Notas iniciais
Vocês devem ter percebido que sábado passado não teve att. Eu avisei no grupo do facebook a razão mas, para quem não viu, precisei viajar à trabalho durante a semana, e não tive tempo de postar :/

Um obrigado especial àqueles que comentaram cap passado, e sem mais delongas, boa leitura ;)


A certain type of wind has swept me up
But till it's found each bone
I, I'm overcome
There is an icy breath out that escapes my lips
And I am lost again

(Um certo tipo de vento me varreu
Mas até que encontre cada osso
Eu estou vencendo
Há uma expiração gelada que escapa dos meus lábios
E eu estou perdida novamente)

(Sea of Lovers – Christina Perri)


– Você gosta?

– Sim. – garantiu, observado o cômodo ao qual fora apresentada há alguns minutos.

– Não senti firmeza – brincou Ted, dando um suspiro desanimado de mentira na direção da esposa – eu digo que nós coloquemos tudo abaixo e comecemos do zero.

– Não! – Bervely rolou os olhos, um sorriso relutante escapando do canto da boca. – eu realmente gosto, Ted.

– Você pode mudar as cores se quiser – apressou-se Andromeda, olhando criticamente para as paredes e padrões escolhidos para a roupa de cama, cortinas e o tapete felpudo no chão – isso foi só um palpite meu, mas basta um aceno de varinha…

– As cores são boas. – lhes assegurou, sinceramente. – Obrigada.

Não sabia mais o que podia dizer, pois os Tonks continuavam ali lhe olhando com sorrisos de expectativa. Talvez esperassem mais empolgação da sua parte, e ela se sentia um pouco culpada porque jamais alcançaria o nível de expansividade a que tinham sido habituados a ver vindo de Nimphadora, por exemplo.

– Queremos que se sinta em casa, sabe. – a bruxa acrescentou, apoiando uma das mãos sobre a escrivaninha, como que para assegurar seu argumento. – Não é nenhum quarto de mansão como você teve com os Malfoy, mas para um sótão até que é bem confortável, não acha?

Ela assentiu, indo olhar a vista pela janela para escapar dos olhos deles. Naquele pouco mais de uma semana que a separava do momento no qual Snape a levara até ali, após visitarem o túmulo de Hector em Princeton, os dias haviam se arrastado. Ao mesmo tempo, mal podia se lembrar de como os preenchera, a não ser por memórias vagas de levantar, fazer suas refeições, vagar e eventualmente voltar a dormir.

Dormir era um capítulo à parte. Não queria pensar na hora de dormir.

– Então, Feliz Natal! – Tonks, que estivera remexendo o guarda-roupas novo dela com uma careta para as cores, veio quebrar o silencio pesado que estava começando a se formar – acho que isso te faz oficialmente uma de nós, inclusive no revezamento da louça depois das refeições e na desgnomização do jardim.

– Dora! – Andie repreendeu a sua filha, hoje de cabelo vermelho, olhos verdes e orelhas pontudas em honra à data. A metamorfa virou-se enfática.

– O quê? Ela precisa saber que nem tudo é uma maravilha, você também precisa levar umas mordidas de gnomo nessa casa para ter o pacote completo!

– Como se você tivesse desgnomizado o nosso jardim sequer uma vez – Ted lhe deu batatinhas nos ombros, enquanto a movia na direção do alçapão de saída – vamos deixar Bervely desfrutar um pouco do seu novo quarto em paz.

– A gente te espera para abrir o resto dos presentes, querida. – Andromeda, ao passar, lhe afagou o braço de leve, e ela conteve o impulso de esquivar. – Está tudo bem?

– Sim – confirmou mecanicamente. Sustentou o longo olhar da bruxa, que tentava ler a verdade nas entrelinhas da sua resposta automática. Bervely esperou até ela sair para soltar uma longa respiração aliviada.

O quarto, ou melhor dizendo, o sótão transformado em quarto, era bom. Um pouco frio, talvez, e provavelmente se tornasse quente no verão, mas nada que um feitiço térmico não fosse resolver. Ao invés de forro, possuía várias vigas intercruzadas no teto, sustentando o telhado, e ela gostava de como era alto no centro e se inclinava nas extremidades.

Os tons escolhidos por Andromeda eram verde escuro, cinza e grafite. Havia uma cama de casal grande e antiga, um guarda-roupas cheio de portas, uma escrivaninha e até uma cortina de brocados sobre a janelinha redonda de escotilha que dava para a frente da casa. Não se comparava mesmo ao quarto na Mansão Malfoy, mas era adorável do seu próprio jeito rústico, ao qual ela começava a se acostumar.

Habituar-se às expectativas dos Tonks era, no entanto, mais difícil. Aquelas duas semanas acabaram por lhe absorver na rotina familiar dos três, e Bervely se vira rapidamente incorporada aos espaços da casa, sem que percebesse.

Tinha um lugar específico na mesa onde se sentar. E um dos ganchos de pendurar os casacos de inverno fora implicitamente elegido como o seu. Havia uma caneca, que surgira misteriosamente no armário, adornada com um “B” sinuoso lembrando um ramo de flores, o qual podia jurar ter surgido ali na última semana. Ela ganhara um voto na escolha do jantar de domingo.

E agora ela tinha um quarto.

E a única coisa que os Tonks pediam em troca de todo aquele espaço em suas vidas era o que ela nunca poderia lhes dar: ser um deles. Se sentir à vontade. Em casa.

– BD –

Esvaziada de qualquer emoção associada, Bervely constatou que para ela o Natal perdera o significado.

A árvore, as serpentinas, as luzes, o visco, a neve encantada, o egnogg e as canções de Celestina Werbeck; estava tudo lá. Houve um momento agradável em torno da lareira, onde a família evocou lembranças de outros natais, jogou xadrez bruxo e abriu os presentes, cantou junto ao rádio e celebrou, se esforçando a incluí-la. Ela lhes deu sorrisos vagos e bebeu todo o eggnog possível, sem querer incomodar a felicidade deles, mas incapaz de impedir as lembranças dos seus outros natais.

Nunca mais haveria um Natal de verdade para si, compreendeu à certa altura. Nunca mais haveriam sinos de ouro, flechas, piratas, bolas decorativas que eram frutas encantadas, torta de maçã especial com nozes e fugir para o quarto de Hector de noitinha, todos três, decididos a não deixar que o dia mágico terminasse.

– Com licença. – disse de repente, se levantando e atraindo o olhar dos três ao mesmo tempo. – Vou me deitar.

– Mas são só sete horas – Tonks estranhou, usando uma réplica do chapéu natalino do pai, só que com três pompons ao invés de um só, cada qual de uma cor.

– Não me sinto bem. – desculpou-se. É claro que foi um erro, tendo em vista a presença de uma medibruxa na sala.

– O que está sentindo, querida? – Andromeda rapidamente estava de pé, vindo lhe analisar. Já não bastava ela fazer isso todos os dias quando descia para o café, usando a desculpa que precisava monitorar a sua saúdas após o seu ataque cardíaco?

– É só cansaço. – Bervely se esquivou em direção às escadas. – Vai melhorar quando eu me deitar.

Deixou a sala rapidamente, ouvindo Tonks falar “ela não tem dormido bem, mesmo…”, e perdendo o diálogo que se seguiu, mas podia adivinhar a preocupação no rosto de Andromeda com muita facilidade.

Só que não era cansaço. Seu peito doía, e também não tinha nada haver com o estado físico do seu coração. Com um humor escuro, deitou na cama de casal e puxou o cobertor grosso sobre si, enrolando-se como se fosse possível se proteger contra a onda de sentimentos que estava chegando.

Ela conseguia se esquecer, na maior parte do tempo, agora. A tática era se manter distraída. Às vezes não funcionava…

– Não pense nisso – ordenou para si mesma, tentando suplantar o insuplantável. Tentar não pensar era a mesma coisa que pensar em dobro. – não pense nele – rosnou. Se pudesse ter acesso à uma poção da memória, ao menos. Mas qualquer poção ou ingrediente antes guardado no armário sob a escada fora trancado fora do seu alcance desde que Andromeda soubera do seu episódio de intoxicação em Hogwarts. Estava indefesa aos assaltos da sua própria mente…

E como se os predadores estivessem à espreita, ela foi tragada para a inconsciência num puxão menos suave que adormecer. Viu-se novamente na cela do seu pesadelo recorrente, que retornara com força total desde que fora forçada a parar de beber a poção do sono.

Ela não se viu inclinada a resistir. Deitou no chão da cela imunda de forma obediente, estendeu seus braços abertos e se deixou devorar.

Os monstros vieram e cavaram nela, procurando algo de apetitoso com que se nutrir. Eles enfiaram seus dedos longos e podres nas piores memórias e as esticaram sobre seus olhos abertos, obrigando-a a revivê-las mais uma vez.

Hector deitado na neve.

Seus lábios azuis, seus olhos opacos.
Os gritos dela cortando o dia claro, tão desesperados como se fosse ela quem estivesse morrendo.

E não era?
A dor imensa, a impotência. Profunda o bastante para um mergulho.

Não dava para respirar ali embaixo, mas ela merecia sufocar…

Tinha culpa.

Se não fosse por ela, por seu erro imperdoável, ele ainda estaria vivo.
Talvez não ao seu lado. Talvez amando outra… mas vivo.
Erradicara Hector do mundo, merecia ser devorada pelos monstros. Merecia entregar a sua alma…

Entregue”, a voz da mulher, que era ao mesmo tempo familiar e louca, persuadiu em seu ouvido, “entregue e estaremos livres, garota”

Ela cogitou a proposta. Talvez a obliteração de um corpo sem alma não fosse tão ruim assim, certo?

Sem alma, não havia culpa.

Entregue…”

– Não!

Sentou-se com tanta brusquidão que teve uma tontura súbita. As mãos tremiam, e a sensação de ter estado lá era tão real que precisou olhar ao redor e se certificar que os sugares de alma não estavam ali, no chalé, pairando sobre o seu corpo como abutres asquerosos que eram.

– Mas que… droga – murmurou, enterrando as mãos no rosto e tentando respirar.

Precisava admitir que estava em pânico. O que quase acabara de acontecer com ela? Sempre soubera que aqueles não eram pesadelos comuns, desde o hospital, quando passara meses nutrindo aquelas criaturas, mas dessa vez…

Dessa vez ela fora sequestrada para lá. E quase tivera a sua alma roubada. A ideia parecia absurda mesmo em pensamento, mas não tinha a menor dúvida. Houvera um puxão muito específico em seu âmago, quando esteve prestes a concordar, e a sensação fora tão arraigada da sua essência, tão invasiva e errada, que a despertara. Pelo menos dessa vez, mas e da próxima?

Abraçou a si mesma, sem se aperceber do frio que penetrava a camisola e gelava a pele. Mais lhe preocupava a vulnerabilidade em que se encontrava, tendo aquelas memórias da morte de Hector remexidas todas as noites. Nenhum amuleto ia lhe ajudar dessa vez, e quando adormecesse novamente, ia pagar com a própria alma.

Não, rosnou para si mesma. Precisava fazer alguma coisa a respeito. Só havia uma maneira… mesmo que Andromeda nunca lhe perdoasse. Talvez ela entendesse, afinal, era a sua alma que estava em jogo ali.

Antes que mudasse de ideia, deixou o sótão o mais silenciosamente que pôde, de posse da sua varinha. Buscou se certificar que a família continuava reunida na sala, no andar de baixo, antes de voltar ao corredor e entrar no quarto de casal, fechando a porta atrás de si com um feitiço. Se alguém tentasse abrí-la, ela saberia e devia ter tempo de se esconder.


Não é como se não tivesse pensado em fazer aquele assalto outras vezes. Na verdade, era tudo no que podia pensar desde que chegara para feriado de Natal, mas ela impedira a si mesma, afinal, era só a abstinência falando. Merecia os pesadelos assustadores, acordar no meio da noite achando que havia um dementador no quarto, reviver o dia da morte de Hector. Ela merecia cada pedaço disso, e sabia.

Mas agora havia mais em jogo do que a sua penitência; pela primeira vez sentira como se fosse perder a si mesma. Como poderia explicar isso para qualquer pessoa? “Desculpe Andromeda, é que a minha mãe consegue entrar na minha cabeça enquanto eu durmo, e agora ela quer que eu entregue a minha alma para os guardas, para que eles a deixem em paz”.

Bervely atravessou o quarto e alcançou a série de prateleiras que ficavam do lado oposto da cama de Andromeda e Ted. Nunca tinha entrado ali, mas já os ouvira falar onde guardavam as coisas importantes: a caixa-cofre dentro do armário. As caixas-cofre eram uma das especialidades de Ted, por serem completamente seguras, fáceis de transportar, com capacidade quase ilimitada e de acesso remoto. A única coisa que importava era a certeza de que Andrômeda colocara as poções ali dentro, para ela.

Agachada no chão, sacou a varinha e apontou para as cinco pequenas fechaduras, pensativa. A grande parte dos móveis feitos por Ted podiam reconhecer os seus donos, então talvez aquele só se abrisse com uma senha proferida pela voz da própria Andromeda. E ainda que conseguisse reproduzir a sua voz com exatidão, como ia descobrir a palavra correta?

Foi quando reparou a arrumação peculiar das fechaduras, dispostas em um arco, quatro delas mais próximas e uma quinta, um pouco separada das outras. Sorriu ao descobrir a engenhosidade do projeto.

– Ted Tonks, você não é um completo trouxa, afinal de contas.

Precisava se concentrar, agora. Reproduzir a voz de alguém era algo que nunca tentara, mas aparência física… se Tonks estivesse certa sobre o seu “dom” (ainda não concordava com aquela classificação para se referir à metamorfomagia), devia ser capaz de imitar a forma exata daquela parte do corpo de Andromeda. A droga de metamorfomagia precisava ser útil para alguma coisa.

“Vamos lá… é só uma mão… você a vê todos os dias fazendo panquecas…”

Demorou um bom tempo, ali parada e agachada perto do chão, observando a própria mão com uma concentração ferrenha, cena que seria estranha para qualquer um que entrasse no quarto. Por um momento ela pensou que não aconteceria, mas finalmente os dedos foram se alongando, o sutil calo de escrever no anelar tomou forma e as unhas ficaram grandes e ovais, ao contrário das suas curtas e meio quadradas. Ela ficou olhando fascinada para a mão de outra pessoa atarraxada ao seu braço, sem acreditar que tinha feito mesmo.

“Certo. Agora vamos ver se funciona tão bem quanto se parece.”

Funcionou. No momento em que encostou a ponta de cada dedo à respectiva fechadura, as cinco estalaram e a porta do cofre se abriu suavemente.

A vaga sensação de que devia se sentir mal por estar invadindo o quarto e o cofre de Andromeda flutuou em sua mente como um aviso de fundo, mas haviam coisas mais importantes com que se preocupar, o momento em que seria vencida pelo sono e forçada a entregar a própria alma sendo o maior deles.

Havia, no entanto, muito mais coisa ali dentro do que imaginara. Pastas e pastas com documentos em pergaminhos, sacos de galeões para emergências, objetos mágicos provavelmente de uso médico muito sensíveis, um chapéu pontudo de graduação com fivela da sonserina, diversos discos de vidro que ela não sabia para que serviam… mas definitivamente nenhuma poção. Cavou até o fundo do cofre, preocupada em não demorar mais muito tempo, até que a frustração a levou a puxar as mãos com impaciência, esbarrando numa caixa de cartas.

O monte de envelopes se derramou pelo chão em frente aos seus joelhos dobrados, fugindo da caixa inadvertidamente aberta e saindo do que parecia ter sido um cuidadoso ordenamento. Ótimo, ela nunca adivinharia em qual ordem estiveram arrumadas, e Andromeda saberia com certeza que alguém mexera nas coisas dela, cedo ou tarde.

Com que freqüência ela olhava aquela caixa? Aparentava ser bem antiga. Com sorte era apenas um arquivo velho, e ela nunca chegaria a saber que foram tiradas da ordem. Enquanto colocava os envelopes o mais alinhado possível de volta, checava à esmo os nomes dos remetentes, se perguntando se havia alguma de um conhecido ali… Narcissa, talvez, ou a própria Bellatrix, se fossem cartas de antes de Andrômeda ser expulsa da família…

Bervely olhou rápido, e depois novamente, para um dos envelopes que quase enfiara de volta. A letra lhe chamou atenção por se parecer com a dela, quando estava sendo desleixada e ignorando os anos de aperfeiçoamento em caligrafia impostos por sua tia. Os garranchos eram familiares, mas não poderia ser sua, nunca escrevera para Andrômeda.

Até que o nome do remetente acendeu um alerta em sua memória: “Sirius”.

“Sirius…?”

conseguiu ouvir um barulho na escada. Pelo som destrambelhado devia ser Nimphadora indo para o seu quarto, mas não queria arriscar, então enfiou as pressas as cartas restantes na caixa, fechou a tampa e a colocou de volta ao cofre, travando a porta e tendo certeza que o feitiço de tranca se restabelecera.

Deixou o quarto de Andromeda e Ted exatamente como o encontrara, a não ser pela carta sequestrada, que levou escondida no cós da sua calça de pijamas.

– BD –


– Por favor me lembre de novo porque estamos subindo uma colina completamente coberta de neve a essa hora da manhã, nesse frio? – seu tom azedo e direcionado à Tonks, e apenas a ela, foi abafado pelo cachecol firmemente enrolado sobre a sua boca e nariz.

– É uma tradição. Fazemos isso todo vinte e seis de dezembro.

– Escalada? – repetiu, inconsolável.

– Não – a lufa-lufa também não era a mais feliz das criaturas, a julgar pelo cabelo branco gelo espigado que estava usando aquele dia. – homenagem aos mortos.

Bervely bufou, mas não disse mais nada, especialmente porque precisava poupar o fôlego para a subida desafiadora de Stoatshead Hill. Enquanto isso, o feliz casal Tonks ia um pouco mais à frente delas, conversando e rindo como se aquele fosse algum passeio no parque.

Não era. Suas mãos gelavam, a ponta do seu nariz doía, o feitiço de aquecimento nas botas não estava sendo páreo para o chão congelado, e apesar disso as partes do seu corpo cobertas com a roupa pesada suavam com o esforço da subida. Era horrível. Devia haver um jeito de homenagear os mortos que não incluísse congelar os vivos.

– Que mortos exatamente iam querer que os vivos subissem aqui em pleno inverno? – voltou a reclamar, quando o terreno aliviou um pouco e conseguiu retomar o fôlego – Parecem com pessoas que não merecem nenhum tipo de homenagem, se você me perguntar.

Tonks lhe olhou relutante e não respondeu. Bervely percebeu do que aquilo poderia se tratar e soltou um palavrão.

– Não me diga

– Mamãe achou que seria uma boa ideia. – desculpou-se, encolhendo os ombros cobertos por dois cachecóis, um amarelo canário e outro azul cítrico, entrelaçados. – Como um fechamento, ou o que quer que queira chamar.

Bervely viu-se desejando novamente que eles não se importassem tanto.

O topo da colina de Stoatshead, como Gui Weasley lhe dissera uma vez, valia a pena a visita, até mesmo no inverno. A vista das colinas e do rio Otter congelado e do pequeno vilarejo encravado no vale era bastante panorâmica, e num dia com menos neblina ela acreditava que poderiam avistar até mesmo Devon. Naquele momento, as bordas do horizonte estavam esbranquiçadas e borradas, e tudo além disso eram contornos difusos e escuros.

As árvores ao redor deles eram meros esqueletos, tendo perdido completamente as suas folhas, e havia cerca de quinze centímetros de neve fofa no chão, maculada apenas pelas pegadas dos quatro. A única que se destacava, bem no que devia ser o topo do morro, era uma árvore de tronco muito grosso e liso, marrom claro, cuja superfície fora talhada com nomes diversos. Os galhos esparramavam-se para as laterais e para baixo, o que a tornava uma árvore baixa e volumosa. Era a única a manter as suas folhas, variadas em tamanho e verde-prateadas, incomumente brilhantes.

– A Árvore da Memória. – Ted, que ela não percebeu ter se aproximado por detrás de si, falou num ponto perto do seu ombro – É uma planta rara, brota espontaneamente nos lugares onde há muita saudade. Essa aqui começou a crescer depois da Primeira Guerra Bruxa… os bruxos dos arredores costumavam vir aqui em cima para se lembrar dos ente-queridos que perderam.

– E quanto aos nomes? – ela murmurou, observando-os ao longo dos galhos, como se fossem a página de um livro vivo – também apareceram ai espontaneamente?

– Não… diz a lenda que se você gravar o nome de alguém que se foi numa dessas árvores, sua memória permanecerá viva para sempre.

– Uma árvore não pode se lembrar – rebateu, com fria lógica.

– A maioria não… essa pode. – Ted sorriu. Ele estendeu a mão e alcançou uma das folhas brilhantes, que tinha mais ou menos o tamanho de um selo. Fechou os olhos por um momento, concentrado, e de repente a folha começou a se alargar e refletir imagens de uma senhora de cabelos loiros, e olhos verdes idênticos ao dele. Ela tecia meias com agulhas encantadas, concentrada. Ted soltou a folha, esta agora brilhando mais do que antes e com o dobro do tamanho, e o galho retornou à sua posição original.

– As folhas tem a propriedade de armazenar lembranças. Você pode registrar aqui as memórias dos seus ente queridos antes que o tempo passe e elas evanesçam da sua mente, e então após muito tempo você vem aqui e pode revê-las, matar a saudade.

– Por que alguém iria querer fazer isso? – perturbou-se, torcendo o seu rosto para a mera ideia – Não é muito melhor esquecer os mortos do que voltar aqui e sofrer com o que nunca mais poderá ter deles?

O bruxo lhe fitou com uma tristeza compreensiva.

– Você pensa assim agora, que a dor está fresca, mas quando ela passar vai querer relembrar os momentos felizes.

Bervely duvidava. Cada momento feliz que lembrava de ter tido com Hector era escurecido com a sombra da impossibilidade de repetí-lo.

Um pouco adiante, do outro lado da árvore, Andromeda e a filha observavam uma e outra folha, sorrindo e fazendo comentários saudosos. A bruxa levantou os olhos procurando por ela, como vinha fazendo de maneira discreta para checá-la.

Esperaria que ela, Bervely, pegasse uma daquelas folhas e entregasse uma memória feliz dos seus momentos com Hector? Não conseguiria fazer isso nem se quisesse, pois talvez pela primeira vez desde que visitara o túmulo do primo, sua cabeça não estava nele.

Ela não dormira aquela noite, sequer fizeram faltas as poções do sono que não conseguira roubar. Ninguém a arrastara para nenhum pesadelo, ninguém conseguira transpor a muralha de pensamento obstinado que crescia nela após a noite passada. Após ter lido a carta de Sirius.

– Andromeda – chamou, se aproximando da dupla com resolução calma. – Podemos descer na frente? Queria conversar sobre uma coisa, se não se importar.

– Claro. Claro. – aprumou-se, largando gentilmente o galho e disfarçando a sua surpresa. No geral, era sempre ela que requisitava Bervely, não o contrário. – Dora, avise ao seu pai que fomos na frente, sim?

As duas iniciaram a descida pela trilha dos seus passos, cuidadosamente e em silencio. Andromeda primeiro respeitou o seu silencio mas, percebendo que a sobrinha tinha dificuldade de começar, resolveu lhe oferecer a dianteira.

– Então? Você gostou da árvore? – tinha as mãos desprotegidas nos bolsos, e o cabelo longo e cacheado tapava grande parte do rosto. Seu tom casual era quase cuidadoso demais.

– É um pouco mórbida. – disse com sinceridade. Isso provocou um sorriso afetuoso no rosto da bruxa.

– Nunca é fácil perder alguém que a gente ama, Bervely. Estar ao redor de pessoas que entendem pode ajudar com a dor.

– Eu suponho. – murmurou, também enfiando as mãos nos bolsos do casaco, sentindo as juntas duras. A bota fazia o barulho de trituração na neve diante de suas passadas precavidas, e ao redor delas, só havia o silencio abafado do monte congelado. – Quem você perdeu, Andromeda?

– Na guerra? – Bervely deu de ombros. Talvez fosse uma pergunta muito pessoal, mas naquele momento não se importou muito. A bruxa também não pareceu se incomodar – Na guerra eu perdi um monte de amigos, principalmente. Nós lutamos juntos, por um tempo, e depois ficou perigoso demais até mesmo para isso. – Andie deu um pesado suspiro, e Bevy imaginou que ela estava sentindo o peso das lembranças que não mereciam entrar na árvore mágica – mas acima de tudo, a guerra tirou a minha família de mim.

Elas tinham chegado a uma clareira relativamente plana, que antecipava a descida mais íngreme até a base da colina, e Andromeda parou ali para respirar um segundo, observando a sobrinha a fim de descobrir o que se passava por aquela mente inacessível.

– Eu sei o que você vai dizer, eu escolhi deixá-los. Talvez sim. – adiantou-se, o olhar castanho se tornando um pouco feroz – Mas sabe, eles também escolheram. E antes de tudo isso, havia um conflito e precisamos decidir lados. Você sabe o que é pior que perder alguém para a morte, Bervely? Perder alguém para sempre, sabendo que ele continua vivo. Que vocês poderiam continuar juntos, mas há uma estúpida… uma estúpida ideologia que é como um abismo separando famílias, e é apenas… absurdo.

Surpresa com intensidade súbita dos seus sentimentos, a garota assentiu, mordendo o lábio ressecado. Ela entendia o que Andromeda estava falando, ela também estava perdendo pessoas… gostava de dizer a si mesma que não importava, mas haviam as ideologias e a guerra nem mesmo estava lá para forçar aquelas escolhas. Ao mesmo tempo, sentia que estavam se aproximando do assunto que visava desde o início.

– Das pessoas que você perdeu… de quais você sente mais falta?

Andromeda procurou seus olhos, talvez acreditando que lia as suas intenções.

– Principalmente daqueles que cresceram junto comigo, e que eu vi irem pelo caminho oposto, mas não pude fazer nada. Sua tia Narcissa, de uma certa maneira, e sua mãe…

Ela desviou o rosto, sem saber que tipo de expressão teria tomado seu rosto ao ouvir a menção de Bellatrix.

– Mais alguém? – pressionou. A exigência em sua voz que não foi intencional, mas saiu mesmo assim, e alertou Andromeda.

– Estamos falando de alguém específico? – a bruxa perguntou, afiada. Enquanto ela esperava, a floresta pareceu ainda mais silenciosa ao redor delas, apenas suas respirações aceleradas enquanto seus corpos parados esfriavam.

– Sim. – Bervely apertou os maxilares furiosamente. Responder aquilo era confessar a invasão não autorizada ao quarto da bruxa. Respirou fundo. – Sirius? Sirius Black?

Se o silêncio pudesse surdar, naquele momento ele o teria feito. Ela pigarreou, a garganta ressecada e travando-se de tensão.

– Ele era seu primo, certo?

– Como sabe disso? – o tom veio alarmado, mas contido. – Onde viu esse nome?

– Não na árvore genealógica da família, isso eu te garanto. – ela disse azeda, mas como a bruxa continuava lhe olhando como um laser, achou melhor cortar a graça – Numa carta. Uma que ele enviou para você há muito tempo.

– Como… você mexeu nas minhas coisas?

– Eu precisei, ok? Mas isso não vem ao caso agora, eu não peguei nada, a não ser a carta de Sirius.

Andromeda parecia ligeiramente sem fala, provavelmente tentando se lembrar o que exatamente constava na carta que o seu primo lhe enviara há tanto tempo atrás. Talvez houvessem outras, e ela quisesse descobrir qual exatamente Bervely encontrara, e para lhe poupar do esforço, a garota enfiou a mão no bolso e tirou o envelope, lhe entregando. Seu rosto era uma máscara impassível, e aquilo mais do que nunca deixava Andromeda nervosa, ao receber o pergaminho e abrí-lo, o frio tornando o trabalho difícil.

Querida Andie,

No momento em que você receber essa carta, vai querer me chamar de bastardo egoísta. Eu provavelmente mereço, então, vá em frente, e tire isso do caminho.

Pronto? Ótimo. Você sempre disse que nós, traidores do sangue, devíamos permanecer unidos, mas ao invés disso eu tenho sido um péssimo primo que nunca aparece ou dá satisfações. Nem mesmo visitei Nimphadora (É assim que se escreve? Aposto que esse nome é coisa sua…) quando ela nasceu… ah, merda. Isso foi há cinco anos! Você tem toda a razão, sou mesmo um bastardo egoísta.

O que nos leva ao assunto dessa carta. E ele é: eu acho que estou ficando louco, Andie. E no momento você é a única pessoa que pode me ajudar, porque você sempre soube de tudo que acontece nessa família, até depois que eles te queimaram. Então vamos à minha história: um dia desses eu estou andando pelo Beco Diagonal, e me deparo com uma garota. Não é o que você está pensando – era uma garotinha. E sabe o que ela tem? Um par daqueles olhos enormes, bem conhecidos nossos, que colocam você no chão no segundo em que te atingem. Ela também tem, veja você, aquele osso pontudo no pulso, igualzinho ao do meu pai (que o satanás o tenha), e que eu odiei ter herdado.

E quem é a mãe dela? Acho que eu não preciso dizer, à essa altura. Imagine só a minha surpresa quando a sua irmã caçula me acusou de ter sequestrado a filha que ela perdeu no Beco Diagonal num terrível dia de chuva!

Eu continuo fazendo e refazendo cálculos, quero dizer… você sabe de alguma coisa sobre isso, Andie? Se você sabe, trate de me contar. Eu estou ficando maluco por sequer cogitar a possibilidade, não estou? O sorvete favorito dela é pistache. Pistache! E ela gosta de cães. Quero dizer, quais as chances…?

Por favor me diga que isso não faz o menor sentido. Tenho pensando tanto na coisa toda que já fui ao Departamento de Registro dos Nascimentos Mágicos tirar a dúvida (ela foi registrada como herdeira daquele Lestrange, mas isso não é o mesmo que filha, não é mesmo?)

Você sempre foi a mais esperta de nós, e eu não sabia a quem mais escrever, eu sequer posso falar disso com a maioria das pessoas que eu conheço, e que pensam que eu sempre odiei Bellatrix o suficiente para me manter longe dela antes que ela se tornasse você sabe o quê. Então não me ignore, mesmo que seja para me xingar.

Com amor e um pouco de desespero,

Sirius.

– Eu não acredito que foi ao meu quarto sem a minha permissão. – ela disse zangada, dobrando a carta em duas. – o que você estava procurando??

– Isso não importa.

– Eu acho que importa sim, Bervely! Eu confiei em você, e você não tinha o direito de mexer nas minhas coisas e– e–

– E descobrir que meu pai é um traidor do sangue? – a interrompeu, rascante. Andromeda fechou a cara. – Digo… esse é o meu pai, não é? Só pode ser!

– Eu sinto muito, mas isso vai lhe render um castigo. Você precisa entender a gravidade do que fez. Eu tenho sido paciente com você, por tudo que tem passado, mas nada justifica mexer nas minhas coisas sem permissão, isso eu não vou admitir de forma alguma!

– Me coloque de castigo, Andromeda. – lhe respondeu com frieza – O que vai fazer, me prender no meu quarto? Me deixar sem sobremesa até o fim do recesso? Vai me expulsar da sua casa? Faça o que quiser, eu não me importo, você só precisa me responder uma coisa.

– Bervely! Não fale comigo nesse tom! – irritou-se a bruxa, o rosto ganhando manchas vermelhas temperamentais. – eu não tenho que te responder coisa nenhuma!

– Sim, você tem. Por que no verão passado, quando você estava querendo ganhar a minha confiança e tudo mais, você me prometeu que não ia esconder nada, e que nunca ia mentir para mim.

As duas se encararam firmemente, Andie numa irritação intempérie, e Bervely em resolução calma, mas dura. Talvez o que o bruxo dissera na carta, sobre “olhos que colocavam você no chão”, descrevesse o jeito com que fitava a tia agora.

– Ótimo. – a bruxa mais velha rendeu-se, com um movimento irritado do braço que segurava a carta – Faça a sua pergunta.

– O que você respondeu a ele? – disse, prontamente.

Andie franziu o sobrolho; esperava outras coisas. Mas acabou entendendo que talvez na cabeça de Bervely, a sua resposta à Sirius naquela época teria feito toda a diferença.

– Não é tão simples. Mesmo que ele tivesse tido certeza–

O quê – ela rosnou, rígida, dispensando o desvio do assunto – você lhe respondeu?

Andie fechou os olhos, longamente, soltando a sua respiração.

– Eu lhe disse que não sabia do que ele estava falando. E que se ele tinha olhado o seu registro e você era herdeira de Lestrange, ele não tinha motivos para remexer o assunto. E que não valia a pena procurar problemas.

Bervely puxou ar, indignada.

– Você mentiu!

– Para o bem de vocês. – completou, buscando soar segura. Na época estivera, mas agora, diante do olhar perfurante da sobrinha, as suas certezas fraquejavam. – Era guerra, Bervely, e lados opostos, você não entende, Bellatrix tomou uma decisão sobre a gravidez e voltar atrás seria desastroso, até mesmo o boato disso seria catastrófico! Você não sabe como era, e eu prometi a ela que jamais contaria… Olhe, desse jeito você estava segura!

– Eu sei como era! – ela rugiu, transtornada – eu estava lá, se lembra?

– Você era pequena… além do mais, apesar de eu não concordar que fosse a Narcissa a ficar com você e não eu, nada lhe faltou, e quando Bellatrix voltou foi melhor, não foi? Você tinha a sua mãe com você. Por mais terrível que ela fosse com os outros, com você era diferente, não era?

A garota deu uma risada amarga e incrédula.

– Você não faz a menor ideia, não é? – desdenhou, abraçando a si mesma. Tinha esquecido o frio por completo, mas ainda havia a sensação de desamparo e injustiça.

– Bervely, me escute. Sirius… ele não era como eu, ele não traiu os Black com boas intenções. Eu pensei que sim, no começo, mas então, ele… – ela se interrompeu, claramente desistindo ou reformulando o que ia dizer – olhe, ele tinha uma família naquela época. Ele não poderia ficar com você, e Bellatrix nunca te entregaria, de qualquer maneira, o que você acha que teria acontecido?

– Eu não sei o que teria acontecido, Andromeda. Mas eu me lembro dele. Claramente, como se fosse ontem, eu me lembro dele no Beco Diagonal aquele dia. – ela fechou sua mão sobre a coleira em seu braço, repuxando o couro desgastado. – E se ele queria saber quem eu era, você tinha que ter dito! Que direito tinha você–– Bervely engasgou, seus olhos ardiam. Afastou com irritação a franja que caia em seus olhos – Você nem sabe… você quer saber o que aconteceu naquele dia? O que aquela maravilhosa mãe fez comigo aquele dia, quando ela viu que eu estava com ele no Beco Diagonal, você quer? Quando nós voltamos para casa, ela quase me matou!

– Bervely, não! Eu estou certa que…

– Não! Ela tentou! Você não estava lá. Ela começou a gritar, e me amaldiçoar, e a casa inteira tremeu, os vidros quebraram… o lustre da sala de estar se desprendeu sob a ira de sua magia, e por pouco não me esmagou. Se não fosse por Rodolphos, ela teria me matado! É isso que você chama de segurança?

– Oh, Bervely – Andie lamentou, seus olhos do tamanho de pires com a confissão da sobrinha. – Eu sinto mesmo, mas não é como se…

– Quando ela se irritava comigo, sabe o que ela fazia? Você sabe? – continuou a gritar, sem deixá-la falar – ela me trancava na dispensa escura, que era do tamanho de um forno de pão, e me deixava lá a noite inteira! É por isso que eu não me importo com nenhum castigo que queira me dar por mexer nas suas coisas! Nada que você vá fazer comigo vai superar o que a sua irmã me fazia por eu apenas estar em seu caminho quando ela não me queria lá!

– Não teria sido melhor com Sirius, Bervely! – exclamou a mulher, lívida. Mas Bervely achava que ela não tinha entendido do que estava falando.

– Ela prometeu meus serviços à Voldemort! Quando eu tinha cinco anos! Ela me deu pra Voldemort como se eu fosse uma propriedade de família, ou uma… uma… uma droga de um elfo doméstico que ela passa à frente em troca de artes das trevas ou sei lá o quê!

Isso calou Andrômeda, o que fora a intenção de Bervely desde o início. Apesar de tremendo da cabeça aos pés, se sentia enérgica e pulsante. Em chamas.

– Então não venha me dizer que isso era a coisa certa! Você não sabe como poderia ter sido, e você não tinha o direito de decidir isso. Talvez se Black tivesse sabido, eu não precisaria estar aqui agora, sem a droga de uma casa, ou de uma família, precisando viver de favor na casa de mestiços e com medo de dormir, ter um pesadelo e perder minha alma!

Andrômeda tapara a sua boca com as mãos, tentando absorver o que lhe acabara de ser revelado. Sem querer estar ali quando ela começasse a fazer o que quer que fosse a seguir – tanto ter pena ou expulsá-la da sua casa por ser desaforada e ingrata pareciam ambas ideias intoleráveis – Bervely deu meia volta e começou a descer o restante do caminho o mais rápido que as suas pernas permitiam, sem se importar com rumo.

– Bervely! – ouviu-se chamada ao longe, mas nada no mundo lhe faria voltar agora. Tinha falando muito mais do que pretendia, e não podia entender como chegara à tal. O plano original era questionar sobre Black e receber alguma resposta taxativa como: “ele não quis assumir você” ou “ele morreu na guerra antes que pudesse”. Qualquer coisa que a ajudasse a compreender porque nunca o vira novamente.

– BD –

Havia um único pub no vilarejo trouxa de Ottery St. Catchpole, e levava o criativo nome de Catch’s no Saint. Naquele domingo preguiçoso pós Natal, era o único estabelecimento comercial que se dera ao trabalho de abrir, não estando especialmente frequentado.

Atrás do balcão, uma mocinha espinhenta esfregava um pano com desengordurante, e no canto perto da junkebox que não recebia manutenção desde 1989 e só tocava duas músicas havia um par de velhos jogando damas. Perto dos banheiros, um cara tentava continuamente discar um número em seu celular, mas estava bêbado demais para acertar a sequência. Ninguém se importava com o chiado dos seus impropérios.

Na outra ponta do balcão, numa atividade mecânica, uma garota ruiva pegava um dardo, mirava no alvo e o lançava com precisão irritada. Ela invariavelmente acertava os arredores do centro, lançava um olhar feio para o trabalho e dava um gole em seu copo – era de se pensar que estivesse visualizando naquele alvo a cabeça de alguém. Mantinha-se naquilo já fazia quase uma hora; quando os doze dardos estavam espetados no alvo ela andava até lá, arrancava todos e recomeçava.

A entrada súbita de alguém no pub a distraiu do ritual, e ela ergueu o rosto, ainda nutrindo um fio de esperança de ver um ruivo alto e vestido em couro entrar ali e se ajoelhar, implorando desculpas.

Não foi nenhum ruivo a entrar no bar, o que a desinteressou de imediato, a não ser pelo rápido frissom de reconhecimento que a levou a olhar de novo. Por um momento delirante pensou ter visto Bervely Black, e amaldiçoou a vodka trouxa e ruim que estava bebendo.

Mas não. A garota de cabelos pretos e andar arrogante que acabara de chegar, dispensando o casaco de frio com indiferença, era em tudo a sua colega de casa em Hogwarts e ex-parceira mágica, que não só estava mesmo num bar trouxa em plena manhã de domingo mas também parecia mergulhada num estado de humor bem parecido com o dela própria.

– Destino filho de uma mãe. – a ruiva praguejou para si mesma, observando a outra cruzar o bar e se recostar no balcão (grande erro, cotovelos grudentos em três, dois…), ainda querendo combater a realidade com a lógica. Não tinha bebido o suficiente para confundir uma pessoa qualquer com Bervely, isso era certo.

– Me sirva alguma coisa. – ouviu a garota rosnar para a balconista, que a olhava como quem queria saber se ela tinha idade para estar ali – Forte.

– Destilado? Maltado? Fermentado?

– Apenas forte.

Com um último olhar de confusão, a mocinha deu de ombros e foi para a prateleira de bebidas. Enquanto isso, a luta interna que a observadora travava entre orgulho e curiosidade foi resolvido com a vitória da segunda instancia, e ela se aproximou de Bervely sinuosamente, armando seu rosto com um sorriso zombeteiro.

– Então você está viva. – disse, quando estava perto o suficiente dela para ser ouvida através da batida antiquada da junkebox.

Bervely deu um salto tão grande do banco que era de se pensar que tinha sido pega cometendo um crime.

Holmes? Mas o que diabos?

– Eu poderia fazer a mesma pergunta. – disse tranquilamente, sentando no banco alto ao lado dela e lhe olhando de cima abaixo – mas eu gostaria de ser poupada de detalhes, se você estiver fugindo com alguma outra alucinação.

– Não dá pra acreditar. – murmurou para si mesma, esfregando o rosto. Entre todas as pessoas e todas as possibilidades, ela tinha que encontrar Tara Holmes e ouvir as suas piadinhas infames, sacadas do seu orgulho ferido. – Quer saber? Hey, pode cancelar a bebida! Eu estou saindo fora.

Tentou até passar, mas a ruiva se interpôs em seu caminho, ao mesmo tempo que a analisava atentamente de cima à baixo.

– Está tudo bem com você?

– Por que as pessoas continuam me perguntando isso? Eu estou bem! Estou radiantemente bem! Eu sou uma raio de sol na primavera iluminando o ninho de um unicórnio filhote! Esse é tanto que eu estou bem!

Tara ergueu uma sobrancelha arqueada e crítica.

– Não me parece.

Bervely voltou frustrada para o seu banco, recebendo a bebida que a bartender lhe trouxera, tendo ignorado o seu cancelamento impulsivo. Era um copo alto com bebida transparente e gelo.

– Mas que droga é essa? – olhou zangada para o drink. – Ela me trouxe um copo d’água?

A ruiva se inclinou presuntivamente na borda do copo e cheirou. Seu nariz franziu.

– É vodka. Você não vai querer brincar com isso.

– Ótimo. – irritada, pegou o copo e virou um generoso gole. Aquilo desceu dilacerando a sua garganta, queimando seus olhos de dentro para fora e lhe provocando uma incontrolável crise de tosse. Quando recobrou a sua dignidade, Tara sorria, e isso só piorou o seu humor. – Mas que merda, Holmes, porque você tem essa mania de aparecer no meu caminho de forma inconveniente?

A garota cruzou os braços, ultrajada.

– Desculpe, mas até onde eu sei eu estava aqui primeiro e você entrou cheia de atitude e sede, e eu não exatamente podia adivinhar que dentre todos os lugares do mundo, me esbarraria com a vossa nobreza Black num bar trouxa ao meio dia de domingo!

Bervely olhou ao redor espantada, parecendo se dar conta de onde ela realmente estava. Seus ombros caíram.

– Isso é tão patético.

– Bem – Tara rolou os olhos, capturando seu próprio copo de vodka – Bem vinda ao clube. Quer jogar uns dardos? Eles realmente aliviam um pouco a vontade de explodir a cabeça de alguém com a sua varinha.

Bervely fez uma careta para o jogo trouxa, ao que Holmes deu de ombros e foi exibir a sua pontaria, lançando mais alguns de forma certeira. Isso deu à Bervely tempo para realmente olhar para ela, registrar suas calças justas e botas de camurça, o pulôver branco macio, o cabelo solto e indomável em torno do rosto. O rímel estava borrado sob os olhos, como se tivesse escorrido e depois sido limpo de qualquer jeito com um guardanapo de bar. Ela estreitou seus olhos astutamente.

– Você passou o Natal com os Weasley. – não era uma questão. Tara pegou outro dardo, e seus lábios tinham se crispado à menção da família de ruivos, mas nenhum comentário foi feito da sua parte. – Onde está Guilherme, já voltou pro Egito?

Ela lançou o pino e fez cinco pontos. Seus ombros ficaram tensos antes de fazer um gesto como se não desse a mínima.

– Eu ouvi dizer que você pagou a passagem pra ele vir de lá passar o Natal com a família. Aposto que o seu pai não ficou muito feliz com isso.

– Nós podemos não falar sobre Weasley, ou meu pai? Obrigada. – rebateu irritada, bebendo um bom quarto do seu copo de vez e o trocando por outro dardo.

– Okay. – respondeu Bervely, ainda mais intrigada. Talvez tenha sido o seu olhar investigativo sobre a ruiva que a levou a suspirar dali a alguns minutos, de forma frustrada e fornecer uma explicação. – Aquele idiota e eu, nós terminamos.

Era egoísta, mas ficou feliz que Tara tivesse um problema. Tudo que queria era se distrair dos seus próprios, só para variar.

– Ah. Já não era sem tempo. – deixou escapar. Tara entendeu seu comentário equivocadamente e ergueu sobrancelhas muito incisivas para o seu lado.

– Assim o caminho fica livre para vocês, não é? Ora, não me faça essa cara. Eu sei que você o quis no momento que pousou seus olhos nele em Hogsmeade. Não pra cima de mim, Bervely.

– Ele é um Weasley lembrou-lhe, com uma careta. Tara rolou os olhos para ela.

– Eu soube que você esteve lá anteontem, okay? Toda conversinhas e músicas e… – a garota se interrompeu com um bufar impaciente – Que saber? Não me importa! Fique com ele se quiser. Um ingrato, é o que ele é. Aliás, vocês dois se merecem! Você é tão ingrata quanto ele.

Assustada com a reviravolta do assunto e acusação inesperada, apertou os olhos querendo avistar a lógica da afirmação. Tara lhe ajudou, apontando o dedo em seu peito.

– Oh, então você não se lembra que mais uma vez você sumiu do mapa sem me dar notícias, e ainda mais após eu ter salvo a sua vida? Qual é o problema com você?

– Ah. – suspirou – Isso.

– Sim, isso! Isso de você ter se intoxicado, ter tido um treco, quase morrido, e isso depois de quase se matar, e toda a loucura com o seu primo morto! E depois você some da ala hospitalar de repente e todo mundo fica achando que você morreu durante a noite e os seus parentes foram buscar o seu corpo!

Bervely começou a rir. Talvez fosse culpa da bebida trouxa, mas a explosão de Tara lhe soou extremamente engraçada, e o mesmo para o seu resumo da situação. Ela mal podia se conter, era tudo tão ridículo! Alucinara com o seu primo morto há dois anos, quase se jogara da Torre de Astronomia achando que estava em cima de uma vassoura, chorara sobre um túmulo cavado há dois anos como se ele fosse fresco, e, para coroar, havia a parte que Tara nem sabia: acabara de descobrir que o seu pai era um traidor do sangue, e jamais soubera sobre ela de verdade. E tudo a levava a um estúpido bar trouxa!

– O que é tão engraçado?

– Desculpe – tossiu, enxugando as lágrimas de riso descontrolado – Eu apenas… não é nada. Você tem razão. Eu devia ter mandado uma carta. Eu sou mesmo uma ingrata.

– Sim você é – assegurou a ruiva, um tanto desconfiada – bom que concordamos com isso. – depois Tara lançou um olhar engraçado para a vodka em sua mão, e para ela de novo. – Eu gosto da sua versão embriagada.

– Não estou embriagada. – indignou-se. Tara sorriu de lado, a cabeça inclinada.

Ainda.

– BD –

– Pegue um dardo, Bervely.

– Não, obrigada.


– Vamos, pegue um dardo.

Com um sopro resignado, pegou o maldito dardo que lhe era oferecido. Tara deu a volta em torno dela, parou perto do seu ombro esquerdo e posicionou seu corpo na direção do alvo.

– Mire, concentre, e atire. Simples assim.

Ela mirou e atirou. O dardo errou por quase um metro, atingindo um quadro de natureza morta, onde perfurou a barriga de uma pêra. As duas caíram na gargalhada, sob o olhar irritado da mocinha do balcão, que já decidira que bastava de vodka para as duas naquele dia.

Era impossível discernir as linhas do alvo pequeno na parede oposta, quanto mais acertar na mira, coisa que Bervely não era boa nem em seu estado sóbrio.

– Calculando a margem de erro da sua pontaria, acho que para acertar no centro do alvo você devia mirar, deixa eu ver, a careca daquele cara?

Não era especialmente engraçado, mas elas riram mais uma vez. Tomando o último gole do seu terceiro ou quarto copo, a ruiva se encheu de resolução e foi parar atrás de Bervely mais uma vez, lhe entregando o último tiro.

– Vou te ensinar a lançar. Acho que eu te devo isso, como a sua parceira mágica.

– Só que você não é mais minha parceira mágica – Bervely lhe lembrou, mas sem oferecer resistência quando a outra enfiou o pino em sua mão e ergueu seu braço em posição de lançamento.

– Cale a boca, Bervely. Se concentra na droga do alvo.

– Não consigo. – protestou. Tara bufou impaciente perto do seu pescoço, e ela se virou toda incomodada – não quando você está invadindo o meu espaço pessoal!

– Ao inferno com seu espaço pessoal. Larga de frescura, anda. Olha pra lá. Imagina que é a cabeça de Guilherme Weasley.

Ela deu uma risadinha.

– É você quem está com raiva de Guilherme Weasley, não eu.

– Droga, tem razão. – Tara apoiou a cabeça em seu ombro, fazendo um esforço para pensar. Seu cabelo fez cócegas na bochecha de Bervely. – De quem você tem raiva?

– De você, que está invadindo o meu espaço pessoal.

– Ótimo! – alegrou-se – então imagina que ali é a minha cabeça. Você quer destruir a minha cabeça com esse pequeno, porém letal, dardo trouxa de plástico.

– Isso não faz o menor sentido. – suspirou. Tara lhe de uma ombrada de encorajamento taxativo.

– Anda!

Ela lançou. A peça sequer teve impulso o suficiente para cobrir o caminho inteiro, caindo entre as cadeiras desocupadas mais à frente. Tara fez um barulho entre um rosnado e um ronronar de gato que arrepiou cada pêlo do seu pescoço.

– Você é terrível nisso!

– Obrigada. – rebateu irônica, a língua pesada, mas a cabeça leve. Pequenos arrepios parecidos com choques elétricos aconteciam nos lugares onde havia contato com o corpo da outra garota. Para posicioná-la, Tara colocara uma das mãos em sua cintura, e ainda não a removera dali.

– Sabe do que, Bervely? – disse, baixo, como se tivesse um segredo que de repente precisava ser compartilhado.

– Quê?

– Eu estou tão aliviada de que você está viva.

– Eu também. – concordou, cerrando os olhos. Tara falava desnecessariamente perto do seu ouvido, e quem olhasse de fora acharia que elas dançavam uma música lenta, a não ser pelo fato de que estavam paradas.

– Eu jamais me perdoaria se alguma coisa acontecesse com você. – continuou, completando o seu segredo em parcelas. Sua voz era um embalo.

– Não seria culpa sua, não seja ridícula.

– Seria a minha culpa – Tara rebateu, avançando para o seu lado como se não estivesse certa de que era ouvida naquele ângulo. – que você nunca saberia.

– Do quê? – intrigou-se. Sentia mais do que via o rosto de Tara pairando nas proximidades do seu.

– Disso.

A sua boca foi capturada pelo par de lábios cor de rosa e picantes de vodka, e a próxima coisa que Bervely soube foi que estava beijando Tara Holmes.

(Continua…)

Notas finais
Que parto esse capítulo! E eu estou numa fazenda onde o único lugar que pega o sinal da internet é no celeiro, então vocês podem imaginar o drama dessa postagem. Me façam seus comentários, afinal, coisas esperadas começaram a acontecer!! Beijocas!