Indigna Rosa Negra
40 A Rosa e o Trovão
Notas iniciais
“Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão”
(Metal Contra as Nuvens – Legião Urbana)
A palavra de ordem de Azkaban era medo.
Medo era o mineral que endurecia as pedras da fortaleza. Medo era o gás que endossava o ar, e tornava a tarefa de respirar difícil. Medo era a matéria do frio fantasma que gelava os ossos o tempo inteiro, e torcia as articulações numa dor constante. As nuvens pesadas cobrindo a ilha, elas também eram feitas de medo.
Talvez o que alimentasse os dementadores fosse memórias felizes, mas medo era o que os deleitava.
Enquanto aguardava pelo resultado das buscas, Bervely se perguntava quantos tipos de medo existiam para se sentir. Era uma velha conhecida do medo do escuro, onde, quando tinha cinco anos, via olhos vermelhos e ouvia sibilares ofídicos. No hospital, ela conhecera o medo de si mesma: do que teria feito, e a própria mente tentava lhe ocultar. Medo de quem ela era.
Medo da verdade. Medo da perda. De perder a si mesma no buraco fundo do luto pela morte de Hector.
Naquele exato momento, olhando o mar do norte quebrar e se revolver no prenuncio de uma tempestade, ela tentava entender o sabor amargo em sua língua e o aperto em seu peito: medo de perder a esperança.
Medo de admitir um padrão assustador em sua vida – toda vez que ela se atrevia a a acreditar em alguém, coisas terríveis aconteciam.
Como quando Bellatrix fora lhe buscar na Mansão Malfoy, e ela acreditou que teria uma família de verdade, uma mãe, a sua mãe. Ou quando Narcissa lhe resgatou da estufa, lhe tomou em seus braços e lhe prometeu que dali em diante, estaria segura. E um dia Hector jurara que era seu garoto perdido, e não iria a lugar algum.
Nenhum deles estavam lá para ela agora. Nenhuma das pessoas nas quais Bervely acreditara ardorosamente no passado. E sem aprender a lição, ela resolvera confiar em Fritz, em sua ajuda, e qual a primeira coisa que ele fazia depois disso?
Atingido por um raio.
Após o acidente com o Caronte, uma equipe de resgate do Ministério foi chamada para recuperar corpos e buscar sobreviventes no mar, e pelo menos três quarters de Azkaban tinham se oferecido para participar das buscas.
Ela os assistira ir, e não se movera do cais pelo que pareceram horas, apesar de estar congelando com o vento que vinha do oceano. Sons de estalos anunciaram o retorno de uma das pequenas embarcações de busca, e Bervely ergueu a cabeça a tempo de ver o veículos se aproximar e atracar no cais. Reconheceu aquele auror que lhe oferecera o quarto mais cedo, e ele, ao perceber sua presença, desviou de seu caminho e veio até ela.
– Srta. Summers, você ainda está aqui? Há uma tempestade se armando. As buscas vão ser suspensas até amanhã de manhã.
Ela se levantou enrijecida.
– Vocês acharam… alguém?
– Alguns corpos, eu soube. Os aurores os enviaram direto ao Hospital St. Mungus para identificação.
– O Dr. Fritz estava…?
– Eu não sei. Sinto muito. Todos que estavam no barco foram queimados pela descarga elétrica, é difícil fazer o reconhecimento.
Ela sentiu os joelhos fracos, como se seu corpo pesasse o dobro do normal. Uma mão do Quarter foi parar em seu ombro, e ela vislumbrou preocupação nos olhos escuros e rasgados dele.
– Você deve me acompanhar. Como essa é uma situação atípica, fomos orientado a abrigar nas acomodações sobressalentes da prisão os visitantes que não embarcaram. Haverá uma embarcação substituta amanhã para levar vocês até a costa.
– Eu não posso passar a noite aqui. – Bervely rebateu, horrorizada.
– Entendo que a ideia possa parecer um tanto desagradável…
– Não, você não entende. – resistiu, se desvencilhando do toque apaziguador dele e ajeitando a postura. – Há alguém me esperando… minha irmã. – completou, ao ver que ele estreitara os olhos e duvidava de sua justificativa – Ela só te doze anos, e está sozinha no hospital.
– Não há nada que eu possa fazer, realmente. As ordens são que todos os visitantes que perderam o barco aguardem até amanhã.
Apesar do tom inflexível, Bervely captou uma mal escondida empatia no fundo dos olhos dele. Ela achou que era algo com que poderia jogar, especialmente enquanto usava a pele de cordeiro de Charlotte. Podia usar o rosto angelical, a voz suave e olhos azuis limpos da garota como uma arma de manipulação efetiva, afinal a própria fizera isso a vida inteira…
– Você não tem que seguir ordens, tem? – perguntou amaciando a voz cuidadosamente – Você é um Shadowtamer, praticamente dono desse lugar…
O rapaz se aprumou, surpreso, talvez sem esperar por aquele tipo de argumentação da parte dela.
– Não, esse seria meu pai. O fato de ser filho dele não me confere qualquer previlégio, especialmente no que se refere a quebrar o protocolo de segurança da prisão.
Ela rolou os olhos internamente.
– Não estou pedindo para quebrar nenhuma regra, Shadowtamer, você mesmo disse que essa é uma situação atípica. Que protocolo poderia existir para quando o barco é atingido por um raio? Quantas vezes isso aconteceu antes?
Ele abriu a boca e fechou, falhando em argumentar. Seus lábios se estreitaram.
– Eu devo admitir que é um raciocínio razoável, Srta. Summers.
– Charlotte. – sorriu, doce.
– Nesse caso, você pode me chamar de Theodor.
Ela cresceu seu sorriso ainda mais, vendo-se refletida nos olhos dele, percebendo que a sua disposição mudara a seu favor mais facilmente do que esperara.
– Então, Theodor, me tira dessa ilha horrorosa, por favor?
Ele suspirou pesadamente.
– Ninguém pode saber. – a advertiu, muito sério.
– Você tem a minha palavra. – como se a palavra de uma “Summers” valesse alguma coisa, sua consciência retrucou irônica.
Shadowtamer olhou para um lado e outro, confirmando que estavam completamente sozinhos no cais. O par de guardas que costumava receber a embarcação de visitantes tinha se justado às buscas, poupando-os de testemunhas para a transgressão.
– Venha, vou te levar até a costa antes que o resto da equipe apareça.
Ele a ajudou a subir na embarcação, uma espécie de transporte aquático cuja ponta era estreita, em formato de flecha, e possuía um guidom largo e um acento comprido que mal cabiam duas pessoas. O casco era como o de um barco, e sua constituição perfazia um misto de madeira bem polida e aço. Ela nunca tinha visto algo navegável que fosse tão pequeno¹.
– Já esteve num arpão antes?
– Eu não posso dizer que já.
– É perfeitamente seguro, eu lhe garanto. – ele se acomodara à sua frente no acento pequeno, então agora ela encarava as suas costas enquanto, com a varinha, lançava os feitiços de comando para fazê-lo se mover. – E é bem rápido, faz o caminho em um terço do tempo em relação ao barco.
Um terço do tempo. Ela não era a maior fã de velocidade, e pensou se não era uma boa hora para desistir daquela ideia insana. O tal arpão parecia muito suscetível às ondas abaixo de seu casco, ondulando precariamente mesmo ainda preso ao ancoradouro.
– Você vai querer segurar firme quando eu der a partida.
– Onde? – ela não via qualquer gancho, suporte para mãos ou apoio em qualquer lugar.
– Em mim.
Os estalos do feitiço motor começaram e foram aumentando em intensidade, e o fundo arremeteu. Ela arfou e se agarrou aos lados da roupa dele, num reflexo automático, mas o soltou em seguida como se tivesse levado um choque.
– Tudo bem ai atrás? – ele havia percebido seu susto.
– Espere! – ela exalou seu pânico, pronta para saltar fora dali. Atravessar o oceano naquela coisa cada vez se tornava uma ideia pior. Mas então haviam ecos de Johanne Loren na sua mente.
“Você vai voltar de noite?”
“Eu disse que vou, não disse?”
– Tudo bem. – Bervely suspirou. – É melhor você ser bom em dirigir essa coisa, Shadowtamer.
Quando o Arpão partiu sobre as ondas à setenta milhas por hora, Bervely voltou a segurar firme nas roupas do Quarter, porque a ideia de ser lançada para trás e morrer afogada pareceu mais terrível do que se ater às restrições da sua zona de conforto.
– BD –
Quarenta minutos mais tarde, uma Bervely ensopada entrava no Hospital St. Mungus, jurando para si mesma que jamais subiria em outro arpão na sua vida.
– Qual a sua queixa, querida? – perguntou a moça na recepção, hoje uma ruiva gordinha de óculos fundo de garrafa. Seu olhar era de pena escancarada. – Ataque de sereianos?
– Quê? Não. Estou aqui pra ver alguém.
– Tem certeza? Você está terrivelmente pálida, deveria passar na enfermaria para tomar um tônico revitalizante.
– Dispenso. – retrucou, seus dentes batendo. – Vim ver Johanne Loren. Primeiro andar, Ferimentos Induzidos por Criaturas.
A recepcionista lhe lançou um último olhar duvidoso, depois baixou a cabeça para os papeis. Bervely tirou do bolso do casaco uma meia barra de chocolate, mas a descobriu encharcada também, para o seu desgosto. Não podia fazer nada quanto a isso, como não pudera fazer pelas suas roupas; deixara a varinha em Azkaban, pois com o naufrago de Caronte o procedimento normal de reaver seus pertences antes de pegar o barco nunca fora realizado. Se sentia nua e vulnerável sem ela, além de estúpida. Que tipo de bruxa esquecia a varinha?
– Já tem alguém com a Srta. Loren, você não pode subir. Vai precisar retornar no horário de visitas.
– Quem está com ela? – Bervely imaginou se Lupin teria cancelado seus compromissos para ficar mais tempo. Isso não ajudaria em nada a melhorar a sua imagem para o bruxo, pensou mau humorada. – Pode lhe dizer que vim trocar o turno, vou ficar com ela durante a noite.
– A acompanhante da Srta. Loren já está pra o turno da noite. – a ruiva informou.
– Quem é?
– Não posso dar essa informação…
Bervely perdeu a sua paciência e puxou o livro de registro das mãos da recepcionista, que deu um gritinho.
– Você não pode fazer isso!
O nome que ela viu escrito ali só a deixou mais irritada.
– Bem, veja se me impede!
Deu a volta em seus calcanhares e entrou no corredor que levava aos andares superiores do hospital. Ela entreouviu o pequeno rebuliço na recepção, enquanto a ruiva chamava algum funcionário para ir atrás dela, mas virou uma esquina e metamorfoseou a sua aparência, em seguida retirando a capa. Agora ostentava uma longa cabeleira loira, e o funcionário passou direto por ela rumo às escadas.
Bervely subiu até o primeiro andar, erguendo as paredes de frieza em torno de si enquanto se aproximava do quarto onde Johanne estava.
– Bervely?
Conhecendo a sua sorte, é claro que ela toparia justamente com Andrômeda, num hospital daquele tamanho. A medibruxa atravessou a distancia que as separava, e parecia bastante surpresa de encontrá-la ali aquela hora da noite.
– Você chegou agora? E por que está toda molhada?
– Não importa, o que eu quero saber é: por que infernos a avó de Loren foi permitida a ficar aqui? Loren deixou bem claro que…
– Pare de gritar. – disse Andrômeda duramente, uma expressão nada satisfeita em seu rosto. – Remus ficou o quanto pode, e ele disse que esperava trocar o turno com você, mas você nunca apareceu. A menina não podia ficar sozinha.
– Eu tive um imprevisto! – sibilou, irritada.
– Bem, você poderia ter avisado, e eu teria dado um jeito. Mas eu não tinha como saber que ia aparecer, precisei chamar a Sra. Loren, ela é avó de Johanne, afinal de contas.
– Você chamou? Andrômeda! Até onde sabemos essa mulher foi diretamente responsável por deixar Johanne se acidentar na floresta! Como você pode fazer isso?
– Eu não acho que você está em posição de questionar minhas decisões nesse momento, Bervely.
Ela recebeu a retaliação com surpresa. Andrômeda era firme quando precisava, mas raramente usava aquele tom irascível. Ao invés da habitual resposta malcriada, ela se viu desviando o olhar, e exalando, um tanto perdida. Foi quando a Black mais velha soube que havia algo de errado com a sua sobrinha.
– Bervely, o que aconteceu? Você não parece bem.
– Nada aconteceu. – rebateu secamente. Deixar transparecer que sabia sobre o acidente de Fritz colocaria o seu disfarce em risco, e ela não podia se dar ao luxo de fazer isso pela segunda vez num mesmo dia. Merlin sabia como funcionara mal da primeira. – Eu quero falar com Johanne. Então, se me dá licença…
– Você não pode entrar lá! – Andrômeda a advertiu, completando em seguida: – Não enquanto a Sra. Loren estiver no quarto. Ou eu preciso lembrá-la de que a razão da discussão entre ela e a neta foi você? Remus me contou.
– Lupin é um fofoqueiro. Eu não dou a mínima para o que aquela velha pensa sobre mim.
– Isso faz duas de nós, como você deveria saber. – assegurou-lhe. Bervely lhe deu um novo olhar surpreso, e percebeu que o desafio estava estampado no castanho escuro dos olhos da tia. – Então se você puder parar um momento e aceitar ajuda…
– Por que isso tem funcionado tão bem na minha vida, afinal de contas. – resmungou azeda. Andie não lhe deu atenção.
– Espere aqui, eu vou dar um jeito de tirar a Sra. Loren da sala por algum tempo, então você pode entrar e falar com a sua irmãzinha.
Ela fez como prometeu. Entrou no quarto e, em alguns minutos, estava saindo acompanhada da mesma velha magra e arrogante. Andrômeda arriscou olhar para trás e lhe dar uma piscadela cúmplice, ao que Bervely rolou os olhos.
Agora era a hora de descobrir se, como o resto dos Black dignos ou indignos do sangue em suas veias, a pequena filha de Sirius Black também tinha tendências a guardar rancor quando era decepcionada.
Johanne continuava enrolada em muitas ataduras, com parte do seu corpo e rosto cobertos por curativos. Ela estava quieta, deitada, e Bervely ficou feliz em notar que algo do rubor original em suas bochechas retornara. Se aproximou da cama pensando em uma desculpa para o seu atraso, mas a menina foi quem falou primeiro.
– A Dra. Andie falou que ia mandar alguém pra ficar comigo. Eu achei que fosse alguma curandeira, não você.
Havia dureza em sua voz, o que fez Bervely perceber que de alguma forma fora reconhecida, apesar de a menina não poder vê-la. Mas, como ela soube não era o mais importante no momento.
– Johanne…
– Você nunca apareceu. – ela se queixou, chateada.
Bervely suspirou. De alguma forma, encarar o tom decepcionado da garotinha era ainda pior do que imaginá-lo. O que estava acontecendo com ela? Nunca se deixara afetar assim facilmente, antes. Talvez fosse toda aquela exposição aos dementadores, lhe deixando vulnerável.
– Eu tive um contratempo.
– Todo mundo tem contratempos.
– É difícil ser adulto.
– Você devia ter pensando nisso antes de começar a fazer promessas. – rebateu ela prontamente. Como uma menina normalmente tão doce podia ser tão dura, Bervely não conseguia entender.
– Tem razão. Não sou boa com esse tipo de coisa. Promessas. – acrescentou, observando os lábios dela se estreitarem em contrariedade.
Johanne negou lentamente com a sua cabeça enfaixada.
– O que você está fazendo aqui, então? É tarde demais. Vá embora.
As palavras demoraram cerca de dez segundos para serem completamente compreendidas por Bervely.
– Fala sério?
– Sim. – Johanne ergueu o seu rosto, empinando seu nariz. Bervely reconheceu a nota inconfundível de orgulho ferido ali, onde menos esperava.
– Ontem você me pareceu contrária à ideia de ficar com a sua avó. O que mudou? Você não está mais irritada com ela?
– Estou. Mas sabe, no fim das contas, é ela quem sempre fica comigo. Mesmo não gostando de mim de verdade. Já as pessoas que eu acho que gostam de mim, elas acabam tendo sempre contratempos.
Sua voz falhara na última palavra, e ela se calou desviando o rosto para o outro lado. Bervely sabia que se não houvessem bandagens, veria um par de olhos negros cheios de lágrimas.
– Tem outra coisa na qual eu sou terrivelmente ruim. – admitiu, quebrando o silencio de quase um minuto entre elas.
– Quê? – perguntou Johanne de má vontade.
– Pedir desculpas.
– Bem… faça um esforço.
E Bervely sabia que não havia qualquer esperança de reparação se não fizesse, uma vez na vida, o esforço. Por que não importava o quão grave fora o motivo que a levara a quebrar a sua promessa com Johanne, ela ainda assim a decepcionara.
– Eu sinto muito por não estar aqui mais cedo. – disse, sincera. E esperou, ainda surpresa com a facilidade com que fora capaz de dizê-lo.
– Tudo bem. Eu te perdoo dessa vez. – disse a menina, por fim lhe dando um mínimo sorriso. Aquela sensação morna e acolhedora envolveu o peito de Bervely novamente, folgando o aperto persistente trazido pelos acontecimentos do seu dia.
– Se superamos as retratações, será que pode me dizer como se sente, Srta. Loren?
– Melhor. Ainda dormente com todos os remédios. Um pouco irritada com essas bandagens em minha cara. – indicou ao redor dos olhos, usando seu braço bom, visto que o outro ainda estava imobilizado com curativos. – A Dra. Andie te ajudou, tirando a minha avó do quarto?
– Eu não posso confirmar nem negar isso.
Anne sorriu mais amplamente, mas depois algo em sua lembrança fez o sorriso morrer em seu rosto, substituído pela preocupação.
– A minha avó me proibiu de te ver e até falar sobre você. E acho que ela não vai me deixar voltar à escola enquanto você estiver lá!
– Isso é ridículo.
– Ela não pode fazer algo assim, pode? – Anne perguntou com medo. – Me tirar de Hogwarts?
– É claro que não. Há leis contra isso.
Mas não estava tão segura quanto soava. Na verdade ela não duvidava que Amelia Loren tentasse algo como isso, se estava começando a compreender que tipo de pessoa ela era.
– Rose… eu não quero parar de ver você. Eu gosto… eu gosto de ter uma irmã.
Suas bochechas estavam coradas com a confissão, e Bervely sentiu uma onda de afeição inevitável pela menina. Não merecia o espaço que ela lhe dava em sua vida, e sabia que nunca poderia ser a irmã como Johanne esperava que fosse. Mas ainda assim…
– Não se preocupe com o que a sua avó diz. Enquanto quiser, vou continuar por perto.
– BD –
Apesar de cansada, teve um sono intranquilo naquela noite. Ondas quebravam sobre as pedras, e ela viu o corpo de Ian Fritz boiar até a costa, igualmente quebrado, muitas e muitas vezes. Acordou antes do sol nascer e desceu para a cozinha a fim de tomar um chá bem quente. Não esperava encontrar com Andrômeda, que parecia ter acabado de chegar do plantão.
– Bervely! Não me diga que passou a noite em claro.
– Não dormi muito, é só. – deu de ombros, pegando alguns ramos de hortelã no estoque de ervas – Quer chá?
– Aceito.
Ela se dedicou ao preparo da bebida, não deixando de notar as olheiras profundas no rosto da tia, e o seu cansaço visível. Normalmente os plantões não lhe abalavam tanto – ela chegava em casa cansada, mas falante, e às vezes até tomava café com a família antes de ir se deitar.
– Aconteceu alguma coisa fora do normal essa noite? – sondou, dando um tom casual à pergunta.
– Na verdade sim… já que perguntou. Houve um acidente terrível em Azkaban… não na ilha, mas com o barco que transporta os visitantes. Foi atingido por um raio, acredita?
– Hum. – Bervely procurou sua varinha para aquecer a água, ignorando o coração disparado. Se lembrou que ainda estava sem ela. – Muitos… mortos?
– Dois. – lamentou-se, suspirando – O condutor, e um dos aurores à serviço da prisão. Felizmente o barco estava bem vazio, só havia mais duas pessoas… elas sobreviveram, mas estão entre a vida e a morte no hospital.
– Alguém conhecido?
– Não… – ela franziu ligeiramente – Quer que eu aqueça isso?
– Sim, por favor. Acho que deixei a minha varinha no quarto.
Andie se aproximou e acendeu uma chama com um floreio da sua varinha de seixo, depois coou a mistura para ambas e colocou a xícara na frente de Bervely. Ela ia levando a bebida aos lábios quando a tia lhe fez um gesto de aviso.
– Eu não coloquei açúcar ainda.
– Não bebo com açúcar.
– Bella também detestava açúcar no chá… – comentou, distraída. Um sentimento gelado queimou as entranhas de Bervely, e ela se retesou como se tivesse levado um choque.
– O que disse?
Andrômeda parecia surpresa com as suas próprias palavras.
– Desculpe. Ter você ao redor… vocês se parecem tanto, acabo tendo essas lembranças inoportunas.
Bervely fez uma careta, afastando o chá, perdendo a vontade de bebê-lo. Evitando a todo custo pensar em Bellatrix catatônica em sua cela, procurou outro assunto.
– E Johanne, alguma noticia? Quando ela sai do hospital?
– Não nas próximas semanas – a bruxa pareceu aliviada com a chance de falar noutra coisa, também. – Todos os ossos quebrados, dos braços e costela foram consertados durante a noite, mas a restituição dos olhos é um processo mágico muito minucioso.
– O que houve com eles, afinal?
Andrômeda deu um pesado suspiro dentro de sua xícara.
– As retinas foram queimadas.
Bervely engoliu em seco.
– Que espécie de criatura faz isso?
Ela apenas negou com a cabeça, desolada.
– Aquela pobre criança. Fico feliz em saber que desenvolveram um laço, Bervely, porque ela não teve uma infância fácil… perder a mãe como perdeu, depois o pai… e o avô, há tão pouco tempo. É muita coisa para uma garotinha suportar.
– Ela não simplesmente “perdeu” a mãe, sabe. – disse, num tom brando. – Bellatrix a matou.
Andrômeda fez silêncio, se servindo de mais chá e olhando através da janela, por onde o dia se tornava completamente claro.
– Isso nunca foi provado.
– Acha que ela seria poupada? Até onde eu sei, Olivia Loren foi quem separou Bellatrix e Sirius Black.
A tia lhe olhou com um tanto de surpresa e choque.
– Não, é claro que não. Sua mãe guardava mágoa de Loren, isso é certo, mas mesmo se Sirius não tivesse escolhido viver com Olivia, seus pais não teriam ficado juntos, Bervely, acredite em mim.
– Por que diz isso?
– Por que a lealdade de Bella já pertencia à outra pessoa há algum tempo, querida.
– Rodolphus Lestrange? – sugeriu com desprezo, pronta para negar. Mas foi Andrômeda quem balançou a cabeça primeiro, tristemente.
– Não… não Lestrange. Escute, eu estou realmente cansada, vou subir para dormir. Nos vemos no almoço?
Bervely negou.
– Vou ao hospital, não sei se volto à tempo.
– Não arranje problemas. – aconselhou, em meio à um bocejo. – Remus vai estar lá depois das oito, esse deve ser um horário seguro para aparecer. Eu pegarei o turno da noite.
Ela assentiu, e quando a tia deixou a cozinha, Bervely ficou um longo tempo observando o vapor do seu char ondular… e pensando. Pensando em sua mãe, um dia tomando seu chá sem açúcar, no outro deixando a sua lealdade cega às trevas se transformar em sua ruína, a qual Bervely presenciara no dia anterior, na cela imunda, seus olhos apagados, sua rendição…
Pensando em Sirius Black, aquele jovem e leve bruxo que conhecera há onze anos numa sorveteria, e por quem criara uma imediata e inexplicável conexão antes mesmo de saber quem era. Carregara seu presente a vida inteira em seu braço, seu amuleto… estava arriscando tudo para vê-lo mais uma vez… será que ela era assim tão diferente de Bellatrix? Não estaria traçando o caminho para a sua própria ruína, naquela busca por uma lembrança?
Pensando em si própria… jogando com a sorte, assinando com seu sangue, usando o corpo da traidora como disfarce… quem sabe quantos outros acidentes aconteceriam ao seu redor, e como ter certeza que não seria ela a protagonista do próximo?
Uma coruja a despertou das divagações, entrando pela janela aberta da cozinha. Era um espécime completamente negro, a não ser pelos olhos amarelos, e seu bico e garras eram feitos de ouro puro. Nunca vira tal animal na vida, mas seu sangue gelou com a sensação de um mal presságio.
Dentro do envelope estava a sua varinha, e um bilhete.
“Mais atenção, Srta. Black.”
Ao invés de uma assinatura, um símbolo.

– BD –
– Eu tenho um jogo. – Johanne sugeriu animada, ajeitando-se nos travesseiros.
– Eu não gosto de jogos.
– Esse é legal.
Bervely revirou os olhos, duvidando seriamente. O plano de visitar Johanne enquanto Remus estava com ela deu certo, mas o bruxo ainda insistia em permanecer no quarto, o que não a deixava exatamente confortável. Ele continuava com uma aparência doente, mas os seus cortes estavam se fechando e um pouco de cor retornara ao rosto abatido.
Por outro lado, Johanne estava bem melhor. Ela já conseguia se sentar reta na cama, e o seu outro braço fora liberado da imobilização, ostentando apenas curativos menores. As bandagens sobre os olhos da menina permaneciam, mas o seu cabelo fora lavado pelas curandeiras naquela manha, e estavam de novo sedosos e brilhantes. A cor tinha voltado por completo às suas bochechas, e ela recuperara a sua fluência costumeira, pois não calava a boca um segundo desde que a irmã mais velha chegara.
– Ok, qual é o jogo? – Bervely se rendeu.
– Se chama O Jogo do Mais.
Lupin, que fingia ler um livro grosso de Magia Defensiva, deixou o canto de sua boca se erguer num sorriso de reconhecimento.
– Funciona assim: eu te faço uma pergunta que tem um “mais”, e você precisa respondê-la falando a verdade. Se você hesitar, ou mentir, perde o direito de fazer a próxima pergunta. Se você fizer fizer a pergunta e esquecer de usar o mais, também perde a sua vez na próxima rodada.
– Parece algo que você acabou de inventar. – observou.
– Não, é um jogo muito antigo e tradicional. – a pequena defendeu-se com dignidade. Ela perdeu a careta de incredulidade de Bervely e a ampliação do sorriso de Remus. – Vamos lá, então, eu começo. O que você mais gosta de comer?
Bervely pegou Remus espiando, ao que ele prontamente desviou seus olhos para o livro. Ela suspirou.
– Patê de fígado de ganso.
– Eca.
– É bom, na verdade.
– Sua vez. Não esqueça de usar o “mais”.
Ela torceu seus lábios levemente. Não acreditava que estava fazendo aquilo.
– Qual a aula de poções mais interessante que você teve ano passado?
Johanne ficou um tempo em silencio, pensativa.
– Essa é difícil. Ah, já sei, a da Poção de Adormecer.
Bervely ergueu uma sobrancelha, ao se lembrar do evento, já que estivera envolvida.
– A que quase matou sua amiga Lovegood? Tem certeza?
A menina deu de ombros.
– Foi a aula de poções mais interessante que tive. Você não perguntou qual foi a mais agradável.
Bervely riu do raciocínio tipicamente corvino.
– A coisa mais assustadora que você já fez? – Anne disparou.
– Hum… – supunha que se infiltrar numa prisão de segurança máxima não servia, então… – Voei num Pegasus desgovernado e caí em mar aberto.
Johanne estava impressionada, e pelo canto de olho Bervely reparou em Lupin erguendo seu rosto disfarçadamente mais uma vez. Ela o ignorou.
– Qual a viagem que você mais gostou de ter feito? – escolheu essa, querendo descobrir que tipo de infância Johanne tivera até ali. Em seu intimo, ela desconfiava que a Sra. Loren não era o tipo de pessoa que investia em entretenimento para a sua família.
– Ah, essa é boa! – a menina vibrou – Irlanda! Vovô me levou até lá de balão, quando eu tinha oito anos!
– O que é seria um balão? Soa como coisa de trouxas.
– Você perdeu! – ela deu um pulinho animado – Não colocou “mais” na sua pergunta! Agora eu faço as próximas duas!
– Você resistiu à duas rodadas, impressionado. – Lupin comentou casualmente, virando uma folha do seu livro. Johanne riu sua risada musical, mas tudo que Bervely fez ao comentário foi piscar, resignada.
– O menino de quem você mais gosta? – a menina perguntou em seguida, com um sorriso arteiro no rosto.
Bervely foi poupada de responder a pergunta quando alguém pigarreou atrás deles. Ficou genuinamente surpresa ao perceber que era Oliver quem acabara de chegar.
Ele também se surpreendeu ao encontrá-la, mas seu sorriso fácil surgiu logo em seguida.
– Bom dia, meninas. E, ah… Sr. Lupin.
– Oliver! – Johanne respondeu, todos os dentes de fora. O garoto então deu um beijo no topo da sua cabeça, apertou a mão de Remus e se virou para Bervely, que ainda estava sentada com as sobrancelhas muito erguidas.
– Rose. – cumprimentou formalmente, estendendo a sua mão.
– Wood. – ela apertou a mão quente dele, estranhando a formalidade.
Quando ele puxou uma cadeira e colocou ao seu lado, Johanne se ocupou de formular um comentário constrangedor.
– Parece que a resposta da sua pergunta acabou de chegar, Rose.
Ela abriu a boca para se defender, mas Oliver se adiantou, inocentemente curioso.
– Que pergunta?
– Estavámos jogando o Jogo do Mais. Eu tinha acabado de perguntar…
– Não vamos entediar Wood com esse jogo bobo, Johanne.
– Na verdade eu adoro esse jogo, é bom pra passar o tempo. O que me lembra, Anne, eu te trouxe uma coisa. Espero que goste.
Oliver tirou da mochila um aparelho trouxa redondo, que era ligado a um fio, e na extremidade deste havia uma espécie de alça com uma bola achatada em cada ponta, que lembrava à Bervely abafadores de ouvido. Ele se inclinou para entregar o objeto estranho nas mãos estendidas de Anne, que tateou tudo curiosa.
– O que é?
– Um discman. Com ele você pode ouvir músicas, só músicas trouxas na verdade… mas é outra coisa boa para passar o tempo. Eu te trouxe alguns CDs… é onde os trouxas colocam as músicas.
– Uau. – ela murmurou, fascinada – Como funciona? Já ouvi falar desses. Não precisam de energia elétrica?
– Não, seriam pilhas. Mas este está enfeitiçado para não precisar de pilhas novas por um bom tempo. – Oliver levantou para ir até a cama ensinar como a geringonça funcionava, enquanto Bervely fitava a cena com os olhos estreitos. Ela absolutamente não aprovava aquele tipo de presente, onde já se viu, tocadores de musica trouxa para uma puro-sangue?
A despeito disso, Johanne se divertia com o presente. Ela colocou uma bola achatada sobre cada orelha e ouvia o que quer que estivesse tocando com um enorme sorriso no rosto.
– Quem está cantando? – falou num tom desnecessariamente alto. O garoto riu e destampou um dos ouvidos dela.
– Oasis. Achei que você ia gostar. Também trouxe Beatles e Ultravox.
– Obrigada, Oliver! – ela pulou nele para abraçá-lo em torno do pescoço, e Bervely fez uma careta para toda a efusividade.
– É muita gentileza sua, Oliver. – Remus agradeceu. Então, de repente todo mundo era o maior fã de Oliver Wood, só porque ele aparecia com alguma geringonça trouxa esquisita e salvava o dia.
– Quer ouvir um pouco, Rose? – Anne ofereceu, de novo falando mais alto do que um tom aceitável, seus ouvidos tampados, o sorriso carimbado em seu rosto.
– Não, obrigada. Na verdade acho que já está na hora de eu ir embora.
– Ah, nããão! – ela arrancou os abafadores de ouvido trouxas, seu sorriso indo embora tão rápido quanto surgira – Pensei que ia ficar o dia todo!
– Não queremos superlotar a sala, Andrômeda disse que mais de duas pessoas por paciente não é recomendado.
– Se o problema é esse, já está resolvido. – Lupin se levantou, colocando seu livro cuidadosamente na mesinha. – Eu já estava pensando em ir almoçar, vocês dois podem ficar aqui enquanto isso, o que acham?
– Ótimo! Obrigada, padrinho! – Anne decidiu por eles rapidamente.
Mas Lupin olhava para Bervely, esperando a sua anuência. Surpresa com a mudança de disposição dele, ela assentiu e ele abriu o mais leve dos sorrisos.
– Volto daqui a pouco.
Quando o bruxo deixou o quarto, e Anne estava entretida com seu mais novo brinquedo trouxa, tateando e testando os botões, Oliver puxou a cadeira para o lado de Bervely novamente.
– Se dando bem com Lupin?
– Aparentemente.
Bervely se sentia mais tensa ao lado dele do que o normal, porque ela não sabia muito bem como agir depois de seu último encontro, quando estiveram tão íntimos. E isso fora há somente dois dias, embora parecesse muito mais tempo, dado o número de coisas que acontecera nesse intervalo.
– Eu estava torcendo pra te encontrar por aqui. – Oliver confessou, lhe espiando pelo canto do olho.
– Mesmo?
– Sim. Ainda bem que deu certo. Estou dando um descanso à minha coruja, sabe, depois de todo o exercício que ela fez essa semana.
– Entendo.
– Você parece preocupada…
– Apenas cansada. – Não havia porque envolver Oliver em seu problemas. Até porque ela nunca poderia explicá-los, e se tentasse, ele nunca entenderia.
– Vocês estão muito quietos. – Johanne disse de repente, arrancando dos ouvidos os abafadores. – Vocês estão se beijando? Droga, com essas bandagens, agora eu nunca sei quando estão se beijando.
– Não estamos nos beijando. – Oliver lhe garantiu, uma nota de humor na voz. – Então, gosta das músicas?
– Vou ouvir todas até decorar. Não é como se eu tivesse muito pra fazer aqui, de qualquer maneira… é terrível não poder ler, ou fazer os meus deveres de férias!
– Não dá pra acreditar que está pensando em deveres – Bervely zombou. – depois de quase morrer fatiada. Será que dá pra ser menos corvinal, Johanne?
– Nunca. – ela estufou o peito. – Ahh, o que me lembra, não terminamos o jogo! Quer brincar conosco, Oliver?
– Claro! – o menino sorriu, relaxado. – Eu começo. Rose… Qual a musica que mais cantou quando era criança?
– Eu não canto muito, realmente. – ela tentou se esquivar.
– Ah, qual é, tem de haver alguma! – Anne se interessou.
– É, Rose, tem de haver uma musica pelo menos… alguma música de ninar, ou cantiga de roda?
Ela exalou resignadamente.
– Há uma, mas é estúpida…
–Deixe que nós julgamos para você. – ele tinha um brilho interessado em seu olhar. Se divertindo às suas custas, para variar.
– É, deixa que a gente decide o quão estúpida é. – Anne apoiou, empolgada.
Ela buscou em sua mente, se perguntando se poderia acordar aqueles versos fantasmas para alimentar a brincadeira inocente. Descobriu que sim… relativamente intacta, quase sem sangrar.
“Lá vamos nós com toda pressa
Como sempre piratear!
E, se nos separar a morte,
o inferno vai nos juntar.
Viva a vida de pirata,
A bandeira de caveira.
O rum, o rolo de fumo
E o mar que nos espera
Viva a prancha divertida!
Nela vocês vão andar
Para ir servir de comida
Aos grandes peixes do mar!
Viva, viva o bom chicote
De nove tiras cortantes
Que no lombo de um fracote,
Faz um estrago crepitante!
Toda vez que eu apareço,
Saem todos do caminho,
Pois bem sabem que com o Gancho,
Vão virar um picadinho.”²
– BD –
– Espero que goste de picles. – Oliver lhe entregou um sanduíche, junto com um refrigerante. Ela resistiu ao impulso de colocar a lata vermelha de volta no saco de papel pardo, preocupada com a possibilidade de um bruxo passando para o St. Mungus vê-la consumindo produtos trouxas em público.
– Posso lidar com picles.
Ele sentou perto, no banco do parque da rua Leandenhall. Após o retorno de Lupin, eles concordaram em sair para um lanche, mas Bervely se recusara a entrar em uma das lanchonetes trouxas próximas, relegando a Oliver o trabalho sujo de fazer o pedido para ambos. Houve um consenso de fazer uma refeição ao ar livre.
Nada mal para um domingo de verão. O sol cintilava preguiçoso no topo de um céu quase sem nuvens, e havia uma brisa fresca brincando com as folhas das árvores.
– Ela está se recuperando bem, não é?
– Acho que sim.
– Parece feliz com a sua presença. Que bom que estão se dando bem.
– É. – Bervely assentiu, distraída, mordendo o sanduíche sem realmente sentir seu gosto. Supunha que estava bom, mas não tinha fome de verdade. O aperto em seu estômago era constante, e descobria que poucas coisas na vida eram piores do que a espera por uma notícia ruim.
– Tem algo te incomodando, Rose?
Baixou seus olhos para ele. Oliver não era a mais perceptiva das pessoas, então seu comportamento deveria estar muito óbvio.
– Muitas coisas me incomodam, Wood.
– Algo que eu possa fazer a respeito?
– Não, realmente.
Ele suspirou com uma leve frustração, terminando seu sanduíche em mais duas mordidas e pegando a mão dela, passando a brincar com os dedos dela entre os seus. Bervely reparou como Oliver tinha as articulações dos dedos ossudas, ela sentia a fricção daqueles nós entre seus dedos quando ele entrelaçava as suas mãos. E a palma quente aquecia a sua, normalmente gelada, transmitindo calor. E conforto. Era uma sensação estranha.
– Conversar às vezes ajuda. – ele sugeriu mansamente num ponto perto de seu ouvido.
– Não são coisas que eu poderia te contar.
– Você não precisa ser misteriosa e enigmática o tempo todo.
– Só estou sendo honesta.
– Você está se metendo em problemas? – houve uma nota de preocupação em seu tom.
Bervely sorriu pela mera sugestão. Quando é que não estava?
– Não nesse exato momento.
Oliver franziu seus lábios para uma careta, mas sabiamente deixou o assunto passar. Ele já tinha colocado um braço por trás de seus ombros, e o rosto se aproximava devagar da área do seu pescoço. Cheirou o ponto atrás da sua orelha, encostando o topo do seu nariz na pele macia e a arrepiando completamente.
– Não consigo parar de pensar no nosso encontro da sexta-feira. – confessou em tom de segredo, o hálito quente brincando perigosamente com as terminações nervosas de sua nuca.
– Pesadelos com dinossauros?
– Não… – ele prolongou a palavra, roçando seus lábios no lóbulo de sua orelha. – Sonhos com uma sonserina.
– Ah. – Bervely cerrou os olhos, acompanhando as contrações na base da sua coluna diante da declaração sugestiva. – Que… tipo de sonhos?
– O tipo que continua de onde a gente parou lá em meu quarto. Sem interrupções…
Ele beijou a curva do pescoço dela, a barba áspera em seu queixo a arranhando e lhe fazendo tremer levemente de excitação. Estava condenada… derretendo-se por um grifinório no banco de uma praça da Londres trouxa…
– Me conte o acontece em seu sonho. – pediu baixinho, levemente tonta, a voz saindo rouca pelos seus lábios.
– Volta comigo pra minha casa hoje… e eu te mostro.
Ela mordeu seu lábio com força, resistindo à vontade de aparatar com ele naquele exato minuto, com ou sem permissão de aparatação, pouco lhe importava.
– Oliver, eu não posso.
– Mas quer, não quer? – provocou, roçando o canto de sua boca. Suas estimulações eram mínimas, mas ela estava queimando e quase perdendo a sanidade. Seu corpo todo gritava por um sim definitivo que pusesse fim naquela agonia.
– Hoje não é um dia bom.
Ele assentiu, e ela sentiu que se afastava. Não completamente, apenas o bastante para que parassem de compartilhar o mesmo oxigênio, o que era bom, porque ambos estavam ofegantes. Ele apoiou a testa em seu ombro e respirou profundamente umas duas vezes, enquanto Bervely tentava aquietar o coração desgovernado.
– Eu vou viajar com meu pai amanhã. – ele disse depois disso, num tom derrotado. – É uma coisa que fazemos nas férias, uma espécie de maratona de jogos de quadribol que assistimos, acompanhando os principais times da Europa.
– Soa como uma tortura interminável.
– É incrível, na verdade. Eu só não esperava que começasse tão cedo esse ano. Mas com a copa mundial ano que vem, essa temporada foi adiantada.
– Então quando termina?
– No fim das férias. – ele suspirou, quase que chateado. – Tem certeza mesmo que não pode vir comigo hoje? Esses sonhos não me deixam em paz, acho que estou ficando louco.
– Você aproveite o quadribol, capitão. – ela lhe deu umas batidinhas no joelho, uma vez recuperada a sua sanidade, ao menos em parte. – E nos vemos em Hogwarts.
– Rose… – implorou, mordiscando esperançosamente seu ombro.
– Vou voltar pro hospital, Johanne está esperando.
Ele exalou seu desânimo, os ombros caindo, ao reconhecer uma causa perdida. Mas levantou mesmo assim e a agarrou pela cintura, colando o corpo dela ao seu. Ela não ofereceu resistência.
– Eu vou sentir sua falta. – declarou, chateado, como se não fosse ele quem estivesse viajando.
– Aposto que você vai.
– E vou te escrever. – comunicou, desafiador e rebelde.
– Boa sorte para a sua coruja.
– Vai me responder?
– Só vai descobrir se tentar.
– Você é intragável, Black.
– Obrig–
Oliver a calou com um beijo quente, enrolando sua língua na dela, sugando sua boca e mordendo a parte macia de seu lábio inferior quase até partí-lo. Ela tinha um sorriso convencido quando foi liberada.
– Parece que não sou tão intragável assim, se você está quase me devorando em praça pública, capitão.
Os olhos dele escureceram perigosamente.
– Nem brinque com isso, Rose. Nem brinque.
– BD –
A noticia terrível veio, como todas, se esgueirando junto ao crepúsculo. À esse ponto, ela já se atrevera a considerar que talvez, quem sabe, Fritz estivesse escapado do acidente com vida e conseguido chegar até a costa. O que mais justificaria a demora em achar seu corpo?
O burburinho de que um dos medibruxos do hospital estivera envolvido no acidente com o barco de Azkaban se espalhou como rastro de pólvora entre equipe; ele era um dos mais querido ali, visivelmente, pelo tom com que a noticia era transmitida. Bervely soube no momento em que cruzou com uma curandeira às lágrimas, sendo consolada por outra, numa esquina do primeiro andar.
Achar para onde o levaram foi mais difícil; afinal ser atingido por um raio não era, até onde entendia, um acidente mágico. Quando finalmente convenceu a si mesma de que ia ter de ir ao quarto andar – local para o qual só tinha lembranças desagradáveis de seu tempo de internação – ela avistou os cachos castanhos de Andrômeda, enquanto conversava com outros membros da equipe.
Assim que a viu, a bruxa pediu que aguardassem e andou até ela.
– Eu ouvi sobre o Dr. Fritz. – disse prontamente, poupando-a de ter que lhe dar a notícia. Seu coração pesava, e não ajudou a expressão derrotada no rosto de Andrômeda.
– Você ouviu? Ele chegou há poucos minutos! – ela balançou a cabeça. – Não importa. Estamos tão abalados, o hospital inteiro. Que terrível coincidência ele estar justamente no barco que foi atingido!
– Sim. Terrível. – ela concordou. – Ele… onde o encontraram? Quero dizer, as outras vítimas foram trazidas ainda ontem…
Se Andrômeda desconfiou do seu interesse pelos pormenores, ela não deixou isso transparecer. Na verdade, parecia abalada o suficiente para não se ater a detalhes como esse.
– Pelo que os aurores falaram, ele foi levado pela correnteza até uma praia e ficou preso entre as rochas. Há esse ponto, e depois de tantas horas no mar, não há muito que possamos fazer…
– Espera – ela sentiu um arrepio de esperança varrer sua espinha – Ele está vivo?
– Sim! Mas não por muito tempo, eu receio. Não há mais nada que possamos fazer por ele, a não ser lhe garantir o mínimo de conforto até que…
Ela não estava mais ouvindo, não quando o zunido de sua cabeça aumentava. Ao contrário do que já deveria ter aprendido a fazer, estava se deixando ter esperanças. Se ele ainda estava vivo, afinal de contas…
– Andrômeda… posso vê-lo?
– BD –
Havia um homem descarnado sobre a cama.
Bervely tentou ficar firme, mas ignorar a náusea e a ânsia foi impossível. Ela abaixou seu rosto, sentindo os olhos arderem e a garganta se fechar, e respirando muito profundamente.
O som do coração dele enchia o quarto. Ela irônico, porque aquele era um dos feitiços que eles usavam em Azkaban para checar os sinais vitais dos prisioneiros. Naquela última semana trabalhando com ele nas avaliações, ela ouvira o coração de muitos homens e mulheres condenados. Aprendera a identificar anomalias específicas e colocá-las na ficha.
Ela não ouvira em nenhum deles um batimento tão lento e fraco.
– Você é da família? – uma curandeira que cuidava de repor as poções intravenosas dele perguntou. Ela era bem nova, devia ser recente ali no hospital, certamente não o conhecera a fundo.
À caminho dali, Andrômeda lhe contara que Fritz não tinha parentes vivos. Seus pais haviam falecido há alguns anos, e ele era dedicado ao hospital o bastante para nunca ter se casado. Era filho único, e não tinha filhos. Ninguém para saber que ele estava no barco de Azkaban (a não ser ela). Ninguém para contar que ele fora encontrado quase morto (a não ser ela).
– Sim.
– Vou lhes dar alguma privacidade. Qualquer coisa, é só acionar esse botão.
A curandeira saiu, e Bervely arrastou suas pernas até o lado da cama, forçando-se a encará-lo. A maior parte do seu corpo estava coberta por queimaduras profundas, que tinham sido emplastradas de ditamno e cobertas com ataduras finas. Cerca de um terço do rosto fora poupado; a parte superior do lado esquerdo, pelo qual ela podia facilmente reconhecê-lo.
Quando ele dava um de seus típicos sorrisos tranquilos, aquela lateral do seu olho se franzia em quatro vincos.
“Vamos fazer isso juntos”, ele dissera, há pouco mais de vinte e quatro horas. “Vou resolver tudo. Até amanhã, Bervely…”
Até nunca, Bervely.
– Não! – ela rosnou, contrariada. – Você não se atreva a morrer, Fritz!
Se ergueu da cadeira, lutando por ar através do estrangulamento em seu peito. Querendo ter alguém para culpar, ou uma explicação boa o bastante para dar a si mesma. Tentando entender como podia ser coincidência Fritz ter sido atingido por um raio poucas horas depois de ter prometido ajudá-la a ver Sirius Black.
Ela pousou seus olhos na prateleira onde os pertences achados com ele, nos bolsos de seu casaco incinerado, tinham sido deixados. A outra coisa que Andrômeda lhe contara foi a única razão pela qual o bruxo ainda estava vivo: a sua varinha o salvara.
A varinha absorvera a maior parte da descarga elétrica, para isso se tornando um toco queimado e retorcido, para o qual estava olhando agora. Outros pequenos objetos queimados estavam ali dispostos: moedas, um botão, um molho de chaves. Um único chamou sua atenção, no entanto; intacto e brilhante, e inesperadamente familiar.
Bervely recolheu cuidadosamente a medalha de metal branco, idêntica à uma que já possuía, e que era encantada com o feitiço de portal que a levava para o ancoradouro todos os dias. Ao virá-la em sua mão ela viu, pela segunda vez no dia, aquele mesmo símbolo egípcio gravado na outra face, a encarando de volta como se estivesse vivo.
– BD –
– Casa dos Romansek!
A lareira girou, bem como a sua cabeça. Estava jogando com a sorte, e sabia. O Olho de Horus não era o tipo de pessoa que deixava a sua lareira aberta, mas que outra escolha ela tinha? Sempre havia o risco de a ligação ser transferida diretamente para a residência dos Romansek na Romênia.
Para a sua surpresa, foi direcionada não à uma lareira de bruxos romenos tradicionais, mas à um escritório tão claro que a deixou momentaneamente cega. Piscou dolorosamente para a luz, percebendo que vinha de uma parede feita de vidro por onde as últimas luzes do crepúsculo entravam.
Uma silhueta interrompeu o espetáculo, e Bervely pensou por um momento o que diria se o próprio Olho de Hórus aparecesse. Mas quem chegou até a lareira foi um elfo comprido e de orelhas curtas.
– Como posso ajudar a Srta…?
– Preciso falar com o Sr. Romansek. – disse sem rodeios.
– Nome?
– Não importa meu nome.
– O senhor Romansek é um homem ocupado demais para falar com pessoas sem nome.
Ela bufou impaciente.
– Bervely Black.
O elfo abriu os olhos em reconhecimento satisfeito.
– Ah, o Sr. Romansek estava esperando pela sua ligação.
– Ele estava?
– Sim, e deixou um recado. Você deve aparecer para o jantar hoje. Uma chave de portal será enviada para a sua casa às oito.
Ela estreitou seus olhos com desconfiança, sentindo o cheiro de uma armadilha.
– E se eu não aparecer?
– Se não aparecer, o Sr. Romansek se reservará ao direito de entender que mudou de ideia sobre qualquer que fosse o assunto pretendido.
Ela ergueu seu queixo em desafio. Se era assim que ele queria, ótimo.
– Diga-lhe que vou aparecer.
– O Sr. Romansek estará honrado de recebê-la como sua convidada. Ele informa que deve se trajar de acordo.
– De acordo com o quê?
Mas o elfo estalou os dedos, encerrando a ligação, e ela estava falando com o fundo da lareira. Uma veia irritada em sua têmpora vibrava, quase dolorosa, e no meio de tudo, Bervely se pegou perguntando porque raios o elfo de Romansek tinha um leve sotaque alemão.
– BD –
A segunda chave de portal que Bervely recebeu do Olho de Hórus, na segunda visita da coruja negra de olhos amarelos, veio numa caixa de jóias.
Tratava-se, afinal, de um colar de obsidiana. O tom profundamente verde da pedra, polida em formato de gota, deu à Bervely uma dica do que vestir. Às cinco para as oito ela estava usando as vestes de gala que ganhara de Andrômeda e portara na formatura de Tonks, aquele com a serpente ao longo de suas costas nuas.
Sabia que uma grande parcela de poder dos Black estava na imponência da sua imagem, e se ela queria estar à altura de uma lenda como o Olho de Hórus, a última coisa que iria fazer era aparecer em sua casa para um jantar vestida em trapos.
Ao chegar em casa do hospital, dissera à Ted e Andrômeda que ia se deitar mais cedo. Não houve contestação: qualquer pessoa que olhasse para Bervely percebia que ela estava exausta. E, teoricamente, precisaria ir para o trabalho cedo no dia seguinte.
Tinha se esquivado de outra pergunta de Andrômeda a respeito do seu “trabalho” misterioso. Bervely sequer queria pensar o que seria dela no Projeto Orcus sem Fritz. Iriam substituí-lo?
Às oito em ponto, Bervely colocou o colar no pescoço e sentiu a familiar fisgada na barriga. O mundo rodou, e logo mais, ela foi deixada na soleira de uma imponente mansão à beira do mar. Feita quase completamente de vidro e com ângulos afiados, a Mansão dos Romansek – dos Holmes, lembrou – parecia uma jóia. Mal teve tempo de contemplar o recorte surpreendentemente moderno quando as portas duplas de vidro se abriram, e o mesmo elfo que atendera a lareira mais cedo a recebeu com um floreio.
– Senhorita Black, seja bem vinda. Posso pegar seu casaco?
Ela entregou o sobretudo para a criatura e entrou, admirada, seguindo-o por um corredor amplo e envidraçado. Havia um lustre gigantesco pendurado no teto, derramando-se em gotas de cristal infinitas, e que a lembrou vagamente do dia que quase fora esmagada por um como aquele. Bervely tentou passar longe da sua mira enquanto seguia caminho.
– A senhorita é esperada no salão de visitas.
Que era outro cômodo enorme e decorado em cores com o creme e champagne. Mal teve tempo de bater os olhos na decoração opressivamente rica quando uma fonte destoante de vermelho escuro chamou a sua atenção.
– Tara?
– Bervely! – a garota exclamou, vindo ao seu encontro, ondulando uma saia de seda nas pernas longas. – Quando meu pai disse que estava vindo, eu não acreditei!
Completamente pega de surpresa, ela se deixou beijar por Tara, a última pessoa que esperava encontrar naquela casa aquele dia, apesar de tudo.
– Você deveria estar no Egito. – protestou, quando a ruiva se afastou. Continuava bonita como sempre, os olhos destacados em maquiagem, a boca colorida de um vermelho profundo que rivalizava com os cabelos. Na verdade, era injusto dizer que “continuava bonita”, quando na verdade cada vez que a via tinha a impressão de que estava mais deslumbrante do que antes; sua perfeição era, frequentemente, assimilada com a sutileza de um soco no estômago.
Tara fez um aceno de dispensa com a mão, que estava tomada de pulseiras douradas e anéis.
– Isso não aconteceu como planejado.
– Como assim? Quando nos falamos no trem, você estava de passagens compradas.
– É. Foi um movimento idiota.
– Tara…!
– Não quero falar sobre o assunto. – teimou. – Nada disso importa agora. Quando meu pai falou que hoje a noite teríamos uma convidada surpresa para o jantar…
– Ele disse isso?
– Sim! – ela era toda sorrisos e deslumbramento. – Vamos para a sala de jantar, ele está ansioso para lhe conhecer pessoalmente.
Bervely não conseguia afastar a sensação de que estava presa em uma atuação, enquanto Tara lhe guiava até o próximo cômodo. A lista de coisas mal explicadas só crescia, como um ramo de planta carnívora mal podada, um ramo particularmente ansioso para dar uma volta em torno do seu pescoço.
– Papai, essa é Bervely. Bervely… meu pai, Gavril.
Não é como se ela nunca tivesse visto o homem na vida. Pelo menos um par de vezes o avistara nos fins de ano letivo, indo buscar Tara no porto para as férias. Mas nunca houvera um motivo para prestar atenção nele, quando era criança. O que era irônico, porque o homem a que chamavam Olho de Hórus não era do tipo que passava desapercebido.
– Srta. Black. – ele veio andando até ela, e beijou as costas da sua mão esquerda suavemente. – É nada mais do que um prazer reencontrá-la pessoalmente. Ah... o colar lhe caiu fantasticamente.
– Sr. Romansek. Eu penso ter conhecido a sua coruja hoje mais cedo, belo espécime.
– Obrigado, é um garra-de-aço puro, muito confiável. – ele sorriu. Seu sorriso era afiado nas pontas. – Em terras inglesas, você vai descobrir que o meu sobrenome é Holmes.
– Eu não acredito em sobrenomes que mudam com a ocasião… senhor.
Ele tinha um par de olhos verde escuros, predadores sobre ela. Bervely sentia que ele sabia tudo, cada pensamento em sua cabeça.
– Nesse caso, vamos nos tratar pelo primeiro nome, porque não? Espero que goste de frutos do mar, Bervely.
Ela olhou para o lado. Tara parecia completamente alheia à tensão entre eles, ou estava fingindo?
– Nossos elfos fazem o melhor Cassolette de fruis de mer au safran do país, você vai ver.
A pronuncia francesa de Tara não era das melhores, mesclada com o seu sotaque romeno. Bervely sorriu para ela, tentando relaxar e entrar no teatro.
Depois de um jantar delicioso, onde Tara monopolizou a conversa falando principalmente sobre “os bons tempos de Durmstrang”, a ruiva insistiu para que ela fosse conhecer o solário da mansão, no último andar, pois segundo ela, tinha a melhor vista de toda a Inglaterra.
Enquanto se levantava, Bervely procurou contato visual com o Olho de Hórus. Ele tinha um sorriso pronto e tranquilo para ela. Devia saber por que estava ali em sua casa.
– Se precisarem de mim, estarei em meu escritório. Fique tão à vontade quanto queira, Bervely.
Ela subiu silenciosamente atrás de Tara as escadas circulares que passava por três andares. O quarto era um vão único gigantesco, quase completamente preenchido por uma piscina cor de turmalina. O restante do espaço tinha o chão em pedras de mármore e uma sacada com 360º de vista. Um lado era oceano e um mar de estrelas, e do outro, podia vislumbrar o contorno distante de alguma cidade.
Tara foi andando até a borda e sentou sobre a amurada. Bervely deu uma espiada para baixo, uma queda de uns quinze metros até uma encosta de rochas.
– Muito melhor que a nossa casa na Romênia, essa aqui. – a ruiva comentou, estalando os dedos. Um elfo apareceu, diferente do que tinha aberto a porta para Bervely. – Fida, traga a minha varinha.
– Senhora. – a elfa fez um meneio e sumiu.
Tara fez um aceno para que Bervely se sentasse ao seu lado na sacada, mas ela negou. A garota sorriu travessa.
– Medo de cair, B.?
– Não está nos meus planos quebrar o pescoço hoje.
A elfa voltou, e entregou a varinha à Tara, sumindo novamente. O cheio salgado da brisa enchia os pulmões de Bervely, mas não era viciado e pesado como aquele que sentia em Azkaban. Aquele não era o mar do norte, afinal de contas. Mas ela não perguntou, fechou os olhos para sentir. O cheiro de cereja e nicotina se misturou ao ar e alcançou seu nariz, e quando olhou de novo, a ruiva tinha um cigarro entre os lábios. Bervely vira trouxas usando aquilo, um número suficiente de vezes para perguntar à Andrômeda o que eram. Não gostara muito da resposta.
– Você tem que estar de brincadeira, Tara. – exalou, ligeiramente irritada. Era bem típico dela consumir umas drogas trouxas, só pra chamar atenção.
– Vai me dizer que nunca provou um? São bons.
– Você é completamente maluca.
Tara sorriu amplamente e tragou outra vez. Ela fazia o gesto com elegância, e soltava a fumaça branca com graça dos lábios tingidos de vermelho. Esquecendo-se do perigo para o seu pescoço, Bervely se rendeu e sentou sobre a sacada ao lado da garota, mas passando as pernas para o lado de fora. A adrenalina acelerou seu coração, abafando o resto. Calando as angustias. Não podia ver o mar, mas o ouvia quebrando lá embaixo.
Tara passou as pernas para o lado de fora também, bem a tempo de segurar a saia do vestido de Bervely, que o vento marítimo levantava. Ela não tirou a mão do topo da sua coxa, o calor se fazendo sentir através do pano.
– Tara, você tem ideia de porque vim aqui hoje?
– Não foi para me fazer uma surpresa, isso eu sei. – brincou, sarcástica.
– Eu nem sabia que estava aqui. Você nunca escreveu, supus que estava tão realizada no Egito com o Weasley babaca que tinha esquecido do resto do mundo.
– Suposição muito injusta. – tragou mais uma vez, pernas cruzadas, a cascata de cachos ruivos caindo por um ombro só, o rosto inclinado na sua direção. – Eu suponho então que você assinou o contrato do meu pai.
– Sim.
– Idiota.
– Agora você me diz. – rebateu, sardônica. Tara meneou a cabeça lentamente.
– Sabe… ele é um ótimo pai. O melhor que uma garota pode ter. Mas quando se trata de negócios… eu tentei te avisar, Bervely. Disse pra você repensar.
– Eu repensei. – ela exalou.
Podia sentir, ao seu lado, Tara medindo as palavras cuidadosamente.
– Se os termos não lhe satisfazem… tente renegociar.
– Não acho que seja o caso.
Ela sorriu como quem sabia de mais do que estava relevando.
– Tente. Você é uma cliente importante.
Bervely girou cuidadosamente de volta para o chão firme, perdendo o toque da mão dela em sua perna, mas ganhando coragem. Adiar não fazia qualquer sentido. Fritz não estava ganhando tempo naquela capa de hospital… muito pelo contrário.
– BD –
Como tudo mais na mansão de vidro dos Romansek, o escritório de Gavril tinha uma plena vista para o oceano. O restante era recoberto em tons profundos de verde e vinho, ou preenchido com arte romena. Uma das paredes era repleta de estantes com livros. Na outra, havia uma fonte de pedra enorme, ondulando uma substancia prateada gasosa. Ele a recebeu sem se levantar de uma poltrona imponente de couro marrom e brocados dourados. Um trono, ela pensou.
Não se sentou.
– De acordo com o seu elfo, você já esperava que eu entrasse em contato.
Gavril pousou os olhos verdes nela, e apesar de serem da mesma cor dos da filha, passavam uma impressão totalmente diferente. O bruxo romeno exalava imponência, e ela lutava contra a sensação de opressão a cada segundo que estava diante dele.
Além do mais, era um massivo homem cuja idade devia estar em torno de quarenta ou cinquenta anos. Difícil precisar com exatidão, pois parte do rosto era coberta por uma espessa barba vermelho escura, que fazia conjunto com o seu cabelo longo. Seus ombros eram largos, o mais largos que se lembrava ter visto em um homem, apesar de que ele não era especialmente musculoso, apenas de constituição forte. O rosto era anguloso, e o formato dos olhos felinos, como os de Tara. Novamente, qualquer resquício do humor volúvel e efusivo da filha estava ausente no rosto do pai.
– Eu imaginei que a esse ponto, você teria questões sobre o nosso acordo.
– É, eu posso dizer que eu tenho.
– Sou todo ouvidos.
O tom era suave… confiante. Tão seguro de si como os rochedos que sustentavam sua casa.
Ao invés de falar qualquer coisa, ela tirou de sua bolsa a medalha que achara entre os pertences do Dr. Fritz e estendeu para ele.
– Isso foi encontrado no casaco de Ian Fritz. Eu acredito que veio de você?
Ele rolou a peça de metal entre os dedos longos e nada disse a respeito. Ela estreitou seus olhos para o homem.
– Que tipo de acordo vocês tinham?
– Como você se sentiria se eu discutisse o seu acordo com outros dos meus clientes?
Ela negou com a cabeça, pegando de volta o objeto das mãos dele.
– Eu estou achando difícil acreditar que foi uma coincidência ele ter sofrido um acidente fatal por acaso, agora que achei isso nas coisas dele.
– Há uma acusação implícita em suas palavras?
Ela apertou seus maxilares.
– E se houver?
A ponta de um sorriso atravessado surgiu no rosto dele, em resposta ao seu tom.
– Eu sabia que ia gostar de você, Srta. Black. Essa insolência vale ouro. Deixe-me dizer como as coisas funcionam aqui em minha casa. Se você quer conversar sobre negócios, haja como uma mulher de negócios, não uma garotinha birrenta. Se quer me fazer acusações, não se incomode com entrelinhas. Eu sou um grande fã da conversa franca.
Ela abriu levemente a sua boca, sem saber o que responder exatamente. Gavril ergueu sua varinha e conjurou uma poltrona que se materializou atrás dos seus joelhos.
– Sente-se. Vamos conversar.
Ela se sentou, muito dura, sem usar o encosto.
– Eu não tinha qualquer acordo com Ian Fritz. Isso que está em sua mão não é uma chave de portal, como pode estar pensando. Minhas moedas acomodam muitos tipos de feitiço. Esta, particularmente, estava impregnada com um encantamento incitador de raios. E se eu precisei tirar o Dr. Fritz do caminho, foi porque ele claramente estava interferindo nos seus planos, a partir do momento que você o deixou descobrir o seu disfarce.
– Então você foi e o matou?
– Nunca tive a intenção. Ele está, por acaso, morto?
Ela não sabia se ficava horrorizada ou aliviada.
– Não… mas os medibruxos disseram…
– Medibruxos não sabem de nada, Sra. Black.
Ela sentia mais uma vez o coração disparado.
– O Dr. Fritz não era uma ameaça. Ele estava disposto a me ajudar… ele era confiável.
– Não para mim. – disse o bruxo, tranquilamente. – E você há de concordar que eu sou um julgador de caráter muito mais experiente do que você.
Ela tentou se acalmar, acalmar seus nervos agoniados, internalizar e acreditar no que ele estava dizendo.
– Então ele vai acordar? Quando?
– Quando for seguro. Quando eu decidir que é seguro. – Completou, deixando bem claro quem estava no controle.
Bervely, que era naturalmente contra pessoas tomando o controle da sua vida, certamente estava estampando isso em seu rosto naquele momento.
– Não há razão para se inquietar, Bervely. – ele continuou, acenando com a sua varinha e fazendo com que uma garrafa servisse para si uma dose de uísque de fogo Ogden. – Aceita uma dose?
– Não, obrigada.
– Perdão. Você é uma menina tão madura, esqueço que ainda é menor de idade. Mas só por mais um mês, não é mesmo? Um mês e quatro dias, para ser exato. – ele tomou um gole da sua bebida.
– Como soube tão rápido que Fritz tinha descoberto o meu disfarce?
Gavril Romansek pareceu encontrar humor na pergunta.
– Olho de Hórus não é um título ao acaso, minha garota. Eu estou a par de tudo… especialmente no que se refere aos meus protegidos.
Ela supôs que ele estava se referindo à ela. Engraçado, porque não se sentia muito “protegida” no momento.
– Então você tem um informante dentro da prisão? – traduziu de modo prático.
– Você poderia dizer isso.
Ela sentiu que sua cabeça iria facilmente explodir tentando descobrir quem esse informante seria. Talvez o guarda que os acompanhara até a cela de Bellatrix? Mas era impossível que tivesse ouvido qualquer parte da conversa, estava distante, do outro lado do corredor…
– Como eu ia dizendo, não há razão para se inquietar. Você está mais próxima do seu objetivo do que nunca.
– Do meu objetivo, você diz? Não me diga que tem um informante dentro da minha cabeça também? – retrucou, sarcástica.
– Eu não preciso ter, fiz o meu dever de casa. Sei tudo que há para saber sobre você. Sei, por exemplo… o que essa marca em seu braço significa. Sei porque a esconde com essa tira de couro velha por anos à fio… eu sei do que os seus pesadelos são feitos, Bervely.
Ela se ergueu da poltrona, alarmada.
– Você está blefando.
Gavril se levantou também. Era muito maior que ela, e quando se aproximou, com um sorriso que não atingia os olhos, acendeu um calafrio em seu estômago.
– Sirius Black. – foi tudo o que ele disse, calmamente.
Ela sentiu a boca ficar seca. Como possivelmente ele saberia sobre Black? Sua conversa com Fritz sobre Sirius Black fora à portas fechadas, era absolutamente impossível que um dos guardas tivesse ouvido. Ele ria da confusão dela.
– Você tentou vê-lo na Páscoa, mas eles não lhe deixaram. Esse tipo de coisa fica registrada, você sabe. Bervely, agora que o Dr. Fritz está impossibilitado de dar prosseguimento à parte que lhe cabe no Projeto Orcus, você sabe o que acontece com a Srta. Charlotte Summers? – diante da desconfiança de Bervely, ele lhe deu uma piscadela – Ela será promovida ao lugar dele, vai assumir as avaliações.
– Eles jamais fariam isso, não com uma recém formada.
– “Eles” fariam, se ela tivesse ótimas recomendações.
– Recomendações que você de alguma forma concedeu.
– Você está começando a entender como as coisas funcionam, minha garota.
Ela gostaria de poder enfiar um feitiço no meio das fuças do Olho de Hórus, se ele lhe chamasse de “minha garota” mais uma vez. Respirou fundo. Haviam outras perguntas.
– Como… como conseguiu… Charlotte Summers?
– Eu a comprei. – ele disse simplesmente.
– Você o quê?
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– Comprei a identidade dela. – corrigiu, como se explicasse como adquirira uma vassoura – Não é como se ela fosse precisar mais.
– Mas você tinha o cabelo dela.
– Outra coisa da qual ela não ia mais precisar. Mas eu confesso que a minha escolha para o seu disfarce não foi arbitrária. Pensei que estar na pele de uma conhecida fosse ser mais confortável que a de uma estranha.
Ela pensou se Gavril saberia algo sobre Hector, a ponto de estar sendo sarcástico. Afinal, haviam poucas pessoas “conhecidas” no mundo as quais Bervely teria odiado mais se disfarçar do que em Charlotte. Na verdade, não conseguia pensar em nenhuma naquele momento.
– Você é amigo de Lucius Malfoy, Sr. Romansek?
Ele terminou o seu uísque. Se recostara em sua mesa maciça de madeira vermelha, a observando por baixo das espessas sobrancelhas ruivas.
– O seu tio é um velho colega de negócios.
Era tudo que Bervely precisava saber.
– Eu preciso ir.
Ele não tentou impedí-la.
– Foi uma honra revê-la. Não deixe de aparecer mais vezes, é sempre bem vinda em minha casa.
A garota não lhe disse qualquer coisa, ansiosa para deixar o escritório. Infelizmente, o caminho até a porta não era tão curto.
– Srta. Black?
Virou seu corpo, para vê-la parado no mesmo lugar. Aquele sorriso seguro e forjado.
– Não se esqueça que estou agindo em prol do seus interesses. Sempre.
– BD –
– Fique. – Tara ronronou, manhosa.
Bervely rolou os olhos. Voltara para se despedir de Tara e a encontrara em seu quarto no segundo andar – um cômodo tão grande que cabia dois chalés dos Tonks dentro com facilidade. Estava cheio de cortinas de seda brilhante, almofadas com franjas, móveis perolados de pernas finas e dosséis. Um quarto de realeza para a princesinha romena.
– Está tarde, Tara.
– Em alguns países está apenas amanhecendo.
– Neste país vai estar amanhecendo muito em breve.
Ela gargalhou, divertindo-se. Se encontravam empoleiradas em sua ampla janela, que ao contrário da sacada do solar não terminava em uma queda livre de quinze metros, mas em um jardim de cravos. Fumava mais um dos cigarros de cereja, e Bervely, fumante passiva, achava-se zonza pelas ondulações esbranquiçadas.
Apesar de insistir que precisava ir embora, a presença familiar de Tara era bem vinda. Ela tendia a não se lembrar de como apreciava a sua companhia, a não ser quando a tinha por perto. O fato de querer seu pai bem longe de si naquele momento… bem, isso era outra história.
– Eu fico mais um pouco – ofereceu, negociando – Desde que me conte o que aconteceu com a sua fuga para o Egito.
A ruiva bufou, contrariada.
– Vamos apenas dizer que eu percebi a insensatez do que estava fazendo.
– Não, vamos dizer mais do que apenas isso.
Havia um motivo para Bervely estar insistindo no assunto, é claro. Ela tinha um palpite. Tara agora parecia um tanto chateada, ou então finalmente revelando a chateação que tentara ocultar com indiferença.
– Ele nunca apareceu, ok? O imbecil do Weasley. Eu cheguei ao aeroporto do Cairo e esperei por ele horas, e ele nunca veio. Então, quando eu voltei para casa, havia um bilhete dele. Dizia coisas igualmente imbecis como “sinto muito, mas não posso fazer isso, não estou preparado para ir tão longe nessa relação, somos muito diferentes”. Eu lhe mostraria, mas rasguei a coisa em quatrocentos pedaços e queimei um por um com a minha varinha.
– É mesmo? – desconfiou. – Weasley me pareceu muitas coisas, mas não um covarde.
– O que você quer dizer? E por que está defendendo aquele idiota?
– Tem certeza que não foi o seu pai que fez ele entender a “insensatez” do que estava fazendo?
Ela abriu a boca, pronta para defender Gavril Romansek, mas pensou melhor. Seus lábios vermelhos se torceram em desagrado.
– Eu pensei nessa possibilidade. Seria algo que ele faria, veja bem. Convenceria Weasley, ou sei lá, tentaria suborná-lo para nos separar. Meu pai quer o meu bem, mas isso pode levá-lo à medias extremas às vezes.
– E o que te faz pensar que ele não o fez?
– Se ele tivesse feito, porque mais teria apoiado a minha decisão de viajar ao Egito?
– Ele apoiou?
– É, eu também fiquei surpresa. Papai me encontrou no aeroporto de Londres antes que eu embarcasse no voo, eu pensei que ele ia me arrastar de lá pelos cabelos… mas ao invés disso, ele apenas me deu um discurso sobre a grande burrada que eu estava fazendo, e avisou que quando eu me arrependesse, ele estaria me esperando de volta. Uma conversa de aprender com os meus erros, como ele aprendeu com os dele… com a minha mãe.
– Tara, isso é pura merda.
Ela deu de ombros, puxando outro cigarro, que Bervely arrancou da mão dela antes que fosse acendido. Estava começando a ficar tonta com tanta droga trouxa.
– Não importa, no fim das contas. É como se ele já soubesse que Guilherme ia dar para trás. O que foi ótimo pra ele, até onde eu sei. Continua em seu emprego de desfazedor de feitiços no Banco do Egito, e todo o resto. Babaca.
– É, engraçado como seu pai já sabia.
– Nenhuma surpresa ai. Ele sempre sabe de tudo, mesmo. Às vezes é um inferno ser a filha do Olho de Hórus, acredite em mim.
Bervely acreditava.
– BD –
O Olho de Hórus estava absolutamente certo sobre a sua promoção. Quando Bervely pisou os pés em Azkaban na manhã seguinte, havia uma carta de Hominus Criodillus, chefe do Projeto Orcus, lhe esperando.
Como dito, ela estava oficialmente realocada para a posição do Dr. Fritz dentro do projeto, devido à suas altas recomendações, e era esperado que assumisse não só as avaliações como a entrega dos relatórios, e que passasse a participar das reuniões semanais e uma serie de obrigações a respeito das quais não estava interessada.
Havia, na verdade, uma única coisa na qual Bervely estava interessada. Diante dos acontecimentos recentes, especialmente a sua conversa com Gavril Romansek no dia anterior, ela mais do que nunca sabia que não podia esperar outro dia. Ela não precisava responder à ninguém mais na prisão, pelo menos não imediatamente. Se havia uma coisa que aquele raio fizera ao atingir Caronte, foi lhe dar a carta branca para agir por conta própria.
Puxou a lista de prisioneiros sorteados no primeiro dia de trabalho com Fritz, e recolheu cada uma das pastas. Nenhuma era a dele, portanto, as dispensou de volta aos seus lugares de origem.
Bervely expandiu sua busca para o restante do arquivo, reduzindo a pesquisa através do seu conhecimento, agora amplo, do que os símbolos que precediam os números das celas significavam.
Poderia é claro pedir a ajuda de um Quarter: eles saberiam como achar um arquivo específico pelo nome do prisioneiro… mas era um risco desnecessário. A procura lhe tomou toda a manhã e uma parte da tarde, mas finalmente, ela encontrou o que que ansiava.
Cela 390, era a sua resposta.
390, era a cela de Sirius Black.
(Continua…)
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