Indigna Rosa Negra
46 A Rosa e as Ruínas
Notas iniciais
…was built in times unknown to history,
But ’tis said it belonged to the Douglas family;
And the inside is a labyrinth of broken staircases,
Also ruined chambers and many dismal places.¹’
(William Topaz McGonagall)
¹…foi construído em tempos desconhecidos para a história; mas dizem que pertenceu à família de Douglas; E o interior é um labirinto de escadas quebradas; também câmaras arruinadas e muitos lugares sombrios.
~
Observava com relativo interesse os visitantes da moradia centenária no estuário de Forth. Desde sua ruína, aqueles muros abrigaram uma sorte vasta de vagabundos, fugitivos e casais enamorados. Até o momento não classificara o estranho par em uma dessas categorias, e nem podia destrinchar suas verdadeiras intenções. Isso era uma novidade – bem como o fora o seu modo de chegada; a garota e o cão surgiram do nada, materializados do próprio vento.
Invasores costumavam enviá-lo para os recônditos inalcançáveis da Torre Leste, em razão do seu mais profundo desinteresse nas questões mesquinhas da existência humana. Há muito precisara se conformar com a degradação de sua casa, e até mesmo perturbar os incautos perdera o seu valor – naquela noite porém, ele quebrou sua tradição e permaneceu à espreita, intrigado.
A jovem sabia fazer magia. Primeiro verificara a presença de homens nos arredores – homens vivos, e por ele reverberou incólume. Depois ela arrastou seu cão semi-morto para uma das caves sob o Grande Salão, o deixou ali em companhia de um brilho prateado quase se apagando, e voltou a sumir. Passada quase uma hora inteira, estava prestes a ter um acesso de irritação, convencido de que a pequena insolente ousara usar sua morada ancestral como local de despejo de corpos, quando ela retornou, num estalo seco. Trazia consigo uma sorte de coisas dentro de uma sacola que era maior por dentro que por fora – uma dessas foi uma manta que lançou sobre o cão moribundo; a outra, uma bebida que despejou-lhe garganta adentro.
E foi mesmo enquanto ele observava por entre frestas da parede, fazendo-se invisível, que ela amplificou o coração do homem para soar audível. Só então pareceu minimamente encorajada a repousar, e ele pensou, que estranho hábito era aquele, dormir ouvindo o ritmo cardíaco do seu bicho de estimação?
Teria deixado toda a coisa de lado, não fosse um detalhe: a chegada do par despertara a magia adormecida do castelo, e só havia uma explicação para tal; por isso esperou o desfecho com toda a paciência que a eternidade lhe provinha. As horas da noite se adiantaram, resvalando pela criança que empunhava a sua vara, em guarda. Claramente antecipava uma ameaça – seus olhos continuamente corriam para a parcela aberta do teto, em busca da sombra dos inimigos, fossem lá qual fossem. Talvez ela fosse do grupo dos fugitivos, afinal, mas onde entrava nessa história o cão degradado?
Obteve sua resposta na alvorada. Os primeiros raios do sol do 29 de julho abriram caminho através do que restava do teto e como se desencadeassem uma transformação, o cão se tornou em homem em meio ao sono. Um espécie magro e esfarrapado, o tipo de gente que jamais pisaria naquelas terras em seus dias de glória, uma escória mais baixa que sua contraparte animal. Isso não pareceu surpreender a garota, que se muito, soltou um suspiro de alivio. O coração do agora-homem prosseguia fraco mas constante, absorvido pelo arenito do aposento.
A luz do dia o deixava fatigado, de sorte que o observador optou por abandonar os vagabundos e retornar à sua rotina. Gente mágica ali era uma surpresa para ele, mas de forma alguma uma novidade – um dia, há tantos anos, ele mesmo carregara uma vara de encantamentos, e do que isso servira no final das contas? A estranha anomalia que agitara os velhos feitiços do local devia ser nada mais do que isso – uma coincidência.
Resignado, deu meia volta e saiu cantarolando uma velha cantiga de família.
– BD –
Come as you are, as you were
as I want you to be.
(Venha como você é, como você era
Como eu quero que você seja)
Qualquer pessoa que despertasse sentindo uma dor pungente no ombro esquerdo, gosto de sangue na boca e aquela intensidade quase hipotérmica de frio tenderia a cultivar pensamentos negativos sobre sua situação atual.
Não Sirius Black, no entanto. Para esse bruxo em particular, a combinação de fatores potencialmente danosos em seu corpo, especialmente sua capacidade de se dar conta deles, significavam duas coisas: em primeiro lugar, ele ainda tinha uma alma. Consequentemente, a segunda era que só podia estar livre.
Embora as chances fossem de que estivesse também morrendo, o bruxo permitiu que os lábios muito secos se ampliassem num sorriso, sem se dar ao trabalho de abrir os olhos. De alguma forma, mais por milagre do que qualquer outra coisa, manejara escapar da ilha, dos cães, dos dementadores e do mar. Lembrava de ter nadado um tempo infinitamente longo, até suas patas quase se soltarem do resto do corpo. E pela dor que sentia no ombro, talvez uma estivesse mesmo se despedindo.
Sirius percebeu que não estava na praia, como a lógica previa. O chão sob suas costas era duro, e a ausência de vento indicava que estava num lugar protegido. Isso não o preocupou de imediato; de olhos fechados, e ainda despertando, ficou curioso sobre o que seria aquele batuque incessante que ouvia, e parecia estar vindo dele. Que droga era aquele tum, tum, tum em seu pé de ouvido?
– Finalmente. – uma voz ligeiramente ranzinza soou à sua esquerda. – Pensei que depois de tanto trabalho, você ainda ia me fazer cavar a sua cova.
A existência de outro ser humano foi o bastante para despertar o resto dele que faltava. Percebeu que o que era novidade para ele o cão já tinha sabido, pois de outra forma seu instinto canino não teria permitido que retornasse à forma humana. Virou a cabeça bem devagar (não tinha certeza se todas as vértebras estavam bem encaixadas), e piscou até conseguir focalizar quem falara; uma fonte de luz à esquerda, queimando em tons de azul, ajudava parcamente a iluminar sua companhia.
– Você. – ele resmungou, a voz saindo como se tivesse lixa na garganta. – Como foi que me encontrou?
– Não precisa soar tão agradecido. – ela adejou, ao mesmo tempo que se aproximava dele meio engatinhando. – Meu patrono te achou na praia. Como se sente? Tem alguma coisa seriamente errada com seu ombro, eu posso ver daqui. Você tentou lutar com os outros cães? Isso foi uma ideia estúpida…
Ignorando um bocado da tagarelice, ele usou a mão boa para tatear o ombro de que ela falava, e encontrou ali um vão que não devia existir, entre a escápula e o úmero.
– Está deslocado. – informou, com resignação – deve ter acontecido enquanto eu nadava.
– Ah. Okay… – ela olhou por cima do seu ombro, na direção de uma mochila esparramada no chão. – Eu tenho poção curativa, e… um pouco de Esquelesce. Ou talvez um feitiço, se você souber algum, por que eu realmente…?
Sirius negou com a cabeça. Quando mais consciente ficava, mais a dor se alastrava, como uma pressão ao mesmo tempo um queimor fluindo do ombro até a mão, que não estava lhe deixando raciocinar direito.
– Nada disso vai resolver, é preciso colocar no lugar manualmente. – Se ajeitou, as costas completamente apoiadas no chão, o movimento lhe provocando uma nova onda de dor. – Aqui, segure a minha mão, bem firme.
Ela abriu a boca, pronta para protestar sobre o método proposto. Provavelmente viu a palidez dele a fina camada de suor que estava surgindo em sua testa, porque obedeceu, pousando o par de mãos frias na sua. Seus olhos, já naturalmente grandes, estavam um pouco arregalados e brilhavam na penumbra.
– Agora puxe para baixo, lenta e firmemente. Você vai sentir quando voltar ao lugar. – vendo a hesitação dela estampada no rosto, achou melhor acrescentar: – Não pare, se por acaso eu gritar.
– Isso é bárbaro. – resmungou, enquanto obedecia. E ele gritou; foi mais para um rosnado longo e arranhado de agonia, mas ela não parou até sentir, como ele dissera, o ombro retornar ao lugar. Sirius ficou um momento apenas respirando profundamente, apreciando o alívio que vinha com o reposicionamento dos músculos e do nervo.
– Já tinha acontecido antes? – ouviu-a, e assentiu.
– Algumas vezes. É mais difícil de colocar no lugar quando se está sozinho.
A dor agora era suportável, o deixando pensar corretamente. Conseguiu sentar com o apoio do braço bom e dar uma olhada ao redor: o lugar se passava por uma caverna, mas não era natural, o contorno das paredes muito regular, e definitivamente havia uma espécie rudimentar de assoalho sobre o chão. Além do mais, detectou porque fazia tanto frio — faltava um pedaço do teto, de onde podia divisar uma porção de estrelas.
Enquanto isso, a garota tinha se virado para a mochila, procurando alguma coisa lá dentro. Ela tinha trocado as roupas do uniforme de quarter que roubara na prisão por vestes que pareciam suas, além de um casaco pesado com capuz. Por quanto tempo ficara desacordado?
– Aqui. – ela lhe estendeu um frasco de vidro arrolhado, com algo verde dentro. – É poção fortificante.
Sirius aceitou, virando a coisa com gosto de limo de uma vez só. Ela o observava entre curiosa e preocupada, as sobrancelhas franzidas de leve no centro. Esperou até que terminasse a poção e recolheu a embalagem, jogando na mochila de novo.
– Agora você pode me contar o que deu errado no plano. – exigiu, numa quase acusação. Ele se ajeitou melhor que pode contra a parede oposta a ela, se fazendo de desentendido.
– Do que está falando? O plano deu certo. Eu estou fora, ou não estou?
Bervely bufou. À ele, pareceu que a cria de Bellatrix estava tendo dificuldades de controlar seu temperamento, apesar da tentativa árdua.
– É mesmo? E sobre a parte que você nunca chegou ao barco? Os alarmes soaram, eles perceberam que você estava fora da cela antes que conseguisse sair da ilha! Por que diabos liberou o meu Patrono? E o que você fez com ele, pra ficar me seguindo feito um cão de guarda? Eu não consegui apagá-lo até agora há pouco, por Morgana!
Enquanto ela falava, seu tom ia subindo algumas oitavas, e terminou quase num pequeno guincho de que ele, particularmente, achou graça.
– Você precisava do Patrono mais do que eu. – disse, num tom que encerrava o assunto. – E ele não fez mais do que sua obrigação. Quanto ao barco, eu fui até ele, mas havia um auror fazendo ronda, então precisei desviar o caminho. Os cães não gostaram de uma invasão ao território deles, houve um pequeno desentendimento.
– Não foi tão pequeno, você tem marcas de dente na sua garganta. – ela avisou, de cara fechada.
Sirius tateou distraidamente o local, que estava dolorido, mas não era nem de longe a pior das suas avarias.
– Esqueça sobre mim. É um milagre que você tenha conseguido sair sem desconfiarem de nada. A sua amiga, que ajudou com a distração, também conseguiu?
– Sim. Saímos usando um Arpão. – a lembrança da fuga trouxe um breve brilho aos seus olhos, mas logo ficou séria novamente. – Você deveria ter dado um jeito de retornar ao barco. Quando eles soaram os alarmes e apagaram todas as luzes, eu pensei…
– Que eu ia virar comida de dementador? Preferia morrer afogado.
Ela soltou o ar pelo nariz, levemente transtornada. Quanto mais olhava para ela, na contraluz da chama que conjurara na tentativa de aquecê-los, mais identificava as semelhanças dela com a sua mãe. Desde as maçãs do rosto altas até os olhos desenhados, grandes e permanentemente sardônicos, finalizados com cílios espessos. O mesmo nariz arrebitado na ponta, acompanhando a lógica das maçãs do rosto, e os lábios, finos, com cantos afiados. Ela usava o cabelo mais curto e com uma franja lateral fora de corte, e ele constantemente caia na frente do seu rosto e era jogado para trás com distração. De maneira geral, era como voltar no tempo e estar diante da Bellatrix como a vira na escola, em seu último ano.
– Então, Black. – ela chamou sua atenção, inclinada na parede oposta, a varinha entre os dedos, dando batidinhas em seu joelho. – Você é um homem livre, agora. Qual o seu próximo passo?
– Bem, eu não sei o meu próximo passo, mas o seu certamente é voltar para casa. Não acha que essa brincadeira de ‘Salve o Prisioneiro’ já foi longe demais? Eles vão mandar os dementadores atrás de mim, e quem quer que esteja por perto…
– Você realmente acha que eu não posso lidar com dementadores? – ela lhe interrompeu, impaciente. – Trabalhei em Azkaban por um mês inteiro!
Ele fechou seus olhos por um momento, soltando longamente seu ar. Não só porque ela não estava sendo razoável, mas por que era difícil olhar para seu rosto e não sentir os ecos do passado retornando.
– Dessa vez eles terão permissão para arrancar sua alma fora sem pestanejar, você sabe. – explicou pacientemente.
– Eu não sou uma incompetente, Black. Suas chances de conseguir escapar deles aqui fora aumentam se contar com ajuda. – ela lhe lembrou, num tom parecido. – Aliás se não fosse pela minha ajuda, você ainda estaria apodrecendo naquela cela nesse momento.
Resignado com a verdade em suas palavras, se permitiu um suspiro de rendição e um assentimento.
– Você está certa. Obrigado. – algo nos olhos dela se iluminou diante de suas palavras, mas ele prosseguiu – Isso não quer dizer que vamos virar cúmplices de fuga. Você tem dezesseis anos, garota. Precisa ir para a sua casa. Vá fazer o que as meninas de sua idade fazem, eu não sei o que é, mas não deve ser ficar fugindo por ai com um cara procurado pelo Ministério.
Ela deu um risinho amargo e cético, meneando a cabeça.
– Você não faz ideia, não é mesmo?
– Do que eu não faço ideia?
– Minha vida até agora. Se pode-se dizer qualquer coisa dela, é que não foi como a das “meninas da minha idade”. Além do mais, acho que você está perdendo um ponto.
– Estou?
Ela assentiu, desviando o olhar para a chama, fazendo com que a luz se refletisse em suas íris.
– Você não é “um cara” qualquer fugindo.
Como Sirius não esboçou resposta e o silencio se instaurou, ela voltou a fitá-lo, em renovada ênfase.
– Além do mais, não vão nos encontrar. O lugar é seguro.
Ela levantou e andou até a entrada do local que estavam: um arco de pedra apenas discernível pela pouca luz que vinha do teto, fornecida pelas estrelas. Sirius a viu lançar alguns feitiços para o lado de fora, que ele reconheceu – encantamentos para detectar presenças de outros seres numa certa circunferência em torno de onde estavam. Ela voltou para perto dele logo depois.
– Estamos bem. – avisou, puxando a mochila. – Está com fome? Tenho torta de carne. Já esfriou, e eu não sei nenhum feitiço de aquecer comida, mas perto do que você comia em Azkaban isso aqui vai parecer culinária francesa.
Então ela sabia feitiços de proteção de propriedade, mas não estava familiarizada com alguns muito básicos de uso doméstico? Devia ter a ver com o tipo de vida ao qual se referia, mas ao invés de fazer um comentário, aceitou a torta oferecida. Era mesmo uma maravilha perto do que vinha comendo nos últimos anos, tanto que se permitiu apreciar a textura da massa e da carne em cerimonioso silêncio.
– Você vai fazer a graça de me dizer que tal de lugar “seguro” é esse? – perguntou, por fim, quando a torta estava aniquilada.
– Um castelo.
– Não tem graça. – avisou, mas tudo que ela fez foi lhe dar um olhar intrigado em retorno. – Ótimo, tanto faz. Assim que amanhecer eu vou para outro lugar, ficar parado só aumenta as chances de me acharem.
– Ah, isso me lembra – mais uma vez, ela colocou a mão na mochila, e tirou de lá uma varinha diferente da sua. – Acabei desarmando um guarda durante a fuga. Você pode ficar com ela por enquanto.
Ele aceitou o artefato mágico, analisando as runas marcadas nele e a estrutura de seixo flexível. Fibra de coração de dragão, provavelmente. Produção de Olivaras, não mais que uns quinze anos de uso, se fosse estimar. Talvez respondesse bem à ele, talvez não. Fibra de coração de dragão era sempre temperamental.
– Era de um Quarter, você disse? – procurou confirmar, a girando entre os dedos.
– Sim, Olleant, era o nome dele.
Sirius assentiu. Em seguida, segurou cada extremidade da varinha com uma mão, e num movimento decidido a quebrou em duas partes. O estalo ecoou nas paredes ao redor deles, e Bervely deu um pulo.
– Black! Ficou maluco!?
– Você quer que eu use a varinha de um auror? Quanto tempo acha que vai levar para ser rastreada, no momento em que eu fizer qualquer feitiço? Provavelmente tem alguém à postos só esperando que um de nós faça uma estupidez como essa!
Ela arfou, levemente desconcertada. Ele não viu, mas podia jurar com um rosa pálido teria tingido a pele alva que herdara da mãe.
– Me dê sua varinha.
O desconcertamento foi substituído por ultraje.
– Não vou entregar minha varinha à você!
Sirius rolou os olhos; humores explosivos, orgulho inflamado, tudo que ele precisava para o seu primeiro dia de liberdade.
– Não vou ficar com ela, só quero colocar uma proteção em torno do lugar. Se vamos mesmo passar a noite, não posso confiar minha segurança nos feitiços de proteção de uma adolescente temperamental.
Ela entregou sua varinha, embora relutante e de cara feia. Ele se distraiu com a expressão, então demorou a perceber que conhecia aquele objeto mágico; de fato, muito mais do que gostaria.
– O que você está fazendo com a varinha de Bellatrix Lestrange? – perguntou acusadoramente.
Bervely piscou, surpresa.
– Eu herdei quando fiz onze anos. Como sabe que era dela?
– Eu estava lá no dia que ela a comprou. Vinte e nove centímetros, rígida, nogueira e fibra de coração de dragão. Tem esse estúpido símbolo rúnico de pureza para representar a Família Black, mas acabou servindo como uma proteção contra poeira. – Sirius balançou a cabeça, percebendo que estava divagando – Então não a destruíram quando ela foi presa? Tratamento privilegiado para a realeza, que surpresa.
– Não era essa a varinha que ela usava quando era Comensal. – Bervely informou, sua expressão inteligível. Ele se sentiu aliviado; ao menos, não estava segurando um instrumento de tortura, assassinato e inimagináveis perversões que a sua prima cometera durante a guerra.
Passando por cima do sentimento incomodo de usar justamente aquela varinha, encantou o cômodo com feitiços que fizera tantas e tantas vezes durante a guerra. Anti-aparatação, alarme de invasores, névoa-distratora de trouxas… supunha que estavam em alguma construção muito velha e abandonada, e só esperava que a garota estivesse certa e fosse segura o bastante para aquela noite.
– Você não confia em mim. – Bervely observou, assistindo-o lançar todos aqueles feitiços não verbais.
Ele lhe deu um olhar de relance.
– Eu não confio em ninguém, garota. Não é nada pessoal.
– Mas eu te ajudei a fugir. – insistiu, e pelo seu tom, estava muito segura de que as duas coisas eram fundamentalmente opostas por natureza. Sirius, satisfeito com seu trabalho, girou a varinha na mão e a estendeu para ela.
– Sim. Você é a garota maluca que se infiltrou em Azkaban, Merlin sabe procurando o quê, ao invés de aproveitar as suas férias de verão, eu não sei, fazendo piquenique com seus amigos? Não satisfeita, você resolveu que ia acatar o pedido de um prisioneiro que, até onde sabia, podia estar completamente insano pelos seus anos de cárcere. Então, não me julgue se eu acho que você é um pouco desequilibrada.
Ela deu de ombros, precisando admirar aquele raciocínio.
– Ok, talvez você tenha um pouco de razão.
Ele ergueu os cantos da boca; não um sorriso de verdade, só a encenação de um.
– Por que você me ajudou? – resolveu perguntar, cortando a delonga.
– Porquê… – seus olhos correram por ele, como se a resposta estivesse ao alcance dos olhos, ou escrita em algum lugar – Porque você é um Black.
Sirius deu uma risada seca.
– Talvez eu devesse ter lhe informado que eu sou o maior traidor dessa geração, então. Eu nem mesmo estou na maldita árvore. Sinto muito por desapontar. – Só que ele não sentia, na verdade não podia evitar o orgulho em sua voz.
– Eu sei que você não está na árvore. – ela disse muito dignamente, se empertigando, seus olhos estreitos para ele – Mas o que quer que tenha acontecido no passado, não muda o que corre em suas veias.
Sirius deu um suspiro exasperado, enfiando os dedos pelo cabelo, mas não pode terminar o gesto porque estavam embaraçados além da salvação.
– Eu vejo que eles encheram a sua cabeça dessa merda de família também. Devia ter imaginado. – resmungou. – Escuta, garota, se vamos descer por essa ladeira, é melhor você ter nessa sua mochila algo mais forte do que poção pros ossos.
Ela torceu os lábios, mas, para a sua surpresa, tirou uma garrafa pequena do que Sirius reconheceu como uísque de fogo Ogden. O rótulo passara por algumas modificações naqueles anos, mas o slogan, uma xilogravura de salamandra-de-fogo, continuava inconfundível.
– Eu quase posso perdoar o que acabei de ouvir, só por causa disso. – recebeu a garrafinha com inegável prazer. Destampou-a e deu um gole longo, sorvendo metade do seu conteúdo de uma vez. Como esperado, o líquido queimou tudo desde o topo da garganta até o esôfago, mas recebeu a sensação com prazer e saudosismo. Álcool. Neguem à um homem a sua liberdade e um par de calças decentes, bem desagradável — mas lhe deixem doze anos sem álcool e a barbárie está completa.
Quando abaixou a garrafa, a cópia de Bellatrix ainda lhe encarava, perfurante.
– Eu tenho uma pergunta. – ela disse abruptamente. Sirius fez um gesto de concessão, inclinando lateralmente a cabeça. – Qual foi a traição que o fez ser queimado?
Ele considerou por um momento, sentindo a língua arder por causa da bebida.
– Não foi uma coisa só. Eu não concordei com toda aquela babaquice de superioridade dos sangue-puros, as tradições ridículas e todas as limitações e obrigações que vinham no pacote. Imagine nascer com a sua vida toda decidida, é uma dor no saco eterna, se você quer saber.
Ela lhe olhava tão seriamente quanto possível, mas era impossível descobrir o que passava em sua cabeça naquele momento.
– Então você queria a liberdade? – concluiu de modo neutro. Sirius negou.
– Não, eu queria a escolha. Ninguém é livre de verdade, todas as suas escolhas vão aprisionar você. Eu só quis o direito de decidir quais correntes que eu ia usar, e para a minha família esse modo de pensar era um grande despaupério.
Ele não perdeu, é claro, a ironia da sua metáfora. No final, tinham sido as suas escolhas a levá-lo para a maior e mais literal prisão. Talvez não tivesse sido a melhor filosofia de vida… mas no que se tratava da sua família sabia que faria tudo de novo.
– Talvez você esteja encarando isso do jeito errado. – ela comentou, seu cenho delicado franzido – É possível escolher seu destino e honrar suas origens. A supremacia da família…
– Por favor não seja uma hipócrita, além de uma completa maluca.
– Desculpe? – pestanejou, ofendida.
– Olhe para si mesma, garota. Se ainda houvesse alguém dando a mínima para a respeitabilidade do sangue Black, você teria sido chutada da família essa noite. Libertar Sirius Black? E eu nem vou começar a falar sua sua metamorfomagia.
– O que minha metamorfomagia tem a ver com isso? – pela sua palidez, ela estava apenas tentando se concentrar na acusação em parcelas.
– É uma anomalia mágica. Não me entenda errado, eu acho uma puta habilidade, mas só acontece porque ao longo dos casamentos dos seus antepassados houve a união de sangues que “não deviam” se misturar.
– Meu sangue é puro por cinco gerações! – ela protestou, sem ar.
Ele fez o rolar de olhos com a maior angulação que conseguiu.
– Isso não importa, realmente. A anomalia segue com o sangue e se manifesta de forma aleatória, pode ficar dormente por séculos. Mas no momento que se manifesta é como uma bandeira alardeando a impureza da família, eles iam dar um jeito em você, se é que me entende.
Sirius reparou que ela parecia que prestes a hiperventilar e fez uma pequena pausa para mais um gole descomprometido.
– Sério que nunca soube disso? Você parece estar com bastante controle das transformações para não ter pesquisado sobre.
– Eu desconfiava. – admitiu ela, sem olhar para ele. Sirius sorriu perspicaz.
– Você nunca contou à eles, não é? Seus parentes puro-sangue, você escondeu. Esperta, muito esperta mesmo. Nem quero imaginar o tipo de coisa que fariam para tirar de você.
– Eu nunca disse a ninguém. – ela confessou. Tinha tornado a olhar para ele, e voltara a ficar séria e defensiva. – Mas não é algo ruim, eles estão errados se pensam assim!
– Sim, sobre isso e muitas coisas. – para dar ênfase, levantou a garrafa na direção dela, como num brinde. – Talvez você tenha salvação, no fim das contas.
Bervely meneou a cabeça e voltou a se encostar contra a parede, fechando os braços em torno do corpo, olhando distraidamente para as chamas. Sirius aproveitou a pausa na conversa para tirar do pescoço a coleira velha – a pedra da lua agora partida em duas.
– Isso é seu.
Seu olhar para a peça foi quase de desinteresse.
– Está quebrada.
– Foi o único jeito de liberar o seu Patrono, sinto muito. Eu consertaria, mas não tenho a uma varinha, e estou com a leve sensação de que você não vai querer me emprestar a sua de novo.
– Você não precisou de uma da última vez, precisou? Se vira.
Sirius guardou a coleira de volta no bolso, observando a expressão endurecida dela. Ele sabia o que estava acontecendo, bem como o previra. Por isso não quisera encontrá-la fora de Azkaban, ou lhe dar qualquer esperança de que iam seguir juntos dali em diante.
– Eu não sou o que você esperava. – falou, sabendo que fazia eco aos pensamentos dela.
Bervely não desviou os olhos da chama, ou lhe respondeu qualquer coisa. Claramente, no que dependia dela aquela conversa tinha terminado.
as a friend
as a friend, as an old enemy
(como um amigo,
como um amigo, como um velho inimigo)
– BD –
take your time, hurry up
choice is yours, don't be late.
(tome seu tempo, se apresse
a escolha é sua, não se atrase)
Bervely estava, apesar de tudo, satisfeita e orgulhosa com a sua escolha para esconderijo. Ela esperou que o humor de Black melhorasse no dia seguinte, quando ele pudesse dar uma olhada onde estavam, e que com isso lhe contasse os seus próximos passos. No entanto, quando abriu os olhos com um raio de sol incidindo sobre seu rosto pelo buraco no teto, não havia mais ninguém no cômodo, o que a fez saltar alarmada.
As possibilidades eram duas: ou ele tinha sido pego durante a noite, ou então cumprira a promessa e fora embora sem avisá-la. Logo descartou a primeira opção, afinal, porque os dementadores a poupariam? Pegou a varinha e deixou o cômodo, sabendo que para onde quer que ele tivesse ido, não seria tão longe assim, afinal não podia aparatar.
O sol de East Lothian lhe queimou os olhos num primeiro momento, no minuto em que pisou no átrio interno do Castelo de Tantallon – ou melhor dizendo, de suas ruínas. A combinação do céu limpo, do mar azul turmalina e da grama mais verde que ela já vira na vida tiraram seu fôlego por um momento.
Ela atravessou o gramado sem parar para admirar a vista, no entanto. Venceu as dezenas de metros até a beira do promontório e olhou lá embaixo, para um lado e outro da praia pedregosa, precisando colocar uma mão esticada acima dos olhos por causa da claridade. Não demorou muito para enxergar uma pequena comoção ao longe – um bando de gaivotas eram perturbadas de sua caça matinal por um enorme cão negro que latia em torno delas e as perseguia aos saltos de um lado para o outro, balançando a cauda alegremente.
Ela exalou em alívio, deixando o braço cair. Pela próxima meia hora, sentou na grama e ficou observando o cão correr de um lado à outro, infernizar os pássaros e se banhar na água gelada do mar do norte como se tudo aquilo lhe tivesse sido negado na última dúzia de anos, porque era exatamente o que tinha acontecido.
Bervely só imaginava como devia ser a sensação de sentir o vento, o sol ou a areia sob os pés – ou no caso, as patas; a verdade era que só Black sabia o quanto ter tudo aquilo de volta significava. A mera oportunidade de presenciar a cena apertava seu peito, e ela mal percebeu que um sorriso se esticara em seu rosto sem chance de retenção.
Quando, mais tarde, Black achou seu caminho de subida de volta para o topo da plataforma, ela estendera uma toalha no chão, em uma parte de sombra, e estava distribuindo parte da comida que roubara da dispensa dos Tonks na noite anterior. Ele sacudiu violentamente a pelagem, espalhando água para todos os lados, antes de retornar à forma humana.
– ‘Dia. – Bervely cumprimentou, neutra, olhando para cima enquanto ele se aproximava. – Soltando os bichos essa manhã, não estamos?
– Você ainda está por aqui. – observou ele perspicazmente. Estava usando nada mais do que as calças da prisão, o peito tatuado desnudo e os pés descalços. O comprido e molhado cabelo se grudava à pele onde encostava, e os olhos muito escuros brilhavam perigosamente. Ela não se deixou intimidar.
– Parece que sim.
– Então talvez você possa me explicar por que diabos de razão – sentou-se à beira da toalha, estreitando os olhos – estamos nos escondendo num castelo. Essa é a sua idéia de discrição? Um maldito castelo trouxa enorme na beira do mar que se não tiver dono, certamente está na página de algum guia turístico? Aliás, que lugar é esse? Não consigo me lembrar de qualquer coisa parecida na Inglaterra.
– Isso porque não estamos na Inglaterra. – sem se abalar, ela lhe ofereceu mais uma torta de carne e uma garrafa de suco de Pilgre – Esse é o Castelo de Tantallon, em East Lothian. Pertenceu ao Clã dos Douglas durante setecentos anos, mas atualmente foi vendido para uma instituição trouxa de manutenção de patrimônios históricos ou algo assim. O importante é que ele foi construído por bruxos e tem encantamentos de proteção em suas fundações. De fato, eu pude reativá-los…
– Espera aí – Sirius quase se engasgou com a informação – Você disse East Lothian? Como em East Lothian, Escócia?
– Sim. – assentiu ela, satisfeita. – Continuamos à beira do Mar do Norte, mas bem longe de Azkaban. Achei que eles iam querer cobrir os lugares de sempre na Inglaterra antes de procurarem em outro país, afinal por que você viria direto para a Escócia, não é mesmo?
– Eu certamente não viria, por que aparatar entre as fronteiras sem permissão dispararia todo tipo de alarme! – ele exclamou – Aliás, como…?
– Pare de se desesperar, Black. O Reino Unido assinou um acordo de liberdade de aparatação em 1987, precisei estudar isso durante o curso, na escola. E como eu lhe disse, o lugar é perfeitamente seguro. Agora coma a sua torta.
Sirius olhou para ela com espanto, querendo saber de onde vinha tanta segurança e deliberação. Eles comeram em silencio por algum tempo, imersos cada um em seus próprios pensamentos – Bervely tentando adivinhar o que se passava na cabeça dele, e Sirius não muito longe disso, tentando adivinhar o que raios ela tinha na cabeça para continuar ali, até que ela não aguentou mais sustentar a quietude.
– Em Azkaban, você falou que as coisas tinham mudado. – começou, olhando pra ele de relance. – As circunstancias, você disse. Ao que estava se referindo? Antes você não queria sair, então de repente…
A expressão dele se fechou, como se ela tivesse perguntado algo ofensivo.
– Isso não é importante.
– É mesmo? – Bervely inclinou sua cabeça, irônica – Por que do modo que eu vejo, faz toda a diferença.
Ele não lhe disse qualquer coisa.
– Sabe – ela tentou, especulativa, lembrando-se do que Sirius murmurara durante o sono, segundo Theodor. – Eu sei que tem a ver com Potter. Harry Potter, seu afilhado.
Ele ergueu o rosto tão rápido e incisivamente que Bervely soube que tinha tocado num ponto sensível.
– Que é você sabe sobre Harry? – exigiu Sirius num rosnado.
– Bem, eu o conheço de vista, estudamos na mesma escola, lembra? Então é isso? Você vai atrás dele agora? Como isso ajuda a provar a sua inocência?
– De onde tirou essa ideia?
– Posso descobrir onde Potter mora. – afirmou, pensativa. – Se eu conseguir algo dele, com certeza é possível rastrear…
– Já chega! – Sirius exclamou, batendo a mão sobre a toalha, tão abruptamente que ela se sobressaltou. – Você NÃO vai procurar Harry Potter! E essa conversa, essa conversa sobre o que eu vou fazer a seguir, ela não vai acontecer, entendeu?!
Ele se levantou, furioso, deixando Bervely ainda sentada e atônita.
– Eu vou verificar o resto do castelo, ver se realmente estamos seguros. Quanto a você, se insiste mesmo em ficar por perto, é melhor esquecer sobre Harry Potter. Nem mais uma palavra sobre isso!
Ele saiu depois disso, se transformando em cão em alguns metros e sumindo entre as ruínas. Bervely, de lábios muito franzidos e claramente insatisfeita, observou a calda peluda e negra sumir de vista.
– Ok, então, Black. – murmurou, irritada. – Enfie Potter onde quiser, quem está se importando?
– BD –
take a rest, as a friend
as an old memory.
(dê um descanso, como um amigo
como uma velha memória)
Sirius tinha uma série de ressalvas em relação à Bervely Black – para Snuffles, no entanto, a coisa era um pouco diferente. A grande questão sobre ter uma versão animaga era que, apesar de dividirem a mesma personalidade e objetivos, eles nem sempre estavam em acordo sobre atitudes. O cão era mais impulsivo, instintivo e simples – as coisas que ele queria nem sempre aceitavam interferência das coisas com as quais sua contraparte humana se preocupava, receava ou temia.
Então, durante a noite quando a garota se moveu e sentou no chão da cave sob o Salão Principal do castelo, onde eles voltaram para dormir naquela segunda noite, Snuffles despertou imediatamente, alerta, querendo saber o que a estava incomodando.
O olhos de Bervely piscaram na semi-escuridão. Dessa vez ela tinha conjurado um Fogo-Negro, que aquecia sem fazer luz, porque ele insistira que era mais discreto do que uma chama acesa a noite inteira. Então, a única iluminação provinha do céu estrelado, estando pelo buraco do teto, e sob ela, suas feições eram ainda mais jovens e familiares que nunca.
– Você ouviu? – ela perguntou, a varinha já em punho. – Era como… uma canção, ou uma cantiga.
Snuffles estava tranquilo, tinha certeza que não estavam em perigo. Se houvesse uma ameaça por perto, seus instintos a teriam detectado, essa era a parte boa de ser cachorro. Isso, e ser um bocado mais confortável dormir no chão duro quando o seu corpo era coberto de pelos. Ele cruzou as patas em frente ao corpo e deitou a cabeça sobre elas, querendo lhe dizer que estivera sonhando. Ninguém estava cantando, dementadores não cantavam, muito menos aurores em serviço.
Bervely franziu os lábios, incerta se imaginara aquilo, depois soltou um suspiro, esfregando as mãos nos braços para se esquentar. A chama era boa, mas a noite na Escócia podia ser impiedosa e o buraco no teto não deixava a temperatura ali dentro se equilibrar. Tinha tentado fechá-lo com um feitiço reparador mais cedo, mas as ruínas o tinham recusado imediatamente, cuspindo os pedaços de pedra do remendo na cabeça deles.
– Tudo bem, volte a dormir. – ela murmurou, voltando a deitar a cabeça sobre a mochila, o resto do corpo encolhido sobre o assoalho desgastado. Seu cabelo deslizou pelo o rosto, lustroso como água, e ela o tirou impacientemente, de olhos fechados, se encolhendo mais ainda.
O cão esperou que ela pegasse do sono, observando o padrão de sua respiração, até que este se tornasse mais lento e constante. Quando teve certeza que adormecera, ele se arrastou devagarinho até o lado dela e se enrolou ali, na altura de seus joelhos, barrando o vento frio que vinha em sua direção com a pelagem densa.
Talvez o humano discordasse, mas não havia razão para deixá-la sentir frio, além de tudo o mais de que ela estava se privando para ficar ali com ele.
– BD –
Ficar a maior parte do tempo em sua forma animaga era um hábito, mais do que uma necessidade. Foi assim que ele tinha passado a maioria do primeiro ao em Azkaban, sempre que estava fora do alcance dos olhos dos guardas, porque afinal, enfrentar o isolamento era senão mais fácil, menos complexo no corpo de um cão. Quando era um cão, Sirius não precisava lidar com muito da culpa e da amargura, nem abarcar a imensidão do seu luto. Um cão não tinha grandes pensamentos sobre o futuro ou sobre o passado, reflexões que no começo ele mal podia suportar.
Estar de volta ao mundo real, fora das paredes de Azkaban, era quase a mesma coisa. O que ele perdera em grades e escuridão ganhara em obrigações; precisava encarar tudo que se acostumara a jogar no fundo da sua mente, afinal, qual era o ponto de tanta reflexão, se nunca ia poder tomar outra escolha em sua vida? Mas com a liberdade havia um mundo de possibilidades, tão amplas quanto o céu e o mar se descortinando à sua frente, e isso era… assustador – especialmente para a mente humana.
Foi como cão, portanto, que Sirius atravessou muitos metros de praia na manhã seguinte. Escolheu se levantar quando ainda estava escuro, deixando a cave sem ser percebido e escalando a parte menos íngreme até o sopé do precipício. Enquanto caminhava – sentindo a brisa do mar, a terra e pedrinhas nas patas como sensações sublimes – pensou realmente em ir embora. Precisava, afinal de contas. Não tinha saído de Azkaban para ficar tomando sol e comendo torta de carne em algum ponto paradisíaco da Escócia; havia uma missão envolvida em sua decisão, desde que descobrira que o rato traidor estava vivo.
Tudo que ele precisava era seguir em frente, até um ponto da praia em que fosse possível subir novamente para a costa, e dali tomar um rumo qualquer até encontrar uma cidade. Voltar para a Inglaterra não seria difícil – haviam muitas linhas de trem trouxa que conectavam os dois países, transportando cargas, ele certamente poderia se esconder em uma delas e, se flagrado, contar com a simpatia natural que grande parte dos seres humanos nutriam a respeito dos cães. Quando a filha de Bellatrix acordasse ele estaria longe, e ela não teria opção senão voltar para casa, onde quer que esta fosse. Pronto, tudo seria resolvido… nesse momento os primeiros raios de sol começaram a despontar no horizonte, fazendo com que o humano nele se detivesse.
A aurora. Doze anos inteiros sem ver o sol surgir no horizonte, fenômeno para o qual jamais dera importância em sua juventude. Nunca fizera sentido que as pessoas fossem atraídas para algo tão ordinário – afinal, o sol nascia literalmente todo santo dia, o que havia de tão especial sobre o fenômeno?
Sirius voltou à sua forma humana, os ossos se rearranjado na posição bípede, os pêlos se retraindo para dentro da pele quanto o cabelo se alongava até o meio de sua coluna. Ele se sentou numa das pedras altas à beira mar e assistiu, com toda atenção, o sol iluminar o penúltimo dia de julho de 93. Era algo que seus olhos caninos – que só viam um número limitado de cores – jamais poderiam abarcar. As matizes de laranja, rosa, lilás e dourado nunca tinham lhe parecido tão fantásticas. Não tinha nada a ver com o Sol nascer todos os dias, percebeu enfim, incapaz de evitar a emoção com o que estava vendo acontecer no horizonte (e se sentindo um pouco babaca por isso, mas tudo bem) – tinha haver com ele, com a sua cota de nascentes – havia um número limitado para cada homem, e ele perdera tantos.
Quando o sol se revelou por completo, ficando tão brilhante que não mais podia ser olhado diretamente, Sirius levantou-se da pedra e voltou à forma de cão.
E ao invés de seguir em frente, ele girou sobre suas patas, e tomou o caminho de volta para o castelo.
– BD –
come doused in mud
soaked in bleach.
(venha mergulhado em lama
embebido em alvejante)
Bervely estava tentando permanecer calma. Também, ela tentava se manter fresca, apesar daquele ser provavelmente o dia mais quente do verão escocês – colocara a única roupa leve que dera tempo de enfiar na mochila, uma blusa de alças finas que Andrômeda lhe presenteara no verão passado, mas ainda estava de calças compridos, resistindo à tentação de pular no mar para se refrescar.
Quanto ao seu nervosismo, bem, mais uma vez ela acordara e Black não estava em nenhum lugar visível. Qual era o problema dele em avisar que ia dar uma caminhada? Ou se ia embora de vez? Seus instintos diziam que Black não se importava a o mínima em dar satisfações – apertou com força as páginas de La Voix du Sang, tentando ler mas sem grande sucesso.
No momento em que Black enfim despontou no horizonte, subindo para o promontório pelo leste do castelo, ela viu pela visão periférica e fingiu que não se importava. Não esboçou qualquer reação até ele chegar perto – trazendo consigo o cheiro de sal pungente e espirrando algumas gotículas do cabelo molhado sobre as páginas do livro, ao mesmo tempo em que fazia sombra sobre ela com seu corpo. Bervely deu um suspiro exasperado e ergueu o rosto.
– Você se importa? Tentando ler aqui.
Ele sorriu. O efeito foi o de um gancho retorcendo seu estômago, de forma tão repentina que ela se esqueceu porque estava irritada.
– Desculpe. O que está lendo?
Aquele Sirius Black que sentou ao seu lado nas ruínas do que antigamente fora uma cozinha não era o mesmo do dia anterior, com a mais absoluta certeza. Como ele manejara conseguir um tanto de cor em sua pele, disposição em seu rosto e brilho nos olhos escuros de um dia ao outro ela não fazia a menor ideia. Ele não esperou a resposta, tampouco, se inclinando para o livro e fechando-o para olhar a capa, a molhando mais um pouco no processo.
– A Voz do Sangue? Por que eu tenho a impressão que essa não é uma leitura apropriada para a sua idade?
Ela puxou o livro para longe dele; Snape literalmente lhe mataria se recebesse seu exemplar de volta com enormes manchas de água salgada borrando as páginas. O conhecimento de que Black entendia francês não lhe passou desapercebido.
– Estou com fome. – comentou ele, sem se importar, até achando graça, da cara feia dela. – Não tem mais daquelas tortas de carne na sua mochila?
Ele puxou para perto a mochila enquanto falava, mas Bervely a arrancou dele num movimento ágil.
– Fique longe disso, Black, se você tem amor à sua vida.
– Tudo bem – ele ergueu as mãos em rendição, um brilho divertido nos olhos – Longe de mim desafiar você, a única de nós dois que tem uma varinha.
Bervely piscou amortizada. Quem era aquele homem? Ela buscou um fôlego, estreitando seus olhos irritadamente.
– Bem, você poderia ter uma mas você a quebrou, não é mesmo? Com medinho do dono vir buscar.
Sabia, é claro, que estava falando coisas sem sentido, e que ele estivera certo sobre a varinha. Energicamente e para ocupar-se ela começou a tirar as coisas da mochila, procurando algumas barras de cereal que sabia que tinha enfiado ali em seu assalto. Sirius ficou olhando as coisas que ela colocava para fora sobre a grama – diversos frascos de poção, mais livros, roupas, uma pena de corvo, um dos pés de uma bota de cano longo, uma caixinha de joias, um brinquedo…
– Hey – ele apontou para essa última coisa, que veio saltando pela grama em sua direção de forma letal – Isso é um dinossauro?
Ela arregalou os olhos, enfiando a miniatura de volta na mochila. Ele reparar nas bochechas coradas dela e achou graça.
– É tudo o que eu tenho – empurrou nele umas três barras de cereal com passas e castanhas – Vamos ter que arranjar alguma coisa pro almoço.
– Eu posso caçar. – o bruxo olhava feio para a comida de passarinho que lhe fora entregue. – Não saí da prisão pra ficar comendo coisa de passarinho! Preciso de algo substancial, carne, pingando sangue e com bastante gordura de preferência.
– Sim, senhor, porque não vai até o nosso pasto e escolhe uma das nossas vacas, senhor? – ironizou ela, apontando para o pátio vazio com um enfático movimento do braço. Sirius rolou os olhos, em seguida olhando ao redor pensativamente. Parou no rochedo sobre o mar, cerca de dois quilômetros longe da costa, tendo uma ideia.
– Gansos.
– Como é? – ela já tinha se distraído colocando os pertences de volta à mochila, de qualquer jeito, só conseguindo enfiar tudo lá por causa do feitiço de expansão.
– Tem gansos naquela pedra, gansos dão um ótimo churrasco.
– Ótimo, posso aparatar você até lá.
Ele negou. Já tinha se levantado, todo disposto, medindo a distância até o rochedo.
– Não precisa, vou nadando.
– Ficou maluco? Você deslocou seu braço da última vez, e ainda tem um hematoma do tamanho de um prato aí!
Ele fez um gesto de pouco caso com a mão.
– A parte boa é que você já sabe como colocar no lugar, se precisar. Me espere aqui, e vá acendendo uma fogueira. Também vamos precisar de uma faca afiada, você é boa em transfiguração? Pedras dão boas facas.
Bervely assistiu com grande incredulidade o bruxo se tornar cão, descer o promontório e entrar no mar. Seu filho de uma cachorra louca, xingou, se levantando para poder vigiar enquanto ele vencia a distancia – enorme – entre a costa e o rochedo, que ela sabia se chamar Bass Rock, de acordo com o mapa. Suspirou de alívio quando o pontinho preto alcançou terra, após alguns minutos, aparentemente inteiro.
Ela voltou a sentar recostada à ruína do antigo muro da cozinha, esfregando a ponte do nariz.
Sirius Black era um maluco.
Sirius Black era um maluco, e ia enlouquecê-la também, isso estava um tanto claro.
– BD –
Ele estava certo sobre o ganso – assado lentamente, temperado com sal que Sirius retirara da água do mar com um feitiço – se tornara crocante por fora e suculento por dentro como nenhuma outra ave que ela comera antes (ou talvez isso tivesse mais a ver com a fome do que com a competência dos cozinheiros do seu passado).
– Eu nunca admiti à mim mesmo esquecer a magia que aprendi. – ele contou a certa altura, quando ela comentou sua admiração por ele se lembrar de tantos feitiços – Mesmo sabendo que eu provavelmente jamais voltaria a tocar numa varinha, eu me obriguei a revisar tudo que eu tinha aprendido, detalhe por detalhe, repetidamente ao longo dos anos. Não é como se eu tivesse mais o que fazer – deu de ombros – e além do mais, ajudava a manter a mente ocupada.
– Eu li que quando um bruxo fica muito tempo sem fazer magia, a magia o abandona. – comentou Bervely, mas Sirius negou de prontidão, ao mesmo tempo em que chupava os ossos da coxa do ganso fazendo ruídos pouco educados.
– Isso pode acontecer, mas é uma consequência, e só se o bruxo desistir primeiro. Não foi o meu caso, eu nunca desisti.
Black estava falando da magia, mas ela não pode evitar de estender aquela verdade para os outros aspectos da vida dele. Black jamais desistira da sua sanidade ou da sua inocência. Ele continuara travando aquela luta contra a rendição aos dementadores, por mais vã que pudesse parecer. Bervely, que vira o quanto os outros prisioneiros tinham seguido o caminho oposto durante o tempo que estivera em Azkaban, gostaria de saber qual era a diferença dele para os demais.
O ganso se tornou uma pilha de ossos bem roídos ao lado do fogo, à medida que a tarde avançou. Black foi voltando ao seu modo pensativo e taciturno, enquanto que Bervely se pegou observando as runas negras sobre o peito dele e se perguntando se um dia elas desapareceriam, ou até que ponto ainda o influenciavam, uma vez fora da prisão. Será que o deixava mais suscetível aos dementadores? Talvez houvesse um jeito de apagá-las, mas se existisse, seria um segredo Shadowtamer muito bem guardado…
Sirius capturou a direção do seu olhar, e adivinhou o que ela estava pensando.
– Depois que eu provar minha inocência, vou dar um jeito de me livrar delas.
– Na verdade, você poderia reverter algumas… Ansur, por exemplo. – ela apontou para o que parecia um “F” inclinado no centro do peito dele – e Eolh – era a que estava logo abaixo dessa, como um tridente invertido – Se elas forem usadas no sentido certo, podem trazer benefícios à sua magia. Quanto à Iar – indicou a última tatuagem da linha central do seu peito, um tipo de cruz de seis pontas, sendo a de cima e a de baixo mais compridas – Ela não pode ficar. Não tem sentido inverso, não dá para torná-la algo bom.
Ela não reparou como recebia dele um olhar intrigado, quase beirando o incomodo.
– Como você sabe tanta coisa sobre tudo?
Bervely quase riu, achando graça do tom de espanto.
– Eu pesquiso. Ao invés de ficar fazendo piquenique com meus amigos, sabe. – completou zombeteira, lembrando-se do que ele dissera mais cedo.
– Foi como achou o castelo? Pesquisando “bons lugares abandonados para fugir da justiça e de criaturas das trevas?” Deve ser interessante propor esse verbete na biblioteca.
Ela rolou os olhos. Se nada, o Sirius Black de barriga cheia era mais bem humorado do que o faminto.
– Não, achei o castelo por acaso folheando um livro. Posso lhe mostrar, quem sabe assim você finalmente confia em mim sobre estarmos completamente protegidos pelos encantamentos de proteção dele.
Sirius deu de ombros, indicando que por ele tudo bem, então ela saltou e foi buscar o Signo Negro na mochila. Procurou o capítulo referente às propriedades mágicas da Família Black, tanto as recentes quanto as antigas, e lá no final estava Tantallon, ilustrado em sua glória completa, não em ruínas desgastadas por setecentos anos, três batalhas e a ação impiedosa da maresia.
– Limpe suas mãos. – exigiu, antes de entregar à ele. Sirius esfregou os dedos gordurosos na calça, bufando de impaciência. Depois ele leu o artigo sobre o castelo com atenção, seu cenho se franzindo mais e mais à medida que avançava na história.
Segundo o livro, a fortaleza fora construída pelo Primeiro Conde de Douglas, no século quatorze, para ser a morada oficial daquela linhagem, uma das mais influentes da Escócia. Essa mesma família era conhecia por sua grande parcela de sangue mágico e significativa habilidade em escondê-lo ao longo das gerações, de modo a continuar integrando a alta nobreza escocesa sem ser vitimada pela caça às bruxas em vigor na Europa durante a Idade Média.
O próprio William Douglas era um feiticeiro poderoso, de forma que incluiu nas fundações do castelo todo tipo de encantamento que pudesse mantê-lo de pé e longe do alcance de inimigos. A traição veio, entretanto, do seu seio familiar. Willian tivera dois filhos, o primogênito e bruxo James, e o bastardo, filho da cunhada de sua esposa – George. Este último nascera tão desprovido de magia quanto provido de ambição; jamais aceitara sua posição de filho ilegítimo, e sua constante disputa pelo poder resultou na divisão da família em duas linhagens – Os Black Douglas, original da qual James prosseguiu como sucessor, e os Red Douglas, encabeçada por George, que também passou a ser chamado, posteriormente, de Conde de Angus, sendo ambos os títulos equivalentes.
O primeiro Conde de Angus herdou Tantallon, e partir de então o castelo se tornou morada da contraparte trouxa da família, apesar da sua natureza originalmente mágica. Os Black Douglas, por sua vez, herdaram as demais propriedades e com os anos, travaram relações próximas com famílias nobres do norte do Reino Unido, até misteriosamente desaparecem dos registros trouxas em torno de 1480. Esta era a data, coincidentemente, de uma das mais importantes alianças feitas entre a família Black e a nobreza escocesa, através do casamento de Canopus Black com uma jovem bruxa chamada Arista Douglas, filha única do nono Conde de Douglas e terceiro Conde de Avondale.
Com a morte de seu pai, todas as propriedades mágicas passaram automaticamente para a sua única herdeira, e é claro que a informação jamais atingiu os registros trouxas, que consideraram, para todos os efeitos, a Casa dos Douglas como extinta. Sirius, tonto com as idas e vindas histórico-familiares que odiava profundamente por trauma de infância, pulou para o fim da história: os Red Douglas, parcela trouxa da família criada pelo bastardo George, também encontrara a sua extinção às voltas do século 18, dessa vez sem herdeiros. Algumas das muitas propriedades foram clamadas pelos descendentes de Arista e Canopus, já que estes também eram descendentes dos Douglas, mas Tantallon nunca fora uma delas. Permanecia no momento sob os cuidados de uma instituição trouxa do governo, mas não era sua de direito, ao menos era o que dizia o livro.
Sirius levantou seus olhos um tanto zonzo, e encontrou um sorriso luminoso no rosto de Bervely.
– Viu só? O castelo é da família Black por herança, por isso estamos protegidos. Desde que os feitiços ancestrais reconheçam que somos os seus verdadeiros donos, vão impedir que qualquer invasor entre sem a nossa permissão. Agora, eu tenho outro livro, aquele que eu estava lendo hoje mais cedo, que fala sobre defesas ativadas por sangue, e assim eu pude me identificar ao castelo assim que chegamos, o que garante perfeitamente…
Mas ele não estava mais ouvindo. Começara a folhear o livro que tinha em mãos, de repente sendo confrontando por todo tipo de mapas genealógicos, grandes enxertos sobre sangue e linhagem, e o pior, muitos rostos conhecidos da sua infância, avós, bizavós e tetravós os quais precisara decorar os nomes e as histórias para vomitar nos eventos de família, e apanhar quando não o fazia…
– Onde conseguiu esse livro? – havia uma frieza cortante em sua voz. Ele acabara de virara a capa e ler as inscrições em ouro, e reconhecer o brasão que assombrara os anos da sua infância.
– Foi um presente. – ela disse na defensiva, percebendo a subida mudança de humor dele.
– De quem?
– Não importa. – ela tentou pegar o livro de volta, mas Sirius o segurou firme, tornando a tarefa impossível. – Black, devolva.
– Quem lhe deu essa porcaria?
– Quê? Não é da sua conta! Devolva! – mas ele claramente não ia, suas enormes mãos tinham se fechado ao redor do exemplar como um par de cadeados. O brilho perigoso em seu rosto a alarmou.
– Eu o reconheço. – disse, numa calma traiçoeira. – Estudei sobre esse livro desgraçado por anos, embora nunca tenha tocado as mãos nele. Minha mãe o chamava de ‘a relíquia perdida’, porque tinha sido roubado da família há anos, embora só pudesse ser lido por Blacks… quem lhe deu esse livro?
– Bellatrix. – admitiu, contrariada. – Quando eu fiz cinco anos.
Ele balançou a cabeça.
– Impossível, ela não o tinha. Não minta pra mim, garota.
– Eu não estou mentindo! – retrucou com raiva. – Ela me deu, mas ela o ganhou, também! Eu acho que quem o recuperou para ela… foi Voldemort.
– É claro que foi. – ele anuiu, aparentemente satisfeito de que a coisa toda se encaixava. Bervely não entendia porque importava de onde o livro tinha vindo – não era um objeto de magia negra, afinal de contas. Ela por um momento pensou que Sirius o devolveria, quando suas mãos folgaram sobre a capa, mas então ele segurou a contracapa bem firme em sua mão esquerda… e com a direita, começou a destroçá-lo.
– BLACK! – ela gritou, se lançando contra ele ao ver as páginas serem arrancadas, mas o bruxo foi mais rápido em se afastar. Sua mão forte destacava grandes quantidades das páginas frágeis por vez e ele as soltava no ar, onde o vento as levava embora. – BLACK, PARE COM ISSO AGORA MESMO!
Achou que nunca tinha sentido tanta raiva de alguém. Investiu sobre ele, esquecendo que era bruxa – de nada lhe serviria a varinha, queria arrancar pedaços dele com as mãos nuas, como ele fazia com seu livro. As páginas do Signo Negro, libertas, faziam as vezes de pássaros brancos na ventania, se espalhando pelo ar, pela grama e sendo levadas pelo vento.
Merlin, ela ia matá-lo. Bastava que o alcançasse.
– SEU IDIOTA! – se lançou contra ele, finalmente conseguindo empurrá-lo com toda a força de seu corpo. Sirius balançou mas não caiu, se desviou dela e saiu andando para a beira do abismo, continuando a jogar as páginas para cima.
Bervely tinha os olhos turvos, o coração bombeando raivosamente enquanto foi atrás dele. Teve a presença de espírito de pegar a sua varinha e exclamar feitiços convocatórios, mas as páginas não chegavam à sua mão, tinham seu curso desviado pelo vento e escapavam pela tangente.
– EU VOU TE MATAR, SEU FILHO DE UMA…
Sirius jogou a capa e a contra capa do livro lá embaixo, na praia, observando com satisfação a carcaça rodopiar feito um urubu morto e pousar nas pedras. Uma onda veio e o levou rodopiando ao mesmo tempo que Bervely gritava às suas costas.
Ele se virou. Encontrou-a com o rosto retorcido de fúria.
– Você não precisava disso. – lhe disse racionalmente.
– VOCÊ NÃO TINHA O DIREITO! – ela bateu os punhos no peito dele, causando pouco dano. Sirius segurou seus pulsos e a afastou com delicadeza.
– Se você não entender agora que lhe fiz um favor, vai entender um dia. – explicou pacientemente, olhando os olhos dela queimarem, o cabelo solto voar em torno do rosto como se também estivesse furioso.
– Quem você pensa que é pra querer me ensinar lições? Aquilo era um presente! Era importante! Era…
– Um monte de mentiras! – ele completou, soltando-a. Ela voltou a avançar, o forçando a recuar para não ser arranhado. – E se você quer mesmo mesmo ficar por perto, é melhor entender isso o quanto antes.
– PERTO DE VOCÊ? Eu quero que você se exploda, seu MALDITO!
– Não posso dizer que não previ que isso aconteceria. – ele assentiu, muito sabedor, o que a irritou ainda mais.
– Ah, você PREVIU? Sério mesmo?! – exigiu, lívida.
– Óbvio. Você tem expectativas, e eu obviamente não posso atendê-las. É o que eu tenho tentando explicar desde ontem, eu NÃO sou o que você pensa que eu sou!
– A minha única expectativa era que você não fosse um idiota! – ela guinchou, exaurida. As mil folhas do livro tinham sido levadas até o mar e encontravam o seu fim entre as ondas que quebravam na enseada. – O que há de errado com você? Por que precisa agir o tempo todo como se eu fosse uma inconveniência? Se não fosse por mim você ainda estaria na droga da prisão nesse exato minuto!
– Bem, o que você quer? – ele exclamou, abrindo os braços num gesto enfático de impaciência. – Minha eterna gratidão?
– Sim, isso seria um ótimo começo!
– Bem, do que te serve a gratidão de um traidor do sangue, Bervely? Você obviamente despreza esse tipo de gente, é o que a sua bíblia ali diz pra você fazer!
– O quê? Que isso importa…? Black, eu não dou a mínima, se eu me importasse não teria te ajudado, pra começo de conversa!
– Bem, então eu não sei o que você quer! – ele lhe devolveu, alterando-se. A animosidade fria com a qual ele destruíra o livro tinha queimado, e agora estava tão em chamas quanto a dela. A diferença era que ele não sabia porque estava tão fora de si, ao contrário de Bervely. Apenas viera como um incêndio, ao ver aquele maldito livro, relíquia de família, que o diabo o levasse para as profundezas do oceano…
– Como assim o que eu quero? – ela guinchou, perdida na conversa tanto quanto ensandecida.
– De mim!
Ela enfiou as mãos na cabeça, desesperada, rolando os olhos para o céu em busca de sentido.
– Nós estamos dando voltas aqui, o que você quer que eu responda? Eu não quero NADA de você! Não tive nenhum interesse em te tirar da prisão, é o que quer ouvir? Você não precisa me pagar! Nem agradecer, porque obviamente não vai ser legítimo, então, pode enfiar tudo na sua bunda e me deixar em paz! – explodiu.
– Bem, isso resolve as coisas. – disse Sirius, bastante resoluto.
Pegou a sua camisa esfarrapada da cerca, onde estava pendurada desde o primeiro dia, e a vestiu em gestos bruscos. Depois começou a andar em direção à fortaleza.
– Pra onde é você pensa que vai?
– Embora. – ele disse, sem se virar. – Como eu já devia ter feito faz tempo.
Ela abriu a boca, mas descobriu que não tinha o que dizer. Se ele queria ir embora… fosse. Que se explodisse. Que tivesse sua alma sugada cem vezes e virasse uma casca oca vagando pelo mundo, merecia esse destino por ter ousado destruir seu bem mais precioso à troco de nada.
Quando Sirius sumiu de vista ela caiu na grama sobre os joelhos, e deu um grito frustrado entre as mãos. O resto foi choro, nervoso e soluçante, de um tipo que não acontecia – recordou-se – desde que fora até o apartamento de Loren em Londres e descobrira tudo sobre ele.
Então era isso, decidiu. Black era tóxico. Era um erro, e para a sua sanidade, precisava ficar tão longe dele tanto quanto possível.
(Continua…)
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