Indigna Rosa Negra

29 A Rosa e a Caixa de Memórias


Notas iniciais
Estou devastada. Sumiram quatro comentários de Indigna. Não sei quais, só sei que ontem eu tinha 400 e hoje tenho 396. Vocês estão apagando comentários?? Não façam isso com meu coração! (Estou querendo crer que isso é coisa do Nyah, bugs loucos, mas se não... não apaguem, proibido apagar, feio, feio!) Sei que o capítulos está atrasado. Ninguém se perturba mais do que eu quando isso acontece, feriados são a treva, especialmente aqueles em que preciso socializar ao invés de ficar em casa escrevendo. Sem mais, vão ler, boa leitura! PS: Coloquem pra tocar Kiss The Girl, versão por Lennon and Maisy no youtube. Não precisa colocar no repeat mais de uma vez, é só para as primeiras cenas.



There you see her
(Ali você a vê)

Sitting there across the way
(Sentada do outro lado)

She don't got a lot to say
(Ela não tem muito a dizer)

But there's something about her
(Mas existe algo sobre ela)

And you don't know why
(E você não sabe porquê)

But you're dying to try
(Mas você morre de vontade de tentar)

Era a terceira vez consecutiva que acordava cedo num sábado, mas ao contrário dos dois últimos, naquele o dia mal amanhecera quando pulou da cama. Pegou a primeira roupa quente que viu pela frente (por acaso era um blusão amarelo canário que só podia estar no seu malão por engano, pois gritava Nimphadora Tonks à quem quisesse ouvir) e desceu se arrastando para o Salão Comunal. Felizmente os elfos de Hogwarts acordavam cedo, ou a preguiça ia ser alimentada pela sua barriga vazia e o resto do dia seria uma ruína completa.

Como previu, o Salão Comunal estava quase vazio. A mesa da lufa-lufa, mais próxima da porta, estava completamente deserta. Alguns corvinais tinham caras enfiadas em livros enquanto mastigavam, ou comiam rápido para irem enfiar as caras em livros na biblioteca, nenhuma surpresa aí.

Na mesa dos leões, do lado oposto do salão, um grupinho mastigava seu café com cara de sono; o time de quadribol, reconheceu, vendo as inconfundíveis cabeças vermelhas dos gemeos Weasley, e avistando Wood de relance. Ele a viu também e fez um breve comprimento, ao que ela franziu as sobrancelhas para ele ligeiramente, lançando um olhar significativo para o resto do time e meneando a cabeça. Ele iria entender, já que na reunião do Clube de Voo da semana anterior ela o chamara de Capitão Carrasco, por fazer o seu time treinar tão duramente que eles cairiam de exaustão antes mesmo do segundo jogo da temporada. Wood respondeu com um sorriso breve, mas se voltou rápido para outro integrante do time, desviando o olhar.

Não era a única preocupada em manter as interações ao mínimo quando estavam em público, afinal de contas. Provavelmente Olivio fingia para o seu time de quadribol que estava sendo obrigado a trabalhar com ela do Clube de Voo por causa da exigência multicasas, e devia até acrescentar como era irritante, arrogante e ridícula ao se recusar a voar.

Distraída, Bervely não notou a única outra integrante da sua própria mesa até estar perto demais para mudar a rota. Mas Tara também não a notara; estava compenetrada na arquitetura de uma torre de donuts, tanto que tinha um vinco entre as suas sobrancelhas finas. Havia outras coisas notáveis sobre ela naquela manhã; usava um velho suéter lilás de lã com um aplique de uma rena sobre o peito, e o cabelo fora preso de qualquer jeito no topo da cabeça; cachos rebeldes escapavam do nó.

O cabelo preso destacava as covas do seu rosto fino, principalmente daquele ângulo. Era um traço que Bervely sempre admirara nela, desde que seu rosto fora amadurecendo e se alongando por volta dos treze anos, mas um detalhe que pouco se via quando o cabelo estava solto. Sob os olhos verdes, olheiras sutis que poderiam ser meras sombras. Era muito raro para Tara ter marcas de cansaço, e isso só podia significar que algo estava tirando muito seriamente o seu sono.

Sua longa observação, que para alguém de fora poderia ser confundida com indecisão a respeito de onde se sentar, não chamou a atenção de Tara. Ela tinha empilhado os donuts por ordem de tamanho, do maior para o menor, e agora procurava um pequeno para o topo.

Kransekake — disse Bervely, sentando-se por fim ao lado da colega, após convencer a si mesma que não tinha porque procurar outro lugar quando os bolinhos de canela e o chocolate quente estavam bem ali na frente.

— Hum? — murmurou Holmes sem olhar. Claramente a vira pela sua visão periférica antes.

— Você está fazendo kransekake. Ou uma péssima desculpa de um.

— Você saberia identificar, não é? — rebateu num tom vagamente sugestivo, puxando a bandeja de donuts para analisar um por um mais a fundo.

— Você também.

A ruiva deu um sorriso mínimo. Aquela era sua sobremesa preferida em Durmstrang, mas só a serviam poucas vezes por ano. Dia das bruxas e natal, às vezes quando alguém fazia aniversário. Por isso, certa vez elas tinham tentado conseguir os ingredientes para fazer um dentro do dormitório às escondidas, e foram severamente punidas; contrabando de doce era levado muito à sério na sua antiga escola.

— Qual a ocasião especial? — arriscou perguntar. Tara demorou tanto de responder que Bervely pensou que a garota se lembrara que ali em Hogwarts elas supostamente se odiavam.

— Nenhuma. Mas era isso ou cometer assassinato, e eu ouvi dizer que a segunda opção vai de encontro com o que se espera da minha postura de monitora chefe.

— É. Sinto muito por isso — ironizou.

Pegou dois bolinhos fofos e encheu sua caneca, vendo pelo canto de olho Tara sacar a varinha e fazer um feitiço de encolhimento no ultimo donut, o colocando no topo, e depois ficar contemplando para a sua obra de arte em.

— Você sente falta? — ela perguntou de repente. Bervely demorou para perceber que a menina ainda falava com ela, e não com a sobremesa improvisada.

— De krasenkake?

— Não. De Durmstrang.

Há tempos não pensava nisso. Quando começara em Hogwarts em seu quinto ano Bervely tinha sentido o impacto das diferenças entre as duas escolas, mas acabou se acostumando rápido. Numa retrospectiva, via que isso fazia sentido, afinal ela nascera e fora criada na Grã Bretanha, e Hogwarts era o reflexo dos costumes e rotinas provenientes das famílias bruxas tradicionais.

Sendo Tara filha do leste europeu, não devia funcionar da mesma maneira para ela, apesar de em nenhum momento ela ter deixado transparecer que a sua vida em Hogwarts era nada menos que ótima.

— Não realmente. – admitiu por fim – Não de Durmstrang, como escola. Certamente não daquele frio satânico que nenhuma lareira podia dar fim.

— Eu sinto falta do frio. — admitiu a ruiva pensativamente.

— Isso é porque você é gelada por dentro. — debochou, alcançando maximellos para jogar no próprio chocolate. O estado de humor melancólico de Tara era uma novidade com a qual não esperara lidar aquela manhã. Não lidava com seus humores fazia muito tempo.

— Me parece que não importa o quanto eu me esforce aqui, as coisas sempre vão de mal a pior. — murmurou. Continuava a falar com a pilha de donuts, então não viu as sobrancelhas de Bervely se erguerem ceticamente.

— Ficou louca? Você é monitora-chefe estando no sexto ano, suas notas são ridiculamente boas e a sonserina inteira beija a sola do seu sapato se você pedir. Você não sabe o que é ter problemas, Romansek. — como toda a reação de Tara foi um longo suspiro, Bervely largou irritadamente a metade do seu bolinho para encará-la — Ah, pelo amor de Merlin, isso não é ainda sobre o Weasley, é? Pensei que tínhamos chegado à conclusão de que ele é um babaca.

Tara abriu a boca para falar alguma coisa, mas foi interrompida por duas corujas idênticas que pararam em frente à ambas e entregaram cartas igualmente idênticas; tinham o selo do Ministério e aparência oficial, o que causou um arrepio de nervosismo à Bervely, apesar de não fazer ideia do que se tratavam.

— Finalmente! — disse a colega, no entanto — A confirmação da inscrição para o curso de Aparatação! Pensei que não ia chegar nunca. Olha, as aulas começam no próximo sábado... Uh, e vão até abril. Como se a gente não tivesse coisa o suficiente para dar conta nos fins de semana...

Bervely abriu a própria, só para constatar que se tratava do mesmo documento; o não fazia o menor sentido.

— Que foi?

— Deve haver algum erro — comentou, virando o verso do pergaminho para ver se tinha alguma observação adicional — Eu não me inscrevi para esse curso.

— Como não? Todo mundo sabe que é uma péssima ideia se formar sem saber aparatar, ninguém leva você a sério se não souber, por que você não se inscreveria?

— Não importa — evadiu-se. Preferia comer aquela pilha de donuts gorduroso a admitir que não tinha doze galeões. — Eu vou matar Tonks, aquela linguaruda infeliz.

Tara lhe olhava com uma cara estranha

— Você tem mesmo uns sérios problemas com demonstrar a própria gratidão, não tem, Black?

Não precisou responder, pois uma segunda coruja, essa muito maior e imponente, pousou na mesa. As garras cintilaram, metálicas e afiadas, quando estendeu a pata para a remetente.

— Hey, Wy — cumprimentou sua dona — obrigada por isso. Quer um donut?

Mas a coruja tomou o caminho contrário e veio bicar no prato de Bervely. Ela ficou olhando, chocada, todo o seu café da manhã ser destroçado pelo bico metálico da ave, até que não sobrou nada a não ser farelos.

— Isso é ótimo, realmente, Wyvern... Pássaro mau! Fora do meu prato, fora!

— Eu não acredito que ele ainda implica com você — disse Tara distraída, desenrolando o pergaminho com uma mão e afagando a cabeça do bicho com outra — Nem sabia que ele se lembrava.

— Espirito vingativo. — resmungou, empurrando o prato pra longe e olhando feio para o pássaro. Mas logo percebeu que a carta devia trazer más notícias, pois a expressão da ruiva se fechou, e o vinco entre suas sobrancelhas ressurgiu mais fundo. — Que foi?

— Nada. Preciso ir.

— Não me diga que vai abandonar essa maravilha de krasenkake para trás?

Mas Tara nem respondeu, já tinha dado meia volta e andava em direção à saída. Bervely encarou a torre de donuts, subitamente irritada. Precisava se lembrar de ficar longe de Holmes, porque do mesmo modo que queria matá-la quando ela estava no modo princesa do mal, deixava para trás sensações estranhas quando voltava a ser a Tara com quem convivera em Durmstrang.

Não podia ficar lidando com rebuliços em seu estômago que não sabia identificar, a sua vida vida, afinal, já estava rebulida o suficiente. Com um silvo irritado se levantou também, rumo aos terrenos externos, a pretenção de melhorar a seu humor matinal com um bom café da manhã agora completamente arruinada.

— BD —

— Elas estão bem danadinhas, especialmente agora que a primeira dentição está caindo. É bom dar uma ajudinha com isso já que temos pressa, eu vou ensinar exatamente a técnica, se certifique de estar com as luvas o tempo todo, você não quer ter suas mãos corroídas e bem, especialmente os abafadores... Pode colocar, isso mesmo...

Bervely encaixou os abafadores de ouvido na cabeça e o mundo ficou silencioso, apesar da boca da professora Sprout continuar se movendo. Estava na estufa três, e a razão pela qual acordara tão cedo no sábado fora justamente aquela: a professora de Herbologia precisava de ajuda com as mandrágoras, pedira uma indicação à Snape, e ele indicara à ela, Bervely.

Se aborrecera um pouco por não ter sido consultada com antecedência, mas não podia negar que estava curiosa. Em Durmstrang, só tinha trabalhado com mandrágoras filhotes, pois depois disso elas ficavam muito perigosas, e aquelas estavam quase adolescentes. Quanto mais rápido trocassem completamente a dentição elas passariam para a sua próxima fase de vida, e quando estivessem finalmente adultas iam servir para preparar a poção de despetrificação, a qual traria de volta as pessoas petrificadas na enfermaria.

Bervely tentava se concentrar no seu trabalho ali e esquecer sobre a Poção da Despetrificação. Nunca tivera a chance de preparar uma, e jamais teria, até onde soubesse. Onde mais, após Hogwarts, acharia mandrágoras frescas como aquelas?

A professora Sprout cavou a terra em uma das plantas enterradas nos grandes vasos de cerâmica. Uma vez com a cabeça coberta, a coisa começou a emitir gritos completamente inaudíveis para Bervely. Obedecendo o aceno da professora, se aproximou cautelosamente e observou a técnica, que basicamente consistia em testas dente por dente e extrair com a varinha aqueles que já estivessem moles. Fácil falar, mas difícil de fazer; a planta odiava a intromissão em sua boca e deixava isso bem claro tentando arrancar os dedos intrusos.

Passou a primeira hora tendo os dedos mastigados, e logo ficou claro que as luvas eram praticamente inúteis contra as presas tão duras quanto madeira. Não espantava que aquela fosse uma das espécies mais odiadas da herbologia.

Logo descobriu que, colocando os seus dedos dos dois lados do queixo da coisa ela não conseguia fechar a boca, e a tarefa ficou mais simples. Isso até elas começarem a desenvolver outro jeito de tentar lhe afastar: chicoteando qualquer parte sua ao alcance com os galhos nodosos.

No final da segunda hora, Bervely fora açoitada e mastigada o bastante para uma vida inteira, mas tinha uma coleção orgulhosa de dentes tortos numa caixinha e pensou que poderia fazer um colar de guerra com eles. A prof. Sprout entrou na estufa e acenou para ela, que enterrou a cabeça da última das criaturas bem enterrada antes de arrancar os abafadores e sair para a a manhã úmida.

— Ótimo trabalho, Srta. Black! — elogiou ao ver a caixinha cheia — agora, um aluno se ofereceu para ajudar, foi bem corajoso da parte dele eu penso, mas não sei se seria indicado para a tarefa, sabe, ele pode ser um pouco destrambelhado... Tivemos um probleminha quando trabalhou com as mandrágoras pela primeira vez. Ah, ai está ele.

Um menino gordinho da Grifinória se aproximava abafado. Bervely demorou um pouco para reconhecê-lo, mas a recíproca não foi verdadeira. Ele a identificou imediatamente,

— Esse é Longbotton, Longbotton essa é a Srta. Black, ela vai liderar os cuidados com as mandrágoras a partir de agora.

Neville tinha puro horror em sua face, enquanto para Bervely a sensação era de que acabara de fazer algo errado, mesmo que não tivesse. O jeito com que ele lhe olhava...

— Sr. Longbotton? Algum problema?

— Eu preciso... Eu preciso... Desculpe!

Ele virou e foi embora. Correndo. A professora Sprout piscou toda confusa.

— Minha nossa, o que será que deu nele?

Bervely deu de ombros, um aperto firme em seu estômago e o coração aos pulos. Nunca, ninguém olhara para ela daquele jeito, mas sabia muito bem o que dera em Neville Longbotton ao ver a filha da algoz dos seus pais novamente.

Medo. Ele tinha medo dela.

— BD —

Não muito longe dali, no campo de quadribol, Oliver Wood não parava de lançar olhares ansiosos em direção ao castelo.

— Tenho certeza que ela vem. — disse um voz ao seu lado, e ele olhou para qual dos pequenos falara. Loren lhe sorriu de volta, enquanto colocava o equipamento de segurança para voar.

— Ela quem? — ele se fez de desentendido.

Loren rolou os olhos.

— A monitora Black, óbvio.

— É claro que ela vem. Ela só está atrasada, mas ela vem — disfarçou, passando a mão no cabelo que já estava meio bagunçado — Ela avisaria se não viesse, afinal de contas.

— Deve ter dormido além da conta — bocejou Ida, se intrometendo na conversa — eu mesma quase não levanto da cama, mas lembrei que a gente vai treinar o looping hoje! Pode fechar o meu capacete por favor, professor Wood?

— Pode me chamar de Oliver, Ida. — ele riu, a ajudando com a fivela — Não sou seu professor, lembra?

A lufa-lufa se afastou para ir escolher uma vassoura, depois de dar um sorriso amarelo. A maioria dos outros integrantes estavam se preparando para subir, mas Loren se sentara no banco de reservas com Oliver; aparentemente alguém tinha colocado errado os cadarços da sua bota e ela teve de parar para corrigí-los.

— Apenas chame ela pra sair,

— O quê? — voltou-se, distraído. No horizonte nenhum sinal de Bervely, apesar de saber que ela se levantara tão cedo quanto ele aquela manhã. Tivera até uma esperança vã de que a garota ia aparecer um pouco mais cedo e assistir o seu treino com o time.

— Chame ela pra sair! O dia dos namorados está chegando.

— Não posso chamar ela pra sair no dia dos namorados! — exclamou, chocado.

— Por que não?

— Não sou o namorado dela! — disse num tom óbvio.

— Mas quer ser, não quer? — disse a menininha com um sorriso esperto. Ele estreitou os olhos para a primeiranista.

— Melhor se preocupar em ir escolher a sua vassoura, não acha não? — ele viu um movimento pela sua visão periférica, e constatou que era Black, chegando pela direção oposta a do castelo. — Ah, ai está ela! Prontos para subir? É melhor estarem, você também, Loren!

A menina pulou do banco, rindo.

— Apenas chame ela pra sair, bobão! — murmurou entre os dentes, antes de ir se juntar aos outros. Lançou um olhar fuzilante para ela, mas foi tudo que pode fazer porque Black estava muito perto agora.

— Bom dia, Black... Minha nossa, você está horrível, o que aconteceu?

— Vá pentear um grindylow, Wood. — resmungou, passando direto por ele e se sentando dura no banco. Sua aparência era de quem tinha entrado numa briga com uma floresta inteira.

— É — ele murmurou baixinho para si mesmo, achando melhor não cutucar a fera – é bom ver você também, Black.

— BD —

— O que você, hum, vai fazer na sexta que vem?

Ela lhe deu um dos seus olhares, mais especificamente, aquele que ele apelidara de "com esse olhar congelarei sua alma". Seu humor não se modificara nem um pouco ao longo do treino de voo, e mal ele terminara, Bervely tinha saltado do banco e recolhido as suas coisas, pronta para ir embora.

A única razão para Oliver tomar coragem de ir atrás dela foi o olhar sugestivo que Loren tinha lhe enviado, uma versão silenciosa de "não seja um grande boboca". Na verdade, elas duas eram muito parecidas no quesito ‘dizer coisa inteiras usando um mero relance’.

— Eu não sei, Wood, pesca de sereia? O que mais eu poderia fazer numa sexta-feira de aulas?

— Ah, não te contaram? Vai ter uma grande mobilização em homenagem a, uh, a data comemorativa da próxima sexta feira aqui na escola. Uma coisa e tanto que Lockhart está organizando.

— Sexta é data comemorativa? — franziu, vaga. — Eu não saberia, não tenho aula com aquela desculpa patética de professor.

— É, pois é. Os alunos a partir do quarto ano até foram autorizados a dar um pulo à Hogsmeade para comemorar. À tarde, depois das aulas.

Bervely lhe olhou com interesse renovado.

— Tem Hogsmeade na sexta?

— É o que parece. E eu achei que a gente podia se ver lá, ou algo assim.

— Hogsmeade na sexta... eu preciso ir, Wood. Até mais.

— Espera! — ele se afobou, e ela virou a cabeça a caminho do castelo, apressada.

— O quê? — perguntou com impaciência.

— Então, nos vemos lá? Sexta?

— É, provavelmente... — disse distraída, logo sumindo de vista na ondulação do gramado. Loren se aproximou dele sorrateiramente, e Wood se deu conta que ela estivera ouvindo tudo, a pequena abelhuda.

— Se isso foi a sua ideia de um convite para um encontro, foi bem patética.

— Eu sei — precisou admitir, arrasado, fitando a direção na qual Black fora embora — Será que ela entendeu?

— Honestamente? Eu te desejo boa sorte...


Sha la la la la la

My oh my
(Oh, meu Deus)


Look like the boy too shy
(Parece que o garoto é muito tímido)


Ain't gonna kiss the girl
(Não vai beijar a garota)


Sha la la la la la


Ain't that sad?
(Não é triste?)


Ain't it a shame?
(Não é uma vergonha)


Too bad, you gonna miss the girl
(Que pena, você vai perder a garota)

— BD —

— Sua pequena linguaruda, eu devia arrancar a sua cabeça fora por essa traição! — exclamou Bervely, entrando de vez na sala de treino. Tonks pulou de susto, colocando a mão no peito.

— O quê? O que eu fiz? Não fui eu, eu juro, e se fui, eu sou sonâmbula!

— Cala a boca! Você pediu dinheiro pra a sua mãe pra pagar meu curso de aparatação! — acusou, batendo a sua confirmação de inscrição na mesa. Tonks se inclinou para aquilo como quem olha para um alien verde.

— Eu juro que não! Não falo com mamãe desde que voltamos. Hey, espera. Quem mais pagaria o seu curso de aparatação? Isso é estranho.

— Não sei — silvou, cerrando os olhos com irritação. Mas era mentira, acabara de formular uma nova suspeita. A parte boa era que não precisava mais ficar zangada com a lufa-lufa — escuta, já que não foi você... Pode me emprestar um dinheiro?

— Outro, né? — ela sorriu divertida — Claro, prima.

— Mas não conte pra a sua mãe. — completou séria.

— Não sou fofoqueira, sabe? Que mania de todo mundo achar que só porque eu falo demais eu sou fofoqueira!

— Essa é meio que a marca registrada da classe das fofoqueiras. — pontuou com coerência. Tonks fez uma careta.

— Não me encha o saco, ou te deixo pobre pra o dia dos namorados. Ah, não faça essa cara, pra que mais seria? — rolou os olhos — Seu segredo está bem guardado comigo, minha cara B.

— Você acreditar nisso já é um passo à frente — suspirou. — Mas e ai, qual o módulo de hoje?

— Duelos. Estou tentando aprender um feitiço louco, se chama Impenetrae, já ouviu falar?

Bervely negou, aceitando um livro texto e se entretendo pelo resto da tarde com o treino prático, embora somente metade dela estivesse engajada na atividade. A outra, sabia bem, não teria paz ou sossego até a sexta feira.

— BD —


Seis dias mais tarde – Dias dos Namorados.

O que quer que acontecesse, no final do dia ela não seria a mesma pessoa que era agora.

Tinha certeza disso como tivera poucas vezes na vida. Um peso na boca do estômago a acompanhou o dia todo, impedindo-a de fazer qualquer refeição decente. Logo depois de mais uma terrível aula de poções onde tudo que fez foi assistir em silêncio a turma arruinar um Elixir de Afinação, largou o material no dormitório e trocou sua roupa.

Deu sorte que nenhuma das colegas estava ali ainda; não as queria perguntando o que ia fazer aquela tarde. Vestiu uma calça grossa, botas de cano longo e uma jaqueta marrom escura que não fazia parte do seu guarda roupa habitual, pois fora presente de Tonks no seu último aniversário. Apesar do forro ser desnecessariamente verde, pelo menos era quente, e o couro, impermeável.

Conseguiu atravessar os corredores sem chamar muita atenção, pois a escola estava um alvoroço. Alguém tinha deixado o prof. Lockhart empestear o Salão Principal com flores cor de rosa e confete de coração, as a pior parte eram os anões vestidos de cupido, entregando bilhetinhos pela escola inteira. Um deles tentara se infiltrar na aula de Snape, e o professor ameaçara afogá-lo no caldeirão.

— Aqui, Srta. Black! Você tem um cartão.

— Eu não quero um cartão — rosnou para a coisa de asas postiças, olhando para o lado para ver se alguém estava prestando atenção — entregue para outra pessoa!

— Mas é seu!

— Infernos — murmurou, parando atrás de uma pilastra para receber sua penitencia. Tinha visto Potter tentar negar um cartão mais cedo e servir de mote para o que provavelmente fora a cena mais constrangedora da sua vida — me dá essa droga aqui.

— Feliz dia dos namorados! — ele exclamou esganiçado. Bervely enfiou o cartão no bolso sem ler e retomou seu caminho até a área externa do castelo. Por questões de segurança, e também porque chovia píncaros, a escola tinha disponibilizado as carruagens arrastadas pelos testrálios para levá-los até o vilarejo.

Seu peito deu uma pontada quando notou que agora era capaz de ver os magros cavalos negros. Mas não podia se permitir refletir sobre aquilo, então entrou numa das carruagens sem olhar mais uma vez para os animais, soltando a respiração apenas quando a porta se fechou.

Dali a vinte minutos estava no Cabeça do Javali. Não ia encontrar ninguém de Hogwarts naquele bar acabado, afinal o lugar era o que havia de menos propício para matar o tempo livre. No lugar disso, enfiou-se discretamente no banheiro que, como o resto do bar, tinha um cheiro forte de bode.

— Certo. — falou para o reflexo, ciente de que os monólogos em voz alta estavam virando um habito — Concentre-se, agora.

Treinada durante a semana, mas a cada vez que provocava a transformação era uma surpresa. Principalmente porque funcionava. A pele de seu rosto se modificou, os traços se alongando e aprofundando. A sugestão vaga de linhas de expressão apareceu no canto dos olhos. Logo, estava olhando para uma versão mais velha dela mesma.

Desconfortável com a impressão que aquela Bervely mais velha lhe causava, desviou os olhos no espelho e deixou o banheiro. Se encostou ao balcão, onde o dono do bar, um bruxo de barba embaraçada e olhos azuis muito profundos, esfregava um copo.

— Preciso usar a sua lareira.

O bruxo olhou desconfiado para ela.

— Eu conheço você de algum lugar?

— Dificilmente, só estou de passagem.

Não olhou uma segunda vez.

— São sete galeões. O flú está no pote. Só ida, nada de volta.

Assentiu, entregando as moedas para ele e achando ironia naquelas palavras. Definiam bem como se sentia a respeito da empreitada…

"Só ida para quem era agora. Quem sabe quem seria, quando voltasse?"

— BD —

Leree Street com Albert Avenue, n° 47. Apto. 212.

Não era muita informação para quem tinha pouquíssima experiência em andar pelo mundo trouxa, mas ela deu seu jeito. Talvez fosse mais fácil pegar a serpente mecânica subterrânea dos trouxas, mas não confiava naquela coisa, então acabou caminhando os trinta minutos que separavam o Caldeirão Furado do endereço que Wood lhe dera.

O apartamento foi mais difícil, pelo menos até ela descobrir a lógica da numeração e entender que não, naquele pequeno prédio os trouxas não tinham conseguido enfiar duzentos e doze apartamentos. Subiu pelas escadas e antes que estivesse preparada, encarava a porta marcada com o número 212.

O que ia fazer, bater e, quando alguém abrisse, se apresentar? Se sentiu imediatamente estúpida sem um plano, pelo menos até se lembrar de que não precisava de um. Ora, era Loren quem tinha que se explicar, escondida por anos no mundo trouxa enquanto sua filha morava com uma avó que, até onde entendera, era uma megera ditadora da pior espécie. E se Black estivesse lá...

Bem, ai havia ainda mais para ser explicado. Com a varinha segura na mão apesar de estar em território trouxa, fechou o punho e respirou fundo.

Toc, toc, toc.

Não precisava ter se preocupado, no entanto. Ninguém atendeu a porta nos quase dez minutos que bateu e esperou. Eventualmente, o vizinho do 210 enfiou a cara para fora e analisou de cima a baixo, franzindo o nariz.

— Não tem ninguém ai, minha senhora. Quer deixar um recado? Posso entregar quando alguém aparecer.

Ela atrapalhou-se para esconder a varinha na manga da jaqueta.

— Ahh... Não, tudo bem. Acha que vão demorar?

— Não sei. Não fico vigiando a vida alheia — completou, de repente ofendido — eu não saberia o horário dos outros, saberia? Ora, mais! Boa tarde!

E fechou a porta. Trouxas estranhos, pensou, intrigada. Supunha que uma casa de bruxos tinha proteções mágicas, mesmo num prédio trouxa, e estava bem ciente de que qualquer feitiço que fizesse ali poderia alertar o Ministério para magia indevida em território trouxa. Tudo que não precisava era uma esquadra de aurores vindo atrás dela porque estava ameaçando o sigilo da comunidade bruxa.

Felizmente, a observação que fizera do prédio antes de subir a ajudou a formar um plano B. Saindo do apartamento, deu a volta na construção, achou a janela certa e subiu as escadas de incêndio. Tirou do bolso um potinho que tinha um dos líquidos mais nojentos da história dos ingredientes: saliva de mandrágora. Não fora muito difícil recolhê-la durante a última semana, a julgar pela quantidade de tempo que tinha passado com a mão enfiada em suas bocas, e pensara certo ao julgar que o líquido lhe teria uma utilidade futura.

No momento em que despejou a gosma no vidro da janela, este começou a ser corroído. Bervely sorriu para a passagem aberta; uma das coisas que amava sobre poções era que, diferente de feitiços, eram irrastreaveis.

Um impulso através da esquadrilha, e estava dentro.

Encontrou uma sala pouco iluminada de um apartamento que era completamente trouxa à primeira vista. Havia um sofá antiquado, mas conservado, o papel de parede amarelado, as cortinas pendendo desbotadas do suporte. O apartamento parecia mais que vazio – inabitado, diria. Ou não era ocupado há um longo tempo, ou quem o usava fazia um esforço particular para não deixar suas marcas.

O chão era coberto por um tapete fofo; precisou olhar duas vezes para perceber que eram hipogrifos pastando num campo verde, embora eles quase não se movessem mais – feitiços como aquele se desgastavam se não eram reforçados de tempos em tempos. Uma prateleira lhe chamou atenção; vazia a não ser por um desenho feito a mão, emoldurado num quadro; uma moça jovem e vagamente familiar, segundo uma estrela na mão estendida. A assinatura dizia: Snuffles.

O resto do apartamento não impressionava muito; uma cozinha pequena, um banheiro, dois quartos. O primeiro, à direita do corredor, tinha a porta apenas encostada. Assim que entrou nele, varinha em punho para qualquer eventualidade, percebeu que fora feito para uma criança; caminha de dossel, paredes lilás claro, um desgastado feitiço galáxia no teto, piscando tristemente. No canto, um pequeno unicórnio de madeira, deitado sobre as patas como que adormecido.

Alguém pegara um monte de rabiscos infantis e fizera quadros com eles, espalhando-os pela parede oposta à cama. Feitos de giz encantado, se moviam de forma aleatória; eram muito precários, feitos por alguém que não tinha controle motor desenvolvido. Se aproximou para ver as notas nas bordas.

Anne, 12 de março de 1981: “Peixe”. Anne, 28 de junho de 1981, “Totó”. Anne, 17 de outubro de 1981, “Papai”.

Desviou os olhos, se sentindo um pouco nauseada. “Anne” era um apelido para Johanne? De acordo com aquelas datas, Johanne devia ter um ano ou menos quando os desenhara. Porque alguém que abandonou a própria filha se preocuparia em guardá-los, ou mesmo manter o seu quarto intacto, e por tantos anos?

Era macabro, mais ou menos como nunca desmontar um quarto de alguém que morreu.

O outro quarto era de casal, e encontrou a porta fechada, mas sem tranca. Havia uma cama meticulosamente arrumada, cortinas cerradas e um cheiro mais intenso e abafado no ar, como se não fosse arejado quase nunca. O guarda roupa, de olmo muito sóbrio, ocupava toda a parede do lado esquerdo.

Não estava trancado, e na primeira e segunda parte havia roupa de cama em sacos lacrados. Na terceira, um monte de roupas masculinas que claramente pertenciam à algumas décadas atrás. Nos cabides, no entanto, havia uma coleção interessante de jaquetas de couro. Algo que alguém como Gui Weasley apreciaria…

Então o palpite de Wood estava certo, Black estava, ou pelo menos estivera ali em algum momento, morando com Loren?

Distraída, passou as mãos por elas e pegou a mais desgastada. O couro permanecia firme macio sob o toque, e imaginou aquele bruxo que não tinha rosto, mas que era muito provavelmente o homem que a colocara no mundo, usando-a. Não se enquadrava muito na premissa de vestimenta da nobreza bruxa, mas então, Black era um traidor… aparentemente isso se estendia à sua indumentária.

É claro que ela própria estava usando uma jaqueta, mas só a colocara porque era a coisa mais trouxa que tinha no seu guarda-roupas. Ia devolver a peça de roupa ao cabide quando percebeu, no fundo do guarda-roupas, uma caixinha de madeira do tamanho aproximado de sua palma. A tampa chamou a sua atenção, pois era talhada com o desenho de uma árvore que lhe pareceu familiar.

A pegou, para averiguar mais de perto a arte delicada da tampa, e achou inscrições logo abaixo do desenho, na mesma caligrafia sinuosa que identificara os desenhos da criança do outro quarto:

“Quando precisar de força, procure no amor. Mane.”

“Mane”
não era o nome de ninguém que conhecia, e julgou a frase um tanto piegas, mas a curiosidade venceu e Bervely abriu a caixinha para averiguar o seu conteúdo. Era, para seu desapontamento, um monte de folhas secas.

O que aquilo devia significar? Força e amor e folhas? Seria aquele algum ingrediente para uma poção? Só quando relacionou o desenho da tampa às folhas é que percebeu: aquela era uma Árvore da Memória como a que vira no topo de Stoatshead Hill, e aquelas folhas provavelmente continham as memórias de alguém. Será que ainda funcionariam, tão antigas quanto se pareciam?

Descobriu no momento que as tocou. Uma série de imagens borradas invadiram sua mente, lembranças antigas e intrusas de outra pessoa.

Uma mulher jovem e com medo em seus olhos. De frente para ela, o rosto nas sombras, um rapaz alto com uma das jaquetas de couro, os ombros tensos.

– Me desculpe por não ter lhe dito antes… eu estou grávida. Eu sinto muito, sei que é completamente fora de hora…

Ele posou um dedo sobre os lábios dela.

– Não fale asneiras. Nós vamos fazer dar certo.

O rosto da mulher cresceu numa alegria pura.

– Você jura?

– É claro, Mane. Quando vai enfiar nessa cabeça dura que eu falo sério quando digo que sejamos uma família?


O mesmo casal, dessa vez na beira de um lago de superfície lisa como um espelho. A garota tem suas vestes puxadas para cima, mostrando uma barriga redonda e avantajada. Está com a cabeça deitada no colo dele, que se inclina para correr os dedos pelo seu estômago.

– Isso faz cócegas! – gargalha ela, sem no entanto fazer qualquer movimento para impedí-lo.

– Acha que faz nela também?

– Sirius! Você está tentando acordar o bebê? Não seja pirracento!

De repente ele tira a mão como se tivesse levado um choque. Seu cabelo é longo e cai em seu rosto, ocultando-lhe as feições, mas ele mostra surpresa com o corpo todo.

– Ela mexeu! Ela mexeu!

– É claro que mexeu, você não a deixa dormir! E quem disse que é uma “ela”?



Um quarto escuro, forrado com madeira, onde a mulher deitada na cama está tentando se manter acordada, mas parece exausta. Há um berço perto dela, com um embrulhinho minúsculo. A porta se abre de supetão e entra a luz, junto com o contorno do rapaz em roupas de viagem. Ele está agoniado e culpado.

– Mane, eu sinto
tanto, eu vim o mais rápido que pude!

– Não se preocupe com isso – sorriu tranquilizadora. Havia alívio e felicidade em vê-lo. – Sophia esteve comigo o tempo todo. Você está bem?

– Eu vou ficar quando vê-la – garantiu, se aproximando ansiosamente do berço. Para ajudá-lo, a moça afasta o lençol, mostrando a cabecinha redonda e enrugada do recém-nascido.

O rosto dele se enche de puro amor. Quando se senta na ponta da cama, sabe que o centro de sua vida acabou de mudar, passa a gravitar em torno daquele pequeno ser, pouco maior que a palma da sua mão. A partir daquele momento, moverá o universo inteiro por ela, se preciso for.

– Eu disse que era uma menina. – murmura, rouco. A moça ri, ao ver que ele está chorando.

– Você fala do James, mas já estou vendo que vai ser o pai mais bobão do mundo.

– Não é culpa minha – ele se defende sem grande afinco. – Você já viu alguma coisa mais linda no mundo?


Ele está estirado em uma cama, sem camisa, e a bebê está esparramada em seu peito. Impossível dizer quem, naquele momento, se encontra mais entregue ao sono; ambos ressonam tranquilamente. Uma das mãos grandes dele está pousada nas costas da pequena, protetoramente. Quando ela se move parecendo que vai acordar, ele arrasta a palma suavemente contra a sua pele, a acalentando, sem nem mesmo abrir os olhos.

A bebê volta a se acalmar, um sorriso dobrando a boquinha minúscula e cor de rosa.



Estão num jardim, e com passos incertos a pequena tenta cobrir o caminho até sua mãe, que a espera de braços abertos. Tropeça e quase cai, mas um focinho lhe apara, empurrando suavemente as suas costas.

O focinho é de um cachorro negro e enorme, facilmente três vezes o tamanho da garotinha. Ela não tem medo dele, pelo contrário; se agarra ao seu pelo e o usa como apoio para avançar até o seu destino.

A mãe a abraça e vibra quando ela chega. O cão lambe as duas, late e abana o rabo em torno dela, e a criança dá uma grande gargalhada para toda a algazarra.



– Você tem que prometer…

– Shii. Eu prometo. Vou estar de volta antes que percebam.

Mas há medo, novamente, nos olhos da jovem quando o abraça. Depois ele pega no colo a filha e cheira afetuosamente seu cabelo preto e liso que é idêntico ao dele.

– Eu amo você, Jojô. Cuide bem da sua mãe, ok?

A moça ri e rola os olhos, mas a expressão triste permanece.

– Sirius, vá logo, antes que eu desista de te deixar ir, infernos.

Ele assente, mas falar é mais fácil que cumprir. Soltar a filha em seus braços é uma das coisas mais difíceis que precisa fazer na vida.



– Babababababababababababaababaaa… – ela balbucia. Já se equilibra o bastante para correr em torno da casa, enquanto Sirius tenta alcançá-la desviando-se dos móveis.

– Johanne, vem aqui agora tomar seu remédio!

– Baaaaa!

– Obedece seu pai, Johanne!

– Papá!! Páaaa-pá!

Há um momento suspenso, de absoluto silêncio, enquanto pai e filha se encaram, até ele começar a gritar, alucinado.

– Você disse! Você disse! Mane, ELA DISSE, ELA ME CHAMOU DE PAI, ELA DISSE!



Solte.

Bervely sentiu um arrepio congelar a sua espinha diante da ordem vinda de trás de si. Ao abrir a mão e soltar as folhas o quarto entrou em foco novamente, mas estava de costas para a porta e sentiu que era uma má ideia fazer movimentos bruscos.

– Ponha a caixa na cama, solte a sua varinha e vire-se devagar.

Soube que estava sob a mira da varinha do dono da voz. Por um momento de grande pânico pensou que era ele, mas mesmo quando obedecia às instruções e se virava, percebeu a diferença entre a voz que acabara de ouvir nas memórias e a do homem que a flagrara ali.

Definitivamente não era Black, constatou. Era mais baixo, tinha o cabelo castanho grisalho e roupas rotas, inclusive um tweed cor de palha que vira dias melhores. Lhe chamou atenção o número de cicatrizes claras em seu rosto e pescoço, algumas recentes. Apesar de no geral não ter uma postura ameaçadora, havia algo em seus olhos dourados que lhe alertava para não subestimá-lo. Isso, e um alarme, como se algo nela o perturbasse e, ao mesmo tempo, não pudesse fazer sentido.

Quem… como– impossível – ele titubeou, continuando a lhe ter sob a mira da varinha. Era engraçado, mas de alguma forma ele também não a subestimava, quase parecia com medo. – Quem é você?

Quando alguém invade a sua casa, você primeiro quer saber o porquê e o como, ou pelo menos era o que Bervely pensava. A não ser que ele também estivesse invadindo, o que não parecia tão improvável a julgar pelos estado de suas roupas; não se espantaria se o estranho fosse um invasor de propriedades abandonadas.

– Eu não sou ninguém – disse rispidamente. – Se não vai me azarar, é melhor tirar essa varinha da minha cara.

– Você se parece como ela – observou analiticamente, sem no entanto tirá-la da sua mira – e fala como ela, mas com certeza não cheira como ela.

– Ela quem? – irritou-se, achando-o rude e um pouco louco. Como assim, como ela cheirava?

– Uma pessoa desprezível e muito indesejada nesta casa, mas que jamais poderia estar aqui de verdade, já que está apodrecendo na prisão há um longo tempo. – ele rosnou, um brilho feroz crescendo em seus olhos.

– Ah.

Bervely quase se esquecera de que estava se aparentando como uma versão mais velha de si própria, e que se assemelhava perturbadamente com a sua mãe. O fato de aquele homem conhecer a sua mãe, por outro lado, era outra história e um grande choque.

– Quem é você? – ela exigiu.

O bruxo travou os seus maxilares, cada vez mais desconfiado.

– Visto que sou eu quem estou armado, considero que a minha pergunta tem certa prioridade.

Ela suspirou conformada. Não dava para combater a lógica certeira do bruxo.

– Eu sou Bervely Black. Esse seria o momento em que eu apertaria a sua mão, mas até onde eu sei você pode muito bem querer arrancá-la fora.

O estranho não apreciou o seu humor ácido, já que agora a encarava como se ela fosse o próprio Salazar Slytherin brotando de um livro das trevas bem diante dos seus olhos.

– Não, você não é… não pode ser… você deveria ter o que, uns dezesseis anos agora?

Completamente embasbacada, ela deixou que a sua aparência voltasse à forma original. O bruxo assistiu aquilo com surpresa, mas menos estranheza do que seria suposto.

– A filha de Bellatrix Lestrange – pontuou suspeitosamente – uma metamorfomaga?

– Como conhece a minha mãe?

Ele fez um ruído, tipo um riso carregado de humor negro.

– A sua mãe era bastante conhecida na minha época, e não de um jeito bom. Não pode me culpar por não confiar em você quando claramente invadiu esse apartamento e está suspeitosamente remexendo nas coisas antigas de Sirius.

“Sim, invadir um apartamento é equivalente a torturar, assassinar e servir à um bruxo das trevas”, pensou, mas não disse em voz alta. Seja lá quem fosse, odiara a sua mãe um dia, isso estava bem claro no tom que usara para se referir à bruxa.

– Olhe, eu não ligo para quem você é. Ou abaixa essa varinha ou me imobiliza logo e chama os aurores, mas de qualquer forma tira essa coisa da minha cara que está me dando nos nervos.

Ele deliberou, lhe analisando com atenção, e por fim abaixou a varinha vagarosamente. Continuava lhe olhando como se ela fosse uma aparição vinda das profundezas da terra.

– Como achou esse lugar, Bervely Black?

– Não posso lhe contar como, mas estou procurando Olivia Loren. A dona da casa, sabe? E talvez Sirius Black. Essas coisas são dele, certo? Essas roupas e essas memórias – indicou a caixa, de onde as lembranças vistas ainda queimavam atrás das suas retinas como marcadas à ferro quente – Onde eles estão, de qualquer maneira?

– Então você não sabe? – o homem espantou-se.


– Não sei o quê? Eles se mudaram?

Quando o bruxo falou de novo, havia pesar em sua voz.

– Senhorita Black… se quiser me acompanhar até a cozinha, vou fazer um chá, e posso lhe contar onde eles estão, mas tenho a impressão que essa será uma longa conversa.

– BD –

– Eu sou Remus Lupin. Fui amigo de Sirius Black… mas isso foi há muito tempo.

Sentada rigidamente numa cadeira da cozinha, e sentindo-se vulnerável sem a sua varinha (que o bruxo confiscara com a condição de lhe contar o que sabia), assistia o bruxo esfarrapado se mover entre os utensílios trouxas preparando chá sem usar magia.

– Aceita?

Ela negou. Lupin puxou uma cadeira também e sentou, pousando os seus olhos nela. Assombro, era o que ele mal escondia sob a superfície de sua polidez. Bervely se perguntou o que ele via em seu rosto, se era só a sombra de uma comensal da morte ou algo mais, um eco do seu próprio passado.

– Bom, para começar eu devo dizer que que nunca esperei vê-la um dia, então atribua a isso o meu espanto e desconfiança. Depois que a sua mãe foi presa, eu imaginei que tivesse sido…

– Morta pelos aurores? – sugeriu, secamente. Ele negou, sua testa vincando-se com a sugestão.

– Quê? Não. Pensei que tinha sido adotada por alguma família de bruxos, e eles não teriam lhe contado a suas origens, talvez julgando ser a sua melhor chance para uma vida normal.

– Você parece ter pensado muito sobre isso, não é? Eu fui adotada sim por uma família de bruxos, os meus tios, e eles nunca me esconderam quem eu era. – retrucou orgulhosamente.

– É mesmo? E eles lhe disseram quem era o seu pai?

– Não. – rebateu defensivamente – Porque eles não sabiam.

Entretanto estava certa de que aquela fora outra coisa que Narcissa escondera de si, talvez a sua primeira mentira. Mas não ia ficar abrindo as feridas do seu passado para a análise de um completo estranho.

– Sei. Bem, e o que a fez descobrir agora?

– Que importa como?

Ele bebericou o seu chá, lhe observando por cima da xícara.

– Suponho que nada. Mas importa como achou esse endereço, e essa é uma informação que você vai precisar me dar de qualquer maneira se quiser deixar esta casa.

Ele estava falando muito sério, Bervely notou.

– Eu pareço com pressa para você? – sua voz aparentou mais calma do que o modo como se sentia. Na verdade, não sabia se podia confiar em Lupin, e ele estava no total controle da situação; ia jogar com qualquer vantagem que tivesse, mesmo que fosse mínima.

As narinas do bruxo inflaram ligeiramente, mas ele acabou assentindo.

– Como eu lhe disse, eu era amigo de Sirius Black. Ele comprou esse apartamento para morar com Olivia e o colocou no nome dela, como um presente, quando soube que ela estava grávida. Você deve ter visto a garotinha naquelas lembranças da caixa de memórias.

Assentiu, desviando o rosto. As lembranças queimavam, o rosto do homem queimava muito fresco em sua mente o tempo inteiro desde então.

– Você deve ser perguntar onde ela está agora, a menina…

– Hogwarts. – disse, a voz abafada. Lupin abriu os olhos para ela.

– Mas como–

– Eu a conheço. Mas ela não sabe quem eu sou – acrescentou. – E eu notei que ela não usa o sobrenome dele.

– Eu imaginei que não, mesmo. Isso poderia chamar uma atenção indesejada para ela, e ainda, do jeito que a Sra. Loren odiava Sirius… sim, ela impediria que Johanne fosse identificada como filha dele, se pudesse. Eu acho teria feito o mesmo, para ser sincero, se ela fosse a minha neta.


Por quê? De que atenção indesejada está falando exatamente? Eu uso o mesmo sobrenome e ninguém… pare de me olhar desse jeito! – exclamou, contrariada. Lupin deu um suspiro pesaroso.

– Você faz alguma ideia de onde Sirius Black está agora, ou de onde ele esteve todos esse anos?

Aquela parecia ser a grande questão, e não, ela não fazia, a não ser pelo fato de que até aquela frase estava quase certa de que Black estava morto; quase esperava por isso, na verdade. O homem naquela lembrança, porque mais ele deixaria o bebê que claramente amava?

Mas o profundo sentimento de pena expresso no rosto de Lupin lhe indicou que talvez não quisesse ter a resposta.

– Eu sinto muito que tenha de saber isso por mim. Na verdade, eu sinto que tenha de saber de qualquer modo.

– Apenas diga. – murmurou.

– Sirius está no mesmo lugar que a sua mãe, a prisão de Azkaban. Ele foi preso poucos meses depois dela, se eu bem me lembro.

Bervely riu, incrédula. Que piada de mau gosto! Ter os dois pais em Azkaban, o que isso faria dela? Filha de dois criminosos execrados pelo mundo bruxo?

– Eu entendo que isso deve ser difícil para você…

– Oh, cale a boca! Eu não acredito em você! Quem você pensa que é para inventar essas histórias? Me dê de volta a minha varinha, eu não vou ficar aqui ouvindo as suas asneiras por mais nenhum segundo!

Se levantou, tão bruscamente que a cadeira tombou para trás. Lupin não fez qualquer movimento para impedí-la ou lhe entregar a sua varinha; continuava com o olhar implacável da pena direcionado à ela, e estava lhe dando nos nervos. Sua vontade era de quebrar coisas e… explodir coisas. E explodir coisas dentro de si mesma e se abrir e tirar aquela aflição que queimava do lado de dentro, abrindo um buraco e sugando seu fôlego.

– Eu posso imaginar como se sente…

– PARE COM ISSO! – gritou, batendo a mão na grande caixa de metal que os trouxas usavam para gelar alimentos. Vários copos sobre a caixa se chocaram uns contra os outros fazendo um barulho vítreo, e um deles caiu aos seus pés, rolando para debaixo da pia sem quebrar, mas a assustando.

O silêncio pesou na cozinha, enquanto ela encarava o chão de linóleo, os olhos ardendo.

– O que ele fez? – foi capaz de perguntar, depois de engolir um pouco o nó na garganta – para ir para Azkaban, o que ele fez?

– Ele entregou o esconderijo dos seus dois melhores amigos à Voldemort. Depois, quando se viu encurralado pelos aurores, explodiu uma rua, levando a óbito outras treze pessoas, entre eles um bruxo que também costumava ser seu amigo.

A cabeça dela estava rodando. Um traidor uma vez era sempre um traidor, era algo que Lucius sempre dizia ao se referir aos traidores de sangue pelos quais nutria ódio enceguerado. Aparentemente, o hábito da traição não fazia distinção entre aliados e inimigos.

– Que interesse tinha Voldemort nos melhores amigos de Black? – ouviu-se perguntar, a voz tão abafada que mal parecia a sua própria.

Remus demorou em responder. Pela primeira vez, ela cogitou que talvez aquele assunto ainda o afetasse, mesmo após tantos anos, e se perguntou o quão próximo ele tinha sido de Black na época.


– Eram os pais de Harry Potter.

– Tá brincando!

– Infelizmente não.

Aquilo era apenas… demais para se processar. Black fora o responsável pela lenda do mundo bruxo se tornar um órfão? Fora a sua culpa que Voldemort tinha chegado até ele e então perdido os seus poderes?

– Black deu à Voldemort a pista para uma armadilha. – ela percebeu de repente – Se ele nunca tivesse ido até lá, não teria perdido os poderes!

– Essa jamais foi a intenção – disse o bruxo sombriamente – Não foi uma armadilha, e sim um acaso, dos mais imprevisíveis. Acredita-se que Sirius era um aliado secreto das trevas, um agente duplo da pior espécie.

Seu tom era amargo, tanto que ela olhou de novo para ele. Encontrou mágoa, sem máscaras, e lá no fundo, o eco de uma incerteza.

– Acredita nisso, que Black era um comensal da morte? Como pode ter certeza de que foi ele a entregar os Potter, e o fez de boa vontade? Muita gente foi obrigada a fazer coisas na guerra!

– Ele era o único que podia revelar o esconderijo, e não estava sob nenhum feitiço que o manipulasse, posso garantir. – disse, abaixando os olhos para a xícara do chá, agora provavelmente frio. Não o bebeu, no entanto; ficou olhando para a superfície do líquido como se pretendesse se afogar lá dentro.

– Black não era um comensal da morte.

– Sim, isso pode ser difícil de aceitar…

– Não! Eu o conheci. Ele não era um comensal, eu saberia, eu convivi com três deles!

Lupin lhe deu um olhar de profundo ceticismo.

– Você não pode possivelmente se lembrar de quando o viu.

– Mas eu me lembro! – exclamou, voltando a sentir bolos na garganta e lágrimas.

Por que ela o reconhecera, no momento que pousara os olhos nele naquelas memórias. Ele era o seu Homem do Cachorro, seu amuleto contra os pesadelos, sua lembrança mais querida da infância inteira. Fora a primeira pessoa a olhar em seus olhos como uma igual, e não como alguém de quem esperava obediência. Black fora a primeira pessoa que ela chamou de amigo.

Ele não podia estar em Azkaban. Não podia ser um assassino. Não podia…

– Aqui. – Lupin se inclinou na mesa lhe oferecendo um lenço. Aceitou, reparando como as mãos tremiam, sendo incapaz de controlá-las.

– Ele me contou sobre você, sabe. – continuou o bruxo, cuidadosamente.

– Mas ele não sabia sobre mim… sabia? Bellatrix… ela escondeu a gravidez dele e fugiu da escola, não foi?


Ainda havia pesar na expressão de Lupin, mas alguma simpatia mesclou-se com isso ao ver um pouco das barreiras dela ruírem bem diante de si.

– Eu não sei o começo da história, mas sim, eu acho que ele nunca soube até te ver no Beco Diagonal aquele dia. No momento que ele percebeu quem era a sua mãe e fez as contas, isso o deixou completamente inquieto. Ele quis ir atrás dela para obrigá-la a contar a verdade, e ele quase foi… mas confesso que eu fui um dos que lhe impediu de fazer uma loucura. Naquela ocasião, ele ir atrás de Bellatrix poderia resultar num desastre.

– Por que eles estavam em lados opostos de uma guerra? – sugeriu com acidez. Era o mesmo que Andromeda tinha dado a entender quando discutiram no Natal.

– Uma razão muito considerável, mas não, não por isso. Você vê, Srta. Black… eu sou padrinho de Johanne. E na época, confesso, estivesse agindo de acordo com os interesses da minha afilhada.

– O que uma coisa tem a ver com a outra?

Lupin deu um sorriso amargo.

– Todas as vezes que Sirius e Bellatrix se aproximaram um do outro, alguém saiu terrivelmente machucado. Olivia precisou aturar muito dos dois em sua época de colégio, mas aquela era a vida real e adulta, e eu não acho que ela poderia suportar se eles se envolvessem mais uma vez… não que Sirius não fosse fiel, ou não a amasse, mas, honestamente… algo em Bellatrix trazia à tona o pior dele, e o deixava fora do seu juízo perfeito.

A afirmação arrepiou Bervely. Agora que Black tinha um rosto, e era aquele homem jovem e vigoroso que conhecera aos cinco anos, ela podia visualizá-lo junto à Bellatrix, a bruxa voluntariosa e indomável do seu passado. Os dois juntos… deveria ser como uma explosão.

Flashes de quando tinham se enfrentado no Beco Diagonal surgiram em sua mente, e depois o estado emocional em que ele deixara a bruxa por simplesmente cruzar seu caminho… podia compreender do que Lupin estava falando.

– Então você temia pela ruína da família perfeita que Black formava com Loren – desdenhou, mais amarga do que nunca – Engraçado, parece que ela se arruinou de qualquer maneira, eu não vejo a mãe e esposa perfeita por aqui em lugar nenhum.

– É – ele suspirou derrotado – Isso é porque Olivia não viveu muito tempo depois que Sirius foi preso.

– Então ela está mesmo morta? Os jornais dizem que nunca acharam o corpo dela, não é?

Ele lhe olhou com desconfiança, provavelmente se perguntando como sabia tanto, mas não é como se aquelas informações fossem confidenciais. Lupin eventualmente chegou à mesma conclusão.

– Sabendo de tudo isso, como poderia esperar que ela estivesse viva? Tendo sido justamente Bellatrix Lestrange a emboscá-la…

– Bellatrix o quê? – engasgou. Os olhos do bruxo se alarmaram em preocupação.

– Você não sabia que foi a sua mãe a atacá-la? Isso também está nos jornais!

Se sentiu tonta, ao compreender as consequências daquela informação.

– Minha mãe matou a mulher de Black?

– Sinto muito mesmo, Bervely.

– Ela vai me odiar! – exclamou, horrorizada. – No momento que souber, ela nunca mais vai olhar em minha cara!

– De quem está falando?

– Johanne! Quem mais?

Ele não soube o que falar àquilo, surpreso com a profundidade com que Bervely parecia se importar. Essa, por sua vez, só conseguia se lembrar do horror nos olhos de Longbotton na semana anterior, porque era filha da algoz de seus pais, e eles sequer eram irmãos…

– Não vejo sentido algum em julgar a sua índole pela dos seus pais, sabe…

– Fácil pra você falar! – gritou – Quantas pessoas seus pais mataram?!

Ele abriu a boca, mas a fechou logo em seguida, esvaziado de palavras com que rebater o argumento.

– Bervely – tentou apaziguá-la – Eu tenho certeza que ela compreenderá…

– Ela é órfã por causa da minha mãe! E eu poderia arriscar que grande parte da raiva que Bellatrix sentia a respeito de Loren tinha a ver com o fato de Sirius tê-la escolhido e então a culpa de Johanne ser órfã acaba sendo minha, porque eu existo, porque eu sempre fui para Bellatrix uma constante lembrança de Black, que ela odiava, ou amava, ou os dois…!

Precisava sair daquela casa, sentia-se sufocada, e como se sua cabeça fosse explodir com tantas informações, e as implicações infinitas destas… tudo que sabia era que não podia ficar mais ali, naquele túmulo do que um dia fora a família perfeita de Black, as memórias da vida que ele almejara e da qual ela, Bervely, nunca fizera parte.

– Me dê minha varinha! Agora mesmo, Lupin, me dê minha varinha ou eu juro que vou…

Ele lhe estendeu a varinha, que ela enfiou no bolso raivosamente. O bruxo no entanto se levantou e a alcançou quando estava prestes a passar pela porta.

– Saia da minha frente!

– Não vou te impedir de ir – garantiu, a calmaria encobrindo todos os sentimentos que a conversa suscitara em si. – Mas preciso lhe alertar sobre uma coisa.

– O que quer que seja não me importa–

– Apenas escute, isso é importante, Srta. Black. O que quer que pretenda fazer com o que soube aqui, deixe Johanne fora disso.

– Como é?

– Deixe ela em paz, não a perturbe com as histórias do passado. Ela já sofreu demais, merece levar uma vida normal e tranquila sem a sombra do pai criminoso pairando sobre ela.

Claro.

– Obrigado. Sabia que você compreenderia, no fim das contas. Há algo dele em você, sabe… algo de bom, do que ele era antes de se corromper totalmente.


– BD –


Oliver decidiu que era hora de ir para casa, juntar os caquinhos da sua humilhação e procurar debaixo do travesseiro, onde provavelmente esquecera alguma dignidade. Pagou as sete cervejas amanteigadas digeridas ao longo da tarde, fingiu que era ok ter ficado ali sozinho enquanto todo mundo ao seu redor tinha um encontro, e saiu de cabeça erguida.

Ela era – precisava entender isso – um alvo inatingível. O que pensara ele, sonhando que Bervely Black poderia lhe enxergar como qualquer coisa senão o grifinório irritante e viciado em quadribol com o qual não queria ser vista em público?

Mas ela gostou de você na festa proibida do Halloween, uma vozinha contrariada argumentou em sua cabeça. Tinha certeza disso, fizera ela rir até, e não uma vez, várias. É claro que naquela ocasião, ela não fazia ideia de quem ele era, e nem importava. A própria ideia da festa fora se divertir por uma noite sem deixar que as diferenças pessoais fossem uma interferência.

Era hora de parar de sonhar e encarar os fatos: Bervely Black não queria vê-lo nem banhado em Felix Felicis. Isso estava bem claro pelo modo como o deixara esperando a tarde inteira no Três Vassouras em pleno dia dos namorados, sem nem mandar uma nota de justificativa. Não é como se ela não soubesse, afinal, após o seu convite no sábado anterior ter sido confuso, o reforçara através do bilhete, e tinha certeza que o anão cupido o entregara na escola – eles eram infalíveis, aqueles miseráveis.

Absorto nesse tipo de pensamento amargo, mal notou quando o Notibus Andande surgiu do nada alguns metros à frente. Como os trens da estação de Hogsmeade não saiam todos os dias, era comum os moradores usarem o ônibus roxo eventualmente para se deslocar a outras cidades.

No entanto, quem desceu dele não era nenhum morador do vilarejo. Reconheceu Bervely de imediato, principalmente pelo modo naturalmente elegante com que se movimentava. Porque ela estava em seu caminho e também o viu, ficando parada como que congelada no lugar após a partida do ônibus, Oliver achou por bem ir até lá tirar uma satisfação.

– Você! Custava mandar um bilhete cancelando o encontro? Esperava o mínimo de consideração da sua parte–

Foi quando ficou perto o suficiente para ver a expressão em seu rosto, e percebeu imediatamente que havia algo errado. Viu palidez e desvatação, e ombros que tremiam. Seus olhos, normalmente desdenhosos ou entediados, estavam enormes e inundados de lágrimas. Correu até ela, seu coração se quebrando por vê-la tão vulnerável.

– O que aconteceu? Black, o que aconteceu??

A garota desviou o olhar, mas ele não tinha tempo para isso, precisava saber o que estava errado com ela. Ou pegar quem tinha a deixado daquele jeito, se fosse o caso.

– Rose! Olha pra mim, o que aconteceu?

– Me solta! – tentou se desvencilhar dele, que colocara as mãos em seus ombros. Mas Oliver não soltou, buscando alguma pista em seus olhos, qualquer sinal que lhe dissesse porque a garota mais forte e inatingível que conhecia parecia quebrada.

– Não! Me conta o que você tem! – exigiu, a voz firme. Ela tremeu e soluçou, para o seu completo horror. O que estava pensando, falando daquele jeito com ela quando já estava tão abalada? – Desculpa! Me desculpa, eu sou um idiota.

– Eu fui até Londres – murmurou, tentando respirar contra o choro que se avolumava – Ate aquele endereço que você me d-deu…

– Você encontrou Loren? Encontrou Black?

Negou, lutando contra o nó que fechava a sua garganta e impedia a voz de sair.

– Ele está preso em Azkaban… ela está m-morta… m-mas eu o conheci. Eu o conheci uma vez quando eu era pequena, eu o vi…

– Shiii – murmurou, aliviando as mãos ao perceber que por causa da sua própria aflição, estava apertando os ombros dela com muita força – Tudo bem. Vai ficar tudo bem, Rose.


– Não! Não, Wood, me deixa, eu preciso–– tentou se desvencilhar das mãos dele, mas a voz quebrou no meio de todo o desamparo.


– Vem aqui. – disse com a voz suave mas firme, trazendo o corpo dela contra o seu, minando a sua resistência de pouco em pouco – Estou bem aqui, Rose. Me deixa ficar. Me deixa ficar com você… você não perde nada com isso.

(Continua…)

link do grupo no face

link de Fragmentos
(entenda porque abaixo)

Notas finais
Da série Capítulos Que Estão na Minha Cabeça Desde Que a Fic Foi Inventada. O que não significa que foi fácil de escrever, foi um dos mais difíceis, tantas emoções inundando a Bervely e reverberando em mim, aqui *.* 

 Observações: – A música do início do cap que vocês devem ter me obedecido e ouvido é do filme a Pequena Sereia. Ouvi em looping enquanto estava escrevendo as primeiras cenas do cap e ela voltará a aparecer. 
– Estou usando “Oliver” porque das pessoas que emitiram uma opinião, a maioria optou por esse. 
– O apartamento visitado pela Bevy é o mesmo que aparece no segundo capítulo de Fragmentos. Não leu? Se te interessa saber que raios aconteceu com a Olivia Loren, corre lá. – Estou ciente que a formatação dos parágrafos muda do nada no meio do cap. O Nyah gosta de me sacanear, consertar isso leva séculos e a vida é muito curta. Que será que a Bervely faz com o saco de limões que foi esse cap? Limonada, caipirinha, borrifa nos olhos dos inimigos? Aceito palpites, que muito me divertem. :* 
 PS: Você já entrou no grupo da Indigna no face? NÃO?? O.o Você vai querer entrar, amiguinho, pois julho está chegando, e é mês de aniversário da fic, MUITA coisa legal vai acontecer lá! E, antes que eu me esqueça, essa semana tem bônus inédito!