Indigna Rosa Negra

24 O Que a Rosa Esqueceu


Notas iniciais
Obrigada por todas os comentários, discussões, revoltas... vocês tem sido incríveis! E um agradecimento especial à Elena James pela recomendação!! Boa leitura ;)

Dezembro de 1990, Mansão Malfoy.

Bervely tentava ignorar a sensação persistente de que algo terrivelmente errado estava prestes a acontecer. Continuava a repetir para si mesma que estava sendo paranóica.

Ora, o que poderia dar errado num dia que amanhecera tão perfeito? Para começo de conversa, nevara durante a noite, e os bosques de Wiltshare estavam cobertos por um suave manto branco que parecia açúcar refinado, onde quer que a sua vista alcançasse. A mansão se encontrava espetacularmente decorada com viscos dourados, anjos de asas de cristal, bolas brilhantes com fogo encantado e toda sorte de estrelas magnificas na árvore de Natal.

O banquete já estava cheirando deliciosamente, apesar de não passar das dez da manhã. E o mais importante de tudo: Hector estava de volta.

Não fazia tanto tempo que tinham se visto; ele ficara algum tempo em Durmstrang dando aulas de musicomancia mas, na altura de novembro, precisara viajar novamente. As despedidas haviam sido bruscas e depois disso, nenhuma carta.

Ficara deliciada ao voltar da escola para as férias de inverno e descobrir que ele estava lá. Como de costume, se jogara em seu braços sem pestanejar. Passava tanto tempo quanto podia colada nele, e só não se mudara para o seu quarto porque Narcissa insistia que era inapropriado.

Ela entendia o que a tia temia, é claro. Bervely passara por um estirão após o seu aniversário, crescera bastante, estava quase tão alta quanto Charlotte. Ganhara curvas suaves onde antes havia apenas contornos magros e retos. Desenvolvera seios. Para uma garota de família, seria mesmo inapropriado dividir o quarto com o seu primo mais velho, em nome da decência.

Ela não ligava muito para decência. Ligava para o cheiro dele, para sua voz macia, para os olhos azul-esverdeados que causavam coisas em seu estômago. Como de costume acordou, vestiu uma calça quente e um suéter de Natal (esse era vermelho escuro e tinha os chifres de uma rena bordados em verde), e atravessou a pouca distancia entre o quarto do primo e o seu.

Achou a porta fechada.

– Hector! – bateu, a voz animada e enérgica – não acredito que ainda está dormindo!

Silencio. Ouviu um arrastar indistinto de pano e murmúrios. Quando a porta se abriu, foi uma fresta, por onde o rosto sonolento do seu primo apareceu.

– O que foi?

– Como assim o que foi? – ela abriu um sorriso óbvio – Natal! Presentes! O que trouxe pra mim da Suíça dessa vez? Por favor, diga corujinhas achocolatadas.

– Pode ir descendo, vou estar lá em um minuto.

Ela franziu as sobrancelhas em desconfiança.

– Me deixe entrar, eu espero você se arrumar.

Ele olhou para trás por um momento e voltou, mordendo o lábio.

– Melhor não.

Ela reparou que os olhos dele estavam inchados, e que havia olheiras sob eles. Estavam lá desde que ele voltara da Suíça aquela última vez, mas agora se encontravam bem mais acentuadas e escuras.

– Está doente? – perguntou com preocupação. – Ou teve um pesadelo?

– Acho que você pode chamar de pesadelo. Pode me esperar lá embaixo, fadinha? Por favor?

Ela assentiu, resignando-se. Sabia bem como pesadelos podiam ser ruins, por experiência própria. Às vezes ela também precisava de um tempo sozinha depois de um, embora normalmente a presença de Hector ajudasse mais quando acordava assustada.


– Tudo bem. Não demora.

– Não demoro – ele sorriu, mas ainda parecia meio triste. E Bervely pensou, em sua inocência, que devia ter sido um pesadelo realmente ruim.

– BD –

–Onde está Charlotte? – Narcissa perguntou para ninguém em especial na hora do almoço, ao notar a ausência da garota. Virara um costume que Charlie fizesse as refeições com eles nas datas especiais, depois de um tempo, geralmente por insistência de Hector.

– Ela não vai descer. – foi o próprio Hector que informou, encarando o seu prato de peru e purê de batatas – Não está se sentindo bem, eu acho.

– É mesmo? Mas que pena. Seremos só nós, então – Narcissa suspirou, ocupando seu lugar à mesa. Ela estava deslumbrante em um sóbrio vestido chumbo com detalhes pretos e azuis. Procurou o olhar de Bervely, sorrindo para ela – Parece que seremos só nós, então. Em família.

– Em família – ela concordou, sorrindo de volta para a tia. Narcissa sabia melhor que ninguém a opinião de Bervely sobre ter Charlotte na mesa de refeições com eles, pois ela ouvira suas persistentes queixas ao longo dos anos.

Eles tiveram aquele lindo, perfeito almoço de Natal onde elogiaram a comida, comentaram dos presentes e não tocaram em qualquer assunto desagradável, perturbador ou polêmico. Ninguém questionou sobre não ser a primeira vez que Charlotte estava indisposta, nem sobre as enigmáticas viagens de Hector. O tema preferido: a entrada de Draco em Durmstrang no ano seguinte, rondou a mesa, indo e vindo, deixando o caçula feliz por ser o centro das atenções.

Bervely procurou o olhar de Hector várias vezes, sem sucesso. Sabia que ele estava incomodado, e muito, muito distante dali. Gostaria que ele parasse com aquilo, qualquer que fosse o problema afinal de contas, era suposto que tivessem um natal feliz.


– BD –

– Hector, toque alguma coisa para nós. – pediu Narcissa gentilmente para o sobrinho, que estivera distraído olhando através das altas janelas da sala de inverno, para o mundo branco do lado de fora.

Ele se voltou forjando um sorriso.

– É melhor não tia, estou enferrujado. Peça à Bervely, ela teve avanços impressionantes no piano enquanto eu lhe dei aulas, este outono.

– Isso é só porque ainda não inventaram um professor melhor que você – ela lhe deu língua, sentada no ponto oposto da sala, onde folheava um dos seus presentes, um livro de ervas e unguentos curativos do leste europeu. – Mas parei de praticar quando foi embora.

– Eu posso tocar – Lucius anunciou, surpreendendo a todos eles. Até Narcissa abriu seus olhos azuis para o marido, que fez uma expressão de leve irritação – O quê, acha que inventaram a música depois que vocês nasceram?

– Eu não sabia que você tocava, pai. – Draco adejou com um olhar admirado. Bervely rolou os olhos secretamente, achando desnecessário o tio dar mais um motivo ao filho para venerá-lo.

Os quatro assistiram ao bruxo loiro se sentar diante do piano de cauda magnífico que ficava na sala de inverno, ao qual ela sabia se chamar Orfeu. Todo instrumento mágico recebia um nome após a sua confecção pelos mestres musicomancistas, e este piano fora nomeado a partir do deus da música. Suas cordas proviam das fibras vocais de um agoureiro real, o conjunto de teclas era marfim de tessauros e o corpo, feito de um só tronco massivo de angelim negro. Fora um presente de casamento da mãe de Lucius para o filho.

Lucius tocava bem. Não espetacularmente bem. À Bevy, lhe pareceu uma música corretamente executada e harmoniosa, mas desalmada. Isso não impediu Draco de assistir o pai com adoração, nem à Narcissa de igualmente fitar o marido como se fosse a primeira e mais linda coisa que via na vida. A distração deu à Bervely a chance de se aproximar de Hector, que se voltara à janela, olhos mais uma vez perdidos na neve.

– Ainda não te dei seu presente. – comentou com ele, subindo e sentando-se no parapeito largo e assim ficando com o rosto quase na mesma altura que o seu.

– Eu percebi – sorriu vagamente, demorando-se em desviar-se da paisagem para ela.

– Prefiro lhe entregar em particular. Talvez ele te anime um pouco.

Ele suspirou parecendo culpado pelo próprio humor sombrio dos últimos dias.

– Desculpe, fadinha. Muita coisa em minha cabeça. – passou uma mão pelo queixo dela e depois pegou o pingente do colar que lhe dera mais cedo, um floco de neve encantado – E você, gostou do meu presente?

– Não é nenhum chocolate, mas eu posso te perdoar. – piscou pra ele. – Hey, você não disse uma palavra sobre a Suíça desde que voltou. O que há? Seu pai foi difícil? Ele continua insistindo para ir morar com ele?

Uma sombra tomou os olhos claros, e sua expressão, como se costume, se endureceu. Hector não era muito bom em esconder seus sentimentos.

– Não quero falar sobre isso, Bevy, já te disse mil vezes.

Ela suspirou frustrada.

– Pode confiar em mim, Hector. Não te conto todos os meus segredos?

– Isso é diferente. – ele olhou para trás preocupado, mas os Malfoy continuavam entreditos na canção de Lucius – São coisas que preciso resolver sozinho.

– Bobagem. Somos um time. Fada e menino perdido. – acrescentou, brincando. Isso o fez sorrir mais amplamente, de uma forma que atingiu seus olhos, para a grande satisfação dela. Assim de perto, o sorriso dele transformava algo dentro de sua barriga em líquido e calor. Também precisava admitir que perdia um pouquinho o fôlego. – Escuta – disse, tomando coragem – posso passar mais tarde em seu quarto para entregar o presente? Eu ia fazer isso de manhã, mas você nem me deixou entrar.

– É melhor eu ir até você, ok? Mando Jinx na frente para avisar quando eu estiver chegando.

Ela fez uma careta para o mensageiro dele, mas assentiu. Recebeu outro de seus sorrisos derretores. Estava tudo bem, então, ou ia ficar, assim que ele visse o seu presente…

– BD –


Hector demorou uma eternidade. Ela cochilou e despertou um milhão de vezes, vigiando a porta, com medo de que ele achasse que estava dormindo e desistisse de entrar. Quando finalmente Jinx chegou e saltou em sua cama, nem ficou irritada com o gato por encher os lençóis de pêlos.

– Já não era sem tempo! – reclamou, vendo a sombra de Hector se aproximar na penumbra.

– Desculpe. – ele floreou a varinha, conjurando uma chama forte para a vela no criado mudo dela, que jogou luz amarela sobre eles. Hector estava usando ainda as roupas do dia, e havia um resquício de chateação em seu rosto, que ela desconfiava ter a ver com Charlotte. Vira o primo visitá-la mais cedo, mas ele se demorara lá e ela entreouvira suas vozes alteradas.

– Você e Charlie brigaram? – sondou, buscando pistas no rosto dele, mas era difícil no escuro.

– Por que? Ouviu alguma coisa?

– Só as vozes de vocês, mas eu não estava espiando! – procurou lhe garantir. – Ela ainda está doente?

– Não. Charlotte vai ficar bem, todos vamos ficar bem. – um suspiro pesado se seguiu à sua afirmação, e ela achou que ele estava tendo dificuldades em acreditar no que acabara de dizer – e então, o meu presente?

Sorrindo imensamente, Bervely catou embaixo do travesseiro uma garrafinha de vidro selada com uma rolha. Um líquido azul brilhante flutuava dentro dele como se fosse feito de sonho e galáxias e das íris de Hector, e ela lhe entregou orgulhosamente.


– O que é isso? Mais um veneno nefasto da sua criação, que vai fazer meus inimigos caírem duros com uma gota em seu suco?

– Não! – ela rolou os olhos – É Neverland. Lembra da semente que me deu no verão? Eu fiz a poção. A que vai nos levar à qualquer lugar que quisermos!

Um novo olhar de surpresa tomou o rosto dele, verdadeiramente impressionado.

– Você fez mesmo? E a chamou de Neverland?

– Claro. Para onde mais íamos querer ir, se pudéssemos escolher qualquer lugar no mundo inteiro?

Ele riu, como se houvesse algo secretamente engraçado na afirmação, que ela não pudesse entender completamente.

– Eu não a provei, mas tenho certeza que funciona. Deixei para testar com você. – e lhe olhou em expectativa.

– O quê? – ele piscou – essa noite?

– Sim! Por que, você não quer?

Hector olhou mais uma vez para o frasco em suas mãos, parecendo em conflito, e depois para o rosto dela, que prenunciava decepção.

– Tudo bem, vamos testar. Imagino que essa noite seja boa como qualquer outra.

Alguns diriam que era uma insanidade beber uma poça inventada por uma garota de quatorze anos, mas Hector confiava nela. Eles dividiram a garrafa, cada um dando um gole grande da poção adocicada e volumosa, e ele ofereceu a mão para ela, lhe dando seu sorriso arteiro. Seu sorriso Peter. Seu sorriso a-partir-de-agora-qualquer-coisa-pode- acontecer.

BD –

Ao acordar na manhã seguinte, Bervely não surpreendeu-se ao notar que estava sozinha em sua cama. Havia feito com Hector o melhor passeio da sua vida inteira, e nada jamais se compararia com passar a noite inteirinha com ele na Terra do Nunca. Só eles dois, explorando cavernas, nadando com sereias, enfrentando piratas e dançando com os pele-vermelhas sob uma brilhante lua cheia.

Só ela e Hector num barquinho, navegando entre os flamingos. Voando no meio das estrelas, atirando flechas, lutando com espadas, salvando a ilha dos Selvagens. Fazer Neverland, dar a eles Neverland, aquele fora o melhor presente do universo inteiro e ela sabia que depois disso, Hector a amaria para sempre.

Sua pulsante alegria minou quando Bervely se olhou no espelho e, ao invés de ver a si mesma, viu Wendy Darling. A do livro. Cabelos castanhos cheios e enormes olhos azuis aguados, um nariz arrebitado e tudo mais que vinha no pacote. Alguma coisa dera terrivelmente errado e seu estômago se revoltou de pânico. Se alguém em casa a visse daquela maneira… oh, se Narcissa a visse assim, o que ela ia dizer? Ela era uma Black, mas se parecia com uma trouxa, e uma que sequer existia!

Em pânico, Bervely vestiu seu casaco e pulou para fora do quarto, rumo ao de Hector. Era muito cedo, o restante da Mansão, até mesmo os elfos estariam dormindo, e todas as janelas estavam cobertas, pois nevara a noite inteira. Tentou bater baixinho na porta, mas estava mesmo desesperada, então acabou empurrando a porta, supondo que seria uma justificativa boa o bastante para invadir o quarto dele sem permissão o fato de estar com a cara de outra pessoa.

Foi quando viu, com muito, muito terror em sua constatação, que Hector fora embora.

Oh, ela soube no mesmo momento que ele não estava mais ali. As suas coisa preferidas tinham sido levadas… os livros, o seu visanto, uma parte inteira do seu guarda-roupas, o gato…

Havia um bilhete sobre a escrivaninha. Ela avançou sobre o pedaço de papel como se dependesse dele para continuar de respirando.

Queridos tios, Draco e Bevy,


Eu sinto muito mesmo por não me despedir. Se eu o fizesse, talvez não conseguisse seguir adiante.


Os amarei para sempre e nunca os esquecerei. Por favor, não culpem a Charlotte.

Hector.

– NÃO! – ela gritou, jogando o bilhete longe como se fosse um animal tentando lhe morder. Lágrimas começaram a inundar seus olhos, um desespero palpitante arrancando do prumo o seu coração, enquanto percebia o que significava.

Hector tinha ido embora. Sem nem mesmo dizer adeus. Para sempre.

Em pânico, ela de alguma forma conseguiu perceber que as suas mãos trêmula estavam também manchadas de preto. Uma parte ainda não entorpecida do seu cérebro conseguiu racionar e entender que aquilo era tinta fresca da carta, e se a tinta ainda estava fresca…

Deu meia volta, correndo para fora… fora do quarto, escada abaixo, fora da Mansão… se fosse bastante rápida, talvez ainda pudesse alcança-lo. Dissuadi-lo. Segurá-lo.

Afinal ele prometera que estaria sempre ao seu lado. Como poderia cumprir a sua promessa, se estava indo embora?

Havia uma trilha na neve, e ela a seguiu. Nevara tanto que o caminho era difícil de avançar, e ainda nevava enregelando seus ossos, o frio cortando seu rosto, mas ela ignorou tudo, decidida a chegar até ele. Não podia estar longe, se o seu rastro ainda não fora encoberto pela neve…

Não podia ter ido embora…


Não podia…

Apesar de ter parecido uma eternidade de terrível frio, pés congelados e lágrimas, ela não teve de andar muito, realmente. Cerca de cem metros.

Cem metros fora tudo que Hector Carmichael conseguiu andar antes de cair.

– HECTOR! – exclamou ela, ao reconhecer o casaco verde grosso na neve. Não fez o menor sentido que ele estivesse deitado lá, mas primeiro as coisas primeiras, e ela o havia alcançado. – HECTOR, COMO SE ATREVE A IR EMBORA?

Ela caiu no afã de alcançá-lo; de joelhos, muito como havia caído da primeira vez que o acompanhara através da neve, em direção ao cemitério do bosque, na noite que tinham se conhecido. Daquela vez, seus joelhos tinham doído muito.

Dessa vez, foi o seu coração.

– HECTOR!


Alguma coisa estava terrivelmente errada. Por causa dos seus olhos abertos, mas apagados. Por causa da pele gelada.

– HECTOR!

Por causa dos lábios roxos. Do coração silencioso.

– HECTOR!

Sacudiu seu corpo. Não havia mais nada ali, e ela era só uma garota, e estava tão tomada de pânico. Precisava tanto dele, tanto dele, e ele não estava mais ali.

– HECTOR! – seu grito cortou a neve, o branco, o mundo inteiro. Cortou a alma dela em duas partes.

Sua cabeça caiu sobre o peito dele, suas mãos agarradas firmemente aos ombros do primo. Se aquele era um pesadelo, tinha de ser o pior pesadelo. Quando acordasse, ela nunca mais ia dormir novamente.

Só que havia o frio. Ela sentia muita coisa em seus pesadelos, mas nunca sentia frio.

– Hector… – chorou, sacudindo-o com toda a sua força. Alguma parte dela achando que, talvez se o sacudisse o suficiente, ela ia chacoalhar a vida lá dentro e convencê-la a funcionar de novo.

Nada aconteceu. Não era assim que a vida funcionava.

Não era assim que a morte funcionava.

E ela ficou lá uma infinita parcela de tempo, agarrada ao corpo dele, para compreender que ele não ia voltar.

Nunca.

“Por favor, não culpem a Charlotte.”

Bervely se ergueu, tomada de compreensão que era mais gelada que a neve acumulada em suas roupas. Resolução que era mais gelada que o frio em sua alma partida.

– BD –

Charlotte arrumou a trança ao lado direito do ombro, e limpou uma última lágrima. Passara a noite inteira chorando porque era uma covarde, e estava com medo, mas agora era hora de ser corajosa.

Afinal, eles tinham um plano. Sua parte era a mais simples de toda, e nada poderia dar errado, então colocou a mochila das costas, e olhou pela última vez para o seu quarto na mansão Malfoy.

Não iria voltar ali. Não iria vê-los nunca mais. Estivera se sentindo tão controversa sobre aquilo tudo que não tivera cara de aparecer durante todo o dia anterior. Que Hector curtisse o seu último Natal com a sua família, pois ele merecia.


Estava sendo muito bravo em, em deixar tudo para trás. Estava provando que a amava, e ela devia ficar feliz com isso. No lugar disso, se sentia apenas terrivelmente nervosa.

– Onde pensa que vai?

Seu coração falhou um batimento quando a voz a surpreendeu, no momento em que se aproximou da escada para descer ao primeiro andar. Não a vira ali, quietinha nas sombras. Uma segunda olhada lhe disse que havia algo estranho, pois a menina estava coberta de neve, com as roupas molhadas e seu rosto…

– Bervely, o que há com seu rosto? Você se parece exatamente com a Wendy! Como isso foi acontecer?

Estava tão nervosa sobre o fato de ter sido pega que não deu grande importância àquela mudança de aparência da outra. Ora, ultimamente a menina mudava as feições o tempo todo, e Charlie desconfiava que ela mesma não sabia disso… como seu cabelo ficava espetado quando ela se irritava, os olhos amarelados como o de um gato se alguém a contrariava…

– Ele disse para não culparmos você. – murmurou Bervely, sem dar sinais que a tinha ouvido. Foi quando Charlotte realmente olhou naqueles olhos azuis e percebeu.

Algo estava terrivelmente errado com Bervely. Um arrepio perpassou sua espinha, e deixou suas mãos geladas.

– Ele quem? Do que está falando, querida?

Ela nem piscou.

– Onde pensa que vai? – por alguma razão, sua voz era vazia.

– Eu… – pigarreou Charlie – Não importa. Volte para a cama, vá trocar essas roupas. Vai pegar um resfriado.

– Ele disse pra não culparmos você. – repetiu Bervely, no mesmo tom macabro.

– Eu preciso ir – Charlie lembrou-se. Cada minuto que perdia era precioso e colocava o plano em risco. – Desculpe, eu apenas… – suspirou, aquilo era tão difícil. – Tchau, Bervely. Sinto muito.

Adiantou-se, precisava passar por ela para descer as escadas, esperava que a menina não lhe impusesse dificuldades. Estava muito estranha mesmo, mas não tinha tempo para descobrir qual era o problema dela. Pela primeira vez em sua vida, precisava colocar a si mesma em primeiro lugar. Não era isso que Hector vivia dizendo?

– Onde pensar que vai, Charlie? – Bervely perguntou baixinho, quando passou ao seu lado. Abaixou a cabeça, seu coração doendo.

– Não posso lhe contar, Bervely.

– Ele disse pra não culparmos você. Mas… isso é tudo culpa sua, não é?

Ela deu um pesado e torturado suspiro. Tinha certeza que Bervely já sabia, e que sentido fazia em negar? Em pouco tempo, o resto da família saberia também, e ela e Hector estariam longe.

– Sim. – murmurou, rendendo-se.

A próxima coisa que sentiu foi o seu corpo recebendo um impulso violento, e desabando ao longo da escadaria. Gritou… e depois não viu mais nada.


“– E agora, sem estardalhaço, sem choradeira, adeus, Wendy.”

(Peter Pan – James Barrie)

(Continua…)

Link do grupo no face.

Notas finais
Curto em tamanho mas enorme em conteúdo, certo? Eu sei que alguns detalhes ainda precisam ser explicados, mas esse foi o ponto de vista da Bervely, e ela não tinha como saber de tudo. 
 :*