Indigna Rosa Negra

45 A Rosa e a Fortaleza – Parte II


Notas iniciais
Surpresa pelo quanto gostei de escrever esse capítulo, sendo que ele saiu totalmente diferente do planejado. Boa leitura!


“they thought I had guts
they were wrong
I was only frightened of
more important things”

(Charles Bukowski)


(*”Eles achavam que eu tinha coragem/ eles estavam errados / Eu só estava com medo de coisas mais importantes.”)

~

As calças estavam folgadas. Se sentia ridícula andando pelo nível 1 de Azkaban com as calças caindo, e se irritou por não ter gasto aquele tempo dentro da cela de Sirius, depois que ele saíra, tentando se lembrar de algum feitiço útil para apertar as roupas roubadas do guarda roupas de Theodor. Definitivamente voltar pra Feitiços esse ano, se me deixarem.


Dobrou uma esquina e finalmente estava no corredor circular mais externo da fortaleza, onde ficavam os serviços de apoio, e apressou o passo. O coração parecendo um tambor na caixa do peito, mal ousava a acreditar que o seu plano tinha dado certo.


Black estava solto. Não totalmente é claro, ele ainda precisava sair da ilha, mas não havia porque as coisas darem errado agora. Ela aguardara dentro da cela cerca de meia hora, para dar tempo de os quarters se dispersarem da ala de segurança máxima com o corpo, então saíra usando a aparência de Theodor mas a desfizera assim que deixara a torre central, e é claro que agora as roupas dele estavam sacudindo e no caso das calças, caindo, do corpo estreito de Charlotte.

Só mais alguns passos, e eu transfiguro o maldito uniforme. Afinal, ela já podia ver as portas duplas da ala hospitalar da prisão. De fato estava tão direcionada ao seu destino que não percebeu que havia mais alguém no corredor.

– Charlotte? Que está fazendo aqui?

Teve que pensar rápido, mesmo com o sangue gelado. Se virou lentamente; para o seu alívio era o próprio Theodor, para o qual ela podia inventar uma história relativamente plausível sem muito constrangimento.

– Theo! Eu estava procurando você, acho que acidentalmente trocamos as nossas varinhas. – dito isso, tirou a varinha dele do bolso, lhe estendendo – Achei que poderia precisar.

– É, eu tinha percebido. Obrigado– hey, essas roupas são minhas?

Ela teve a decência de corar, esperando que isso fosse perceptível sob a luz das chamas encantadas próximas ao teto.

– Desculpe, precisei pegar emprestado… eu meio que derramei vinho nas minhas, sem querer.

Theodor estava agitado, percebeu, e não necessariamente prestando atenção em suas respostas. Quando lhe estendeu sua própria varinha, ela viu sangue na barra da sua camisa.

– Você se machucou?

Ele olhou surpreso para o próprio braço; se esquecera completamente disso, pela forma com que encarou o ferimento.

– Eu fui mordido. A garota lobisomem… a que estava sendo procurada, você lembra? Filha de Jordel Bane, que foi admitido aqui semana passada…

– Ela está aqui? – alarmou-se, bem convincente. Theodor pareceu incerto sobre o nível de detalhes com o qual responderia, mas depois de alguma deliberação seus ombros caíram.

– Você vai acabar sabendo mesmo, hoje ou amanhã, que diferença faz? Naquela hora que o Quarter McGrath foi me chamar lá em casa, foi porque alguém tinha se escondido no barco quando ele voltou do cais hoje a tarde, e era ela, a pobre coitada…

– Espere, vamos até a ala hospitalar cuidar dessa mordida, lá você pode me contar o resto da história.

– BD –


– Então essa completa alucinada mordeu você, depois que já tinha se entregado? – protestou inconformada, limpando o ferimento em forma oval na pele dele com um algodão embebido em solução desinfectante. Ela conseguia ver onde cada dente de Vindemiatrix tinha sido cravado, não era uma imagem bonita.

Theodor deu de ombros, esfregando o topo do cabelo com a mão que estava livre; um sinal de cansaço que ele vinha fazendo com mais frequência desde que o pai se ausentara da prisão para uma Conferência de Técnicas de Magia em Segurança Prisional na Bulgária, no sábado, e deixara todas as operações sob sua responsabilidade.

– Ela deve ter ficado com medo ou sei lá. Acho que só se entregou por causa do pai, porque estava muito assustada, literalmente tremendo quando a levamos. Acha que alguém pode morrer de medo? Pobre criatura, não aguentou sua primeira noite… McGrath acha que ela bebeu alguma coisa pra se matar, de propósito, antes de se entregar.

Bervely deu de ombros, silenciosa como estivera enquanto Theodor contava a sua história: como Vindemiatrix chegara em Azkaban e perguntara quem era a maior autoridade presente na prisão, para a qual tinha uma confissão a fazer. Assim que ele chegara à entrada de visitantes, ela tinha confessado-se culpada pelas mortes dos trouxas em Snowfall há uma semana, e que estava pronta para pagar pelos seus crimes. Fora levada à uma cela na segurança máxima para passar a noite; afinal, mesmo com a confissão ela ainda precisava de um julgamento e a imposição de uma pena; e ao entrar na torre central e avistar os dementadores, mordera a mão de Theodor, tentando se libertar.


Poucos minutos após ser deixada na cela, agonizou e caiu morta, chamando a atenção dos dementadores. Naquele exato momento o corpo de Vindemiatrix, coberto por um lençol branco, estava estirado numa das macas perto deles.


– O que acontece agora? – perguntou, enquanto passava a atadura branca em torno da mordida limpa, fazendo o melhor que podia com sua falta de treinamento. Esperava que ditamno fosse o suficiente, e Theo não pegasse uma infeção. – Digo… com o corpo, o que acontece?

– Vou pedir à Dra. Ghoster para fazer uma analise da causa mortis, e amanhã vamos conseguir a permissão do pai para o sepultamento. O Ministério deve autorizar que se faça aqui mesmo, no cemitério de Azkaban.

Ela gelou com a noticia.

– Azkaban tem um cemitério??

– Bem… sim. É para onde vão os corpos da maioria dos prisioneiros que morrem aqui, especialmente os da segurança máxima, que raramente são reclamados pela família. Como o único parente de Bane é o pai dela, até onde se sabe, e ele continua preso…

– Eu pensei… eu pensei que eles precisavam ser enviados para um legista logo cedo no dia seguinte. Como eles fizeram com os corpos das pessoas no acidente com o barco.

– Não – Theo dispensou a hipótese com um movimento da mão boa, sem se dar conta de como a noticia a preocupara. – Aqueles eram aurores e visitantes, uma situação completamente diferente. Ah, obrigado. – agradeceu quando ela liberou sua mão. – Eu não corro perigo de virar lobo na próxima lua cheia, né?

– Hum, não. Não se o lobisomem não estava transformado quando te mordeu.

– Ótimo. Vou precisar ir para o centro de comando redigir as providencias da prisão e do sepultamento da garota. Mas que droga, parece que tudo está dando errado desde que o meu pai viajou. – ele percebeu que sua queixa fora um tanto pessoal e ficou ligeiramente constrangido. – Desculpe, eu não devia estar lhe perturbando com os assuntos internos. Acho que à essa altura preciso dizer que a nossa noite será postergada, sinto muito mesmo, Charlie. Posso te arranjar um quarto aqui na fortaleza? Oh, porcaria, falar em quartos, alguém precisa chamar a Dra. Ghoster… ela vai ficar com um humor terrível quando souber que tem de fazer a autópsia no meio da noite…

– Não pode deixar para chamar ela pela manhã? – sugeriu, com uma ponta de esperança.

– Não… se a menina tomou um veneno auto-terminativo, os traços em seu sistema podem sumir em algumas horas, o quanto antes melhor. Eu vou ter que pedir para você…

As portas da ala hospitalar se abriram naquele momento, e o auror que se chamava Alvis, se ela bem lembrava, enfiou a cabeça pelo portal. Ele se aprumou quando viu os dois ali e franziu o cenho para Bervely em roupas de quarter, mas sobre isso nada comentou.

– Pois não, Quarter?

– Há uma perturbação no quadrante norte da Ilha, senhor.

Outra confusão? – ele suspirou com exasperação – O que pode ser dessa vez?

– Os cães, alguma coisa os deixou muito nervosos. Já tentamos acalmá-los mas eles não param de latir, e estão comprometendo a segurança do segundo anel.

– Mas que droga. Vou ter que ir ver isso. – avisou pra Bervely, que assentiu compreensiva. – Você deve voltar para a ala de funcionários e ficar num dos quartos até amanhã. Ah! A Sra. Ghoster, alguém tem que…

– Eu chamo ela. – apressou-se. – Já estou indo pra lá de qualquer maneira.


Ele esteve incerto por um momento, mas concluiu que havia uma lógica no raciocínio, pois logo assentiu.

– Diga-lhe para fazer um relatório detalhado, vou precisar de um para enviar ao DELM assim que o dia amanhecer.

Ela assentiu, seguindo-o até a porta com o segundo Quarter mais à frente, dando-lhes uma distancia respeitosa. Com isso Theodor teve a chance de quebrar a entonação profissional de antes e lhe olhar com outro tipo de intensidade.

– Quando eu resolver isso tudo… posso te fazer uma visita?

Ela pestanejou.

– Claro.

Ele deu um pequeno sorriso.

– Esse uniforme até que lhe caiu bem… não estou mais sentido por suas roupas terem manchado de vinho.


Ela forçou um sorriso ao que era obviamente uma brincadeira maliciosa, depois avançou antes dele na direção dos dormitórios de funcionários, ouvindo os passos dos dois se afastarem na outra direção.

Quando já não os podia mais ouvir, Bervely tratou de dar meia volta.

– BD –


Debaixo do lençol branco, Vindemiatrix estava pálida e gelada como um perfeito exemplar de defunto recém-falecido. Eles não tinham lhe dado um dos uniformes de prisioneiro – Bervely supunha que era um previlégio reservado para os que recebiam a sentença; então ela portava as mesmas roupas de fuga do dia retrasado; um jeans surrado e um moletom verde claro que ja vira dias melhores.

Sem pensar muito em como deveria ser a sensação de morte pela qual a garota passara há pouco (afinal seu grito parecera bem convincente), Bervely achou no armário de medicamentos um pouco de casca de Wiggentree em seu estado natural, a qual colocou em sua palma e triturou com os dedos até virar um pó fino e desprender um cheiro ácido e terroso. Ela passou a coisa nos lábios arroxeados de Mia.

Não ia precisar beijá-la, como na lenda trouxa da Bela Adormecida, ou na revisão desse clássico protagonizada por Severus Snape em seus tempos de escola, segundo relato do próprio. Enquanto a poção necessitava ser catalisada por calor – obtido pela boca de alguém com seu metabolismo funcional, no caso – o ingrediente ativo usado isoladamente era tão forte que poderia levantar um dragão adormecido.


Sem equívoco, em poucos minutos a cor foi voltando ao rosto da garota-lobisomem, e o primeiro movimento dela foi uma careta. Logo seus olhos estavam abertos, enquanto tentava se acostumar à luminosidade da ala hospitalar.

– Bem vinda de volta. – Bervely saudou, intimamente aliviada. Apesar de toda o seu cuidado envolvendo a preparação da Morto-Vivo dessa vez, ela não podia evitar lembrar as consequências para a última pessoa que bebera a sua poção. – Não, melhor não tentar…

Mas Mia já tinha se sentado, e quase instantaneamente curvou o corpo e vomitou no chão de pedra. Depois isso, ela deu um gemido baixo, segurando a barriga.

– Eu me sinto horrível.

– Apenas fique feliz em estar viva – aconselhou a Black, sentando-se na maca mais próxima, os ouvidos atentos para qualquer movimento no corredor. Apontou para a poça de vomito no chão, com um floreio da varinha. – Evanesco! As nauseas são por causa da casca de Wiggentree, vão durar mais algum tempo, mas eu não podia arriscar fazer uma poção diluída e não conseguir te trazer de volta. – e ter que te beijar, acrescentou mentalmente.

Vindemiatrix ainda estava um tanto confusa, piscando para os arredores e à própria Bervely como se tentasse encaixar as peças e o cérebro não estivesse colaborando. Confusão mental era esperada após uma experiência de “morte-viva”, logo, Bervely lhe forneceu um intervalo de tempo aceitável para se recuperar.

– Então… então deu certo mesmo, estamos fora? Eu pensei… quando eles me colocaram na cela, eu tive certeza que nunca mais sairia de lá. – confessou a garota, lembrando-se da experiência e começando a tremer, seus olhos muito abertos – Eu nunca tinha me sentido tão… era como se eu nunca fosse fosse ser feliz.

– É um efeito dos dementadores. E não, não estamos fora, ainda. Mas antes disso, porque raios você mordeu o Quarter?? Isso não fazia parte do combinado!

Ela empalideceu, culpada.

– Droga, eu fiquei com medo, ok? Aquele lugar é um pesadelo, você não tem ideia! Será que ele está bem?

– Ele vai ficar. – rolou os olhos – E sim, eu tenho ideia. Vai precisar vomitar de novo?

Mia considerou por um momento, ainda com a mão pousada no estômago.

– Acho que não… hum, não imediatamente. Espera, por que você me acordou, se ainda não estamos fora de Azkaban? – alarmou-se.

– É, sobre isso… vamos precisar mudar os planos um pouquinho. Acabei de ficar sabendo que não pretendem mandar você… hum, seu corpo para fora da prisão. Acontece que eles tem um cemitério aqui dentro de Azkaban.

Ela ficou quase tão pálida quanto estava minutos antes, debaixo do lençol.

– Ah meu Deus, eu sabia que ia morrer aqui dentro, eu sabia, eu sabia…


Bervely estava prestes a interromper o pequeno ataque de pânico da Garota Infeliz com um comentário ácido quando um feitiço prateado atravessou as portas duplas. Seu atual estado de vigilância a fez pular da maca imediatamente, varinha em punho, enquanto que Mia deu um grito e se encolheu, cobrindo a cabeça e enfiando a cara entre os joelhos.


O feitiço não atingiu nenhuma das duas, no entanto. Ficou fazendo voltas em torno de Bervely e sacudindo sua cauda, e ela só demorou um segundo para perceber que aquele era seu próprio Patrono… o que deveria estar acompanhando Black, dentro da coleira, e garantindo que os dementadores iam ficar longe dele enquanto escapava da ilha. Um aperto de medo começou a se formar em seu interior: por que o feitiço retornara à ela?

– Isso é um cão? – Mia olhou por cima de um braço, quando percebeu que ainda continuava viva – Oh, que bonitinho.

– Não é bonitinho… é uma péssima notícia. – Mesmo que eu não saiba exatamente o que significa.


Supunha que patronos deveriam se dissipar naturalmente quando não estavam em uso, mas o enorme cão prateado continuou em seus calcanhares, olhando pra cima com a língua pendendo, como se esperasse uma ordem – ou um afago.

– Volte pra Black! – ela grunhiu para ele, irritada. – Você não tem que estar aqui!

O feitiço-cão inclinou a cabeça para o lado, como se não soubesse do que raios ela estava falando. Foi uma boa coisa ele não ter saído, porque naquele momento todas as luzes se apagaram, e ao mesmo tempo que a ala-hospitalar mergulhou em profunda escuridão, alarmes ensurdecedores começaram a soar, como o canto de uma dúzia de agoureiros ensandecidos.

– O QUE DIABOS…? – Bervely exclamou, erguendo a varinha de novo, todos os pelos do seu corpo se arrepiando com o som agonizante. Só conseguia ver alguns palmos à frente, e só porque o patrono emitia sua suave luz prateada entre ela e Mia. O cão se virara alerta em direção às portas, e a lobisomem tinha o mais puro olhar de horror no rosto.

– Eles me descobriram! Eles sabem que eu estou viva! Vão vir atrás de mim!

– VOLTE PRA A MACA, MIA! – mandou, urgente, através do contínuo e enlouquecedor ruído à sua volta – VOLTE PARA A MACA!


Assim que ela deitou, Bervely a cobriu com o lençol branco, apesar das suas mãos estarem tremendo.

– Não se mova daqui. Pareça morta, eu volto num minuto.

– BD –

O Patrono a seguia, e não havia nada que pudesse fazer sobre isso. Finite Incantatem não o mandou embora, então ela se resignou com a companhia e aproveitou a iluminação dele para sair da ala e andar pelo corredor até achar um dos quarters, que surgiu à passos rápidos no corredor.

– Hey, você! O que está acontecendo, que barulho é esse?

Ele estancou, sua varinha em punho e a expressão de quem tinha coisas mais importantes a fazer do que lidar com garotas em pânico.

– Parece que um dos prisioneiros escapou da cela. A prisão está em lockdown¹, ninguém entra ou sai até que o encontremos! Você deve ir para ala-hospitalar e esperar lá, tenha certeza que as portas estão trancadas! Estamos patrulhando os corredores, mas é melhor garantir que… bem, que ele não chegue em você antes de um de nós. Hey! Isso é um patrono?


– Sim! Desculpe, quando as luzes apagaram eu fiquei assustada.

Ele franziu o cenho para ela, com irritação.

– Trate de sumir com ele, os dementadores estão participando da busca e vão ficar realmente furiosos se derem de cara com um patrono no caminho!

– Ok… – murmurou, assustada. Dementadores pelos corredores atrás de Black? Porque o maldito patrono não ficara na coleira como deveria?


O Quarter seguiu caminho, sem perceber o horror dela com a notícia. Se eles sabiam que Black estava fora da cela e os dementadores estavam atrás dele, era só uma questão de tempo para encontrá-lo.

Ela retornou para a ala hospitalar como tinha sido ordenada, o cão prateado ao seu encalço, e usou a varinha para fazer a maca em que Vindemiatrix estava deitada flutuar, ao mesmo tempo em que sussurrava em seu ouvido coberto.

– Mudança de planos, vamos dar o fora agora mesmo. Eu, você, esse patrono teimoso de uma figa… e Sirius Black.

– BD –


O alarme ensurdecedor foi interrompido, mas o zunido remanescente ficou atazanando seu ouvido nos minutos seguintes, enquanto ela avançava pelo corredor circular do nível externo com sua estranha comitiva – cão brilhante e corpo flutuante, nas roupas folgadas de Theodor Shadowtamer.

Cada pequeno ruído lhe sobressaltava; nem queria imaginar o que seria dela se cruzasse com um dementador no corredor, ele se ofendesse com o seu patrono, e resolvesse chamar os amigos para uma retaliação. Será que as runas em seu corpo seriam o suficiente para protegê-la de um confronto direto? Quantos dementadores eram necessários para vencer o feitiço patrono de uma garota de dezesseis anos?


Quantos deles eram necessários para tomar sua alma e a de Vindemiatrix?

– Nós estamos ferradas, não estamos? – a garota sob o lençol choramingou, fazendo eco aos pensamentos de Bervely.

– Calada, Mia, gente morta não fala. – grunhiu por entre os dentes, a varinha da mão tão apertada que estava quase sem circulação sanguínea.

– Só pra você saber… acho que nunca senti tanto medo na vida.

– Hum. Bem vinda ao clube.


Havia um quarter no final do corredor, apenas um, virado para o lado de fora. Pelo topo de cabelo loiro curto, Bervely o reconheceu como Victor Olleant, um dos jovens aurores à serviço de Azkaban, e pensou que eles não estavam esperando encontrar Black por ali se o deixaram, ainda mais sozinho, para vigiar a saída/entrada de visitantes.

– Hey, Olleant. – ela chamou, depois de respirar fundo e encher a voz de uma coragem que não sentia. – O que está acontecendo? Por que apagaram as luzes?

O quarter se virou e fez uma rápida leitura dela, da maca flutuante e do cão. Bervely soube que pareceria um tanto suspeita naquele arranjo, mas manteve a expressão neutra e levemente curiosa.

– Srta. Summers, o que está fazendo em Azkaban fora do seu turno de trabalho? – perguntou suspeitosamente. – E andando pelo corredor?

– Hora extra. O Quarter Shadowtamer me pediu para ficar, desde que a medibruxa de plantão não está se sentindo bem. Há alguma coisa errada? As luzes…

– Estamos em lockdown, um prisioneiro escapou. Os dementadores rastreiam melhor na escuridão. – ele resumiu, se aproximando com a varinha em punho. – O que você tem embaixo do lençol?

– Um corpo, da garota que morreu na cela mais cedo. Preciso deixá-la no barco para que seja levada ao continente na primeira viagem. – tinha quase certeza que a história não ia colar, mas era tudo o que podia pensar no momento. Como esperado, Olleant mostrou ainda mais desconfiança.

– Shadowtamer não me disse nada sobre isso.

Bervely deu de ombros.

– Você vai ter que checar com ele, então. Deve ter havido uma falha na comunicação, com toda essa confusão agora à noite.

– Não posso deixar você passar para o lado de fora, e isso nem seria completamente seguro, entende. Ah, vou precisar verificar o corpo, por questões de segurança.

Bervely deu um passo para trás, esperando que ele abrisse a guarda enquanto se aproximava da maca, mas o Quarter era treinado suficientemente bem para se posicionar de forma que ela ainda estava sob o alvo de sua varinha. Ela soube que estava tudo acabado quando Olleant ergueu o lençol – Mia não tinha como se fingir de morta sem estar sob o efeito da poção, e Bervely jamais seria rápida para atingi-lo sem que ele reagisse.


Ela não esperava, é claro, que Mia cravasse seus dentes no Quarter no momento que ele suspendeu os pano.

– OUCH! – Olleant gritou, recolhendo a mão. O instante de distração foi o bastante para Bervely reagir.

– Estupefaça!

O quarter tombou no chão como um saco de fertilizante de fadas, mas o feitiço não o deixou inconsciente, só zonzo. Mia saltou da maca com uma agilidade que só podia ter a ver com sua parcela lupina, arrancando a varinha da mão dele ao mesmo tempo que Bervely apontava a sua própria para a cabeça dele.

– Pra baixo, Quarter. – avisou perigosamente. – não é nada pessoal, mas… Petrificus Tottalus.

Elas arrastaram a estátua viva do auror para um canto escuro do corredor, depois se olharam, Mia dando uma risada nervosa, Bervely muito pálida.

– Eu não acredito que você mordeu ele. Qual o seu problema?

– É só uma coisa que eu faço quando fico nervosa. – disse sem graça.

– Estou quase agradecida por você ter escolhido me bater na cabeça, sexta-feira passada. – resmungou – Vamos em frente, não vejo uma boa razão para você continuar se fingindo de morta, agora que tem uma varinha.

– Você podia se mostrar um pouco grata, que fosse – a menina resmungou, pulando da maca e ajeitando o moletom surrado. – Acabei de salvar sua vida.

– Isso no máximo nos deixa quites, Vindemiatrix, e mesmo assim tenho as minhas dúvidas.

– BD –


Se conseguiram avançar, foi só porque contavam com Mia como elemento surpresa. Bervely notou que o cão-patrono ficava circulando o caminho à uma distancia em torno delas, como se cobrindo um perímetro seguro de deslocamento, e ela percebeu que ele estava procurando por dementadores.


Não que ela precisasse, afinal estava invisível para eles por causa das runas encantadas de Theodor em seu corpo. Mas eles viriam por Vindemiatrix… ou sua parcela lobo os deixariam confusos também, como os cachorros deixavam?


Toparam com mais dois quarters do lado de fora do pátio, estes mais velhos, mas ela se transfigurou em Theodor e os distraiu perguntando se tinham visto qualquer coisa – com isso, Vindemiatrix e o Patrono fizeram a volta neles sem serem vistos. Em vinte minutos caminhando por uma trilha aberta, sob um vento forte e muitos olhares preocupados para o céu em busca de sombras negras, elas alcançaram o local onde Bervely, agora há quase duas semanas, tinham pego o arpão pela primeira vez em companhia de Theodor.

A lobisomem se apoiou nas grandes do ancoradouro, tremendo de alívio, quase chorando, mas a verdade é que Bervely estava fria e tensa. Se tinham chegado até ali sem grandes problemas e nenhum dementador, é porque em alguma parte da ilha eles estavam entretidos com outra coisa importante. E ela estava tentando evitar acreditar que a coisa importante era sugar a alma de Sirius Black, mas estava difícil se desviar do pensamento.

– Você sabe dirigir essa coisa? – Mia perguntou, quando conseguiu superar a emoção da chegada. – Tem certeza que isso vai nos levar até a costa?

– Você pergunta coisas demais. Aqui, vamos trocar de varinha, me dê a do Quarter. Use a minha por enquanto… atire em qualquer coisa que se mover, a não ser que seja um cachorro negro.

– Um c-cachorro?

Mas Bervely já saltara da plataforma flutuante para o arpão, tentando se estabilizar sobre ele. Como previra, havia um lugar para tocar a varinha, e ela imaginava que do mesmo modo que as celas da prisão, o objeto mágico só responderia à uma varinha conhecida. Quando encostou a ponta da que estava em mãos o painel ele se iluminou, e ela puxou a maior alavanca para baixo, como vira Theodor fazer da última vez.


O feitiço-motor começou a roncar. O barulho era muito mais alto do que se lembrava.

– Anda logo, Vindemiatrix!

A garota saltou atrás de si no assento comprido, e o cão prateado ficou parado na ponta da plataforma com os olhos pidões para a sua direção. Ela não fazia ideia de porque o feitiço ainda estava ativo por todo aquele tempo, mas seu peito apertou ao perceber que ele ficaria para trás.


Não havia tempo a perder, e Bervely colocou as mãos nos controles em forma de diamante, um de cada lado do painel, respirando muito fundo.

Isso é uma completa loucura.

Quando os puxou para trás, o arpão deu um forte coice para frente e ouviram o estalo da corda enfeitiçada se partindo.

– Acho que você esqueceu de soltar a âncora. – Mia avisou, falando alto para contrapor o vento rascante à nível do mar, enquanto ganhavam velocidade. – Hey, por que está fazendo a curva? O continente não é aquela direção?

– Ainda não achamos Black, e nem sob o meu cadaver eu vou deixar essa ilha maldita sem ele.

– BD –


Não foi difícil achar Caronte II atracado no cais principal, sua gigantesca silhueta jogando uma sombra ampla no mar e cobrindo o arpão quando Bervely se aproximou, manobrando-o à bombordo. Ela estava agitada e elétrica por causa da adrenalina de conduzir aquela coisa, o que de alguma forma era bom, porque a sensação gelada de medo se fora, substituída por fria resolução.

– Precisamos arranjar um jeito de subir. – falou, olhando para os quatro metros que a separavam do convés do barco. As ondas quebravam baixas, mas constantes sob o arpão, sacudindo-o de um lado para o outro e espirrando água em seu uniforme roubado.

– O que te faz pensar que Black está lá dentro?

– Foi o combinado. Ele ia se esconder lá dentro e esperar a primeira viagem do barco. No cais ia ser fácil desembarcar sem ser percebido, e se ele por acaso fosse, poderia se livrar mais facilmente dos guardas, sem precisar lidar também com dementadores. O mesmo serviria para você. – completou, chateada que aquela parte do plano tivesse ido por água abaixo. – Mas com a busca, eles eventualmente vão revistar o barco.

– Se ainda não revistaram. – completou a lobisomem baixinho. Bervely sabia que havia essa possibilidade, mas preferia ter esperanças. Pensava que quando achassem Black os alarmes soariam novamente, as buscas seriam suspensas, e nada disso tinha acontecido até o momento.

– Vamos fazer o arpão flutuar do mesmo jeito que a maca. – decidiu.

– Você quer encantar essa coisa inteira? – duvidou, o tom cético.

– O Fera dos Mares é um navio inteiro, e isso não o impediu o Capitão Gancho de fazê-lo flutuar.

Oi?

Mas Bervely não tinha tempo ou disposição para explicar à Vindemiatrix as particularidades da Terra do Nunca naquele momento; tudo que sabia era que, se iam encantar o arpão inteiro, precisaria de ajuda.

– O quão familiar você com o Virgardium Leviosa? – perguntou, sabendo que pelo seu nível de magia Mia certamente não teria frequentado a escola. Mas a garota sorria.

– Foi o primeiro que eu aprendi, tive tempo de praticar bastante.

– BD –

Quando elas saltaram do arpão flutuante, estacionado no ar bem ao lado da popa, o cão prateado estava ali entre as velas enroladas, perto do mastro principal, sacudindo sua calda felpuda. Bervely olhou para ele completamente incrédula.

– Como você pode possivelmente

– Olá de novo, cachorrinho! – Mia saudou, como se fosse ok um patrono seguí-las numa fuga da prisão e agir completamente em desacordo com a vontade da bruxa que o tinha conjurado, para começo de conversa.

– Vá olhar no porão, eu olho aqui fora. Lembre-se: azare qualquer coisa que se mover…

– Menos se for um cão negro. – ela assentiu, obediente, e escorregou pelo alçapão que levava ao nível inferior do barco, desaparecendo de vista.

Acompanhada apenas do seu feitiço brilhante, Bervely começou a cobrir o convés, procurando nos cantos entre os mastros, velas, baús e outras coisas de navegação que ela não fazia ideia de pra que poderiam servir. Seu patrono cheirava e fuçava os cantos por onde passavam, com se compreendesse o que buscavam, mas ela rolava os olhos para a iniciativa – se ele tivesse ficado onde mandou, não estaria tendo que procurar agora.

Deu uma olhada na cabine de comando, também apagada, onde havia um painel que tinha o triplo do tamanho daquele no arpão, muitos botões e alavancas diferentes, fora os vários instrumentos de navegação de prata, que lembravam muito os de astronomia em Hogwarts. Passou pela sua cabeça que ela gostaria de, um dia, pilotar um barco como o Caronte – a experiência de navegar o arpão fora mais interessante do que esperava, apesar das circunstâncias.

Mas não havia ninguém ali, gente ou cão, e sua esperança fraquejava. Estava perguntando a si mesma onde mais poderia procurar, quando viu um movimento no convés que a sobressaltou.

É só Vindemiatrix, tranquilizou-se, respirando fundo. Saiu da cabine, ansiosa para saber se ela encontrara alguma coisa.

Mas não era Mia. Quando pisou do lado de fora novamente, Theodor Shadowtamer a esperava.

Expelliarmus!


O feitiço a pegou de surpresa, e sua varinha teria voado até a mão do Quarter, apenas se o seu patrono não tivesse saltado em direção ao feitiço e o rebatido no ar. O cão prateado caiu com um ganido mas se levantou em seguida, um pouco bambo, brilhando só um menos do que antes.

Ambos, Bervely e Theodor, olhavam aturdidos para aquele fenômeno estranho. O Quarter brandiu a varinha de novo.

Estup…

– Protego! –
ela rebateu, dessa vez preparada, lembrando-se das vezes que praticara duelo com Tonks em Hogwarts. Parecia que fazia um milhão de anos, mas os movimentos ainda estavam gravados em sua memória muscular. – Me estuporar, Theodor, sério?

– Eu não quero te machucar, Charlie, mas acho que precisamos ter uma conversa… Locomotor Mortis!

Ela se jogou para o lado, mas o feitiço atingiu uma das suas pernas, que ficou completamente dormente. Caindo no chão atrás do mastro mais largo do navio, murmurou Finite Incantatem. Quando conseguiu se levantar de novo, Theodor já estava perto.

Impedimenta! – ele rugiu, ao mesmo tempo que ela disse:


Expecto Patronum!

Ambos os feitiços funcionaram; Bervely ficou momentaneamente impedia, e o cão recuperou o brilho e veio correndo em direção à Theodor, jogando-se em suas costas e o atravessando como se fosse um fantasma; ainda assim, o quarter caiu sobre os joelhos e as mãos, soltando um grito.

Isso lhe deu a chance de se recuperar, rastejando para longe dele e em direção à um dos baús de madeira empilhados no convés, arquejando. Gostaria de estar com a sua própria varinha, porque aquela lhe parecia instável, não confiava nela completamente. Naquele momento Vindemiatrix saía pelo alçapão e Bervely a puxou rapidamente e aos trancos, o mais silenciosamente possível. Ela deu uma olhada para o outro lado do barco, onde Theodor já estava de pé e lhe procurando.

– Fomos descobertas, fique escondida. Você o achou?

– Não tem ninguém lá embaixo.

– Merda. Precisamos sair do barco antes dos outros aurores chegarem. Tente atingí-lo, se tiver um alvo limpo, eu vou distraí-lo.

Mia assentiu, apesar do horror em seu rosto, e Bervely rolou pelo outro lado do baú, dando a volta pela lateral do convés na direção de Theodor.

– Theo! – chamou, quando estava perto, e ele se virou tão rápido que a madeira estalou sob seus pés. Estava pronto para desarmá-la, mas Bervely tinha as mãos para cima, em rendição.

– Não me machuque. Não é o que está pensando.

– Então vai dizer que você não está ajudando Black a fugir? – ele rebateu com raiva brilhando nos olhos claros – Me entregue a varinha, Charlotte, agora, ou vou ter que estuporar você.

Ela fez como foi mandado, lhe entregou a varinha do Quarter Olleant. Theo a reconheceu e ficou ainda mais zangado.

– Segunda varinha roubada em um dia, huh? Não acredito que confiei em você. O quão estúpido eu… argh. Vou te arranjar uma cela para passar a noite, mas vou fazer questão de estar em seu julgamento.

Ela abriu a boca para falar, mesmo sem saber o que diria. Havia mágoa na voz dele, por trás da raiva, e pela primeira vez lhe passou pela cabeça que talvez Theo gostasse de Charlotte, de verdade, não apenas num nível físico. Mas no momento o cão-patrono os interrompeu, se interpondo entre eles, os dentes à mostra e uma vibração estática que soava como um rosnado de alerta.

– Como é que esse patrono pode estar ativado? Você está sem varinha! Tem mais alguém aqui?

– Eu estou sozinha. – disse num tom calmo, rezando para que ele não pudesse ouvir as batidas de seu coração disparado.

– Veio procurar Black, foi? Sinto dizer que ele estava vindo em direção ao cais, mas meus cães o encontraram primeiro.

Ela sentiu perder uma batida cardíaca.

– Vocês o tem?

– É só uma questão de tempo. – disse Theo muito sério. – É uma pena que você tenha caído na conversa dele, Charlotte. Você parece uma boa garota, e ele é um bruxo muito manipulador… uma pena.

Não que ela estivesse ouvindo. Era só uma questão de tempo.

Uma sombra passou por trás de Theodor, ao mesmo tempo em que, no cais, quatro aurores se aproximavam com as varinhas em punho e correndo em direção ao barco. Ela fechou seus olhos, que estavam ardendo, e deu um suspiro pesado.

– Eu realmente sinto muito, Theo.

Ele assentiu. Ia dizer qualquer coisa, mas foi atingido na nuca e caiu no convés duramente, a varinha escorregando da sua mão. Atrás dele, a silhueta de Mia apareceu, preocupada.

– Será que eu matei ele?

– O que você usou?

Ela ergueu um remo curto de bote, e Bervely rolou os olhos, se perguntando porque diabos tinha deixado Mia com uma varinha para começo de conversa.

– Ele vai sobreviver. Vamos.

Sob uma chuva de feitiços tardios lançados pelos aurores do outro lado do barco, elas saltaram sobre o arpão flutuante e liberaram o feitiço de levitação. Ele caiu com um baque na água, mas não afundou, e logo estava roncando mar adentro. Caronte II foi ficando cada vez menor enquanto se afastavam.

Um dos aurores chegou a pular na água para tentar seguí-las, e os outros gritaram ordens para mover o barco, mas quando finalmente conseguiram, elas já estavam invisíveis na imensidão do oceano, conseguindo despistá-los.

Mia, atrás de Bervely, estava eufórica: não parava de exclamar “Eu não acredito que escapamos!”, “Eu não acredito que escapamos!” em meio à gritinhos. Mas tudo que Bervely ouvia era um eco continuo em sua mente com a voz de Thedor: É só uma questão de tempo. Só uma questão de tempo. Meus cães o encontraram primeiro…


Ficou aliviada quando atracaram na orla, muito longe do porto de Azkaban, e pisaram em terra firme. Agora um vento muito mais violento assobiava e rodopiava em direção ao mar, úmido como o hálito de um dementador.


– Tudo bem com você?

Ironicamente, foi Bervely que se curvou na areia e vomitou, mesmo que não pudesse se lembrar a última vez que tinha comido. Tinha certeza que fora há mais de vinte e quatro horas.

– Estou bem – informou, limpando a boca com um feitiço e sentando na areia, os joelhos estavam fracos. Durante toda a ação na prisão se sentira cheia de energia, e de esperança. Tinha certeza que iam encontrar Black, iam conseguir fugir juntos, tudo daria certo… agora percebia que esse sentimento devia vir do seu próprio patrono teimoso, constantemente ao seu lado. Uma vez que ele não estava à vista, ela se sentia uma completa ruína.

– Sinto muito por não termos conseguido achar Black. – Mia disse, sentando-se perto. – Mas quem sabe ele não consegue sair sozinho? Se ele for tão esperto quando você…

Ela meneou a cabeça, olhando fixamente para o mar que na verdade estava muito escuro. A lua da noite era minguante, uma fina faixa no céu, como um sorriso sarcástico. Parecia lhe dizer: quem diabos você pensa que é, para devolver a liberdade à Sirius Black?

– Vai haver uma tempestade. – Mia observou, apontando as nuvens pesadas vindas do oeste, quase sobre elas, mas Bervely não podia se importar menos com a previsão do tempo.

– Vindemiatrix…

– Eu sei, preciso te devolver suas coisas. Aqui está a sua varinha. E a sua… outra varinha. – tirou a varinha de Charlotte do casaco que, Bervely acabara de perceber, era o seu, que ela roubara em Snowfall. Enquanto isso, Mia tinha se dado conta do fator estranho de que Bervely tinha duas varinhas. Três, contando com a que tinham roubado do quarter há pouco. – E aqui está o cheque…

– De onde esse casaco veio? Você não estava com ele antes.

– Ah, é! – ela exclamou, dando-se conta. – O casaco também é seu. Eu o escondi no barco antes de me entregar, imaginei que eles confiscariam tudo quando eu me entregasse.

– Isso foi bem esperto, na verdade. – disse, admirada. – Mas… pode ficar. Tenho outros em casa.

Mia assentiu, mas ainda lhe estendia o cheque amassado e a varinha. Bervely se demorou observando aquelas duas coisas por um instante, e então meneando a cabeça.

– Fique com a varinha também, não vou mais precisar. Quanto ao dinheiro… – ela riu, porque Mia estava paralisada, lhe encarando como se não pudesse absolutamente acreditar no que estava ouvindo – Acho que vai conseguir sacar, desde que apresente a varinha. Mas faça logo ao amanhecer, não sei quanto tempo até anunciarem que Charlotte… digo, eu sou procurada pela justiça. Depois disso é melhor se desfazer dela, compre uma nova com o dinheiro. Eles vão dar um jeito de rastrear.

– Ah, meu deus, Charlotte, obrigada! – ela se lançou na direção de Bervely, colocando os braços em volta do seu pescoço – Obrigada!

– Sem abraços, por favor, se não quer me fazer mudar de ideia.

– Desculpe. – a lobisomem se afastou rápido. – E quanto à você? Eles vão te procurar, você é comparsa de Black agora!

– Não vão me achar. – garantiu, tranquila. – Charlotte Summers vai sumir do mapa… novamente.

– Eu não posso te agradecer o suficiente por me ajudar. Você foi tão corajosa lá dentro! E todo o seu plano, e depois o outro, quando o primeiro não deu certo! Você é incrível, uma bruxa e tanto. Aquele patrono…

Bervely deu um sorriso fraco e meio cético; não estava se sentindo lisonjeada. Ela falhara, falhara no mais importante, e Vindemiatrix nunca entenderia.

– Você também não foi mal, para uma garota lobisomem. Se esconda bem, ok? – falou, à guisa de despedida. – Melhor do que estava fazendo antes. E por favor pare de morder pessoas por ai, dentro ou fora da lua cheia. Não queremos que você transmita nem pegue nenhuma doença por causa desse péssimo hábito.

Ela riu timidamente, assentindo. Voltou a vestir o casaco, guardar o cheque no bolso e segurar a varinha pelo punho da forma correta. Bervely pensou que ela ia embora, mas Mia ainda tinha uma pergunta.

– Você devia me odiar, por tudo que fiz. Podia ter me deixado mofando em Azkaban, ou então ser enterrada viva, ia te poupar um monte de problemas. Por que… bem, você sabe… por que está me ajudando?

Bervely não diria, mas sabia como era pensar em si mesma como um monstro. Carregar nas costas o peso da culpa e não conseguir se livrar dele quando, racionalmente, não fazia sentido se martirizar. A culpa não se importava, e nem ia embora. Ao invés de confessar qualquer uma dessas coisas, apenas deu um sorriso pequeno.

– Eu gosto do seu nome.

– Meu… nome?

– Você tem nome de estrela. Vindemiatrix, braço direito da constelação de Virgem. Na minha família, isso significa muito.

– O que quer dizer? – indagou, curiosa.

– Que você deve honrá-lo. Se mantenha segura, Mia. Não deixe eles te pegarem.


Quando a garota foi embora e Bervely se viu completamente sozinha na praia, ela retomou a sua aparência original e se deixou cair na areia fofa de costas. Ficou olhando o céu, que ironicamente, não tinha nenhuma estrela à vista – turvo por completo em razão das nuvens da tempestade em formação.

Não soube quanto tempo ficou ali deitada, morrendo de frio, mas apática demais para se importar. Sabia que não estava em perigo imediato – por causa das runas, os dementadores não a encontrariam, se viessem para a praia. Não que eles fossem mandá-lo… Black era mais importante, e Theodor sabia que o condenado não fugira junto com ela.


Se perguntou se teriam-no pego, à essa altura. Se ele estava de volta à cela fria e úmida, com os dementadores todos rondando as grades, furiosos, querendo um pedaço da sua alma em troca da ousadia de tentar escapar. Se ele estava assustado… se a entregaria, em troca de um pouco de paz. Ela sabia como era, o quanto eles pediam, o quanto podia ser tentador, quando eles puxavam suas piores memórias para a superfície e faziam você se afogar nelas…

As lágrimas fluíram para a superfície de seus olhos, e ao invés de controlá-las, Bevy as deixou escorrer para os cantos e até a raiz de seu cabelo em suas têmporas. Não tinha por que ser forte, ou se importar, ou continuar lutando. Era só uma questão de tempo.

Um brilho prateado foi crescendo no escuro e ela acompanhou, sem entender completamente, o cão prateado se aproximar. Ficou quieta, assistindo ele chegar até sua mão estendia na areia e encostar o focinho na palma estendida. Não o sentia, porque ele não era sólido, mas a energia do feitiço emanava calor na sua pele, junto com um formigamento curioso. Ela inclinou a cabeça para olhá-lo.

– O que você quer? – reclamou com ele, ressentida. – Você é um patrono, não tem dementador nenhum aqui! Vá embora!

O cão latiu em retorno, pulando sobre as patas dianteiras. Ela meneou a cabeça.

– Feitiço inútil. Te mandei tomar conta de Black, você devia ter ficado com ele.

Seu patrono latiu novamente, empurrando o focinho fantasma em seu braço, depois pulando sobre as patas, enérgico.

– Eu não sei o que você quer, não falo cachorrês. Me deixa em paz.


Mas ele não deixava. Latia, rodava em torno dela, tentava cutucar seu braço e latia novamente. Achando que poderia ser sério, como algum aviso de perigo, Bervely se sentou e olhou ao redor, mas tudo estava calmo. O mar ondeava a areia, o vento uivava ameaçando a chuva, mas era só.

– Diabos. – ela levantou; o cachorro não ficava quieto. Quando finalmente ficou de pé, ele correu alguns metros, depois parou e ficou latindo lá de longe. – Tá, tô indo!

Estava seguindo seu próprio feitiço, o quão patético isso era? Por vários minutos ela acompanhou a trilha prateada no escuro, até que perdeu as contas. Se movimentar era bom, mesmo contra o vento frio que se infiltrava no uniforme de Theodor e enregelava sua pele. Qualquer coisa que a distraísse do fracasso daquela noite…

Até que houve um silhueta no escuro, que o Patrono iluminou parcamente quando parou de andar, e recomeçou a latir. Bervely empunhou a varinha, primeiro achando que podia ser um dementador – mas claro que não, primeiro porque estava largado no chão como morto, e desde quando dementadores morriam? Segundo, porque era coberto de pêlo encharcado…

– BLACK! – ela gritou, sem acreditar no que os seus olhos estavam vendo. – BLACK!


O cão prateado cresceu em brilho, ofuscante e vivo, abrindo uma clareira de luz em torno do cão caído na areia.

Por favor, por favor, faça com que esteja vivo, faça com que…

Caiu de joelhos na areia ao lado dele, com medo de acreditar. Da última vez que encontrara alguém estirado no chão fora Hector, com seus olhos abertos e apagados, exangue, o coração congelado. E ela sabia que se isso acontece uma segunda vez em sua vida, e com Sirius… ela não suportaria.

Por favor…

Reunindo coragem, colocou uma mão gelada na pelagem embaraçada do cão, na altura do seu peito. Não sentiu nada, nenhum batimento, só o rugido do mar e do vento dando voltas em torno dela.

Black, por favor…

Até o patrono se aproximara, finalmente parando de latir e aquietando-se ao seu lado. Bervely deitou a cabeça no peito do cão, ao mesmo tempo que exausta, apostando num fio de esperança que ainda não se partira. Seu ouvido tocou o pêlo cheirando à sal, e ela fechou os olhos esquecendo todo o resto, procurando a música da vida dentro dele e mas nada.


Black…


E ali estava. Contra todas as possibilidades, e todas as expectativas… o som baixo, mas perfeitamente audível, das batidas do coração do cão.

(Continua…)

Notas finais
SEI que vocês estão esperando mais Sirius Black, mas não me matem ainda, não podia deixar essas pontas soltas! A notícia boa é que cap que vem é Tudo Sobre Black, e que há grande chances de ele sair ANTES, se batermos o record de comentários aqui! Sooo, me contem o que acharam, gatinhos e gatinhas, todo mundo sai ganhando ;) ¹lockdown: uma situação na qual as pessoas são impedidas de entrar ou deixar um local livremente, por causa de uma emergência. Até onde eu sei, não conheço equivalente satisfatório em português.