Notas iniciais
Obrigada pelos comentários e boa leitura! (Leia o P.S. importante nas notas finais, principalmente se está relendo esse capítulo!)


Eu tenho medo de ver
As criaturas da noite
Estátuas e rostos me olhando, eu já vi
As criaturas da noite
O noturno véu
Porcelana lua de luz violeta
Brilho de neon no céu…

Eu tenho medo de ver
As criaturas da noite.

(Oswaldo Montenegro)

~

26 de Julho de 1993, segunda.


Remus Lupin saiu para o corredor do primeiro andar e se deparou com a silhueta amotinada de Bervely Black. Ela encarava o rodapé da parede oposta tão fixamente que devia esperar dele uma resposta para os seus problemas – quaisquer que fossem, Remus não poderia precisar. Ela mal percebeu quando o bruxo se aproximou e sentou na cadeira ao seu lado.

– ‘Dia – cumprimentou, e a garota deu um pequeno pulo, virando-se. Suas olheiras eram espantosas para uma jovem saudável de dezesseis anos. Ela logo substituiu a surpresa por sua expressão habitual de desinteresse.

– Ah, olá.

– Você teve um bom fim de semana? – ele perguntou, puxando conversa.

– Trabalhoso. – respondeu, tirando de seu rosto a franja, que estava comprida demais – Sinto muito não ter vindo ficar com Anne nenhum dia.

– Tudo bem. – ele fez um aceno contido com sua mão. – Luna veio visitar, passou quase o sábado inteiro. E ontem foi um dia ocupado, com todos os exames para a alta.


– Ah. – a informação a pegou desprevenida. – Ela já vai sair, então?

– Se os olhos estiverem completamente recuperados. Vão tirar a venda daqui a pouco, ela está ansiosa.

– Imagino. – Bervely murmurou, esfregando seu rosto; tivera uma péssima noite de sono e descobrira-se incapaz de ir para Azkaban. Então, havia um recado de Andrômeda em cima da mesa avisando que deveria passar no hospital, se pudesse.

– Não vai entrar? – ele estranhou, ocupando o silencio onde a dor de cabeça agora crônica de Bervely palpitava. – Ela sente sua falta, perguntou por você o fim de semana todo.

Assentiu, segurando um suspiro. Cada vez que ele falava no fim de semana, ela se lembrava dos seus acontecimentos. Deviam lhe deixar sentindo raiva, mas só causavam confusão e cansaço. Por que tudo tinha que dar errado, o tempo inteiro?

– Você está bem, Bervely? – o bruxo perguntou de repente. Ela nem tinha reparado que ele ainda estava ali.

– Você não tem que se preocupar comigo.

Ele franziu ligeiramente, mas não contestou. Ao invés disso, ela sentiu que estava sendo analisada pelos olhos dourados do homem.

– Isso é um lenço de Durmstrang, em seu pescoço?

Bervely se sentiu de repente muito impaciente.

– Se você me dá licença, Lupin. – levantou-se, esticando as vestes e mais uma vez tirando a franja irritante do olho – Eu vim pra ver Johanne, não pra satisfazer sua curiosidade à respeito da minha indumentária.

~

Três dias antes, 23 de julho, sexta feira.


Ela tomou o Noitibus Andante. Como sempre, foi uma experiência terrível.

Durante a viagem, houve tempo bastante para se perguntar o que aconteceria se o Olho de Hórus descobrisse que ela conhecia o paradeiro do seu filho abortado. Afinal de contas, desde que tinha assinado o contrato Gavril parecia assustadoramente à par de todos os seus passos. E se a tentativa de verificar se Bae estava bem acabasse resultando na denuncia da sua localização? Ela não estaria arruinando somente a vida do garoto, mas de uma família inteira. Só Merlin sabia o que Gavril tinha reservado à Berennin, se a encontrasse…


Bervely tirou do bolso a chave de portal com o símbolo egípcio gravado, e a jogou pela janela, só para garantir.

– Snowfall! – anunciou o condutor, um rapaz com espinhas que pareciam furúnculos de bobotúberas. Bervely ficou aliviada em sair do instável ônibus mágico, mesmo ele tendo lhe deixado no começo da minúscula vila trouxa, logo ao lado da placa de boas vindas.


Ela se perguntou por um momento se deveria usar um disfarce, mas acabou optando pela sua aparência real. Não teve qualquer dificuldade em encontrar o caminho até a casa da mãe de Tara, afinal, havia apenas uma rua principal. Deu um olhar de relance para a estalagem Flake quando passou pela frente, mas as luzes estavam apagadas, e a porta fechada.

Na frente da cerca branca, olhando para a casa azul de propaganda, pensou em dar meia volta e ir embora. Que importava Bae Romansek? Isso não era problema dela. Se ele tivesse sido dilacerado por um lobisomem descontrolado, grande azar…

Um cão labrador amarelo veio latindo dos fundos da casa, e se enrolou em torno dos seus tornozelos, cheirando as suas botas impregnadas de ranço de dementador com bastante curiosidade. Ela se sentiu levemente tentada a coçar suas orelhas, mas não teve tempo.

– Não se preocupe, ele é muito amigável. Golias, aqui, deixe a menina em paz!

Ela reconheceu a mulher alta que era um rascunho imperfeito e envelhecido de Tara Holmes, enquanto ela se aproximava com um sorriso fraco. Bervely se sentiu imediatamente desconfortável, percebendo que dificilmente a mulher se lembraria dela.

– Senhora… hum, Berennin. – pigarreou, sem jeito. – Eu sou…

Mas a mulher foi mais rápida.

– Aquela amiga da Tara que ajudou a trazer o meu Bae, não é? – seu tom não eram completamente tranquilo. – Aconteceu alguma coisa? Algo com ela?

– Não, Tara está bem. – se apressou em dizer – Não é por causa dela que eu vim.

– Então por quê? –abaixou a voz, ainda mais inquieta, olhando para os lados. – Você veio sozinha?

– Sim. Bae está em casa?

– Ele se chama Benjamim agora. É do hebraico, significa…

– Ele está bem? – ela se adiantou, querendo cortar a conversa fiada. Ainda não era a maior fã da mulher, principalmente em consideração à Tara – Eu só vim… checar se está tudo bem. Depois dos ataques…

Os olhos de Berennin se arregalaram em alarme, e ela olhou para os lados com ainda mais preocupação.

– Você sabe dos ataques, então? Entre. Não é seguro falar disso aqui fora.

Apesar de sua resistência em mais uma vez visitar o antro de hipocrisia trouxa de Berennin, ela a acompanhou através do hall e até sua sala de estar, o cão os escoltando e depois parando sob o umbral da porta, em guarda. A casa estava silenciosa, com excessão delas. Berennin lhe ofereceu chá e biscoitos dentro de uma lata decorada com motivos de natal.

– Não, obrigada. Bae…

– Benjamim. – ela corrigiu automaticamente, colocando o cachorro para dentro e fechando a porta. Golias ainda assim permaneceu perto da entrada, seu focinho alinhado com o espaço entre a porta e o chão, o rabo espanando de um lado para o outro. – Ele está lá em cima fazendo a lição. Você soube do ataque, então? Como… como soube?

Berennin puxou uma cadeira bem em frente à que Bervely tinha se sentado, e começou a enrolar o seu longo cabelo castanho avermelhado copiosamente.

– Eu apenas vi no jornal. – mentiu, passando seus olhos ao redor da sala. – Na matéria havia o nome da vila, e dizia que algumas crianças foram atacadas, mas não citava nomes. Eu pensei em Bae, e então…

– Benjamim é mantido longe desse tipo de coisa! – ela disse de repente, muito para o espanto de Bervely. – Acha que não sei como proteger meu filho?

– De resfriados talvez, mas de um lobisomem? – ela estreitou seus olhos, perdendo sua fugaz paciência – Você não tem uma varinha, tem, Berennin? O que poderia uma trouxa contra um lobisomem adulto e à solta na lua cheia?

– Ben está ótimo! – ela voltou a insistir. – E se isso é tudo, você não devia se demorar, é quase hora de Gabe chegar em casa. Se ele encontrar você aqui…

– Qual o problema? Ele sabe quem eu sou, não sabe? Fomos apresentados da última vez.

– Você não entende! Desde o ataque, todo mundo está assustado, os aurores vieram e mexeram na memória de todos fazendo parecer que houve um ataque de lobo… mas eles sentem que há algo errado. Algo à espreita… se desconfiarem de mim, vai ser como das outras vezes, eu vou ter que ir embora!

– Eles não mexeram em sua memória porque sabiam que era bruxa, não é? – ela concluiu, recebendo um gesto afirmativo nervoso da mulher – E agora eles sabem que há uma bruxa em Snowfall, que não está nos registros deles. Para começarem a investigar… é disso que está com medo? Que o ministério descubra o seu paradeiro?

– Não! Bem, sim, tem eles, mas eu estou mais preocupada que Gabe ache que eu tenho algo a ver com as coisas estranhas que aconteceram aqui!

E então ela compreendeu o que estava nas entrelinhas do receio da mulher.

– Você ainda não disse ao seu marido que é bruxa?? – exclamou, revoltada.

– Ora, que bem isso faria? Isso ficou para trás!

– Santo Salazar. – torceu seu rosto em desgosto – Quando eu penso que eu já ouvi absurdos o suficiente!

– O que eu conto ou não para a minha família não lhe diz respeito, você sabe. – continuou Berennin, querendo recuperar o controle da conversa. – E se isso é tudo, eu gostaria que fosse embora agora. Agradeço a sua preocupação com Benjamim, mas posso cuidar dele. E se por acaso você encontrar a Tara…

– Eu não direi a ela qualquer coisa sobre você. – Bervely se levantou, de cara fechada. – Sabe, Berennin, daquela outra vez, quando viemos trazer o Bae até você, Tara ficou tão abalada, e eu tentei fazê-la repensar as opiniões duras ao seu respeito. Mas ela estava certa, não estava? Sobre a sua covardia.

O rosto da mulher denunciou o impacto que as palavras tinham sobre ela.

– Você não entende, menina. As coisas que precisamos fazer pela família…

– Essa é uma desculpa muito, muito velha. – suspirou, dando a sua visita por terminada. – Minhas lembranças à Bae. Boa noite.

Berennin abriu a porta para ela, e Bervely contornou o cachorro para deixar a casa. Escurecia, o tempo esfriara mais do que o esperado, e ela se sentiu ligeiramente sem rumo. Ao invés de esticar a mão da varinha e chamar o Noitibus, caminhou um pouco pela cidade, percebendo o quanto estava absolutamente silenciosa. Ainda era cedo, mas todos os moradores estavam bem guardados em sua casa. Medo dos lobos? Não os culpava.

– Eu me lembro de você! – uma voz estridente gelou o cerne da sua alma. Ela ficou tentando achar a sua fonte na penumbra e logo percebeu uma silhueta excessivamente magra e bagunçada vindo em sua direção. Era uma jovem, e ligeiramente familiar. – Você é a garota má que veio trazer o filho de Sarah!

Bervely lembrou de onde a conhecia – era a Garota Feliz da estalagem que não parava de falar sobre viagens de balão e tios em Calgary. Bem, ela não parecia mais tão feliz agora; devia ter emagrecido uns bons dez quilos naqueles últimos meses, e seus olhos estavam um pouco saltados para fora. Bervely não ignorou um rasgo bem grande em sua jaqueta trouxa, que não obstante estava curta nas mangas.

– Você. – resmungou com má vontade. – Entre todas as pessoas que poderiam estar fora de casa. Não ouviu dizer que tem um lobo à solta?

– Você não devia brincar com um assunto desses. – ela meneou a cabeça de cabelos ralos castanho acizentados. – Todo mundo está assustado.

– Menos você, ao que parece.

Ela deu de ombros, se aproximando ainda mais com as mãos nos bolsos.

– Saí pra tomar um ar. Ah… você nunca me disse o seu nome.

– É, eu não disse. – afirmou, sem a menor vontade de mudar o fato. Garota Infeliz provavelmente percebeu isso, porque resolveu tomar a dianteira.

– Eu sou Mia. – sorriu, estendendo a mão. – Pensei que não te veria nunca mais. Cadê aquela sua amiga? A ruiva bonita?

Bervely ignorou a mão estendida, sentindo um rugido de insatisfação pelo modo como a menina descreveu Tara. Como se precisasse ficar sendo lembrada de que ela era “a ruiva bonita”.

– Só eu dessa vez.

– Ah, certo. Vai precisar de um quarto?

– Não vou passar a noite dessa vez. – adiantou-se, depois lembrando de quando passara pela frente da estalagem mais cedo. – Vocês ainda estão abertos? Estava tudo apagado.

– Os negócios andam ruins – ela explicou, mordendo um pouco seus lábios. – Desde que teve o… a coisa com o lobo. Então a gente resolveu fechar, pra economizar.

Bervely assentiu, pensando que se ninguém via atrativo em Snowfall sem ataques sangrentos, imagina com. Ela olhou uma segunda vez, e com mais atenção, para a menina chamada Mia, para seus olhos um tanto apagados e ar vago.

– Você conhecia alguém, entre as pessoas que foram atacadas?

Mia assentiu distraidamente.

– Todos eles. É uma cidade pequena, todo mundo conhece todo mundo.

– Hum. – e depois, treinando sua empatia enferrujada – Sinto muito.

– Mas eles já prenderam o culpado, não é. – ela lhe deu um sorriso amplo. – E você, o que ‘tá fazendo aqui? Veio visitar Sarah e Benjamim?

Bervely fez uma pequena pausa antes de responder.


– Isso. Só queria saber se ele estava bem.


– Conseguiu?

– Sim. – Houvera algo estranho na pergunta, alguma espécie de interesse genuíno que a fez franzir as sobrancelhas, percebendo que a sua resposta estava errada. – Não, na verdade eu não consegui. Ele estava no andar de cima, só falei com a Be… Sarah.

– Que estranho.

Ela girou em seus calcanhares.

– Você acha?

Mia Infeliz deu de ombros mais uma vez, olhando na direção da casa um tanto pensativa.

– Pra falar a verdade, não vejo Benji desde o ataque.

– E com que frequência você o via antes?

– Quase todos os dias. Dou reforço pra ele de tarde, porque ele tem dificuldade pra acompanhar as coisas da escola. Estranho, parece que antes de vir pra cá, ele nunca tinha visto matemática! E eu nem vou falar da gramática…

Mas Bervely não estava mais prestando atenção; tinha se voltado para a casa do pastor achando tudo aquilo muito suspeito. Atribuíra o nervosismo de Berennin ao medo de ser descoberta pelo Ministério e pelo marido, mas e se não fosse isso? E se ela estivesse escondendo alguma coisa?

– Vou voltar lá. – decidiu, interrompendo a garota, que ainda listava as deficiências de Bae na nova escola trouxa.

– Eu vou com você. – ela se prontificou.

– Não, realmente, você não precisa. – Bervely negou, achando uma má ideia ter uma trouxa tagarela ao seu encalço – Pode ficar aqui, quando eu voltar te dou noticias.

– Eu não vou ficar aqui na rua no escuro, ficou maluca? E se um lobo me encontrar? – Bervely girou os olhos, mas a menina estava decidida. – Além do mais, acho que você deveria ir pelos fundos, e tentar falar direto com Bae. Se ele estiver mesmo no andar de cima, você pode chamar ele pela janela.

– Obrigada pelo plano, mas isso ainda não quer dizer que quero você comigo.

– Você não quer, mas precisa. – ela insistiu. – Além do mais, se for sozinha, quem vai distrair o cachorro?

– BD –

Ela seguiu o plano modesto de Mia Infeliz. Principalmente porque qualquer outro que conseguiu pensar – como entrar na casa sem ser vista – exigia o uso de magia, e não queria usar a varinha de Charlotte a não ser em último caso. Ao invés disso, ela agiu como uma perfeita trouxa e jogou uma pedrinha na janela do primeiro andar que Mia lhe disse ser o quarto de Bae.

Nenhuma resposta, nem na primeira, nem na segunda pedra. A terceira foi jogada de forma impaciente e quase quebrou o vidro, então ela deu uma olhada para as árvores e decidiu que podia subir por elas até lá. Quando criança, subia em árvores do bosque o tempo inteiro, brincando com os primos… não devia ser difícil.

Só que foi, e antes de finalmente alcançar o telhado e depois a janela semi-aberta do quarto de Bae, tinha muitos arranhões para contar história. Como aquilo podia ser tão fácil quando era criança?

– Se afaste, eu tenho uma cruz comigo! – ouviu, quando passou suas pernas para o interior do quarto. Ela identificou Bae sentado em uma cama na parede oposta, lhe apontando o artefato ameaçadoramente.

– Bae, sou eu, Bervely. Amiga de Tara, lembra?

Ele mexeu-se desconfiado, inclinando a cabeça para vê-la por trás do seu “escudo”.

– Tem certeza que não é um lobisomem?

– Bastante certeza. – ela rolou os olhos – Posso terminar de entrar sabendo que não vai gritar de novo?

Ele hesitou por um momento, depois assentiu, abaixando a sua ‘arma’. Bervely precisou estar no quarto para perceber que era temático; o teto todo estava coberto de estrelas prateadas, e havia um precário móbile do sistema solar sobre a cama, iluminado pelo abajur aceso. A mesma luz que fazia o Sol parecer aceso deixava a pele do rosto do garotinho um tanto pálida.

– Você estava tentando se defender de lobisomens com uma cruz? Sabe que isso é para vampiros, e nem funciona de verdade, né? É coisa da cabeça de trouxas.

Ele estava olhando para a janela como se esperasse mais alguém entrar.

– Cadê Tara?

– Quê? Ah, não, sou só eu. – ele murchou visivelmente. – Na verdade eu não disse a ela que vinha lhe fazer uma visita, senão ela teria vindo.

– Aposto que não. – ele resmungou, chateado. – Ela não gosta mais de mim.

Bervely estava se sentindo ligeiramente mais experiente em dramas infantis, depois do estagio com Anne no hospital. Se aproximou da cama, tentando dar uma melhor olhada no garoto, já que a única luz do quarto era a do seu abajur.

– Ela gosta sim, não seja absurdo, ela se arriscou um bocado pra te trazer até aqui.

Ao perceber que se aproximava, Bae pareceu se dar conta do quão estranho era alguém ter entrado pela sua janela de repente. Ele se encolheu um pouco para longe dela, desconfiado.

– Se Tara não sabe que veio, o que você está fazendo aqui então?

– Só vim ver se estava bem. Eu soube do ataque de lobisomem pelo jornal.

– Minha mãe vai pirar se souber que você entrou pela janela.

– Ela não pareceu disposta a me deixar vir pelas escadas.

Ele fez uma breve careta, mas ela teve a impressão de que Bae compreendia perfeitamente porque a mãe não a tinha deixado subir. E agora que estava perto de verdade, percebeu que a palidez não era por conta da luz branca do abajur; o garoto tremia levemente.

– Melhor você ir antes que ela apareça. – ele disse baixinho, olhando preocupado para a porta.

– Não tão rápido. – teimou, sabendo que havia alguma coisa errada. Bastou se inclinar até ele e pousar a mão em sua testa. O garoto queimava em febre, tão quente que poderia ferver o conteúdo de um caldeirão número dois ali em cima.

Ela deu um suspiro cansado.

– Bae, você não teria sido…mordido pelo lobisomem, por acaso?

– BD –

Bervely desceu as escadas de um jeito brusco e barulhento que teria lhe rendido um castigo em outros tempos.

– Sua mulher horrível! – ela apontou um dedo em riste para Berennin, que se virou com a mão sobre o peito, parada no meio da sua sala, a expressão de choque – Como pensou que poderia esconder isso? Ele está doente!

Mia, que aparentemente tinha não só distraído o cão como entrado para um chá, também tinha os seus olhos arregalados. Bervely não estava dando a mínima para ela, no momento.

– Como entrou na minha casa? – a mulher exclamou assim que recuperou a voz – Eu disse para ir embora!

– Sim, para que você pudesse esconder de mim o fato que Bae foi mordido!

– Mãe, eu sinto muito. – choramingou o garoto atrás de Bervely, tendo se arrastado atrás dela no minuto que irrompera do quarto – Eu não contei nada, eu juro, ela descobriu sozinha.

– Isso não é da sua conta, menina! Ponha-se já para fora daqui! E se ousar dizer uma palavra…

– Você ficou louca? – Bervely exclamou em retorno, fora de si. – Seu filho vai virar um deles! Você precisa pedir ajuda, precisa dizer aos aurores que ele foi mordido!

Berennin negou efusivamente, em pânico com a mera ideia. Lágrimas de terror começavam a brotar de seus olhos arregalados.

– Eles vão levá-lo e colocá-lo numa jaula!

– Bem, então você vai deixá-lo aqui solto para que possa matar o resto da cidade na próxima lua cheia?

– Não! Eu vou… eu vou… vou protegê-lo! Dele mesmo, e dos outros, eu posso fazer isso! Meu Benji jamais machucaria ninguém, não foi culpa dele…

Bervely terminou de descer as escadas, crente de que jamais ouvira tamanho absurdo. Ela olhou para trás ao perceber que o menino não a estava seguindo, ficara paralisado no topo da escada.

– Bae, vamos!

Berennin avançou nervosamente.

– Não! Você não vai levá-lo! Ele é só uma criança!

– Você é maluca. – ela meneou a cabeça. – Não pode realmente pensar que tem como controlar um lobisomem se nem mesmo usa sua mágica! Vai fazer o que, trancá-lo no sótão? E quando ele crescer e derrubar o sótão inteiro sobre a cabeça de vocês?

Berennin engasgou-se com seus argumentos, tapando soluços horrorizados com as mãos.

– Não pode levar meu filho… acabei de tê-lo de volta…

– Bae? – Bervely chamou pacientemente acima do choro, mas o garoto também resistia.

– Eles vão me colocar numa jaula?

– Eu não vou te levar pros aurores, Bae. – explicou, cansada. – Vou te levar pra um hospital de bruxos de verdade que vão cuidar de você.

– Eles nunca vão deixar ele voltar para casa. – disse Mia, lembrando à Bervely pela primeira vez que ela ainda estava ali ouvindo a conversa toda. Se encararam brevemente, o suficiente para Bervely constatar o que já desconfiava; a garota não era trouxa, coisíssima nenhuma. Ela tinha se delatado mais cedo, quando conversavam na rua. – Vão ser obrigados a relatar o fato para as autoridades.

Bervely esfregou seu rosto, frustrada. Sim, Mia tinha razão. Os medibruxos não iam ignorar o fato de que um garoto fora infectado por um lobisomem, cuidar dele e deixar que voltasse para uma vila trouxa, numa família trouxa. Olhou de relance para Bae, que tremia, e para a sua mãe, que subira para abraçá-lo defensivamente. Pensava em qualquer outra alternativa, quando a Garota Infeliz falou de novo.

– Talvez ainda não seja tarde demais.

Os três pares de olhos se viraram para ela, que parecia incerta e esperançosa. Ela encolheu os ombros enquanto explicava.

– Eu li… eu li uma vez que nos primeiros dias depois da mordida, antes da primeira transformação… existe um antídoto.

– Você leu? – Bervely frisou, desconfiada. – Muita pesquisa sobre lobisomens, você anda fazendo?

– Eu busquei saber, depois do ataque. – disse na defensiva. – Mas lá não falava sobre o antídoto em si, só… – sua voz morreu, incerta.

– Não temos tempo pra isso. Nas suas pesquisas você também deve ter lido que a mordida de lobisomem é fatal na maioria das vezes para quem não tem sangue mágico. – informou com arrogância – E Bae não está exatamente esbanjando magia por aí, não é? Ele precisa de cuidados médicos, já passou tempo demais – e olhou acusadoramente para Berennin, que abaixou o seu rosto.

Ao contrário do que Bae poderia estar pensando, Bervely sabia o quanto Tara amava o garoto. E se algo acontecesse à ele, algo ainda pior do que estar infectado, ela nem queria imaginar como a garota ficaria.

– Bervely, por favor… – Bae disse baixinho, transparecendo seu medo em sua voz vacilante – Não me entregue pra eles. Eu quero ficar aqui com minha mãe e Gabe. Eu gosto daqui, por favor.

– Deve ter outro jeito. – Berennin também insistiu, tirando fé do desespero, olhando para Bervely como se ela fosse a fonte das soluções milagrosas. – Se há mesmo um antídoto, e pudermos encontrá-lo…

Ela suspirou pesadamente, rendendo-se.

– Bem, se esse antídoto existe, se há qualquer possibilidade de ter sido criado, há uma pessoa para a qual podemos perguntar. Ele saberia. Mas, eu vou precisar de uma coruja-correio.

– BD –

Não havia coruja correio em Snowfall, mas Mia confessou ter uma lareira conectada à rede de flú na estalagem. Relutante em deixar Bae sozinho com Berennin, para o caso de a mulher resolver empreender uma fuga desesperada, ela deixou claro que se voltasse e não os encontrasse iria no mesmo momento até o Ministério denunciá-los.


Dali a alguns minutos ela e Mia entraram em uma muito abandonada e escura Flake. A estalagem visivelmente não era usada há algum tempo, se as camadas de poeira e teias diziam qualquer coisa.

– Você pode deixar o seu casaco aqui. O sistema de aquecimento está com defeito, então sempre faz mais calor do que deveria.

Bervely tinha mil perguntas para Mia Infeliz, relacionadas ao fato de ser uma bruxa mas ainda assim viver como trouxa em Snowfall. O que era aquilo, uma epidemia de renuncia à magia? Será que ela sequer fora à escola? Parecia ainda muito nova para ter se formado, apesar de algo em seu semblante mostrar um amadurecimento forçado que não lembrava de ter visto da última vez.

– Onde está seu pai? – perguntou, enquanto obedecia a sugestão e pendurava o casaco, olhando ao redor. Lembrava-se da garota comentar que o verdadeiro dono da Flake era seu pai, o mesmo que fazia o gim.

– Viajando. – disse. – A lareira fica no lobby. Acho que eu tenho flú em algum lugar da recepção…

Ela demorou um pouco para buscar o flú, que trouxe num jarro empoeirado. Acendeu a lareira do modo trouxa, queimando um monte de toras de carvão, enquanto Bervely observava. Estava mesmo abafado ali dentro, e quando as chamas começaram a estalar na lareira, ela se viu querendo terminar logo com aquilo.

Já tinha suas mãos no pote quando lembrou de um detalhe.


– Droga.

– O que foi? – Mia estava agachada ao seu lado, e nas chamas laranjas, seus olhos saltados eram ainda mais salientes.

– Esqueci o endereço.

– Não pode apenas chamar o nome da pessoa?

– Não quero correr o risco de chamar por acidente na lareira errada. Ele tem pelo menos duas. O endereço está no bolso no meu casaco… por uma estranha coincidência.

– Eu pego. – Mia saltou de pé e foi rápido ao hall de entrada, onde os casacos ficaram pendurados. Bervely lembrou vagamente que a varinha de Charlotte também estava no bolso, mas mal teve tempo de se preocupar com isso e Mia estava de volta, com um pedaço de pergaminho entre os dedos.

– É esse?

– É. – ela o leu rapidamente nas mãos da outra e repetiu as palavras enquanto jogava o pós de flú sobre as chamas – Rua da Fiação, numero 18, Cokeworth!

Eu não acredito que estou fazendo isso, foi o rápido e incrédulo pensamento que passou em sua cabeça quando a enfiava nas chamas verde esmeralda. Ela não sabia mesmo o que esperava encontrar do outro lado, e ficou quase aliviada quando viu que era uma parede de livros. Livros quase obsessivamente alinhados e organizados por cor, e dentro de cada cor, por tamanho, o que a levou a crer que estava no lugar certo.

– Srta. Black? – a voz familiar e grave ressonou antes de poder ver seu dono, mas ele logo entrou em sua linha de visão. Severus Snape trajava vestes longas e escuras não muito diferentes do seu traje normal de aulas. Aliás, ele parecia exatamente o mesmo de sempre, como se tivesse acabado de sair das masmorras. Havia um livro marcada entre deu indicador e dedão, e uma expressão intrigada no rosto macilento. – A que devo a honra de uma chamada em um horário tão inusitado?

– Eu tenho uma pergunta. – ela disparou, antes de lembrar-se com quem estava falando. – Desculpe, professor. Sei que posso estar sendo um pouco invasiva em chamar sem avisar, não foi a intenção.

– Eu suponho que haja urgência, então? – foi prático. Ela lembrou-se que admirava isso nele, a pouca propensão à rodeios.

– Sim. Isso pode parecer estranho, mas… existe um antídoto para mordida de lobisomem?

O mestre de poções foi erguendo a sua sobrancelha direita.

– Isso parece estranho, de fato. Que espécie de pergunta é essa?

– É apenas uma curiosidade. Eu andei pensando, acho que li em algum lugar… se alguém foi mordido por um lobisomem mas ainda não passou pela primeira transformação, é possível reverter a infeção? Digamos, impedir que se complete?

Snape agora tinha a sobrancelha direita completamente arqueada.

– Onde você está, Srta. Black?

– Isso não é importante. – ela fez um aceno que ele não viu, já que não podia vislumbrar nada além da sua cabeça. – O senhor conhece alguma poção desse tipo?

– Você foi mordida por um lobisomem?

– Não! – exclamou, quase batendo a cabeça no topo da lareira. – É alguém que eu conheço.

Aquele arco cético de sua sobrancelha se dobrou num ’s’ ameaçador e exigente.

Onde você está, Srta. Black? – exigiu numa voz perigosa, a que usava quando estava prestes a tirar muitos pontos da Grifinória. Ela não gostava particularmente de ter esse tom direcionado à si. Suspirou.

– Snowfall. É uma pequena vila troux…

– Eu sei perfeitamente onde é Snowfall! Está no jornal! – ele chispou, irritado. – Primeira página!

– Está? – Bervely chocou-se, dessa vez realmente batendo a cabeça na lareira. A dor fez seus olhos se encherem de lágrimas e a visão ficou turva por um momento. Quando piscou, Snape estava revirando uma gaveta próxima.

– Não se mexa de onde está. Estou indo até aí.

– Quê? Não! Não, eu tenho tudo sob…

– Não se mova de onde está, Srta. Black!

Ele acenou a varinha e a conexão foi interrompida, o que forçou a cabeça de Bervely de volta à estalagem com um giro brusco e desconfortável. Quando recuperou o foco, Mia lhe olhava em expectativa.

– E então? Ele sabia?

– Não. Não sei. Ele vai… pesquisar. Escuta, Mia… você recebe o jornal?

– Jornal? – ela estranhou – O Snowgazete?

– Não. Não, Merlin. O Profeta Diário.

– Ah, esse! Acho que o meu pai recebe, mas como ele está viajando, estou deixando tudo lá no quarto dele. Por quê?

– Acha que pode pegar o de hoje pra mim?

Ela piscou por um momento para o pedido inesperado, mas assentiu bobamente.

– É claro. Já volto.

Bervely esperou ela ir, para então se levantar e dar uma boa olhada ao redor. Era estranho que Mia não tivesse acendido as luzes trouxas quando entraram, pensou. O que ela estava escondendo no escuro? Tateou pelas paredes, tentando achar o interruptor. Aquele botãozinho que ficava na parede das casas trouxas, vira Oliver usando em seu quarto, onde é que ficava? Ah, pela lógica, devia ficar perto da porta… e lá estava ele, bem ao lado do portal que separava o lobby do hall de entrada.

Ela mal teve tempo de absorver tudo quando as luzes se acenderam. Flake não estava fora de operação porque a cidade não estava recebendo visitas, notou. E nem porque o pai de Mia estava fora.

A estalagem estava fechada porque era a cena de um crime.

Sangue seco manchava o carpete do lobby, e estava espirrado nas paredes que levavam à escada para o andar de cima. O corrimão de madeira fora estraçalhado em vários lugares, pelo que ela só podia supor serem garras afiadas. Mais à frente havia uma mancha de sangue que fora esfregada sem muito sucesso. A marca ainda estava bem clara sob a luz, bem perto de onde ela tinha se abaixado para chamar pela lareira.

Minha varinha, ela pensou. No mesmo momento, vários estalos se fizeram ouvir na rua, estalos conhecidos… que lhe arrepiaram até a alma. Ela correu até o lobby tão rápido quanto pode, em busca do seu casaco… mas no gancho onde o pendurara, já não havia nada.

Droga, droga… os passos do lado de fora estavam ficando mais próximos, e Bervely se adiantou para as escadas ensanguentadas, seu coração disparado. Tudo que ela conseguia pensar era que o ataque acontecera ali, bem ali, todo aquele sangue… e ela não estava segura.

– Mia? – chamou, já no andar de cima, tentando enxergar o caminho no escuro. Haviam muitas portas, e mais escadas. – Mia, eu sei que você pegou minha varinha, devolva!

Silencio ali em cima… um baque no andar de baixo. A porta de entrada de entrada da estalagem fora arrombada, e eles estavam chegando, ela precisava, desesperadamente, ir embora. Começou a empurrar porta por porta, olhando dentro dos quartos procurando qualquer sombra, qualquer movimento…

Mia, pensou subitamente, congelando. Vindemiatrix. Era óbvio que alguém com um nome daquele tamanho ia ter um apelido! Foi, no entanto, a última coisa que passou pela sua cabeça.

Depois veio a dor súbita.

E o escuro.

– BD –

Tente acordar com a marcante impressão de que você deveria estar morta – era exatamente como Bervely se sentia. Ela tentou abrir os olhos, mas doeu horrivelmente. Alguém tinha colocado o sol bem na frente da sua cara?

Sua cabeça ardia. A dor sendo uma grande evidência da existência de um corpo, concluiu que ainda estava viva. O resto… bem, não fazia a mínima ideia do resto.

– Não se mova. – alguém disse ao seu lado num tom autoritário. – Beba.

Poção lamacenta foi enfiada em seus lábios entreabertos, e tinha gosto de menta e queijo azedo. Ela fez uma careta para essa segunda parte, mas engoliu, sabendo que era Wiggenweld. Dali a minutos, foi possível abrir os olhos e movimentar levemente a cabeça para o lado. A silhueta coberta em negro lhe deu uma pista de quem era o seu curandeiro mandão.

– Professor – murmurou, achando a voz arranhada, a garganta seca.

– Srta. Black. – ele respondeu, soando zangado. Por algum motivo, o tom a fez sorrir um pouquinho. – Está se divertindo?

– A sua poção é horrível.

– Não era para ter gosto bom, só funcionar corretamente. – ele resmungou de volta.


Depois ela apagou de novo.


Só acordou no dia seguinte. Se achou sozinha em um quarto espartano, que muito lembrava aquele de Azkaban, a não ser pelo fato de que as paredes eram cobertas de papel de parede cinzento e não feitas de pedra. Havia apenas uma cama, onde estava deitada, uma janelinha fechada e uma mesa de três pernas. Ela ficou deitada ali observando a completa ausência de personalidade do quarto.

Antes de chegar à porta, percebeu um vidro de poção sobre a prateleira, com um bilhete.

Beba.”


Torceu o nariz, começando a montar as peças, afinal conhecia muito bem aquela caligrafia deitada e esticada; a lera em rótulos de poções e notas de rodapé incontáveis vezes. Bebeu a poção e calçou suas botas, que achou ao lado da cama. Quando ergueu o corpo novamente sentiu uma pontada na cabeça, e ao apalpar a nuca, encontrou um curativo. Merda.


O quarto ficava rebaixado numa espécie de porão, porque precisou subir um lance de escadas para chegar ao vão principal. Havia apenas um cômodo e não era amplo, pouco maior que um escritório, e cuja decoração sombria absorvia o pouco de luz que entrava pelas persianas. A maior parte das paredes era coberta de livros, tão organizados como os vira através da lareira. Também a achou, encaraptada na parede oposta, e no centro da sala ficava uma única poltrona de couro verde escuro, quase preto. Havia um sofá de dois lugares pouco usado sob uma janela, e perto dele, uma mesa de refeição para uma pessoa acoplada à parede. A mesa de centro estava coberta de anotações e livros abertos ou marcados, e no outro canto da sala uma discreta escada em espiral levava para o andar de cima. Ela podia facilmente adivinhar o que tinha lá, mas antes que ousasse explorar, outra coisa lhe chamou a atenção.

Era a edição do Profeta Diário do dia anterior, primeira página, e mostrava o prisioneiro chamado Jordel, que Bervely analisara na manhã anterior (pelo menos ela estava supondo que fora a manhã anterior, e que dormira apenas uma noite). Sob a sua foto segurando a placa de Azkaban, a manchete dizia “Ordem de Prisão Revogada: Testes de Licantropia dão Negativos”. Ela puxou a página para si, lendo a chamada da manchete:


Bruxo preso nesta terça feira, dia 20, acusado de chacina à trouxas causada por descontrole de sua transformação, teve seus exames negativos para licantropia, como divulgado hoje pelo Departamento de Controle de Criaturas do Ministério da Magia. Desconfia-se que Jordel Bane confessou os crimes a fim de acobertar um membro da família, que permanece desaparecido. Mais informações na página 8.

– Bom dia, Srta. Black. – a voz ligeiramente sardônica do professor Snape a alcançou antes da sua presença, enquanto ela procurava a página oito. Ele descia elegantemente a escada em espiral e continuava irretocável em sua glória professoral, nem um botão à menos nas vestes fechadas até o pescoço. – Teve uma boa noite de sono?

– Não, mas posso me conformar em ter desvendado a maior suspeita de todos os alunos de Hogwarts; o senhor não dorme em um caixão, afinal de contas.

– Você não estava tão engraçada ontem, com sangue saindo do fundo da sua cabeça, não é mesmo? – sem esperar resposta, ele rodopiou sua capa e entrou por uma porta escondida entre as prateleiras, que ela nem tinha visto antes. O seguiu, jornal na mão, mas ele estava de volta antes que cruzasse a sala. Trazia uma bandeja com chá e torradas.

– Coma. – mandou, pousando-a sobre a mesa. – Ou eu serei forçado a lhe oferecer uma poção de reposição de sangue.


Ela ainda tentava encaixar todas as peças da noite anterior. Lembrava-se principalmente de procurar Mia… Vindemiatrix, no escuro, e entender…

– Ela era, não era? – Bervely sacudiu o jornal, ignorando a bandeja – Vindemiatrix, ela matou aqueles trouxas, foi ela o tempo todo!

– Sim. – ele disse sem rodeios – Aparentemente o pai a esteve acobertando por anos, até a transformação sair do controle, como estava fadado a acontecer.

– Eu não entendo. – murmurou, sentando-se na cadeira mais próxima. – Ela parecia… um tanto inofensiva. Realmente pequena e inofensiva. Eu nunca desconfiaria.

– E eu acredito que essa foi a intenção. – ele disse sombriamente. – Lobisomens são traiçoeiros, senhora Black, e perfeitamente capazes de usar das estratégias mais sorrateiras a fim de conseguir seus intentos. Como está sua cabeça?

Bervely tateou o curativo, mas na verdade, fora a pontada que sentiu quando abaixou para amarrar as botas, não havia dor.

– Está boa. O senhor… não precisava me trazer aqui. Quero dizer, eu poderia ter ido ao hospital. – mesmo quando disse isso, teve um arrepio involuntário, imaginando a cara de Andrômeda ao vê-la dar entrada no St. Mungus depois de tudo que vinha acontecendo, Johanne, Fritz e tudo.

– Tolice. Você teve uma concussão, nada que eu não pudesse cuidar com poções muito básicas. Além do mais, eu não podia deixar escapar a chance de perguntar o que diabos a senhorita tinha em mente quando foi atrás de lobisomens!

Ela se encolheu por reflexo quando a voz dele foi se tornando mais perigosa e aborrecida.

– Não foi o que eu…

– Honestamente, Srta. Black! Eu esperava um pouco mais de discernimento da sua parte! Se colocar em risco dessa forma, no que estava pensando? Por pouco não foi…

– Mordida?

– Morta! – ele a sobrepôs, sua voz fazendo vibrar os nervos dela – Você pensa que isso é engraçado? Já não está muito velha para se colocar em situações como essa? Eu gostaria de passar a minha vida sem ter que me preocupar constantemente em tirá-la dos braços da morte! Primeiro se jogar da Torre de Astronomia, e agora isso! Eu deveria me preocupar com alguma espécie de instinto suicida?

Ela começou a negar com a cabeça, já que falar qualquer coisa através daquele intenso e irado discurso era impossível.

– Eu não fui até Snowfall atrás de problemas! – bufou, quando ele fez uma pausa para respirar – Só queria ver se Bae estava bem! O que foi bom, porque ele obviamente não estava! Não está! – acrescentou, lembrando-se de repente de porque ainda havia uma sensação de urgência rolando em seu estômago. – Ele foi mordido durante o ataque!

– Suponho que se refira ao filho da Sra. Hayes, Benjamim? De onde você possivelmente conhece aquela criança?

Ela abriu sua boca mas a fechou logo depois. Não podia realmente explicar-lhe isso, sem colocar a segurança da família em perigo. Não que não confiasse em Severus, mas o alcance do Olho de Hórus parecia não ter limites.


– Não importa de onde eu o conheço. Ele foi mordido, mas ainda não se transformou. Então eu pensei que houvesse um jeito…

– Não há antídoto para licantropia, Srta. Black. – Snape lhe disse duramente – Uma vez mordido por um lobisomem transformado, os destinos possíveis são carregar a maldição ou sucumbir à morte.


Ela percebeu que Mia provavelmente inventara a existência de um antídoto para distraí-la. Ainda não conseguia entender qual o interesse da garota em si, exatamente. Por que se fizera de confiável e a ajudara com Bae se era a culpada pela condição dele, para começo de conversa.

– O que aconteceu depois que ela me atingiu? – perguntou, com certo medo da resposta.

– Os aurores invadiram a casa, mas quando chegaram, ela já tinha ido embora. Penso que ela percebeu que você era bruxa e viu uma possibilidade de lhe usar para escapar. Os aurores disseram que ela estava de posse de uma varinha, embora ela jamais tenha tido uma varinha registrada.

– A minha varinha. – rosnou, lembrando-se que quando fora procurar o seu casaco, este já não estava mais lá. Um pequeno alívio foi sentido quando ela se deu conta que na verdade a varinha levada era a “de Charlotte”, a que lhe fora enviada pelo Olho de Hórus, e não a sua, que estava em segurança no chalé. Então lembrou-se do que mais estava no bolso do casaco. – Ela levou o cheque!

– Levou o quê?

Bervely estava ligeiramente sem ar, mas balançou a cabeça como se não tivesse sido nada. Por dentro, o pânico se espalhava lentamente; acabara de perder todo o dinheiro ganho em Azkaban naquelas últimas semanas, de uma única vez.

– Uma certa parcela de confusão mental é esperada, se não da pancada, como efeito da poção curativa. Coma alguma coisa, vai se sentir melhor.


Ela pegou mecanicamente uma torrada.

– Quanto ao garoto… eu sinto muito, mas não há nada que se possa fazer. Se ele tivesse sangue mágico, é provável que sobrevivesse e se tornasse uma das criaturas. Mas se for um trouxa como sugere o resto da sua família, não deve resistir aos próximos ou à primeira transformação.

– Ele é um aborto. – murmurou desolada – Não tem sangue mágico.

– Então talvez, se ele sobreviver, não chegue a se transformar na lua cheia. A transformação requer um gasto de energia mágica muito intensa, e se não tem de onde tirá-la, raramente se completa.

Bervely sentiu um fio de esperança naquelas palavras. Talvez houvesse um ponto positivo em Bae ser um aborto, no meio de toda a tragédia em que se envolvera.

– BD –


Snape não a deixou ir embora antes que sua cabeça estivesse completamente curada, e ainda naquela manhã insistiu para que Bervely enviasse uma carta à Andrômeda informando que estava segura. Ela rolou os olhos para isso, mas fez o bilhete mesmo assim; depois ficou olhando Benzoar voar pelo céu cinza claro, pensado como era estranho estar na casa do mestre de poções, e ao mesmo tempo… não era.


Apesar de sombria e muito menos ensolarada do que deveria ser uma casa, o número 18 em Spinner’s End lhe transmitia uma estranha sensação de segurança. Ela percebeu que desde o início das férias não se sentia daquela maneira; no meio de toda a atividade de se infiltrar em Azkaban, do acidente com Anne e do não tão acidente assim com Fritz, sua impressão era de que algo terrível aconteceria no minuto em que desse o próximo passo.


Mas não ali. Apesar de ter acabado de ser enganada, atacada e roubada por uma lobisomem, ela estava estranhamente tranquila. Talvez houvesse tanta coisa acontecendo, e tanto a se pensar, e tanto que estava fora do seu alcance, que seu cérebro tinha apenas desistido. Bervely passou a tarde fuçando os livros de Snape, sem pensar em outra coisa a não ser sua flexível gama de interesses. Havia muito sobre poções, livros realmente complexos que ela nunca vira na biblioteca de Hogwarts e poderia ficar horas folheando, mas também achou um bocado sobre defesa contra as artes das trevas, e sobre artes das trevas.


Ela tinha uma certa familiaridade com estes porque não eram tão incomuns em Durmstrang, mas certamente fariam bruxos mais conservadores torcer o nariz. O mestre a deixou sozinha por horas enquanto se ocupava de qualquer coisa no andar de cima, e ela sentia os aromas de bile de tatu e beladona no vapor que escapava pela porta, mas não se sentiu impelida à espiar. Acabara de achar um exemplar do mesmo livro que Theodor tinha em seu laboratório, La Voix du Sang, e lembrou que nunca tivera a chance de folheá-lo.

Quando Snape finalmente desceu, encontrou Bervely adormecida no sofá, as pernas escolhidas e um braço apoiado no volume pesado escolhido, a bochecha esmagada contra o encosto. Ele retirou o livro o mais cuidadosamente que pode, mesmo sabendo que seu sono, induzido por toda poção ingerida, seria pesado. Notou que ela tinha mais cor no rosto do que no dia anterior, embora as olheiras persistissem, arroxeadas na pele muito fina de debaixo dos olhos.


Ele se pegou pensando se ela ainda teria os pesadelos que a levaram a se viciar em poções do sono no ano anterior. Por experiência própria, ele sabia que não iam embora tão facilmente. E a filha de Bellatrix parecia tão frágil…


O mestre conjurou uma manta pesada e jogou sobre ela, cuidando para que ficasse aquecida. Clockworth à noite poderia ser muito frio para quem não estava acostumado.

– BD –


Embora não houvesse um caixão propriamente dito na casa de Severus Snape, ela não deixava de se assemelhar com um sarcófago fechado, levando-se em consideração as cortinas perpetuamente cerradas e os tons escuros dos móveis e estofamento. Na manhã de domingo Bervely acordou com a garganta seca e vagou até a porta oculta entre as prateleiras, confirmando suas suspeitas de que levava até uma pequena cozinha. Era o local mais claro da casa, de forma que, depois de beber agua, sentou-se à mesa e continuou lendo La Voix du Sang.


Ainda não descobrira se ele se encaixava na categoria magia negra, mas certamente tinha um tipo de conteúdo controverso – todos os feitiços, encantamentos e poções listados em suas páginas se baseava, de alguma forma, no uso de sangue humano. Havia uma introdução gigantesca sobre as propriedades do sangue bruxo, e suas diversas propriedades e potencialidade mágica relacionada ao nível de pureza… mas quase nada sobre a Lei de Restrição ao Uso de Material Humano como ingrediente. Bervely estudara a lei em Durmstrang, dentro de um livro que falava sobre a Poção Polissuco – salientava que as partes humanas usadas em poções deveriam ser todas não vitais – como cabelo, pêlos, unhas, saliva… – mas nunca sangue ou órgãos, o que as tornaria automaticamente ilegais.

La Voix du Sang não se preocupava com esses pormenores. Bervely estava lendo um capítulo completamente dedicado ao uso de sangue de crianças bruxas numa poção de rejuvenescimento de suas respectivas mães, quando o professor Snape entrou na cozinha sorrateiro.

– Acordou cedo, Srta. Black. – disse sem aliviar no tom. Ele obviamente não tinha consciência da potência de sua voz num ambiente tão pequeno, e o susto a fez sentar-se reta na cadeira e praguejar. Snape se adiantou para o armário de mantimentos e foi tirando ingredientes lá de dentro, os colocando sobre a mesa. – Vejo que encontrou uma leitura do seu agrado no meu acervo particular.

– O senhor não devia deixar esse tipo de livro por ai, se não quer que as pessoas acreditem na teoria do vampirismo.

– Não é como se eu abrisse minha casa com frequência para a bisbilhotice alheia.

Ela sorriu silenciosamente para as costas dele. O mestre não usava as vestes negras hoje; ao invés disso, estava metido num camisão comprido e marrom escuro, que fazia conjunto com calças largas. Era o mais informal que já o vira em todo o seu tempo de convivência, mas nada se comparava ao fato de que ele estava prestes a cozinhar.

Severus Snape fritando ovos,
ai estava algo que não se via todo dia.

Desnecessário dizer que ele o fazia com a mesma destreza com que despelava descurania e triturava raiz de asfódelo.


– Gema dura ou mole?

Ela precisou segurar um ataque de riso para responder.

– Dura.

Ele se virou para ela intrigado; havia uma espátula em sua mão.

– O que é engraçado?

Nada. – meneou a cabeça, apertando os lábios muito firmemente. Ele ergueu uma sobrancelha, dessa vez a esquerda, num prenuncio de que o humor dela o irritava.

– Me ver cozinhar lhe diverte, Srta. Black?

Ela assentiu para o chão. Se continuasse tendo a visão dele com uma espátula na mão, não ia aguentar mais muito tempo.

– Um pouco, professor.

– Sorte sua que não estamos em Hogwarts, ou a zombaria teria lhe rendido perda de pontos. – avisou, estreitando os olhos de besouro. – Se bem que eu ainda posso deixá-la com fome…

Snape depositou um prato à sua frente com dois ovos e fatias de pão de forma com aveia, apesar da ameaça. Cheirava maravilhosamente, e quando ele se sentou com seus próprios ovos (gemas duras), notou que não estava nem de longe zangado.


– Não respingue gordura no livro. – a preveniu, e Bervely rolou os olhos, afastando o exemplar do prato. – O que pretende fazer agora? Entendo que a lobisomem roubou a sua varinha, vai ter de arranjar outra. Se precisar de dinheiro…

– Não, não preciso. Eu tenho uma extra em casa, na verdade.

Ele lhe olhou suspeitosamente, mas não teceu comentários. Bervely percebeu que havia outra coisa lhe incomodado.

– Como os aurores apareceram na estalagem justamente naquele momento?

– Eu avisei ao Depto. de Execução antes de sair. Sabia que eles teriam como chegar ao local antes de mim, portanto tinham mais chance de evitar um desastre.

Ela não pode evitar um sorrisinho coquete, afinal, Snape mal se preocupava em esconder a preocupação que tinha com ela. Se isso fora um incomodo em algum momento, agora só a deixava intrigada.

– O senhor sabe que ela não poderia me transferir licantropia, já que não era lua cheia.

– Lobisomens são perigosos em todas as épocas do ano. – rebateu com um brilho afiado no olhar, como se as criaturas lhe ofendessem pessoalmente. – Não se pode confiar neles. E eu estava certo, não é? Um minuto a mais, e poderíamos não estar tendo essa conversa na minha cozinha, porque ao invés disso eu estaria velando o seu corpo.

– O senhor velaria meu corpo? – sorriu, divertida. – Isso é muito lisonjeiro.

Bervely.

– Não acho que ela queria me matar. E acho que ela estava preocupada com Bae. E que fugiu porque estava assustada.

– Você está com pena da fera agora, Srta. Black? Eu esperava um julgamento mais sensato da sua parte, especialmente sobre alguém que quase quebrou a sua cabeça!

Snape se ergueu da cadeira, visivelmente aborrecido. Ele tirou seu prato e colocou na pia com movimentos bruscos.

– Professor… ela tinha a minha idade. Não era uma “fera”. Não matou aquelas pessoas de propósito. Se o senhor imaginar…

– Eu não preciso imaginar nada. – ele se voltou, a frieza recuperada, a expressão hermética mais uma vez. – Eu sei como essas criaturas funcionam. Ela podia ser apenas uma garota antes, mas se tornar um monstro uma vez por mês transforma uma pessoa para sempre, Srta. Black. Lobisomens. Não. São. Confiáveis.

Ele deixou a cozinha depois disso, um tanto intempestivamente, e Bervely não pode evitar de pensar que tipo de experiência com lobisomens Severus Snape tivera no passado, para ter acumulado tanto ódio à categoria.

– BD –

– O senhor já quis ter filhos, professor Snape?

Ela podia muito bem ter perguntado se ele já cogitara cultivar um par de chifres no topo da sua cabeça; Bervely achou que nunca vira os olhos do professor tão arregalados, antes de ele recuperar a postura indiferente atrás do exemplar de Alquimia Hoje que estava folheando.

– Não. – disse, virando cuidadosamente uma página e tentando retomar a concentração na leitura.

Bervely voltou a olhar através da janela, que conquistara aberta após uma pequena discussão com o professor mais cedo. A casa de Snape ficava em um conglomerado de prédios feitos em cimento cru, numa área industrial com muita fumaça. Talvez para não deixar o cheio ocre das chaminés entrar ele mantinha a janela fechada, unindo-se ao fato de que não possuía uma boa vista – a janela voltava-se para o fundo de outro prédio.

O que ela estava olhando daquele ângulo não era o outro prédio, mas o topo de um poste trouxa; havia um ninho encarapitado ali, agarrado à confluência de fios. Durante as horas que esteve ali deitada, observando o mesmo ponto enquanto pensava em mil coisas diferentes dos últimos meses da sua vida, nenhum pássaro se aproximara dele.

A resposta de Snape para a pergunta que estivera digerindo a tarde inteira não a satisfez.

– Por quê?

Apesar da insistência, esperava outra resposta seca. Na verdade, qualquer um que conhecesse o professor sabia que ele seria terrível com crianças, só pelo quanto não as suportava. Mas “eu odeio crianças” ou “porque não” não foi o que saiu de seus lábios.

– Eu não teria nada a oferecer à um filho.

Bervely virou sua cabeça lentamente para a direção do mestre; ele não tinha mudado qualquer milímetro da sua pose de leitura: a perna esquerda apoiada no chão, a outra dobrada, tornozelo apoiado no joelho esquerdo. Os braços no encosto da poltrona, a cabeça levemente inclinada, fios de seu cabelo escuro se insinuando sobre o rosto impassível.

– Nada a oferecer? – repetiu ela, curiosa. – O senhor diz, herança?

– Não. Não falo de dinheiro. Por que acha que as pessoas tem filhos, Srta. Black?

– Por que não conseguem preparar direito, ou então esquecem de beber a poção contraceptiva?

Um pequeno prenuncio de sorriso surgiu no canto dos lábios dele, mas sumiu com o passar de uma página.

– Alguns. Mas a maioria, a parte que escolhe ter filhos… acha que tem algo que vale a pena transmitir. Chame do que quiser… valores, crenças, um sobrenome honrado, ou… afeto. Eu não sinto necessidade de passar qualquer coisa dessas adiante.

Ela ficou em silêncio, digerindo as palavras.

– Então o senhor não pretende ter filhos… simplesmente porque não está interessado?

Snape assentiu.

– Simplesmente porque não estou.

Bervely voltou a olhar para o topo do poste além do prédio. Para o ninho abandonado, se desfazendo lentamente à serviço do tempo e do descuido.

Talvez ele estivesse certo. Algumas pessoas simplesmente não estavam interessadas.

– BD –


26 de Julho, segunda feira.

– …Eu vim pra ver Johanne, não pra satisfazer sua curiosidade à respeito da minha indumentária.

Lupin estava certo ao dizer que Anne se encontrava ansiosa. Ele apenas esquecera de completar o quanto empolgada ela também estava.

– Rose! – exclamou, assim que Bervely entrou na enfermaria compartilhada. Como de costume, ela sabia que era a irmã mais velha quem acabara chegar, mesmo com os olhos tapados. – Olha o que o Oliver me mandou!

As cortinas em torno da sua cama estavam completamente abertas, e ela estava sentada com seu tocador de discos trouxas. Não havia mais ataduras em torno do seu tronco, sinal de que as lacerações tinham curado por completo. As cicatrizes deixadas para trás eram quase imperceptíveis a olho nu, e talvez desaparecessem com o tempo. O único curativo que restara era a faixa fina em torno dos olhos. Os fios que administravam poções direto em suas veias também tinham sido retirados, deixando os seus braços livres.

O melhor provavelmente era o sorriso amplo em seu rosto. Ela sacudia na direção de Bervely uma capa quadrada de plástico, praticamente quicando.

– Não estou certa de que isso é apropriado para crianças – analisou ceticamente a capa do álbum, que retratava um anjo de asas abertas, do sexo feminino, com todas as suas entranhas visíveis. – In Útero?

– É de uma banda chamada Nirvana! Oliver disse que foi lançado esse ano, e eles são muito bons mesmo! Irados!

– “Irados”? – repetiu, com uma careta. – Então, Wood anda se correspondendo?


– É, ele mandou uma carta, a curandeira me entregou hoje mais cedo! Também dizia que as Harpias de Hollyhead foram classificadas para as oitavas de final, sabia que é um time todo feito de mulheres? O único do Reino Unido! Então amanhã ele está indo para a Irlanda, onde vão ser os próximos jogos! Ele te disse isso na sua carta?

– Ele não me mandou nenhuma carta. – disse, na voz mais casual que pode produzir. – E você, parece que tomou Elixir da Língua Solta hoje?

Johanne gargalhou com a brincadeira, o som acabando por fazê-la sorrir também. Foi sentar na ponta da cama, querendo ver de perto o quão boa fora a cicatrização da menina, mas Anne não parava quieta.

– Você soube que eles vão tirar essa coisa do meu rosto hoje?

– Lupin me disse.

– Você pode chamar ele de Remus, ele não se importa.

– Não, você pode. Você é a afilhada dele. Então, teve um bom fim de semana?

– Luna veio! – ela sorriu ainda mais, mostrando todos os dentes branquinhos da ótima dentição herdada pelo lado dos Black – Passou o dia inteiro aqui! E a minha avó veio no domingo, e trouxe meus livros da escola, mesmo não precisando, porque se os meus olhos estiverem bons eu vou receber alta…

– Você fez as pazes com ela, então? – sondou Bervely, incomodada. Johanne tinha aquela tendência de perdoar as pessoas muito facilmente. A menina deu de ombros, sem jeito.

– Eu acho que ela sente muito por eu ter me machucado. E ela tem se esforçado para se dar melhor com tio Remus, já que ele tanto ajudado tanto, me fazendo companhia quando ela não pode ficar aqui, por causa do trabalho na livraria.

Sorte que Johanne não podia ver a careta de Bervely naquele momento. Ela apenas achava muito oportuno que a Sra. Loren se esforçasse para se dar bem com Lupin quando precisava dele.

– Então você está pronta pra voltar pra casa, se tudo estiver bem? – perguntou, sem esconder completamente o desagrado em sua voz, porque não conseguia. O sorriso de Anne morreu um pouquinho, mas antes que ela pudesse responder Andrômeda e outros dois curandeiros entraram no quarto, seguidos por Lupin.

– Bom dia, Anne! Preparada para tirar esses curativos?

– Sim! Oi, Dra. Andy!

– Oi, Andrômeda. – Bervely cumprimentou também, e a tia lhe deu um sorriso de agrado.

– Ótimo, Anne… lembre-se, se você não ver as coisas com perfeita clareza no começo, é normal. Consertar ossos é relativamente fácil, mas olhos… isso leva um pouco mais de tempo. Pode demorar até conseguir enxergar como antes.

– Tudo bem. Quem sabe eu até não consiga uns óculos… – ela brincou, se sentando direta para que Andrômeda pudesse chegar até ela. A medibruxa riu.

– Você quer usar óculos?

– Sim! Acho charmoso.

Bervely rolou os olhos, assistindo a tia desenrolar as ataduras sob o olhar atento dos curandeiros e de Remus. Ela também estava um pouco apreensiva, é verdade. Olhos eram muito mais complexos do que ossos. Por fim as ataduras foram tiradas e Johanne piscou, apertando as pálpebras e as esfregando com suas mãos.

– E então?

A menina não disse nada por um momento, olhando fixamente para a parede oposta. Bervely teve um vislumbre de suas íris, e se alarmou quando as viu não completamente escuras, como se lembrava, mas estranhamente… prateadas.

– Andrômeda – chamou, preocupada. Remus também percebera, e estava se aproximando para conseguir ver melhor – O que há de errado com…

A medibruxa se curvou, percebendo a anomalia.

– Johanne, pode me dizer o que vê?

Não havia qualquer sombra da animação anterior na garota. Na verdade, ela estava retesada, olhando fixamente a parede mas sem realmente focá-la, com seus estranhos olhos prateados e sem pupilas.

– Nada. Eu não vejo nada.

Andromeda sacou a sua varinha e emitiu luz dela, que direcionou direto para os olhos de Anne. Ela não fez qualquer menção de percebê-la, ao mesmo tempo em que seu rosto começava a se torcer e a respiração ficar mais pesada.

– Tem certeza, querida? Nem mesmo sombras?

– O que aconteceu com eles? – Remus também quis saber, falando baixo.

– Absolutamente nada. – a medibruxa lhe respondeu. Atrás dela os curandeiros se olhavam, parecendo igualmente perdidos. – Eles respondem aos testes da maneira correta, e não há qualquer sinal de dano…

– A não ser pelo fato de que mudaram de cor! – Bervely exclamou, cínica.

– Não há motivos para alardes – Andie começou calmamente, ainda que não soubesse o que havia de errado. – Vamos fazer mais exames…

– Não! – Johanne começou a gritar, irrompendo em lágrimas, tapando seus olhos com força com as mãos e curvando o corpo para frente – Eu sabia! Eu sabia! Eles estão arruinados, eu sabia!

– Você precisa se acalmar, Anne. Vamos descobrir o que aconteceu…

– NÃO! – ela urrou, se afastando das mãos apaziguadoras da medibruxa. – Ponha de volta! Cubra de novo, ponha de volta, ponha de volta…!

Ela apertava o rosto como se quisesse arrancar os olhos fora, e todos os adultos ficaram sem reação por um momento, diante de seus gritos. Bervely saltou para perto dela como uma flecha, passando um braço em torno do seu ombro e pousando a mão em sua testa, querendo impedir que se machucasse.

– Anne…

– Ponha de volta… por favor, ponha de volta… eu não quero…

Compreendeu o que a menina queria dizer entre os soluços, e arrancou o lenço de Durmstrang do seu pescoço, o envolvendo em torno do rosto dela e apertando firme na parte de trás da sua cabeça. Só quando estava vendada de novo Johanne se acalmou, mas continuou soluçando, o rosto enfiado em seu ombro, as mãos segurando sua roupa tão firme que estava a ponto de quase rasgá-la.

Andrômeda observava a cena com um grande alarme e preocupação, e o mesmo para Remus, mas nenhum deles tinha ideia do que fazer a seguir. Bervely balançou a sua cabeça para ambos, enquanto apertava o braço em torno de Anne, que tremia.

– Deixem ela em paz. – pediu baixo, fazendo um sinal na direção da porta, para que saíssem. – Ela vai ficar bem, apenas… deixem.

– BD –

Johanne adormeceu quase uma hora depois, exausta, mas Bervely só saiu do seu lado depois de Remus prometer que estaria ali quando ela acordasse.


Depois ela foi procurar Andrômeda – a achou perto do posto de poções medicinais, a expressão um tanto atribulada, enquanto entregava algumas prescrições para a porcionista do turno. Sua expressão mudou quando viu a sobrinha, deixando transparecer sua preocupação com que tinha acontecido há pouco na enfermaria de ferimentos provocados por criaturas.

– Bervely…

– O que está acontecendo? Você disse que o tratamento ia consertar os olhos dela!

– Eu disse que esse era o objetivo. E foi cumprido! Não há qualquer coisa errada com os olhos de Johanne.

– Eles estão prateados, Andrômeda!

– Isso não tem relação com a sua integridade, pode ser apenas um efeito colateral imprevisto das poções que foram administradas. Mas todos os exames indicam que as córneas estão recuperadas e funcionais.

– Então você acha que ela está o quê, mentindo? Mentindo sobre poder ver? Por que ela faria isso?

A medibruxa deu um pesado suspiro enquanto buscava uma explicação plausível, quando na verdade não a tinha.

– Eu não sei. Vamos mantê-la aqui mais um pouco enquanto investigo. Como ela está?

– Dormindo. E completamente assustada. Você lhe deu esperanças! – acusou, revoltada – Como pode ser tão cruel?

– Desculpe, Bervely, mas eu também tinha esperanças! Estamos todos frustrados.

– Acontece que a sua frustração não a impede de ver, não é, mas ela além de frustrada e continua no escuro!

– Eu entendo, querida, mas realmente estou fazendo o melhor que posso. Se houver qualquer coisa ao meu alcance para ajudar a sua irmã…


– É bom haver, Andrômeda.


Prevendo que aquela conversa ia tomar caminhos perigosos, a Black mais velha achou por bem mudar de assunto até um mais ameno.

– Então, como foi o fim de semana com o seu padrinho?

Bervely precisou de meio minuto para entender de quem ela estava falando.

– Ah, Prof. Snape? Bom. Ele me emprestou um livro.

– Fico feliz que estejam se dando bem, ele se importa com você.

– Talvez eu possa contar com ele para ajudar Johanne, já que obviamente você não está dando conta. – retrucou friamente.


Andrômeda lhe deu um olhar surpreso e magoado, e balançou a sua cabeça, como se simplesmente não valesse a pena, ou estivesse cansada demais para contestar. Ela estava prestes a se despedir, quando seus olhos pousaram no pescoço, agora descoberto, de Bervely.

– O que é isso em seu pescoço? Você se machucou? – alarmou-se. Bervely prontamente colocou sua mão sobre as marcas, agora amareladas e bem menores, dos dedos de Black.

– Nada. Eu preciso ir, estou atrasada pro trabalho.

– Bervely!

Mas ela já tinha dado meia volta e se adiantado pelo corredor, ignorando o chamado. Não pretendia… não queria voltar para Azkaban… a ideia enrolava o seu estômago. Só de lembrar das celas fedorentas, dos prisioneiros descarnados… de Black e seu completo, duro descaso… Jordan, aquele mentiroso maldito que a enganara, colocando-a no caminho de sua filha lobisomem… a fortaleza era um antro de imundice, desesperança e abandono, já não havia nada a esperar dali, e ela estava apenas cansada…

Você não tem escolha, lembrou a si mesma, enfrentando a náusea moral de sua obrigação, precisa recuperar o dinheiro perdido para pagar o seu contrato. Afinal, o Olho de Hórus não era o tipo de homem que lidava bem com dívidas.

Só mais duas semanas e estará acabado, barganhou consigo mesma.


É claro que havia o problema de como ia chegar lá, já que tinha jogado fora a chave de portal do Olho de Hórus. Bervely, uma vez fora do hospital, enfiou a mão no bolso, pronta para pegar a sua varinha e esticar a mão para o Noitibus, rezando para que ele pudesse lhe levar tão longe quanto o cais de Caronte II. Sentiu uma superfície lisa sob os dedos, no entanto. Seu coração gelou, enquanto trazia o objeto na altura dos olhos.

A chave de portal viera parar de volta em seu bolso… como se nunca o tivesse deixado.

– BD –

Péssimo dia pra resolver chegar atrasada, Summers!


Nunca tinha visto Theodor Shadowtamee tão nervoso. Além do fato de que estava lhe chamando pelo sobrenome e quicando de um lado para o outro na sala de comando, havia duas manchas vermelhas em seu rosto, uma sobre cada bochecha.

O herdeiro Agrippa-Shadowtamer corava quando ficava nervoso. Ela tirou seu minuto para apreciar aquela informação como se devia.

– Qual é o problema, por que você está tão nervosinho?

– Milhões de coisas! Você sabe o que aconteceu aqui no sábado? É claro que não, porque você não veio trabalhar no sábado!


– Eu perdi o momento em que você virou meu chefe, Shadowtamer? – retrucou de cara feia. – Desembucha, o que foi que teve sábado?

– O Ministro, foi o que teve! Ele veio aqui com uma comitiva, visita surpresa, e meu pai nem mesmo estava na ilha! Pra quem sobrou responder às milhares de perguntas? Ele quis ver com os próprios olhos porque o Conselho Internacional está tão preocupado com as nossas condições de funcionamento!

– Soa como algo com que ele deveria estar preocupado, mesmo. – ela comentou, sem dar muita importância ao fato.

– Você não entende, não é? Ele fez um milhão de perguntas, e agora quer respostas! Tenho uns cinco relatórios para terminar até o fim do dia. E preciso de uma cópia do seu relatório…

– … que você vai ter que pedir para o Sr. Criodilus, e duvido muito que ele vai te entregar. – intimamente, ela torceu para que não entregasse mesmo, aquela péssima desculpa de relatório.

– … e ele conversou com prisioneiros! Acredita que ele foi até a cela de Black? Justamente Black. Como se suspeitasse de qualquer coisa estranha justamente com esse!

– Hum. – Bervely tentou dizer a si mesmo que não importava. Black não importava. – Só não estou entendendo onde eu entro no seu desespero, há algo que eu possa fazer pra ajudar, Theodor? Ou você só queria mesmo despejar esse pequeno ataque em meus ouvidos disponíveis?

Ele parou na sala, enfim olhando pra ela, ligeiramente culpado. Continuava corado.

– Na verdade, há um favor…

– Vá em frente. – rolou os olhos, é claro que havia.

– O curandeiro de plantão escolheu justamente hoje para ficar doente, entre todos os dias, e eu tenho aqui uma lista de prisioneiros que precisam de consulta. Então se você não estiver muito ocupada, e puder quebrar esse galho… é apenas mais uma coisa com que não posso lidar hoje, não há tempo para lidar com isso hoje, mas internos doentes não esperam, esperam?

Bervely passou os olhos pela lista indicada, eram apenas os códigos, não os nomes. Poucos eram familiares, mas um saltou aos olhos imediatamente.

– Você sabe que Black está nessa lista, certo? – o confrontou, franzindo seus lábios.

Theodor se possível ficou ainda mais sem graça.

– Eu sei. Ele andou tendo pesadelos de novo. Provavelmente não é nada, mas os guardas o ouviram falar durante o sono, e eu quero ter certeza que ele está fora de perigo. Seria realmente ruim ter Black sendo beijado justamente quando Fulge visitou sua cela, pode imaginar o rebuliço…

– O que os guardas ouviram Black falar durante a noite? – perguntou, mesmo repetindo que não importava. Não importava. Black não importava.

– Qualquer coisa sobre alguém… alguém que está em Hogwarts.

– BD –

Algumas horas mais tarde…

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Grãos úmidos se intrometeram entre os dedos de seus pés, quando ela os empurrou na areia da praia.


Talvez fosse ilegal andar por aquela orla, e talvez até perigoso, agora que escurecia. O mar parecia ameaçador, quebrando contra as pedras como um animal selvagem. Rugindo seu eterno som, a maior fera do mundo.

Ao longe ela que não via o cais, e percebeu o quanto andara após descer do barco. Não tinha notado que fora tão longe, não em seu atual estado de espirito desde que deixara a enfermaria de Azkaban naquela tarde.

Qual era ele? Não lhe vinha um nome. Como se chama, quando o seu peito quer explodir em quinhentos pedaços para dentro e para fora?

Como se chama, quando há calor e frio brigando dentro de você, querendo lhe corroer ao mesmo tempo em que derrete o mundo?

Como se chama, sentir que se esticar os braços pode até mesmo voar, de tão acelerada que está a sua alma?

Os livros estavam todos errados, Bervely notou. O que sabiam os livros? Ela pegou a sua varinha do bolso, a sua varinha, e a brandiu na direção da faixa de areia, sentindo a energia fluir. “Se concentre em sua memória mais feliz”, diziam os livros.


Ela não tinha uma memória, mas tinha um sentimento queimando. E não era feliz, não exatamente, como poderia ser, vindo de onde vinha?


Tinha feito o favor solicitado por Theodor, atendido a lista de prisioneiros que precisavam de cuidados medibruxos aquele dia: uma tentativa de suicídio mau sucedida, uma bruxa que quebrara os dentes mordendo as grades, um rapaz recém admitido, que estava fazendo greve de fome…

E Black.

Um Black lúcido, eloquente.

Com um pleito.

Ela pensou naqueles últimos momentos, e em mais nada. Brandiu sua varinha, sabendo antes mesmo de liberar a magia que daquela vez ia conseguir.


Bervely brandiu sua varinha, sabendo antes mesmo de liberar a magia que daquela vez, ia conseguir.

– Expecto Patronum!

Foi tão luminoso que ardeu no fim da tarde, o feitiço que fluiu da ponta da sua varinha. Se transformou num enorme cão prateado de focinho comprido, orelhas pontudas e patas macias, que começou a correr pela areia em círculos, em torno de si.

(Continua…)

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Notas finais
Hello! Precisei fazer uma correção das datas dos últimos capítulos para adequar os acontecimentos ao canon de PdA. Basicamente atrasei tudo em uma semana, e não, isso não muda muita coisa pra vocês, mas achei melhor avisar de qualquer maneira. Bem, esse foi um capítulo cheio de coisas!! Vamos espantar a preguiça e comentar? Tem muita gente sumida, e desconfio que estão lendo nas entocas e sendo maus comigo! Vamos aparecer e deixar autora feliz, fantasminhas! Ah, as Sherlocks de plantão, sinto muito cheiro de especulação hoje no whah's app :P =) *.* ;* P.S. IMPORTANTE: Fiz um acréscimo nesse capítulo (dia 28/09) para tornar a última cena mais clara! Foi pouca coisa, mas acredito que fará diferença para a compreensão de como a Bervely conseguiu enfim conjurar o seu patrono corpóreo. O que foi acrescentado está em negrito, aqui bem no finalzinho!!