Indigna Rosa Negra

47 A Rosa Assombrada


Notas iniciais
Ordinary Girl, obrigada pela sua recomendação! Aos demais, obrigada pelos comentários e uma boa leitura ;)


Hush ye, hush ye,
little pet ye.
Hush ye, hush ye, do not fret ye.
The Black Douglas shall not get ye…¹


(Psiu, psiu…
Pequeno filhote.
Psiu, psiu, não se preocupe.
O Black Douglas não vai te levar…)


Aquela música novamente. Convencida de que não era coisa da sua cabeça, Bervely se ergueu sentada e acendeu a ponta da varinha, investigando os recantos do aposento para localizar quem quer que estivesse infernizando a sua mente com a cantiga carregada em sotaque escocês.


Não havia, é claro, ninguém além dela em Tantallon; não desde que Black fora embora. Ela ficara ali, primeiro para tentar recolher os restos do Signo Negro (sem sucesso), depois para garantir que ele não voltaria – pronta para azará-lo, se o maldito se atrevesse.


Depois a noite fora caindo, e Bervely pensou que não haveria mal em dormir uma última vez nas ruínas; resolveria o seu próximo passo pela manhã. Voltar aos Tonks não era uma opção, ao menos não se a breve conversa que tivera com Ted, ao visitar a casa na noite da fuga para pegar suprimentos, significasse alguma coisa.


Se é que podia chamar de conversa o breve intercurso que tiveram quando o bruxo a pegara assaltando a cozinha, vestindo a capa de viagem e com a mochila cheia pendurada em um ombro.

– De saída? – a voz sem corpo vinda da porta para a sala a pegou de surpresa, e Bervely deixou escorregar no tampo da pia uma lata de conserva. O barulho não acordou ninguém, pois estavam só os dois no Chalé; Andrômeda não chegaria em mais um par de horas.

Ela olhou de relance para o marido da sua tia, que usava pijamas e tinha a varinha na mão, apontada para baixo. Havia mais em sua expressão que a tranquilidade costumeira, e ela logo percebeu que ele estava desconfiado. Talvez estivesse desconfiado há muito tempo.


– Preciso ir à um lugar. – disse, em tom bastante evasivo. Uma coisa era dar satisfações à sua tia, mas Ted Tonks?

– Eu percebo. – ele deu uma boa olhada no espaço vazio que ela tinha deixado em sua despensa, depois de volta para sua carga e na porta de saída deixada aberta. – Andrômeda sabe?

Porque ambos
sabiam que a resposta era não, ela nem se deu ao trabalho de negar.

– Escuta, Ted…

– Não, escuta você, Bervely. – a interrompeu, tão diferente do tom normal que usava com ela que era de se supor que estivesse falando com outra pessoa. – Você está cometendo um erro grande, mas não inédito. Pense bem…

– Você não sabe pra onde estou indo. – ela lhe lembrou, principalmente porque por um momento ele pareceu saber e isso a assustou.

– Qualquer lugar que exija uma fuga no meio da noite com provisões é toda a informação de que eu preciso. – seu tom ficou ainda mais severo, e ela que ela que achava que Ted era incapaz de falar sério. – Não cometa o mesmo erro da sua mãe.

Isso fez com que suas mãos ficassem geladas. Do
que ele estava falando?

– Andrômeda ficou devastada quando ela foi embora. E ela tem esse coração… enorme, pra te aceitar aqui depois de tudo. Trair a confiança que ela depositou em você…

– Eu preciso ir – avisou, apressada. Os olhos dele caíram, como se soubesse o tempo todo que a sua intervenção era sem fundamento; eticamente necessária, mas fadada ao fracasso.

– É uma decisão sem volta, você sabe. – ainda lhe ouviu dizer, antes de deixar o chalé, a mochila pesando nas costas.

Quando desaparatou, ela sabia.

E se essa não fosse razão o suficiente para não bater na porta dos Tonks de novo, ainda havia o fato de que Andrômeda saberia sobre a fuga de Sirius Black à essa altura. Ela teria ligado os pontos, de alguma forma? Talvez colocado aurores à espreita para o caso de Bervely ousar retornar?


Ouviu mais ruídos vindos de algum ponto à sua esquerda, em outra parte das ruínas, o que foi o bastante para lhe pôr de pé e armada com sua varinha. E se alguém tivesse achado o seu esconderijo? Pelo menos não eram dementadores, caso contrário, já poderia sentí-los sugar a felicidade do ar. Além do mais, dementadores não cantavam… certo?


Tentou conjurar seu patrono por via das dúvidas, mas nenhum pensamento feliz lhe ocorreu, só alguns ligeiramente homicidas. Decidindo que de uma maneira ou de outra ficar ali parada era uma má ideia, apagou a chama que aquecia a cave e a ponta da varinha, seguindo para o corredor, tateando no escuro, tentando acostumar os olhos.


Bervely tinha uma vantagem frente a quem quer que estivesse invadindo – ela estudara a planta do castelo exaustivamente e conhecia as entradas e saídas labirínticas do seu interior. Decidiu que sua melhor chance era chegar à torre central, onde encontraria a vista ampla para o resto das ruínas, por dentro e por fora; optou portanto pelo caminho adjacente ao corredor principal. Ainda ouvia um sutil ruído de fricção, mas não conseguia definir a sua proveniência. Que bom momento para ter pego umas lições de feitiços não verbais de detecção de invasores, não é mesmo, Bervely?, pensou consigo, irritada.


Quase alcançara a guarita, pronta para azarar qualquer sombra que se movesse, quando uma mão se fechou sobre sua boca e nariz, a puxando para um vão atrás de uma coluna. Desnecessário dizer que seu coração pulou um batimento inteiro com o susto.

– Sou eu. – disse a voz familiar no seu ouvido, sem folgar o aperto sobre seu rosto apesar de ela estar lutando. – Fique quieta, acho que tem mais alguém aqui.


Sirius então a soltou, e ela se virou para lhe dar um olhar de fuzilamento ofegante.

– Mas que merd– Você tinha ido embora!

– Desculpe desapontar. – ele lhe devolveu no mesmo tom sussurrado. – Está com a varinha? Ótimo. Me siga, se prepare para azarar o que se mover…. não é um dementador, e acho que também não é um auror. O que quer que seja, tem um cheiro engraçado.

– Black!

Mas ele já era um cão novamente, sumindo nas trevas do corredor, e ela não teve opção senão seguí-lo. Ele parecia saber o que estava fazendo, farejando os cantos e seguindo para leste, onde ficava a última torre. Até onde se lembrava, não havia nada importante lá – um dia composta de cinco andares, três dos quais foram reduzidos a pó pelo cerco de 1528. Possuía, no entanto, uma sala de armas parcialmente erguida sobre o patamar do primeiro plano, e ela se viu subindo atrás do cão por uma escada em espiral que já vira dias melhores.

Sirius parou na entrada do andar, indicando com o focinho que o que quer que procurassem estava logo adiante. Ela se preparava para entrar quando ele segurou a barra das suas calças com os dentes, lhe lançando um precavido olhar de cachorro.

– O quê? – sibilou, impaciente. Como resposta ele lhe empurrou para trás com o focinho. – Não, eu não vou esperar aqui! Sou eu que tenho a varinha, esqueceu?

O cão fez um movimento de clara discordância com a cabeça, ela tentou empurrá-lo do caminho e os dois congelaram quando uma voz asmática estrondo de dentro do cômodo.

– Quem ousa perturbar os devaneios de um velho em sua própria Torre? Vos apresentai, ádvena!

Eles se olharam por um momento, o cão erguendo as orelhas, Bervely as sobrancelhas. Ele então avançou para dentro, não antes de lhe dar um olhar traduzível como “espere aqui e não faça nada estúpido”.

– Um cão! – ela ouviu a voz, que tinha forte sotaque escocês, identificar. – Ou um homem a usar a carapaça de um cão. Revelais tua verdadeira pele, fanfarrão!

Decidindo que qualquer pessoa que sabia que Sirius era um animago poderia ser uma ameaça, ela entrou na Sala de Armas, apontando sua varinha em riste. Mas não havia ninguém lá, não à primeira vista, pelo menos; demorou a identificar os contornos prateados de um homem, afinal ele estava contra a ampla janela do lado oposto, e sua transparência se confundia com a paisagem atrás de si.

Tão velho, e com ar nobre, que ela achou de bom tom abaixar a sua varinha.

– Boa noite, senhor. – pigarreou, tendo a atenção dele. – Vejo que encontrou o meu cão.

O fantasma lhe olhou de cima abaixo, duvidoso. Tinha o queixo fino, com uma emaranhada e áspera barba como cobertura, olhos apertados e um profuso cabelo cacheado até os cotovelos. Uma gola bufantes ocupava todo o seu peito, e ele definitivamente portava babados de couro fantasma apregoados em suas botas.

– O vosso cão estava perdido, senhorita, ou à busca de barbilhos? – ele retrucou. Bervely precisava fazer um esforço para entendê-lo nas voltas da sua língua rebuscada.

– Desculpe o incomodo. Achei ter ouvido uma música… não importa. Essa é a sua torre? Vamos manter distância dela. Vamos Si… Snuflles. Boa noite, senhor. Novamente, nós sentimos muito pela interrupção.

Bervely não queria problemas com o fantasma da Torre Leste de Tantallon. Ela conhecia o Barão Sangrento da Sonserina o suficiente para saber que fantasmas eram vizinhos melhores quando deixados em paz.

– Esperai, estrangeira. Tens o sotaque das terras do sul, mas trazes o sangue dos meus antepassados! De quem és?


A maneira arcaica de perguntar a quem uma mulher pertencia era um tanto ultrajante, mas Bervely tentou não levar para o lado pessoal. Ela não achava que na época da gola de babados a noção de igualdade de gêneros era muito disseminada… em qualquer nível.


– Bervely Rose Black, da casa dos Black da Inglaterra.

O fantasma se voltou para ela com renovado interesse, a analisando mais cuidadosamente.

– A Casa dos Black ainda perdura?

– É claro que sim. – se empertigou, como assim, se “perdurava”? – Continua a ser uma das famílias mais influentes da Grã-Bretanha Bruxa, eu me arriscaria a dizer a mais influente, senhor.

O fantasma veio flutuando até ela, estendeu sua mão enluvada e Bervely entendeu que ele queria cumprimentá-la. Foi estranho sentir quando ele espalmou seus dedos, e depois encostou os lábios do topo de sua mão, sem que realmente existisse um contato, só a mesma sensação de quando se tira a luva no ar livre, no auge do inverno.

– Willian Douglas, 1º Conde de Douglas, ao vosso dispor, senhorita Black.

Bervely sentiu o seu queixo ameaçar cair, mas o manteve bem fechado e espalhou um sorriso polido nos lábios. Atrás dela, Sirius fazia o equivalente canino a um rolar longo de olhos.

– O senhor construiu esse castelo, não foi? É uma honra conhecê-lo. Sinto muito pela intromissão, na verdade nós não sabíamos que havia mais alguém aqui, estamos só de passagem.

O Conde Douglas fez um gesto muito elegante com sua mão, indicando que não se preocupasse.

– Entendo que a vossa família sucedeu a minha no que tange às terras do sul, de tal que estais em vossa casa e deveis ficar tanto quanto desejares. É uma honra receber legítimos Black em meu castelo…

Bervely viu, pelo canto do olho, Sirius fazer um ruído de impaciência e ir embora por onde tinham vindo. Ela torceu os lábios, se voltando ao fantasma.

– Perdoe o meu cão, ele não tem bons modos. À propósito Conde Douglas, se não incomodo em perguntar, o senhor esteve cantarolando alguma coisa do outro lado do castelo?

– A velha canção do meu tio! – ele exclamou, como se tivesse acabado de se lembrar do fato. Talvez o velho Conde fosse um pouco desparafusado, mas isso não o fazia menos intrigante. Ele ainda era um membro da nobreza bruxa do século quinze afinal de contas! – Quereis ouvir, criança?

Olhou de relance para a direção onde Sirius saíra… quase completamente refeita do susto de encontrá-lo ainda ali. Ela se voltou com um sorriso educado para o fantasma.

– Talvez uma outra hora. Há algo que eu preciso resolver…

– Com o vosso cão? – sugeriu ele, pontuando a ironia com um risinho zombeteiro.

– É. – mudou seu peso de lado, sem graça. – Pensei que tinha me livrado dele, mas aparentemente não.

– Jamais vos deveis livrar de um bom cão, senhorita. Ou ainda, um bom cão jamais se deixará livrar, não é mesmo assim?

Bervely não fazia ideia de se aquilo era algum provérbio escocês de 1700, ao que fez um aceno vago e se despediu novamente. O fantasma lhe respondeu com uma reverência generosa.

– Retornai para uma parole, em qualquer tempo. Terei prazer de vos cantar a minha cantiga.

– BD –

as a trend, as friend
as an old memory.

(como uma tendência, um amigo
uma velha memória.)


Bervely deixou o velho fantasma em sua torre, tendo prometido que voltaria para ouvir a a completa história da construção de Tantallon, desde o momento em que o Conde viera “reivindicar as terras do seu direito” até a festa de inauguração do braço norte, sobre as batalhas a que Tantallon sobrevivera, e como ele, Willian, trabalhara junto à magia do castelo para defendê-lo do cerco do Rei James IV da Escócia, em 1491.

Como previra, Black não tinha – de novo – ido embora. Ele estava sentado sobre a mureta da passarela de guarda, a estrutura que ia de um ponto à outro da muralha do castelo e ligava as três torres, e que antigamente teria servido para a observação dos guardas. Bervely hesitou, mas acabou indo até lá, escalando o resto da escada em espiral até o topo e andando até onde ele estava, tentando não ligar para o fato de que se encontravam a trinta metros do chão.

Seu primeiro impulso foi mandar que ele saísse da beirada, mas não lhe deu esse gosto.


– Então, quer dizer que agora eu sou “seu cachorro” – ele zombou, quando Bervely cruzou seus braços, parando longe do muro tanto quanto possível, sem olhar para ele.

– Não se preocupe, não acho que sua dignidade foi ferida.

– Isso por que o seu novo amigo esteve nos observando. – ele retrucou em tom de conversa. Bervely rolou os olhos.

– É a casa dele, afinal.

– E a vossa, majestade Black. – repetiu, imitando o sotaque escocês com uma dose extra de zombaria. Quando viu que ela continuava na mesma postura rígida longe da borda, sua expressão jocosa sumiu. – Você está puta comigo, é claro.

Ela meneou a cabeça; certamente não o perdoara. A imagem do Signo Negro refastelado voando pelos ares queimava no fundo das suas pálpebras toda vez que ela fechava os olhos.

– Por que você voltou, Black? – exigiu, cansada.

– Eu nunca fui, então tecnicamente a sua pergunta está errada.

– Você esteve no castelo o tempo todo, então? Por quê?

Sirius inclinou a sua cabeça um pouco, como se estivesse considerando o assunto só agora, o que não era nem de longe verdade.

– Esperei você desapertar e ir embora. Nunca aconteceu, então eu fiquei também.

– Qual a lógica disso? Eu deixei bem claro que queria que sumisse da minha frente.

– E eu sumi, não sumi? Se não fosse o fantasma pervertido espreitando você enquanto dormia, eu ia continuar fora de vista.

Bervely não fazia ideia do que aquilo significava. Ela esfregou o rosto, sentindo-se mentalmente exausta, e deixou o corpo escorregar para o chão, apoiando as costas na amurada.

– Eu não posso voltar para casa agora. – viu-se respondendo a pergunta que ele não tinha feito. – Meio que aconteceu uma discussão entre mim e Ted. Não sei o que ele disse para Andrômeda, mas tenho a sensação de que nenhum dos dois estão felizes comigo no momento.

– Andrômeda como em Andrômeda Tonks? Você mora com os Tonks? – Sirius estava genuinamente surpreso com a informação.

– Sim. Com quem você achou que eu morava?

– Eu não sei… – postulou, pensativo. – Os Malfoy? Não foi com eles que a sua mãe te deixou?

– Como você sabe disso?

Ele deu um sorriso esperto, acompanhado de uma piscadela.

– Eu também faço pesquisa, quando não estou fazendo piquenique, claro.

Ela pensou em perguntar o que mais ele pesquisara, quando, quem lhe contara… mas mordeu o lábio. Eram perguntas para as quais não tinha certeza se queria saber a resposta ainda.

– Eu fui embora da Mansão Malfoy à certa altura. Já faz… quase dois anos. – encarou as pedras do muro à sua frente, pensativa. – Eles não eram o que eu esperava.

– Uau, então você me superou em um ano. Só fugi de casa aos dezesseis.

Isso era novidade para ela, que olhou para cima com as sobrancelhas franzidas. Devia se tratar de uma lembrança feliz, porque Sirius sorria de lado, os olhos de obsidiana brilhando como as estrelas às suas costas.

– Para onde você foi? – quis saber, dando-se conta de que não sabia de quase nada sobre a juventude dele.

– Para a casa de James. Eles me receberam como um filho, se eu apenas soubesse como uma família podia ser de verdade, teria ido embora bem antes. Você não faz ideia… – então emudeceu. James, e o resto deles, estavam mortos. Esse uma daquelas lembranças, manchadas irremediavelmente pela tinta negra da culpa, e não havia grande benefício em ressuscitá-la.

– Ted e Andrômeda também me receberam como se eu fosse parte da família. – viu-se admitindo, querendo ocupar o silêncio. – Mas eu não fiz por merecer, quero dizer… o que eu fiz com toda a hospitalidade? Saqueei a casa e fui embora sem me despedir.

– É, isso foi um pouco idiota da sua parte, tenho que concordar.


Ela fez uma careta, enquanto via pelo canto do olho que ele estava descendo da amurada e vindo se sentar no chão, de onde podia vê-lo sem ter que levantar a cabeça. Por outro lado, agora suas feições estavam quase completamente nas sombras.

– Eu não estou arrependida, Black. – informou, num tom de desafio. – Eu faria tudo de novo.

Sirius não disse nada por um tempo, que Bevy ocupou cutucando uma linha solta no seu casaco. Notou que em algum momento perdera um botão, mas não se importou, apesar de aquele ser o seu casaco favorito.

– Você não é nada como ela. – Sirius disse abruptamente. As palavras arrepiaram seus braços no momento que foram compreendidas; não precisava perguntar para saber de quem ele estava falando.

– É… parece que não. – murmurou em resposta, a cabeça baixa.


Afinal ela estava ali sentada com o traidor de sangue, o homem que destruíra o Signo Negro, e nem de longe furiosa como deveria. Na verdade, se sentia estranhamente tranquila.

– Me desculpe pelo seu livro. – ele prosseguiu, adivinhando para onde os pensamentos dela se inclinavam. – Sei que foi um presente. Quero dizer, não me arrependo nada de ter acabado com ele, mas eu devia ter feito enquanto você estivesse dormindo, e depois dito que foi devorado por um ganso.

Ela se viu rindo. O som de sua risada foi tão inesperado que a pegou de surpresa, e também à Sirius, que levantou o rosto em sua direção num movimento rápido.

– Sabe, Black… destruir meu livro foi literalmente a coisa mais desprezível que você poderia ter feito em termos de avaria aos meus pertences. Eu não vejo como a nossa relação pode piorar daqui pra frente.

– Talvez se eu pisasse sem querer no seu dinossauro? – sugeriu ele inocentemente.

– Fique longe do dinossauro. – rebateu, muito séria. Não podia ter certeza, mas achava que ele estava sorrindo abertamente outra vez. Estava jogando com ela, e ela estava caindo como uma pata. Cão maldito. – Como você sabe o que é um dinossauro, aliás?

– Longa história. Talvez eu te conte um dia. – ele cortou conversa, percebendo que a deixara intrigada. – Há algo que quero conversar antes de criaturas pré-históricas, se não se importa.

Bervely esperou calada. Desde que tiveram ao seu primeiro contato – na cela em Azkaban, ao que parecia muito tempo atrás (embora fora há apenas algumas semanas), era a primeira vez que acontecia aquele tipo de conversa cara-a-cara, onde nenhum dos dois estava na defensiva. Teve a sensação de que esperara por isso o tempo inteiro.

– Quero que me conte como ficou sabendo sobre mim. – foi o que ele pediu. Não era o que ela esperava — ela não sabia o que esperava — mas supunha que ainda se tratava de uma pergunta justa.

– Bem… achei uma carta sua nas coisas de Andrômeda, no inverno passado. A data era de um ou dois dias depois daquele em que você me viu no Beco Diagonal, e você falava sobre mim pra ela, perguntava na verdade, se ela sabia de alguma coisa ao meu respeito.

– Eu me lembro dessa carta. – Sirius anuiu. – Pensei que se alguém saberia, seria Andie. Ela sempre esteve informada sobre os segredos da família, mesmo depois que foi embora para se casar com Ted. Não sei como ela fazia isso.

– Andrômeda lhe desencorajou a investigar mais a fundo. – Bervely continuou, sem disfarçar a mágoa que ainda sentia por aquela decisão da tia. – Mas eu acho… eu acho que você sabia, no fundo. Sabia que eu não era filha de Rodolphos. Mesmo que Andrômeda dissesse para não arranjar confusão por causa de um palpite…

Ele assentiu vagarosamente. Sua voz soou rouca, baixa, como se admissão lhe custasse muito.

– Eu sabia. Bastava te olhar, na verdade. Nenhuma gota de sangue Lestrange em você, disso eu tive certeza.

– Você mencionou algo sobre um osso do meu braço, na carta. – ela se lembrou, continuando a falar, apesar da voz também ter embargado um pouco. – Não sei o que era…

– Esse aqui. – Sirius estendeu a mão e tocou no osso saliente do seu pulso, lhe causando um choque. Ele retirou a mão e a envolveu em torno do seu próprio braço. – É igual ao meu, e ao do meu pai, e do meu avô. Claro que você podia ter herdado de algum parente distante, e não diretamente de mim, mas quais as chances?

Ela desviou o rosto, apesar de saber que ele via tão pouco de sua expressão como ela da dele. Então Sirius soubera mesmo quem ela era todo aquele tempo.

– Andrômeda não foi a única a tentar me convencer a não cavar mais fundo, sabe. Outras… outras pessoas seriam afetadas. Eu tinha alguém na época, eu estava noivo, na verdade. – Bervely esperou que ele mencionasse Anne, ‘eu ia ter uma filha’… mas Sirius continuou por outro caminho – Bellatrix estava casada também, e de alguma forma convenceu Lestrange a registrar você como herdeira. Isso sem falar na guerra…

– É, eu conheço a história. – retrucou com azedume. Remus recitara aquelas razões para ela em fevereiro, e se não gostara de ouví-las antes, continuavam lhe irritando agora. – Ia ser complicado. Ia causar problemas para você. Eu estava bem onde estava, e não havia razão para remexer o assunto, não é isso?

– Não. Não é isso. – ele disse, implacável – A grande questão é que você não estava bem, a prova é essa. – apontou o seu braço, onde a tatuagem da rosa negra ficava – Sim, Bervely, eu sei o que significa. Ou melhor, eu posso imaginar, porque eu vi uma igual no pulso da sua mãe e não há como isso ser bom sinal. Você quer saber a verdade? Eu fui covarde. Eu não tenho uma desculpa melhor do que essa. Pelo que faz todo o sentido você ter raiva de mim, e eu não tenho direito de sequer pedir desculpas a você por isso.

– Você está certo – ela disse depois de um tempo, no qual ficou formigando ali com o peso e o significado das palavras dele. – Eu não teria como te perdoar.


Ele assentiu; afinal, não esperara nada diferente. Mas Bervely voltou a falar, tentando encará-lo através das sombras.

– Eu tenho algo melhor que perdão, no entanto, se você estiver interessado.

– E o que seria?

Ela apertou os lábios. Era uma enorme concessão; a maior da sua vida inteira. Mas haviam coisas que era preciso fazer primeiro e entender depois; estar ali em Tantallon com Sirius Black, ajudá-lo a fugir… era uma dessas coisas. Só agora ela entendia.

– Uma segunda chance.


Era bom sair do escuro, pra variar.

– BD –


as I want you to be.
(como eu quero que você seja)


Sirius não cedeu em lhe revelar o seu plano, mas concordou em deixar que ela o ajudasse a executar os primeiros passos. Os três dias seguintes foram gastos recolhendo informações nas cidades próximas à East Lothian.

Bervely ficou com Edimburgo – para onde podia aparatar usando cada dia um disfarce diferente, a fim de se infiltrar em pequenos estabelecimentos bruxos espalhados pela cidade e ouvir as conversas de forma discreta. A Sirius coube fazer passeios diários até North Berwick, uma vila à beira mar à oito quilômetros do castelo, onde ele podia roubar comida e às vezes, um ou outro jornal bruxo.

Com essa rotina, eles conseguiram realizar os dois objetivos principais de Black – saber em que pé andava a busca dos aurores e qual era a situação magico-política atual do Reino Unido. Ela não entendia muito bem porque ele se importava com a segunda, mas aparentemente sua intenção era abarcar os doze anos de desinformação sobre o mundo mágico o mais rápido possível. Os jornais tendenciosos, é claro, não facilitavam a tarefa.

Sirius tentava preencher as lacunas das notícias fazendo perguntas à Bervely, mas ela não era nem de longe tão engajada em política bruxa quanto ele teria desejado. Também respondeu tudo que sabia sobre Hogwarts, o que as famílias sangue puro andavam fazendo e quem ganhara a última Copa Mundial de Quadribol – informação que ela só tinha por que ouvira Oliver comentando uma vez (mas desviou a conversa pra longe do quadribol bem rápido, porque lembrar do Capitão da Grifinória lhe deixou subitamente irritada.)


Ele não perguntou qualquer coisa fora desses dois assuntos. Claramente, seu interesse se restringia ao que ajudaria em seu plano – fosse ele qual fosse – e não havia espaço para mais nada. Black nem mesmo lhe perguntara a que casa de Hogwarts ela fora sorteada.


Ao final do terceiro dia ele decidiu que sabia o bastante, e resolveu que era hora de direcionar um pouco a busca dos aurores – para a direção errada, no caso. Bervely ocupou as horas após o por do sol aperfeiçoando a sua transformação em uma versão convincente de Black, tendo antes vestido as antigas roupas de prisioneiro (Sirius usava novas, roubadas do varal de uma família de pescadores em North Berwick).

– Você tem que fazer os ombros mais largos. E eu sou mais alto, pelo menos uns quinze centímetros a mais do que isso. E o que diabos são essas sobrancelhas?

– Black! – ela rosnou, tão irritada que perdeu a concentração a voz soou como a sua própria, so invéss da dele. – Acha que os aurores vão reparar nas suas sobrancelhas? Pelo amor de Calíope!

– Eles são detalhistas. – retrucou. – Ah, pode fazer o cabelo mais comprido? Não quero que eles achem que eu tive tempo de dar uma passadinha no salão de beleza enquanto estive fugindo.

Ela bufou, mas obedeceu a sugestão, aumentando em alguns centímetros o cabelo denso e nem de longe tão embaraçado quanto o dele. Aquela era provavelmente a coisa mais estranha que tinha feito em sua vida – ainda pior do que se metamorfosear em Theodor em Azkaban. Afinal, lá ninguém estivera julgando seu trabalho, muito menos comparando com o original.

– Eu acho que as canelas estão muito finas. – ele observou criticamente, dando a volta nela e coçando o queixo.

– Eu estou usando calças! Como pode saber?

– Não sei, é só um palpite. Tem algo estranho com o caimento.

– Admita, você está se divertindo com isso. – exclamou, jogando os braços para o lado em exasperação. Ele riu sem culpa da cara dela. – Bem, pelo menos alguém está. Não vou conseguir crescer mais do que isso, mas assim está melhor, a sobrancelha? E por favor, deixe as canelas em paz.

– As sobrancelhas estão bem. – ele afirmou, parando de provocá-la. – Na verdade, todo o resto está ótimo. Você é uma metamorfa competente, especialmente para a sua idade.

– Bem, então pare de ser um filho da mãe implicante. – retrucou, pega desprevenida com o elogio. – Vou ficar usando esse seu corpo de gigante destrambelhado por umas horas para acostumar, se não se importa.

– Posso conviver com o trauma. – ele deu o suspiro que indicava a sua heróica concessão. – Mas por favor pare de andar como se não tivesse bolas entre as pernas, é constrangedor.

– BD –

Aparatou na Cornualha nas primeiras horas da manhã, num lugar que conhecia apenas por Morgana LeFay: Biografia Definitiva, leitura extra de História da Magia no quinto ano. Aparatar em locais onde nunca fora antes exigia orientações muito específicas de localização, as quais Sirius tinha lhe passado na noite anterior, deixando claro que o vilarejo de Tintagel lhe fora um dia familiar o bastante.


Bervely se escondeu num beco longe de vista, trocou as suas roupas pelas de Sirius e se transfigurou nele, cuidado para que as sobrancelhas, batatas da perna e tudo mais estivesse a contento. Era estranho ter os ombros largos, a estrutura quase o dobro da sua, isso sem falar da barba coçando o rosto, mas se concentrou em sua missão ignorando o desconforto.

Quando adentrou n’A Taça de Morgana, ninguém olhou pra ela, ou melhor, pra ele. Só encontrou um par de clientes lá dentro, talvez embriagados desde a noite, os olhos turvos demais para qualquer reconhecimento, mesmo que o cartaz de “procura-se” onde Sirius Black figurava estivesse apregoado bem acima das cabeças deles. Apelos semelhantes estavam espalhados por toda Edimburgo bruxa, não eram novidade para ela à essa altura. Os aurores tinham-nos espalhado em todos os lugares que os olhos de um bruxo pudessem alcançar.

– Conhaque de Pessegueiro. – pediu; a bebida fora outra recomendação de Sirius. O dono do bar, distraído, fez um aceno e foi pegar o pedido. Quando ele voltou, ela respirou fundo e pigarreou, clareando a voz rouca de Black – Sabe dizer se estou longe de Bossiney?

– Não, só uns quinze minutos de caminhada. – resmungou o velho, que tinha um desagradável nariz em forma de cogumelo.

– Foi o que pensei. – ela deu um gole. A bebida era horrenda, precisou se segurar para não cuspi-la toda na cara do bruxo. – Ah… Finley ainda trabalha aqui?

Procurar por Finley fora outra sugestão de Sirius, mas ele se recusara a explicar de quem se tratava. Se tudo continuasse como antes, o dono do bar deveria responder “só durante a noite”.

– Filey está casada, e tem três pirralhos. Quem manda perguntar?

O velho era obtuso, isso era certo. Evitou um suspiro apologético; ao invés dele, deu um sorriso confiante, partindo para o plano B.

– Ninguém importante. Mas se ela quiser mesmo saber, mande avisar que foi Sirius Black. Ela deve se lembrar.

O velho estava prestes a resmungar que não ia dar droga de recado nenhum à “Finley”, mas então sua ficha caiu – e seus olhos lacrimosos se arregalaram.

– O que disse? Pensei ter ouvido falar…

– Sirius Black. – ela repetiu bem devagar, apontando para o aviso do Ministério na parede. – Como no cartaz. O senhor não vai esquecer, vai? Acho que não. Foi um prazer, de qualquer maneira. Tenha um bom dia, amigo.

Antes que houvesse reação, ela levantou do banco, pousou o copo ainda cheio e deu meia volta. Estava fora antes do velho piscar, e desaparatou antes mesmo que a porta se fechasse.

– BD –


Houve uma tempestade em East Lothian aquela noite – tão abrupta que parecia ter sido conjurada por magia ao invés de trazida pelo vento; de repente o céu estava vermelho, o vento tão forte que não os deixava ficar em pé do lado de fora, e o mar urrava como um animal pronto para devorar a terra.

Se proteger da chuva que começou a castigar as ruínas os obrigou a ir para um dos poucos locais de Tantallon onde o teto era inteiro – as celas subterrâneas sob a Torre Douglas. Sirius não ficou nada satisfeito em precisar se enfiar numa prisão tão pouco tempo após escapar de outra, e para demonstrar o seu descontentamento ele se transformou em cão e se recusou terminantemente à voltar à forma humana.


– Você está sendo ridículo. – ela lhe avisou, categórica, sentando na outra ponta da cela que — ponto para os Douglas — era bem mais confortável que a de Azkaban. Tinha um formato abaulado, como um casulo, quase o dobro do tamanho e, uma vez conjurada a chama mágica para aquecer – ficou toda cor de laranja. Era quase como estar no interior da barriga de um dragão. Inclusive, com o barulho da tempestade do lado de fora acentuava-se a sensação de que estavam nas entranhas acolhedoras de um monstro.

– Faça como quiser. Vou ter que beber isso sozinha então. – tirou da mochila uma garrafa comprida de vidro e balançou na frente dele. – É um escocês famoso, e se chama Black Douglas em homenagem, veja você, ao famoso Sr. James The Good, tio do nosso generoso anfitrião.


A informação fez Snuffles virar a cara. Qualquer menção aos Douglas ou ao fantasma – que Bervely continuava visitando eventualmente para ouvir as histórias do castelo – lhe irritavam profundamente.

– Tudo bem, eu dou conta. – deu de ombros, usando a varinha para abrir a garrafa. – É bom que um de nós esteja completamente sóbrio, caso um dementador encharcado e faminto bata à nossa porta.


Mas nem tinha virado o primeiro gole e Sirius voltou à forma humana; sua cara não era das melhores.

– Como se eu fosse irresponsável à ponto deixar você se embebedar, garota. – dito isso, tomou a garrafa da mão dele e deu um longo gole. Fez um murmúrio de aprovação, dizendo algo sobre os Douglas prestarem para alguma coisa pelo menos, mas Bervely não mudou a sua expressão cética para ele até Sirius percebê-la. – O quê foi?

– Eu posso beber. Estou só a alguns dias de me tornar maior de idade.

– Não dou a mínima se é menor ou maior, por mim você poderia ficar tão bêbada que não discerniria a sua varinha de um graveto, mas então quem é que ia conjurar o patrono se recebermos visitas?

– Não por isso – Bervely rolou os olhos, puxando a varinha e estendendo para ele. – Pode fazer as honras.

Mas Sirius não a pegou. Ao invés disso, ele deu outro gole, inclinando a cabeça, seu pomo de adão subindo e descendo no pescoço magro enquanto engolia. Quando abaixou a garrafa ate o chão, o brilho negro das íris tinha se acentuado, o que de alguma forma encorajou a próxima pergunta dela.

– Qual é a forma? Do seu Patrono, digo.

Ele estreitou os olhos, primeiro fazendo parecer que tinha se incomodado com a pergunta, mas depois ela percebeu que ele buscava na memória. Deu de ombros.

– Não me lembro.

– Mentiroso. – devolveu-lhe imediatamente. Como não obteve reação, ela voltou a lhe oferecer a varinha. – Nada que não se possa descobrir facilmente.

Sirius fez um ruído de ceticismo com o nariz, balançando sua cabeça levemente e virando outro gole, alcançando assim a metade da garrafa. Quando voltou a falar, sua voz tinha se tornado pesada.

– Você é tão ingênua. – ele disse, deixando claro que não era um elogio. Assim ela o tomou, se colocando na defensiva.

– Eu sou? Ou você está com vergonha do seu patrono? Não me diga que é um coelhinho fofo, ou então, vejamos, uma barata bem nojenta?

Mas Sirius não estava achando graça. Havia a mesma sombra em seu rosto que ela vira em Azkaban, e que se fizera menos presente nos últimos dias.

– Não há qualquer possibilidade de lhe mostrar meu patrono, garota. – ele disse em sua voz cavernosa, olhando por sobre o ombro dela, o olhar ligeiramente desfocado pelo efeito da bebida, ou talvez do passado. – Doze anos em Azkaban, você se lembra? À essa altura, estou bastante certo de que meu patrono está morto.

– BD –

O sexto dia em Tantallon amanheceu úmido e ventoso; para variar, Black não estava em lugar nenhum do castelo. Acostumada com a obsessão dele com a aurora e caminhadas matinais, ela se ocupou em ajeitar as sobras de comida num café da manhã relativamente decente – conseguiu biscoito, empadas de cebola e chá, e arrumou tudo sobre a plataforma de pedra que tinham montado ao lado do poço.

Depois ficou entediada ali esperando e resolveu andar até a borda do penhasco. Evitava fazer isso, até porque a altura fazia uma coisa estranha com seu estômago… só quis ver se ele estava à vista, pelo menos. Mas não, o cão negro, quase tão grande quanto um urso, não estava em lugar nenhum.


Havia outra coisa na praia, no entanto. Algo que mandou um arrepio de horror para a sua coluna, e um frio gelado em seu peito como nenhum dementador ou penhasco seriam capazes de fazer. Ela deu um passo para trás, quase tropeçando.


– Bervely? – Sirius chamou, às suas costas. Ele tinha acabado de subir pela lateral da encosta, mas se demorara tentando ajeitar o caminho que a chuva prejudicara.

A garota se voltou à ele – estava exangue, a expressão o alarmando.

– O que foi? – olhou para o céu, procurando o contorno de um dementador, a primeira explicação que lhe veio à mente. – Qual o prob…

– Nós temos que ir embora. – disse bruscamente. – Pegue suas coisas. Vamos aparatar agora mesmo.

Ele não entendeu do que ela estava falando. Estavam em perigo, tinham sido encontrados? Por que não estava usando a varinha então? Foi quando deu uma olhada para baixo e algo capturou sua atenção. Alguém havia usado as pedras mais escuras para formar um padrão na praia, em contraste com a areia clara: era o desenho de um olho… um olho egípcio, para ser mais exato. Um gigantesco, que parecia lhe encarar de volta, e definitivamente não estava ali quando ele saíra mais cedo.

– O que é esse símbolo? – perguntou, confuso. – Você o fez?

– Não! Não! Eu… certo, não temos tempo! – ela puxou a varinha do bolso e floreou no ar. – Accio mochila! Black, me dê sua mão.

– Não enquanto não explicar o que está acontecendo!

– Não temos tempo para isso. – ela estendeu a mão para ele. – Anda!


– Você ao menos sabe para onde está indo? – se lembrou de perguntar, porque algo lhe disse que ela não estava muito focada nos três D’s no momento. Como esperado, ela Bervely como se Destinação só tivesse lhe ocorrido agora.

– Não faço a menor ideia. – admitiu.

– Apenas pense no lugar mais trouxa que puder. Qualquer um que já tenha ido.

Bervely considerou por um momento, suas incursões no mundo trouxas tendo sido tão raras, quase nulas. Então lembrou-se do momento mais trouxa da sua vida e assentiu para ele, indicando uma decisão. Sirius colocou a mão no seu braço e ela desaparatou, levando-os tão distante de East Lothian quando possível.

– BD –

Meia hora depois, Lucky Inn, Exeter.

– Merda. – tinha acabado de esbarrar em um vaso de flores, e ele se espatifou no chão graciosamente.

– Se acalme, garota. – Sirius pediu, após cobrir o quarto de hotel com todos os feitiços de proteção que conhecia, usando a varinha dela. Bervely não dissera uma palavra sobre porque precisavam fugir às pressas de Tantallon, mas continuava pálida como a morte.


– Eu estou calma. Estou calma. – repetiu, respirando fundo, puxando uma cadeira e se sentando. – Estamos seguros. Esse é um lugar perfeitamente trouxa e seguro.

– Certo. Seguro contra quem, exatamente? – encorajou, tentando entender o que tudo aquilo significava. Sirius só podia supor que o olho gigante na areia tinha sido um aviso. – Bervely, vai ficar mais fácil se você me explicar o que diabos…

– Não há nada para explicar. Então, por favor, pare de perguntar.

– Não, eu não vou perguntar porque você pirou por causa de um desenho maluco no chão da praia, e por que de repente o seu dito “esconderijo perfeitamente seguro” passou a ser completamente vulnerável. Eu posso totalmente conviver com essa curiosidade.

– Ótimo. – ela pulou da cadeira – Eu vou tomar um banho. Peça comida. Aproveite que temos um quarto de verdade e peça comida, tanto quanto puder.

Ele lhe olhou com estranheza.

– Você tem preferências em culinária trouxa?

– Tanto faz. – ela fez um aceno, entrando no banheiro. – Me surpreenda.

Uma vez que a porta estava trancada, ela se permitiu desabar sobre a tampa fechada do vaso sanitário. Seu coração estava aos saltos, prestes e escapar pela boca e deslizar naquele branquíssimo chão de lajotas. Sabia que era só uma questão de tempo até o Olho de Hórus encontrá-la, especialmente porque descumprira a sua parte do contrato de nunca lhe pagara a quantia devida.


Estava esperando, talvez, receber aquela sua horrível coruja de ferro com alguma carta desaforada, exigindo que cumprisse sua parte do acordo imediatamente. E ela pretendia cumprir. Só precisava de mais alguns dias. Em duas semanas teria o dinheiro e poderia se livrar dele. Mas aquele olho enorme na areia… dizia claramente eu sei onde que você está e o que anda aprontando.

Ele podia entregar Sirius para o Ministério. O que estava pensando, ficar tantos dias em Tantallon? Tinha sido a maior irresponsabilidade. Fizera certo em aparatar imediatamente para a Devon trouxa – o lugar mais trouxa que ela conhecia, senão o único – Gavril não a encontraria ali tão fácil. Por enquanto, estavam seguros.


Se permitindo acreditar, ela exalou longamente e deixou seus batimentos cardíacos diminuírem. Tivera uma reação extremada, mas isso era apenas um reflexo daqueles dias tão em sobre-alerta, procurando sombras no céu, desconfiando de quem a olhasse por mais de dois segundos quando estava caçando informações na rua, tendo um pequeno ataque cardíaco toda vez que Black sumia de vista. A coisa toda de se esconder era estressante e estava cobrando seu preço.

Precisou admitir para o espelho estreito do banheiro que lembrar daquele hotel trouxa fora um golpe de sorte. O vira uma vez, em seu encontro com Oliver, ficava no mesmo quarteirão do cinema e não era nada impressionante, mas ela se lembrava de ter perguntado a ele o que “Inn” queria dizer. Era a palavra trouxa para estalagem ou hospedaria. Quem diria que o monte de informações aparentemente inúteis reunidas naquela noite iriam servir para alguma coisa?

Ao contrário da hospedaria caindo aos pedaços em Snowfall, Lucky Inn tinham um bom quarto e um ótimo banheiro – limpos e brilhantes, os dois. Após quase uma semana à beira mar, constantemente coberta de salitre e tomando “banhos mágicos” precários, Bervely ficou feliz em poder mergulhar numa banheira de água quente – se precisou enche-la ao modo trouxa, pouco lhe importava.


O corpo dolorido por dormir no chão agradeceu a submersão e a espuma aromática. Permitiu-se relaxar, talvez pela primeira vez desde a fuga de Azkaban, encostando a cabeça na beirada de granito.


Precisava admitir que a cara da recepcionista, quando entrou na recepção acompanhada de um enorme cão negro, foi de puro e cômico horror. Mas Bervely a convenceu a lhes dar um quarto, usando um feitiço confundus e levando a mulher a pensar que o local aceitava e até encorajava a estadia de animais. Por fim, não tão engraçado assim, ela teve de deixar um pertence como garantia de pagamento, já que não tinha dinheiro trouxa. A única coisa de valor em sua mochila era um velho colar de ouro, cujo pingente ostentava um floco de neve dentro de um globo de vidro. Fora um presente de Hector no último Natal que passaram juntos, no dia anterior à sua morte. Abrir mão dele tinha sido como arrancar seu coração e deixar no balcão com a trouxa, mas não pretendia ir embora dali sem pegá-lo de volta.

Bervely só deixou a banheira depois de uns quarenta minutos e três bons enxágües. No espelho, ela conseguiu corrigir o tamanho do seu cabelo e também as olheiras, embora aquela segunda modificação não fosse sustentável sem uma boa noite de sono. Escovou os dentes ao modo trouxa – precisou ler as instruções no fundo da pasta de dente – e vestiu o roupão macio do hotel, decidindo que suas roupas precisavam de uma lavagem.

No quarto, Sirius estava rodeado de embalagens de comida, latas de refrigerador trouxa e um monte de sacolas amassadas.

– Não deu pra esperar, você demorou um milênio e meio lá dentro.

– Sem problemas. A não ser que você tenha comido a minha parte, porque aí teremos uma luta e você sabe que bruxas armadas vencem cachorros vira-latas o tempo todo.

Ele sorriu e lhe estendeu uma caixa comprida.

– Pedi uma coisa que eles chamam de cachorro quente. É gostoso, mas eu não tenho certeza… bem, eu não tenho certeza de que parte do cachorro eles estão usando.


Ela riu.

– Eu não acredito que você acabou de dizer isso.

– Por quê? É uma pergunta legítima! Se você olhar o formato… – Sirius ia abrindo a caixa, pronto para defender seu argumento, mas ela o deteve lhe tomando a comida das mãos.

– Tome um banho, Black. Vá desfazer doze anos de nós em seu cabelo, com certeza vai conseguir pensar melhor depois disso. Será que ainda se lembra como uma ducha se parece? É a coisa pregada na parede. Sai água dela – água de verdade, corrente e limpa. Tente não se assustar muito.

– BD –


Bervely acabou caindo no sono após comer, aproveitando-se da primeira cama de verdade que via em dias. De começo disse para si mesma que só ia fechar os olhos por um minuto… uma mão firme em torno da varinha, fechou os olhos por um segundo – e foi o bastante para cair em sono profundo.

Quando acordou e piscou preguiçosamente para a luz trouxa artificial no teto, as memórias sobre onde estava voltaram, e ela procurou Black pelo quarto sem achá-lo imediatamente.

– Eu estou aqui. – disse ele do seu outro lado. Sentado na cama, também vestindo um roupão, comendo de um saco enorme de pipoca. Olhava compenetrado para a tela de luzes dos trouxas, uma igual a que Ted tinha em casa, onde assistia os jogos de fubetol. – Dá pra acreditar que eles fizeram essas coisas em cores? Esses trouxas são um espanto.

– Não acredito que você está mesmo… – e foi quando ela olhou para ele. – Oh, putamerda, Black.

– Eu sei. – ele deu um sorriso amplo e satisfeito. – Que você acha? Fiz com uma lâmina trouxa. Quase arranca meu pescoço no processo, mas valeu a pena.

Ela se ergueu, sentando no colchão para ver melhor Sirius Black versão sem barba. Era estúpido, mas de repente Bervely pensou que fosse começar a chorar. Seus olhos arderam; parecia que tinha cinco anos novamente. Bom, ele definitivamente se parecia com quando ela tinha cinco anos.

– Ficou tão ruim assim?

Ela olhou para qualquer lugar que não ele. Desesperadamente.

– Ficou bom. Ficou… bom. – repetiu, confusa.

Ele deu outro sorriso, que aliás ela via em todo o seu esplendor agora que o seu rosto estava limpo. Era como um soco no estômago, mesmo capturado pela sua visão periférica. Sorrisos como aquele deviam ser proibidos por lei, pelo nome de Merlin.

– Então será que agora você pode me contar sobre o que era o olho gigante e assustador na areia da praia?


– Não. – ela mordeu seu lábio, fazendo algo que jamais cogitara fazer na vida: prestar atenção no que estava acontecendo na coisa trouxa de imagens. – O que estão passando?

– Um filme. É como a história de um livro, só que…

– Eu sei o que é um filme.

– Hum, certo. Esse é sobre uma garota chamada Baby que quer dançar, mas os pais dela não deixam. Então ela acha um cara que ensina escondido, e ele só usa camisetas realmente apertadas.

As pessoas do filme faziam uma dança estranha, se esfregando uma nas outras como se estivessem acometidas por um cio de gato. Ela achou que as chances de ter dinossauros naquele filme eram poucas, mas resolveu manter as esperanças.


– Pipoca? – o saco foi estendido no seu campo de visão, e o cheiro da iguaria trouxa alcançou suas narinas e dali seu estômago novamente faminto.

Aceitou, tentando relaxar.


Então Sirius Black estava de volta. Era o que ela queria, não era? O que sorria, brilhava como uma estrela, e lhe afetava como nenhum outro ser humano na terra?

Parabéns, Bervely.


Agora, tente lidar com isso.


– BD –

– Me conte.

Ela abriu os olhos. O quarto estava quase na completa escuridão, não fosse a luz colorida das imagens da caixa trouxa, pelas quais via o rosto de Sirius virado em direção ao seu, azul, rosa, amarelo, verde. Deduziu que tinha caído no sono no meio do filme – muita dança, poucas feras pré-históricas… chato.

– O quê? – não estava certa de ter entendido, afinal fora apenas um sussurro. Tão sonolenta que, até onde sabia, ele podia nem ter falado nada.

– Me conte sobre o desenho na areia, Bervely.

A voz dele estava, Bervely reparou, perdendo a rouquidão áspera que Azkaban lhe conferira. Sem barba, ela via com clareza todos os seus traços, os olhos fundos negros, o nariz comprido, queixo anguloso emoldurando a parte inferior do rosto. Mas eram principalmente os olhos. Bervely se sentiu na prisão novamente, tomada de assalto pelo olhar. Se sentiu na sorveteria, entregando tudo dela para o estranho de olhos brilhantes.


– Black… – ela suspirou, fechando os olhos. – Eu realmente não posso. Até falar sobre isso é perigoso demais.

– O que é mais um pouco de perigo na minha lista, criança? – compeliu, um sorriso despreocupado brincando em seus lábios. – Anda logo. Talvez eu possa ajudar.

– Não. – teimou. – É algo que preciso revolver sozinha.

– Eu acredito que você pode fazer muita coisa sozinha… diabos, eu a vi escapar de Azkaban pelo seu próprio mérito sem um arranhão, depois de tudo que aprontou lá dentro. Mas você esteve diante de dementadores e aurores, e ultimamente numa constante tensão sobre sermos caçados e termos as almas estirpadas… e nada lhe tirou do sério como aquele desenho. Era algum tipo de ameaça?

– Mais ou menos. – disse baixo, a voz vacilando. – Acho que era mais… uma cobrança.

– O quê você deve? – ele sondou o rosto dela astutamente. – Tem a ver com a sua entrada em Azkaban, naquele projeto de avaliação, como se chamava mesmo, Ocus Pocus?

Ficou impressionada em como ele chegara à conclusão tão rápido. Só lhe restou assentir, apertando os lábios.

– É apenas algum dinheiro. Posso conseguir em duas semanas, é só que essa pessoa não é exatamente flexível com prazos. E pode não estar muito feliz sobre o modo que eu larguei o projeto e arranjei problemas em Azkaban.

– Entendo. – Sirius lhe deu um esboço de sorriso relaxado. Como ele podia, ela não fazia ideia. – Se é só dinheiro, há solução. Agora, vê se dorme um pouco.

– Eu estava dormindo. – ela resmungou, ao que ele assentiu.

– Verdade. Vou ver se eu durmo um pouco, então. Boa noite, criança.

– Boa noite, Black.

Ele fechou os olhos; ela não. Ficou olhando para seu rosto, decorando seus traços, comparando, descobrindo tudo de que se lembrava e tudo que era novo…


Até finalmente pegar no sono.

– BD –

Sirius não estava em qualquer lugar do quarto. Se fosse sobre aquela mania de assistir o nascer do sol de novo, pela varinha de Cacilda, ela ia matá-lo, quer dizer, em plena Devon trouxa?

Estranho que ele deixara a porta entreaberta. Estranho haver um bilhete.


Bervely reconheceu a caligrafia. Sobretudo, ela reconheceu a medalha redonda deixada sobre o papel, a imagem gravada nela em preto lhe encarando de volta, o olho destacado do corpo de um deus egípcio vingativo.

Seu estômago gelou. Seus olhos abaixaram para as palavras, de novo e de novo, embora a mensagem não deixasse espaço para dúvida.

“Perdeu alguma coisa, criança? Talvez eu possa ajudar...”

(Continua…)

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Notas finais
Percebi pelos comentários que vocês esperavam um capítulo diferente, mas não se preocupem que a Bevy já está voltando para os problemas 'da vida real dela', com esse chamado nada sutil do Sr. Olho de Hórus. Beijocas, comentários, fadinhas, o de sempre. Amo todos com Sazon. ¹ Canção do norte inglês inspirada em Sr. James Douglas, Lord de Douglas, ou O Black, ou ainda, Sir. James The Good.