Indigna Rosa Negra

23 O Coração da Rosa


Notas iniciais
Esse capítulo está grande, é o maior até agora, mas me recusei a dividi-lo em dois. Ele é o que é. Imagino que vão precisar tomar fôlego no caminho. Muito fôlego. E um obrigada especial a Grace Black, meu anjo da guarda dos momentos cabeludos de plot, e que tem ajudado demais da conta nas betices. Boa leitura.


“– E agora é a minha vez de lhe dar um beijo?” – perguntou Peter.


– Se você quiser… – ela disse com ligeira afetação, oferecendo-lhe a face de um jeito que chegava a ser um pouco vulgar. Peter, no entanto, colocou na mão dela uma bolota de carvalho que usava como botão.”


(Peter Pan – James Barrie)

Durmstrang, 1990.


Exatamente três meses antes do fatídico Natal — aquele cujos acontecimentos levaram Bervely ao seu longo internamento no Hospital St. Mungus, à sua perda de memória e à mudança de aparência temporária — ela estava começando o seu quarto ano na escola de Durmstrang.


Era um ano bem difícil, pois se iniciava a aprendizagem dos níveis intermediários em magia e os estudantes precisavam começar a definir para o que gostariam de prestar os seus N.O.M.s no ano seguinte. Os dias de aula eram exaustivos e os professores passavam a exigir mais dos alunos, que tinham sua magia levada ao limite. Durmstrang era conhecida no mundo inteiro pela sua disciplina rígida, atenção aos detalhes e perfeccionismo. Naquela sexta-feira em especial, Bervely sentiu isso na pele quando precisou executar o feitiço escudo exatas trezentas e quarenta e três vezes, antes de o seu professor considerá-lo impecável.

Seu pulso doía horrivelmente. Tara conjurara uma bolha morna e gelatinosa para aliviar o inchaço local, mas não estava dando jeito.

– Você devia ir na enfermaria e pedir uma poção pra dor – disse a ruiva, levantando o olhar do seu caderno, quando Bervely resmungou pela décima quinta vez. Normalmente todos os dias depois da aula elas seguiam uma rotina: retornavam para o quarto compartilhado na torre feminina e praticavam alguma coisa aprendida durante o dia, ou então comparavam as suas anotações. Naquela noite Bervely se recusara a fazê-lo, e sabia que isso tinha chateado a amiga.

– Posso fazer uma poção para dor eu mesma – lhe informou, impaciente – Não é essa a questão.

– E qual é a questão?

– É suposto que eu aguente, faz parte do aprendizado. Não ouviu o que o professor Ludovic falou?

– Prof. Ludovic é um sádico. Eu só não sabia que você era uma masoquista.

– Não sou não. Você é que uma molenga, não aguenta nem dar uma topada sem ir chorando para a enfermaria.

– Ah, cala a boca, Bervely. – Tara rolou os olhos verde-azeitona, muito decidida a não levar a briga recorrente adiante. Elas tinham esse tipo de discussão o tempo todo, só porque a Black gostava de se fazer de inatingível, e Tara tinha senso de realidade o suficiente para não se submeter ao sofrimento desnecessário. Não era para isso que mágica servia? Bervely ia retrucar, mas ao invés disso fez uma careta, pois tinha esquecido e movido o braço sem querer. Tara franziu, preocupada – Não melhorou nada?

– Continua doendo. Mas é assim que eu gosto, lembra? – resmungou com ironia. Naquele momento alguém bateu na porta, e sem esperar resposta, um dos funcionários da escola enfiou a cabeça no quarto e procurou Bervely.

– Srta. Black? Você tem uma visita. Queira me acompanhar até o salão de visitantes.

Ela arregalou os olhos para Tara, numa incredulidade empolgada. Recebeu de volta um meio sorriso que era ao mesmo tempo descreditado e divertido. Sem se demorar, Bervely jogou a capa por cima do uniforme que ainda vestia e acompanhou o bruxo, através dos corredores frios e rústicos do castelo.

Ela não precisava perguntar para saber quem era, porque seu coração sentia. Quando o viu parado lá, uma descarga de adrenalina a levou a correr direto para os seus braços.

– Hector! Finalmente! – exclamou, literalmente pendurando-se em seu pescoço, o primo lhe segurando no ar pela cintura. Tinha a impressão que ele crescera mais ainda durante aquele verão. – Dessa vez eu pensei que você nunca voltava!

– Que bobagem – o loiro riu, a colocando no chão – eu sempre volto. Me deixe olhar para você. Uau. Você não é a garotinha da qual eu me despedi há quatro meses. O que aconteceu com você?


– Eu sei – ela sentiu as bochechas esquentarem com o olhar impressionado que recebia dele. – Tia Narcissa disse que é assim com as meninas da família Black, quando você menos espera, elas já floresceram. Mas… você também mudou um bocado.

– É. Só que enquanto você virou uma mulher, eu meio que virei um ogro. – ele riu-se.


Era um exagero, é claro. Apesar de ter deixado o cabelo crescer consideravelmente, e trazer uma barba rala e descuidada, continuava sendo o garoto mais bonito que ela conhecia. Os olhos cor do mar ainda eram impressionantes, o contorno do rosto possuía uma angulação charmosa, e os lábios finos sorriam fácil. Podia jurar que os ombros dele estavam mais largos, também, por debaixo de um pesado casaco de couro de farosutil que ela nunca tinha visto antes.


Aquela foi a segunda vez que Hector visitou o seu país de origem desde a morte dos seus pais. Da primeira, antes do seu sétimo ano, passara apenas duas semanas, mas desta, logo após se formar em Durmstrang, Hector demorara o verão inteiro e ainda todo o mês de agosto.


– Então, como foi a Suíça? E por que você demorou tanto dessa vez? Pensei que só tivesse coisas de herança para resolver! O que levou todo esse tempo?

Ele abriu a boca para responder, mas no mesmo momento um gordo gato prateado saltou no braço da poltrona para investigá-la, cheio de desconfiança. Ela arregalou muito os olhos para o felino, já que animais de estimação era estritamente proibidos em Durmstrang.

– Ah, esse é Jinx. Diga olá para a minha fada, sua coisa gorda e preguiçosa.

– Você arranjou um gato? – ela perguntou, colocando bastante incredulidade em sua voz. Hector ergueu as suas sobrancelhas um pouco, como se nem ele mesmo pudesse entender como tal coisa tinha acontecido, quanto mais explicar.

– Foi ele quem "me arranjou", na verdade. É um familiar.

– Como o que, da sua família? – ela entendeu menos ainda. Hector riu-se.

– Não. É uma espécie de animal mágico que escolhe bruxos para serem seus donos dentro de uma mesma família.

– Ah. – ela sentou na poltrona em que o gato estava, mas com o cuidado de não encostar nele. Sempre fora desconfiada em relação aos felinos. Hector fez o mesmo no sofá, soltando um suspiro, e só então pode observar como ele parecia cansado. Tinha olheiras. Emagrecera. A percepção a deixou ligeiramente preocupada. – Hector, vai me contar o que aconteceu ou não?

Ele piscou, como se estivesse se distanciado por um momento, e seus olhos voltaram a se focar nela. Do mesmo jeito que ele a lera com facilidade a recíproca era verdadeira – haviam passado muito tempo da sua infância juntos, o suficiente para perceber quando havia algo errado acontecendo com o outro. Ele soltou o ar pesadamente.

– Eu vou lhe contar, mas não pode dizer a ninguém, certo? Ninguém mesmo… nem tio Lucius, ou tia Narcissa, Draco… nem mesmo à Tara.

Ela fez uma careta de desagrado.

– Tara é minha melhor amiga, ela pode guardar segredos.

– Mas isso você não vai contar. Promete?

Bervely suspirou. Nunca aprendera a dizer não a Hector.

– Muito bem. Ano passado, quando estive lá pela primeira vez, eu encontrei alguém que eu não esperava. Foi completamente… – ele puxou ar, e com ar, coragem – Encontrei o meu pai. Ele veio atrás de mim, na verdade.

Os olhos dela cresceram como pires.

– Mas seu pai está morto!

– É, foi o que eu pensei, o que todos pesamos. Acontece que só minha mãe morreu no incêndio. Ele conseguiu escapar, de alguma forma.

Ela inclinou a cabeça, um tanto desconfiada.

– E porque ele nunca te procurou, por todos esse anos?

Hector se mexeu nervosamente no sofá. Aparentemente, mesmo após um ano de distância de quando reencontrara Thor Carmichael, continuava sensível ao assunto.

– Ele disse que após o acidente, quando acordou no hospital, ele acreditou que eu estava morto, que eu tinha morrido no incêndio também… e ele só soube que eu estava vivo quando me viu movimentando os bens e visitando as propriedades, foi daí que ele percebeu.

– Oh. Isso é… isso é um bocado terrível, Hector.

– Não é mesmo? – seu tom era um tanto hermético, e os olhos azuis estavam escurecidos.

– E você tem se correspondido com ele desde então, mas nunca nos contou? – acusou, um pouco magoada por ser deixada de lado num assunto tão importante.

– Não! Naquela época, eu estava muito confuso com toda a história… pedi para ele manter distancia. Não falei com ele durante o ano passado inteiro.

Ela franziu as sobrancelhas. Podia ver que o assusto o perturbava bastante.

– E porque voltou esse verão? Por que foi procurá-lo novamente?

– Ele é meu pai, Bevy. Você entende? Talvez eu não acredite completamente na sua história, eu não sei… sinto que não o conheço muito bem, mas ele é meu pai. Se fosse o seu, mesmo que não confiasse totalmente nele, você não lhe daria uma chance?

Ela piscou, e mordeu forte o seu lábio inferior. Não tinha uma resposta para aquilo. A pergunta lhe causava uma inexplicável angustia.

– E então? – perguntou, para mudar de assunto, e porque estava curiosa e preocupada – você lhe deu uma chance esse verão, e o que aconteceu?

Hector suspirou pesadamente.

– Ele quer que eu volte definitivamente para a Suíça e vá a morar com ele. Ele tem essa espécie de… organização. Que que eu faça parte dela, seja treinado.

A angustia que já estava lá tomou forma, e ela agonizou um pouco aquela ideia, olhando desamparada para o primo.

– E você vai? Vai largar tudo para traz? Você vai, Hec?

– Eu não sei. Ainda não tomei uma decisão. – suspirou, esfregando com frustração os cabelos compridos, os desordenando. – Eu voltei aqui para pensar, na verdade.

– Oh. – ela mordeu seu lábio.

Não queria ficar longe dele para sempre, a mera ideia lhe doía de forma física, era um peso em seu peito. Mas… se fosse o seu pai, ela não lhe daria uma chance?

– Eu tenho algo para você. – ele lhe informou, por um momento a expressão de indecisão sendo substituída por um sorriso arteiro, tirando do seu bolso algo pequeno o suficiente para esconder na palma da mão.

– O que é? – perguntou com curiosidade.

– É… um beijo. – abriu a mão, revelando para ela algo ovalado, uma espécie de semente, mas que também se parecia o botão de uma flor bem pequena. – um beijo mágico, para ser mais específico.


– O que ele faz? – pegou a coisinha delicada com todo o cuidado.

– Pode te levar para onde quiser, sem sair do lugar.

Ela deu risada, um tanto incrédula. Havia lugares que gostaria de ir, mas que precisariam existir primeiro.

– Eu falo sério. Qualquer lugar, basta imaginar. Tem que fazer o preparo da maneira correta primeiro, é claro, mas confio em você pra isso.

– Ah, entendi – ela abriu um sorriso radiante. Hector estava falando de alguma poção, e isso com certeza Bervely podia fazer. – E agora o que, é a minha vez de lhe dar um beijo?

Ele deu de ombros. – Se você quiser.

– Então feche os olhos.

Achando graça, Hector obedeceu, a mão grande e branca estendida com a palma para cima. Ela se aproximou dele reunindo toda a sua coragem, e toda a resolução que convocara naquele tempo em que ele estivera fora. Era agora ou nunca….

Não, era agora. Decidida em seu propósito, chegou ainda mais perto, completamente perto, e colou os lábios nos dele, pressionando-os. Desnecessário dizer que seu coração parecia que ia saltar pela garganta, e o corpo todo estava dormente, excitação e receio brigando dentro dela pelo controle.


Hector se afastou quase no mesmo segundo, abrindo os olhos, completamente surpreso.

– Que está fazendo?

– Desculpe. – arfou, envergonhada.Reparou que as bochechas dele estavam tingidas de rosa também, e o olhar mais escuro e intenso. Hector se suavizou quando percebeu a reação dela, e sua mão foi parar na lateral do seu rosto, ternamente.

– Eu não estou bravo. – disse com carinho. – Tem certeza que quer isso? É o seu primeiro beijo, não é, fadinha?

Ela assentiu, mordendo com força seu lábio inferior. Estava tão nervosa que achava que o coração ia pular para fora, e tão quente que poderia aquecer uma poção só de segurá-la. Ele lhe deu um sorriso suave.

– Tudo bem, então. Feche os olhos…

Ela obedeceu. Sua alma derreteu inteirinha quando a mão dele foi até sua nuca, sustentando a sua cabeça, e os lábios voltaram aos seus, se movendo sobre eles bem devagarinho.

– BD –

Hogwarts, Novembro de 1992.


Bervely mergulhava numa espécie de furor concentrado e automático enquanto trabalhava, e mais de uma vez Snape se pegou observando os seus movimentos. Ela era precisa e suave, e ela mal piscava, se movia pelo laboratório sabendo exatamente onde estava cada coisa, e suas mãos iam sozinhas até os instrumentos de prata, o lugar de cada um já decorado na disposição do estojo. Ela sabia exatamente o que estava fazendo, e se encontrava tão profundamente absorvida em seu trabalho que se tornava incomunicável.


Em quase três meses como seu mentor, ele já aprendera que não adiantava tentar falar com ela enquanto estivesse trabalhando em uma poção se não quisesse repetir três vezes a mesma coisa, no entanto achava tão instigante assistir a sua técnica que permanecia no laboratório mesmo quando não havia necessidade.


Bevy abaixou a chama sob o caldeirão e recolheu as conchas e facas sujas, trazendo-as para a pia. Só então ela se deu conta de que o professor ainda estava ali.


– Eu estou experimentando um jeito novo de balancear a raiz de siracusa – comentou, distraída – com base no numero de ranhuras, e não no peso.


– Pode dar certo – ele admitiu, após considerar aquilo – mas você checou a data de colheita? A siracusa tende a ser mais irregular se colhida no inverno.


– Mesmo? Eu não sabia. Mas essas são de outono. – lembrou-se, procurando o olhar dele em busca de anuência, e Snape fez um breve aceno de aprovação com a cabeça. A aluna esfregou com cuidado as lâminas e as secou na estola de algodão, uma por uma, encaixando-as em seus lugares no estojo.


– São doze horas de cozimento. Vou precisar voltar às... – ela olhou para o relógio – quatro da manhã, ao que parece. Hum, isso pode ser um problema.


– Posso desligar pra você. – ele a tranqüilizou.


– Mas então o senhor teria de acordar na madrugada...


– E a senhorita teria de acordar, quebrar o toque de recolher e entrar nos meus aposentos no meio da noite.


– Ok. – Bervely admitiu, dando de ombros – Talvez não seja a melhor pedida.


– Penso que não. Tenha uma boa noite, Srta. Black.


Ela abriu a boca para responder, então a fechou, como se pensasse melhor. Snape notou.


– Fale.


– Hum… – mordeu o seu lábio por um segundo, pensativa. – O senhor teria alguma hipótese, sobre quem fez aquilo com a gata do Filch?


Acontecera há uma semana, no dia do Halloween, enquanto ela estava na festa proibida da Corvinal. Alguém petrificara a gata do zelador, a pendurara no porta archote ao lado dos banheiros do terceiro andar e escrevera em vermelho na parede “A câmara secreta foi aberta. Inimigos do herdeiro, cuidado.” As palavras continuavam lá, não importava com o que eram esfregadas. Por alguma razão, a escola tendia a voltar seus olhos para Harry Potter, que fora achado com seus amigos perto da cena.

– Eu tenho muitas hipóteses, mas não me sinto inclinado a compartilhá-las com o corpo discente no momento.

– Elas não envolvem Potter, envolvem? Quero dizer, ele só tem doze anos.

Snape fez o que deveria ser um sombrio e analítico olhar para ela.


– A senhorita ficaria surpresa em como alguns bruxos inclinados ao mal podem iniciar cedo sua carreira de horrores. – havia um traço encoberto de ressentimento na afirmação, mas que Bervely mal pegou, porque ela se viu pensando em si mesma e sentiu um calafrio desagradável. Ela travou seus dentes em discordância.


– Não acho que foi Potter.


– Sabe de alguma coisa que não está me contando, Srta. Black? Você tem a obrigação de relatar qualquer suspeita ao diretor da sua casa, e se estiver acobertando alguém, será tratada como cúmplice.

Ela cruzou seus braços, sentindo-se ofendida pelo tom dele.


– Não estou acobertando ninguém!


Snape estreitou ainda mais os olhos, talvez interpretando o nervosismo dela como uma confissão de culpa. Naquele momento um baque seco indicou que havia chegado correspondência no receptáculo de correio – a passagem era conectada ao corujal, de forma que Benzoar não precisava descer até as masmorras para entregar um pacote. Bervely se moveu, irritadiça até a gaveta e a puxou, pegando a caixa parda com o selo do boticário e conferindo a nota fiscal.


– São os ingredientes para o teste da Poção da Cura que o senhor pediu. Vou levar ao meu quarto e continuar trabalhando lá. Se não há mais nada para que necessite de mim, boa noite, professor Snape.

– Na verdade há – ele se adiantou, sua expressão já abrandada de volta à impassividade – quero que comece a pesquisar o Soro de Despetrificação o quanto antes. Vamos dar início assim que as mandrágoras estiverem crescidas.


– Muito bem. Só isso? – perguntou de má vontade.


– Não. Vi que se candidatou ao posto de Monitora Chefe.


– Sim. Isso é um problema?


– Só queria compreender se a sua motivação está relacionada com a rixa que mantém com a sua colega de ano e atual monitora, a Srta. Holmes.


– E se estiver? – rebateu. – Isso me faz inapta para concorrer ao cargo?


– De forma alguma. Acredito a determinação em se provar perante aos seus inimigos pode trabalhar ao seu favor.

A frase lhe alcançou com alguma surpresa. Snape estava insinuando que ela tinha uma dianteira? Sem fazer ideia de como reagir, assentiu e deixou a masmorra, de repente indecisa se estava ou não irritada com ele naquele momento.

Chamar Holmes de sua inimiga se tornara, no entanto, a sombra pálida de uma verdade, na semana que se seguiu à festa e ao momento inesperadamente amigável entre as duas no topo da pedreira. Bervely já não sabia mais o que elas eram. Como classificar aquela relação que já fora de amizade próxima à ódio mútuo, e recentemente recebera uma dose de salvamento, confissões bêbadas e despedidas frias?

Com a caixa de ingredientes nas mãos, ela entrou no salão comunal da Sonserina e a viu sentada em uma das poltronas negras, com um livro nas mãos, mas a encarando. Houve um momento de estranhamento, onde a Black abriu a boca para dar boa noite – mas no mesmo momento Olga Greengrass desceu do dormitório junto com outras duas meninas do quinto ano, e a ruiva abaixou o rosto para o livro rapidamente.

Bervely estreitou seus olhos, mas não disse nada. Aparentemente a versão sóbria de Tara não pretendia encorajar qualquer aproximação entre elas e estava bem com isso. Nesse caso não seria ela, Bervely, quem ia protestar o contrário, por mais que achasse o comportamento da outra um tanto imaturo.

Dando as costas, subiu para o seu dormitório, onde as colegas de quarto já se preparavam para dormir. Pacey arrumava o cabelo em rolinhos cuidadosos com a sua varinha, e Sia folheava uma revista cuja reportagem falava de bruxos que ficaram famosos após arriscar a sua vida combatendo artes das trevas. Bervely podia jurar que Lockhart, o professor bonitão de DCAT estava nela.

– Você está ficando obsessiva com esse cara – disse-lhe num tom de alarme, fazendo uma careta para a revista – Você sabe que não pode assediar sexualmente um professor, certo? Mesmo se ele tiver glúteos firmes e vistosos – completou, quando a menina abriu a boca para argumentar.

Se ouvisse mais uma palavra sobre a bunda de Lockhart vindo da colega, ia ter que afogá-la em seu caldeirão na próxima aula de poções.

– Eu disse a ela – Pacey, que colocava a rede sobre o cabelo agora, suspirou desconsolada – Além do mais o ego dele é maior que o traseiro, estou começando a achar que no fundo ele é um babaca.

– Eu sei que ele é um babaca e eu nem pego aulas com o cara. – ela rebateu, pousando a caixa de ingredientes sobre a cama e abrindo. Sia não ligou para as provocações, apenas voltou dignamente para a sua revista, passando a folha com drama exagerado.

Bervely se esticou para pegar o seu kit de poções pessoal na gaveta, e quando o puxou, estranhou a ausência da sua ocupante habitual.

– Hey, alguma de vocês viu minha aranha?

Tanto Pacey quanto Sia olharam para ela com expresses de incredulidade e acusação.

– Eu não acredito que você trouxe aquilo de novo pra escola! – disse a primeira, enjoada. – Ela é tão horrivelmente cabeluda, você não pode ter um bicho de estimação normal?

– Não, eu não posso. Então? – exigiu. Da última vez que a Sra. Calliway sumira fora culpa de Olga, mas não a via por perto para ser incriminada.

– Não acho que foi Greengrass, se é o que está pensando – Pacey disse de maneira prática, adivinhando seus pensamentos – Se ela soubesse que a aranha voltou, teríamos ouvido mais gritos, ela não é exatamente de poupar escândalo, e tudo que ia querer é um motivo para tirar você da competição pela monitoria-chefe. Aliás, alguém tem visto Olga por aqui ultimamente?

– Deve ter arranjado um namorado por ai. Só espero que não seja o professor Lockhart… – suspirou Sia, e Bervely e Pacey trocaram olhares de desgosto. Bervely deu de ombros, supondo que a aranha devia ter saído para um passeio, e pegou a sua caixa de ingredientes, levando isso e o estojo em direção ao banheiro.

– Não brinca que vai fazer poção agora! Você não acabou de sair das masmorras? Depois a obsessiva sou eu! – Sia resmungou ao vê-la de partida.

– Não, isso é outra coisa. – foi enigmática de propósito. Não podia contar que vários daqueles ingredientes dentro da caixa não faziam parte da encomenda que Snape lhe designara, e nem que o que ia fazer não era nada que tivesse sido aprovado por ele.

– Por favor, não seja mais poção do sono – Pacey implorou. – Toda vez que você termina aquela coisa o banheiro fica com cheiro insuportável de arnica, e me deixa bocejando por horas inteiras. É sério, um dia desses de tanto beber isso você vai cair num coma, e nunca mais vamos conseguir te acordar.

– A Poção do Sono Sem Sonhos não é pra fazer dormir, é pra fazer não sonhar – explicou com impaciência – você saberia se prestasse atenção nas aulas de Poções! Além do mais, já tenho bastante dela para o mês.

– Então o que é? – a loira perguntou, desconfiada. Bervely sorriu enigmática.

– Um presente para alguém. Nem de longe da sua conta. Vá dormir, Oltman.

– BD –

O primeiro jogo de quadribol da temporada pareceu à Bervely a oportunidade perfeita para combinar um encontro secreto com Hector dentro da escola. Todo mundo estava ansioso para a tal partida em que a Sonserina ia enfrentar a Grifinória, o primeiro time com as vassouras novas com que Draco conquistara a sua entrada para o time.

Bervely não fazia qualquer questão de assistir o primo ser humilhado – porque ele ia – por Potter. Precisava ser honesta, estava torcendo pelo testa-partida, só porque lhe irritava muito Lucius Malfoy ter suspendido o financiamento dos seus estudos, mas poder dar ao time sete caríssimas Nimbus 2001 de lambuja. Era ultrajante.

Mas esqueceu a sua irritação quando o sábado finalmente chegou, e junto com ele, o momento de rever o primo. Tão sorrateiramente quanto podia, ela se esgueirou para a Torre de Astronomia sem ser vista, tendo em seu poder uma garrafinha com a poção na qual viera trabalhando arduamente naquelas últimas duas semanas, e dois copos contrabandeados da cozinha. Mal podia esperar para ver a expressão no rosto dele quando visse o seu presente.

– Eu estou tão aborrecida com você, Hector Carmichael – exclamou severamente, assim que o viu.


Contra todas as possibilidades, ele estava mesmo lá, sentado no topo da escada circular que levava ao topo da Torre, lhe olhando com divertimento curioso. Hoje usava um blusão de lã grossa listrada em azul claro e escuro, que fora um presente de Narcissa há cerca de dois anos atrás. Ela gostava daquela e pensara que fosse uma das coisas destruídas quando a tia apagou a existência de Hector da Mansão Malfoy; era uma sorte que ele a levara consigo.

– Isso ainda é sobre o Halloween?

Ela se apertou no degrau logo acima do que ele estava, pousando os utensílios entre as pernas deles, lhe dando um olhar de contrariedade.

– Sim. Você consegue entrar na escola e no dormitório da Sonserina, você está aqui agora na Torre de Astronomia, mas não pode me acompanhar na festa! E como se não fosse suficiente, quando eu acordei naquele dia você não estava mais lá!

– Até onde eu sei, você estava muito bem acompanhada na festa. – comentou ele, casualmente, divertimento brilhando nos olhos azuis.

– Ah, cala a boca! – retrucou, irritada e um pouco envergonhada, também. Mas então seus olhos se abriram em desconfiança – como pode saber disso? Você disse que tinha me esperado no dormitório o tempo todo!

Será que ele tinha visto o beijo que o garoto desconhecido lhe roubara? O coração começou a palpitar, ficando rapidamente nervosa. E se Hector achasse que ela estava saindo com outra pessoa? Mas ele parecia bem tranquilo.

– Não sei porque fica tão surpresa – rolou os olhos, ainda sorrindo – Sei de tudo que você sabe. – com aquela afirmação enigmática, pegou a garrafa e seu sorriso se ampliou mais ainda – Isso é o que eu estou pensando que é? Como conseguiu?

– Eu fiz isso. A receita é minha, sabe – lembrou-lhe com arrogância. Tinha lhe dado algum trabalho inserir os ingredientes furtivamente na lista de requerimentos sem que Snape percebesse, e depois produzir uma poção de tamanha complexidade no banheiro sem que levantasse as suspeitas das colegas de quarto, para ele vir agora e insinuar que ela tinha arranjado na prateleira de alguma botica barata.

– É claro que é, minha gênia das poções – brincou, segurando a cabeça dela com uma mão e beijando a sua têmpora. Um calafrio imediatamente correu pela sua espinha e não tinha nada haver com o frio das correntes de ar da torre mais gelada de Hogwarts. Era incrível como as mãos dele eram sempre muito quentes. – Então, vamos beber?

– Pra que tanta pressa? – perguntou, apesar de ela própria estar ansiosa também.

– É só que da última vez que usamos, foi bem divertido. Não se lembra?

Ela piscou, seus olhos ficando vagos por um momento.

– Mais ou menos. – admitiu, sem graça. – As lembranças daquele dia são meio confusas.

– Sem problemas. – lhe tranquilizou, com o sorriso amplo. – Vamos juntos, ok?

Ela assentiu, excitada e nervosa ao mesmo tempo. Dera a Hector a poção em seu último Natal juntos, uma receita a partir do “beijo mágico” que ele lhe presenteara ao retornar da Suíça. Como ele mesmo lhe dissera, com aquela semente era possível viajar para onde quisessem sem sair do lugar: o mérito da sua poção era permitir que o fizessem juntos, que a viagem durasse mais tempo e que pudessem controlar o que acontecia enquanto estavam lá.

Não lhe ocorrera repetir a receita naquele ano sem ele. No fundo, desconfiava que ela funcionava apenas quando Hector estava consigo, da mesma forma que para voar não bastavam pensamentos felizes, mas um pouco de pó de fada.

– Pronta? – perguntou, após servir a poção nos copos.

– Sim. – riu, segurando a mão de Hector, entrelaçando seus dedos finos e pequenos nos dele, longos e brancos.

Hector sorriu, arteiro, e ela correspondeu, animada. Brindaram.

– A primeira à direita e depois, sempre em frente, até de manhã.

– BD –

Neverland.

Neverland numa garrafa, sua mais perfeita criação.

Com o primeiro gole, eles flutuaram. A cabeça se tornou leve, os olhos borraram, gosto de nuvem grudado na língua e um friozinho nas pontas dos dedos. O mundo todo se dissolveu e abriu para a imensidão azul pontilhada de estrelas.

Naturalmente, as terras do nunca variavam muito.¹ A deles era um bosque numa ilha, em torno de um lago, enroscada em carvalhos seculares que eram navios, e ninhos que eram lápides de antigos piratas. A grama era verde de doer os olhos porque ali estava sempre verão, a não ser na borda onde ficava o esconderijos dos meninos perdidos: lá começava o outono, folhas de todas as cores que nunca caiam dos galhos.

Pousaram no convés do navio-árvore com suas pernas balançando sobre o lago-mar. Ao longe, um grupo de sereias com rabos de cisnes acenaram, cantarolando suas saudades. Lá em cima, o sol também saudava o volta do rei Pan.

O sorriso dele resplandecia, parecia até que era Hector a iluminar o sol, e não contrário. Ela se achou usando, ao invés do uniforme de Hogwarts, um vestido de folhas que não parecia, mas era muito confortável.

Exatamente como eu me lembrava – disse com prazer e saudosismo, aspirando tanto ar quanto podia. Cheirava à liberdade e seiva de carvalho, vento que rodava e poeira de fada.

– É
claro que sim. – ele animou-se – A Terra do Nunca é o único lugar onde tudo permanece igual.

Eu gosto que não mude. – confessou, sem culpa. Lá fora as mudanças tinham trazido a ela muita dor, mas não era hora de pensar em dor, não ali. – onde está todo mundo?

– Somos só nós agora.


Era um grande alívio. Observou Hector reivindicar para si o velho chapéu de pirata de Draco – ah, então era por ali que aquilo andava? – e o encaixar em sua cabeça. A diferença violenta do veludo vinho com seu cabelo loiro claro e os olhos azuis-vidro. Ele parecia muito menos com um pirata e muito mais com um príncipe usando-o, Bervely pensou.


– Eu gostaria de ficar aqui para sempre – ela confessou, olhando para a superfície do lago, para o reflexo deles dois sobre o azul infinito do céu espelhado. Eram contrastantes – ela feita em preto e branco, ele todo cores, amarelo, azul e rosa, de seu cabelo, olhos e lábios, nada ruim sobre aquilo: amava as cores dele.


O tempo que quiser. – prometeu, apertando mais a sua mão e encaixando na dela, calor fluindo para Bervely em ondas e acelerando seu coração.

O menino perdido e a fada estavam de volta, mas hoje não era sobre aventura, como ela bem sabia.


– Bervely… eu tenho algo para você. – Hector ecoou aquela velha linha. Ela inclinou a cabeça para olhá-lo, em divertimento e interesse, o coração doendo de tão forte que batia.


– É mesmo? – mal encobria um sorriso.


– Se você quiser.


Ela assentiu… até parece que ia lhe negar qualquer coisa. Hector se aproximou cuidadosamente dela, deslizando sobre o tronco-convés até encostar em seu corpo. – Feche os olhos – recomendou. Ela obedeceu.


Sem esperar que respondesse, colou a boca na dela. Todas as sensações incríveis que circulavam dentro de Bervely explodiram em seu peito, calor, frio e arrepios, um formigamento e o coração batendo dolorosamente forte. As mãos mornas dele lhe seguraram pelos ombros, eram tão grandes que cobriam completamente suas omoplatas. Hector a segurava firme como se quisesse impedir que ela se afastasse, embora ela jamais fosse se afastar.


Dessa vez ele abriu os lábios dela delicadamente usando seus dentes, até conseguir passagem, enroscou sua língua na dela com calma e exigência doce. Bervely quase gemeu de tão gostoso que era; sabia que aquilo era proibido, porque nada permitido podia ser tão, tão maravilhoso.


Ele a soltou após minutos longos. Bervely sentia os lábios pulsarem, quentes feito brasa, no ritmo do coração desgovernado. Apesar de meio tonta, olhou para ele, deliciada em ver que Hector também estava ofegante, e que suas bochechas estavam coradas, os olhos injetados e intensos, escuros em razão de pupilas dilatadas.


– Você ainda vai acabar comigo. – ele suspirou, tirando o chapéu de pirata e bagunçando o cabelo com um movimento deliberado da mão. Estava rindo abertamente agora. Inclinou a cabeça para trás e olhou para o céu, depois para ela de novo. – Não sei até onde isso é sensato, fadinha. Se alguém nos descobrir, estamos mortos.


Ela não se importava de verdade com consequências. Como poderia, com os braços dele em torno dos seus ombros, protetores, a mão pousada em sua cintura, irradiando arrepios pela sua espinha? Só havia espaço para ele em sua mente, e apesar de saber que estava entorpecida pelo que a volta dele significava, a verdade lhe parecia perfeitamente certa.

Por isso, quando Hector afastou seu cabelo para trás, a fim de sussurrar em seu ouvido baixinho, ela deixou a alma ir até no céu com o prazer da voz dele vibrando contra a sua pele.

Eu tenho uma ideia.

Qual? – murmurou, fraca para qualquer outra coisa.

Fuja comigo. – foi o que disse, derretendo tudo nela que um dia fora sólido.

Hector. – arfou – Para onde iríamos?

– Qualquer lugar. Só eu e você.


Mas já estamos fazendo isso aqui em Neverland.

Ele negou, a barba rasa roçando em seu rosto quando o fez. Ela suspirou de prazer com o atrito leve.

Quero te levar pro mundo real, comigo. Onde as coisas mudam, onde a gente cresce.

O resto dela, aquela coisa líquida que eram suas vontades e alma e discernimento, virou fumaça por inteiro.

Tudo bem.

Sério? – ele vibrou, surpreso e feliz.

Sim. Qualquer lugar com você, no mundo real. – assentiu, cerrando os olhos e descansando a cabeça no ombro dele. – Quando partimos?

– Dezembro. Quando você tiver as suas férias de inverno… assim ninguém desconfiará, até que estejamos longe.


Assentiu. Parecia como um bom plano.

Dezembro será, então.

BD –


Acorda, sua completa maluca. Mas que droga. Bervely! Acorda…

A primeira coisa que sentiu foi dor, lancinante em suas costelas, como diversas agulhas espetando as suas entranhas, então ela arfou e se encolheu numa tentativa de proteção. Quando tentou abrir os olhos para descobrir o que estava lhe atacando, seus olhos também doeram, dessa vez pela profusão de luz de uma varinha, que os invadiu sem piedade. Só conseguiu ver uma silhueta abaixada em sua frente, mas os contornos eram ofuscados demais para qualquer identificação.

O seu pescoço também doía, e não conseguia parar de tremer. Demorou a entender que era frio, irradiando principalmente do chão de pedra nu sobre o qual adormecera e enregelando-a ao quase congelamento. Por que estava dormindo no chão, e não na cama quente do seu dormitório?

– É o que eu também gostaria de saber – declarou sua companhia com azedume, e Bervely se deu conta tardiamente de que perguntara aquilo em voz alta. – Seja lá qual for o motivo, é melhor ser bom, porque senão você está em sério apuro.

Ela sentia o corpo se contrair em protesto às suas tentativas de controlá-los, era agonizante.

– Não consigo me mexer. – bateu os seus dentes. Provavelmente não estava sendo muito articulada, mas a outra pessoa pareceu entender, pelo suspiro resignado que soltara.

– É claro que não. Você está congelando! Aqui. – disse, e em seguida uma capa quente foi jogada sobre o seu corpo. Sentiu-se ajudada a se sentar, e o fez com alguma dificuldade, mas finalmente seus olhos entraram em foco e ela reconheceu o rosto fino e preocupado de Holmes olhando de volta para ela. – Que ideia é essa de cair no sono na Torre de Astronomia, Black?

Ela se lembrou do que estava fazendo lá e com quem, o que lhe levou a olhar nervosamente para os lados, preocupada de que Hector também tivesse pegado no sono e adormecido por ali. Mas não havia nem sinal dele, felizmente.

– Se está procurando quem estava com você, seja lá quem for foi esperto o bastante para dar no pé mais cedo. – a ruiva observou, em tom de crítica. Ela indicou os dois copos vazios ao lado da garrafa igualmente vazia nos degraus da escada. – espero que isso não seja nada ilícito.

– Ou então o que? Vai me colocar em detenção? – retrucou, mal humorada, pois a realidade de que fora flagrada por Tara naquela situação um tanto constrangedora tinha lhe assaltado uma vez que estava desperta. Era uma pena que continuava tremendo, tornando portanto insensato recusar a capa que a garota jogara sobre si.

– Você é uma idiota, pela varinha de Slytherin, você é. Por favor me diga que não tem relação com o que aconteceu hoje a noite. Nem você seria tão estúpida…

Ela dispensou os cumprimentos gratuitos, a esse ponto tendo quase certeza que eram da boca para fora. Não fazia ideia do que a menina falava.

– Acontecimentos? Que acontecimentos?

– Merda! Você não sabe mesmo. – contrariada, Tara sentou no primeiro degrau, numa postura inconformada. – Hoje após o jogo um garoto foi petrificado, igual à gata do Filch. Eles colocaram os monitores para fazer rondas e tentar achar alguma coisa suspeita que pudesse indicar o culpado.

Ela arregalou os olhos, preocupada.

– Quem foi?

– Colin Creevey da Grifinória.

– Ufa. – soltou ar. Por um momento pensara que tinha sido Draco, o que era estúpido porque ele estivera jogando, e depois, até parece que ela se importava.

Ufa? Isso não exatamente depõe ao seu favor. Vai dizer o que estava fazendo fora do dormitório depois do toque de recolher com uma garrafa suspeita de poção em sua posse?


Ela começou a se irritar com o tom inquisitivo da garota. Porque Holmes se achava no direito de forçá-la a pedir desculpas em cima da pedreira, depois atraí-la para uma situação dramática com lágrimas envolvidas e conversas muito pessoais, para depois fingir que nada tinha acontecido e então interrogá-la daquele jeito?

– Eu não estava petrificando crianças, Holmes. Acho que isso basta em termos de informação para você. – tirou a capa da outra de sobre seus ombros, apesar de ainda estar morrendo de frio, e jogou sobre ela – Se isso não te basta, então me tire pontos, ou me dê uma detenção, ou o que seja, mas me deixe em paz.

Intempestivamente, levantou do chão e agarrou a garrafa vazia, pronta para sair dali.

– Eu poderia lhe delatar para Snape. – a ruiva ameaçou, se levantando também. Bervely lhe olhou com raiva.

– Faça isso então. Vejamos em quem ele vai acreditar.

Tara estreitou seus olhos por um momento, presumivelmente pensando em uma resposta à altura, mas algo a fez desistir no meio do caminho. Ela balançou a cabeça e deu um suspiro.

– Apenas vá para o dormitório, Black. E não deixe um monitor de outra casa te encontrar por ai. Ele não será compassivo como eu fui.


– BD –


Dali a algum tempo, na segunda semana de dezembro, a professora McGonnagal passou para anotar os nomes dos alunos que ficariam no castelo para o Natal, mas Bervely não assinou o seu. Naquele mesmo dia após o último horário de aula de Transfiguração, Tonks a encontrou e foram andando juntas para o Salão Principal, a menina usando cabelo laranja bem curto e espetado, parecendo-se muito com um porco espinho radioativo. Bervely estava evitando olhar diretamente para ela não para disfarçar o fato de que estava em sua companhia, mas a fim de evitar que seus olhos doessem.

– Mamãe quer confirmar se vai passar o Natal conosco.

– Anh… não. Não, não vou.

– Ah, qual é, Bervely! – Tonks entrou na sua frente para protestar – Pensei que já tinha superado essa coisa de sermos sangue-ruins e tudo. As férias foram legais, ou não foram?

– Claro. É que eu prometi ajudar o Prof. Snape num projeto. – mentiu. Tão descaradamente que nem piscou.

– Natal com Snape? – a lufa-lufa fez uma careta desgostosa – Isso é algum tipo de castigo?

Bervely ia lhe responder que era muito digno passar o feriado no laboratório quando um sonserino do seu ano, Atwood, deu um encontrão violento no ombro de Tonks que ela foi projetada para a frente ao mesmo tempo que seus livros todos desabaram no meio do corredor, espalhados.

– Cuidado com quem anda, Black! Desse jeito o herdeiro vai ter de petrificar você também! – o garoto zombou, e saiu rindo da sua piada, que devia considerar espirituosa.

– Quisera alguém ter petrificado a sua mãe antes dela parir você, babaca! – Tonks gritou para ele, mas o garoto já estava longe. Ela se voltou revoltada, o cabelo mais radioativo do que nunca – Como você aguenta esses imbecis?

Ela não lhe respondeu, mas ajudou a recolher os livros com feitiços de convocação. Desde que o garoto da Grifinória fora petrificado, o clima na escola estava muito mais acirrado no que se referia ao preconceito às origens indébitas. Os boatos mais absurdos postulavam que havia um herdeiro de Slytherin na escola, e este abrira uma câmara secreta e liberara um monstro que iria petrificar cada nascido trouxa, de um por um, até purificar a escola inteira.

A coisa toda era uma chateação até para ela, que não exatamente discordava da supremacia dos sangue-puros. Sabia que pelo menos ela e os demais sonserinos estavam a salvo da “besta justiceira”, mas preferia que os colegas ficassem quietos, e parassem de agir de forma comprometedora. Pelo canto de olho viu que Holmes estava vindo logo atrás e vira tudo, mas não movera um dedo monitor seu para advertir Atwood.

– Então, voltando ao assunto – Tonks recomeçou, uma vez que chegavam próximas à entrada do Salão Principal, onde se separavam, cada uma para a sua respectiva mesa – tem certeza que quer passar o Natal aqui? Isso é deprimente. E mamãe vai ficar arrasada. Honestamente estou com medo de insistir, porque da última vez você me ofendeu… se bem que acabou vindo rastejar pra mim depois, atrás de um teto, não foi não? – disse tudo aquilo com as mais variadas expressões, mas terminou em uma satisfação cheia de si.

– Eu não rastejei, você praticamente me sequestrou para a sua casa. Mas não vou te ofender dessa vez. Apenas diga a sua mãe que apareço para uma visita no verão.


Era a segunda mentira daquela noite. Bervely não sabia onde estaria no verão, mas sabia com quem. Tudo aquilo era parte do plano para fugir com Hector assim que o trimestre chegasse ao fim e, com sorte, nunca mais veria Hogwarts, parentes sangue-ruins ou qualquer tipo de parente novamente.

Seriam só eles dois. No mundo real. O pensamento a acalentava e lhe mantinha alegre.

– Tudo bem, nesse caso. – soprou a lufa-lufa, a contragosto – mas ela não vai gostar nada disso. Humpf, Natal com Snape! Onde já se viu…

A garota saiu resmungando, e Bervely foi para a sua mesa com um sorriso bobo no rosto que para o clima geral de medo e tensão do castelo, era bem incompatível.

– BD –

Logo veio a descobrir que pouco tempo não era a mesma coisa que a ausência de incidentes. Perto do fim do trimestre houve a abertura de um constrangedor Clube de Duelos, que só poderia ter sido ideia do muito-glúteo-nenhum-cérebro professor Gilderoy Lockhart.

Não que ela condenasse a ideia em si; Duelos sempre fora uma disciplina em Durmstrang, desde o seu primeiro ano, e meio que sentia falta dela, embora não fosse a sua preferida. Mas a iniciativa em Hogwarts tinha como único propósito deixar os alunos se sentindo mais encorajados a enfrentar o “monstro petrificador misterioso”, e Bervely pessoalmente não achava que ele pudesse ser contido por algum Expeliarmus amador de um de seus colegas.

Já o constrangedor ficara à cargo de Lockhart e, logo em seguida, de Potter, que resolvera revelar para toda a escola que falava com cobras, dando-lhes motivos gigantes para terem certeza que ele era o herdeiro de Slytherin. O pobre garoto estava sendo infernizado pelos colegas com a sua nova e negra fama, e todos pareciam cegos para o fato de que ele claramente não tinha talento para controlar qualquer monstro que fora bicho de estimação do grande Salazar.

Por outro lado, ela nunca vira Snape tão irritado. Em seu último encontro com ele antes do recesso, ele lhe rosnou instruções para descascar uma pilha de raízes sudoríferas que fariam parte da poção de despetrificação, embora o ingrediente principal, as mandrágoras, estivessem longe da maturescência, até onde ela sabia (e sabia bem, porque fora enviada por ele mais de um par de vezes naquele mês até a estufa três, a fim de verificar o seu crescimento e lhe entregar relatórios).


Quando ousou perguntar se ele tinha certeza que queria fazer isso tão antes do momento de preparo, e se as raízes não iam ficar escuras e amolecidas, recebeu um olhar tão maligno que parecia ter sido direcionado com o intuito de congelar o seu coração.

– Você está desafiando uma instrução direta minha, Srta. Black, é isso que eu estou ouvindo?

– Longe de mim, senhor. – murmurou, puxando as raízes e a faca para perto, desistindo de fazer a outra pergunta que pretendera, sobre o resultado da monitoria. Ela acabara de lembrar que já não importava: Snape poderia ou não lhe dar o cargo, ela não voltaria para assumí-lo no próximo trimestre. A ideia apertou seu coração um pouquinho, de repente deixar Hogwarts lhe pareceu mais difícil do que deveria ser.

Nunca mais voltaria àquele laboratório, nem receberia as orientações dele, o maior pocionista que já tivera a chance de conhecer. Nunca mais ouviria a conversa fiada de Pacey e Sia no dormitório, e nem seus resmungos porque o quarto estava cheio de vapor de alguma poção que estivesse fazendo no banheiro. Nunca mais ia ter a chance de xingar Tara por ser tão obtusa, rolar os olhos para os absurdos de Tonks... e ela percebeu que nunca ia descobrir quem era o garoto misterioso da festa proibida que fora atrevido a ponto de lhe roubar um beijo...

– Srta. Black, algum problema?

Piscou, estivera completamente distante por um momento, e reparou que o professor lhe olhava com as sobrancelhas vincadas.

– Não, senhor.

– Eu receio que há. As suas mãos estão tremendo.

– Oh. – ela olhou para baixo. Estavam mesmo. Fazia um péssimo trabalho com as raízes. — Eu acho que é cansaço.


O mestre lhe fitou longamente, desconfiança nos olhos de besouro.

– É melhor parar por hoje. Nos encontramos após o recesso? Entendo que vai passar o Natal com os Tonks em St. Catchpole.

Não era sequer uma pergunta. Ela se perguntou como infernos ele poderia saber sobre os Tonks, mas achou melhor não perguntar. Não queria aprofundar o assunto, e descobriu que também não queria mentir para ele sobre o seu destino nas férias.

– Claro, professor, até breve.

Ela saiu sem encará-lo, o peito estranhamente apertado. Quando deixou a sala respirou fundo, o mais fundo que conseguiu, o ar frio e pesado das masmorras expandindo seus pulmões e lhe dando confiança. Não seja estúpida. Você vai estar com Hector, tudo isso que está deixando para trás valerá a pena.

– BD –


Naquele sábado, último dia antes do recesso, Bervely não arrumou as suas malas. Ela achou que seria suspeito, então ao invés disso, colocou um par de roupas dentro da mochila, junto com o velho Signo Negro, a varinha e outros poucos pertences. Esperou ansiosamente a noite chegar, bem quieta em sua cama fingindo que dormia, até o dormitório ficar completamente tranquilo, e se esgueirou, mochila nas costas, pela escada até o salão comunal. Quando estava no último degrau, alguém se chocou contra seu tronco de forma violenta.

– Mas que infern-

Foi empurrada para o lado, não sem antes reconhecer quem se chocara contra ela. Era Olga Greengrass, soluçava, e o rosto estava lavado de lágrimas. Bervely achou com certo alívio que a menina não se lembraria de com quem acabara de bater, tal era o seu desespero eu fugir correndo, presumivelmente para o dormitório delas.

Descartando a curiosidade, Bervely não percebeu que o salão comunal da Sonserina não estava completamente vazio quando o atravessou rumo à saída. Um par de olhos gatunos verde-oliva acompanharam seus movimentos, até vê-la deixar a passagem e sumir completamente de vista.

– BD –

– Você demorou, fadinha! – Hector sussurrou preocupado quando eles se encontraram na Torre de Astronomia, minutos mais tarde. Ela esfregou as mãos, porque fazia muito frio, e porque estava nervosa e havia algo errado com seu coração, que batia como louco.

– Desculpe! Eu tive que desviar do Filch, depois da gata dele, depois de Pirraça, depois do monitor da Grifinória! A segurança do castelo está redobrada esses dias por causa do babaca que está petrificando gente.

Hector deu risada gostosamente.

– Ainda bem que em breve vai estar longe de toda essa confusão – ternamente, ele lhe puxou e plantou um beijo no topo da sua cabeça. – Tem tudo que precisa?

– Sim – ela indicou a mochila pendurada em seu ombro – não pude achar a Sra. Calliway. Acho que ela foi embora para sempre dessa vez.

– Quem sabe agora podemos te arranjar um bicho de estimação decente, né?


Rolou os olhos para a implicância gratuita, resolvendo que podia implicar também.

– Nem me venha com gatos. Aliás, cadê aquele seu gato estranho, Jinx? – era a primeira vez que se dava conta que Hector retornara sem o seu gato, ou familiar, ou o que quer que fosse o animal, o qual costumava viver grudado com ele desde que o “adotara” como dono.

– Não faço ideia. Podemos ir?

– É... Podemos. – ela balançou em seus pés, ansiosa. Mas feliz. Muito feliz. No luar limpo daquele céu, ele brilhava, era a visão mais linda que já tinha tido. – Você tem mesmo um plano, não é?

– Lógico. – Hector indicou duas vassouras encostadas perto da janela larga da torre. Bervely franziu em desagrado.

– Ah, não… você sabe que eu não voo.

– Nem por mim? – seu menino perdido perguntou. Ela mordeu seu lábio com força, mas por fim fechou os olhos e suspirou, vencida.

– Claro. Claro.

Em troca ganhou seu grande e radiante sorriso. Ele a ajudou a subir na vassoura, depois montou a sua própria, trepou no parapeito, deu um impulso e planou no ar, fazendo um aceno para que se aproximasse. O fez, apesar do medo. Do coração cada vez mais enlouquecido, batendo tanto que fazia pressão em sua cabeça e deixava a sua visão meio turva. Teve um pouquinho de vontade de chorar, quando subiu e olhou para baixo, para a queda de sabe-se-lá quantos metros da qual jamais sairia viva. Olhou para ele de novo, apertando o cabo da vassoura com tanta força que os dedos doíam.

Mas Hector lhe estendia a mão. E ela sabia que ia ficar tudo bem.

Pegou na mão dele, pronta para dar o impulso no vazio.

– Não, Bervely, NÃO!

O grito vindo às suas costas lhe fez desequilibrar e ela quase caiu, segurando nas bordas da janela no último momento. Se virou, só para ver o rosto horrorizado de Tara, as mãos dela estendidas para lhe alcançar, apesar de estar muito longe para sequer ter a chance.

Atrás dela, para sua grande surpresa e confusão, estava professor Snape. Lívido.

– Srta. Black – ele entoou, mais sério e intenso do que ela jamais ouvira – volte agora mesmo para dentro.

Bervely arfou. Uma olhada rápida para frente lhe confirmou que Hector esperava, num misto de preocupação e impaciência.

– Sinto muito, professor. Mas não posso. Preciso ir.

– Não, não precisa! – Tara choramingou.

– Eu sei que eu nunca voei antes. – ela disse, com uma calma que não sentia. Afinal, seu coração ainda estava batendo e doendo e batendo sem pausa. Sabia que a coisa toda de estar em uma vassoura era insana, mas outros bruxos voavam o tempo todo. – Mas eu posso fazer isso.

– Não você não pode. Professor Snape, por favor faça alguma coisa. – Tara estava mesmo chorando, ela reparou. O que não fazia o menor sentido.

A expressão de seriedade mal encobrindo a tensão no rosto do professor também não fazia muito sentido.

– Srta. Black, eu não vou dizer isso novamente. Se afaste da borda. Agora. Devagar.

– Não, desculpe. Mas eu preciso ir. Hector está me esperando! Ok? Sinto muito.

Quem? – Snape questionou, perdido, ao mesmo tempo que Bervely se virava e se preparava para dar o impulso. Dobrou seus joelhos e respirou fundo, mas cometeu o erro de olhar para baixo novamente.

E foi naquele momento que o seu coração parou.

– BD –

Voltou a bater, eventualmente.

Só soube disso ao acordar e descobrir que estava amarrada. Amarrada à cama. A sensação desagradável de dejà vu embrulhou seu estômago, e ela se viu desesperada para saber há quanto tempo estivera inconsciente.

Não novamente… , implorou, em pânico. Com que rosto estaria agora? Com que…

– Srta. Black! Finalmente!

Foi com certo alivio que reconheceu a curandeira da escola, Mme. Pomfrey, alivio que se tornou ainda maior quando ela liberou os seus pulsos com um aceno de varinha.

– Desculpe por isso, mas foi uma medida de segurança.

– Já ouvi algo parecido antes – reclamou, avistando e alcançando a coleira de couro no criado mudo, e a enrolando rapidamente em seu pulso. Só então ousou tatear o seu rosto, preocupadamente. – Como eu me pareço?

– Surpreendentemente saudável para quem teve um ataque cardíaco.

– Eu o quê? –– aquilo saiu como um quase guincho, enquanto levou uma mão ao peito, como se pudesse constatar com um toque se o coração estava ali mesmo. Então as lembranças a assaltaram todas de uma vez, e ela saltou da cama atordoada – Oh, meu Merlin, Hector! Eles o pegaram? O que eles fizeram? Eu estraguei tudo, preciso falar com ele, onde…?

– É melhor ficar na cama por enquanto, querida. – lhe olhou com uma espécie de pena, a curandeira. – Vou chamar o professor Snape.

– Bom que chame, mesmo! – exclamou, obedecendo a sugestão e sentando na cama. As batidas de seu coração começaram a ficar instáveis de novo. – É tudo culpa dele, ele me azarou para eu não fugir com Hector!


Madame Pomfrey não lhe respondeu, então Bervely ficou ali esperando, a ansiedade em saber o que acontecera quase lhe matando. Precisou olhar umas três vezes o seu reflexo no vidro da janela para ter certeza que se parecia como ela mesma, e assim que o mestre de poções entrou na enfermaria, ela saltou da cama em direção a ele.

– Você não tinha o direito! – acusou, transtornada. – o que fez comigo? O que fez com ele?

Snape não se abalou com o seu tom, na verdade parecendo ocupado em olhá-la de cima a baixo e constatar que estava inteira. Era uma coisa estranha de se pensar, mas ela tinha certeza que ele acabara de dar aquele tipo de olhar.

– Sente-se, Srta. Black. Em sua atual condição, é melhor que não se altere.

– Minha condição! Que condição? Eu fui amarrada! Eu odeio ser amarrada. – rosnou, mas se sentou. Se sentia tonta. Que droga era aquela?

– Foi contida porque tentou se jogar da Torre de Astronomia, levando-nos a concluir que não era digna de confiança caso despertasse durante a noite e resolvesse vagar pelo castelo.

– Me jogar? Eu tinha uma vassoura.

O olhar dele era peculiar. E um pouco derrotado.

– Não, você não tinha.

– O quê? É claro que eu…

– Isso foi parte da alucinação, Srta. Black. E chegou a tal extremo em parte por culpa minha, porque eu ignorei os sinais.

– Não sei do que está falando. – ela murmurou. Porque ele parecia tão sério sobre o assunto.

– Certamente não sabe. E eu vou explicá-la, e será difícil de ouvir, portando peço que reuna toda a sua tolerância. Na noite passada, enquanto tentava, eu presumo, escapar da escola através da janela da torre, você teve um ataque cardíaco. Isso significa que o seu coração parou de bater, Srta. Black, e você poderia ter morrido.

– Eu sei o que é um ataque cardíaco. – resmungou, ainda sem saber onde ele queria chegar.

– E sabe o que a levou à isso? – o olhar perdido dela foi resposta suficiente, então ele prosseguiu – A quantidade excessiva de poção do Sono que vem tomando há vários meses, na versão modificada e concentrada que adaptou para consumo próprio.

– Isso é estúpido. – ela disse, mas seu tom já não era mais tão confiante.

– Sim, isso foi uma estupidez tremenda, preciso concordar com você nesse ponto. O consumo exagerado da substância também vem lhe causando outros sintomas. O principal deles são as alucinações: desde que você tem se impedido de sonhar há vários meses, esse excesso de energia onírica tem vazado para a sua realidade, provavelmente de tal forma que mal possa distinguir o real do imaginário.

– Eu não acho que esteja acontecendo, senhor. – murmurou. Porque… não tinha como. Não havia nada fora do real nos seus últimos meses, certo?

– Outros sintomas surgiram… tremores, por exemplo. Sinal de que as substâncias começavam a afetar o seu sistema nervoso. Mesmo assim, eu falhei em perceber. Se não fosse pela sua colega, Holmes, nesse momento você estaria morta. Talvez da queda da Torre, mas senão, do coração, antes mesmo de atingir o chão.

– Pela última vez, eu não ia cair! Eu tinha a droga da vassoura! E se eu fosse, Hector ia me pegar!

Snape massageou a ponte do seu nariz longo, cerrando os olhos. Sua voz reverberou pacientemente pelos lábios quase fechados.

– Não havia vassoura. Não havia “Hector”. Você estava sozinha naquela torre, e prestes a pular. Sinto muito.

– NÃO! – ela urrou. O que Snape estava tentando lhe dizer era um grande absurdo. Como ele podia? Como tentava mexer com a sua cabeça daquela maneira? Fazendo-a crer que tinha imaginado aquilo? Seus últimos meses…

– Eu entendo a sua desorientação, mas procure compreender. Você estava sob efeito de uma poção entorpecente pesada, e eu tenho motivos para crer que andou usando uma substância alucinógena ilícita na semana anterior, que em nada colaborou para o seu estado. Srta. Black… você está a beira da expulsão. Eu estou tentando argumentar ao seu favor, e vou precisar de alguma ajuda. Se continuar insistindo em tudo que imaginou…


– Eu não imaginei Hector! Ele estava aqui! Ele voltou pra mim e eu o toquei e o beijei e ele me prometeu que estaria aqui quando eu acordasse! E agora o senhor vem me dizer que não aconteceu mas eu sei que aconteceu, e isso é tudo um plano para acobertar o que quer que tenham feito com ele! Hector estava se escondendo por alguma razão, e agora eu sei que era de vocês!

– O seu primo está morto há quase dois anos, Bervely. – disse Snape duramente. – Entrei em contato com a sua tia hoje de manhã, e ela me contou toda a história.

– Por que ela acha que ele está, e todo mundo acha, e ela acha que eu o matei, mas eu não… eu não o matei!

Estava gritando, mal se dando conta disso. Madame Pomfrey se aproximou irritada, exclamando que Snape devia se retirar e deixá-la descansar em paz, antes que acabasse tendo outro ataque do coração. Quando o professor saiu, Bervely se encolheu na sua cama e abraçou os joelhos, respirando em fortes arquejos desesperados.

Eu vou lutar por você… eles não vão me convencer dessa vez… Eu vou atrás de você. Eu juro que vou. Até o inferno… eu prometo, Hector, eu prometo… , repetia para si mesma incessantemente.

Não ia perdê-lo pela segunda vez, disso tinha certeza.

– BD –

Snape a pegou se esgueirando para fora da enfermaria na calada da noite.

– Eu mal posso acreditar no que estou vendo, Srta. Black.

Ela congelou em seu lugar, divisando a silhueta dele na escuridão. O professor acendeu a ponta da varinha e parecia resignado, e não surpreso de encontrá-la ali, apesar do que acabara de dizer.

Na verdade, ele claramente a estivera esperando.

– Eu sinto muito, professor. Mas eu preciso ir atrás dele. – disse, rouca. Estava cansada de brigar. Tinha a varinha na mão, mas se precisasse ia usar não só a sua magia, mas suas unhas e seus dentes e tudo mais para derrubar qualquer pessoa que resolvesse entrar em seu caminho. A resolução dentro dela era tão fria e implacável que se sentia infinita. Invencível.

– Eu imaginei que precisaria. – disse ele, no entanto. Seu tom de voz era conformado… até um pouco triste.

– O senhor já amou alguém? Tanto, tanto que fez seu coração parar? – Bervely sorriu amarga, porque ironicamente era o que tinha acontecido.

O olhar que viu em Snape, ela nunca esqueceu. Era ferido, era exatamente o que haveria em seu rosto dali em breve, embora no momento não pudesse saber disso.

– Sim. – foi tudo o que ele disse.

– Então o senhor sabe que eu preciso.

Ele assentiu, firmemente olhando nos olhos dela, sustentando seu desespero, e lhe fez um aceno.

– Venha.

– Onde? – perguntou desconfiada de que ele fosse lhe amarrar novamente, mas o professor assentiu, a voz oca.

– Até ele. Vou lhe levar até ele.

– BD –


No final, a gente volta para onde começou.

Bervely tinha lido isso em algum lugar, e foi o que ela pensou quando eles desaparataram em Neverland. A de mentira, é claro: o bosque atrás da Mansão Malfoy, para onde ela não pensara que voltaria tão cedo – ou mesmo que voltaria algum dia.

Uma lua alta e redonda cintilava no céu. O chão estava coberto de branco. Há quase onze anos, ela o conhecera. Ele a atraíra para dentro daquele bosque, desafiando a sua coragem, lhe chamando para a aventura.

“Você não vai? Não me diga que está com medo.”

Ela começou a caminhar por entre as árvores, a direção há muito conhecida. Sentia que andava sozinha pois apesar de saber que Snape vinha logo atrás, havia esse abafamento em seus ouvidos, e tudo que ouvia era o seu próprio coração batendo e o som das suas botas – as calçara antes de sair da ala hospital – triturando o gelo alto.

“Você é bem corajosa para a sua idade. Tem certeza que quer entrar ai?”

O cemitério não ficava longe, e o luar iluminava o caminho branco. Apesar do tapete grosso de neve, sabia onde tudo se localizava… a aldeia dos índios selvagens, uma clareira circulada por abetos; a toca do lobo-cinza, que era a pedra grande e torta à esquerda da trilha… a borda do lago congelado…

“Estamos quase chegando.”

Fora ali que ela escorregara e machucara o joelho, daquela primeira vez. Ele nem a consolara… e quando era só uma garotinha, aquilo doera tanto, achou que tinha sido a pior dor que já tinha sentido.

Ergueu o rosto, depois do lago ficavam as lápides. Elas se erguiam errantes do mar de neve, mais brancas que cinzas, e já não podia se lembrar do que eram na brincadeira. Bem na beira da água havia o carvalho gigante que se inclinava sobre o lago, e ele era, sempre fora o navio Fera dos Mares. Eles subiam ali naquele tronco e lutavam com espadas, desafiando piratas e vencendo todas as vezes.

Debaixo do tronco grosso onde tinham amarrado prisioneiros um milhão de vezes, havia algo novo. Algo novo no lugar que nunca mudava. Um contra-senso à Terra do Nunca.

“Só não comece a chorar como um bebê, está bem?”


Ela se aproximou devagarinho, por cima do lago mesmo, se aproveitando que a neve acabara de cair e ainda oferecia algum atrito. Daquela vez, não escorregou. Nada a atrasou, ou a impediu de chegar perto do tronco grosso e da novidade.

Da lápide. Encravada ali como se tivesse brotado. Era impossível imaginar que havia alguém enterrado sob ela, como eles nunca tinham imaginado outras pessoas enterradas nos outros túmulos, elas eram sempre… outra coisa. Parte do jogo.


Hector Carmichael
1972-1990
A Boy Forever²


Havia um brilho estranho logo debaixo dessas palavras, e apesar dos olhos turvos, Bervely reconheceu o que era: seu sino, encravado na pedra como um adorno. O sino que Hector um dia lhe dera, e que roubara do seu quarto sem que ela soubesse, no dia que tinha ido embora. Estava com ele quando…

Caiu em seus joelhos. Dessa vez não sentiu nada- neles.

O resto do mundo inteiro, inteiro, doía. Ela cerrou os olhos, e como se fosse transportada para o dia em que estiveram ali pela primeira vez, a voz dele soou fresca em seu ouvido, infantil, empolgada…

“Estamos em apuros?”

Respirar era impossível. Viver também começava a parecer uma péssima ideia, ali parada, olhando para o lápide de Hector, quando há apenas vinte e quatro horas estava planejando uma vida inteira ao seu lado.

– Eu sinto muito, Bervely. – Snape também se ajoelhara, e pousara uma mão em seu ombro. Ela quase se esquecera que Snape continuava ali, e tampouco podia sentir sua mão, estava anestesiada.

Encontrou a voz para falar. Porque precisava saber…

– Isso é… – ela pigarreou. – Isso é real?

– Sim. Dessa vez é realidade.

E Bervely soube que era. Porque agora ela se lembrava.

(Continua…)

Link do grupo no face.

Notas finais
Eu sei… dói feito o inferno. ¹Citação adaptada do livro Peter Pan – James Barry. ²Para sempre menino. Uma referência ao fato de que Peter Pan nunca cresce.