Indigna Rosa Negra

44 A Rosa e a Fortaleza – Parte I


Notas iniciais
Pra quem estava ansiosa pra ver Bevy chutando bundas. Música do capítulo – Wonderwall (Oasis), sugestão de Mira Black. Prestem atenção às datas! Boa leitura ;*


“Toda fuga exige três coisas: conhecer a estrutura, entender a rotina
e ajuda de dentro ou de fora.”

(Escape Plan – 2013)


Dois dias mais tarde – 28 de Julho, quarta-feira.


today is gonna be the day
that they're gonna throw it back to you.

(hoje será o dia
em que eles vão jogar tudo de volta em você)


Theodor Shadowtamer inclinou a cabeça sobre o ombro de Bervely e checou a superfície do caldeirão borbulhante.

– Wiggenweld?


Ela assentiu, distraída, jogando a profusão de cabelos castanhos claros para o outro lado do seu pescoço. Cabelo longo e poções raramente combinavam, e o de Charlotte – volumoso e muito quente – era um desserviço. Com um mínimo suspiro, desejou que estivesse sozinha no laboratório e pudesse encurtá-lo.

– É para algum interno? – ele voltou a perguntar, enquanto pelo canto do seu olho ela o via caminhar para o outro lado do balcão e puxar um banco.

– Não, na verdade, é pra mim. Tenho me sentido cansada, nada demais.

– Isso é por causa da exposição prolongada aos dementadores, vai sugando as suas forças e você mal percebe.

Balançou a cabeça de novo, observando a mistura de Molly e ditamno começar a ferver.

– Espero que não se importe de eu estar usando o laboratório para isso…

– Não, tudo bem. – ele sorriu, lhe passando a tábua com as fatias da casca de Wiggentree prestativamente. – Eu disse que você podia, não disse? Além do mais, é bom vir aqui distrair a cabeça de vez em quando.


Bervely adicionou ao caldeirão o último ingrediente, passando a mexer no sentido horário. Até parece que aquela poção ridiculamente simples era uma distração… o Quarter a observava por trás do caldeirão, encarando sem disfarçar.


Normalmente, pessoas fazendo isso lhe deixavam desconfortável.

– Escuta, Theodor – começou, no seu tom simpático. Que na verdade era o tom simpático de Charlotte, porque ela não estava bem certa que tinha um só seu – Posso te pedir um favor?

Ele se aprumou no banco, interessado.

– Claro. É o mínimo que eu posso fazer depois de ter me feito aquele enorme, na segunda feira, substituindo Ms. Ghostter na enfermaria.

É, segunda na enfermaria. Bervely afastou um calafrio. A poção atingiu a tonalidade correta de verde, e ela desligou a chama sob o caldeirão, enquanto ele aguardava o seu pedido.


– Preciso enviar uma coruja, é um pouco urgente, na verdade. Você teria alguma disponível pra emprestar?

– Claro. Ah, nossa – ele se lembrou, de repente – Na verdade, teria que ser a minha, porque as corujas de Azkaban só podem ser usadas para assuntos referentes ao trabalho. Isso é um problema?

Não nada que Bervely soubesse; estava contando com isso.

– Se não for para você, não é pra mim.

Ele sorriu com a resposta, lhe ajudando a segurar o funil de vidro para que ela despejasse a poção na garrafa.


– Oh, mais uma coisa. Minha coruja não pode ser enviada daqui de dentro, então… você se importaria de me acompanhar até em casa? Vou dar meu turno como encerrado mais cedo hoje, Merlin sabe como preciso de um descanso.

– Não, eu não me importaria.

Na verdade, isso era outra coisa com a qual ela estava contando.

~ ¥ ~


Dia anterior, 27 de julho (terça-feira).


by now you should've somehow
realized what you gotta do.

(a essa altura você já deveria, de algum modo,
ter percebido o tem que fazer)


Uma cabeça apareceu na lareira: um rosto em formato de coração, muito bronzeado, cabelo em três tons de laranja, Nimphadora tinha um sorriso intrigado quando avistou a prima mais nova.

– Hey, B.! Que é que há? Sabia que uma hora você não ia aguentar de tantas saudades de mim!

– É, quando essa hora chegar eu te aviso – ela rolou os olhos, embora sorrisse de volta. – Na verdade, quero te perguntar uma coisa.

– Sem papo furado sobre como tem sido minhas maravilhosas férias com dragões, então? Ótimo, porque eu tenho uma partida de dragonbol daqui a pouco! Só chamei agora porque você disse que era urgente.

Bervely franziu com ceticismo.

– Dragonbol?

– É como quadribol, mas com dragões. – ela fez um movimento complacente com a cabeça, como se fosse uma atividade banal e corriqueira – Posso te contar tudo sobre isso à noite, se eu não sofrer nenhuma queimadura que me impeça de falar, claro.

– Não, tudo bem, guarde pra quando voltar. Escuta… lembra quando a gente estudou o módulo sobre rastreamento para o seu teste prático da Academia?

– Claro!

– Bom, se lembra de algum para recuperar bens perdidos?

Tonks ergueu uma sobrancelha alaranjada, com diversão.


– O que você perdeu? Se foi um pouco da sua rabugice, acho que ao invés de rastreamento podemos dar uma festa.

– Haha. Engraçado. Perdi um casaco… – Tonks ergueu ainda mais sua sobrancelha, provavelmente se perguntando porque aquilo era tão urgente a ponto de tirá-la do seu jogo de dragonbol. – Era um casaco muito importante. – com 300 galeões e uma varinha ilegal dentro, pensou.


– Bom, você pode usar um Feitiço de Rastreamento Direto, mas você precisaria de duas coisas. A primeira é um objeto circunstancialmente relacionado ao bem perdido.

– Fale a minha língua, Tonks. – retrucou, estreitando os olhos com impaciência.

– Isso seria qualquer coisa que você costumava usar sempre ou muito frequentemente com o casaco, à ponto de os dois terem formado um vínculo circunstancial… tem que ser um objeto mágico, claro. Algo que sempre estava no bolso, sua varinha por exemplo, deve servir.

– Ok. – assentiu. É claro que raramente a sua varinha estava no bolso do casaco que levava para Azkaban, mas ela podia pensar em outro objeto. – E a segunda coisa?

– Aparatar. O feitiço te leva automaticamente para o local onde o objeto está, mas por meio de aparatação. – Tonks fez uma leve careta com o impasse – Você ainda não prestou seu exame, né? Sua varinha não tem autorização, ela dispararia um alarme no Ministério.

Bervely sabia que o Ministério podia descobrir quando um bruxo menor aparatava sem autorização, mas nunca tinha pensando em como exatamente eles sabiam.

– Espera ai – raciocinou, interessada – A varinha recebe uma permissão de aparatar quando alguém passa no exame?

– É, é como eles mantém o controle de quem pode ou não aparatar. Quando você entra pra escola você compra uma varinha nova em folha, certo? E ao longo da sua vida o Ministério vai adicionando encantamentos à ela, de acordo com o que você pode ou não fazer. É coisa de alta complexidade, eu tive de estudar isso pra a prova teórica da Academia. Sabia que quando você casa, eles fazem uma runa especial em sua varinha que…

– Tonks, foco aqui, ok? – ela estalou os dedos na frente do rosto da prima, que fez uma careta. – Minha varinha foi herdada, não comprada. Quais as chances de ela já possuir uma autorização de aparatar?

– É mesmo, de quem você a herdou?

– Bellatrix.

– Ah. – ela fez uma careta ainda maior – Eu devia ter imagino isso. Eca. Ok… não deve ter problema, então. Mas não fale por ai que eu lhe disse isso, como futura auror, não seria um conselho sábio da minha parte, eu deveria lhe dizer para levar a sua varinha até um Mestre de Varinhas para zerar todos os…

Tonks. Você ainda não é auror, nesse momento você é apenas uma pessoa com julgamento duvidoso que resolveu passar os últimos dias de liberdade numa reserva de monstros que cospem fogo. Agora, pode me explicar como o feitiço funciona?

– Claro. – ela rolou os olhos, soprando a franja repicada que parecia uma língua de fogo sobre a bochecha – Como eu poderia lhe dizer não, com você derramando gentileza pra mim desse jeito…

~ ¥ ~


28 de Julho, quinta-feira, fim da tarde.


by now you should've somehow
realized what you're not to do.

(a essa altura você já deveria saber de algum modo
ter percebido o que você não deve fazer)

Bae,

Beba isso, é uma poção fortificante, vai fazer você se sentir melhor. E caso a sua mãe tente impedir, dê um recado a ela por mim: se ela não gosta do mundo mágico agora, espere só até conhecer Azkaban.

Atenciosamente,

B.


Bervely enrolou o pergaminho em torno do pequeno frasco de poção verde recém-feita, ainda morna, e jogou sobre ele um encantamento anti-quebra que deveria resistir à viagem até Snowfall. Amarrou o pacote na pata da coruja de Shadowtamer – um espécime completamente castanho escuro, com excessão da asa esquerda, que era branca salpicada de pintas marrons.


– Ela se chama Asa. – disse Theodor atrás de si, e Bervely se virou para encontrá-lo trazendo uma garrafa e duas taças. Ele deu de ombros. – Gosta de vinho de fadas?

– Nunca tomei.

– Vai começar com estilo então. Safra de 1824, coletado na floresta de Breth. Ah, gostou da vista?

Ele se referia à visão do mar que tinham através da varanda traseira da sua casa. A morada Shadowtamer era uma construção curiosa, que como a fortaleza, parecia ter nascido da mesma rocha de que a ilha era feita. No entanto, ficava de costas para a prisão, à oeste da ilha, escondida de vista e acessível por uma trilha entre as árvores, que passava no meio do território dos cães. Felizmente, grades de proteção ladeavam o caminho, impedindo que os animais tivessem acesso, mas enquanto andavam até ali Bervely vira o suficiente de olhos espreitando entre as árvores para ter alguns calafrios.


Assentiu em aprovação à vista, aceitando a taça de vinho e dando um pequeno gole. O tanino ardeu em sua língua, seguido de um sabor ferroso característico, e ela fez um pequeno esforço para engolir, decidindo que não era a sua bebida preferida.


A casa, no entanto, era surpreendentemente confortável. Os sofás tinham forro de couro marrom lustroso, os móveis eram de madeira escura e as paredes traziam mapas antigos de coleção, emoldurados em cedro. A ampla sala se abria para o pátio externo onde estavam agora, e este se inclinava como a continuidade de uma pequena praia de pedras lá embaixo, onde as ondas quebravam gentilmente.

– Estranho pensar que alguém realmente mora nessa ilha por vontade própria. – comentou, deixando a taça de lado discretamente e se virando para ele. O cheiro salgado e pesado do mar do norte começava a pesar em seu estômago, e ficar encarando o movimento das ondas lhe deixava ligeiramente tonta.

– Não é tão ruim quanto parece.

– Você tem dementadores como vizinhos, Shadowtamer. – discordou, erguendo uma sobrancelha enfática, sem acreditar que ele ia sustentar aquela linha de argumentação.

– Eles não se aproximam daqui com muita frequência, e depois de um tempo você se acostuma com o frio.


– Além do mais, você tem suas tatuagens mágicas. – ela lembrou, fingindo dar mais um gole, e sorrindo por trás da taça. Ele fez uma leve careta.

– São runas de proteção. “Tatuagem mágica” soa um tanto juvenil e fora de propósito.

Ela teve que rir com aquilo.

– Longe de você parecer juvenil e fora de propósito. Mas ok, suas runas de proteção, você me disse aquela dia que eram feitas… com uma tinta especial? O que tem nessa tinta?

Ele balançou a cabeça, com um sorriso misterioso.

– Como se eu fosse te contar minha formula secreta.

Ela deu de ombros, fingindo que não se importava.

– Aposto que eu consigo adivinhar só de olhar pra ela. Sou muito boa com depuração sensorial, sabe, descobrir os ingredientes de algo a partir do cheiro…

– Eu sei o que é depuração sensorial, Charlotte. – estreitos seus olhos com ceticismo divertido – Façamos o seguinte… se você adivinhar um ingrediente sequer da minha tinta, eu te emprego aqui na fortaleza como minha pocionista titular depois que o Projeto Orcus terminar.

– Uau, que promessa arriscada. – inclinou sua cabeça, lhe dando um olhar impressionado, e não o de completo desprezo pelo convite, acompanhado da afirmação “o diabo que eu ia querer trabalhar aqui depois disso”, que era tudo no que conseguia pensar.

– Bem, é claro, eu não iria deixar uma pocionista desse nível me escapar entre os dedos. – ele lhe deu uma piscadela, ao mesmo tempo que ela sentia um gelo na barriga – Me espere aqui, já volto.

Ele voltou, como prometido, e de posse de uma maleta comprida e metálica. De dentro dela tirou um frasquinho de cristal, e Bervely viu vários outros acondicionados no forro de veludo. Theo destampou o frasco e lhe entregou, uma atitude desafiadora e curiosa em seu rosto moreno.

Havia uma substancia espessa e azul cobalto dentro do frasco, que ela cheirou tentativamente sob a vigilância atenta do Quarter Não precisava ser nenhuma depuradora sensorial para saber que aquele líquido de grande complexidade alquímica e potencial mágico, mas os aromas eram diferentes de qualquer coisa que tinha sentido antes. Ascendiam à segredo, controle e sussurro.

– Então? – ele pressionou, antecipando a sua resposta.

– Acho que eu precisaria de mais tempo…

– Apenas admitia que está fora de alcance. Minha mãe se certificou em fazer a fórmula à prova de depuração por qualquer meio, posso te garantir. É impossível de replicar.

Ela torceu um pouco seus lábios numa careta de insatisfação. Impossível não era, nem de longe, a sua palavra preferida. Enquanto isso, Theo colocou a própria taça quase vazia de lado, e se movimentando calma e deliberadamente, pegou seu braço esquerdo e trouxe para a luz. Bervely tentou não parecer surpresa, mesmo quando ele molhou o dedo da outra mão na tinta e começou a desenhar em sua pele.

– Aqui. – disse enquanto completava o traço. Apesar de estar desenhando com a ponta do dedo, o contorno de sua runa se tornava elegante e sinuoso em sua pele, como se produzido pela ponta de um pincel. Devia ser parte da mágica. – Essa é Ymm, uma runa de resistência. Vai te ajudar muito mais do que a poção que estava fazendo mais cedo.

Ela observou na luz o desenho que ele fizera sob a rosa, uma espécie de cruz com um triângulo sobreposto na linha vertical superior. Um formigamento em sua pele e um leve brilho indicavam que o poder da runa estava sendo ativado em seu corpo, e Bervely ergueu seu rosto, surpresa.

Não porque ele lhe desenhara uma runa… mas porque fizera isso tão mais rápido e facilmente do que ela imaginara. Theodor tinha um amplo sorriso em seu rosto, como se tivesse acabado de lhe fazer um grande favor.

– Mais vinho? – ele disse depois, se levantando do banco de pedra e pegando a garrafa para completar sua taça. Bervely usou esse tempo para respirar fundo e tomar coragem para o seu próximo movimento.

– Na verdade, Theo, eu estava imaginando se você podia fazer mais que isso.

– Mais que isso? – voltou-se, sem entender do que estava falando. A garota assentiu, se levantando..

– Seria tão mais fácil pra mim suportar as próximas semanas se eu tivesse mais runas iguais à suas.

Ele assentiu, compreendendo e, ela reparou, meio fixado em seus olhos… nos olhos azuis de Charlotte, que deviam cintilar como um par de joias na luz indireta do fim do dia.

– Posso te fazer mais algumas, se quiser.

– Pode me fazer todas?

Ele alargou seus olhos quando entendeu a extensão prática do pedido.

– Quando vocês diz todas

Bervely desabotoou suas roupas com um aceno de sua varinha, deixando que escorregassem até o chão. O vento do mar lambeu os contornos expostos do corpo de Charlotte, lhe causando um involuntário calafrio.

Nada comparado, é claro, ao arrepio na espinha que Theodor Shadowtamer deveria ter sentido naquele momento.


~ ¥ ~


Dois dias antes, 27 de julho, terça-feira – noite.


and all the roads we have to walk are winding.
(e todas as estradas que temos que percorrer são tortuosas)


Usou a chave de portal do Olho de Hórus para executar o feitiço de rastreamento, e aparatou solo pela primeira vez desde as suas aulas em Hogwarts. As chances de aquilo dar errada eram… infinitas.


Talvez o objeto de afinidade circunstancial não fosse forte o bastante, e ela aparecesse em algum lugar completamente distante do seu casaco e ficasse perdida.

Talvez estrunchasse horrivelmente e perdesse a sua cabeça. O que seria bem irônico, dado que alguns usariam essa expressão metafórica para definir todo aquele plano.


Talvez desse certo, aparatasse no meio de uma multidão de trouxas e disparasse um alarme no Ministério. Como ia justificar estar usando a aparência de uma aborto presumida morta, a varinha de uma comensal condenada e estar de posse de uma chave de portal que levava ao cais de Azkaban?

Tinha deliberado todos os viés do plano, e decidido que cada um valia o risco. Então, quando aparatou de posse da sua cabeça, num beco vazio fora de vista, e reconheceu uma das ruas de Londres, se permitiu suspirar de alívio. O feitiço lhe mostrou onde ir – uma casa com aparência abandonada, e cuja porta cedeu facilmente com um alohomora. Estava vazio, mas era o lugar certo – seu casaco estava lá, pendurado num cabide de três pernas. Bolsos vazios.

Bervely não tinha qualquer interesse na peça de roupa roubada. Na verdade, estava concentrado as esperanças em encontrar a ladra envolvida na questão. Após vasculhar a casa atrás de seus pertences e não encontrá-los, sentou na cama de solteiro esfarrapada e esperou.


Quando a lobisomem voltou, deu-se com a antiga varinha de Bellatrix Black apontada para a sua testa.

– Merda! – ela exclamou cambaleando para trás, seus olhos se arregalando como pires. Bervely se levantou calmamente, mantendo-a na sua mira.

– Isso não foi gentil, mas eu vou te dar um desconto. Afinal, não cheguei a lhe dizer meu nome. Accio varinha!

A varinha de Charlotte voou do bolso de Vindemiatrix e fez um arco no ar, parando em sua mão livre. A garota-lobisomem olhou para um lado e outro do quarto, buscando uma rota de fuga rápida, mas a única janela do aposento estava mais perto de Bervely do que dela, e a mesma tinha dado um passo para bloquear a porta.

– Como diabos você me encontrou aqui? – perguntou, a voz tremendo.

– Não foi tão difícil. Pra que se dar ao trabalho de roubar uma varinha, se nem se preocupa em jogar feitiços de proteção em torno da casa em que está se escondendo? Que péssima desculpa de bruxa em fuga você é.

A garota pareceu sem graça, desviando o olhar por um momento. E ela estava com medo, é claro. Era bom que estivesse, Bervely pensou com ferocidade.


– O q-que você quer de mim? Você já tem a v-varinha de volta! Vá embora!

Ela estreitou os olhos perigosamente.

– Você partiu o fundo da minha cabeça e me roubou não só a varinha, como o meu dinheiro, garota. Acha mesmo que eu vou embora assim tão fácil?

– É, me desculpe por isso. – Mia empalideceu. – Eu só queria… eu só precisava da varinha. Eles iam me pegar e me levar pra a prisão! Eu não queria machucar você, mas você acendeu a luz e viu todo o sangue! E quando os aurores chegaram…

– Você pirou. É, eu percebi. – bufou – Olha, Vindemiatrix, não dou a mínima pra os seus problemas… se você quer que o seu pai apodreça em Azkaban pagando por seus crimes, ótimo. Se você quer sair pelo mundo infectando gente, vá em frente, acabe com tudo! Mas Bae? Ele é só uma criança! Qual o seu problema?

Bervely reparou tarde demais que a garota estava ficando vermelha e lacrimosa, e de repente ela explodiu em um choro soluçante, caindo sentada na cama com o rosto nas mãos. A reação só serviu para irritá-la.

– Ah, por favor! Nem tente, lágrimas não me causam nenhuma comoção.

– Eu não tive culpa! Eu não tive, eu não queria machucar Bae nem nenhuma daquelas pessoas! Foi um acidente! Se você pelo menos ouvisse, antes de j-julgar…

Rolou os olhos, cruzando os braços. Estava esperando uma interação mais seca e objetiva, mas se ela insistia, qual era a escolha?

– Eu estou ouvindo.

– O q-que? – Mia ergueu o rosto lavado, piscando.

– Eu estou ouvindo, Vindemiatrix. Me conte sua versão da história.

E ela ouviu tudo sobre isso, na meia hora seguinte. Como Mia e sua mãe foram mordidas por um hóspede quando ela tinha oito anos, e enfrentado os terrores das transformações por todos aqueles anos trancadas em uma caverna na floresta, sobre os cuidados de seus pai, e apesar de todo o sofrimento, tinha sido capaz de evitar maiores danos, uma em companhia da outra na época de lua cheia.


E como quando sua mãe falecera, há quatro meses, as transformações ficaram mais difíceis, pois estava sozinha e o seu pai, em luto, não conseguia ficar sóbrio durante a lua cheia, o que colocou o seu sistema de contenção em risco… culminando na noite em que ele se esquecera completamente de trancá-la pelo lado de fora, há uma semana, e Mia escapara, atacando os moradores de Snowfall. E como ela não conseguia ficar em paz desde então, atormentada pelas vítimas que fizera em forma de fera.

– Então seu pai foi o culpado. – Bervely concluiu duramente da sua posição, recostada na parede oposta à cama, segurando ainda uma varinha em cada mão. Mia parara de chorar, mas fungava.

– A morte de minha mãe o abalou muito… ele não fez de propósito.

– Mas ele aceitou pagar o preço no seu lugar. – lhe lembrou, inflexível.

– Isso não importa. – Mia balançou a cabeça de cabelo ralo e embaraçado – Para o Ministério eu sou a culpada, eu ataquei aquelas pessoas…

– Isso é ridículo, você não estava consciente quando aconteceu.

– Não é como eles pensam. – ela disse, rouca. – Tudo que eles querem é trancar o máximo de lobisomens que puderem. Acha que iam perder essa chance? Afinal eu ataquei pessoas! Eu ma-matei pessoas…


– Ok, não comece a chorar novamente, você está me deprimindo. Agora se podemos discutir os próximos passos…

Mia arregalou os olhos de novo, se agarrando à cama com as duas mãos.

– Você vai me entregar, não é? Foi por isso que você veio. Ah, meu deus, você sabe o que eles fazem com lobisomens na prisão? Por favor tenha piedade… eu sinto muito por roubar a sua varinha, e o seu cheque, e o seu casaco, e bater na sua cabeça…

– Mia, cala a boca. – Bervely esfregou a ponte de seu nariz com o indicador e polegar. Ela tinha antipatizado pela menina em sua versão Feliz, mas a versão Chorona era ainda mais enervante. – Eu não vou entregar você, desde que me faça um favor. Dois, na verdade.


A lobisomem, que não esperava a solução simples, ficou um tanto surpresa. Mas o sentimento logo se transformou em horror quando ouviu o que Bervely tinha a pedir.

– VOCÊ FICOU MALUCA?

Ela nem pestanejou.

– Vai dar tudo certo. Eu tenho um plano, você estará segura.

– NÃO! Isso é o oposto de segura! – exclamou com a voz estridente.

– Pra encurtar essa conversa, eu devo te lembrar que não estou lhe dando uma opção, mas uma saída. Se não aceitar, eu vou estuporar você agora mesmo, e quando acordar será para conhecer a sua nova cela.

– E como isso é diferente do seu plano? – guinchou.

– Bom, no meu plano você escapa no fim. Mas você quem sabe. – deu de ombros muito tranquilamente, esgueirando a varinha. – Estu…

– Ok! – Mia ergueu as mãos, se rendendo. – Eu faço, eu faço!

Sua boca se abriu num sorriso que ela não sabia, mas era idêntico ao frequentemente usado por sua mãe, quando tinha a sua idade. Afiado nas pontas, e capaz de provocar um alarme de perigo no inimigo. Bervely enfiou a mão no bolso e jogou o frasco de Poção do Morto Vivo nas mãos da lobisomem.

– Te mando as instruções mais tarde. Ah, e não tente fugir… eu te achei hoje e posso achar de novo, e não vou estar me sentindo piedosa se me obrigar a te rastrear uma segunda vez.

~ ¥ ~


28 de Julho, quinta-feira, noite.


and all the lights that lead us there are blinding.
(e todas as luzes que nos levam até lá nos cegam)


Olhou para o relógio pela terceira vez, tentando ser discreta, mas Theodor pegou o movimento com o canto do olho e meneou a cabeça.

– Acho que a essa altura você já perdeu o último barco.

Ele abriu mais uma garrafa de vinho de fadas, e serviu as taças deles de novo. Bervely sentia muito por toda bebida que estava jogando através da amurada quando ele não estava olhando, mas precisava estar sóbria aquela noite, mais do que nunca em sua vida.

– Tudo bem. Eu meio que estava esperando passar a noite. – sorriu pra ele, sugestiva. Os olhos claros do Quarter, que já estavam queimando desde que ela retirara as vestes em sua frente e pedira para ganhar suas runas especiais, se tornaram ainda mais intensos.


Desejo,
ela reconheceu, sustentando o olhar dele e por consequência as suas expectativas. Theodor fora um perfeito cavaleiro ao traçar as marcas sobre a sua pele, suas runas complexas por seus ombros, peito, estômago, braços e costas… mas por diversas vezes, suas mãos tremeram levemente, talvez se impedindo de tocar mais que o estritamente necessário. E por diversas vezes também seus olhos vagaram para as suas curvas – não, as curvas dela, de Charlotte, o corpo dela… o que Theodor apreciava, e mal podia se segurar para experimentar, era tudo que pertencia à Charlotte. E ao mesmo tempo que o fato funcionava como uma blindagem que prevenia Bervely de se sentir exposta com tanto à mostra, era uma consciência perturbadora… Agora a tinta estava penetrando, sob o roupão que ele lhe emprestara, alegando que ela devia esperar algum tempo antes de se vestir de novo.

– Preciso admitir que foi uma surpresa saber que você estava interessada… desse jeito. Digo, você é sempre tão discreta e meio fechada.

– Eu poderia dizer o mesmo de você. Acho que pra nós dois foi um tiro no escuro, nesse sentido.

– Ainda bem que atiramos para o mesmo lado. – ele concluiu, muito satisfeito, a expressão tranquila de quem tinha resolvido um impasse da melhor maneira.

Bervely gostaria de sentir aquele tipo de tranquilidade. À medida que as horas passavam, seu coração começava a bater mais forte e mais nervoso. Theodor se sentara perto dessa vez, e tinha pegado a sua mão para observar a primeira runa desenhada, Ymm. O azul se tornara escuro, quase negro.

– Fica realmente bonito em sua pele. – ele traçou o desenho com o dedo. – Mal posso esperar pra ver quando o resto secar… só vão durar algum tempo, essa tinta é temporária, mas enquanto funcionarem vai se sentir bem melhor aqui na ilha.


– Eu já me sinto melhor. – murmurou, respirando fundo e devagar, tentando quebrar o peso de nervosismo em seu estômago. A carícia dele subia por deu braço até o pescoço, e depois ao queixo. Theodor muito suavemente virou o seu rosto na direção dele, procurando seus olhos, e Bervely soube que teria de beijá-lo…

Mas o quarter se afastou quando batidas pesadas soaram na porta da frente. Os cães começaram a latir, e Bervely sentiu o coração vir parar na boca com o susto. Ele se levantou meio atazanado, tateando o casaco em busca da varinha.

– Aqui – ela lhe entregou o artefato mágico – Caiu quando se levantou. Quem será?

– Deve ser algum quarter do plantão. Volto em um segundo.

– Tudo bem.

Ela tentou ouvir a conversa à porta: murmúrios agitados de quem chegara, e as réplicas de Theodor cada vez mais alarmadas. Ela pescou as palavras “confusão” e “entrada de visitantes”. Quando ele voltou, aquele rubor em suas bochechas estava de volta.

– Sinto muito, vou ter que voltar à prisão. Vou tentar ser rápido… me espera aqui? – perguntou, chateado e esperançoso.

– Claro – piscou – Pra onde mais eu iria? Mas o que aconteceu, precisa de ajuda?

– Não… parece que um passageiro ficou escondido no barco para desembarcar quando atracasse, isso acontece às vezes, gente que não recebe autorização para visita e não se conforma. Normalmente uma noite em uma cela resolve o problema.

– Nesse caso, volte logo. – ela sorriu – A tinta já deve estar seca, você vai querer ver o resultado do seu trabalho.

– Eu mal posso esperar por isso. – ofegou, lhe dando um beijo rápido no rosto, mais uma desculpa por ter de se ausentar e então a deixando sozinha em sua casa. Bervely esperou a porta bater, os passos abrandarem e os cães pararem de latir, antes de se mover do lugar, levantando-se.

A primeira coisa que fez foi pegar a varinha escondida atrás do banco – a varinha dele. Ela tinha entregue a sua, e ele, distraído com a interrupção, mal notara. Depois disso, ela foi até dentro da casa e procurou o lugar onde ele mantinha as roupas. Não foi tão difícil achar um dos uniformes de quarter pendurados em cabides, dentro do guarda roupas, perfeitamente alinhados. Ele tinha vários conjuntos, visto que era a roupa que usava o tempo inteiro.

Então Bervely se transfigurou em uma figura masculina pela primeira vez. Ela precisou fazer ajustes olhando no espelho, até conseguir a largura certa. Não conseguia copiar a altura dele, então, a sua versão de Shadowtamer era um pouco encurtada, mas não menos impressionante. Ajudava fato de tê-lo visto sem camisa uma vez, mas o que havia por baixo das calças, ela só podia reproduzir usando a sua imaginação. Quando estava satisfeita, vestiu o uniforme de quarter sobre todas aquelas runas recém feitas que estampavam a pele morena.

Merlin, aquilo era estranho. O corpo pesado e cheio de músculos duros, o cabelo curto, os pés muito maiores do que estava acostumada. As mãos que eram quase o dobro das suas, ela precisou modular a força com que vestia as roupas, para não acabar rasgando-as por acidente. A barba sobre seu queixo lhe dava agonia…


Foco, Bervely,
exigiu, dando mais uma olhada no relógio, que precisara afrouxar para caber no pulso largo dele. Até agora tinha tido uma grande parcela de sorte em cada etapa do plano, mas nada garantia que a maré positiva fosse perdurar, e a noite só estava começando.

~ ¥ ~


backbeat, the word was on the street
that the fire in your heart is out.


(andam dizendo por ai
que o fogo no seu coração apagou)


Três dias antes, 26 de julho – segunda-feira.


Ela deixou Sirius Black por último de propósito. Uma parte de si queria desesperadamente vê-lo de novo e a outra preferia um afogamento lento no fundo do mar do que ter de ouvir seu desprezo novamente. Não havia possibilidade de acordo dentro de si, e ambas causavam, cada uma, um tipo de dor.

De acordo com a ficha médica de Black – que era uma diferente da que ficava na Sala de Arquivos, e só estava acessível para os medibruxos da prisão – ele tinha saído da cela para um atendimento apenas quatro vezes nos últimos dose anos. Três delas porque quebrara ossos, enquanto se batia contra as grades ou paredes, e a última por conta de uma… infestação de pulgas? Ela ficou encarando o diagnóstico por uns bons cinco minutos, mas desistiu de achar um sentido.


Os guardas trouxeram Black, acompanhando de um dementador, que ficou do lado de fora das portas duplas. Um dos quarters entrou, mas precisando respeitar a privacidade entre médico e paciente, ficou de guarda do lado de fora do biombo. O prisioneiro entrou, então, pesadas algemas em torno dos seus braços, e se sentou na maca enquanto ela o observava muito séria. Tinha decidido que se Black ia fingir que não sabia quem ela era, podia muito bem ser indiferente à ele.


A prática era mais difícil. Tentar não procurar os traços do homem que conhecera por sob o cabelo embaraçado, a barba, a roupa de prisioneiro, era praticamente impossível.

– Bem, Sr. Black. Eu sou a Dra. Summers, estou substituindo Ms. Ghostter…

– Corte a conversa fiada. Eu sei quem você é. – ele disse rudemente, olhando para um ponto além dela.

– Ótimo. – retrucou, apertando os lábios. – Isso nos salva tempo. Você requisitou atendimento médico, qual a sua queixa?

– Eu lhe disse para não voltar à esse lugar. – ele disse sombriamente. Bervely sentiu a sua sobrancelha se erguer em ceticismo.

– Parece que eu não sigo ordens de prisioneiros arrogantes, afinal de contas.

Ela se virou de costas para pegar a prancheta e a varinha de exames, então não viu o pequeno esgar lateral que subiu o canto da boca dele, por detrás da barba espessa. Quando se aproximou novamente, Black voltara a estar quieto, e Bervely executou os exames mais básicos que não exigiam se aproximar dele.

– Você poderia ter sumido com essas marcas. – disse de repente, enquanto ela tomava notas. Bervely demorou um pouco para perceber que ele se referia aos hematomas agora amarelados em seu pescoço, que ele provocara.

– Poderia. Mas achei que seriam um souvenir interessante do nosso reencontro.


Ela se arrependeu, não do sarcasmo pesado das suas palavras, mas do amargor que não pudera ocultar nas entrelinhas. Eram as palavras deles que tinham deixado marcas profundas, e não seus estúpidos dedos em seu pescoço, será que Black não percebia?

Não, ele não percebe. Ou ele percebe, e não dá qualquer importância.


– Você parece bem, Sr. Black. – voltou a dizer, o tom eficiente e profissional de volta. – Tem tido pesadelos?

– Você diz, fora o que eu tenho de viver todos os dias nos últimos doze anos?

– Pensei que você merecia, por que afinal de contas você se declarou culpado do crime que não cometeu.

Talvez estivesse indo longe demais. Talvez estivesse atiçando um homem instável e desequilibrado, que já tentara lhe matar de uma vez e podia tentar de novo. O guarda estava perto, mas poderia ele chegar a tempo se Black tentasse qualquer coisa? Ele era ágil, forte, e, como já tinha constatado uma vez, ela era incapaz de gritar ou se defender se ele se aproximasse.

Talvez fosse louca, por que no fundo de sua alma, ainda acreditava que ele não iria machucá-la. Mesmo que já a tivesse machucado, mais do que qualquer pessoa, e apenas naquela última semana.


I'm sure you've heard it all before
but you never really had a doubt.

(tenho certeza que você já ouviu tudo isso antes
mas você nunca duvidou)


– As circunstâncias mudaram. – declarou Black baixo, e por um momento sua frase não fez sentido.

– Mudaram…? – ela franziu seu cenho, sem saber o que ele queria dizer com isso.

– Você vai fazer o que eu disser, e se tentar me delatar, eu vou denunciar você para os aurores. Eles vão gostar de saber de quem é filha, talvez até te deem uma cela ao lado daquela piranha maldita que lhe pariu.

Ela ignorou a ofensa gratuita, porque acabara de perceber a intenção por trás das palavras.

– Está tentando me chantagear, Black? – perguntou, num tom risível.

Ele não estava para brincadeira, no entanto.

– Chame do que quiser, garota.

Bervely deu um suspiro pesado. Aquilo estava mesmo acontecendo? Talvez estivesse alucinando, como um efeito tardio da exposição aos dementadores. Seu cérebro deveria estar virando mingau, era a única explicação plausível. Ela abaixou a sua prancheta e olhou muito seriamente para ele, através até mesmo de sua aparência desequilibrada. E o que ela teve de volta foi um olhar sério, sólido e perturbador. E nada poderia tê-la deixado mais extasiada do que isso.

– Você não precisa me ameaçar. Só precisa pedir.

– Não é nenhuma poção estúpida ou me livrar de um pesadelo. Se eles pegarem você, vai ganhar prisão perpétua.

Ela quase riu da ironia.

– Black, apenas peça. O que quer que seja… qualquer coisa.

~ ¥ ~


28 de Julho, quinta-feira, noite.


I don't believe that anybody
feels the way I do about you now.


(não acredito que alguém
sinta o mesmo que eu sinto por você agora)


O caminho para a Ala de Segurança Máxima, ela já conhecia de cor. Se nada, aquele fato já era bastante significativo para explicar o quando entranhada em Azkaban ela se encontrava no momento, física e psicologicamente.


Os guardas olhavam para ela, viam seu superior e a deixavam passar pelas portas do primeiro e segundo nível, sem grandes problemas. Devia estar conseguindo ocultar seu estado de nervos, porque ninguém lhe perguntou nada. Quando atravessou para a torre central, onde as celas ficavam, os dementadores não deram qualquer mostra de perceber a sua presença, e ela não sentiu frio, ou a desilusão, ou a sensação de que nunca seria feliz novamente.


Ótimos, as runas funcionam,
concluiu com exultação. Àquela altura, não sabia o que faria se não funcionassem. Seguindo sua memória espacial, encontrou a escada que levava ao nível da cela de Black, torcendo para que não tivessem mudado de lugar desde a sua última visita. Felizmente, a cela 390 continuava onde se lembrava.

Bervely tirou a varinha de Shadowtamer do coldre e tocou nas grades, reparando que a mão tremia levemente. Tentava pensar na grandiosidade do que estava fazendo, mantendo -se racional à um nível simples. Não estava invadindo a maior prisão de segurança máxima da Europa, estava apenas… abrindo uma porta.

Como imaginou, as grades se afastaram, lhe dando espaço bastante para atravessar, e se fechando automaticamente atrás dela. Não havia feitiço, a varinha de Theodor reconhecia o encanto de encarceramento e respondia destravando-o. Certamente era uma varinha encantada para responder às mãos do seu dono e somente dele… sorte dela que podia replicá-la com tanta perfeição.

– Black – chamou na escuridão, piscando para os olhos se aproximarem. – Sou eu.

Para comprovar suas palavras, dissolveu a aparência do quarter na sua, experimentando alívio instantâneo. Seu invólucro menor e esguio era muito mais confortável que o corpo grande do auror.


– Então você realmente é uma metamorfomaga. Impressionante.

Ela percebeu uma certa agitação dele, o que não era inesperado. Seu próprio coração palpitava como um pássaro recém engaiolado, e ela nem estava esperando aquilo por doze anos.

– Não temos muito tempo, tire sua camisa.

– Você tem certeza que não foi seguida? Eles não desconfiam… o que diab–?

Bervely estava tirando a roupa pela segunda vez aquele dia – nesse caso, só o pesado coat do uniforme de quarter, revelando o top curto que usava por baixo e todas as marcas frescas de runas em contraste com a sua pele branca. Black arregalou os olhos para elas por um momento, antes de virar o rosto para o outro lado.

Como-? Por q–…

Vou replicar as minhas runas em você. – explicou afobada, tirando do bolso da calça o frasco de tinta mágica que roubara na casa de Theodor antes de sair. – Elas não vão anular completamente o efeito das suas, mas creio que vão neutralizá-las por um tempo. Anda, Black, tira a camisa.

Ele lhe lançou um olhar longo e emblemático, do tipo que tentava descobrir que espécie de maluca ela era, mas por fim obedeceu. Seu tronco, que como o resto da pele tinha o tom amarelado carente de luz solar, não estava de longe tão esquálido quanto Bervely imaginou. Sim, podia ver o contorno de suas costelas, mas também a estrutura muscular de um homem que um dia fora atlético e cujos anos não tinham levado tudo. O que mais machucou seus olhos, no entanto, foram as runas tatuadas em negro em sua carne. Reconhecia o significado de algumas, e apenas temia por aquelas que não lhe eram familiares.

– Isso é bestial. – murmurou, sentindo os olhos arderem. A maior das marcas, cruzada sobre o peito esquerdo e com quase vinte centímetros, era uma Nauthiz. Significava a privação da liberdade, tanto física quanto mental, num nível muito profundo. Uma runa como aquela, num local tão suscetível e por tantos anos, devia ter efeitos colaterais inimagináveis.

– Pare de encarar – ele rosnou com irritação e Bervely piscou, saindo do seu súbito acesso emocional. Abriu a tinta e se ajoelhou no chão, em frente à cama onde ele estava sentado.


Hesitou antes de tocá-lo. Ergueu o rosto pra o contorno enrijecido do seu queixo, percebendo que ele travava os dentes e evitava olhá-la, como se estivesse sendo submetido à uma grande tortura com a iminência do contato.

– Black…

Vá em frente. Faça o que tem que fazer.


Assentiu, e se apressou em traçar as runas sobre o peito dele, nos espaços entre os desenhos malignos que Azkaban lhe dera. Não era nem de longe tão habilidosa quanto Theodor, e seus traços eram inseguros, mas funcionais. A cada forma que completava tendo como base o próprio corpo, os traços soltavam um suave brilho esbranquiçando, enquanto “penetravam” – termo que designava o processo no qual o poder mágico da inscrição era ativado no corpo receptor.


Quando terminou, percebeu que estava mordendo seu lábio tão forte que arrancara sangue. O gosto ferroso lhe lembrou o quanto o momento era real, e não uma construção atroz da sua imaginação.


– Agora saia. – ele ordenou mais uma vez, se afastando dela tão logo fez o último traço. Bervely tampou a tinta calmamente, aproveitando que abaixara a de cabeça para recuperar o fôlego.

– Ainda não. Você ainda não me disse o que vai fazer a partir de agora.

– Eu tenho um plano. – devolveu, claramente sem pretenção de compartilhá-lo.

– Bem, também tenho um. – Ela se ergueu, espanando os joelhos das calças agora folgadas, e voltando a vestir a parte superior do uniforme. Então lhe contou o que pretendia em poucas palavras. Não demorou para receber o olhar incrédulo dele pela segunda vez aquele dia.

– Esse é o plano mais absurdo que eu já ouvi. Você é maluca.

– Não é a primeira vez que me dizem algo do tipo. Agora, só temos de esperar a segunda parte da distração.

– Bem, o quanto isso vai demorar?

Ela deu uma risadinha sardônica.

– Não me diga que depois de esperar doze anos, agora você está com pressa.


there are many things that I would like to say to you
but I don't know how.

(há muitas coisas que eu gostaria de dizer a você
mas eu não sei como)


Ela se acomodou no canto oposto da cela, perto da pia, encarando o chão. Por alguma razão, era difícil ficar olhando para ele; se ocupou em girar a coleira em seu braço, que hoje emitia um incomum brilho prateado vindo do interior da pedra da lua. Percebia o olhar de Black perfurando o topo da sua cabeça, e não sabia o que sentir.

O que estava fazendo? Quem era aquele homem? A única pergunta que ela não se fazia era a mais óbvia de todas: por que estava fazendo tudo por ele?

Para essa ela tinha a resposta. Estava na sua mão, a resposta daquela pergunta.


Por ele, faria um milhão de vezes.¹

Querendo se livrar dessa consciência perturbadora e potencialmente doentia, Bervely vagou seus olhos pelo chão da cela, e algo lhe chamou atenção, caído na ponta da cama. Era um exemplar velho do profeta diário, mas não tão velho assim. Quando o puxou para perto, notou que era do sábado anterior, 24 de julho.

– Não mexa nisso. – resmungou Black, mas ela o ignorou, apoiando nas pernas as várias páginas, dobradas de um jeito que a primeira folha não era a capa, mas uma das páginas internas do caderno social. Demorou mas acabou reconhecendo a família estampada na foto: um bando de ruivos felizes com roupas trouxas sob um sol infernal, posando na frente de uma pirâmide.

FUNCIONÁRIO DO MINISTÉRIO DA MAGIA GANHA GRANDE PRÉMIO


Arthur Weasley chefe da Seção de Controle do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas no Ministério da Magia, ganhou o Grande Prêmio Anual da Loteria do Profeta Diário. A Sra. Weasley, encantada, declarou ao Profeta Diário: "Vamos gastar o ouro em uma viagem de férias ao Egito, onde nosso filho mais velho, Gui, trabalha para o Banco Gringotes como desfazedor de feitiços.”A família Weasley vai passar um mês no Egito, de onde voltará no início do ano letivo em Hogwarts, escola que cinco dos seus filhos ainda freqüentam.


A notícia, além do encaixe surreal com a sua realidade no momento (difícil acreditar que havia gente se divertindo no Egito enquanto ela estava dentro de uma cela de Azkaban com seu pai sentenciado), lhe trouxe uma inquietação estranha. Bastou encontrar Gui Weasley na foto – que também sorria, mas com menos vontade que o resto da família, quase com culpa – esclareceu um pouco do sentimento.

– Boa família. – Black murmurou, percebendo que ela não conseguia tirar os olhos na foto.

– É, eu suponho.

Um grito cortou o silencio abafado da torre de segurança máxima, enregelando seus nervos, e Bervely deixou o jornal de lado, olhando para o lado de fora atentamente, mesmo que não pudesse ver qualquer coisa. Ouviu, no entanto, uma movimentação, um farfalhar das capas dos dementadores enquanto se dirigiam para a outra cela, e os gemidos agoniados da sua ocupante.

– Essa é a nossa distração. – disse com bastante segurança. – Aqui, pegue a varinha de Shadowtamer.

– Não vou precisar de varinha. – recusou, ao que Bervely soltou um chiado incrédulo.

– Ficou maluco, Black?

– Não é só você que tem uma carta na manga. – ele deu um sorriso torto, que por um momento acendeu os olhos negros encovados. Então para sua mais profunda confusão Black se tornou um cão negro enorme e peludo, e focinho comprido e orelhas pontudas e – embora não pudesse checar, tinha certeza – patas macias.

Ela o encarou em completo choque enquanto o cão se esticava no novo corpo, no qual parecia estar muito mais confortável que o anterior. Ela só precisou de um minuto para ligar os fatos, e perceber que ele fora o cão… o tempo todo.

– Seu filho de uma cachorra manca. – xingou. Ele arreganhou os dentes como se tivesse achado o seu comentário engraçado, e talvez em sua forma humana tivesse lhe dito que aquela era uma acusação bem acurada. – Bem… isso torna isso mais fácil. – enquanto dizia, abriu o fecho da coleira e a desenrolou do próprio braço, ainda incapaz de tirar os olhos do cão que era Black e Snuffle ao mesmo tempo. Ele cheirou desconfiado a pedra brilhante presa à peça, percebendo que algo estava diferente nela. – Eu encerrei o meu patrono dentro. – explicou, tentando prendê-la em torno do pescoço dele, mas o cão tentou se desvencilhar, recusando. Bervely começou a ficar impaciente. – Black.

Ela segurou os dois lados do pescoço dele entranhando os dedos no pelo embaraçado, olhando com intensidade em seus olhos negros. Era mais fácil lidar com o cão, por algum motivo. Talvez porque ele não fosse capaz de lhe dizer palavras cruéis, nem desdenhar do que ela estrava prestes a dizer. Supondo que ele pudesse, na forma animal, compreendê-la perfeitamente.

– Black – ela repetiu, encarando-o duramente – Você vai levar meu patrono. Isso não está em questão.

Sentiu que ele parou se resistir, e se ocupou em prender o fecho. Ouvia os guardas entrando na Ala e provavelmente Theodor estava entre eles. Os dementadores se encontravam interessados no que acontecia na cela do lado oposto da torre, mas eles logo dispersariam e perderiam interesse; a janela de oportunidade era curta.


Ele deveria ir, agora. Mas não foi; ao invés disso, ficou parado, ainda a encarando como se quisesse dizer alguma coisa através dos olhos de cão. Muito mais sentimentos do que sua forma animal poderia jamais processar rondando dentro de si naquele momento.


Ela assentiu, porque de repente, sabia de todos eles.

– Segunda-feira, depois de saí daqui, depois da nossa… conversa – confessou, através do bolo que trancava sua garganta e dos olhos turvos – Eu consegui conjurar um patrono corpóreo pela primeira vez. E ele tinha… – ela respirou fundo, deixando escapar um sorriso mínimo – Ele tinha forma de cão.

Os grandes olhos redondos piscaram lentamente. O focinho comprido se inclinou, dando um toque úmido na ponta do seu nariz. Ela fechou os olhos, quase com dor, um misto de alívio e medo brigando em seu interior.

Quando abriu os olhos, ele tinha ido embora.


~ ¥ ~


and all the roads that lead you there were winding
and all the lights that light the way are blinding.

(e todas as estradas que levam você até lá são tortuosas
e todas as luzes que iluminam o caminho nos cegam)


Três dias antes, 26 de julho, segunda-feira.

– Black, apenas peça. O que quer que seja… qualquer coisa.


Ele levantou o rosto, a olhando nos olhos pela primeira vez. Talvez tivesse percebido algo no seu tom, mas a verdade é que parecia que a estava vendo pela primeira vez. Através do disfarce, e de tudo mais. Quem ela era.

Talvez por isso, ele foi completamente sincero.

– Eu preciso fugir de Azkaban. Você pode… pode me ajudar?


there are many things that I would like to say to you
but I don't know how

because maybe
you're gonna be the one that saves me
and after all
you're my wonderwall.

(há muitas coisas que eu gostaria de dizer a você
mas eu não sei como)

(por que talvez
você vai ser aquela que me salva
e no final de tudo
você é a minha fortaleza)

(Continua…)

Grupo no face.

Notas finais
Não sei vocês, mas parece que eu estou esperando a vida toda por esse momento :P Alguém conseguiu descobrir o papel da Vindemiatrix nisso tudo? Um doce pra quem acertar como foi a parte dela do plano. ¹”Por você, eu faria isso mil vezes.” é uma frase (a mais linda) do Caçador de Pipas, de Khaled Hosseini. *A semelhança com as runas usadas pelos caçadores das sombras em Instrumentos Mortais (Cassandra Claire) é mera coincidência; minha inspiração para a função dos desenhos foi baseada nas pesquisas a respeito das tatuagens do Sirius em PdA (filme). ;*