutor exibiu um amplo sorriso, como se estivesse feliz ao vê-la. — desculpe por isso. Não posso confiar só na memória, sabe como é. Quer se sentar?

Ela cruzou seus braços, o olhando feio, mas sentou na cadeira, e ficou esperando ele começar.

– Como se sente hoje?

– O de sempre. — e quando ele lhe dedicou um desnecessário olhar interrogativo, ela rolou os olhos. — Presa.

– Conversamos sobre isso, você não está presa, está em tratamento.

– Se eu não posso ir pra casa, pra mim dá no mesmo. Qual é, então vocês não tem o meu endereço? Não pode chamar minha família? — questionou com ceticismo. Havia uma sombra de um sorriso no rosto do doutor, como se ele estivesse gostando do seu tom insubordinado. Mas ela não queria que ele gostasse. Queria que ele ficasse irritado como ela estava irritada. — Eu não sou louca! Eu não tenho um dano por magia! Porque continuo sendo mantida aqui?

Houve uma pausa onde ele considerou as perguntas dela cuidadosamente. Mas como sempre não as respondeu, a não ser com outra questão.

– Hoje foi dia de correspondência da família. Chegou alguma coisa para você?

Doze ficou surpresa, tanto que sua mascara de hostilidade oscilou em seu rosto. Ela a recuperou rapidamente.

– Não nessa semana.

– Alguma na anterior?

Ela recordou que há uma semana atrás fora o dia em que ela acordara, depois de seis meses inconsciente (de acordo com a sua ficha). Não se lembrava de qualquer entrega, mas sabia que havia algo diferente. Algo mudara aquele dia, algo que a trouxera de volta. Seus olhos correram para o braço esquerdo, involuntariamente, e também os do doutor.

– Você sabe quem mandou isso para você?

Ele se referia à pulseira de couro em torno do pulso dela, que era velha e desgastada, engastada com uma pedra galáctica do tamanho de uma moeda pequena. A garota franziu.

– Isso sempre esteve comigo.

– Na verdade, você não foi admitida com esse objeto. A primeira vez que o vi no seu braço foi no mesmo dia em que despertou e tivemos a nossa primeira conversa.

Agora ela estava genuinamente surpresa, e seus olhos correram para a tira de couro outra vez. Era tão familiar, a usara por tantos anos, e não podia imaginar em que circunstancia a teria tirado, e o que isso tinha haver com o que acontecera para deixá-la em coma. Não, o doutor precisava estar errado.

– Eu tenho certeza que estava com ela. Nunca a tirei do meu braço, desde que ganhei. Desde os meus cinco anos.

– De quem a ganhou? — ele perguntou com curiosidade. Provavelmente pensando que havia algum significado afetivo marcante, sobre os quais o medibruxo tendia a dar muita importância. Ficou feliz em poder dissuadi-lo da impressão equivocada.

– De ninguém especial. Um estranho na rua.

– Mesmo? Por que? Por que um estranho daria uma tira de couro a uma menininha na rua?

Ela suspirou, afetada, sabendo o que aquelas perguntas todas significavam.

– Você vai me fazer contar a história, não vai? O senhor precisa se tratar dessa curiosidade, Dr. Fritz, é bastante patológica.

Isso o fez sorrir abertamente, e fazer um gesto de “o-que-se-pode-fazer?” com os ombros. Ela bateu com as mãos no encosto da cadeira, num gesto de rendição.

– É uma história boba. Vamos gastar uma sessão a toa. Há uma série de lembranças de uma infância perturbada e abusiva que ainda precisam ser arrancada de mim, e francamente eu quero dar o fora desse hospital antes de ter os meus cabelos brancos.

– Me conte, e eu decido se a história é boba. — pediu, não ligando para o escapismo fajuto dela. Era sempre custoso fazer Doze falar sobre a sua infância “perturbada e abusiva” e se ela estava apelando para isso como forma de fugir da lembrança requisitada, deveria haver uma boa razão.

– Patológica, como eu disse. — ela sorriu atravessado. — Ok, lá vamos nós. Quanto eu tinha cinco anos, eu era obcecada por cães…

– BD —

Nove anos antes, 1981.

Ficou aliviada quando Bellatrix lhe mandou descer e sentar numa cadeira meio mofada, mas que era perto da porta e recebia ar fresco vindo da rua. Devia esperar ali comportada, enquanto a mãe escolhia os tecidos. Olhou para a rua lá fora, para o movimento dos bruxos, animados e barulhentos, para uma loja que vendia vassouras, para um grupo de crianças, acumuladas e empolgadas em torno de alguma coisa, mas o que será que era tão interessante?

Foi ai que ela viu o cachorro.

Era bem grande, feito um urso, e também muito exibido. Fazia parvoíces em torno do grupo de crianças, latia e perseguia o rabo, causando uma explosão de risos. O pelo era escuro e grosso, o focinho enorme. A cauda alucinada sacudia no ar com o espanador mais nervoso do mundo. Enquanto ela estava olhando, o cão se jogou no chão e virou de barriga para cima, e em um segundo mais cinco pares de mãos estavam esfregando sua barriga.

– Mãe, mãe, posso tocar nele? Por favor, mãe, por favoooor — um menininho na calçada em frente à loja em que ela estava acabara de ver o animal, e se esticava todo para atravessar a rua, tão ansioso que quase derrubou o seu sorvete.

– Ele pode ser perigoso, Philip! Olha só o tamanho da pata dele, meu filho!

Mas o cão, que estava longe de ser perigoso, ficou sobre as quatro patas de novo e se inclinou brincalhão para Philip, abanando o rabo. Bervely saltou da cadeira e andou até a porta, querendo ver melhor o cão entre as crianças.

– Snuffles, não! — uma moça que devia ser a dona do cão o puxou pela coleira em seu pescoço, para longe de Philip — nada de roubar doce de criança! Se for um bom garoto pode ter o seu próprio sorvete mais tarde!

Isso fez o monte de crianças rir, e Bervely também. Ela achou muito divertida a ideia de um cão daquele tamanho sentado numa cadeira e lambendo um sorvetão, lambuzando o focinho todo.

Olhou investigativamente para o fundo da loja, onde Bellatrix continuava escolhendo tecidos. Podia ouvir a voz dela, impaciente com a vendedora, alguma coisa sobre rendas francesas em falta. Se ela fosse lá fora só um pouquinho, apenas por um minutinho, para afagar o cão também…

A flor em seu braço coçou, só com a ideia de desobedecer. E nem tinha coragem de ir até Bellatrix e pedir para ver o cão, pois sabia que a mãe não gostava de animais.

Pressionou o rosto contra o vidro, enquanto o cão Snufles agora fazia a performance dos truques que as crianças requisitavam. Ele deu a pata para uma menina loira do tamanho de Charlie, e depois fingiu de morto para o garotinho que se chamava Philip. Bevy gostaria de ir lá pedir para ele ficar de pé nas suas patas traseiras, queria ver o quão alto ele podia ser.

– Anda, Snuffles, se despede das crianças, antes que elas percebam o grande exibido que você é.

Ele ficou sobre suas patas traseiras (Bevy vibrou, atrás da vitrine) e acenou com as patas dianteiras, num tchau de cachorro que arrancou até palmas da sua plateia. Pomposo, o cão curvou a cabeça numa reverência. Sua dona riu e eles seguiram caminho, e as crianças se dispersaram.

Sabendo que perdera a sua chance, olhou tristemente para o lugar onde ele tinha estado. Para a sua surpresa, reparou algo no chão, reconheceu como a coleira que Snuffles estava usando em torno do seu pescoço. Devia ter caído e ninguém percebeu. Ansiosa, ela olhou de novo para o fundo da loja. Bellatrix escrevia algo sobre o balcão, concentrada.

Bervely juntou todo o seu atrevimento para escapar da loja correndo, atravessar a rua, arrebatar a coleira do chão e voltar correndo para a cadeira de onde não deveria ter saído. A respiração acelerada, o coração batendo feito louco e as faces queimando, mas olhou para trás e Bellatrix estava na mesma posição de antes. Enfiou a peça no bolso da capa, sabendo que agora tinha um novo problema.

Como faria para devolvê-la ao cão Snuffles?

– BD -

– Cachorros podem tomar sorvete?

Agora elas tinham parado no Boticário, e Bellatrix, que conferia uma longa lista de ingredientes para um pedido, não lhe deu atenção. A loja era abafada e cheirava a alguma coisa úmida e levemente podre, então a bruxa queria sair dali o mais rápido que pudesse.

– Senhora? — Bervely chamou de novo, um pouco mais alto. Sabia que não devia insistir, mas estava muito curiosa mesmo sobre aquilo. — senhora, cachorros podem…

– Eu quero mais três caixas levedura resiliente — disse Bellatrix, compenetrada, para o homem sem dentes atrás do balcão — e dois sacos de dejetos de fada mordente, deve ser o bastante. Mande entregar em Blackburn Hall, você deve ter o endereço, e se certifique de que a entrega será no máximo amanhã a tarde. — voltou a atenção ao papel — quanto aos benzoares…

– MÃE! — exclamou a garotinha, agora irritada, e Bellatrix congelou a meio caminho de fazer um tique em um item da lista — cachorros podem tomar…

–O que você disse? — ela parecia um pouco pálida, não que sua filha tivesse reparado.

– Eu só queria saber se cachorros podem tomar sorvete.

Levou alguns segundos para a bruxa decodificar a pergunta, como se tivesse sido feita em outra língua. Sua expressão era de choque. O velho atendente assistia a tudo com um ar de diversão, vendo ali apenas mais uma mãe e uma menininha muito curiosa.

– Eu não… — seus olhos se estreitaram, quando ela se recompôs — mas que pergunta sem sentido é essa? Eu estou ocupada, Bervely, francamente!

A garota cruzou os braços, magoada, virando o corpo de costas. Bellatrix se voltou para a sua lista, ainda um pouco aturdida. Ela demorou um tempo maior que o normal para se lembrar onde tinha parado.

– Ah, lesmas carnívoras, você tem aqui?

O vendedor fechou a cara.

– Não vendo esse tipo de coisas.

– Oh, francamente. — ela perdeu sua paciência. Ia precisar entrar na Travessa do Tranco para conseguir aquele ultimo item, e ela xingou Roldolphos por deixá-la com aquela lista estúpida ao invés de pedir aos elfos. Só porque ele era paranóico e tinha medo que os elfos deixassem vazar a “receita secreta do whisky Lestrange”, agora ela tinha que ficar sendo a sua garota de encomendas. Que inferno era um casamento!

– Você vai precisar me esperar aqui. — avisou para a Bervely, apontando um banco em frente ao Gringotes, ao lado de um guarda fardado. Podia não ser a melhor mãe (pensar na palavra fez com que a voz da menina a pronunciando pela primeira vez para se dirigir a ela, em seu tom exigente, soasse em sua cabeça como a badalada de um sino), mas até ela sabia que a Travessa do Tranco não era lugar para uma criança da sua idade. — Aconteça o que acontecer, não saia daqui. Não fale com estranhos.

– Mas porque eu não posso ir com a senhora? — reclamou, insatisfeita. Bellatrix achou que ela estava muito a vontade, se já se sentia no direito de resmungar com tamanha liberdade.

– Você faz o que eu mando, Bervely, e não questiona as minhas ordens! Agora, não se mova daqui até eu voltar, ouviu bem?

No minuto em que a perdeu de vista, Bevy se sentiu momentaneamente aliviada. Mais uma vez, irritara Bellatrix sem saber o porquê. Ela não tinha reclamado durante todo o passeio que ao invés de divertido, se tornara longo, enfadonho e cansativo entrando e saindo de lojas do Beco Diagonal. O cão não apareceu de novo, e a coleira dele ainda estava em seu bolso.

Mas Bellatrix demorava a voltar, e ela começou a ficar ansiosa e preocupada. E se mãe tivesse ficado tão irritada que a largara ali para sempre? E se tivesse desistido mesmo dela? Seu peito se apertou com a possibilidade, e ela mordeu o lábio inferior com força, sem querer chorar na frente daquele monte de pessoas estranhas que iam e viam e às vezes olhavam para ela com curiosidade.

Querendo pensar em outra coisa que não fosse sua preocupação sobre ser abandonada ali, se concentrou em procurar o cão ou a sua dona no meio da multidão. Não tinha dado uma boa olhada na mulher, só sabia que ela tinha cabelo claro, uma barriga grande e a voz doce. Pronunciava “Snuffles” num tom divertido, como se achasse o nome engraçado (e era mesmo um nome bobo para um cão, pensou) e até prometera sorvete se ele fosse bonzinho…

– É isso! — falou consigo mesma, tão feliz de ter lembrado que saltou em pé. Duas senhoras com sacolas e chapéus pontudos que passavam lhe olharam espantadas, e ela voltou rapidinho a se sentar. Mas agora lembrava que a moça prometera sorvete ao cão se ele fosse bonzinho, e ele com certeza tinha sido bonzinho. Eles tinham que estar na sorveteria.

Bervely sabia onde ficava, passaram pela frente antes de ir à loja de roupas mofenta. Tinha visto a placa, onde o sorvete derretia e depois congelava, e um monte de mesinhas redondas com guarda-sois, apesar de que o céu estava armado aquele dia. Ela ficou empolgada, se segurando para não sair correndo, tinha certeza que era só seguir reto até o fim da rua…

Uma trovoada violenta balançou o céu, e ela se encolheu de susto, olhando para os lados. Alguns bruxos olhavam preocupados para cima, outros não se abalaram muito, mas ela voltou a ficar ansiosa. A esses trovões se seguiram outros, mais fortes, e começou a ventar. O segurança na frente do banco se aproximou com o rosto franzido.

– Olá, você está perdida? É melhor entrar em uma loja, vai começar a chover forte.

– Eu não posso, eu tenho que esperar minha mãe aqui.

– Tudo bem, ela vai entender porque saiu, mas se ficar na chuva pode ficar doente. Aqui, eu te acompanho até o banco, pode esperar debaixo da marquise… — ele estendeu a mão para o ombro dela. Bevy deu um salto para longe.

– Não! Eu tenho que esperar minha mãe!

Como que para lhe dar uma bronca, o céu estremeceu e rugiu de novo. Ela choramingou. Não gostava nadinha de trovões. Na mansão Malfoy, tia Narcissa nunca a deixava sozinha quando havia uma tempestade.

– Quer que eu vá procurá-la? Para onde ela foi? Qual o nome dela…?

– Não! — recusou de novo, se afastando dele. Ele era um estranho e Bellatrix ia ficar tão irritada com ela se soubesse que se deixou convencer a sair do banco… por outro lado, a chuva começou a cair em pingos grossos e gelados.

– Você tem que vir comigo, não vou te deixar aqui debaixo da chuva! — o guarda avisou, perdendo um pouco a paciência, o que só a assustou mais.

– Não! Me deixa!

– Espera… Volta aqui!

Mas Bervely saiu correndo na direção oposta, rua abaixo. A chuva foi ficando mais grossa e ela não sabia o que fazer, e nem tinha qualquer ideia de onde Bellatrix fora. Estava encharcada e em pânico quando a sorveteria surgiu em sua frente. O dono tinha vindo para fora correndo e fechava os guarda sois e recolhia as mesas externas, sob a agora pesadíssima tromba d’agua que se desabava sob o Beco Diagonal.

Sem pensar duas vezes (e nem mesmo uma, provavelmente), ela fez uma curva brusca e correu para dentro da sorveteria às cegas. Não previu o piso liso, e seus sapatos molhados derraparam. Bateu de cara contra alguma coisa e quase caiu de bunda no chão.

– Opa! Alerta de criança desgovernada. Tudo bem ai, baixinha?

Ela arregalou os olhos para o homem alto que a impedira de cair a puxando por um braço, de repente muito envergonhada. Ele tinha um sorriso enorme e o cabelo grande, e era alto de verdade. Mais que tio Lucius, mais até que Rodolphos.

– Você se machucou? — ele perguntou de novo, agora franzindo as sobrancelhas, mas ainda com um ar de divertimento.

– Eunãopossofalarcomestranhos — ela se atrapalhou. Não estava acostumada com adultos sendo gentis. Suas bochechas queimavam, ele era muito muito bonito.

– Muito justo. — ele sorriu e se abaixou, ficando no mesmo nível dela. Esticou uma mão. — Meu nome é Sirius. — ela encarou a mão e esticou a sua, indecisa. Ele apertou, a mão enorme engolindo a dela, e abriu ainda mais o sorriso — Qual o seu nome?

– B-Bervely.

– Nome legal, gosto desse! — disse sinceramente, e depois fez uma cara engraçada — Espera ai, esse é um nome de boneca. Você é uma boneca? — a fitou com desconfiança.

Ela riu, tímida. Ninguém nunca lhe perguntara aquilo, que coisa boba. Então ela percebeu que sabia algo sobre ele também.

– E o seu é nome de estrela.

O homem chamado Sirius a olhou com surpresa e abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas uma moça a interrompeu.

– Amor, e a conta, já pagou?

– Você é a dona do cão! — Bevy exclamou antes que pudesse se impedir. Quando a moça olhou para baixo, ela percebeu que tinha gritado aquilo, e se escondeu um pouco atrás das pernas longas do homem.

– Desculpe, o que disse?

Agora tinha a atenção dos dois adultos. Isso era muito mais atenção do que estava acostumada a ter normalmente. As palavras não vieram.

– Eu acho que ela está perdida — o homem bonito disse baixo para a moça barriguda. — entrou aqui correndo sozinha. — ele se virou bondosamente para Bevy — onde estão os seus pais?

– Eu não sei. — disse, preocupada. Ele lhe deu um outro bom sorriso, o que diminuiu a preocupação dela um tantinho.

– Tudo bem, não tem problema. Podemos esperar aqui até que ela apareça, não é, Mane?

– Tem certeza? Já são quase quatro horas, e ainda não pegamos o berço do bebê… se não levarmos até hoje, só segunda feira. E segunda tem aquela reunião…

O homem ergueu uma sobrancelha — Não pode ir na frente, então? — ele abaixou o tom a quase um sussurro — não vou deixar ela aqui sozinha, olha só o tamanho dela. Deve estar assustada.

– Tudo bem — disse a mulher com um suspiro resignado — mas não demora demais, certo? Não esquece que hoje vamos jantar com Jamie e Lily.

Ele sorriu de novo, vitorioso, e os dois trocaram um breve beijo na boca. A mulher sorriu rapidamente para Bervely e sumiu pela porta, lançando um feitiço impermeabilizaste em torno de si. Sirius girou sobre os sapatos, sua atenção novamente só de Bervely.

– Então, boneca. Que tal um sorvete?

– BD -

Você é puro-sangue? — ela perguntou de supetão para o seu novo amigo. Eles sentaram numa mesa perto da janela, Sirius pediu sorvete rosa para ela e verde para ele, e agora tinha perguntado “por que diabos” (ela achou engraçado esse jeito de perguntar) tinha entrado feito um unicórnio desgovernado na sorveteria. Estava disposta a contar a história, mas lembrou-se que não devia ter amigos mestiços nem sangue-ruins.

Ele franziu para a pergunta, como se ela tivesse um gosto azedo.

– Você não pode perguntar isso para alguém que acabou de conhecer.

– Por que não? — disse, inocente.

– E se eu não for? Que diferença isso faz?

Ela mordeu o seu lábio inferior, de repente indecisa. Lembrava da flor na estufa e de pureza e de tudo mais, só que olhando para o rapaz bonito, parecia bobagem. Ele provavelmente era sangue-puro, porque ele era tão legal… enquanto decidia, Sirius voltou a sorrir e fez um sinal para a taça dela.

– E o sorvete, não vai provar?

Bevy pegou um pouco de sorvete com a colher e experimentou. Imediatamente fez uma careta, torcendo seu pequeno nariz e apertando os olhos. Isso o fez rir sonoramente.

– O que houve?

– Muito doce.

– Experimente o meu. — ofereceu sua taça. Após um momento de indecisão, e um sinal de encorajamento da parte dele, ela obedeceu. Era muito melhor.

– De que é esse?

– Pistache. Você gosta? — ela assentiu. — Tudo bem, podemos dividir. É o meu sabor preferido. — Sirius afastou a taça de sorvete de morango e lançou um feitiço de congelamento. — Agora, pode me contar sua história?

Bervely começou a explicar, desde o momento em que vira o cão na rua brincando com as crianças, depois como a sua coleira caiu, e a pegara escondido de sua mãe, e depois como procurara o cão a tarde inteira para devolver, sem sucesso, ai lembrara da promessa do sorvete.

Ela não tinha como saber, mas em sua narrativa, estava derretendo o seu ouvinte completamente. Era muito séria e bonitinha, toda bem articulada apesar de tão pequena, aqueles olhos grandes expressivos, os gestos com as mãos, acompanhando a história, quando ficou mais a vontade. Era de matar, e ele olhava para ela como se fosse a coisa mais fascinante que já vira, quando terminou a saga da coleira.

– Ai eu sei que a sua mulher é a dona do cachorro mas agora ela foi embora, e onde está o cachorro? Ele não tomou sorvete? Ele não foi um bom garoto?

– Oh, ele tomou sorvete. E está repetindo. — Sirius riu-se — eu posso entregar para ele se quiser. Posso ver?

Bervely tirou a coleira do seu bolso e entregou cuidadosamente para ele.

– Eu acho que quebrou o fecho. Sinto muito.

– Tudo bem, posso consertar. — ela ficou esperando ele pegar a varinha, mas Sirius começou a mexer na peça com as mãos nuas. O cabelo comprido dele caiu em seu rosto, e ele o afastou de forma elegante com a mão enorme — Então, você gosta um bocado de cães?

– Oh, eu adoro adoro cães — respondeu empolgada, os olhos brilhando, aquele monte de açúcar do sorvete fazendo seu efeito e a deixando enérgica. — Mas a minha mãe diz que eu não posso ter um. E a minha tia também porque o meu tio tem alegria a eles.

– Ele tem… o que? — perguntou, divertido.

– Alegria. — ela repetiu, séria.

Alergia, você quer dizer?

– Oh — os olhos dela se arregalaram em compreensão — é, eu acho que é isso mesmo.

Ele riu de novo, uma gargalhada com um som agradável. Bevy gostava dele, porque era um adulto feliz, diferente dos outros que conhecia. Continuava remexendo o fecho quebrado da coleira, seus dedos trabalhando habilmente na engrenagem pequena, enquanto ela acabava com o seu sorvete verde.

– Hey — ela perguntou de repente — o que há de errado com a barriga da sua esposa?

Sirius achou graça da pergunta.

– Ela não é minha esposa, só noiva, por enquanto. E a barriga dela está assim porque ela está grávida. — quando viu o olhar confuso da garotinha, tentou explicar melhor — tem um bebê dentro dela. O que significa que eu vou ter uma filha em breve.

– Oh, eca. Isso é nojento. Como ela vai sair lá de dentro?

– Melhor você perguntar isso para a sua mãe, mas espere alguns anos, ok? Merlin, você é precoce. Quantos anos tem?

Bevy lhe mostrou com os seus dedos, a mão inteira aberta. — Cinco! Desde hoje.

– Hoje é o seu aniversário?

Ela assentiu, feliz. Tinha mesmo se esquecido disso, mas pareceu uma grande coisa para Sirius.

– Isso merece mais sorvete! Digo, se você aguentar. Acha que dá conta?

Assentiu com empolgação. Sirius ia lhe dar mais sorvete. Ele tinha que ser o melhor amigo de todos.

– Que sabor?

Pistage! — afirmou decidida, provocando nele uma nova gargalhada.

– BD —

– Aqui — Sirius finalmente conseguiu ajeitar o fecho da coleira. Fazia um bom tempo que eles estavam conversando, e a chuva do lado de fora agora estava fraquinha, um mero choramingo. Bevy esquecera completamente de que Bellatrix poderia estar procurando por ela, e de que ficaria furiosa se não a encontrasse no banco em frente o Gringotes. Nada mais ocupava a sua mente, a não ser o novo amigo divertido. — Me dê o seu braço.

Ele enrolou a coleira em torno do braço esquerdo dela, por cima da blusa de frio. Teve de dar quatro voltas no pulso magro.

– Você pode ficar com ela. Presente de aniversário.

– Mas é do seu cão! — disse, horrorizada. Como poderia Snuffles ficar sem coleira?

– Sem problemas, ele tem outras. Mas quando você tiver o seu cão, pode colocá-la nele. Vê essa pedra? — indicou a pedra redonda achatada, presa à coleira — é encantada, dessa forma, você sempre vai poder achá-lo com um feitiço, quando ele se perder.

Ela ficou imensamente feliz com o que ouviu. Se Sirius achava que um dia ela poderia ter o seu próprio cão, então ela com certeza teria. Afinal, ele tinha um cão, devia saber tudo sobre eles.

– Obrigada.

– Mais sorvete? — desafiou, um olhar divertido de provocação. Bevy, que não achava que podia tomar mais uma colherada do delicioso sorvete de pistache, fez uma careta indecisa. — Foi o que eu pensei. Nunca vi uma garotinha comer tanto na minha vida. Você realmente travou uma luta aqui, não foi? Olha só pra isso — indicou a roupa dela, e suas mãos lambuzadas — quem estava comendo quem?

Ela sorriu envergonhada, mas não muito. Sabia que ele estava brincando.

– Você também comeu um bocado. Tem sorvete até no seu cabelo. — apontou a ponta de uma mecha dele.

– Olha só quem fala. Você tem sorvete no nariz! — acusou.

– Não tenho não! — ela horrorizou-se, esfregando o nariz com a palma. Quando acabou de fazer isso, Sirius enfiou o dedo na taça suja e lambuzou a ponta de seu nariz.

– Bem, agora você tem! — ele explodiu em gargalhadas.

– Isso não foi justo! — protestou — você vai ver só! — ela mergulhou a mão no sorvete de morango e avançou para cima dele, ficando de pé no banco acolchoado para alcança-lo. Sirius não conseguia parar de gargalhar e suas tentativas de impedí-la eram infrutíferas.

– Testa de sorvete! — ela exclamou, vitoriosa.

– Espera ai, você não quer fazer uma… guerra de sorvete!!

– Ahh! — ela deu um gritinho agudo quando ele avançou, cheio de sorvete em seu indicador, e o arrastou pela sua bochecha, a fazendo cair na gargalhada.

– BERVELY BLACK!

A menina congelou na mesma posição, a risada amargando e virando puro horror com a exclamação vinda de suas costas. Sirius, na sua frente, deu um salto do banco e estava de pé e nada sorridente num piscar de olhos.

Bellatrix avançava como uma força da natureza para cima dele. Ela estava furiosa, e então ela olhou para o ‘novo amigo’ da sua filha e mais do que fúria, uma lividez assustadora tomou seu rosto contorcido. Sacou a varinha num átimo de segundo. Assustada, Bervely correu para trás de Sirius.

– SE AFASTE DA MINHA FILHA! – a voz era clara e colérica.

O resto da sorveteria assistia a cena num choque paralisado.

A bruxa empunhava a varinha apontada para o peito de Sirius.

– Não machuca ele! — Bervely gritou, subitamente cheia de coragem — Ele é meu amigo!

Mas Bella não a enxergava, e nem podia ouví-la, não quando um zunido agudo pinicava seu cérebro. Sirius também pegara a sua varinha, mas ele estava mais estupefato e confuso do que tudo. Olhava da garotinha para a prima tentando ligar os pontos.

– Fique longe dela, Sirius. Ou eu mato você num segundo. Eu realmente mato você. Não me importa a plateia.

– MÃE, NÃO! — a garota gritou, assustada, sem saber o que estava acontecendo e porque o homem legal era o alvo da sua raiva, e não ela mesma. — Eu que sai do banco sem permissão! É culpa minha!

– Calada, menina! Para casa, AGORA!

Sem esperar sua ordem ser atendida, agarrou rudemente a filha por um braço e saiu arrastando-a da sorveteria, sob murmúrios espantados dos outros clientes. Ela já estava na porta quando Sirius rugiu.

– BELLATRIX!

Ele a seguiu até o lado de fora, relativamente vazio. Ainda chuviscava de leve, mas a chuva súbita realmente arruinara a tarde de compras e a maioria das pessoas tinham ido embora. Os passos deles ecoavam no chão molhado, e Bervely choramingava porque o seu braço doía muito mesmo e ela tropeçava para acompanhar a mãe.

– BELLATRIX! — Sirius chamou de novo, correndo atrás delas e as alcançando no meio da rua. O poucos clientes dentro das lojas colocavam a cara para fora, para ver o que estava acontecendo.

– Fique longe de mim, Black — ela ameaçou — longe da minha família! Nunca mais ouse encostar na minha família!

– Você está machucando ela! — ele avançou, tentando fazê-la largar o braço de Bervely, mas Bella o afastou com um empurrão.

– Não é da sua conta! Me solta, desgraçado, me solta!

Eles entraram numa espécie de luta física confusa, Sirius tentando contê-la e ela tentando afastá-lo e machucá-lo ao mesmo tempo. Bervely, agora livre, se afastou aterrorizada. O homem finalmente conseguiu segurar firme o suficiente para imobilizar Bellatrix.

– Quem é essa criança? — ele exigiu, enquanto que a prima se debatia. — Bellatrix…

– Me solta! Black, eu vou matar você, como se atreve, me solta!

– QUEM É ELA? — ele exigiu, sua voz explodindo na rua varinha e fazendo os curiosos tremerem. Finalmente a bruxa parou de se debater, para encarar Sirius com um profundo sarcasmo.

– Olhe para ela, quem acha que ela é? Ela é minha filha. É claro.

– Eu estou olhando para ela, eu estou! — ele a sacudiu mais. Estava furioso. — Eu estou vendo o que eu acho que eu estou, Bellatrix? Você… — sua voz era cheia de nojo, mas também de um visgoso receio — você mentiu? Ela é… essa menina…

– Não é da sua conta. — Bella sibilou, como uma cobra armando o bote.

– De quem é essa conta? — apertava o braço da prima tão forte que cortava a sua circulação.

Bellatrix não sentia nada a não ser ódio.

– Minha. Minha, apenas. — disse. Um tipo de prazer, mesclado às batidas insanas do seu coração, substituía a dor que deveria estar sentindo.

Sirius achou que estava dentro do seu pior pesadelo. Arriscou olhar para a garotinha, cujos olhos arregalados pareciam querer tragá-lo, tão aterrorizados, e naquele rostinho de boneca de porcelana ele achou todos os traços da sua família. Ele se voltou para a prima mais nova com uma urgência dolorosa.

– Ela me achou – disse baixo, uma justificativa errante – eu não… foi um acaso. Ela estava perdida.

– Bervely será devidamente punida por ter me desobedecido. – disse alto o suficiente para fazer a pequena choramingar. – Eu a adverti sobre falar com estranhos.

– Eu não sou um estranho. – ele rangeu tão baixo entre seus dentes que o rosnado soou mais que irado. – beirava o assassino.

– Muito pior.

Ele estava horrorizado, e era tudo.

Alguém finalmente chamara os aurores, que chegaram querendo acabar com a confusão na rua. Antes de se aproximarem o suficiente, Bella se livrou das mãos dele e deu as costas.

– Bervely, segure minha mão.

Ela obedeceu, lançando um ultimo olhar para o homem bonito. Ele não a olhou de volta, não nos olhos. Deixou a cabeça cair; aquela fora uma amizade bem curta.

– Bellatrix… Bellatrix, espera. – disse o moreno debilmente para as costas de Bella.

A bruxa desaparatou, sem lhe dignar uma resposta.

–BD-

1991, de volta ao hospital.

Quando a paciente terminou de relatar a memória, estava ligeiramente sem fôlego. De alguma forma ela lembrava muito da parte da sorveteria, mas a briga de sua mãe com o desconhecido era confusa e nunca fizera muito sentido. Só tinha se lembrado dela à medida em que contava, e agora que pensava, por que raios Bellatrix estivera tão irritada com o homem?

Não podia pensar em um bom motivo. Talvez ele não fosse sangue-puro, como ela pensara numa primeira vez. Talvez Bella o conhecesse do passado. Não ocorreu a ela qualquer outra razão para a reação explosiva da mãe, principalmente porque na época, era muito pequena para entender a briga. Lembrava de ter ficado assustada, mas não exatamente por Bellatrix. Tivera medo de sua mãe realmente matar o homem, como estava ameaçando aos gritos para o Beco todo ouvir.

O doutor Fritz, no entanto, se interessara em outros aspectos da lembrança.

– Você o conhece? O homem da sorveteria?

– Eu já lhe disse — retrucou com impaciência — era um estranho qualquer. Nunca mais o vi. Bem, obviamente. Não é como se ele fosse aparecer depois do show que a minha mãe fez.

– Você me diz que a lembrança é sem importância, mas também deu a entender que manteve a coleira com você por todos esses anos.

– É — ela deu de ombros, sem querer fazer daquilo uma grande coisa — eu gostei dela. Só que eu não a usava em Blackburn Hall. Tinha medo de Bellatrix tirá-la de mim se descobrisse.

– Quando passou a usá-la, então?

– Depois. — disse de forma vaga, após pensar um pouco. Ele aceitou e não insistiu, mas a garota sabia que chegariam a isso cedo ou tarde. O Dr. Fritz não deixava passar nada.

– E por que continua usando-a agora? Desde que acordou?

Considerou a pergunta, também estava curiosa. Segundo ele, a peça fora enviada por alguém no dia do correio na semana anterior, e de alguma forma parara em seu braço, e então, misteriosamente, ela acordara do seu silencio de seis meses. E ainda havia mais uma coisa. Algo que ela não sabia se devia contar, talvez não fosse a melhor ideia.

Só que ainda assim…

– O que eu vou dizer vai soar estranho — recomeçou, um tanto reticente. Imediatamente tinha toda a atenção do doutor. — Mas é que, essa memória… ela mantém… — respirou fundo. Francamente, não fazia o menor sentido. A não ser pelo fato de que era a mais pura verdade. — ela mantém os pesadelos longe.

– É mesmo? — interessou-se — como?

– É só uma coisa que eu faço, desde que eu acordei. Toda vez que eu acho que vou ter um pesadelo, eu me concentro nessa lembrança. Começo a repassar ela. E então… o pesadelo não vem. Estranho. — completou, um pouco sem graça. Também não estava dando a versão completa da história. Não estava contando para ele que os pesadelos eram mais como imersões, e que sempre estava muito consciente deles, e que evitá-los era dolorosos e custoso e que a poção de sono sem sonhos ajudava, mas fazia só uma parte do trabalho.

– Na verdade, isso que você está me dizendo faz bastante sentido. — a afirmação foi uma surpresa para ela, que ergueu uma sobrancelha, um tanto cética. — Sem saber, você desenvolveu uma estratégia efetiva para evitar sonhos ruins, que é se apegar a uma memória boa e forte o bastante para que não possa ser corrompida, digamos assim.

– Eu não sei. — ela disse, duvidosa — só funciona se estou usando a coleira.

O doutor Fritz assentiu, como se ela estivesse fornecendo peças de um quebra cabeça fácil, e não informações desencontradas e estranhas.

– Relacionando a memória com o objeto, você o tornou um amuleto. Fez isso sem ter consciência, mas com sua própria magia. Agora, ele muito certamente a protege. Quem o enviou para você sabia o que estava fazendo, tem ideia de quem possa ter sido? Essa pessoa pode ser a responsável por trazê-la de volta da sua dormência, quando nada do que fizemos nos últimos sete meses pôde. É notável.

Ela negou, não sabia quem poderia ter enviado a coleira. Bem, os únicos que sabiam daquela história estavam… sua garganta e seu peito se trancaram, numa agonia tão súbita que a deixou sem ar. Ela engasgou, sugando oxigênio.

– Tudo bem com você? — ele se inclinou, preocupado — o que houve?

– Nada. — arfou. — Não sei quem pode ter enviado. Posso… posso ir para o meu quarto agora? Creio que o nosso tempo acabou.

Ele verificou a ampulheta, confirmando o fato.

– Quero vê-la na quinta feira, vamos discutir algumas mudanças, ok? Está mesmo tudo bem?

– Sim. — ela se levantou, recuperando parte da calma — Claro. Mudanças. Tanto faz. Até quinta.

Sumiu dali, atravessando a sala de convivência e o corredor até seu quarto. Bateu a porta atrás de si e desabou no chão, a agonia a invadindo como uma onda, disparando seu coração, roubando o ar, fazendo sua cabeça girar. Era diferente perder a memória e evitar a memória, e sabia que o seu caso era o segundo.

Ela podia evitar, na maior parte do tempo. As vezes era impossível. As vezes tudo a engolia, mais sensações do que sentidos, e era impossível respirar e achava que ia morrer. Colocou a cabeça entre os joelhos, invadida pelo pânico.

Havia mais que ela não contara ao doutor Fritz, sabia. Coisas que precisava guardar em segredo, ou ele nunca a deixaria sair daquele hospital.

– BD -

1981, um minuto mais tarde.

Aparatar certamente não foi a pior parte de voltar pra casa.

– EM QUE DIABOS ESTAVA PENSANDO AO ME DESOBEDECER, BERVELY?

Mais tarde os elfos comentariam que poucas vezes tinham visto sua senhora tão brava como naquela manhã. Frequentemente ela discutia com Rodolphos e quebrava coisas pela casa, ou então algum dos seus planos de comensal davam errado, e ela descontava nos empregados e na mobília. Mas nunca estava, não de verdade, fora de controle.

A não ser naquele dia. Sua varinha em punho soltava raios vermelhos, chispas mortais voando para todos os lados e quase perigosamente atingindo Bervely, enquanto que esta acabara de se encolher no mesmo lugar em que desaparatou com a mãe, e se encolhera como uma bola, o rosto escondido entre os joelhos.

– EU DEVIA LHE PRENDER NAQUELE MALDITO ARMÁRIO ATÉ VOCÊ CRESCER, SEU PEQUENO DEMÔNIO!

Bevy quase achava boa a ideia de ser deixada no escuro novamente. Qualquer coisa no lugar de ouvir aqueles gritos. Arriscou um olhar de relance à Charlotte, que ao ouvir os gritos, correra para a sala e estava agachada no fim das escadas, os olhos arregalados como pires de chá.

– VOCÊ SEQUER SE IMPORTA, NÃO É? EU TENHO QUE TER VOCÊ SOB O MEU TETO, EU TENHO QUE CONVIVER, CRIAR VOCÊ, E NA PRIMEIRA OPORTUNIDADE LÁ ESTÁ VOCÊ CORRENDO PARA OS BRAÇOS DAQUELE DESGRAÇADO! SUA TRAIDORA, SUA PEQUENA TRAIDORA! NÃO HÁ DIFERENÇA ENTRE VOCÊ E AQUELE COVARDE!

Os vidros de todas as janelas estalavam perigosamente. O lustre bem acima da cabeça de Bevy tremia, as gotas de cristal tilintando umas contras as outras de modo ensurdecedor. O coração dela batia enlouquecido.

– POR QUE VOCÊ ME ODEIA, BERVELY? PORQUE VOCÊ QUER ACABAR COMIGO?

Bevy negou veemente, a franja grudando no rosto molhado de lágrimas.

– Eu não odeio a s-senhora – soluçou, desesperada.

– Eu poderia apenas matar você! Basta um aceno, um aceno, e você deixa de existir! Isso seria tão mais simples! — ameaçou, lhe apontando a varinha cujas fagulhas ainda irrompiam para todos os lados, fazendo buracos no tapete abaixo dela. O lustre sacudiu-se tão perigosamente que o cabo que o segurava estalou alto.

Charlie vislumbrou com terror uma rachadura lenta ir ganhando extensão no teto. Sentindo que precisava evitar um desastre, levantou-se e correu escada acima, o som dos gritos de Bellatrix ainda audíveis pelos corredores superiores.

– Você nunca mais vai vê-lo! Nunca mais! Ele não vai ver você. Ele não vai sobreviver... ele nunca, nunca... – uma veia azul pulsava na têmpora da bruxa, pressuposta a estourar a qualquer momento – Eu vou matá-lo. Ele pensa que vai sobreviver? Ele não vai. Nem ele nem aquela mulher, os dois podem se considerar mortos!

Um brilho insano preenchia o olhar da comensal da morte, um cintilar tão perigoso, tão letal, que fez Bevy recuar se arrastando pelo tapete. Não o suficiente para estar fora do alcance do lustre que tinha dez vezes o seu peso e continuava a estalar no alto. Mas Bevy não ouvia. Ela só conseguia pregar-se naquela mulher, aquela mulher assustadora que falava aquelas coisas terríveis.

– VOCÊ! – Bella urrou – SABE QUANTOS DIAS VAI FICA PRESA SEM VER A LUZ DO SOL? JÁ CHEGA DE PASSEIOS! CHEGA DE ROUPAS NOVAS, CHEGA DE HISTÓRIAS E DE ESCAPAR DO QUARTO NO MEIO DA NOITE! Você não está sendo uma boa menina. Eu lhe avisei para não me desobedecer!

– Não! – choramingou baixinho – Eu vou chamar a tia Narcissa e ela vai me levar embora daqui!

– VOCÊ NUNCA MAIS VAI VER NARCISSA NOVAMENTE, BERVLY!

– NÃO! – a garotinha gritou o mais alto que pode. Algo se partiu, um vaso de porcelana sobre a lareira, caindo aos pedaços no chão. – NÃO! – Seu segundo grito estridente fez o aparador próximo vibrar como alvo de um terremoto, as finas pernas de madeira se rachando.

– CALE A BOCA! – Bella avançou. Os vitrais da janela não resistiram, estraçalhando-se todos ao mesmo com um estrondo que sacudiu as paredes da mansão. Foi o suficiente para o cabo de sustentação do lustre dar seu derradeiro estalo, desprendendo-se do teto rachado e caindo em grande velocidade na direção de Bervely. Bellatrix, os lábios entreabertos desde o último grito, acompanhou a queda da peça, mentalmente prevendo a imagem da criança esmagada sob tudo.

– Aresto Momentum!

Não somente a grande massa de cristais parou no ar, a poucos centímetros da cabeça de Bervely, como o próprio tempo pareceu estancar, as respirações, as batidas enlouquecidas do coração das duas Black. Rodolphos abaixou a varinha, os olhos ferinos estreitos para a esposa. Ninguém se dera conta do estalar de aparatação que anunciara a sua chegada.

– Já chega, Bellatrix. – disse grave e lentamente.

– Não me diga o que fazer! Fique longe! Fique...

Rodolphos aproximou-se com passos fluidos e a segurou firmemente entre os braços, fazendo-a largar no chão a varinha. Bella estremecia contra seu corpo, transtornada e enraivecida, indecisa entre tentar livrar-se do aperto firme ou segurar suas vestes com as mãos trêmulas.

– Shii... – disse o homem, afagando o topo de sua cabeça, mantendo-a colada próximo a curva do seu pescoço. Olhou brevemente para Bervely, paralisada ainda abaixo do lustre que flutuava rente a sua cabeça. – Vá para o seu quarto. Não saia de lá até que eu diga.

– Eu não...

– VÁ!

A ordem surtiu o efeito desejado, e a garotinha subiu as escadas correndo, e segundos depois ouviu-se a porta do quarto bater. Rodolphos afastou Bellatrix de si e a mulher manteve a cabeça abaixada, os punhos cerrados, o corpo totalmente rígido.

– Você não pode assustá-la dessa maneira. Você vai quebrá-la, e ela não servirá mais para Milord. – disse baixo.

– Eu ia... eu ia matá-la. – concluiu, um olhar amortecido na direção do lustre.

– Mas não o fez. – disse com certa suavidade. – Eu salvei a sua pele mais uma vez, esposa.

Ele se virou, com a pretensão de deixar a sala. A mulher levantou o rosto e fitou sua silhueta magra, o cabelo cor de terra, seus astutos olhos de raposa.

– Rodolphos. – o fez parar, mas não se virar para olhá-la – Aconteceu algo no Beco Diagonal.

Os ombros dele se moveram de leve, um sutil desconforto.

– Você não precisa me dizer, Bella. Nós dois sabemos quem é a única pessoa no universo capaz de lhe deixar nesse estado de nervos.

(Continua…)

Notas finais
Demorei um pouquinho de postar pra ver se mais alguém animava em mandar review para o cap passado (eita desculpa feia, que mentira, kkkkk.) Gente, esse capítulo… sabe aquele momento que é chave na história, que rege tudo que acontece antes e que vai acontecer depois? Pode parece uma lembrança “boba” para a Bervely, mas mal sabe ela. 

Eu estou MORRENDO pra saber a opinião de vocês sobre esse capítulo, me deixem um comentário PELAMOR de Merlin, antes que eu surte aqui.