Indigna Rosa Negra
48 A Rosa Marionete
Notas iniciais
What a magical mystery feeling
Dancing at the end of their silvery strings
Almost human in size
Like children with plague in their flesh
These Puppets are oh so grotesque
(Que sentimento mágico de mistério
Dançando nas pontas de seus fios prateados
Quase do tamanho de humanos
Como crianças com uma peste em suas carnes
Estes bonecos são tão grotescos)¹
No momento em que Bervely tocou a medalha com o entalhe egípcio, ela sentiu o familiar repuxão no umbigo e só teve alguns segundos para imaginar a que local seria levada. Seu melhor palpite foi a Mansão Romansek, que visitara no inicio das férias, e já estava pronta para vislumbrar os ângulos de vidro imponentes no topo da encosta quando seus pés tocaram terra firme.
Um redemoinho de vento gelado chicoteou sua pele exposta, lhe levando a fechar os olhos e tossir. Estava difícil respirar, como se houvesse menos oxigênio no ar de repente, e o chão sob seus pés era feito de pedras soltas; aquela definitivamente não era a entrada da residência dos “Holmes” na Inglaterra. Não havia barulho do mar, só o uivo violento do vento se perpetuando para todas as direções.
Desafiando a ventania, ela ousou abrir os olhos, empunhando a varinha. Se descobriu numa ampla plataforma coberta de pedregulhos cinza-escuros, mas ainda via as suas bordas. E o que havia além das bordas fez seu estômago ficar gelado e os joelhos fraquejarem.
Estendendo os braços aos lados do corpo, de repente consciente de sua altitude, ela deu uma volta cuidadosa em torno de si mesma para constatar o que seus demais sentidos já haviam acusado: estava no cume de uma montanha tão alta que podia ver, através de uma névoa branca vaporosa, quilômetros e quilômetros de paisagem para onde quer que olhasse. A visão seria estonteante, se não fosse aterradora. Todos os nervos do seu corpo estavam em alerta, como se a possibilidade de cair dali fosse iminente apenas pela força do vento que tentava empurrar seu corpo.
Já começava a supor que caíra em alguma espécie de armadilha à céu aberto, que o Olho de Hórus arranjara um jeito de lhe isolar ali em cima como retaliação por não ter pago a sua dívida, quando teve um vislumbre da silhueta larga contra o horizonte, de costas para ela bem à beira da plataforma. Como um grande leão-rei do topo de sua pedra, a juba de cabelos vermelhos de Gavril Romansek ondulava no vento, a única cor quente num mar de azuis, verdes e cinzas desbotados.
Raiva queimou em seu sangue. Ele a fazia se sentir caçada, capturada e ameaçada sob seus próprios termos doentios, e Bervely não apreciava a sensação. Ordenando às pernas tremulas que se movessem, avançou com dificuldade até onde o bruxo estava, ignorando o nó se enrolando em sua garganta à medida em que se aproximava da borda. Puxar ar para abastecer os pulmões estava sendo um sacrifício em função do ar rarefeito, e sabia que teria de gritar para ser ouvida através da ventania.
– Você tem um gosto muito controverso para lugares de reunião, senhor! – reclamou, ainda a alguns metros de onde ele estava. Nem morta ia chegar tão perto da ribanceira íngreme na qual ele resolvera se plantar.
O Sr. Romansek girou o corpo em sua direção, as mãos enfiadas no bolso das vestes pesadas e ricamente ornadas que usava. Ao contrário dela, viera preparado para o clima e certamente não sentia seus músculos e ossos em processo de congelamento. Sorria, o sorriso do caçador.
– Srta. Black, pensei que apreciaria a escolha. Bem-vinda a Ben Nevis, o ponto mais alto da Escócia, quatro mil, quatrocentos e nove pés acima do nível do mar. Maravilha de vista, não é?
Ele não precisava gritar, de forma alguma. Suas palavras alcançavam os ouvidos dela como veneno quente, temperando sua raiva.
– Vamos pular a aula de geografia, Sr. Romansek! Apenas diga para onde foi que você levou meu… para onde foi que levou Black!
As pontas do sorriso dele se afiaram mais. Bervely teve a impressão de que era a sua atração especial do cume da montanha, e estava seguindo de acordo com seu planejamento.
– O seu Black? Engraçado. Sabe Bervely, eu preciso dizer, estou bastante impressionado com as suas façanhas nesta última semana. Quem poderia prever… tirar Sirius Black de Azkaban e escondê-lo por seis dias inteiros! Você é uma garotinha bem audaciosa, não é mesmo? Eu preciso confessar, não estava apostando minhas fichas em você, no começo. Achei que toda a sua postura arrogante e combativa fosse uma defesa para uma insegurança fundamental. Que bom que eu lhe dei a chance de provar ao contrário.
Ela sentiu muitas coisas, entre congelamento e irritação, mas certamente não lisonja. Quando abriu a boca para repetir a pergunta inicial começou a tossir incontrolavelmente, meio astênica.
– Ah, me desculpe por isso. – Com um meneio, ele puxou sua varinha do bolso do casaco e a ondulou no ar entre eles. O vento cessou como se sugado por um vácuo, quando o seu feitiço formou uma barreira invisível entre eles. Havia ar de novo e ela puxou um fôlego, aliviada. – Melhor?
Agora o vento uivava mais abafado, como se através de janelas de vidro. Ela piscou seus olhos ressecados e encarou-o com exasperação.
– Por que você me trouxe aqui? Foi para cá que trouxe Black? Ele não tem nada a ver com o nosso acordo, Romansek! Deixe ele ir!
– Isso é muito comovente, não é? – riu-se, ainda deleitado com o curso de sua atração particular – Pai e filha se encontram após dez anos… pai é um criminoso vil e traidor, mas filha não liga para meros detalhes. O coração quebrado e rejeitado da filha precisa de reparação, e tudo que lhe resta no mundo é um homem ainda mais quebrado…
– Romansek, eu juro por Morgana…
– Me diga, Bervely – seu tom era vagamente curioso – Ele corresponde à sua necessidade de afeto? Black ainda é capaz de agir como se tivesse uma alma, após todos esses anos com os dementadores?
– Isso não é da sua conta! – ela rebateu, rangendo os dentes.
– Não, você tem razão, mas o que posso fazer? Sou um amante inveterado dos dramas familiares e das causas perdidas. – com um suspiro teatral, voltou a guardar a varinha no bolso. Claramente não se sentia ameaçado por ela, mesmo que estivesse armada, provavelmente sabendo que Bervely não faria nada contra ele enquanto tivesse Sirius cativo.
– Apenas me diga o que você quer. – rosnou, trocando o peso de um pé para o outro. Seu coração ainda estava disparado de forma dolorosa, e os músculos ardiam com toda a tensão. – Eu vou lhe pagar o que devo, eu cumpro minha palavra, não há qualquer necessidade de sequestrar pessoas!
– Hum, sobre isso de pagamento… não há mais necessidade.
– Como é? – ela sentiu a garganta secar – Não! Quando eu receber a minha herança…
Gavril fez um elegante sinal de dispensa com a sua mão, seguido de uma negativa.
– Estou perdoando a sua dívida, considere uma cortesia pelo futuro da nossa relação. Ambos sabemos que você inutilizou a primeira parte do seu pagamento, e eles certamente não lhe enviarão uma segunda depois do que aprontou em Azkaban na quarta-feira passada. Além do mais, você não pode comprometer um dinheiro que ainda não tem.
– É só uma questão de dias até eu receber… Espera ai. Que futuro da nossa relação? Você certamente não pensa que eu vou fazer qualquer acordo com você novamente?
Ele sorriu ainda mais através de sua espessa barba ruiva, sinalizando que chegavam ao clímax da sua atração particular. Era mal sinal, e todos os pêlos do corpo de Bervely se arrepiaram com aquele sorriso; se ela fosse uma presa, esse era o momento que o predador chegava bem perto e cheirava o sangue pulsante do animal entre as suas garras, antecipando seu gosto e salivando.
– Já que perguntou, – respondeu ele com suavidade, seus olhos verde-escuros cintilando – Eu realmente tenho uma proposta, Bervely, minha garota. Você vê… tenho estado de olho em você há algum tempo. Desde que mostrou interesse em adentrar Azkaban, eu passei a investigar seus motivos… faz parte do protocolo padrão, eu não faço acordos com quem não conheço em profundidade. Então além de descobrir o trivial — pobre bebê abandonado por sua mãe em prol de uma carreira em artes das trevas, infância turbulenta no clímax da guerra bruxa, alguma tranquilidade no seio de uma família abastada… e mais desastre. – aqui seus olhos cintilaram, ganhando uma camada extra de interesse. – Morte traumática de um primo pelo qual nutria… sentimentos intensos, posso denominar assim? Ah, e os sete meses no hospital, a maior parte deles navegando no limbo da sua própria culpa, tão traumatizada à ponto de perder sua própria identidade… é uma trajetória e tanto, não é?
Ela não quis admitir que estava assustada com o nível de detalhes que ele possuía. Bervely não fazia ideia de como Gavril chegara àquelas informações sem ter que mobilizar um numero de pessoas que incluíam seus tios e talvez a própria Bellatrix… sem falar nos registros do hospital, aos quais ele certamente tinha amplo acesso. A sensação de que nada estava fora do alcance de Olho de Hórus era, mais do que nunca, aterradora.
– Eu não… eu não vejo onde está querendo chegar. – tartamudeou, e não só porque seus malares estavam batendo de frio.
– Se você tiver um pouco de paciência, estou chegando lá. – disse, com a tranquilidade da fera que já garantiu a refeição – Sabe, nas minhas pesquisas, algo continuava me intrigando… informação que consegui não de alguma fonte, mas da minha própria filha. Você e ela conviveram por anos e a sua existência nunca me chamou especial atenção, mas Tara volta e meia referenciava a sua marca. Tara sempre se referiu a isso, a rosa negra em seu braço, talvez porque você a possui desde sempre e nunca lhe pareceu que uma criança de onze anos puro-sangue fosse fazer uma tatuagem. Por que você teria uma marca que é claramente um engrave mágico? Curiosamente, eu nunca me perguntei. Não até recentemente.
Ela não gostava do rumo daquela conversa. A rosa negra em seu pulso pinicava; coisa que não fazia há meses. Era quase como se entrasse em modo de defesa, reagindo ao interesse de Romansek.
– É só uma coisa de família. – Mas sentiu a inconsistência em sua voz e a viu através dos olhos dele, no esgar divertido que atravessou sua face.
– É uma coisa de família, você está certa nessa parte. Uma pequena conexão entre você e a sua mãe, não é mesmo? Oh, não fique tão surpresa. Qualquer um a que tenha visto Bellatrix Lestrange pode perceber que os desenhos são correspondentes.
Uma pontada aguda de dor de cabeça começou a se precipitar em Bervely, talvez por causa do ar rarefeito, mas, muito mais provável, em resposta ao assunto.
– Você a viu? Quando?
– Uma coisinha sem paciência, você é, não? Visitei sua mãe recentemente em Azkaban para confirmar minhas suspeitas, e devo dizer, ela já esteve em melhores condições. Depois fiquei sabendo que depois a sua visita em abril ela se tornou um tanto… apática, será que eu posso dizer assim? O que foi que você fez com ela? – havia assombração admirada em sua última pergunta. Bervely desviou o olhar dele, sentindo os olhos pinicarem.
– Eu não sei do que você está falando.
– Oh, você sabe, você sabe! – retorquiu, divertindo-se. – Não que eu me importe, não que alguém ainda se importe com a velha Bellatrix, decadente em sua cela! Foi por isso que você partiu para o papai, Bervely? Por que mamãe estava louca, dementada, além da salvação?
Ela se virou bruscamente, em riste.
– Cale a boca, seu maldito, você não sabe d que está falando!
Gavril ergueu suas mãos, as palmas viradas para cima em rendição cínica, sem nunca tirar o odioso sorriso da face.
– Não me azare ainda, meu bem, não antes de ouvir minha proposta.
– A única proposta que eu estou interessada em ouvir vai ser aquela em que você me pede para lhe jogar daqui de cima de cabeça, Romansek!
Ele gargalhou, sem nenhum sinal de ironia dessa vez, jogando a cabeça para trás. Deu umas batidinhas no peito, como se tanta diversão fosse quase demais para seu coração.
– Ah, mas você é uma peça, Bervely Black. Realmente, não me surpreende que a minha filha tenha tanto interesse em você.
Talvez ele tivesse falando de outro tipo de interesse, mas Bervely sentiu uma coisa no estômago mesmo assim.
– Vamos não falar de Tara, e sim do motivo pelo qual você me trouxe aqui? Por que você está dando voltas em sua maldita história, e eu ainda quero saber o que Black tem a ver com tudo! Ótimo, então você sabe que eu tenho uma marca igual à de Bellatrix e que eu ajudei Black a fugir! E daí, o que você tem com tudo isso? Nós temos um acordo, eu vou cumpri-lo e depois espero nunca mais lhe ver na vida! Então se nós pudermos apenas…
Gavril fez um aceno de sua mão e a silenciou, do mesmo jeito que fizera com o vento momentos antes. Rolou os olhos verdes, ligeiramente entediado: sua atração se alongava demais, aparentemente.
– Se vamos trabalhar juntos daqui para frente é melhor que aprenda a me escutar. Todos esses fatos sobre a sua vida são ligeiramente curiosos, mas seriam para mim mero pano de fundo se não fosse um detalhe. Um detalhe que, devo salientar, faz toda a diferença. – tomando seu tempo, Romansek meteu a mão em seu outro bolso e tirou de lá um rolo de pergaminho velho. Não parecia em nada especial, o que não explicava a expressão de triunfo em seu rosto. Ele o desenrolou, e era sorte que estivessem isolados numa bolha anti-vento, senão a fibra amarelada teria se desfeito em segundos. – Reconhece isto?
Ela abriu a boca para cuspir um ‘não, e não me importa’, mas nenhum som saiu. Exasperada, Bervely se limitou a balançar a cabeça. O Olho de Hórus produziu um suspiro apologético.
– Eu leria em voz alta, mas vamos nos poupar das tecnicidades. É um contrato, veja você, datado de 1980. Você tinha o que, meros quatro anos nessa data? Apesar disso, curiosamente aqui está a sua assinatura. Bela caligrafia, à propósito.
Primeiro, Bervely não fazia ideia do que ele estava falando. Então ela soube, e seu coração deu um tranco desagradável de reconhecimento.
– Isso mesmo, isso mesmo. – ele anuiu, satisfeito. – Todas as partes envolvidas assinaram com sangue… – levou seus olhos até o fim do pergaminho, indicando a evidencia de suas palavras – Bervely Rose Black, Bellatrix Lestrange… e Lord Voldemort.
Romansek esperou para que suas palavras tivessem o impacto apropriado. Enquanto, no silêncio abafado da bolha, ela escutava as batidas surdas do próprio coração, teve um vislumbre daquele homem como um mestre de marionetes. Se reparasse bem, podia antecipar as guias dos destinos das pessoas que ele queria manipular entre os seus dedos compridos. Ela quase era capaz de sentir as cordas se enrolando em torno de seus pulsos, tornozelos e cabeça.
– Imagine a minha surpresa – continuou o bruxo, com uma inflexão anedótica na voz – Ao descobrir que Lord Voldemort estava interessado em uma bastarda de quatro anos à ponto de recebê-la como pagamento pelos ensinamentos que proveu à sua mãe. Certamente foi sua serva mais precoce, prometida antes mesmo de virar gente… De alguma forma, ele sabia o que você se tornaria… não é mesmo?
Ela queria ter a sua voz de volta para gritar alguma coisa, mas a verdade é que não sabia o que poderia dizer. Seus olhos ainda pinicavam e sobre isso, sua garganta começava a apertar. Ele ainda sacudia a contrato entre os dedos.
– Ele viu algo em você, não viu? Algo que só o futuro revelaria, e ele estava disposto a esperar anos para ter você ao seu serviço. Eu conheci Lord Voldemort, sabe, e ele podia ser acusado de muitas coisas… mas certamente era um homem de visão.
Seus alarmes soaram, porque pela primeira vez naquela conversa Gavril Romansek estava se aproximando. Apesar de saber que ele não tinha lhe lançado um feitiço paralisante, Bervely se achava incapaz de se mover, até que ele chegou tão perto que já podia divisar o contorno de suas pupilas contraídas dentro do verde lodoso de suas íris. Ele a perscrutou atentamente, procurando alguma coisa dentro dela, se a intensidade do seu olhar dizia alguma coisa.
– Eu me pergunto o quê, exatamente, ele viu? Sua propensão para se lançar ao risco às cegas? Sua lealdade obsessiva aos valores da família, sua inconsequência? O potencial mágico do seu sangue puro? – ela tentou desviar o rosto, mas Gavril ergueu a mão pesada e segurou seu queixo, forçando contato visual. Bervely descobriu que verde também queimava. – Haveria algo mais, minha garota? Mais do que eu posso ver agora? Eu tenho essa sensação de que você esconde tanto…
Bervely finalmente conseguiu reunir a força para se desvencilhar dele, dando um passo para trás e empurrando sua mão. O feitiço sobre sua voz tinha se quebrado, pois foi capaz de praguejar.
– Eu não sou “sua garota”! Tire as patas de mim, seu facínora!
Ao invés de se ofender, ele sorriu satisfeito. Não importava como reagisse, Bervely percebeu, só confirmaria os palpites dele ao seu respeito.
– Sabe como eu me sinto, Bervely? Como um homem que foi cavar sob um monte de pedras ordinárias e descobriu uma pilha de diamantes.
– Bom pra você. Tudo que eu sinto no momento é repulsa!
– Nós teremos que trabalhar essa língua afiada, você sabe. Particularmente aprecio, mas pode se tornar perigoso para os negócios.
– Não tem nenhum NEGÓCIO! – se achou gritando, muito mais fora de controle do que teria almejado. – Eu quero distancia de você, Romansek, você é um desvairado, olhe ao redor, você me carregou para o maldito topo de uma montanha para me coagir!
– É como se sente agora, coagida? – piscou, fingindo preocupação.
– Eu… não!
– Ótimo, porque nunca foi a intenção. Eu apenas pensei em lhe apresentar um dos meus pontos preferidos na Escócia, depois de ter conhecido o que suponho ser o seu. Aliás, que boa jogada, Tantallon, hum? Black ficou impressionado? Eu não teria escolhido ruínas decadentes para brincar de casinha com meu papai foragido, mas posso entender o raciocínio.
Ela não achava que já tinha odiado alguém mais do que odiava Gavril Romansek. Suas mãos tremiam tanto que estava sendo difícil manter a varinha firme.
– Não tem mais graça, me diga onde Black está. Vamos acabar de uma vez com isso.
– Não antes de chegarmos a um acordo. Ê-ê – ele fez um gesto apaziguador com a mão, como quem doma um animal irritado – Não comece a gritar de novo. Só vai acabar com a sua garganta, e nós não queremos essa linda voz prejudicada. Meus termos são simples: quero que trabalhe para mim quando se tornar maior de idade. Em troca disso terá à sua disposição a minha proteção e recursos. Vê? Uma oferta bastante generosa.
Ela via um sem número de absurdos no raciocínio. Será que ele não percebia que a única pessoa que a ameaçava no momento era ele próprio?
– Sua proteção – repetiu o termo com o desprezo cabível – De que me serve isso?
Ele lhe sacudiu o pergaminho, como se ela estivesse esquecendo do óbvio.
– Você estaria livre desse contrato, por exemplo. Foi assinado com sangue e na teoria deveria ser perpétuo, mas há coisas que eu posso fazer a respeito. Estou supondo, é claro, que o seu coração já não está mais nele, levando-se em conta os seus últimos atos. Sua lealdade não mais reside deste lado da causa, não é mesmo? Você agora é a garotinha do papai, e não importa o que dizem, o papai não querer ver a menininha dele servindo o Lord das Trevas…
– Você não vê que esse contrato não faz a menor diferença? Não quando o Lord está morto!
Seus lábios se cruzaram num sorriso complacente e traiçoeiro mais uma vez.
– O Lord não pode estar morto, por definição, Bervely, e quando ele retornar, vai cobrar todas as dívidas e reivindicar todas as promessas… se você prestasse mais atenção ao que sua mãe lhe disse, você saberia.
Ela sentiu um frio gelar a espinha. O Lord retornará, Bellatrix também dissera como se fosse um fato que o resto do mundo insistia em enxergar, apesar da sua inexorabilidade.
– Sangue de Merlin – cuspiu, desgostosa – Você é tão louco quanto ela. Você era um deles, também, não é? Um dos escravos dele, lambendo as botas daquele doente… eu devia ter imaginado.
Gavril ajeitou-se reto, seus olhos ficando gelados. Enrolou o contrato e o guardou no bolso com movimentos calmos e deliberados.
– Não, eu não era um Comensal da Morte. Não há nenhum homem a quem eu vá chamar de mestre, a não ser o meu reflexo no espelho.
– Bem, finalmente um ponto em comum para nós dois. Também não vou servir ninguém, Sr. Romansek. Sou mais afeita ao trabalho individual, se não se importa.
Ele lhe encarou por um longo minuto, enquanto Bervely sustentava seu olhar tentando não demonstrar medo, no entanto várias coisas passaram por sua cabeça. E se ele ficasse irritado com a sua resposta e matasse Sirius, ou o entregasse aos dementadores? E se ele lhe matasse ali em cima? Ninguém jamais saberia, nunca encontrariam seu corpo. Já estava imaginando como seria ser jogada, seu corpo se quebrando em vários pedaços precipício abaixo e chegando ao sopé da montanha como uma massa disforme de carne e ossos, quando o bruxo anuiu.
– Muito bem. Se essa é a sua palavra final.
– Essa é a minha palavra final. – repetiu, devagar para a voz não tremular.
– Você está cometendo um erro, Srta. Black. É bom que saiba disso. – advertiu, ainda tentando com seus olhos arrancar dela seu valor secreto ou sua rendição.
– É uma ameaça?
– Longe disso, apenas uma constatação de fatos. O tempo tem provado que aqueles que estão do lado do Olho de Hórus só tem a ganhar, enquanto os que se opõem frequentemente perdem.
– Como Guilherme Weasley ganhou setecentos galeões para a família em troca de se afastar da sua filha? – disse incisivamente. Não perdeu o cintilar afiado nos olhos dele e uma leve contração de seu músculo sub-ocular.
– Ganhar setecentos galões é melhor do que perdê-los, você não acha?
– Você é um monstro, Gavril Romansek.
– É uma pena que pense assim. Para a nossa sorte sou um homem persistente e estou disposto a fazê-la mudar de opinião. Como eu disse, a sua divida está perdoada, considere esse como um sinal da minha boa vontade.
– E quanto à Sirius Black? Vai me dizer o que fez com ele ou não? – retrucou ferozmente.
Gavril fez um mínimo movimento negativo de sua cabeça, acompanhado do mais sutil sorriso. Como se apesar do final contrário às suas expectativas, sua atração ainda pudesse lhe entreter.
– Eu nunca tive Black comigo, minha garota ingênua. Ele deixou o quarto do hotel cedo pela manhã, em sua forma animaga, liberando o caminho para que eu a contactasse sem maiores alarde. Não que ele fosse um empecilho, mas desconfio que Black não seria discreto em sua tentativa de impedí-la de vir até mim, o que poderia chamar atenção para o seu paradeiro, e não queremos isso, não é mesmo? Não se preocupe, seu pai, ou cão, ou o que quer que ele seja para você, está à salvo, provavelmente achando que você cansou da brincadeira e voltou para casa.
– Então você mentiu em seu bilhete, sobre ter algo que eu perdi? – apesar de apreciar o alívio involuntário às palavras, ainda não estava completamente convencida.
– Não, bem lembrado, aliás. – Gavril tirou uma terceira coisa de seu bolso. Um livro grande e encharcado, que com muita surpresa Bervely percebeu ser o Signo Negro restituído. – Mjölnir acabou encontrando isso em suas buscas, eu acredito que seja seu?
– Mj… quem?
– Minha coruja bico-de-ferro, você a conheceu há algumas semanas. Fiz com que ela lhe rastreasse nos últimos dias, excelente na tarefa ela é, conseguiu delimitar a área de East Lothian, mas não era capaz de lhe ver, devido às proteções do castelo. Felizmente, as páginas de um livro raro sobre a linhagem Black espalhados ao vento deixaram a sua localização bastante clara, agradeça ao seu pai por isso… acredito que foi ele o responsável pelo vandalismo? Felizmente o livro tem seus próprios encantamentos de proteção e se restituiu tão logo suas partes foram reunidas. Por favor, aceite-o de volta como um sinal de paz. Eu odiaria que nos despedíssemos num clima desagradável.
Sua cabeça estava rodando, e a dor piorando. Gavril sorria ao lhe estender o exemplar único, mas ele usava o sorriso do jeito errado; era mais um instrumento de dominação, mais um puxão de seus fios sobre ela.
E Bervely percebeu o que aceitar o livro significaria. Ceder às cordas.
– Fique com ele. – disse, firme, apesar da dor quase física que a recusa provocava. Era como ver o Signo Negro ser desfolhado mais uma vez. – Não o quero.
– Tem certeza não é uma relíquia de família? O que diriam seus ancestrais ao saber que está recusando-o e deixando-o nas mãos de um estranho só para satisfazer os caprichos do seu orgulho?
– Eu não sei o que os meus ancestrais diriam. – retorquiu. – No momento, estou mais preocupada com a parte da família que ainda está viva.
– BD –
Quando Bervely retornou ao quarto do hotel – aparatando, e torcendo para que não desse de cara com uma camareira trouxa puxando os lençóis – ela sentia-se gelada, sem ar e doente. Foi bom ter chão firme, paredes em torno de si e todo o oxigênio de que precisava, e aproveitando destas três subestimadas dádivas da existência, se arrastou até a cama e ficou ali sentada por vários minutos, até conseguir pensar com clareza.
Black não estava em lugar nenhum do quarto, mas havia um bilhete.
“Onde você se meteu? Precisei ir. Me mande seu patrono para confirmar que está bem.”
Abaixo das palavras rabiscadas com a caneta e a tinta vindas de sua mochila ele deixara a impressão de uma gigantesca pata.
Dobrou o bilhete cuidadosamente e o meteu no bolso, de onde tirou a varinha. Suas mãos ainda tremiam um pouco, e talvez fosse demais achar que, naquelas condições, conseguiria conjurar um Patrono corpóreo. Fechando os olhos, ensaiou evocar uma memória feliz. Só a lembrança boba e levemente irritante de Sirius retrucando os defeitos de seu disfarce lhe veio em mente, mas ia ter que servir.
– Expecto Patronum!
O cão prateado fluiu da varinha, nem de longe tão brilhante como da última vez, mas ainda visível o bastante para abanar o rabo e deixar a língua prateada pender. Na ausência de perigo iminente, estava esperando ordens.
– Ache Sirius Black, lhe diga que eu estou bem, e se certifique de que ele está bem. Ah, e pelo amor de Cacilda, fique invisível para os trouxas, não queremos que ‘cão prateado fantasma vaga pelas ruas de Devon’ seja a próxima manchete do jornal deles.
Seu patrono deu um latido de concordância e saiu através da porta. Ela ficou encarando a superfície de madeira, pensando em todas as coisas que Gavril Romansek tinha lhe dito, e na última que dissera à ele. Havia, afinal, uma parte da família que estava viva. E enquanto tinha concentrado sua atenção em Sirius nos últimos dias, havia outra pessoa que estava negligenciado há um bocado de tempo.
Com um suspiro de auto-encorajamento Bervely se levantou, jogou a velha mochila no ombro e deixou o quarto trouxa para trás, decidindo cumprir as suas palavras integralmente.
– BD –
– Aqui, querida. É no quarto andar, Ala Janus Thickey, há uma placa em frente à um par de portas duplas logo à direita, não tem como errar o caminho.
Bervely deu uma olhada incerta para o crachá de visitante que lhe tinha sido entregue pela recepcionista do Hospital St. Mungus.
– Deve haver algum erro, ela foi admitida aqui por conta de um acidente com animais. Essa ala é para…
– Danos Permanentes, isso mesmo. Ela foi transferida na segunda feira após uma reavaliação de seus agravos .
– Certo… obrigada.
Foi com crescente alarme que Bervely escalou os lances de escada até o quarto andar, mais ansiosa à medida que se aproximava do local onde passara sete meses da sua vida, a maior parte deles “navegando no limbo da sua própria culpa”.
Não era em seu internamento que pensava, no entanto, mas no de Johanne. Ao pisar no hospital chegara a torcer para que ela ainda estivesse internada na Ala de Danos Por Criaturas; isso lhe pouparia uma visita à St. Sensille, opção que estava disposta a seguir mesmo que isso significasse encarar a Sra. Loren.
Mas Anne ter sido transferida para a Ala de Danos Permanentes levava a coisa à outra dimensão. Que reavaliação teria sido aquela, que definira que não havia cura para a sua cegueira? E como puderam deixar a menina sozinha num lugar horrendo e depressivo como a Ala Janus Thickey? Segundo a recepcionista, ninguém a acompanhava no momento.
Quando alcançou as portas duplas, parou diante delas sem saber o que esperar. Johanne devia estar um bocado chateada com seu sumiço, ou tão abalada pela mudança de ala que ficaria grata em ver um rosto conhecido? Entrou, vagou seus olhos pela comprida sala, checando as camas enfileiradas de um lado e outro atrás da combinação cabelo pretos-baixa estatura-narizinho empinado. Mas a maioria das cortinas estavam fechadas em torno das camas, e seus olhos foram automaticamente atraídos para as floridas ao fundo, mas Bervely teimou em não pensar na existência dos seus ocupantes; com sorte, nenhum dos visitantes costumeiros do casal Longbotton apareceriam ali hoje.
– Burp-burp.
– Ah, olá, Sr. Burton. – reconheceu o antigo paciente, que lhe lançou um vago olhar de desinteresse. Talvez se ela fosse mais parecida com uma mosca…. – O senhor não saberia por acaso qual a cama de Johanne Loren, nova ocupante dessa ala?
Era uma pergunta inútil, é claro, a não ser que falasse a língua dos anfíbios. Bervely ia começar a checar cama por cama quando ouviu risadinhas vindas lá do fundo à esquerda, uma cama antes da cortina florida. Ela se lembrou que conhecia seu ocupante, pelo menos o antigo, e que talvez ele fosse de maior ajuda que o Sr. Burton se ainda continuasse ali.
– João Arty? É você?
Enquanto se aproximava, a cortina se abriu de supetão e alguém saltou da cama. Não era Arty, porque atravessou a bolha transparente ao redor do leito e Bervely teve um vislumbre de cabelos pretos flamejando enquanto a pessoa corria em sua direção.
– Bervely!
– Anne..? – percebeu que a rota da menina estava se tornando diagonal e se apressou para encontra-la antes que ela se chocasse contra uma das camas. No minuto que tocou seu braço, foi surpreendida com um forte abraço ao redor da sua cintura, que quase lhe jogou para trás.
– Eu estava tão preocupada! – ela guinchou, sem lhe largar. Bervely deu uma olhada para o local de onde Johanne tinha vindo e achou uma versão comprida e magrela do João Arty que conhecera à dois anos; aparentemente, o estirão da adolescência o alcançara. Não só ele, mas sua bolha também crescera, ocupando um bom espaço ao redor da cama. Ele lhe deu um tchauzinho animado, ao que ela franziu.
– Anne, você estava dentro da bolha…?
–Eu li os jornais! Quer dizer, João leu pra mim! Bevy, ele saiu, não foi? Ele tentou encontrar você? Você está bem?
Havia temor em sua voz, suficiente para Bervely entender a quem se referia. Receosa de que alguém mais estivesse ouvindo aquela conversa – alguém com o curso de pensamento intacto, no caso – se abaixou e diminuiu o tom de voz.
– Aqui não, Anne. Qual é o seu leito? Precisamos conversar com privacidade.
– É o número 6. Logo na frente do de João. Ah! Me deixa te apresentar, ele é super legal, acredita que ele é alérgico à magia?
Bervely rolou os olhos, enquanto Anne a puxava pela mão e ia tateando seu caminho até o lugar indicado. Ela trazia em torno dos olhos o mesmo lenço de Durmstrang que Bevy lhe cedera da última vez que tinham se visto, dando a impressão de estar envolvida numa perpétua brincadeira de fada-cega.
– Cama correta. – lhe avisou João Arty quando as mãos de Anne alcançaram a cortina do último leito. Por alguma coincidência irônica do destino, era a mesma que a própria Bervely ocupara no passado.
– Arty, essa é a minha irmã de que eu te falei, Bervely.
– Olá! – ele sorriu com muitos dentes – Você é familiar, de onde eu te conheço?
– Não saberia dizer. – ela se apressou em falar. Era um pouco triste que ele ainda estivesse ali, depois de tanto tempo, mas afinal aquela era uma ala de permanência. Reparou que havia uma nova estante com quadrinhos ao lado de sua cama, e que muitos deles estavam espalhados sobre os lençóis. – Se não se importa, Arty, preciso conversar em particular com minha irmã.
– Sem problemas, podemos continuar a leitura mais tarde. Não é como se tivéssemos outro compromisso. – ele riu, sacudindo os ombros.
Bervely deu um sorriso que mais pareceu uma careta, depois pediu que Anne subisse na própria cama e fechou a cortina em torno delas, jogando um abafiatto em seguida. Só então pode olha-la com calma, e decidiu que seu aspecto era bom; corada, bem alimentada e evidentemente bem disposta.
– O que você pensa que estava fazendo dentro da bolha desse garoto?
– Não se preocupe, o que ele tem não é contagioso, não tem perigo. – explicou com tranquilidade.
– Você obviamente não entende os perigos envolvidos – Bervely bufou – Quantos anos ele tem mesmo, uns quinze?
– Quatorze. Ele só é um ano e alguns meses mais velho que eu. Por que você está tão estressada? Não fui eu que fiquei sem dar noticias uma semana inteira!
– Argh, você é tão sem juízo! Nada de entrar na bolha de João Arty de novo, está ouvindo?
Anne cruzou os braços e um leve bico foi surgindo em sua boca.
– Você vai me dizer onde esteve, ou só vai ficar brigando comigo?
Bervely soltou um longo suspiro resignado.
– É complicado e você não tem que se preocupar com isso. Agora me diga, você está bem? Que historia é essa de te transferirem para Danos Permanentes, eles não desistiram de consertar seus olhos, né?
A menina franziu o canto da boca, incerta.
– Eu acho que foi a Dra. Andie quem pediu para me transferir. Por que eles não sabem mais o que fazer comigo, e iam me dar alta.
– E então você teria que voltar à St. Sensille?
– Sim. – os ombros de Anne caíram. – Eu pedi pra ela não deixar. Quero ir com tio Remus, mas não podem dar a minha guarda pra ele, e eu nem tenho certeza se ele quer. Ele diz que quer, mas agora que eu não posso enxergar, vou dar o maior trabalho.
– Anne, – contestou, sentindo um aperto de afeição misturado com dó – Não é verdade. Tenho certeza que Lupin quer que você fique com ele.
Ela deu de ombros.
– Eu ouvi ele falando com Andie que conseguiu um emprego, e vai ter que viajar… então se eu não puder voltar na escola, não tem como ele cuidar de mim.
– Essa conversa de novo? Ninguém vai te impedir de voltar pra escola! – garantiu, sentando-se ao seu lado na cama. – E se a sua avó inventar algo do tipo…
– Não é mais sobre a minha avó, Bevy! Eu estou cega! Como vou estudar e aprender magia sem poder ver, ou ler? Quem vai me deixar manejar uma varinha se não posso saber pra onde estou apontando?
– Pare com isso, agora mesmo. Há um jeito para tudo, além do mais, você está temporariamente cega.
– Você não tem como saber disso. – ela murmurou, seu tom esmorecendo pela primeira vez na conversa e deixando entrever qual era o seu verdadeiro humor por trás de toda a efusividade. – os medibruxos já perderam as esperanças. A Dra. Andie acha que minha visão pode voltar com o tempo, mas eu não… eu não acho que haja uma cura.
– Você está envergonhando a sua casa, Johanne Black. Que tipo de corvinal desiste assim tão fácil? Pensei que o maior triunfo de vocês era resolver qualquer enigma por mais difícil que pudesse ser!
Ela ergueu o rosto, surpresa.
– Do que você me chamou?
Bervely só então percebeu. Saíra tão automaticamente como se em sua cabeça, há muito tempo, pensasse nela como uma Black, mas só agora se deu conta disso. O receio voltou ao rosto semi-coberto de Anne mais uma vez, enquanto ela torcia os dedos das mãos pousadas no colo.
– Ele está mesmo solto, não está? Por que os dementadores não pegam ele logo?
Foi a vez de Bervely se surpreender.
– Você quer que os dementadores peguem ele?
– Sim! Antes que ele chegue até uma de nós! Você não acha que ele pode vir, Bevy? Ele saiu de Azkaban, pode entrar em qualquer lugar. Ele pode entrar aqui, se ele quiser! Minha avó acha que ele não teria motivos pra vir atrás de mim, mas quem sabe? Os jornais dizem que ele é completamente louco!
– Ele não é louco! – deixou escapar. Depois mordeu sua língua, puxando um bocado de ar, percebendo o quão frágil era aquele terreno. Johanne não fazia ideia de que Sirius era inocente, lúcido ou mesmo inócuo para elas. Só Merlin sabia o quanto Amelia Loren teria difamado Sirius para a neta através dos anos. Com isso em mente, ela tentou manter a voz tranquila. – Não precisa se preocupar, ele não vem atrás de você, Anne.
– Como pode saber? – a voz dela tremeu um pouquinho, mais aguda que o normal – O que ele quer, Bevy, o que ele quer aqui fora? Minha avó acha que ele quer vingança de quem o colocou na prisão.
– Bem, talvez ela esteja certa. – ai estava uma coisa que Bervely também gostaria de saber, à propósito. – Mas não foi uma de nós, não é mesmo? Não há porque se preocupar.
– Você não está nem um pouquinho com medo?
– Não. – disse, irresoluta. – Nem um pouquinho. E ninguém vai chegar até você, porque Andie está sempre por aqui e ela jamais deixaria.
– Por falar em Dra. Andie… – Anne mordeu o lábio, indecisa – Você devia falar com ela, porque ela quer arrancar o seu couro fora.
– Ah, depois de saber disso eu realmente vou falar com ela. – retrucou com sarcasmo. Anne deu uma risada daquelas que parecia musical, que deixou Bervely aliviada. Se ela ainda podia rir com tamanha tranquilidade, as coisas não estavam tão ruins. – Escuta, Anne, você não pode ficar aqui para sempre. Vamos dar um jeito de lhe tirar do hospital, se preciso eu mesmo converso com Lupin.
– Ou então eu poderia ficar com você. – ela sugeriu, timida.
– Como… como é?
– Você vai ser maior de idade em alguns dias, não é? Você não pode ter minha guarda, então? Assim eu poderia passar o resto das férias com você, e seria divertido, e eu juro que não daria trabalho, eu juro.
– Acho que não é tão simples assim… – disse, com certo espanto. O silencio seguinte foi preenchido de expectativa suspensa. – Mas eu vou ver o que posso fazer, se é o que quer.
– Vai mesmo? – se Bervely pudesse ver os olhos dela, sabia que estariam brilhando.
Ela rolou seus próprios.
– Claro, pirralha.
Um sorriso luminoso se abriu no rosto da caçula, que pulou para lhe dar outro abraço. Dessa vez Bervely correspondeu, fechando seus braços em torno dela e sentindo um peso em seu peito se desfazer, um que nem sabia que estava lá.
– E Bevy, tem mais uma coisa – disse quando se afastaram – Sabe aquele seu amigo? O que foi atingido por um raio e esteve em coma?
– Sim, o Dr. Fritz. O que tem ele? – alarmou-se, já prevendo a pior notícia.
– Ele acordou ontem pela primeira vez depois do acidente! Acredita nisso?
– BD –
Olhando através do vidro que a separava do quarto do Dr. Fritz em Danos Por Magia, Bervely pensava o que diria para ele quando entrasse.
Olá, se lembra da última vez que nós vimos? Eu te revelei a minha identidade, e por isso você foi atingido por um raio.
Lá dentro havia uma curandeira administrando poções através dos tubos que faziam caminho para as veias dele, então ela tinha algum tempo antes de parecer estranha, ali parada olhando para dentro do quarto de um paciente sem se decidir.
Através das persianas abertas e do vidro podia perceber que Fritz, deitado, falava com a curandeira. Era impossível dizer se as caretas que fazia às vezes eram sorrisos ou esgares de dor, porque do ponto de onde via, seu rosto desfigurado por cicatrizes espessas impediam uma leitura apropriada das expressões faciais.
Deviam ser sorrisos, porque a curandeira – uma moça jovem com um cabelo pink vibrante e sapatos da mesma cor – sorria em retorno e falava um bocado com ele. Ela ajeitou os travesseiros em suas costas com cuidado, depois falou mais um pouco, se despedindo, recolheu a bandeja com os frascos vazios e saiu para onde Bervely estava plantada.
– Ah, olá! – lhe sorriu, seu batom também era ostensivamente rosa. Talvez ela e Tonks se tornassem boas amigas se um dia fossem apresentadas – Está aqui para visitar o Dr. Fritz?
– Hum. Sim.
– Que ótimo! Você é a primeira pessoa que vem depois que ele acordou. Para um doutor tão querido ele até que é muito sozinho, sabe. Sem família, quase nenhum amigo próximo! Uma pena. Estive cuidado dele por todo esse tempo e tenho feito questão de vir todos os dias mesmo com o coma, sabe o que dizem, se as pessoas podem mesmo ouvir quando estão inconscientes, ele devia estar terrivelmente entediado. E você é?
– Bervely Black. – ela se apresentou, a garota rosa lhe estendeu a mão para apertar.
– Laurie Scarlet. Sou nova aqui no St. Mungus, eles dizem que é normal se apegar muito aos pacientes quando você é nova, mas o Dr. Fritz, ele é…
Bervely reparou um olhar meio sonhador perpassar o rosto dela, e não refreou um meio sorriso. Seria possível?
– O que ele é? – encorajou, com interesse.
– Ah, deixa pra lá. – ela se apressou, de repente sem graça. – Por que não entra? Ele vai adorar ver um rosto conhecido, tenho certeza. Se ele precisar de alguma coisa é só apertar o botão vermelho sobre a cama, que eu venho correndo.
Eu aposto que você vem, pensou divertida, quando a curandeira saiu andando na direção contrária. Reunindo as migalhas de coragem que lhe restavam deu batidinhas na porta, entrando em seguida.
O cheiro dentro do quarto era de ditamno, o que provavelmente estava sendo usado para tratar as queimaduras. Fritz, meio deitado, meio sentado, pousou seus olhos nela e a reconheceu, então a parte de seu rosto que não tinha deformações mostrou o sorriso familiar de reconhecimento.
– Bervely Black! Por onde você andou? Não acredito que estou tendo a honra da sua visita.
– Eu vim antes, mas não pude lidar com todo o ronco. – brincou, puxando a cadeira para perto da cama dele. Apesar de todo o receio, a atmosfera em torno de seu antigo medibruxo era de conforto e segurança. – Finalmente resolveu acordar?
Ele riu, depois fazendo uma careta.
– Sinto muito por isso, só ontem descobri que minha soneca durou mais que o socialmente recomendado. Como você está?
– Como você está? – ela retrucou, meneando a cabeça. – Não fui eu que fui atingida por um raio.
– É. Felizmente você não foi você. – concordou, sua voz ficando um pouco mais séria, mas logo voltando ao tom anterior – Sabe, eu me sinto… um pouco frito, para falar a verdade.
– Otimista, aprecio isso. Você tem sido bem cuidado, né? Acabei de cruzar com a sua curandeira, a Srta. Scarlet…
Uma expressão ligeiramente culpada perpassou seu rosto marcado.
– Então você a conheceu? É uma boa garota.
– Que parece se importar muito com você. – completou, astuta.
– Ela só está fazendo o trabalho dela.
– Sei, se você diz. Talvez você deva encorajá-la a fazer mais do que o trabalho dela, se ela quiser assim.
Ele lhe olhou espantando.
– Quando foi que você ficou tão engraçadinha?
Ela sorriu.
– Só estou feliz de ver você acordado. Eu pensei… não importa o que eu pensei.
E assim foi-se embora a atmosfera descontraída da sala. Havia um limite de quanto poderia ser ignorado dos acontecimentos que tinham levado Fritz até o hospital e pelo sumiço do seu sorriso, ele também estava consciente disso.
– Bervely – quando voltou a falar, sua voz já era a séria que usava nas sessões – Você pode, por favor, fechar as persianas?
– E lançar um encantamento de privacidade no quarto? – sugeriu, levantando a varinha para fazer o que foi pedido.
– Sim.
Ela executou ambos os feitiços, assistida por ele. Quando tudo estava pronto, encontrou seu olhar preocupado.
– Como você está? – voltou a pergunta, com mais ênfase dessa vez.
– Estou bem, eu juro.
– Quando eu acordei e descobri que tinha ficado inconsciente por três semanas, temi pela sua segurança, afinal da última vez que nos falamos você estava… você sabe. Conversei com Andrômeda e perguntei casualmente sobre você, o suficiente para saber que não tinha sofrido nenhum acidente também. Mas ela me disse que você esteve sumida, fugiu de casa misteriosamente no mesmo dia que Sirius Black fugiu… o que está acontecendo, Bervely? Você tem algo a ver com isso?
– Você não pode contar à ninguém. – advertiu, enfática. Ele assentiu com vigor.
– Claro que não vou contar! Você seria incriminada e levada para Azkaban, mas Bervely, o que foi que houve? Ele lhe obrigou a ajudar na fuga? Ele está obrigando você a escondê-lo do Ministério? Você precisa dizer, eu posso ajudar!
– Não! Não, Black não está… Fritz, eu sinto muito, não posso falar nada sobre o assunto. Apenas que Sirius não é a pessoa que todos pensam que ele é, e não está me obrigando a nada.
– Mas tem alguém ameaçando você?
– Eu não disse isso!
Ele estreitou os olhos, auspicioso.
– Tem alguma coisa a ver com aquele símbolo egípcio nas moedas?
– Como é? – ela empalideceu – De onde tirou isso?
– Havia uma espécie de moeda em meu bolso no dia em que fui atingido pelo raio, e eu não faço ideia de como ela surgiu ali. Mas nada me afasta da impressão de que as duas coisas estão relacionadas! Para ser completamente honesto – disse baixo, especulativo – Não é a primeira vez que eu vejo um objeto como esse.
– Como assim, onde o viu antes?
Ele deu um suspiro nervoso.
– Eu nem devia lhe dizer, mas se pode contribuir para a sua segurança… você se lembra de Charlotte Summers?
– É claro que eu me lembro de Charlotte – disse, tendo um arrepio. Pela segunda vez no dia a conversa estava se desviando para um rumo imprevisto.
– Eu fui o médico responsável pelo caso dela, há três anos. E pouco antes de ela sumir por completo dos registros, eu vi uma dessas moedas em sua posse. Eu perguntei sobre, mas ela se desviou do assunto de uma forma muito suspeita. Acredito que seja a mesma pessoa, e se for… se for, você está em terrível perigo também.
Bervely precisou admitir que fazia sentido Charlotte ter uma moeda do Olho de Hórus, se fora ele a dar um fim nela. Que tipo de promessa ele teria feito para convencê-la a cair em sua armadilha? Gavril Romansek tinha muitos, terríveis defeitos aos seus olhos, mas dissimular um contrato não parecia do seu feitio.
– Fritz – chamou, se aproximando dele para poder falar mais baixo. – Preciso que me prometa uma coisa. Não, espera.
Lembrando-se, saltou da cadeira e começou a andar pelo quarto, procurando em todos os vãos, superfícies e móveis qualquer sinal de uma das medalhas engravadas. Ele a acompanhou com os olhos sem mostrar grande surpresa.
– Não tem nenhuma, pedi para Scarlet olhar mais cedo.
Constatando que era verdade, ela voltou para a cadeira.
– Você precisa sair daqui. O mais rápido possível e sem deixar ninguém saber, para a sua própria segurança. Já consegue andar? Eu poderia te ajudar com isso, mas ultimamente nunca sei se estou sendo observada. É melhor ninguém saber que sugeri isso.
Ele negou, resistente.
– Eu não vou fugir, de jeito nenhum. Bervely, quem jogou aquele raio em mim? Quem está por trás disso? Você precisa me dizer, eu tenho o direito de saber e eu quero ajudar!
– Não posso contar! – retrucou com nervosismo. – Da última vez eu te disse demais, e olha só como terminou! Você não pode me ajudar, Ian, não sem ficar em perigo. Eu estou segura enquanto ele tiver interesse em mim, acredite. Mas não posso garantir o mesmo às pessoas ao meu redor!
– Bervely, você consegue ouvir a si mesma? Isso é absurdo! Quem tipo de interesse em você, por quê? E qual a relação de tudo com Charlotte Summers ou Sirius Black?
– Nada. Não tem nada a ver com nenhum dos dois, é apenas uma coincidência, eu penso. – falou sobre o seu fôlego. – Ian, por favor. Do mesmo jeito que a moeda apareceu em seu bolso uma vez pode aparecer de novo, se você fizer qualquer coisa estúpida para tentar me ajudar.
Ele bufou com impaciência.
– Eu sou seu medibruxo, como eu posso ficar sabendo de algo assim e não fazer nada?
– Bem, se você fizer vai morrer!
Silêncio se seguiu às suas palavras, as quais ela se arrependeu imediatamente de ter proferido. Não pretendia ser tão evidente para um homem que ainda estava se recuperando de um choque elétrico de centenas de volts.
Ele lhe olhou, a única sobrancelha restante franzindo-se, e assentiu.
– Tudo bem.
– Mesmo?
– Mesmo. Mas quero que me prometa que vai se cuidar. Sem se meter em prisões e libertar prisioneiros, e por favor Bervely, por favor, volte para casa. Sua tia deve estar ficando louca.
Ela deixou os ombros caírem, sem animo.
– Voltar para casa não depende só de mim, eles não vão me querer de volta.
– Tente.
Eles se despediram depois disso, Bervely saindo ainda mais inquieta do que tinha entrado, acabando por andar sem rumo pelo corredor enquanto pensava. A capacidade de questões do seu passado emergirem abruptamente, como pedaços boiando numa poção mal misturada, sempre lhe surpreendia.
Acima de tudo, ela não conseguia decidir por que o olho de Hórus estava tão interessado em tê-la trabalhando para ele, com base num palpite que Voldemort fizera quando ela ainda era uma criança sem magia… afinal o quê levara ao bruxo das trevas mais poderoso de todos os tempos a aceita-la como um pagamento? Que grande talento era esse que ela tinha e nem mesmo conhecia, e que seria útil para as artes negras e a defesa da causa sangue puro?
Quando ele voltar, vai cobrar as promessas…
Todos loucos, Bellatrix e Romansek. Voldemort estava morto há dez anos e assim permaneceria, tornando todas aquelas questões obsoletas. Bervely caminhava tão às cegas no corredor que quase trombou com um bruxo loiro e alto em vestes lilases.
– Olá, minha linda. Não precisa avançar assim, se quer um autógrafo é só pedir!
– Oi? – ela piscou, confusa. O bruxo sacou uma longa pena de pavão do bolso e um papelzinho de bala, com um sorriso abobalhado no rosto; foi quando ela finalmente o reconheceu, para seu grande espanto. – Professor Lockhart?
– BD –
Bervely não foi até Andrômeda, como o Dr. Fritz tinha recomendado. Ao invés disso ela ficou por perto, usando um disfarce qualquer para não ser reconhecida, e almoçou na cafeteria do hospital, onde pode dar uma boa olhada na tia, de longe. Achou-a cansada e agitada, o cabelo cheio amarrado de qualquer jeito no topo da cabeça, se sobressaltando mais de uma vez ao ser chamada por alguém.
Ensaiou em sua cabeça a cena onde se aproximava e se revelava. O que faria então, pediria desculpas? Como ia se desviar de todas as perguntas que Andrômeda lhe faria sobre Sirius Black, ou da sua muito provável desconfiança? Talvez Andrômeda nem quisesse lhe ouvir, à essa altura. E se lhe desse uma chance, não aceitaria meias respostas sobre o que estivera fazendo naquela semana. E se lhe contasse a história toda, ela acreditaria que Sirius era inocente? Ou seria racional e chamaria os aurores, obrigando-lhe a confessar a coisa toda e lhes levar até ele?
Sua chance se perdeu; a tia fez do seu almoço um evento de dez minutos e saiu apressada do refeitório, a barra do jaleco verde ondulando perto dos tornozelos. Bervely deixou a cabeça cair entre as mãos – o que ela estava fazendo? Não tinha uma casa, nem mesmo um lugar para passar a noite. Estava preocupada com Black, e não tinha como rastreá-lo magicamente… sem falar que ainda não se esquecera das palavras de Gavril, afinal ele fora bem claro sobre fazê-la mudar de ideia, e isso podia significar literalmente qualquer coisa.
Por fim – e muito porque suas mãos estavam atadas para qualquer outra coisa – acabou retornando à Ala Janus Thickey para checar a irmã novamente. Acabou esquecendo que estava disfarçada e quando entrou no quarto, a única pessoa com o combo auto-consciente e visão perfeita ali dentro não lhe reconheceu – Arty levantou o rosto, lhe deu uma olhada curiosa mas logo voltou ao que estava fazendo.
– …então depois disso ele diz, “Por que você comeu o meu experimento, então?”, e Evandra responde, “Eu pensei que fosse pizza, quem mandou você botar tomate em cima dele?”
Johanne gargalhou. Ela estava mais uma vez sentada sobre a cama dele; mais uma vez dentro da bolha apesar do que tinha lhe dito mais cedo. As revistinhas estavam todas espalhadas entre eles, e sua postura era completamente virada para Arty, todo o seu corpo, toda a sua atenção. Ela até inclinava um pouco a cabeça para o lado, para que seu ouvido direito estivesse na direção dele.
– Depois ela passa mal, e vomita o experimento que na verdade são monstrinho de massa com olhos de pizza. É bem nojento. – Arty explicou, indicando as figuras na revista. Anne fez uma careta com a língua para fora.
– Como ela pode ter confundido massa biointergaláctica com pizza? Isso não faz o menor sentido, eu nunca experimentei massa mas deve ser completamente diferente!
Ele deu de ombros.
– Eu não saberia dizer, também nunca comi pizza.
– Sério mesmo? É a melhor comida trouxa de todas! – exagerou, fazendo ênfase com seus braços.
– Comida trouxa não chega muito aqui no hospital.
Anne pareceu triste por um momento, depois seu rosto se iluminou com o sorriso de traquinagem.
– Talvez eu possa conseguir uma pra a gente! A gente pode pedir pra a minha irmã trazer escondido.
– Você acha? – ele cochichou de volta, empolgando-se – Sua irmã não liga de quebrar as regras?
– Ela é muito boa nisso, na verdade. Ela é uma sonserina. – explicou com importância.
Bervely sorriu. Aproveitou que Arty não estava olhando e mudou a sua aparência voltando a ser ela mesma, e se aproximando da cama de supetão.
– Johanne Black, o que eu te falei sobre ficar dentro da bolha?
Os dois deram saltos tão grandes que a revistinha na mão de Arty voou para o chão, e Anne quase caiu junto, colocando a mão no peito.
– Bevy, você me assustou! – reclamou, torcendo um bico.
– Aparentemente essa outra coisa que os sonserinos fazem. – retrucou com ironia. João Arty fez uma cara surpresa exagerada.
– Há quanto tempo você estava ouvindo? Hey, você não era você! Quero dizer, eu te olhei e não… – mas se interrompeu, confuso, e Bervely lhe poupou o problema com uma postura condescendente.
– Você não está fazendo nenhum sentido, querido.
– Mas eu juro…
– Anne, já pra sua cama. Dra. Andie sabe que você fica vagando pela ala e entrando nas bolhas das pessoas?
– Eu não estou entrando na bolha de ninguém, só do Arty! – ela retrucou emburrada, descendo da cama dele e indo para a sua com uma mão estendida à frente, tateando.
– Certo, muito consolador.
– Por que te deixaram entrar aqui, de qualquer jeito? – o menino perguntou desconfiado – Já terminou o horário de visitas para o quarto andar.
– Não sou visita, vou ser a acompanhante da Anne essa noite, não que seja da sua conta.
Ao ouvir isso a caçula esqueceu do seu aborrecimento.
– Você vai? Mas eles não deixam eu ter acompanhante durante a noite aqui nessa ala, como na outra! Vovó e Remus nunca tem permissão para ficar.
– Bom, eu não exatamente pedi permissão, pedi? – lhe informou. A irmã abriu um sorriso travesso que Bervely jurava ter visto idêntico se formar no rosto de Sirius Black. – E você, Arty, é melhor ficar calado sobre isso, se você tem amor à sua bolha.
Ele fez uma careta de descontentamento, cruzando os braços.
– E o que é que eu ganho com isso?
Bervely estreitou os olhos; talvez houvesse mais um sonserino, não diagnosticado, naquela ala. Engraçado, porque teria jurado que o garoto daria um bom Lufa-Lufa.
– Pizza. – cedeu, achando que era um suborno à altura. – Se você for um bom garoto, amanhã eu lhe trago uma pizza inteira, bem trouxa, todinha sua.
– BD –
Sentadas na cama com as cortinas em torno delas, Anne lhe mostrava a sua coleção de CD’s trouxas; agora eram três. Além dos dois que que Oliver lhe dera junto com o aparelho trouxa para reproduzí-los, ela tinha conseguido um com Remus – se chamada The Beatles², o que era um nome bem estranho para se colocar numa banda – e o outro, Oasis, e o próprio Oliver lhe enviara com sua última carta.
– Oliver viu a coisa toda da fuga no jornal e me perguntou como eu estava – ela contou no intervalo da troca de um CD pelo outro, o que fazia com muita desenvoltura pelo tato – Então eu disse a ele que você estava sumida. Ele te mandou alguma carta depois disso? Elas demoram a chegar, porque ele está bem mais longe, viajando junto com as partidas da Liga.
– Não, acho que não.
Anne mordeu seu lábio inferior, pensativa. Seus dedos pequenos sentiam os símbolos gravados nos botões até acharem o play, mas ela não o apertou.
– Você devia escrever para ele dizendo que está tudo bem.
– Mas ele não perguntou se está tudo bem. – disse, aceitando a coisa trouxa de colocar nos ouvidos. Era o segundo CD que ia ouvir, então já estava ligeiramente mais confortável com aqueles abafadores estranhos em torno da sua cabeça.
– E daí? Ele está ocupado com a temporada, mas também deve estar preocupado com você.
– Só tenho como saber se ele está se ele perguntar, não é mesmo? – postulou, azeda, por cima da melodia.
– Ou se você você perguntar!
– Eu não vou perguntar nada.
– Argh! – Anne enterrou seu rosto nas mãos, inclinando o corpo para frente até tocar o colchão, urrando. – Vocês são tão complicados!
– Não te ouvi. – avisou por sobre Twist and Shout. Por alguma razão a melodia lhe lembrou as danças esquisitas do filme que tinha visto com Sirius na TV trouxa do hotel; parecia uma eternidade atrás, mas fora só no dia anterior.
– Você ‘tá ouvindo isso? – Anne tinha ajeitado o corpo reto, inclinando sua cabeça como se fosse um cachorrinho.
– Eu disse que não estou te ouvindo.
– Bevy, presta atenção. – tateando, a mais nova tirou os fones de ouvido da sua cabeça e indicou a direção da porta. – Tem alguma coisa acontecendo lá fora, eu ouvi um grito.
Anne tinha razão; algum tipo de comoção estava acontecendo no corredor. O feitiço que abafava as vozes delas não era de dois sentidos, então podia ouvir perfeitamente a conversa alterada através das portas da ala, os passos e inquietação generalizada. Sentiu a irmã agarrar a manga do seu casaco.
– Você acha que é ele? Que ele conseguiu entrar no hospital?
– Vou ver o que está acontecendo.
– Não! – ela lhe puxou de volta, temerosa – Eles vão descobrir que você está aqui e não vão te deixar voltar!
– Não se preocupe. Fique aqui dentro e me espere.
Bervely deixou a cama, atravessou o cortinado e deu uma olhada para fora. João Arty roncava baixinho, a boca meio aberta, e o Sr. Burton olhava fixamente para uma vespa que sobrevoava a lâmpada, hipnotizado. Ela mudou a sua aparência o suficiente para não ser reconhecida e saiu no corredor, procurando a fonte da confusão. Achou um bolo de gente ao pé da escada que levava ao quinto andar, todos em torno de alguma coisa deitada no chão.
Alguma coisa não – alguém, descobriu ao seu aproximar. Logo quem gritara se tornou óbvio; a curandeira de mais cedo, com o cabelo rosa, chorava copiosamente. Bervely pode chegar até ela, que era amparada por colegas.
– O que aconteceu? – perguntou, sabendo que a atmosfera de confusão impediria que qualquer um se preocupasse com quem ela era ou o que estava fazendo naquela ala tão tarde.
– Um acidente, parece. – disse uma curandeira mais velha, da qual se lembrava vagamente do seu tempo de internamento. – Um dos pacientes estava vagando fora do quarto e teve um mal estar, penso… bateu a cabeça, coitadinho, morreu antes que o encontrássemos.
– Um paciente? Quem? – Bervely exigiu, já antevendo de quem se tratava pela reação da curandeira cor-de-rosa.
O outro curandeiro respondeu, murmurando.
– Sobreviveu à um raio, coitado, para acabar morrendo numa escada.
The show has come to an end
The Master himself is on the stage
With his children, the curtain must fall
And then the Puppets they are gone
(O espetáculo chegou ao fim
O próprio Mestre está no palco
Com suas Crianças, a cortina deve descer
E então os bonecos se foram)
(Continua…)
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