Indigna Rosa Negra
49 Dezessete Vezes Rosa
Notas iniciais
Velórios.
Quando tinha quatro anos, Bervely lembrava de ter ido ao seu primeiro. Estranhara as pessoas circulando a caixa preta no centro da sala, aos cochichos, todas vestindo preto. Achara aborrecido ter de usar os sapatos novos que apertavam, e logo encontrara o tédio no meio dos adultos murmurantes.
Tia Narcissa lhe colocara no colo para lhe mostrar o morto; o único que parecia sereno, levando-se em conta a coisa toda.
“ …eles são enterrados debaixo da terra?”, lembrava de ter perguntado à tia, surpresa. “E e depois, o que acontece?”
“Depois você volta para o céu, se for um Black. Vai ocupar seu lugar entre as estrelas.”
A resposta lhe satisfizera, porque a Bervely de quatro anos pouco se importava com o destino dos bruxos que não carregavam seu importante sangue. Assistindo o caixão de Ian Fritz descer lentamente em sua cova, controlado pelo feitiço do mestre cerimonial, a Bervely de quase dezessete tinha a estranha sensação de algo em seu peito também era enterrado, e jamais se elevaria.
Ao seu lado, a curandeira Laurie Scarlet deu um forte soluço, escondendo a boca com as mãos. Essa era a versão controlada de uma torrente de soluços desesperados que tinham preenchido a noite no hospital, desde que o corpo do medibruxo e paciente fora descoberto nas escadas.
– D-desculpe – ela pediu, os olhos muito vermelhos – Eu a-apenas…
– Eu sei. – disse baixo, para poupá-la de elaborar a desculpa, principalmente por já tê-la ouvido madrugada adentro. Acabara ficando por perto de Scarlet naquela deserta sala de convívio do quarto andar, esperando pela chegada do dia e advento do enterro. Ouvira, sem chance de declinar, sua narrativa de como ele fora seu primeiro paciente e do tamanho milagre que era ter acordado, para então…
A cova foi selada magicamente sobre o caixão, com as últimas palavras do mestre de cerimônias passando desapercebidas para os seus ouvidos, que davam atenção, em lugar disso, ao zunido consistente de mais uma noite sem dormir.
O dia era claro e quente, e Bervely sentia calor debaixo das roupas que transfigurara para negro horas antes. Além dela, contavam-se mais quatro: a curandeira de coração partido, outros dois membros mais antigos do Hospital St. Mungus e a própria Andrômeda, aparentando mais cansaço do que nunca. Cinco pessoas para honrar a despedida do homem que, para ela, fora a diferença entre chafurdar no caos de sua culpa e se reerguer na luta pela sua própria identidade. Não era justo.
Como também não era justo que, para todos os efeitos, morrera por uma ‘falha’ do seu ‘coração fraco’ ao subir as escadas. O coração de Ian era forte – era a coisa mais forte que ele tinha.
– Eu estou… eu vou indo. – fungou Scarlet, enxugando as bochechas manchadas. Estava errática, merecendo um olhar reticente de Bervely para o seu estado.
– Tem certeza…?
– Eu vou… eu vou para casa.
Assentiu, fazendo um aceno de cabeça quando a curandeira cor-de-rosa foi embora. Os demais também foram se retirando, após longos olhares para a lápide recém gravada com o nome do morto.
Bervely permaneceu por perto, debaixo de um salgueiro frondoso que fornecia sombra. Não conseguia parar de olhar para o túmulo e pensar que falava com Fritz há apenas algumas horas. A coisa toda era muito revoltante.
“O tempo tem provado que aqueles que estão do lado do Olho de Hórus só tem a ganhar, enquanto os que se opõem frequentemente perdem.”
Ora, aquilo nem tinha levado tempo, não é mesmo?
– Bervely?
Nem tinha percebido a aproximação de Andrômeda até seu ponto de reclusão. A tia lhe avistara mais cedo no corredor, mas no meio de todo caos, e vendo-a acompanhando uma soluçante Scarlet, não se aproximara. Permanecera a uma distancia razoável durante o enterro, deixando Bervely acreditar, por um momento, que preferia não ter de lidar com ela num dia tão sobrecarregado. Aparentemente se enganara.
– Ei. – respondeu sem ânimo, tentando desfazer o nó na garganta para conseguir um tom de voz que não parecesse um ganido.
– Eu sinto muito. Sei que eram próximos… lembro que ele até mesmo compareceu ao seu aniversário, no ano passado, lá no chalé. Para mim, Ian também era um amigo de valor inigualável…
Bevy deixou a cabeça pender, sem dizer nada. Depois das condolências viriam as cobranças, sabia, e não se sentia preparadas para elas, ou para ver mágoa no rosto de mais alguém que se importava. Nada a surpreendeu mais do que as palavras seguintes da medibruxa.
– Posso lhe dar um abraço, Bervely?
Ergueu o rosto, sabendo que seus olhos estavam arregalados. Andrômeda tinha a compleição de cansaço do dia anterior, exaustão até, mas havia algo mais. Algo reconfortante.
– Eu… c-claro.
Os braços da tia envolveram seu corpo, firmes e macios, e quando se fecharam ela sentiu algo parecido com dor, mas que vinha de dentro e florescia até a superfície, numa explosão suave. Um alivio estranho que nenhum contato humano tinha lhe propiciado antes – por um momento não havia perda, preocupação ou sentimento de impotência dentro de si.
Sua garganta e olhos arderam. Quis chorar, mas segurou firme, apertando os olhos. Sem perceber, tinha deixado a cabeça recostar no ombro da mulher, seu rosto enfiado no espesso cabelo castanho.
– Vamos para casa, meu bem. – disse Andie baixinho, esfregando suas costas.
– Eu não acho que…
– Há muito para conversar, mas esse não é o momento. Nós duas precisamos de um bom descanso. Me acompanha?
Mil razões para recusar, pensou. No topo, a ameaça que pairava sobre sua cabeça, a retaliação do Olho de Hórus por que ela contrariara seu ego gigantesco… sem falar da sua última conversa com Ted, sem falar de Sirius, sem falar…
Sem falar que ela estava tão cansada, e sentia falta da sua cama. Terrivelmente.
– Tudo bem. – murmurou, dando-se por vencida.
Ia continuar lutando, é claro, mas só por um momento, era perfeitamente bom ter a chance de abaixar as armas.
– BD –
– BERVELY BLACK SUA VADIA DESENXABIDA!
Um vulto colorido se jogou em cima dela, e tudo que Bervely pôde fazer foi pisar atrás rápido para evitar cair de bunda. Nimphadora se agarrou a ela na entrada do chalé, provando que a mania de abraçar era uma mutação genética manifestada em todos os Tonks.
– Então… você está de volta. – constatou, lhe dando batidinhas nas costas. A prima se afastou o suficiente para lhe cegar com um cabelo em três cores: roxo-pesadelo, laranja e amarelo-sol, um bronzeado matador e uma jaqueta cheia de presilhas penduradas.
– Eu estou! Mas onde raios é que você estava? Eu voltei assim que eu soube que Black tinha escapado!
Andromeda deu à filha um olhar de aviso, e Tonks mostrou os dentes como uma criança pega em uma traquinagem. Elas entraram na cozinha iluminada, onde Ted Tonks tomava seu café. No momento que as viu, ele abaixou sua xícara devagar e plantou seus olhos azuis em Bervely como se perguntasse como ela ousava pisar ali de novo.
– Vamos pro meu quarto, tenho que lhe mostrar o álbum de fotos e o meu pôster do Furacão Ucraniano autografado!
Bervely tinha estancado no meio da cozinha, e apenas Andie pegou a troca de olhares entre a sobrinha e o marido. Ela pousou uma mão no ombro da garota e lhe empurrou suavemente para que continuasse andando.
– Vá se lavar e desça para o café, querida. Você não comeu nada no hospital, deve estar morta de fome.
Ela obedeceu, quebrando o contato visual apesar da sensação contorcida de inadequação em seu estômago. Nimphadora continuou a tagarelar por toda a subida; ela era toda sol, escamas, cores, animação, e nem um pouco enterros e ameaças. Só se lembrou de perguntar qualquer coisa fora da sua bolha de ‘férias-com-feras’ quando já estavam na porta do quarto.
– Minha mãe disse hospital? Você esteve machucada?
– Não, fui visitar Anne. Minha irmã… – não sentiu necessidade de lhe falar sobre Fritz e o enterro. Na verdade, não achou que conseguiria mesmo se quisesse.
– Ah, sim, a bonitinha! Mamãe me atualizou da coisa toda por carta, eu sinto muito, ela está melhor?
– Ela vai ficar bem. – encurtou. – E você, é sério que voltou mais cedo por causa de Black? Você só passou no exame de admissão dos aurores, não quer dizer que pode sair por ai caçando fugitivos, se lembra?
Tonks lhe deu uma boa olhada antes de retrucar.
– Não foi bem por isso. A última carta de mamãe perguntava se por acaso você não tinha me encontrado na Romênia, porque você estava sumida e ela não sabia mais onde procurar! E então eu entrei um pouco em pânico porque, veja bem, – ela deu uma olhada para o corredor, antes de fechar a porta do quarto. – Eu não estava mais na Romênia.
– Como assim, onde é que você estava?
– Egito! – disse, um sorriso luminoso. – Você sabia que os Weasley ganharam na loteria? Todos eles decidiram ir visitar o Gui, inclusive o Charlie, então como eu estava lá ele me chamou pra ir junto! Ah, quando eu contei isso à mamãe…
– Ela quis arrancar seu couro? – perguntou, lembrando-se da expressão de Anne.
– Meu couro? Ela quis arrancar minha cabeça, mandar encolher e usar como um adorno! Eu juro à você, foram quatro horas de sermão via flú, tem ideia de quanto custa uma ligação de flú pro Egito?? E saiu tudo da minha mesada! Depois disso eu tive que voltar, quase que preciso vir andando de tão pobre que fiquei!
Bervely descobriu que sentira falta do drama simples que era a vida de Tonks. Às vezes tinha impressão que a prima vivia numa dimensão completamente diferente da sua, onde seu maior problema era ter que voltar do Egito mais cedo.
– Então, vai me dizer onde você esteve essa semana? Não, espere, me deixe adivinhar: envolve o capitão maravilha e um balde de chocolate derretido? Eu apenas tenho essa imagem em minha mente no momento e eu totalmente entendo porque você não contaria à mamãe.
Bervely torceu um pouco a boca, evitando o sorriso consternado, e balançou a cabeça.
– Não, eu não estava com o capitão ou com um balde de chocolate.
Dora franziu ligeiramente, procurando seu próximo palpite nos confins coloridos da prória imaginação, e logo sua expressão se abriu em amplo e teatral choque.
– Ah meu Merlin, você estava com outro?
Bervely estreitou os olhos, e aparentemente aquilo foi tudo que a prima precisou para deduzir um ‘sim’.
– BERVELY, SUA DANADINHA!
– Não é do jeito que você está pensando! – se adiantou a corrigir, antes que a prima começasse a caramelizar sua imaginação com ela e algum estranho sensual. – Olha, vamos mudar de assunto? Que tal foi o Egito?
O sorriso gigante voltou, dessa vez acompanhado da mudança da cor de suas pontas, que foram ficando escarlates.
– Quente. Cheio de Weasleys. Quente. Ah, Gui mandou lembranças!
– Foi mesmo? – piscou, como se mal soubesse de quem se tratava, mas Tonks não caiu.
– Anhaaam. Ele e a Tara não estão mais juntos, sabia disso? Livre, leve e solto na terra das pirâmides, ele está. O ouvi reclamando de falta de companhia mais de uma vez com Charlie, porque você não pega um flú internacional rapidinho e faz uma visita?
– Eu posso imaginar uma dúzia de motivos, mas para o bem dessa conversa vamos apenas lembrar que essa coisa que existe entre mim e Gui Weasley está na sua cabeça e apenas nela, nunca teve correspondência no mundo real.
– Negue o quanto quiser, Bervely Rose, Rose Bervely, você não está enganado ninguém. – cantarolou Tonks, se inclinando para apertar uma bochecha da outra.
Ela rolou os olhos, querendo que a prima parasse com o delírio. Além do mais, em que espaço de sua cabeça ia encaixar consideração por alguém que tinha aceitado o suborno do Olho de Hórus? No fundo sabia que ele não tivera opção – sua família não podia se dar ao luxo de perder 700 galões, mas essa consciência não a impedia de estar chateada com ele, por Tara.
– Olá, terra para Bervely? – os dedos magrelos de unhas listradas estalaram na frente dos seus olhos – Eu disse que te trouxe um presente! Aqui, dá só uma olhada que irado.
Bervely aceitou a embalagem em papel pardo pesada, e tirou de lá de dentro um ovo enorme e todo enrugado, cor da pele, asqueroso e quente.
– O que diabos é isso? – achou melhor perguntar, já que não gostava das suas suspeitas mais óbvias.
– Um ovo de dragão, é claro. Não precisa me olhar desse jeito, ele está vazio! O bichinho já nasceu, mas eles reaproveitam os ovos lá na reserva. Sabia que depois que ele é chocado demora uns cinco anos para esfriar? É legal, porque você pode usá-lo para se esquentar debaixo das cobertas quando for inverno, não dissipa que nem os feitiços de aquecimento. Ah, sem falar que é a sua cara!
– Como assim a minha cara? – questionou, ofendida.
– Vê essas ruguinhas na casca? É exatamente como a sua testa fica quando… isso, quando você faz essa cara que está fazendo pra mim agora.
– BD –
– Sente-se, Bervely. Fiz chá para nós duas.
Bervely sabia que não era um convite opcional. Andrômeda lhe dera o dia inteiro de tranquilidade no chalé para se atualizar com Nimphadora e depois descansar (o que tinha resultado em sete horas de sono pesado, que inclusive lhe fizeram perder o almoço), mas já era noite em St. Catchpole, a família fora se deitar mais cedo e até onde ela sabia, eram as únicas ainda de pé.
Andie, porque não conseguia dormir cedo, em razão das rotinas do plantão, e Bervely porque dormira além da conta e agora não podia parar de se preocupar com o que Black estaria fazendo, que não dera noticias.
Tentando não transparecer sua inquietação, puxou uma cadeira e sentou na mesa da cozinha. Noite fresca, janelas abertas, o vento trazia o cheio do jasmim que brotava por toda a borda do rio Ottery. As superfícies brilhantes da cozinha informavam que a sessão de feitiços de limpeza fora realizada com sucesso e a política sujou-limpou estava vigorando.
Ela se serviu do chá com cuidado para não derramar e depois, pensando melhor, pegou o açúcar. Andrômeda observou-a adoçar o chá sem tecer comentários, mas Bervely sabia que ela notara.
– Então… você não vai trabalhar hoje? – mexeu o líquido com um toque de sua varinha, ignorando a colherinha.
– Não. Na verdade, eu tirei alguns dias para ficar em casa. – ela lhe fitava com atenção – Estou com a sensação de que sou mais necessária aqui do que no hospital, ultimamente. Sinto que algumas coisas estão fugindo do controle.
– Hum. – foi tudo o que disse, bebendo o chá. Estava muito quente, mas era melhor que o silêncio carregado.
– Tem algo que queira me dizer, Bervely? – perguntou a bruxa suavemente. Era incrível como conseguia pronunciar aquelas palavras desprovida de um tom de acusação. Será que as mães tomavam esse curso de sutileza em algum lugar? As mães realmente boas, no caso… não as Bellatrixes, não as Narcissas.
– Não me vem nada à mente no momento. – respondeu, apesar de tudo.
– Humhum. – assentiu Andrômeda, bebericando de seu próprio chá enquanto olhava pensativa para a sobrinha. Qualquer um que a visse percebia que estava se preparando para uma conversa difícil. – Você deve saber que Ted me contou sobre o dia que você saiu de casa, na semana passada.
– É, eu achei que ele o faria.
– Eu quero que saiba que não faço minhas as palavras dele. Eu nunca poderia pensar que você cometeria erros como os de Bellatrix, eu lhe conheço o suficiente para saber que isso é impossível. E mesmo que você cometa erros, não existe um que a impediria de voltar para casa. Você sempre pode voltar para casa, entende isso?
– Você está falando por si mesma. Ted claramente não me quer aqui.
– Ted não gosta de me ver magoada ou sofrendo, e ele sabe que é o que vai acontecer se você, por algum motivo, começar a achar que não pode nos considerar a sua família. Quando sua mãe foi embora, foi ele quem presenciou a minha decepção com ela, e isso foi tão duro pra ele quanto pra mim. Vou lhe contar um segredo sobre o coração do seu tio… é do tamanho de um mundo e feito uma esponja. Ele não pode evitar gostar de você, como não conseguiu evitar se afeiçoar à sua mãe enquanto ela esteve aqui.
A informação lhe veio como uma grande surpresa.
– Ted gostava de Bellatrix?
– Estava começado a gostar, quando pareceu que ela estava nos aceitando como sua família. É claro que, no caso dela, éramos nós que estávamos enganados. – completou com tristeza. Bevy reparou que quando Andromeda falava de Bella, nunca havia raiva envolvida, mesmo depois de tudo que a mulher fizera.
– Como vocês podem saber que não estão enganados de novo agora? Comigo?
Andie negou, lhe olhando com intensidade.
– Eu vejo você, Bervely. Eu vejo coisas em você que jamais estiveram presentes em sua mãe. Seu altruísmo, a sua lealdade. O jeito com que protegeu a sua irmã aquele dia no hospital, tão feroz, determinada. Eu vejo que você faz a minha filha feliz e é uma boa amiga para ela. Você se importa com as pessoas ao seu redor, por mais que goste de demonstrar ou até se convencer do contrário. Eu sei que já te disse isso antes, e repetirei sempre que quiser, minha querida… você não é como ela. Nunca. A Bellatrix que lhe deixou para trás não tinha metade da capacidade de amar que você tem, acredite quando lhe digo isso.
Bervely mordeu seu lábio e puxou mais chá para perto, porque era mais fácil do que encarar o olhar intenso e abertamente sincero da outra mulher. Gostaria tanto de acreditar nela, mas sabia que Andrômeda só via uma parte de si – a parte que ela queria ver.
Não conhecia a Bervely capaz de enganar, dissimular e quebrar leis para libertar pessoas de prisões de segurança máxima. Não conhecia a Bervely que empurrara Charlotte da escada, não vira seu rosto enquanto ela caia, não vira a expressão de Theodor quando descobrira a verdade por trás do seu disfarce…
Ela não ouvira Gavril Romansek lhe falar com tanta segurança que Voldemort vira um potencial para as artes das trevas nela, e que isso ainda estava ali dentro em algum lugar, talvez esperando o momento certo de vir à tona. Eram coisas que só olhos treinados, e muito menos bondosos que os de Andrômeda, poderiam perceber.
– Bevy, eu preciso saber… ele procurou você?
Ela interrompeu seu movimento de servir chá, os músculos ficando tensos. Havia algo sobre Andrômeda, sobre seu tom, e de repente não era bem que ela não podia mentir, ela apenas não queria.
– Não. – disse para o tampo da mesa. – Fui eu quem fui atrás dele.
– Você f-… Jesus Cristo, Bervely!
A mais nova se encolheu com a expressão trouxa, depois puxou o açúcar como se não tivesse dito nada demais. Ouviu a tia respirar fundo e se recompor.
– E então? O que ele fez, o que ele disse? Ele fez alguma coisa com você? Ah, Bervely, meu deus do céu, você não tem juízo? Você podia ter sido… qualquer coisa! – exclamou, substituindo o ‘morta’ que complementaria a sua frase, o que Bevy quase achou engraçado, se não fosse um pouco dramático demais.
– Está tudo bem, Andrômeda. Black não está maluco nem homicida. Nós discutimos algumas coisas e eu lhe fiz companhia, e isso foi tudo. Desculpe não ter avisado antes, mas qualquer carta interceptada pelo Ministério podia custar a minha alma.
– Bervely! – ela chamou, como se repetir seu nome várias vezes pudesse trazê-la à um bom senso tardio. – Eu sei que ele é seu pai, mas há coisas que… honestamente. Eu nem mesmo sei o que dizer nesse momento! Só estou grata que ele não fez nada com você! Você sequer… você sabe tudo o que ele fez antes de ser preso?
– Sim, eu me lembro de tudo que ele foi acusado. Mas você sabe das coisas que ele não fez? – rebateu, erguendo o rosto. Andromeda pestanejou, claramente sem entender do que ela falava. – Pois é, muita gente não se questiona isso. Black nunca teve um julgamento, ele foi trancafiado como… como um cão selvagem ou coisa pior. Por doze anos, ninguém se preocupou em perguntar se as acusações eram mesmo verdadeiras.
Um vislumbre de desconfiança perpassou o castanho dos olhos da mais velha.
– Ele lhe disse que era inocente das acusações?
– Não. – falou, e era a pura verdade. – Mas eu sei, porque eu vi. Não tenho como te explicar como, então vai ter que acreditar na minha palavra.
Não pretendia dizer a Andrômeda que entrara nos sonhos de Black e vira as suas piores e mais particulares memórias sobre o dia da morte dos Potter; ainda se envergonhava de tê-las arrancado dele sem permissão e tinha certeza que Sirius não gostaria que fossem espalhadas por ai.
– Querida, isso é muito… você tem alguma prova? Eu não acho que o Departamento de Execução da Magia esteja disposto a acreditar em palavras…
– Mas não é com eles que eu estou falando, certo? Então, por acaso você acredita em minha palavra, Andrômeda?
A bruxa lhe fitou longamente, os olhos estreitos, tornando impossível saber o que passava por sua cabeça. Esticou as mãos e pegou as dela, fechando os dedos em torno dos punhos fechados de Bervely.
– Querida, eu acredito que você quer acreditar nisso e até consigo entender o porquê. Mas tenha cuidado, por favor. Não se coloque em perigo, não coloque a sua família em perigo por uma suspeita sem provas. Black já provou que não mede esforços para conseguir o que quer, veja todas as pessoas que ele enganou no passado…
Ela recolheu suas mãos, as cruzando no colo. Queria dizer que Black também era família. Queria pedir que só daquela vez Andrômeda confiasse nela, e pensou o quão maravilhoso seria se ele pudesse fazer parte da família, ter um teto, desfrutar de alguma normalidade corriqueira como a que existia ali no chalé. Mas não se atreveu; além do mais, Sirius jamais aceitaria a sugestão.
– Eu não vou colocar vocês em perigo. – o que, a bem verdade, estava além do seu alcance. Mas ela sabia que ia tentar.
Andrômeda também não pareceu segura sobre a sua promessa, mas até ela sabia reconhecer o fim de uma batalha. Esperou Bervely terminar a segunda xícara do seu chá antes de voltar a falar, num tom mais leve.
– Sabe, eu andei conversando com a sua irmã.
– O que me lembra – a garota parou de rodar a xícara vazia, fazendo cara feia. – Que ideia foi essa de colocar ela na ala de Danos Permanentes? Ela não tem nenhum dano permanente!
– Não comece a brigar antes de me ouvir – pediu, torcendo a boca diante do tom da sobrinha – Não tem nada a ver com a condição dela, não a física, pelo menos. A Ala de Danos foi a único lugar para o qual pude transferi-la e impedir a alta, o que a levaria de volta à avó. Eu quis segurar Johanne no hospital enquanto o processo do pedido de guarda ao qual Remus deu entrada no Ministério estivesse sendo julgado. Mas o resultado saiu hoje, recebi o memorando dele logo depois do almoço.
– E então? – perguntou, ligeiramente ansiosa.
– Eles negaram.
– Por quê? Não me diga que eles acham que a louca da avó é melhor para cuidar dela, nem aqueles tapados do Ministério podem ser tão obtusos!
– Não tem nada a ver com a Sra. Loren em si. Na verdade, eles concordam que por enquanto Anne não deve retornar para St. Sensille, até que as circunstancias do acidente sejam esclarecidas. Mas Remus tem alguns impedimentos… fora o fato de que ele aceitou um emprego em tempo integral a partir de setembro, e não vai poder assumir os cuidados dela, até porque ainda não sabemos como vai ficar a situação escolar de Anne.
– Isso é ridículo! Por que ele não pode arranjar outro emprego? Será que esse é o único no mundo? A afilhada dele não é mais importante?
– É complicado, Bervely. – ela suspirou – Não posso explicar direito, mas na verdade, essa é a primeira proposta de emprego que Remus recebe em muitos anos. Eu concordo com ele que não tem como deixá-la passar.
– E então o quê? Anne vai ficar enfurnada no hospital o tempo inteiro, até descobrirem o que raios aconteceu na floresta? E se eles nunca descobrirem? Talvez seja melhor arranjar uma daquelas bolhas pra ela então, pra ver se ela para de entrar na daquele menino Arty! Ela está muito saudável para ficar naquele hospital, se quer saber da minha opinião!
– Calma, você não me deixa terminar. – Andrômeda estava tendo que segurar o riso. – Há uma segunda opção Ainda não a coloquei em pratica por que precisava da sua opinião, e você não estava exatamente disponível nos últimos dias.
Bervely esperou, recusando-se a se sentir culpada por isso.
– Conversei pessoalmente com os juízes do processo e eles concordaram em me ceder a guarda de Johanne por um período curto, até o fim das férias escolares. Assim ela pode se livrar do ambiente do hospital e ao mesmo tempo ter cuidados médicos, caso necessite. O resto da família concorda, mas preciso saber o que você acha, afinal isso lhe implica diretamente.
– Se eu disser sim, ela vem pra cá passar o final das férias?
– Isso. Até lá haverá alguma decisão do conselho, eu acredito. O que acha?
Bervely sorriu. No processo, percebeu que era a primeira vez que o fazia há algum tempo.
– Eu acho que é a melhor ideia que você poderia ter, e eu acho que ela vai ficar maluca em saber que pelo menos um dos pedidos que ela me fez nós últimos tempos será realizado.
– BD –
Quando pouco mais tarde Bervely voltou para a cama, não ficou surpresa em se encontrar rolando de um lado a outro. Restara um único pensamento em sua mente, como uma peça sem encaixe: Sirius. Supunha que se alguma coisa tivesse dado errado com ele durante o dia ficaria sabendo no Profeta Diário na manhã seguinte, mas a ideia de esperar por notícias era agonizante.
Estava quase vesga de encarar as vigas do teto quando o quarto se tingiu de prateado. Por um momento pensou que aquele era o sonho mais estranho e consciente de todos, até virar a cabeça para o lado e ver o cão semi-transparente sentado perto da sua cama.
– Filho de uma cadela, quer me matar de susto?
O cachorro deixou sua língua pender, como se risse dela. Bervely rolou os olhos.
– E então, você o achou? Ele está bem? Mas que merda eu estou falando, você é um patrono, não pode me responder!
Para a sua surpresa, ele podia. Abriu a boca, mas quando palavras saíram dela, tinha a voz rouca de Sirius Black.
Eu estou bem.
Não tente me achar, apareço quando puder.
Fique segura.
– BD –
Johanne chegou ao chalé dois dias depois, pela rede de Flú. Como sua avó se recusou a enviar as suas coisas, para deixar bem claro o seu descontentamento com a decisão dos juízes, Bervely foi encarregada de ir até o Beco Diagonal com ela comprar o básico. Tonks – que já proclamara antes mesmo de Anne chegar que a estava admitindo para a vaga de irmã caçula – se convidou para ir junto. O resultado foi que o que seria uma ida rápida ao Beco se tornou uma festa espalhafatosa de visitas de loja em loja, checando os lançamentos do verão para todos os ítens, desde calçados mágicos até animais exóticos em liquidação.
Houve um pequeno desentendimento quando Bervely se recusou a deixá-las levarem para casa um terrível gato laranja com rabo de escovinha que poderia ou não estar possuído por um demônio das sombras.
Elas precisavam, também, ficar descrevendo o que viam e o que estava acontecendo para Anne o tempo todo, e segurar em sua mão para que não se distanciasse. Desacostumada a estar no meio de pessoas e na rua sem ver, ela tropeçava muitas vezes e pedia muitas desculpas; apesar da disposição incansável de Tonks para tagarelar sobre os arredores, Bervely percebeu que a menina ficava mais e mais calada à medida que o dia avançava.
– Eu preciso ir ao Boticário. – anunciou, quando passaram perto da vitrine empoeirada e cheia de frascos. Como previu, Tonks fez uma careta e resmungou seu desgosto.
– Não naquele lugar fedido, pelo amor de Cassandra.
– Você não precisa ir se não quiser.
– Ótimo! Vem comigo, Anne, vamos em Artigos para Quadribol! Está para sair uma vassoura nova, quero ver se já chegou.
A empolgação surgiu no rosto de Anne, mas foi embora rapidamente. Seus ombros murcharam.
– Não, tudo bem. Não é como se eu fosse ver nada lá mesmo.
Bevy e Tonks trocaram um olhar, e a primeira pegou a garotinha pela mão.
– Você vem comigo, então. Posso usar da sua ajuda no Boticário.
Esperou até estarem nos fundos da loja; Johanne tinha entrado com tensão e evitava se mover demais, para não se bater em nenhuma prateleira e derrubar algumas dezenas de frascos. Bervely pegou cinco garrafas semelhantes de Pulo de Calíope, uma erva rara, e os abriu todos sobre uma bancadinha perto da parede.
– Aqui. – puxou Anne, colocando sua mão pequena no primeiro frasco. – São cinco desses, pode cheirar cada um e descobrir de qual mais gosta?
Ela franziu as sobrancelhas, mas obedeceu, se inclinando para cheirá-los um por um. No quarto abriu um sorriso, cheirou o quinto e voltou para o quarto, estendendo-o na direção que Bervely estava.
– Esse aqui cheira como grama de primavera. Hum, é muito bom, de verdade.
– Vamos ficar com ele, então. – decidiu, guardando os outros de volta na prateleira.
– Não pense que eu não sei o que está fazendo. – ela acusou enquanto iam para o caixa.
– E o que seria isso?
– Tentando fazer com que eu me sinta útil, quando na verdade nós duas sabemos que você também tem um nariz perfeitamente bom e poderia ter escolhido sozinha.
– Ai que você se engana, espertinha – disse, entregando o pagamento para o balconista cujos dentes de baixo eram espantosamente verdes. – Só crianças podem diferenciar o cheio dessas ervas, para mim seria tudo a mesma coisa.
– Só que você ainda não é adulta. – ela retrucou, não inteiramente satisfeita. Bervely voltou a pegar a mão dela e guiá-la para fora da loja. – Falar nisso, só falta uns dias pro seu aniversário, né? Vamos ter uma festa?
Johanne e suas mudanças repentinas de assunto.
– Não, não acho que vamos.
– Ah, vamos sim, por favor! Por favor, Bevy, você só faz dezessete uma vez, é uma data importante, além do mais eu nunca fui a uma festa de aniversário sua! Por favooor!
Tonks as encontrou na esquina, bem a tempo de entreouvir a conversa.
– O que estamos protestando?
– Uma festa de aniversário para Bervely!
Era quase perigoso demais colocar as empolgações de Tonks e Anne para interagir.
– Eu acho que é uma ótima ideia!
Elas começaram a discutir os pormenores de uma festa que rapidamente se tornava megalomaníaca, mas Bervely as deixou divagar, principalmente porque ouvir a tagarelice da irmã era um sinal de que as coisas estavam indo bem.
– BD –
A segunda semana de agosto avançou lenta, sem grandes incidentes. Todo dia pela manhã ela pegava o jornal e o checava do topo da primeira página ao rodapé da última. Só quando constatava que não havia nenhuma nota sobre Sirius é que podia soltar o ar, aliviada.
Não que não o citassem; na verdade, faziam um bocado. O seu cartaz de procura-se era anexado à todas edições, e o DELM prometia à torto e a direito que tinham pistas, estavam seguindo-nas e “em breve” Black seria capturado. A parte engraçada era reparar em quantas variações dessa mesma afirmação eles conseguiam formular para não se repetirem letra por letra na edição seguinte.
Andrômeda vinha cumprindo a sua promessa de ficar em casa tanto quanto podia; volta e meia lhe chamavam pela lareira e ela tinha que por o jaleco e atender uma emergência, mas nunca se demorava mais do que poucas horas. Era bom, e ao mesmo tempo, estranho que estivesse em casa. Pela primeira vez, Bervely viu a tia usando pijamas, tirando um cochilo depois do almoço ou podando o jardim.
– Faça uma lista de convidados! – Tonks lhe ordenou na terça feira, no café da manhã.
Bervely se recusou a ter uma lista. Era difícil explicar para a sua prima e irmã entusiasmadas por que já tivera agitação e socialização suficientes para uma vida naquelas férias, e preferia passar o próprio aniversário encarando uma parede a ter que receber pessoas.
– Ótimo, então, vamos convidar quem quisermos! – Nimphadora se rebelou, seu cabelo se tornando magenta. – Vou chamar Filch, Pirraça e aquela velhinha da vila de Ottery que cheira à feijão rançoso!
– E eu vou chamar Celestina Warbeck, professor Flitwick e um hipogrifo!
– Podemos chamas Enid e Lorcan. – Andie sugeriu, virando-se para explicar à sobrinha – São os pais de Ted, acho que eles gostariam de conhecer você. O que acha, amor?
O bruxo afastou a cadeira bruscamente da mesa.
– Eu acho que preciso trabalhar. Alguém devia pensar em mais do que festa nessa casa.
Saiu da cozinha, deixando para trás o silencio pesado. Bervely ergueu uma sobrancelha para a tia.
– Ele ainda está zangado comigo.
– Um pouco. Por que não conversa com ele? Um pedido de desculpas pode fazer milagres.
– Só que eu não acho que ele esteja disposto a admitir que eu mereço desculpas. – retrucou, mau humorada.
– BD –
À dois dias da sua maioridade, se achava debruçada no material teórico de aparatação ao qual negligenciara desde o fim do curso em Hogwarts, e descobriu que precisava decorar um conjunto de 98 leis que poderiam ser inquirida por seu examinador.
“É terminantemente proibido aparatar em locais que estejam ou possam estar inundados, tais quais rios, lagos, lagoas, oceanos, cachoeiras, nascentes, braços d’água e fontes artificiais…”, leu, pela quarta vez. Como se aparatar em qualquer lugar de terra firme já não fosse perigoso o bastante, pelo amor de Cacilda. Quem tentava aquilo?
“A aparatação conjunta só é permitida com o consenso de ambas as partes, aparador e aparatado. Aparatações conjuntas que se provarem não consensuais serão enquadradas na lei 187, artigo sexto do Código de Transito Mágico, com a pena de seis meses à dois anos de…”
Um barulho de várias coisas desabando interrompeu a concentração de Bervely, que ergueu a cabeça do livro, atenta. Podia ser Tonks se embolando no corredor, mas então ela se lembrou que Anne estava tomando banho.
Ouvindo mais coisas desabarem e um pequeno lamento vindo pelo alçapão aberto do sótão, Bervely saltou da cama e desceu para o segundo andar. Bateu na porta do banheiro com os nós dos dedos.
– Johanne, tudo bem ai dentro?
Nenhuma resposta, só o barulho de água corrente. Mais preocupada, tentou a maçaneta, mas ela não cedeu.
– Johanne? Se você não responder eu vou precisar entrar.
Um pequeno e infeliz murmúrio veio de lá de dentro, nem um pouco tranquilizador. Ela teve certeza que ouviu uma fungada.
– Ok, estou entrando… – anunciou, conjurando a varinha e abrindo a porta. Vapor quente lhe envolveu por todos os lados e ela tentou ver alguma coisa através dele, mas tudo que havia era a cortina fechada em frente à banheira.
– Está tudo bem. – Anne disse por detrás da cortina, sua voz abafada. – Só derrubei umas coisas sem querer.
Ela insistia em fazer tudo sozinha desde que chegara no chalé, deixando tão claro quanto possível que haviam muitas camadas de orgulho por detrás da sua fachada dócil. As manchas roxas em suas canelas e braços estavam se multiplicando a cada dia, rivalizando em pequenos acidentes domésticos com a antiga detentora do título de Estabanação Suprema, Nimphadora Tonks.
Mas Anne nunca se queixava das topadas, dos respingos quentes nas mãos, da necessidade constante de trocar de roupa porque sempre acabava se encostando onde não devia e conseguindo se sujar. Bervely não contrariava – achava que em seu lugar, também não ia querer ser assistida para cada pequena coisa – mas titubeou naquele momento, encarando a cortina.
– Você quer…
– Eu estou bem. – insistiu a menina, quase num rosnado.
– Se você diz, então vê se anda logo com isso antes que pegue uma gripe.
Ia saindo do banheiro quando a menina a chamou de volta. Bervely estancou sob o portal.
– O que foi?
– Eu não consigo… descobrir qual deles é o xampu. – confessou, baixinho.
Fechando a porta novamente, Bervely se adiantou até a banheira, puxando a cortina. Anne se encolheu dentro d’água, rodeada pelo monte de produtos que tinham desabado da prateleira logo acima da sua cabeça, a maioria deles sendo a série sais de banho exagerados que Tonks colecionava. Ela se inclinou, capturando-os sobre a água e colocando-os de volta no lugar, enquanto de relance olhava para Anne, que apertava os olhos com força, uma vez tirada a costumeira venda. Seu nariz e bochechas estavam rosados, como se andasse chorando.
– Chega pra lá um pouco. – pediu, dando um toque no ombro dela para que liberasse a borda da banheira.
– O que vai fazer? – a menina perguntou, desconfiada.
– Te ajudar.
Destampou o xampu, que prometia a melhor formula mágica desembaraçadora (“livre dos nós por uma semana ou seu nuque de volta!”), e o espremeu sobre o topo da cabeça dela.
– Se você não se virar de costas, não vou conseguir espalhar direito.
Anne obedeceu, depois de um momento de deliberação resistente. Bervely sentou na borda da banheira, molhando a sua calça de moletom, nada que um feitiço de secagem não fosse resolver. Lentamente, ela começou a espalhar a espuma nos fios sedosos e negros da irmã caçula.
– Eu podia fazer isso sozinha. – Anne disse baixo. Bervely rolou os olhos.
– Eu sei, você é muito independente. Enxagua.
Ela mergulhou, passando a espuma do seu cabelo para a água. Imediatamente os encantamentos começaram a substituir a água suja por uma limpa, e Bervely pegou o outro creme na prateleira e colocou em sua mão, se perguntando quanto deveria usar para um cabelo tão longo.
– Você não precisa fazer isso. – disse Anne, ainda incomodada. – Não tem que… cuidar de mim.
– Eu sei. – espalhou o conteúdo de suas mãos nos fios molhados, que iam até o meio das costas de Anne. – Mas pareceu que você estava precisando.
Ela não disse nada enquanto Bervely massageava seu couro cabeludo, nem quando pegou o pente encantado anti-quebra sobre a pia e começou a passa-los sobre os fios, admirando sua tonalidade profunda de negro e brilho encharcado com quase distração.
– Mas eu sei que você não gosta. – ela murmurou.
Bervely tinha acabado de pentear, e inclinou um pouco a cabeça para admirar seu trabalho.
– Parece que eu posso abrir uma excessão, pirralha. Enxágua.
– BD –
– Alguém me explica por que de repente Bervely é a mais ávida leitora de jornais dessa casa? O que tem aí de interessante? Por acaso eles anunciaram a festa mais irada do século na primeira página? Eles deviam! – Tonks tentou puxar o Profeta Diário de sua mão, querendo atenção, mas Bervely se desviou dela bem a tempo.
– Alguém transformou a tia em balão, em Surrey. – comentou, mergulhando um waffle de canela no mel e mordendo. – Alguma emissão mágica louca, provavelmente.
– Nossa, bem que eu queria transformar tia Magda em balão. – a prima comentou sonhadoramente. Ela tinha pulado o café da manhã, ao invés disso estava debruçada em uma caixa de decoração de festa que achara no porão.
– Eu queria transformar minha avó em balão, às vezes. – Anne concordou, sonolenta. – Mas acho que isso só ia torná-la ainda mais chata.
Bervely se distraiu com a matéria complementar à manchete da capa: AVISTADO EM NORTHWAY. Black fora identificado por um grupo de adolescentes trouxas num supermercado. A matéria informava que os aurores investigavam a denuncia e estavam seguindo a pista, otimistas de que dessa vez o fugitivo seria capturado.
– Bom dia, querida. E feliz aniversário! – Andrômeda entrou na cozinha naquele momento, e beijou o topo da sua cabeça. Ela usava um penhoar vaporoso rosa chá e acordara mais tarde do que o seu normal. A mudança em sem aspecto desde que tirara aqueles dias de descanso eram evidentes – desde o sumiço completo das olheiras até um saudável ganho de peso. – Como se sente agora, que é uma adulta responsável por suas próprias escolhas e pronta para enfrentar as consequências dos seus erros?
– Nossa, mãe, que jeito de estragar o momento. – Tonks fez uma careta. – Você lembra qual o feitiço que reativa esses festões luminosos? Pensei em colocar lá na sala para dar um visual legal hoje à noite.
– Só não toque fogo na casa, querida. – pediu, em resignação bem humorada. – Você lembra como deu trabalho para apagar da última vez.
– Dora incendiou a casa? – Anne logo se interessou, erguendo a cabeça. Hoje ela usava um lenço vermelho listrado sobre os olhos, só Merlin sabia onde o conseguira.
Bervely voltou os olhos para baixo, indiferente; já tinha ouvido sobre o Grande Incêndio no Chalé pelo menos duas vezes. O paradeiro de Black, por outro lado, lhe era completamente desconhecido há quase duas semanas, e suas tentativas de contato com patrono tinham se mostrado infrutíferas.
– OUCH!
Um grande clarão explodiu no centro da mesa, engolindo seu jornal e o transformando em pó, bem como à pilha de biscoitos e ao arranjo de flores. Anne e Andrômeda gritaram, a segunda proferiu um feitiço de extinção de chamas muito ágil, e tudo o que restou foi Nimphadora piscando atordoada, as sobrancelhas fustigadas e a franja ainda queimando. Ela soltou o que restara dos festões incendiados, fazendo cara de desastre.
– Ops…
– BD –
No fim da tarde, Bervely foi mandada para o seu quarto com a incumbência de ‘ficar pronta’ para a sua ‘festa’. Com muito custo, convencera as meninas a não chamar ninguém além da família, com a excessão de Remus Lupin, que já ia passar para ver Anne de um jeito ou de outro.
Bervely colocou seu vestido preto, sapatilhas e prendeu o cabelo no alto sem muito cuidado. Não sabia o que sentir sobre estar se tornando maior de idade, exatamente. O último ano de escola, o a vida depois disso… um dia, há alguns anos, a Bervely do passado almejara a chegada desse momento, com a certeza de que seria grandiosa, e de que tudo daria certo para ela apenas por ser quem era. O que poderia uma sangue puro bem nascida esperar, senão um futuro brilhante?
Agora, ela preferia não pensar a respeito do que vinha pela frente. Um dia de cada vez, de preferencia sem dementadores, sem mortes, sem pesadelos. Não era muito ambicioso, mas estava de bom tamanho para as atuais circunstâncias.
Johanne entrou no quarto, escalando alçapão com habilidade. Seu lenço da noite era azul miosótis, combinando com a blusa de mangas.
– Já está pronta? Acho que o pessoal está chegando.
– Pessoal?
– Remus, quero dizer. – ela se corrigiu rapidamente.
– Por que tem farinha na sua testa?
– Ops. – Anne tentou limpar, rindo. – Eu ajudei no seu bolo. Ficou lindo, tem dois recheios, um verde e o outro prata. Pelo menos foi o que a Tonks disse.
Bervely passou o polegar no lugar sujo que ela não tinha acertado.
– Já estou descendo. Quanto mais rápido começar, mais rápido termina, certo?
Demorou só um pouco no quarto, se olhando mais uma vez no espelho. A Bervely de dezessete anos lhe olhou de volta, as sobrancelhas ligeiramente arqueadas, à procura de mudanças.
Um brilho prateado ofuscou sua imagem, invadindo o sótão e latindo ruidosamente. Enviara-o até Sirius há alguns dias e já acreditava que tinha se dissipado sem encontro-lo. O feitiço estava inquieto, girando em torno de si mesmo, latindo e girando, e ela acabou entendendo o que ele queria.
– Tem certeza disso? Agora?
O cão prateado ladrou enérgico, como quem diz “você está perdendo tempo!”. Apressando-se, Bervely pegou a varinha e abriu a janela, escapulindo de casa sem pensar duas vezes na festa que a aguardava no andar de baixo.
– BD –
A primeira coisa que notou ao desaparatar foi que o ar era tóxico.
Depois, gritos. Exigentes e masculinos, vinham do casarão de madeira cinzenta diante do qual se materializara. Com uma névoa se enrolando entre os tornozelos, Bervely se aproximou do vidro da janela e espiou do lado de dentro.
Havia Sirius Black. Havia Amélia Loren. Móveis revirados e coisas quebradas pelo chão. A bruxa segurava a varinha com uma mão tremula, apontando pra ele, mas parecia paralisada demais pra azará-lo.
– ONDE ELA ESTÁ? – ele exigia, sua voz trovejando pelo cômodo, que era uma amplo salão de jantar antiquado, com mesas e cadeiras de pernas finas. – PRA ONDE FOI QUE VOCÊ MANDOU A MENINA?
– Eu não lhe diria se a minha vida dependesse disso, seu maldito! – disse a velha, rancorosa.
– VOCÊ DIZ OU EU MATO VOCÊ!
– Os dementadores estão chegando para carregar sua alma, monstro!
– DEIXA QUE ELES VENHAM!
Sirius andava de um lado à outro do salão como um animal enjaulado. Seu cabelo voltara a embaraçar, sua barba crescera. Olhou para a velha de novo, acusador.
– Como pode deixa-la morrer? – exigiu, acusatório.
– Ela morreu por sua culpa.
– Isso NÃO é verdade!
Ele virou mais uma mesa; Amelia se encolheu, quase sendo atingida por uma cadeira que se estraçalhou atrás dela, na parede. Ele estava furioso, prisioneiro de Azkaban em toda a sua intensidade, arrepiava Bervely até a medula.
– Você a matou, Sirius Black, você a matou, a ela e aos Potter, e todos aqueles trouxas, você é um monstro, nunca vai encostar em minha neta! Volte do buraco que saiu, seu miserável…. eles vão arrancar sua alma fora, como deviam ter feito desde o princípio!
Bervely agiu em modo automático quando puxou a varinha, meteu entre uma fresta da janela e estuporou a mulher. Sirius piscou surpreendido ao vê-la cair da cadeira como uma fruta podre, mas quando olhou ao redor, Bervely se afastou da janela fora de suas vistas.
Poucos minutos depois ele saia pela porta da frente, furtivo.
– A velha não morreu de medo, mas ela bem que merecia. – comentou, sobressaltando-o. Ele a acuou contra uma pilastra antes que ela pudesse puxar o ar gasto com as palavras: uma mão torcendo o pulso da sua varinha, a outra em sua garganta. No minuto que a reconheceu, a soltou com cara feia.
– Mas que porra você está fazendo aqui, garota?
– Salvando sua pele pulguenta, me parece.
Ele a olhou de cima abaixo, arrumada com um vestidinho de alças sob a capa, e não entendeu nada. Ela não se sentiu inclinada a explicar, entretanto. Notou que ele estava ainda muito aborrecido, as pupilas dilatadas e as veias do pescoço saltadas.
– Você precisa parar de me perseguir! – rosnou, dando as costas a ela e seguindo em frente. Bervely deu um impulso contra a pilastra e o seguiu para dentro da névoa espessa da rua.
– Você parecia bem aborrecido lá dentro. – comentou casual, se esforçando para acompanhar os passos largos dele. As ruas da vila eram rústicas, enevoadas, mal se via dois palmos à frente, e as casas de um lado e outro eram feitas de vagos contornos.
– Não é da sua conta.
– Você ia mesmo matar ela?
Sirius não respondeu, avançando como se conhecesse o caminho, deixando a rua principal e pegando uma trilha inclinada de subida. Por um momento só andaram, fazendo esforço demais para gastar fôlego com palavras. Ela fechou o casaco para diminuir o contato da névoa em suas pernas.
Black parou abruptamente, se virando para ela.
– Pare de me seguir!
– Não.
– Mas que inferno, garota! O que há de errado com você? Pergunta idiota, né. Como se isso não fosse bastante óbvio.
Voltou a andar, escalando o segundo e ainda mais íngreme trecho, seguindo a estradinha. Ela arfou para alcançá-lo, se surpreendendo quando finalmente alcançaram o topo plano e cheio de sombras retangulares cravadas numa terra nua e esbranquiçada. Um cemitério, ela notou.
Ele andou entre as lápides, procurando alguma coisa que Bervely desconfiava saber o que era. O breve pensamento de que não foi assim que previra passar o seu aniversário lhe ocorreu, mas logo foi dissipado pela visão de Black tendo uma nova onda de impaciência.
– Acho que não tem uma lápide. – disse ela, alteando a voz para ser ouvida através dos metros que os separavam. – Nunca acharam o corpo dela.
Pela primeira vez ele olhou para ela considerando realmente a sua presença ali.
– Olívia Loren. – explicou, dando de ombros. – Não é isso que está procurando?
– Como é que você… esquece. – Seus ombros despencaram. Ele enfiou os dedos nos cabelos longos e embaraçados, frustrado, beirando o desespero. Ela reparou que suas mãos tremiam, e ele fazia muito esforço para ficar no controle.
– Pensei que soubesse. – murmurou, depois de um tempo. – Foi Bellatrix.
Ele torceu a boca num sorriso sarcástico e amargo.
– Quem mais, não é mesmo?
Havia um banco de ferro à beira da colina, para onde Sirius se arrastou, o peso do mundo sobre seus ombros. Após um tempo fitando a silhueta escura e envolvida em névoa, Bervely andou até lá e se sentou ao seu lado, quieta.
Pela primeira vez notou a paisagem; estavam no topo de uma colina branca, de onde se via os telhados das casas da vila, um lago de água prateada perfeitamente imóvel e uma floresta de copas brancas. Era a floresta, percebeu. Onde Anne sofrera o acidente, onde Olívia Loren desaparecera. Sentiu por ela uma estranha deferência, como se fosse mais que apenas árvores, mas descartou a sensação: toda a névoa, todo o branco, aumentava a sensação de que estava face à uma paisagem vinda de um sonho.
Sirius tinha deixado cair o rosto entre as mãos, mudo e imóvel. O cabelo escondia sua expressão, mas Bervely podia se lembrar perfeitamente a sensação de ser o último a saber que alguém amado estava morto. Se perguntou se não seria uma boa ideia ir embora, agora que sabia que ele estava relativamente seguro. Devia querer curtir seu luto em silencio, não ladeado pela lembrança viva da algoz da noiva. Estava prestes a desaparatar quando ele falou de novo, rancoroso.
– A velha maldita não me diz onde a menina está.
Bevy hesitou.
– Ela está bem.
– Você não tem como saber disso. – ele retrucou, impaciente.
– Na verdade, eu tenho sim.
Sirius inclinou o pescoço para lhe ver, seus olhos lhe perfuravam.
– Você a conhece?
– O bastante. Johanne Loren está segura, e isso é tudo.
Ele abriu a boca, querendo despejar todas as perguntas cabíveis, mas acabou engolindo-as de volta. Meneou a cabeça, espantado.
– Não dá pra dizer que você não fez o dever de casa.
Isso quase a fez rir. Sirius lhe olhou de soslaio, desconfiado.
– Você não tinha que estar em outro lugar?
Ela deu de ombros.
– Pode esperar. Então… quer me contar que historia foi essa de ser avistado em Northway por um bando de trouxas?
Ela o distraiu com perguntas rasas sobres seus últimos dias. Black se deixou distrair, mesmo percebendo a tática. Contou seus passos desde Devon até Northway, principalmente tecendo duras queixas à carrocinha e explicando como se desviara dos dementadores algumas vezes.
O assunto Anne foi evitado, bem como o assunto Olivia Loren. Ela não ligou. A lua crescente estava no topo do céu quando Bervely se deu conta do que deixara para trás ao seguir o patrono, e soltou um palavrão baixo.
– Preciso voltar para casa.
Ele assentiu, também se apercebendo da hora avançada. Quase três voltas de relógio tinham se completado numa sensação de minutos e na conversa entremeada de silêncios contemplativos da parte de Sirius. Silêncios que ela entendia o suficiente.
– É, você devia. Tem de haver um jeito melhor de terminar o dia, sem ser num cemitério abandonado ouvindo a conversa mole de um fugitivo.
– Eu suponho. Acha que a velha vai contar aos aurores que você passou por aqui?
– Nah. – ele fez um gesto despreocupado com a mão. – Se tem alguma coisa que a velha Loren despreza mais do que a mim é ao DELM, ela acha que eles são um bando de incompetentes. Além do mais é uma covarde, vai ficar morrendo de medo de eu voltar pra terminar o serviço.
– E você não vai?
Ele lhe fitou, desiderativo.
– Não, não vou. Apesar de que ela merecia, como você bem disse.
Com isso Bervely se levantou, ajeitou a capa e pegou a varinha do bolso.
– Te vejo por ai, Black.
– Pare de me perseguir. – ele ralhou, fechando a cara. Ela rolou os olhos. – E Bervely?
– Oi?
– Feliz Aniversário.
– BD –
Havia uma cena poética se desenrolando na sala, quando Bervely voltou para o chalé quase às nove da noite. Como entrou bem silenciosamente e a única luz acesa era a da lareira, teve tempo de fazer uma leitura completa das pessoas sentadas no tapete em torno da mesa baixa de centro, jogando uma partida de xadrez bruxo. Estas eram Tonks, num vestido solto de escamas cor de rosa, Johanne, bocejando de dois em dois minutos e – surpresa – um muito à vontade Oliver Wood, na liderança das peças brancas.
O bolo meio torto fora colocado sobre o sofá para liberar a mesinha, e nele constavam dezessete velas em formato de chapéu cônico. Curiosamente, a única pessoa de olhos vendados na sala foi quem lhe descobriu primeiro.
– Bervely! – Anne exclamou de repente, assustando os outros dois. – Ela chegou, não chegou?
– Que? N– mas Tonks olhou para a porta e viu a prima, tornando a olhar para Johanne, assombrada. – Como é que você sabia?
O olhar de Bervely, no entanto, cruzou com o de Oliver primeiro. Ele não sorriu, como costumava fazer sempre que a via, ao invés disso fez um aceno de sobrancelha.
– Bem, então a aniversariante nos deu a honra da sua presença. – a metamorfomaga adejou com a voz carregada em sarcasmo.
– Eu tive um contratempo. – se defendeu, ainda parada no mesmo lugar.
– É, Bervely, tanto faz. Sempre há uma coisa mais importante, né? Vou dormir, agora que já sei que não vamos ter uma nota no jornal de amanhã sobre seu cadáver achado em um beco. Aproveite seu bolo. Boa noite. Oliver, Anne.
Antes que Bervely pudesse abrir a boca, Nimphadora deixou a sala pisando duro.
– O que foi tudo isso? – zombou, se aproximando dos dois restantes. – Por que ela ficou tão mau humorada de repente?
– Não foi de repente. Começou mais ou menos quando você sumiu no espaço entre seu quarto e a sala sem deixar nenhum aviso e nos deixou te esperando feito bestas. – Anne também não estava com o melhor dos humores.
– Bem, eu tive um imprevisto. – repetiu, irritada.
– Ótimo, tanto faz.
Procurou o olhar de Oliver, que acompanhava o desenrolar da coisa toda com educado interesse. Não o via ao que, umas três semanas? Parecia um tanto mais de tempo, no qual ele até cortara o cabelo e pegara uma corzinha, provavelmente de assistir aos jogos ao ar livre.
– Você também vai me encher? Nem começa, eu nem sabia que você vinha, nem sabia que tinha voltado de viagem, pra começo de conversa.
Ele deu de ombros.
– Eu não ia dizer nada.
– Eu chamei ele. – Anne interferiu usando tom desafiador. – Por que vocês parecem dois grifos empacados que não mandam carta um para o outro e eu já estava de saco cheio.
Bervely olhou sem reconhecer aquele pequeno diabrete no lugar da sua dócil irmã caçula. É claro que Anne não podia captar seu olhar de estranhamento, então se virou para Oliver e pigarreou com dignidade.
– Vamos terminar a partida, Oliver.
– Tudo bem. – ele deu um olhar de soslaio para Bervely, se ajeitando diante do tabuleiro. – torre na B12.
Ofendida com a recepção fria, Bervely se recostou à poltrona e ficou observando o jogo se desenrolar. Como é que Anne conseguia jogar sem ver, afinal de contas? Para o seu espanto, descobriu que a menina parecia manter uma imagem mental de onde as peças estavam, e apesar precisar confirmar algumas posições com Oliver vez ou outra, sua memória era excepcional. Corvinais, praguejou em pensamento, apesar do seu espanto conter um quê respeitoso de admiração envolvido.
– Rei na H8. Xeque mate. – sorriu sagaz por trás do lenço azul, quase malvada. Oliver lançou as mãos para o alto, inconformado.
– Pare de mentir pra a gente, Johanne, você não tem como ganhar três vezes consecutivas de mim sem nem ver as peças!
Ela deu de ombros, com uma risadinha.
– Você é muito distraído. Sua vez, Bevy, pode humilhar um pouquinho o Oliver que eu deixo.
Achando graça do tom coquete da pequena, tomou seu lugar na frente do tabuleiro enquanto as peças derrotadas voltavam para os seus lugares, querendo começar uma nova partida. Ela não jogava xadrez bruxo há muito tempo, desde a época da Mansão Malfoy, e a verdade é que não se sentia especialmente concentrada. Oliver pareceu perceber sua disposição.
– Acho melhor a gente bater logo os parabéns, antes que o dia do aniversário termine. – sugeriu, com um sorriso amplo. – Anne me contou que ajudou sua tia e Tonks a cozinhar e foi ela quem fez o recheio.
– Bem impressionante.
– Humhum. – Oliver afastou o xadrez e fez o bolo flutuar até o meio deles. Ascendeu cada uma das velas com a ponta da varinha e puxou a canção Have a Magic Birthday. O tempo todo, Bervely ficou lhe deitando um olhar irônico, mas ele continuou até a última nota desafinada, tendo Anne como segunda voz.
– Faça um desejo quando soprar as velas. – sugeriu ao fim.
– E por que é que eu faria isso?
– É uma tradição.
– De quem?
– Apenas faça, largue de ser teimosa.
Rolou os olhos, soprou as velas. Fez um desejo. O bolo com recheio verde e prata tinha gosto de menta e côco, e funcionou como jantar para os três retardatários da noite de dezesseis de agosto.
– Parabéns, Bevy. – Johanne lhe desejou, a mágoa com o seu atraso superada. Veio lhe abraçar, o a mais velha deixou acontecer e até correspondeu, sob o olhar divertido de Wood.
– Vou achar alguma coisa para a gente beber, volto em um minuto.
Quando retornou, Anne tinha caído no sono sobre o sofá.
– Precisamos admitir que ela resistiu bravamente até o fim. – ele brincou, aceitando a garrafa de cerveja amanteigada. – À propósito, desculpe por aparecer sem avisar. Johanne me convidou para fazer uma visita e só avisou que era o seu aniversário quando eu já estava aqui.
– Essa é a sua desculpa por ter vindo de mãos vazias? Lamentável, Wood. – estava se sentando no local de antes, mas ele sacudiu a cabeça em desaprovação. – Que foi?
– Muito longe, Rose Black.
Ela demorou um segundo para entender. Se mudou então para a ponta oposta da mesa, ao lado dele, como se isso não fosse nada demais, a proximidade e tudo. Como se não tivesse borboletas no estômago de repente. Sua colônia masculina fresca era tudo que o nariz dela sabia.
– Como você está, Rose? – seu tom era casual, um braço se apoiou no assento do sofá no qual também apoiavam as costas, e as pontas dos dedos foram roçar em seu ombro descoberto como se por acaso.
– Bem, Wood. Você?
– Alimentado. Aquecido. Confortável. Não dá pra reclamar. Na verdade, só tem um problema.
– Qual?– Bervely se concentrava em fitar o tampo da mesa, já que desse jeito a voz macia dele fluía direto para seu ouvido em forma de carícia.
– Três semanas.
– E?
– E senti sua falta. – disse, num tom baixo de confissão. As coisas aladas do seu estômago que dançavam a polca tinham resolvido pular todas ao mesmo tempo. Por que ele falava desse jeito?
– Engraçado – disse, se empertigando – Por que mesmo assim não recebi nenhuma carta sua.
Ele deu um pesado suspiro. Inclinou a cabeça na direção dela até ficar pertinho, tanto que sua respiração tocava no lóbulo da sua orelha e a pele descoberta de sua nuca.
– Posso te contar um segredo?
Suas entranhas imploraram por favor Oliver Wood, me conte um segredo. Ela manteve a dignidade, com um ‘hum’ neutro. Ok, talvez não tão neutro assim, só um pouquinho mais longo do que precisava ser.
– Fiz alguns rascunhos. Descobri que nada do que eu tinha a te falar era conversa de carta, e que ficar esperando por uma resposta sua só ia me deixar mais agoniado.
Ela sorriu de canto de boca.
– E que conversa é essa, que não era de carta?
Os dedos do braço esticado dele agora brincavam com a alça do seu vestido distraidamente, provocando arrepios toda vez que tocavam a sua pele. Encorajado pela pergunta, se inclinou e roçou com os lábios o canto da sua boca. A ponta de sua língua pediu passagem e ela permitiu, entreabrindo a boca, cerrando os olhos. Deixou que ele brincasse com seus lábios preguiçosamente, num ensaio de beijo que só fazia nascer os arrepios, um depois do outro, na base da sua coluna.
– Merda. – ele murmurou, perto de revoltado. – Sua boca continua uma delícia.
Ela riu contra os lábios dele, aplicando uma mordida na carne macia só porque podia. Como resposta, ele intensificou a brincadeira de bocas, a mão livre se encaixando em sua cintura e a puxando mais para perto. Suas línguas se enrolaram, num reencontro tão gostoso que Bervely sentiu um aperto na base do estômago, o corpo sendo acometido por uma languidez prazeirosa.
Tentando melhorar o angulo do beijo, Bervely se ergueu sobre os joelhos, ao que Oliver a guiou para o seu colo, ajudando-a a passar uma das pernas sobre as suas no espaço meio apertado entre ele e a mesa de centro. A nova posição facilitou que ela levasse os braços em torno do pescoço dele, enfiando os dedos em seu cabelo. Sentia a necessidade de ter o máximo do corpo quente e firme de Wood de encontro ao seu, por isso não se incomodou que Oliver a puxasse tão firmemente pelos quadris de encontro à ele. Seu vestido subiu pelas coxas, e logo as mãos quentes encontraram a pele nua por baixo. Ele arranhou a extensão de suas pernas do joelho até o topo, cada mão envolvendo um lado de sua bunda e a puxando contra a rigidez no meio das suas pernas. Ela arfou, ligeiramente sem ar.
– Sua irmã… – ele lhe lembrou sobre a respiração também, quando o beijo foi quebrado.
– Eu sei – embora pouco se importasse, o sangue quente correndo pelo corpo e nublando seu bom senso. Afinal, Anne continuava dormindo.
– Vamos pra outro lugar… se você quiser.
Bervely se desvencilhou dele, uma missão difícil ja que seus joelhos pareciam gelatina. O coração batia forte em seus ouvidos, parecia estar com raiva dela.
– Vamos pro sótão.
Se ele estranhou, não teceu comentários, a seguindo escada acima. No topo do degrau Oliver esbarrou nela de propósito, a pegando firme pela cintura e beijando seu pescoço com voracidade. O sótão parecia muito longe quando as mãos dele entraram debaixo da sua saia cheias de atrevimento.
– Oliver – ela ofegou, mordendo a parte interna do lábio.
– É muita maldade sua colocar justo esse vestido.
– Não foi intencional…
A mão esquerda dele subiu pelo seu quadril e cintura e envolveu seio seio, massageando sobre o pano, enquanto mordiscava a sua orelha.
– Eu adoro esse vestido.
– Vamos – Bervely sabia que se não o tirasse dali naquele momento, ela ia se esquecer o que estava tentando fazer em dois segundos. Não seria o melhor momento de sua vida de um dos tios saísse do quarto e os flagrassem ali em amassos comprometedores.
Atravessou o corredor o mais silenciosa que pode com ele em sua sombra e puxou o alçapão do teto baixo. A escada se desenrolou em sua frente e Oliver abriu um sorriso ao perceber a visão de que desfrutaria quando ela subisse.
– Primeiro as damas.
Ela rolou os olhos e escalou a escada, a consciência de para onde os olhos dele se dirigiam provocando mais calor em suas partes intimas. Uma vez sobre o patamar, acendeu a luz do abajur com a varinha e deu uma olhada geral ao redor, mas estava num estado razoável e não vergonhoso de arrumação.
– Ah, esse é seu quarto. – ele notou sabiamente.
– O que você esperava?
– Um sótão. É bem a sua cara querer dar uns amassos num lugar meio sombrio da casa.
Ele era o primeiro garoto que oficialmente trazia ao seu quarto, e ao mesmo tempo que estava plenamente consciente do que significava, sentia que não conseguia pensar com clareza. Atravessou o quarto e escancarou as janelas, na volta encontrando um sorrisinho afetado no rosto do capitão.
– Calor?
– Você não?
Ele riu. Deu uma boa olhada ao redor, trocando o peso de um pé para o outro. Tinha parado ali logo depois do alçapão com as mãos nos bolsos, parecendo que estava esperando permissão para se mover.
– Lugar legal. – seus olhos encontraram a cama de armar entre a janela e a cama de casal de Bervely – Anne está dormindo aqui com você?
– Se o que você queria era conversar, a gente podia ter ficado na sala. – ela retrucou, contrariada.
Rindo, ele andou até ela e começou a beija-la de novo do jeito calmo, devorando sua boca devagarinho. Ela achava que aquela exploração lenta torturava mais seu coração do que o outro ritmo, o afobado, porque seu corpo todo ficava em suspenso esperando o próximo movimento dele. Wood sentou no batente da janela, a colocando entre suas pernas, explorando seu corpo enquanto a beijava – acariciando seus braços, roçando os dedos pela parte exposta das costas, puxando seu quadril contra ele, depois descendo as mãos até suas nádegas e as apertando com gosto, junto com enrolar rítmico e escorregadio de suas línguas.
Em contrapartida, ela o explorava principalmente debaixo do moletom, tateando o contorno dos músculos do peito e o movimento das espáduas sob seus dedos. A pele dele era tão quente, tão inesperadamente suave, que o próprio atrito já era um estimulante que acendia seus nervos e nublava sua mente.
As alças de seu vestido foram abaixadas pelos seus ombros. Antes que ele se lembrasse de ser decente e perguntasse se podia, como da última vez, ela se apressou a ajudá-lo a liberar o zíper que apertava a parte superior do vestido, liberando seus seios. Oliver os fitou fascinado, com um murmúrio de aprovação. Uma das mãos veio acariciar seu mamilo, já duro, e ela suspirou de prazer e saudosismo.
– Não geme assim, Rose, isso é maldade comigo…
Em resposta, ela encobriu a mão dele com a sua e o encorajou a apertar mais forte, fechando os olhos para as ondas de prazer que irradiavam até o meio de suas pernas. O capitão seguiu a deixa e massageou um seio, depois o outro, com suas mãos grandes, beliscando os bicos eriçados. Bervely o puxou para o novo, molhado, desejoso beijo de língua, esfregando o corpo contra o dele, que a apertou com força na altura das ancas.
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– Que foi? – ela perguntou, quando ele a afastou um pouquinho.
– Você é gostosa demais pro seu próprio bem. – disse, rouco de desejo, as pupilas tão dilatadas que seus olhos estavam quase negros.
– Então me beija mais – pediu, impaciente com a pausa. Seu corpo todo ardia, querendo o dele de volta, mas ele não obedeceu.
– Eu quero mais do que te beijar, Rose.
Ela assentiu, sendo tomada por um arrepio de expectativa.
– Eu também.
Oliver enterrou os dedos no cabelo dela, que a essa altura já estava solto e bagunçado, puxando-a de volta, ao mesmo tempo em que a levantava da amurada. Explorava os cantos de sua boca enquanto a guiava pelo quarto até a cama de casal, na qual sentou a trazendo para seu colo, na mesma posição que tinham estado na sala. Era o angulo perfeito para levar a boca seus seios; Oliver chupou um e depois o outro demoradamente, enroscando a língua em torno dos mamilos pulsantes, uma mão acariciando suas costelas.
Ela achava que ia desmanchar. A pressão entre as suas pernas ficava mais e mais insuportável, principalmente quando seu corpo roçava de encontro à ereção dele, que parecia feita de pedra sob a calça. Lembrando-se que o jeans de forma alguma podia ser confortável, tentou abrir sua braguilha, mas Oliver segurou sua mão.
– Você está tomando alguma poção?
– Eu–oi? – Bervely não entendeu de primeira.
– Poção contraceptiva.
– Ah. Não.
– E você tem alguma?
– Não.
Ele franziu o cenho ligeiramente.
– O que você costuma usar, então?
– Quando? – seu raciocínio definitivamente não era o ponto forte no momento. Só conseguia se concentrar no calor emanando das mãos dele em contato com a pele sobre as suas costelas, e como queria aquele calor em outros lugares.
– Das outras vezes, Rose. – seu tom era ligeiramente impaciente, então ela percebeu qual era o erro da lógica de Oliver.
– Não teve outras vezes, capitão.
Se não estivesse tão escuro, ela teria visto um pouco de cor sumir do rosto dele diante da revelação.
– Não me diga que você é…
– Isto é um problema? – ela franziu, diante da expressão tensionada dele.
– Não. Não. Não, não é um problema.
– Certo. – franziu seus lábios – Só não fique todo estranho.
– Não estou estranho. – retrucou, de um jeito estranho.
– Nem nervoso. – ela zombou, começando a achar graça da coisa toda.
Oliver fez uma cara de ofendido.
– É só que… você tem certeza?
Ela notou que o clima estava indo pelo ralo com todo o papo e deu um muxoxo impaciente.
– Não é grande coisa, Wood. Me diga, como é que você fez das outras vezes?
– Eu, hum, usei um método trouxa. – atrapalhou-se. – Devo ter uma na carteira.
Ela arqueou uma sobrancelha.
– É seguro?
Ele assentiu, puxando a carteira do bolso traseiro da calça e lá de dentro tirando uma espécie de sachê metálico quadrado.
– Eu poderia te explicar como funciona, mas pode não ser o melhor momento.
– Vamos deixar a lição trouxa pra depois – concordou, levantando-se do colo dele. Sob o olhar atento de Oliver, tirou o vestido e o jogou longe, agradecendo que colocara uma das calcinhas boas. Não tinha nada de especial na peça, mas o deslumbramento estampou o rosto dele ao olhar para o seu corpo. – Oliver?
– Oi? – ele murmurou, hipnotizado.
– Posso tirar suas calças agora?
Seus olhos se cerraram, acompanhados de um sorriso complacente.
– Sim, Rose, você pode tirar minhas calças agora, você pode fazer absolutamente o que quiser, não vai me ouvir reclamando.
Ela riu, conseguindo finalmente abrir o zíper dos jeans trouxa dele e puxá-los para baixo, com a sua ajuda. O capitão da Grifinória tinha, como ela se lembrava, um par admirável de coxas, com músculos muito firmes e pêlos castanho claros. Mas seus olhos convergiram para o volume contornado pela cueca, com um misto de curiosidade e ansiedade.
– Volta pro meu colo, vem. – ele chamou, alcançando sua mão. Dessa vez as coxas dela deslizaram quentes contra as dele, e o encaixe de suas partes intimas foi bem mais consistente, com fina barreira de suas roupas intimas. Ele voltou a beijá-la calmamente, seu beijo de adoração, como se os lábios dela fossem a coisa mais suculenta que ele já tinha provado, e todo tempo do mundo não fosse suficiente para desfrutar. O ritmo lento deixava as borboletas em seu estômago todas loucas, bem como o toque dele subindo e descendo pelas suas costas até as bordas inferiores da calcinha, espalhando arrepios e pulsações.
Ela se concentrou no movimento das línguas, que era muito erótico e a arrastava para um mundo feito só de Oliver. Nada além do que eles faziam um com o outro existia, naquele momento. Só seus braços, pernas, músculos, lábios, cheiro, saliva, ereção quente pressionando sua intimidade, seus seios roçando no peito dele, a ida e vinda sutil de seus quadris, gerando um atrito gostoso de suas partes. A mão direita dele se insinuou para o meio de suas pernas e massageou por cima da calcinha, e ela quis gemer. Os dedos dentro de sua calcinha, deslizando pelas dobras molhadas de excitação, e ela quis morrer, porque Merlin, aquilo era bom, aquilo era…
– Oliver… – clamou com uma nota de desespero, quando ele encontrou o ponto mais sensível entre seus pequenos lábios, e pressionou ali suavemente.
– Eu sei… – ele murmurou em seu ouvido, rouco, perdido em tesão tanto quanto ela. – Você gosta, não é?
– Merlin, sim – choramingou, quando o indicador dele fez um movimento circular suave sobre a área. Ela rebolou sobre seus dedos para conseguir mais do contato, mais da carícia, seu corpo tomando o controle e sabendo exatamente como se mover de encontro ao toque.
– Você ‘tá tão gostosa, Rose, deus do céu, estou quase explodindo só de tocar você. Vamos tirar essa calcinha, quero te ver inteira.
Bevy deixou que Oliver se livrasse da peça, depois subiu na cama e deitou de costas, fazendo com que ele viesse sobre ela. Havia uma urgência dolorosa para sentir o peso dele sobre si e todas as partes de seu corpo se tocando, pegando fogo juntas. Ele se encaixou entre suas pernas, beijou seu pescoço, massageou seus seios, arranhou a lateral de seu corpo das costelas até os quadris e puxou firmemente suas nádegas contra si. Estava se tornando ávido, devorador de novo, um passo antes do descontrole, a respiração resfolegante em seu ouvido lhe arrepiando inteira.
Ela aproveitou o momento que ele ergueu o corpo e achou um espaço dentro da sua cueca, acariciando o membro duro, arrancando do capitão um gemido rouco. Continuou movendo sua mão para cima e para baixo, o que parecia a coisa certa a se fazer, pelo jeito com que ele se derretia e perdia o senso, os lábios entreabertos num gostoso desespero.
– Quero entrar em você, Rose. – ele pediu, a voz tremendo de vontade. – Estou ficando louco.
Em resposta, as paredes de sua vagina se contraíram deliciosamente, e cada fio do seu corpo se arrepiando com o pedido explícito. Ela agarrou os dois lados da cueca dele e forçou a peça para baixo, vendo os olhos de Oliver brilharem em antecipação. Ele aproveitou para colocar a tal coisa trouxa de contracepção, mas ela não prestou muita atenção nessa parte.
– Vou começar devagar – disse em seu ouvido, se acomodando entre suas pernas, Ela fechou os olhos, mais concentrada no tom da voz dele, que acendia cada nervo em seu sistema. O indicador dele voltou a deslizar por entre suas pernas, apenas um toque suave em seu clítoris e depois escorregando em sua lubrificação – Você ‘tá uma delícia, bem molhadinha, vai escorregar pra dentro bem gostoso, viu?
Assentiu, além das palavras quando o topo pulsante do pênis dele encontrou sua entrada. Seu coração estava disparado e bombeando surdo contra as costelas. Ele segurou seu rosto delicadamente.
– Olha pra mim, certo?
– Oliver… – ela implorou, a dor da necessidade quase física, ela pulsava inteira até seu útero desejando por ele.
– Isso – sibilou, enfático – Chama meu nome… puta que pariu, Rose, que delícia…
Escorregou para dentro como disse que faria, e ela arfou o nome dele, surpresa com a sensação incomoda de ser rasgada. Apertou os dentes e cravou suas unhas muito forte nos ombros dele, que plantou um beijo demorando perto de seu ouvido.
– Vai passar… vai ficar gostoso. – prometeu, mal se aguentando parado dentro dela porque a urgência de se mexer era tão grande.
– Oliver – Bervely chamou de novo, a ponto de pedir para que parasse e saísse, mas ele a distraiu com carícias em seus seios e pequenos beliscões em seus mamilos, e ela foi relaxando o suficiente para que a dor voltasse a ser vontade. – Pode continuar. – respirou, tensa. – Devagar.
Ele obedeceu, saindo e depois voltando o mais lentamente que podia, enquanto dava beijos de adoração em seus lábios, a provocava com a língua e com as mãos, e tudo foi ficando bom de novo, o atrito do membro inchado nas paredes da sua vagina era uma droga viciante, e ele voltou a respirar pesadamente e lhe apertar a cintura muito forte.
O ritmo das estocadas aumentou, bem como a intensidade dos gemidos dele, que eram certamente uma de partes preferidas de Bervely na coisa toda.
– Vou gozar – ele avisou, ofegando, dando estocadas curtas e rápidas que ela mal suportava. Menos de um minuto depois ele cumpriu sua promessa, pulsando mais forte dentro dela e procurando seus lábios, no breve momento do ápice. Depois seu corpo relaxou e ele foi diminuindo o vai e vem até parar, quase sem ar, e se deitar ao seu lado. – Eu devia ter durado mais, mas você apenas…
O que ela “apenas” ficou no ar, enquanto ele dava outra profunda inspiração. Ela reparou as nuances de seus lábios inchados e avermelhados, o rosto suado e os olhos nublados de prazer, e achou que Oliver Wood era lindo. A revelação lhe pegou com tanta surpresa que ela procurou falar alguma coisa, pra disfarçar sua cara de boba o encarando.
– Eu apenas o que? – perguntou, também ligeiramente arfando, mas nada como ele.
Oliver sorriu maroto.
– Você é muito quente e quando falou meu nome daquele jeito, parece que ele estava te ouvindo.
Ela fez uma pequena careta de embaraço, mas no fundo as palavras lhe preenchiam com uma estranha sensação de satisfação. Vê-lo fora de controle por causa de coisas que ela estava fazendo, consciente ou não, era muito satisfatório.
– Você está ok? – ele se lembrou de perguntar, de repente preocupado. – Teve uma hora que eu pensei que ia me mandar parar.
– Eu ia. – admitiu, mordendo o lábio.
– Mas depois melhorou, né?
– Sim. – sentiu as bochechas esquentarem. Se divertindo com a súbita falta de jeito dela, ele jogou um braço sobre a sua cintura e a puxou para perto, beijando o ponto bem atrás da sua orelha, onde ela era muito sensível.
– Das próximas vezes vai ser ainda melhor.
Ela deixou os olhos fecharem, sem nem ligar muito para o braço em torno da sua cintura, sem se lembrar que odiava cair no sono com outra pessoa na cama. Mal ouviu quando ele murmurou outra coisa em seu ouvido.
– Quero você pra mim, Rose Black. Todas as vezes.
(Continua…)
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