Indigna Rosa Negra
7 Abóboras e Rosas
Notas iniciais
“O seu lugar é aqui comigo, garota.”
“Não!”
“Você sabe que é… e não pode escapar… Oh, Bervely. Você me pertence. Como pode pensar diferente disso?”
“Não! Eu… Não!”
“Oh, não se atreva… não se atreva a ir embora novamente…”
A garota internada no quarto Doze saiu violentamente do seu pesadelo. Luz do dia invadiu seus olhos e os fez doer, mas ela recebeu a dor com alívio, respirando em grandes arfadas, em busca de todo o ar que conseguisse puxar. Sair de um daqueles sonhos era como emergir de um afogamento; a parte da frente de sua cabeça pinicava e ardia, bem como os seus pulmões. No seu braço esquerdo, a rosa cravava os espinhos em sua pele profundamente.
Ao menos eu estou conseguindo sair, lembrou a si mesma, quando pulava fora da cama, não querendo correr o risco de adormecer novamente. No dia anterior cuidara ela mesma de sua poção do Sono Sem Sonhos, e tinha certeza que a produzira com o mesmo sucesso de sempre: não era um erro da fórmula, mas uma perda de eficácia. Lera sobre aquilo, o uso contínuo de poções como aquela levavam o corpo a criar resistência. Precisaria trabalhar para fortalecer a receita.
Seguindo uma rotina criada desde que acordara, há dez dias, ela andou um pouco zonza de sono até a pequena pia à direita da cama e lavou o rosto. Logo acima, onde deveria haver um espelho, ficava uma prateleira com poções de limpeza bucal em frascos de vidro inquebrável, e bochechou uma delas, sentindo o leve ardor da assepsia nas línguas e gengivas.
Distraidamente, passou a mão do cabelo curto e de fios espessos, esfregou água em seu rosto e lançou um olhar chateado para a janela. Desde que subira ali no domingo passado, estava proibida de abri–la sem supervisão, e sentia falta da luz do sol. O único outro lugar com janelas de vidro que conhecia no hospital era a sala de convivência, e ela não se via indo lá se pudesse escolher.
Quando acabou de decidir que o dia seria bem aproveitado se pudesse convencer Madame Grandgnol a deixa–la criar uma formula mais forte de poção do Sono, a porta do quarto de abriu e uma das curandeiras entrou. Era a mesma que a encontrara em pé no parapeito da janela no domingo, e seu olhar ansioso deixava claro que se lembrava do episódio.
– Bom dia, querida. Como se sente hoje?
– Sem sentimentos suicidas, obrigada por perguntar.
A bruxa, que claramente não tinha senso de humor, fez uma careta e se aproximou para medir seus sinais vitais. Usando sua varinha, ela amplificou as batidas do coração da paciente, e eles ecoaram pelo quarto, sendo ouvidos atentamente em busca de anomalias. Ela também oscultou seus pulmões, investigou seus olhos e lhe envolveu com uma série de círculos que ficavam de cores e texturas diferentes, indicando uma série de estados internos aos quais a garota não tinha conhecimento do significado. Os exames todas as manhãs eram invasivos, e a deixavam desconfortável e irritada, mas naquele dia preferiu ficar calada, se concentrando nas alterações que poderia fazer na poção ao invés de reclamar.
– Seus sinais estão normais, o que é bom. A mudança de quarto ocorrerá após o almoço, o curandeiro do turno da tarde virá lhe ajudar com as suas novas acomodações.
– As minhas o que? – perguntou perplexa. Ninguém tinha dito nada sobre mudança de quarto. A curandeira aparentou um pouco de nervosismo com seu tom.
– Oh, querida, não foi avisada? Você está pronta para ir para a enfermaria coletiva agora. O seu doutor autorizou a mudança ontem.
– O meu doutor? Dr. Fritz fez isso? Não, deve haver algum erro com os seus documentos.
– Isso é uma coisa boa, meu bem – disse a mulher, embora o tom nervoso não corroborasse as palavras – você quer… bem, pode falar com ele sobre isso hoje a tarde, vocês tem um encontro marcado para as quatro.
– Eu não vou esperar até as quatro! Parece para você que eu tenho o que fazer até quatro da tarde? Quero falar com o Dr. Fritz agora, me leve até ele. – exigiu.
– Eu posso… eu vou chamá–lo. Aguarde aqui por favor.
– Eu não vou aguardar droga nenhuma! – ela pressionou, aproveitando–se do fato de que a bruxa estava claramente atemorizada com o seu tom, e estava certa.
Dois minutos depois, ela seguia a curandeira pelos corredores do quarto andar, até um local perto dos elevadores, onde finalmente o acharam. O Dr. Fritz conversava com um uma família. O mais velho segurava duas crianças no colo, e uma senhora baixinha chorava copiosamente. Fritz usou sua voz rouca e suave para consolá–la, e esfregou seu ombro de leve, apaziguador, enquanto as duas observavam a cena de longe.
Em determinando momento os olhos do medibruxo avistaram a sua paciente do quarto doze, e ela reparou que no fundo dos olhos cor de malte havia tristeza genuína. A curandeira andou até o grupo, falou algo no ouvido dele, e ele assentiu, então trocaram de lugar, e Fritz, após se despedir da família, veio andando na direção dela.
– Vamos até a minha sala. – ele disse, a voz abafada. Ela o seguiu um pouco assustada, nunca imaginara o medibruxo como alguém que pudesse se abalar pelo que acontecia no hospital. Não ousou falar até se sentarem, apesar de os protestos estarem todos acumulados na ponta da sua língua. Talvez finalmente fosse receber a bronca pelo seu comportamento intempestivo e suas constantes exigências, imaginou. O assistiu pegar a sua ficha, olhá–la sem realmente ver por um longo momento, e então, para sua surpresa, ele abriu um sorriso suave.
– Eu estou muito admirado com os seu percurso até aqui. Não, admirado não é a palavra certa. Eu estou orgulhoso de você.
A harota recebeu a afirmação do medibruxo com uma certa dose de ceticismo.
– Pode ser mais claro? Do que estamos falando aqui, da minha resistência ao tratamento, a minha insubordinação com a equipe medica, ou da minha suposta tentativa de suicídio?
Como sempre, ele contornou sua ironia sem reagir.
– Quando você foi trazida até aqui… tão machucada, muitos pensaram que estava além da reparação. Algumas magias são assim, destrutivas por si mesmas, e podem ser mais poderosas do que um corpo ou uma mente conseguem suportar. Nesses casos, não há muito que possamos fazer a não ser cuidados paliativos… e foi o que fizemos por você. Lhe deixamos confortável e sob assistência, mas você estava inacessível para qualquer outro tratamento mais direto. Não fizemos nada, na verdade. Observamos você lutar e sofrer por seis meses em silêncio. Isso é perturbador para qualquer medibruxo. Com certeza foi perturbador para mim.
Doze de mexeu muito desconfortável em sua cadeira. Não queria um monólogo sobre os sentimentos do Doutor Fritz, só esclarecer a historia da mudança de quarto e ir trabalhar no laboratório de poções. Ela não sabia porque ele decidira se abrir de repente, mas aquilo era muito constrangedor.
– Eu passava para ver você toda semana, mesmo não podendo fazer nada. Alguma coisa me dizia que você valia a visita. Então você fez – ele sorriu ainda mais – você trouxe a si mesma de volta. E isso foi a coisa mais incrível. Não impossível, mas ainda assim. Você voltou lúcida, enérgica, cheia de perguntas. Fez tudo isso sozinha. E eu percebi que estava certo. Apostei em sua força e ela estava mesmo lá, o tempo todo.
Ela deu um sorriso amargo e negou com a cabeça.
– Não é nada disso, doutor Fritz.
– Ah, não?
– Não. — ela parou de olhá-lo. Os olhos eram muito penetrantes, e transparentes ao mesmo tempo. – Não, eu não voltei assim das cinzas toda pronta e forte e cheia de energia. Eu voltei… eu estou… quebrada.
Mesmo sabendo que era verdade, uma perturbadora consciência, admitir em voz alta apertou uns nós em seu peito. Ele lhe perscrutou absorvido.
– Por que diz isso?
Deu de ombros, fitando os pés da mesa ao invés dele. – Não é nada… nada que possa ser consertado. Quando eu lhe disse que estava bem, na nossa primeira conversa, eu falei sério. É como se eu estivesse quebrada há muito tempo, e não há nada que possa ser feito aqui, e isso não é nem mesmo um grande problema. É como eu sou.
– Não é um grande problema? – repetiu suas palavras, enigmático novamente. Ela achou que ele ia anotar no pergaminho, mas não aconteceu.
– Olha – pigarreou, querendo puxar a si mesma fora daquele clima estranho e reflexivo e cheio de entrelinhas as quais não entendia muito bem – Eu estava lhe procurando porque houve um mal entendido. A curandeira pensa que eu devo me mudar para os quartos coletivos essa tarde.
– Isso. Sim. – de repente eficiente, o medibruxo bateu os olhos em sua ficha e assentiu – Lembra-se na terça feira, quando eu lhe disse que discutiríamos algumas mudanças no nosso próximo encontro? Essa é uma delas. Sinto que já está pronta para ir à enfermaria ficar com os outros pacientes.
– Como a curandeira, você parece pensar que essa é uma coisa boa – ela zombou, com certa consternação. Ele concordou com energia, e sorrindo. Como se um sorriso de encorajamento fosse convencê-la.
– É uma evolução, significa que você está pronta para conviver com outras pessoas. Vai lhe fazer bem. Não era você quem estava reclamando de se sentir presa? Muito mais liberdade nos quartos compartilhados. – ele parou um minuto e captou o olhar cético dela – há algo a incomodando a respeito da mudança?
– Que tal tudo? Eu não quero dividir o quarto com esses… – ela respirou fundo – você já viu aqueles gêmeos diabólicos? O homem sapo? E aquela outra com o corpo cheio de pústulas azuis? Eu não tenho nada haver com essas pessoas! Eu nem mesmo sei porque ainda estou aqui, quero dizer, qual foi o meu dano mágico afinal? Eu me sinto perfeitamente normal! Todo mundo tem pesadelos, vocês teriam de trancar metade da população bruxa se fosse assim!
Ela estava ofegando quando terminou, mas o doutor permaneceu calmo e observador, assentindo lentamente. Doze irritou-se com a sua apatia. Há cinco minutos ele estava prestes a chorar junto com aquela família de bruxos no corredor, mas agora só podia olhá-la com a sua maldita indiferença.
– Qual a minha doença? Eu estou esperando uma resposta, Dr. Fritz! Por qual razão ainda estou sendo mantida aqui? Responda!
Ele se levantou, tão inesperadamente que ela se inclinou para traz, surpresa.
– Eu sou o seu medibruxo, e eu estou dizendo que você está pronta para a ala coletiva. Se está insatisfeita com a minha decisão, pode tentar reclamar com os meus superiores.
– Pode apostar que eu vou! — retrucou, pondo-se de pé também.
– Enquanto isso, preocupe-se com a mudança de local para esta tarde. Estou cancelando a nossa sessão de quatro horas, assim terá mais tempo para se adaptar. Se isso é tudo, nos vemos na próxima terça feira. Aguarde minha nota. Você pode se retirar agora, Srta. Black.
Ela tinha seus olhos bem abertos para ele. Não era só a mudança de seu usual tom bondoso e condescendente para o novo, autoritário e sem espaço para contestações. Era a primeira vez que ele usava seu sobrenome. Era a primeira vez que ela o ouvia desde que acordara.
Contrariada, deixou a sala dele batendo a porta com o máximo de força que podia. Os pacientes matando tempo na sala de convivência lhe olharam com certo espanto, pelo menos aqueles que não experimentavam fuga de realidade.
– Bem – ela bradou rispidamente para eles, fervendo de raiva por dentro e louca para descontar em alguém – será que alguém aqui sabe onde eu vou para falar uma reclamação neste hospital? Alguém??
Os gêmeos endiabrados, que tinham virado um sofá de cabeça para baixo e o faziam de forte, não lhe deram qualquer atenção. Num canto, o Sr. Murton coaxou tristemente. A única pessoa a olhar para ela foi um garotinho, que estava sentado ao piano junto da mulher aérea que gostava de dar papel de doce para todo mundo. Ele parecia muito envergonhado, seu rosto redondo tingido de rosa.
– Eu acho que eu sei onde você t-tem que ir. – ele disse num fio de voz incerto – até a chefe temporária de Danos por Magia.
Ela estreitou os olhos para aquela coisinha.
– E você, é quem mesmo?
– Eu s-sou… Neville. Neville Longbotton.
Ele não devia ter mais de onze anos, o cabelo preto era liso e lambido em torno da cabeça, e parecia nervoso só por estar falando com ela. Nunca o tinha visto ali antes, e supôs que estivesse visitando a mulher dos chicletes.
– Muito bem, e onde eu encontro essa chefe temporária?
Ele olhou incerto para a moça ao seu lado, depois para a porta.
– Posso te levar até lá, mas tem que ser rápido. Se a minha avó souber… – respirou com um tremelique, aterrorizado pela mera possibilidade.
– Não é necessário. Apenas me diga onde é, assim você aproveita mais o tempo com a sua…
– Mãe – ele completou, olhando para a moça tristemente – Não, tudo bem. Não acho que ela vai reparar se eu sair por alguns minutos. Não tenho certeza se ela sequer sabe que eu estou aqui, para começar.
Talvez o garoto estivesse com razão. Quando ele saiu do seu lado avisando que ia dar uma volta rápida, a moça não fez qualquer sinal de que o ouvira. Ela encarava fixamente as teclas branca e pretas do piano.
– Ela tocava um monte quando eu era pequeno. Pelo menos é o que a minha avó diz. – o garotinho foi tagarelando no caminho, parecendo vencer sua timidez a cada passo que davam para longe da ala de convivência. Bervely, que não tinha paciência nem com crianças nem com historias tristes do passado alheio, suspirou atrás dele – Eu não me lembro de nada. Não lembro como ela era antes do… do acidente. Eu só tinha um ano.
– Acidente? – perguntou, interessando-se – o que aconteceu com ela?
– Com eles, meus dois pais. – sua voz saiu mais baixa, como se revelasse um segredo e uma vergonha ao mesmo tempo – Foi na guerra. E não foi bem um acidente, eu só digo que foi, porque… eu não sei.
– O que foi então? – insistiu. Não percebeu como ele parecia perturbado em falar sobre o assunto, inconscientemente andando mais rápido e mordendo os seu lábios.
– Foi um ataque. Bruxos maus pegaram eles.
– Bruxos maus? – repetiu, especulativa – como… comensais da morte?
– Sim – Neville assentiu, se virando, e havia uma sombra de um antigo medo em seus olhos. – Um casal deles. Foram… presos. Em Azkaban, a minha avó que disse. Uma prisão de bruxos muito segura.
– Você sabe o nome deles?
– Não. – disse o garotinho, rápido demais. Apertou nervosamente o botão do elevador, e quando este chegou, os dois ficaram em silencio dentro do cubículo por um tempo. Ela pensativa, e ele um pouco agoniado. Só falou de novo quando estavam no quinto andar. – Eu sei sim o nome deles. Ouvi a vovó, escondido, um dia. – mastigou seu lábio inferior por um momento, observando o corredor sem prestar atenção. Parecia estar decidindo se conseguia falar os nomes, ou se devia. – Eram… eram Lestrange. R-Rodolphos e Bellatrix… Lestrange.
– Oh. – ela soltou o ar que estivera prendendo.
– Não importa mais. Por que eles estão presos, certo? Não podem mais machucar ninguém, como fizeram com os meus pais.
Ela engoliu em seco silenciosamente. Neville olhou um pouco atordoado para as portas, e apontou uma delas, do lado direito do shopping do hospital.
– É naquela ali que ela fica. Minha avó às vezes vem aqui para agradecer, ou então saber coisas sobre o tratamento. Eu gosto dessa chefe substituta, porque ela sempre tem os melhores doces num jarro e me deixa ter quantos eu quiser.
– Obrigada, garoto – ela disse, sua voz abafada, avançando para a sala sem olhá-lo pela última vez.
Havia uma plaquinha de latão na porta, que dizia “Chefe do Departamento de Danos Por Magia” e embaixo, com uma letra diferente e mais recente, “Dra. Andrômeda Tonks (temporária)”.
Ela bateu com os nós dos dedos, ignorando a mão que tremia.
– BD -
1981, nove anos antes.
O salão ecoava demais. Rodolphos achou que se sua esposa desse mais um passo, ele enlouqueceria com o barulho repetitivo dos seus saltos contra o assoalho, que eram ampliados à proporção de tambores. Já fazia semanas que lidava com a inquietação de Bellatrix, sua impaciência e suas respostas cada vez mais ríspidas quando ele interrompia os murmúrios que ela dava para si mesma.
Era quase como se a ânsia do Lord em achar os Potter fosse a sua própria ânsia, e como se o pouco sucesso da empreitada a afetasse pessoalmente.
– Vamos para casa, Bella, furar o chão da mansão Riddle não fará os Potter se entregarem.
– Vá se quiser. Eu estarei a postos caso milord necessite.
Ele revirou os olhos, impaciente. Estiveram procurando o dia todo, ido a cada local em que já houvera registro de James e Lily Potter terem estado, e nem mesmo a capacidade extraordinária de Bellatrix em arrancar informações resultara em uma pista. Era como se os malditos estivessem exatamente sob seus narizes, mas por alguma razão fosse impossível enxergá–los.
– Ai está você completamente devotada, enquanto sequer sabe por que acha–los é tão importante. O que esses bruxos de merda têm de tão especial? Outros membros da Ordem da Fênix já causaram mais estragos, e representam mais perigo, e tudo em que o Lord fala é em achar esses idiotas.
– Não questione os propósitos Dele, Rodolphos – ela retrucou indignada – Talvez seja importante demais para chegar ao seu conhecimento.
– Ou ao seu. – disse com um meio sorriso.
Ela virou o rosto, uma expressão convencida.
– Eu saberei no momento propício.
Rodolphos gostaria de lhe falar o quão iludida sua esposa estava, e como era ingênua em realmente crer que era a favorita de Voldemort quando todos sabiam que o mestre somente se aproveitava dos seus atributos, mas foi impedido por alguém que tocava a porta. Os comensais se entreolharam e um segundo depois Bella já desaparatara para andar inferior. O homem, a contragosto, foi comunicar ao seu irritado mestre que tinham uma visita inesperada.
Bella abriu a porta para um completo estranho, um homem nervoso. Era duas cabeças mais baixo que ela e o volume debaixo da sua capa marrom indicava que era rechonchudo. Tinha a boca entreaberta ao vê–la, deixando aparecer seus dentes frontais avantajados. Bella precisou forçar na memória para ver de onde conhecia aquela criatura patética. Foi no par de olhos miúdos assustados que o denunciou. Ela abriu um sorriso atroz e feliz.
– Pettigrew. Você bateu na porta errada. Tudo que temos a te oferecer aqui será uma morte lenta e dolorosa.
Mas além do temor por Bellatrix, Peter tinha algo mais, um quê de obstinação selvagem.
– Eu q–quero falar com ele, Lestrange.
– Você pegou o Lord negro num momento especialmente disposto do seu dia – ela disse, lembrando–se do estado de fúria após tantos meses sem achar o que desejava. – Eu vou gostar de ver pedaços seus grudados no tapete. Vamos lá, Pettigrew. Dê meia volta e finja que nunca tocou essa campanhia. Garanto que lhe matarei com uma maldição rápida e limpa e não se fala mais nisso.
Peter insistiu, negou veemente a oferta da mulher. Seus olhos astutos e ligeiros brilhavam de ansiedade.
– Eu posso dar informações. Coisas sobre... coisas sobre Lily e James Potter.
–BD–
Os meses em Blackburn Hall corriam vagarosos, indiferentes ao massacre aos mestiços e sangue–ruins no mundo do lado de fora. Os negócios de Lestrange iam muito bem, a colheita do trigo–de–fogo fora volumosa e o processo de destilação chegou ao fim junto a setembro. A nova marca de whisky de fogo, cujo nome escolhido foi Blackburn em honra ao seu local de produção, entrou no mercado para concorrer com o Ogden e estava fazendo um enorme sucesso.
Rodolphos era sempre visto fiscalizando a produção dos elfos, e agora ele também tinha muito trabalho com as outras etapas da comercialização. Divulgação, distribuição e os entrames financeiros o levaram a contratar alguns sócios e trabalhar duro. Bellatrix não fazia parte disso, mas também estava sempre ocupada.
Bervely jamais soube realmente que, quando sua mãe chegava em casa em estados de animo dos mais diversos – irritada, eufórica, nervosa e às vezes machucada, ela poderia estar retornando após queimar casas de sangue–ruins, roubar artefatos para Voldemort, ou, sua parte preferida – torturar sangue–ruins em busca de informações para o seu Lord.
Os atos alimentavam a inconstância do seu estado de espírito. Quando seus olhos estavam brilhantes demais, podia ser porque acabara de conjurar a Marca Negra em alguma parte do céu, dominando a noite e anunciando ao mundo mágico que ela acabara de fazer a sua parte para deixá–lo mais puro.
Três dias antes do fim de outubro, Bellatrix mal podia conter seu êxtase, e não era porque estava ansiosa pelo Dia das Bruxas. A jovem comensal apenas finalmente encontrara a família McKinnon. A caçula McKinnon estava na Academia de Aurores e fazia parte da Ordem da Fênix, e pelo que Bella se lembrava, tinha sido grande amiga do seu primo em Hogwarts. Certamente um pouco mais que amiga.
Bella ainda ouvia os ecos de Marlene implorando pela sua vida mestiça. Voldemort mostrara a sua gratidão por aquele serviço. E não havia nada como a gratidão de Voldemort. Seu humor se manteve em alta pelos dias seguintes, como o marido constatou após chegar de uma viagem de negócios no último dia de outubro.
– Eu trouxe abóboras. – Rodolphos avisou, tão logo que pôs a cara na sala, dirigindo–se para o seu bar e alcançando um dos whiskys novos. – Mandei o elfo fazer uma torta.
– Eu odeio abóboras. – o lembrou, por detrás do livro que segurava nas mãos.
– Você está feliz – Rodolphos reparou, os olhos rasgos gatunos cor de vinho a perscrutado – Veja, sua boca, ela está se curvando... o que é isso? Um sorriso? Quem roubou a Bellatrix sisuda com a qual me casei?
– Não amole – Bella rolou os olhos – Os elfos farão um jantar hoje. Convidei o seu irmão e a esposa, Lucius e Narcissa.
Um barulho indicou que Charlotte vinha correndo escada abaixo, mas ela estancou ao ver que Bellatrix estava na sala. Pensou em desistir, mas Rodolphos lhe deu um olhar de encorajamento e ela se aproximou, a cabeça meio baixa.
– Senhor... temos abóboras?
– Eu as trouxe, sim. – o homem disse com um meio sorriso, achando graça do acanhamento da sobrinha sempre que estava na presença de Bella.
– Será que eu poderia... hum, pegar a casca? Queria mostrar a Bevy como eu fazia as caretas de abóboras em casa.
– Claro – aprovou, a despeito das sobrancelhas erguidas da esposa – pegue com os elfos na cozinha.
– Você dá muita liberdade a essa enjeitada, Rodolphos. – Bella reclamou após a ida da garota – Não reclame quando eu precisar puni–la por atos de ousadia na minha presença.
– Ela respeita você, então, a deixe em paz. Eu não me envolvo com a sua bastardinha, não é?
–BD–
– Eu odeio abóboras. – Bevy resmungou, analisando com desprezo os frutos sem polpa que Charlotte trouxera nos braços. O cheiro já tomava o quarto e a mais velha foi abrir as janelas, sem dar atenção à garotinha.
– Quando eu era menor, a minha mãe e eu fazíamos monstros de abóbora para decorar a casa no dia das Bruxas. Nós tínhamos fadinhas brilhantes no quintal e quando vinham comer a abóbora, faziam–nas brilharem por dentro.
Bevy a encarava incrédula, assistindo a jovem pegar a faca e começar a cortar olhos triangulares na casca.
– Porque alguém iria querer enfeitar a casa com abóboras? São horríveis. Minha mãe não vai deixar você colocar isso na sala, e o que os convidados vão pensar de nós?
– Convidados?
Bevy tinha ouvido os elfos cochicharem mais cedo. Ela se empertigou na cama para comunicar:
– Vamos ter um jantar hoje, e parece que a tia Narcissa vai vir.
Charlie largou seu monstro de abóbora deformado de lado:
– Sério? E ela vai trazer o bebê? – estava empolgada. Não acreditava que iria conhecer finalmente a tia de que tanto Bevy falava.
A pequena deu de ombros, pensando que não queria que o bebê viesse. Como Narcissa conversaria com ela se tivesse que segurá–lo todo o tempo? Tia Narcissa já ficava tanto tempo com ele, devia querer um descanso.
O céu já mostrava pesadas nuvens cinzentas prontas para desabar sobre os campos de Lancaster. A despeito do clima, após o anoitecer os elfos iniciaram a arrumação suntuosa da mesa na sala de jantar da mansão. Bella repudiava o trabalho doméstico, mas preferiu vigiar de perto a correr o risco de deixar algum detalhe importante passar e acabar prejudicando o evento planejado. Quando as taças de cristal, a prataria da família e os arranjos estavam completos, a chuva ousou cair, num estardalhaço barulhento.
Isso não prejudicou a chegada pontual de Rabastan Lestrange e sua esposa, Amelie, uma mulher tão magra e de cabelo tão claro que lembrou, à Bevy, uma rã. Já o irmão de Rodolphos lhe era quase oposto – baixo e ativo, se assemelhava somente na cor do cabelo, que usava curto, rente a cabeça. Ao chegar, o casal encontrou tanto Bervely quanto Charlotte com bonitos vestidos engomados e os cabelos em cachos, e ninguém poderia dizer que mais cedo estiveram esculpindo monstros em abóboras.
– Você tem uma linda filha, Rodolphos – Amelie elogiou, indicando em algum momento da conversa Bervely, que não parava de vigiar a porta.
A menina virou a cabeça rápido, pronta para corrigir o erro, mas encontrou o olhar de aviso de Bellatrix, e abaixou a cabeça para o próprio prato. O maxilar de Rodolphos tremeu ligeiramente ao agradecer, mas ninguém percebeu.
O assunto seguiu ameno, sob o acordo velado de não discutir questões a respeito da caça aos Potter, que já durava meses, cheias de informações insuficientes vindas do agente duplo Pedro Pettigrew. No dia anterior o homem tinha dito ao Lorde que conseguira algo mais consistente do que as pistas errantes que vinha arranjando.
Naquela noite, algo aconteceria – ou Peter Pettigrew dava ao Lorde uma informação valiosa, que fizesse valer a pena seu ingresso ao circulo dos comensais, ou, ao final da noite, estaria morto. A anfitriã mandou os elfos servirem o jantar na mesa, embora nem mesmo o cheiro do pernil ao molho de gengibre pudesse afastar seus pensamentos de Voldemort.
Bevy resistiu em começar a se servir.
– Não vamos esperar tia Narcissa? – perguntou baixo, porém deliberada.
– Ela não vem.
A garotinha não ocultou sua óbvia decepção.
– Por quê?
– Por que está muito ocupada com o bebê.
Bella não se lembrava da ultima vez que tivera uma noite tão comum. Quando todos se sentaram próximo a lareira, apreciando o bom whisky de fogo Blackburn, ainda sob uma chuva torrencial, falando amenidades e qualquer coisa sobre a copa mundial de quadribol, ela se sentia entediada.
Mesmo enquanto colaborava com seus comentários azedos sobre o esporte, a mente vagava em um lugar nebuloso. Tinha mandado Bevy e Charlotte para cama já há algum tempo, mas sabia que deviam estar em algum lugar no corredor ouvindo o que acontecia na sala. Talvez deveria dar uma desculpa aos convidados sobre ir checar as crianças, mas isso não soaria muito… maternal? Ela teve um calafrio.
E então, a despeito de toda a normalidade gritante da sua noite, houve o momento que mudaria os próximos quinze anos da sua vida.
Começou com uma batida na porta e um elfo qualquer, que ela nunca soube denominar qual, derrapando pela sala.
– Sra. Lestrange, visitante... Malfoy... não querer esperar! – ofegou e engasgou a criatura.
Bella levantou rápido.
Quando Lucius Malfoy entrou no saguão da Mansão Lestrange, encharcado, afobado e com a coloração da pele um tom mais branca habitual, ela entendeu que alguma coisa horrível tinha acontecido, e com o corpo dormente, ela esperou, encarando o cunhado.
– Os Potter estão mortos. – disse ele num fôlego.
Os convidados e Rodolphos enfim tiveram a percepção adiantada por Bellatrix e levantaram. O anfitrião tomou a frente.
– Lucius, o que quer que tenha acontec...
– A casa foi quase destruída, Pettigrew era o fiel do segredo da localização e os traiu hoje cedo. Quando eu soube através de Snape, fui a casa e Rúbeo Hagrid estava lá, e levou consigo o bebê dos Potter. Eu o segui e ouvi sua conversa com a Prof. McGonnagal.
– O bebê sobreviveu? – a comensal estranhou – Milord não...
– Bellatrix – a voz de Lucius estava desprovida do seu gélido e característico tom – Segundo Dumbledore, o garoto o derrotou. Voldemort se foi.
A comensal franziu o cenho, duvidando da ingenuidade de Lucius.
– Mas que raio de plano estúpido é esse? A Ordem da Fênix pretende nos fazer acreditar que o Lord simplesmente... – Rabastan expressou o pensamento de todos.
– Olhe sua marca negra. – foi tudo o que Lucius disse.
A caveira tatuada a fogo pelas magia de Lorde Voldemort já não passava de uma tatuagem velha, esverdeada e meio desbotada, como se nunca tivesse sido o maior símbolo da aliança entre os comensais da morte e o mais poderoso líder que já existira.
–BD–
Os monstros de abóbora apodreceram. Bervely e Charlotte os jogaram pela janela, e ninguém nunca reclamou, porque quando elas viram Bellatrix novamente, os vermes e fungos já os tinham comido.
Bella tinha manchas roxas sobre os olhos, mas nunca se soube se eram machucados ou exaustão. Durante as poucas horas que estava em casa, aos gritos, quebrando coisas, brigando com Rodolphos, deixava claro que nada mais seria como antes.
Ela vasculhava as noites atrás de Voldemort, de Pettigrew, de aurores, de qualquer um que pudesse lhe dar as respostas. Nestas buscas alguém que não sabia de nada sempre se machucava, mas ferir e torturar já não a completava como antigamente. A dor que causava com a sua magia nunca compensava a sua agonia. Sua recusa em acreditar que o Lord das Trevas se fora era fundamental, intrínseca, parte de quem ela era.
A agonia empurrou seus olhos para o fundo e fez seu cabelo perder o brilho. Era comum que suas roupas viessem com sangue – não raro o seu próprio. Alguns dias depois, alguém encontrou Pettigrew, a quem Bela caçava incessantemente para tirar satisfações, sem resultados. Alguém o matou e a mais doze trouxas inocentes numa rua de Londres.
Bellatrix amaldiçoou o assassino de Pettigrew com tamanha energia e devastação que Rodolphos precisou contê–la, como no dia após o passeio no Beco Diagonal. Ela queria ter pego Pettigrew com suas próprias mãos, pois o culpava. E ela queria o assassino dele sob a mira de sua varinha, porque por alguma razão, também o odiava.
Num fim de tarde, após meses de incessante agonia dentro de Blackburn Hall, o estalo de apartação nos jardins chamou a atenção de Bervely, que foi espiar. Pela fresta da janela, viu que a mãe vinha junto ao marido, ao tio Rabastan e outro rapaz, um jovem de cabelos claros que a menina nunca vira.
Bevy pulou da cama tão logo percebeu que estavam entrando em casa, deixando de lado o Signo Negro, que estivera folheando. Escondeu–se na penumbra do corredor, frente à biblioteca, e esperou que os adultos passassem por ela.
– Rodolphos, poderia só para variar apressar a sua mulher insuportavelmente voluntariosa? Uma pista boa em meses e ela nos devia do caminho para satisfazer um de seus caprichos! – sibilou a voz grave de Rabastan.
Rodolphos respondeu rispidamente qualquer coisa que Bevy não ouviu. Ela se aproximou, e achou que tinha ouvido "Longbottons", que era um nome engraçado. Não pode recuar a tempo quando o grupo saiu a passos largos da biblioteca, e o jovem loiro trombou nela.
A menina olhou para Bella rápido, e viu a mãe ocultando sobre a capa qualquer coisa que cintilou brevemente sob a luz do archote, qualquer coisa com uma lâmina de corte em forma de estrela. Pelo olhar fuzilante de Bella, achou que seria posta de castigo mais uma vez. Mas não aconteceu.
– Vá para a sua cama, Bervely. Você nunca viu estas pessoas aqui esta noite.
Aquilo era confuso para a garotinha.
– A senhora voltará para o jantar? – perguntou timidamente.
Bellatrix assentiu com pressa.
– É claro. Vai parecer que nem saí.
–BD–
Bella e Rodolphos não apareceram para o jantar ou na manhã seguinte. Enquanto os elfos serviam o café da manhã, uma coruja–correio entrou pela janela e entregou o jornal. Normalmente era Rodolphos quem o recebia, mas na sua ausência, Charlie o pegou e desenrolou, atrás dos quadrinhos de Darlin, o Hipogrifo Trapalhão.
Mas uma vez que bateu seus olhos na capa, a garota mais velha soltou uma exclamação de horror para a matéria principal.
– Bevy, oh meu Deus, oh meu Deus! Isso é horrível, não pode ser verdade.
– O quê? – esticou os olhos para as fotos do jornal. Para a sua surpresa, sua mãe, Rodolphos, tio Rabastan e até o rapaz loiro estavam nele. – Por que a minha mãe está no jornal?
Charlie leu a matéria com os olhos cada vez mais arregalados. Ela estava branca feito cera quando terminou.
– Temos de sair daqui. – anunciou com assombro.
– O que? O que está acontecendo, o que o jornal diz? – mas quando esticou a mão, Charlie tirou o jornal do seu alcance. Isso fez Bervely gritar – Charlotte! Dá isso aqui agora!
– Eu não posso! Escuta, precisamos falar com a sua tia. – enfatizou, muito assustada. – Vamos mandar uma coruja para ela. Anda, levanta!
Charlie deu a volta na mesa puxando a garotinha pelo braço, a fazendo derramar leite no vestido. Isso irritou Bevy, que cruzou os braços e se recusou a sair do lugar.
– Hey, o que pensa que está fazendo!? Eu não vou pra lugar nenhum se não me disser o que está acontecendo!
Dois barulhos simultâneos interromperam a pequena confusão à mesa da mansão – uma explosão longínqua e um estalo bem ao lado delas. Um elfo acabara de aparatar no tapete da sala de jantar, com dois grandes olhos do tamanho de bolas de golfe piscando loucamente enquanto gesticulava.
– Dobby! – Bevy exclamou, reconhecendo o elfo da Mansão Malfoy antes mesmo de perceber seu desespero evidente.
– Menina Black deve se esconder rápido! – avisou torcendo as mãos – se esconder dos homens maus que estão chegando!
– Que homens maus, Dobby, do que está falando?
– Bevy, olha! – Charlotte apontou com terror para a janela da frente da sala.
Uma comitiva roxa se aproximava sobre cavalos, cercando a casa rapidamente. Vinham com varinha em punho, lançando feitiços com gritos e pisando sobre as flores do longo canteiro de entrada, as quais sua mãe fazia os elfos cultivarem ardorosamente.
– Menina Black precisa deixar a casa!
– Vem, Bevy, obedece!
Por um triz Charlotte não conseguiu agarrar a manga do vestido da menina, que num piscar de olhos tomou o caminho das escadas e as subiu correndo. Atravessou o corredor numa velocidade de trovão e entrou no próprio quarto, derrapando pelo chão até parar frente à penteadeira, ajoelhando e enfiando a mão no esconderijo secreto. Trouxe, junto com muitas teias de aranha, o Signo Negro e, principalmente, a bem escondida coleira de couro. Já as tinha dentro duma bolsa quando Charlie chegou ao quarto, os olhos transbordando de lágrimas de medo.
– Vão nos levar para a prisão, Bevy!
Bervely correu e escancarou a janela. Lá debaixo uma densa folhagem a esperava quando trepou no parapeito segurando firme a bolsa ao lado do corpo. Charlotte mal acreditou ao vê–la pular, mas o barulho das portas no andar de baixo se escancarando lhe animaram a também subir no parapeito, cerrar os olhos e jogar o corpo para frente, experimentando a traumática sensação da queda livre, e de cair... no fofo.
Os mesmos arbustos que tinham acabado de amortecer a queda de quatro metros tinham espinhos que machucavam, os arranhões ardendo em sua pele de criança. A garotinha se livrara dos arbustos e corria por entre as árvores, Charlotte em seus calcanhares, olhando para trás a todo tempo a espera de ver, a qualquer momento, um daqueles cavaleiros lançando um feitiço nelas.
– Para onde estamos indo?
Bervely pediu silêncio com o dedo sobre a boca. Tinham chegado numa parede sólida de hera que Charlotte jamais soubera existir ali. Sem pensar que precisava de uma varinha, Bevy empurrou com a mão o lugar que vira a mãe fazer o feitiço. O muro se abriu, revelando a longa estufa na clareira, deixando Charlotte boquiaberta. Só depois de estar bem quieta ao lado das plantas, sentindo o cheiro fortemente adocicado e o bafo quente que se grudava na pele como um manto, elas sentiram que estavam seguras, ao menos por hora.
–BD–
Charlotte ficou muda por horas no canto da estufa, ao lado de um caule distorcido. Parecia que nunca mais se moveria, a não ser ao tremer, sempre que um galho estalava ou uma folha seca se partia. Bevy sentia arder seus arranhões, mas também não se moveu. Ainda tinha a sensação de falta de chão sob os pés e se agarrava forte à sacola com as duas coisas mais importantes que possuía.
– Quando será que Bellatrix vem nos buscar? – acabou perguntando. Estava tão frio e úmido, e a sua barriga tão vazia.
– Ela não vai voltar, Bevy. – Charlie disse bem baixinho.
– Ela disse que iria.
O dia foi indo embora. A estufa escureceu e ficou cheia de sombras distorcidas, refletidas no chão e nas paredes de vidro. Embora tenha se perguntando muitas vezes se os homens maus tinham ido embora, cansados de procurá–las, não se atreveu a se mover dali, de perto da roseira de flores branquíssimas. Charlie dormiu, e ela mesma já não tinha certeza se estava acordada, quando ouviu um chamado suave vindo do lado de fora.
Encolheu–se até ficar invisível atrás do vaso de plantas. O chamado persistia, mas era só, a voz e a escuridão adocicada da estufa. Mas é claro que conhecia, poderia responder, era seguro... sua boca não obedecia. Sua boca, como o resto, ainda se sentia paralisada com o perigo.
–BD–
A capa da mulher agarrou–se aos galhos quando ultrapassou as paredes de hera, até a clareira onde ficava a estufa. A mão dormente tinha a varinha firme, mesmo que depois que procura ao longo da casa, do depósito de barris, mesmo do bosque, não trouxera resultado. Estava exausta e congelando de frio e prestes a receber toda a chuva que ameaçava cair. Mas não havia a menor possibilidade de ir embora sem levar consigo o que viera buscar.
– Bevy... Bervely... por favor, querida, não se esconda de mim... está tudo bem.
Entrou na estufa. Era impossível, certamente, mas... a linha de pensamento se evanesceu ao ver a figurinha embolada detrás de um grande vaso de hérberas–de–galochas. Tinha uma camisola imunda e arranhões pelos braços e no rosto. O cabelo cor de carvão úmido colava–se ao pescoço. Ainda assim, ainda assim... a Black sentiu o coração se retorcer como um animal, um animal despertando após um inverno muito frio.
Tomou a menina nos braços, a filha de Bellatrix abriu os olhos, embora estivessem tão embaçados que dificilmente poderiam vê–la. Mas Bevy jogou os braços ao redor do pescoço da tia, cheia de gratidão por ser resgatada daquele canto úmido de terra.
– Não se preocupe, anjinho. Meu anjinho. Vou te levar de volta para casa.
(Continua...)
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