Indigna Rosa Negra

42 A Rosa e a Aurora


Notas iniciais
Obrigada pelos comentários, gatinhos e gatinhas! Boa leitura!


“Vulnerabilidade não é o oposto de força. É uma parte necessária. Temos que nos forçar a abrir. Expor a nós mesmos. Oferecer tudo que temos e só rezar para que seja bom o suficiente.”

(Grey’s Anatomy, 11.03)


Para alguém que tinha quase dezessete anos, Bervely se considerava praticamente uma especialista em pesadelos. Ter uma conexão mental com uma comensal da morte na tenra idade de quatro anos lhe garantira grande parte dessa experiência, especialmente desde que Bellatrix fora presa em Azkaban e os limites da sua mente foram ficando mais e mais corroídos pela influência dos dementadores.


Bervely ficara, era bom lembrar, seis meses inteiros presa em um pesadelo recorrente aos seus quatorze anos. Ela não se lembrava dos detalhes, afinal, sonhos costumam se misturar e dissipar na consciência, mas ela com certeza lembrava das sensações… ela lembrava da sensação de encarceramento, de desesperança, o medo de sucumbir. Da fraqueza de um corpo privado de luz do sol e exercícios… lembrava-se bem do fogo negro que queimava dentro de Bellatrix Lestrange, sua raiva indomável, devorando suas entranhas, sua sede de sangue constante… afinal, era essa a chama que mantinha a comensal viva.


Era esse o mesmo fogo que ela usava para cavar sua mente, tomar controle de cada memória feliz que tivera em sua vida e oferecê-las aos dementadores em uma bandeja onírica de prata. Pesadelos, especialmente nascidos no útero pútrefo de Azkaban, eram sua especialidade.


Ou ao menos foi o que ela pensava, até sucumbir ao sono após aquele dia em Azkaban, e vivenciar o pesadelo que tinha retirado da mente de Sirius Black.


Uma casa devastada… uma Marca Negra pairando sobre o telhado… um bebê chorando. O choro do bebê abria uma ferida na noite… o cabelo da mulher era vermelho, espalhado do chão como sangue… nenhum de sangue no entanto, uma morte seca, seu rosto congelado num grito… um par de óculos quebrados, uma mão estendida no chão, a varinha frouxa… o choro do bebê abria uma ferida no coração do homem…


Todos mortos… todos mortos…


A dor, a dor, a dor… abria uma ferida no coração da noite.

Todos mortos… sua culpa…

Culpa.

O segredo.


E o choro…

O sentimento de traição abria a noite no coração do homem. A vingança… o traidor…

Uma rua pelos ares no coração da noite. A rasteira, os aurores e o show… Uma gargalhada histérica, desesperada, irônica, incrédula… culpada.


A Culpa, a Culpa, a Culpa…


Bervely despertou, completamente desorientada, e tão tomada pelas sensações do pesadelo que, por um momento, elas eram suas. O peso era esmagador, e debaixo disso, não havia mais qualquer possibilidade de seguir em frente… então ela piscou, muito vagarosamente, e o mundo foi entrando em foco.

Estava na Ala de Ferimentos Causados por Magia do Hospital St. Mungus. Era noite, e as luzes estavam apagadas, mas aos poucos seus olhos iam se acostumando com os contornos. Lembrou-se que estava ali porque Remus precisou ir para casa, e Johanne implorara para que não chamassem a sua avó para passar a noite no lugar dele. Ela recostou de volta na cadeira reclinável que eles ofereciam aos acompanhantes dos pacientes menores de idade, e que na verdade era bem desconfortável.

Só que ela nem sentia a cadeira naquele momento; tudo que havia em sua mente eram as imagens do pesadelo de Black. Como era carregado de dor, perda e culpa. E mais importante, um sentimento impregnado em cada fiapo dele, e que ela só podia reconhecer agora que estava acordada… ela entendia muito de culpa, e a de Black era claramente por algo que ele deixara de fazer.


Por algo que ele não fizera, os seus melhores amigos tinham morrido. Ele tinha remorsos, arrependimento e dor, mas jamais os desejara ou movera-se em qualquer direção para ameaçar a vida de Lílian e James Potter.

Black era inocente.


Black estava pagando por um crime há doze anos, e jamais o cometera.


Ela descobriu muito rapidamente o quanto a ideia lhe era insuportável… se colocar no lugar dele… mais de uma década preso, e inocente das acusações… como…?


Um ruído na escuridão da enfermaria chamou a atenção de Bervely, e ela atentou seus ouvidos. Pareceu uma fungada, uma fungadinha mínima, que jamais teria ouvido se estivesse dormindo. Outra, mais uma vez, vinda da cama bem ao lado da sua cadeira reclinável dura.

– Johanne? – chamou para a escuridão, vendo apenas o contorno imóvel da menina.

Silêncio. E outra fungada.

– Johanne, eu posso ouvir você, sei que está acordada.

– D-desculpe. Eu não quis fazer barulho.

Bervely franziu ligeiramente suas sobrancelhas para a voz uma oitava mais aguda que o normal.

– Você está chorando?

– N-não. – e outra fungada. Rolou os olhos para a mentira óbvia.

– Tem certeza?

Silêncio.

– Eu tive um pesadelo. – ela admitiu, com a voz dengosa. Bervely suspirou, se perguntando se aquela propensão para os terrores noturnos também era uma das maravilhosas heranças da descendência Black.

– Bem, eu também estava tendo um. – “Um roubado, mas não vamos entrar em detalhes”.

A menina se moveu mais uma vez para ficar de barriga para cima, virando a cabeça em sua direção por questão de hábito, visto que ainda usava as bandagens em cima dos olhos.

– Sobre o que foi o seu? – perguntou, numa vozinha rouca.

– Muito assustador pra eu te contar. – preferiu dizer, ao invés inventar alguma mentira. – E o seu?

Johanne hesitou por um momento, tentando achar as palavras.

– Escuro. – disse por fim, baixinho. – Eu sinto falta da luz. E se eu ficar do escuro pra sempre?

Rapidamente, a preocupação de Bervely sobre a culpa ou inocência de Black foi varrida para um canto da sua mente.

– Você não vai. Os medibruxos vão curar seus olhos. Em algumas semanas…

– Eu estou com medo, Rose.


Bervely calou seus argumentos práticos, sabendo que de nada serviriam. Ela não sabia o que dizer… estava acostumada a viver em torno de pessoas que nunca admitiriam sentir medo. Pessoas que lhe ensinaram a vida inteira que admitir era um sinal de fraqueza… no entanto, ali no escuro, ouvindo a voz trêmula da menina, ela achou o contrário. A achou corajosa.

– Eu sei. – assentiu, fechando seus olhos por um momento. – Sinto muito.


Mais silencio… enquanto Bervely lidava com um novo sentimento se insinuando entre as suas entranhas: impotência.

– Você quer alguma coisa? Posso pedir um leite quente pra você na cozinha. Posso pedir uma poção do sono…

– Não, Rose, por favor, não me deixe aqui sozinha.

Ela interrompeu o movimento de se levantar.

– Está bem.

Ouviu aquele pequeno arquejar, como se a garota tivesse começado a dizer algo, mas desistisse no meio do caminho.

– Fale. – a encorajou, sem poder evitar soar um pouco autoritária.

– Será que você pode… – Anne hesitou, tomando coragem. – Será que você pode deitar aqui comigo? Quero dizer… só se você quiser. O meu avô deixava eu dormir com ele quando eu tinha pesadelos. A minha avó diz que eu estou muito grande para…

– Tudo bem.


Houve um farfalhar dos lençóis quando Johanne se afastou para o lado, abrindo espaço na cama, e Bervely, um pouco sem jeito, deitou no estreito espaço disponível, com cuidado para não encostar nela e magoar os cortes mais profundos que ainda cicatrizavam. Ela se apoiou no seu braço dobrado, deitada sobre a lateral do seu corpo, uma posição não exatamente confortável, mas ainda assim melhor do que na cadeira.


Johanne, por sua vez, deitou a cabeça bem ao lado do seu cotovelo. Ela estava quente, e o cabelo cheirava a lavanda, misturado com o ditamno dos curativos.


– Obrigada, Rose. – ela disse baixinho. – Você ronca?

– Não. – ela rolou os olhos. – Você?

– Só quando eu acabei de ser atacada na floresta.

Bervely se pegou sorrindo.

– Nesse caso vou te dar um desconto.

– Melhor irmã de todas.


– BD –


– Bervely, querida, que bom que te encontrei, podemos conversar um minuto?

Ela suspirou, a meio caminho de deixar o hospital na manhã seguinte. Sabia que com Andrômeda nunca era um minuto, e estava quase atrasada para o começo do turno em Azkaban. Olhou rapidamente do relógio para a medibruxa.

– Com que propósito?

– Ora essa, uma tia não pode mais querer conversar com a sobrinha sem ter que fazer uma declaração de propósitos? Nós moramos na mesma casa, mas eu praticamente nunca lhe vejo!

Ela rolou seus olhos para aquela pequena demonstração de drama matutino. Seu dia não começara bem; na verdade, acabara de passar por um momento constrangedor quando Remus chegou à enfermaria e ao puxar as cortinas em torno da cama de Johanne, a encontrara ainda deitava com a garota. Ele dera um pequeno sorriso e fora muito discreto, com o seu “posso voltar daqui a pouco” e sua retirada cavalheira. Maldito Lupin.

– Eu vou tomar esse resignado rolar de olhos como um sim. – disse a Black mais velha com um sorriso grande – Me acompanha no café da manhã? Ouvi dizer que hoje eles fizeram torta de caramelo.

– Bom, desde que eles tenham torta de caramelo…

– Ah, bonito lenço, à propósito.


Ela estava usando um lenço com estampa de pequenos pássaros para cobrir os hematomas agora roxos dos dedos de Black em seu pescoço. Para a sua sorte, era moda entre os bruxos ultimamente (lenços no pescoços, não estrangulamento).

O refeitório do hospital era para os funcionários, mas isso não impediu que Andrômeda colocasse Bervely para dentro e elas logo estavam sentadas em uma mesinha para duas pessoas sob um raio de sol. Passando a maior parte do seu dia dentro de Azkaban, Bervely mal notava que o verão estava em seu auge. O calor lhe alcançou a pele no momento em que a tia voltou com dois copos grandes de café maltado, depositando um deles a sua frente.

– Você teve uma boa noite?

Lembrou da dormida imóvel, dividindo a pequena cama de hospital com Anne, e de ter acordado pelo menos duas vezes durante a noite para checar se ela não estava soluçando de novo.

– Não foi das piores.


– Ah, que bom… eu apenas acabei de passar pelo quarto do Dr. Fritz. Ele ainda está inconsciente, mas não percebemos nenhuma piora, então, isso são quase boas notícias. Ainda não há nada que se possa fazer em termos de tratamento, no entanto.

Ela assentiu, desviando o olhar para a janela. Pensar no Dr. Fritz ainda formava um bolo sólido em sua garganta, com o qual ainda não aprendera a lidar.

– …eu lavei as suas vestes de escola ontem a noite. – ela ia dizendo, em tom de conversa amena, e tirou algo do bolso – Achei isso, parece que é um endereço?

Bervely pegou o papel e prontamente o guardou em seu bolso, sabendo do que se tratava. Quase se esquecera que Snape lhe dera o seu endereço “caso precisasse”, embora a que circunstâncias ele se referia nunca tinham ficado claras. Que tipo de necessidade em meio às férias de verão exigiriam uma ida emergencial à um pocionista? É claro que ela não estava supondo que ele soubesse o quanto as férias dela seriam fora do normal.

– E Dora mandou notícias! Ela pediu desculpas por não estar escrevendo com frequências, parece que é algo relacionado com as corujas não poderem atravessar o espaço aéreo dos dragões. Mas ela está bem, e disse que vai tentar voltar a tempo do seu aniversário!

– Hum, que ótimo. – murmurou, bebericando o café e pensando silenciosamente que talvez Dora não estivesse escrevendo porque estava ocupada demais aprendendo com Charles os mil jeitos de se montar um dragão, ou o quer que se fizesse numa reserva no meio do nada.

– Eu estou tão orgulhosa de você, Bervely. O modo como se preocupa como a sua irmã, eu realmente não pensei que depois de toda a história sobre o seu pai… você sabe do que eu estou falando, eu não pensei que vocês fossem ter qualquer tipo de proximidade, mas felizmente…

– Será que a gente pode por favor pular essa dança da fraternidade surpresa?

– …felizmente você vem agindo de forma madura, separando o passado do presente e a deixando entrar na sua vida. – completou, ignorando os protestos. – No entanto, Bervely, eu estou preocupada…

– E aqui vamos nós.

– … com esse seu emprego de férias misterioso! Não pense que eu não estou reparando a rotina abusiva que eles tem lhe exigido, eu posso não estar em casa o tempo todo, mas Ted tem observado as horas que você chega e sai…

– Você mandou seu marido me espionar?

– …e o que foi aquilo de você chegar aqui toda molhada, no dia do acidente de Johanne? Eu não engoli a conversa da chuva. Você tem visto as suas olheiras ultimamente? E apesar da quantidade de doces que você tem comido, eu nunca a vi mais magra! Eu sei que não gosta de ser alvo da minha preocupação, Bervely, mas você não acha que está indo longe de mais?

– Vamos focar nessa parte de eu não gostar de ser alvo da sua preocupação, porque não há qualquer necessidade

Isso não é sobre necessidade. – ela lhe cortou severamente, aquele olhar em seu rosto, o do tipo materno e “você-não-tem-escapatória-dessa-discussão”. – Eu me preocupo, e ponto final. Eu quero saber exatamente que tipo de trabalho é esse, e então chegar à uma conclusão se ele não está sendo demais para você.

Elas se encararam, Andrômeda peremptória, Bervely, resistente. Isso até dar um longo e resignado suspiro.

– Eu não posso te dizer, Andrômeda. Ainda. – completou, quando percebeu que ela já estava montando o próximo argumento incontestável. – O sigilo faz parte do trabalho, ou eu poderia estragar tudo.

– Você vê o quanto isso soa louco para uma mãe ouvir?

Ela abriu a sua boca, chocada.

– Você não é…

– Sua mãe, eu sei! O que não me impede de me sentir como uma! E quando você vira para mim e diz que está envolvida no trabalho sigiloso e secreto, eu só posso pensar que é algo terrível e fora da lei que lhe trará problemas! E não me venha com a conversa engraçadinha de tendências criminosas herdadas, porque eu não vou engolir isso hoje!


– Sangue sagrado de Salazar. – Bervely praguejou, balançando a cabeça, bebendo um gole do café. – Quando você quer ser absurda…

– Você tem dezesseis, Bervely. Eu entendo que você pode se sentir muito madura e independente, e que já passou por coisa o suficiente para achar que não precisa de ajuda, que pode resolver tudo sozinha, que consegue se virar… mas não tem que ser desse jeito. Eu estou aqui, bem aqui. Você não precisa trabalhar… nem se preocupar com essas coisas. Você não nos deve nada, absolutamente nada. Se esse emprego tiver qualquer coisa relacionada…

– Não se preocupe, não estou trabalhando para pagar vocês. – a tranquilizou. Porque era verdade, ela pretendia ressarcir Andrômeda com a sua herança, afinal, o pagamento do Projeto Orcus iria todo para Gavril Romansek.

Alheia à isso, a medibruxa pareceu mais aliviada.

– Certo. Então, por quê? Por que não está aproveitando as suas férias? Por que não pode me contar o que anda fazendo? Se há qualquer problema você pode me contar e nós resolveremos.

Havia uma expectativa e vontade real de ajudar em sua intenção, e talvez pela primeira vez Bervely realmente acreditou nisso. Ela olhou dentro dos olhos castanhos claros, no entanto, sabendo que nenhuma das boas intenções da Black se aplicavam à sua realidade.

– Andrômeda… você confia em mim?

A pergunta certamente a pegou de surpresa, mas ela disfarçou quase imediatamente. Bervely continuou, brincando com a tampa do copo de café com as unhas.

– Toda essa sua conversa sobre acreditar que eu sou melhor do que os meus pais… você adora proclamar isso, mas no menor sinal de dúvida, você vem me perguntar se eu me meti em algum problema e preciso de ajuda para sair dele.

– Bervely, não é isso, sinceramente…

– Por isso eu estou perguntando. Você confia em mim?

– Eu… – ela respirou muito profundamente. – É claro.

– Obrigada. Como eu lhe disse, eu tenho tudo sob controle. Isso era tudo que queria conversar comigo?

A medibruxa parecia levemente atordoada com aquele desfecho, mas sacudiu a cabeça, os cachos volumosos soltos se movendo junto.

– Não, na verdade tem outra coisa, é sobre Johanne. Eu andei conversando com Remus sobre algumas possibilidades, e decidimos denunciar Amelia Loren para o Departamento de Proteção Infantil por abuso.

– Abuso? Então vocês acham que ela realmente teve culpa no que aconteceu na floresta?

– Não, quero dizer, estamos considerando que houve uma omissão de cuidados muito séria, o que também se enquadra em abuso. Ela seria submetida à uma investigação detalhada da sua relação com Johanne nos últimos anos, e nesse tempo, seu direito de guarda seria temporariamente suspenso.

– E caso ela seja indiciada por abuso?

– Ela perde a guarda, que passa a ser exclusivamente dos padrinhos. No caso, de Remus.

– E ele está ok com isso? – perguntou, sabendo que por mais atencioso que o bruxo fosse com a afilhada, cuidar dela por alguns dias no hospital e passar a ser o seu guardião legal eram duas coisas totalmente diferentes.

– Na verdade… tecnicamente, Remus não poderia ser o único guardião de Anne, eles exigiriam uma rede de suporte, digamos assim. E isso é o que eu gostaria de saber de você: caso haja um processo, você estaria disposta a se declarar parte dessa rede?

– De que tipo de rede você está falando?

– Johanne precisa de uma família. Fora a avó dela, você é a única família a que ela tem acesso no momento. Quero dizer, é claro que eu ficaria feliz em me declarar da mesma maneira, mas o Conselho prefere considerar parentes próximos, então eles iriam gostar de saber que você está disposta a ser…

– A irmã dela?

– Sim. – Andrômeda parou de fazer rodeios, a encarando muito séria – Você está?

Bervely olhou para o seu copo de café agora meio vazio. Tudo no que ela conseguia pensar era na voz amedrontada da garota durante a noite, pedindo para que se deitasse com ela, porque estava com medo do escuro. Bervely tivera medo do escuro antes, muitas vezes. Nunca houvera alguém para lhe fazer companhia durante muito tempo.

– Você se lembra do primeiro lema da família Black? – perguntou para a tia, erguendo seu rosto. – Antes de Toujour Pur? Se lembra qual era?

– O que isso tem a ver com o assunto?

Familiae Omnibus Supereminet. – recitou. – Johanne é uma Black, ela é família. Não há qualquer coisa no mundo que possa mudar isso.

– BD –

Bervely sentiu um ligeiro pânico quando chegou em Azkaban e soube que o chefe do Projeto Orcus, Homius Criodilus, estava lhe esperando pessoalmente para uma reunião na Sala de Operações.

Ela acreditou que eles tinham descoberto tudo. O seu disfarce, o fato de que não era Charlotte Summers nem uma medibruxa, não era sequer maior de idade… de que quebrara o protocolo e visitara Sirius Black, efetuara nele um feitiço de obtenção de memórias… e se pensassem que estava envolvida no acidente com Fritz?

Quando chegou na porta da Sala de Operações, ela tinha a plena certeza de que estava prestes a ganhar uma cela na prisão. Talvez ao lado de Sirius Black, ou de Bellatrix. Oh, isso seria irônico. Isso seria terrível, seria apenas…

Mas Criodilus estava sorrindo.

Ele era um homem realmente pequeno, mais baixo que ela umas duas cabeças. E por falar em cabeça, a sua era completamente pelada e brilhante. O Chefe do Projeto Orcus parecia em tudo um duende de jardim. Precisou conter o pensamento, afinal não era hora de humor, não estava completamente convencida de que não seria presa por seus crimes.

– Srta. Summers! – o homem apertou a sua mão. O que havia de falta de imponência em sua aparência estava presente em sua voz, o que a levava a pensar que talvez esta fizesse todo o trabalho por ele. – Eu sinto muito por desviá-la das atividades do dia. Tenho certeza de que sem o Dr. Fritz, as avaliações tem sido ainda mais demandantes.

– Senhor – ela apertou a mão escorregadia.

– Eu não vou me demorar, só quero apresentar as minhas condolências, foi uma lástima perder um membro tão valioso da nossa equipe.

– Ele não está morto. – corrigiu. Por que todos insistiam em achar que Fritz estava morto?

– Oh, não, não, é claro. Mas não vejo razão para pensar que ele poderia voltar ao projeto em tempo. O que me leva à outra questão… eu sinto muitíssimo, mas é tarde demais para arranjar um substituto para Fritz, ou mesmo um auxiliar para ajudá-la. Todo o processo de entrevistas… simplesmente não seria viável. Lamento dizer, como indiquei na minha carta, que a senhorita terá de finalizar esse trabalho sozinha.

– Eu compreendo. – ela se segurou para não suspirar de alívio. A última coisa que precisava era alguém em seu pescoço no momento.

– A parte boa é que o seu trabalho solo será muitíssimo bem recompensado. De fato, eu trouxe aqui a primeira parte do seu pagamento… queira encarar este adiantamento como um incentivo e um agradecimento do Conselho Internacional dos Bruxos por sustentar a mudança de cargo tão inesperada.

– Ah… obrigada. – ela recebeu o cheque do banco com o nome de Charlotte, e arregalou os olhos para o valor escrito. Era a mesma quantia que teria ganhado por todo o seu trabalho como auxiliar de Fritz.

– Uma conta de depósito temporária em seu nome foi aberta no Banco Gringotes, basta aparecer lá com esse documento e você será capaz de retirar a quantia ou transferi-la para a sua conta pessoal. Desde que tiramos isso do caminho… eu gostaria de lembrá-la que estou aguardando os relatórios parciais das avaliações para o fim da semana.

– Sim, claro. – a cobrança lhe trouxe de volta à terra rapidamente. – As avaliações foram um pouco perturbadas pelo acidente com o barco, mas serão retomadas hoje sem falta.

– Eu acredito em você para a entrega desses relatórios no prazo, Srta. Summers. A única razão pela qual confiei em manter essa parte do projeto em suas mãos foram as excelentes recomendações que recebi ao seu respeito. Espero que não me decepcione.

– As minhas recomendações, certo. – ela conteve um esgar de irritação. – O senhor receberá o relatório em tempo, eu garanto.

– Fantástico! Não esqueça de comparecer à reunião semanal com o restante da equipe na segunda, e aguarde receber uma coruja minha a qualquer momento. Eu gosto de respostas imediatas, devo alertá-la.

– Perfeitamente, senhor.

– Tenha uma boa semana, Srta. Summers.

– O mesmo para o senhor, chefe.

Ele saiu da sala gingando em suas pequenas pernas de duende, e Bervely ficou por alguns minutos desfrutando de uma fantasia onde poderia agarrá-lo pelas orelhas, girá-lo três vezes bem rápido e lança-lo para além da sebe, o desgnomizando tão bem como Tonks havia lhe ensinado um dia.

– BD –

– Charlotte!

Theodor lhe esperava na porta da sala de arquivos, e ela meio que já esperava por isso. Ter um rosto familiar em Azkaban não era a pior das coisas, especialmente se era o rosto de um descendente direto de Agrippa.

– Shadowtamer.

Ela passou pela porta e a deixou aberta para ele. Observou pelo canto de olho que, como sempre, o Quarter usava o uniforme oficial da prisão, extremamente bem passado e alinhado, e como antes não usava a chama patronal. O gestual dele era muito preciso, controlado, sem excessos. Características boas para um auror, mas melhores ainda para um pocionista. Pensava nisso desde que o vira preparar a poção Termitéria em seu laboratório secreto.

– Teve uma boa noite?

– Essa é uma pergunta muito pessoal, Quarter. – lhe avisou, pegando a lista de avaliações e anotando as daquele dia distraidamente em um pedaço de papel.

– Eu suponho que seja. Sabe quem mais teve uma boa noite?

– Por favor não me diga que foi você. – retrucou, buscando mecanicamente as pastas dos prisioneiros, apesar de que não era suposto a olhá-las antes das avaliações. Sabia que estava deixando a sua própria personalidade se sobrepor àquela que deveria forjar para “Charlotte Summers”, mas ninguém nunca a tinha acusado de ser uma boa atriz.

– Black. – ele disse simplesmente, mas a mera palavra foi o suficiente para ela para no meio do que estava fazendo.

– Black teve uma boa noite? – repetiu, tentando não soar especialmente interessada.

– Depois do que você fez, ele dormiu como uma pedra. Os dementadores deixaram a cela em paz. Eu preciso lhe agradecer por…

– Não há necessidade. – disse rapidamente. – Alguém foi checá-lo essa manhã?

Theodor pareceu levemente desconfortável.

– Ninguém sabe do acontecido, e mesmo se soubesse… digamos que os curandeiros da prisão não são particularmente atraídos pela ala de segurança máxima.

Ela sentiu que estava apertando a pasta de ℥☨ 276 com muito mais força que o necessário.

– Black está anêmico e extremamente desidratado, Shadowtamer. E o pouco que eu vi de seu estado físico me diz que não é uma condição de curto prazo. Não me espanta que sua saúde mental estar se deteriorando!

O Quarter tinha uma expressão grave em seu rosto.

Eles não se importam, Charlotte. – disse baixo.

– Mas e você, por acaso se importa? – retrucou com selvageria. Ela apenas se lembrava dos lábios partidos de Black sangrando em seus dedos.

– Não há nada que eu possa fazer sozinho. Eu sou apenas um Quarter.

– Apenas um Quarter! – resfolegou, muito mais irritada do que deveria, do que era seguro estar. – Você é apenas o filho do diretor da prisão e um descendente direito de um alquimista!

– Às vezes esses são detalhes que complicam mais ainda. – ele disse, soando realmente sincero.

– Eu não sei aonde quer chegar. – retrucou com impaciência.

– Em lugar algum. Tudo que e estou dizendo é… se você sentisse a necessidade de checar Black, apenas por precaução e… responsabilidade médica, e quem sabe, pela mesma razão, lhe levar um tônico repositor… eu não lhe impediria.

– Não me impediria? – repetiu, suspeita.

– Eu teria é claro de lhe acompanhar, para a sua própria segurança, mas isso de forma alguma significa que eu estaria de qualquer forma colaborando com essa decisão. Eu só estaria, você sabe, fazendo o meu trabalho.

– E eu o meu. – ela completou o raciocínio.

– Exato. – ele assentiu, muito seriamente.


– BD –


No fundo, tudo o que Bervely queria era uma chance de retornar à cela de Sirius Black.

Aparentemente não importava quantas vezes se aproximasse dele, sempre estaria mais nervosa do que da última vez. Seu coração sempre estaria ameaçando pular garganta afora, e nunca haveria ar o suficiente.

Imaginava o que ele gritaria agora. Se ele a ouviria. Se ele lhe daria qualquer pista do que se passava em sua cabeça quando olhava para ela.

– Nós dê alguma privacidade – pediu a Theodor ao passar por ele – Black não vai falar se souber que há um auror no pé de sua cela.

É claro, ela não podia garantir que Black ia falar em qualquer circunstancia. Não sabia nada sobre aquele homem. Não tinha ideia de como ele a receberia daquela vez. Ela, afinal, lhe dera a sua memória em forma de sonho na noite passada.

– Bla… Sr. Black. – se corrigiu, se mantendo à entrada da cela. – Não sei se o senhor se recorda, eu sou…

– A mentirosa.

Estava sentado em sua cama, as costas inclinadas, os cotovelos apoiados nos joelhos, e não virou a cabeça para olhá-la. Na verdade o cabelo longo e embaraçado caia pelo rosto, e ela não tinha pistas de sua expressão. O tom de voz era tão cavernoso e rouco que era difícil dizer com certeza, mas supunha que não fosse um elogio.

– O senhor esteve preso em um pesadelo à noite passada. Eu tomei a liberdade de…

– Roubá-lo. – ele disse, duramente.

– Eu tive a impressão de que estava sendo um incômodo.

Black cerrou os seus punhos. Ela o viu fazer isso, mesmo na penumbra que era a cela, e um arrepio correu a sua espinha de uma ponta à outra. Ele ia tentar matá-la novamente? Ficou firme e imóvel, mas a varinha de exames estava bem fechada em sua mão dessa vez.

– Você não tem o direito – Black rosnou de onde estava. Sua voz era perfurante – De mexer na cabeça de um homem sem a sua permissão.

– Eu sei. Eu sinto…

– Se ousar fazer isso outra vez – continuou o prisioneiro, muito calmo e letal – eu vou lhe dar um pesadelo do qual jamais poderá se livrar.


– Você ficará surpreso em saber que já tenho alguns desses para a coleção. – ela rebateu com um humor amargo.

Ele não lhe disse qualquer coisa. Simplesmente, ela percebeu, não estava interessado em sua presença. Esperava que fosse embora. O chão imundo da sua cela era mais interessante do que ela. Bem, Bervely não gostava de se ignorada.

– Eu vi o seu pesadelo. – disse, calmamente. – Você é inocente.

Ela esperou o efeito das palavras. Black ergueu seu tronco vagarosamente, virando-se para encará-la. Parecia mais lúcido do que nunca, e seu olhar escuro cavava buracos dentro dela, mas também eram ganchos a segurando pelas entranhas.

– Você não sabe do que está falando.

– Mas eu sei! Você se sente culpado, mas por omissão… você não matou Lílian e James, você não é um assass…

– NÃO SE ATREVA A FALAR O NOME DELES! NÃO SE ATREVA A EVOCÁ-LOS! NÃO VENHA ATÉ MINHA CELA ME DIZER QUE EU SOU INOCENTE! EU OS MATEI!

Ela não pode evitar de tremer levemente quando Black se ergueu, mas tudo que ele fez foi bater a sua mão na pia de metal e provocar um som agudo. Ele jogou para cima os lençóis imundos e bateu com suas mãos nas paredes, ondas de raiva e frustração expressas pelo seu corpo e sua explosão.

Ela esperou que se acalmasse. Como tinha pedido para Theodor, o Quarter não se aproximou apesar dos gritos. Ela lhe solicitara expressamente que só viesse à cela se ouvisse os seus gritos.

– Não, você nãos os matou, você sofreu com a morte deles como se tivessem arrancado uma parte sua…

– CALE A BOCA! VOCÊ NÃO SABE…

– Você sabe que é inocente, eu vi. – ela murmurou, agoniada.

– VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE INVADIR A CELA DE UM HOMEM E ARRANCAR COISAS DE SUA CABEÇA, QUEM É VOCÊ, QUEM VOCÊ PENSA QUE É?

– Você sabe quem eu sou! – lhe ofereceu prontamente, fechando seus olhos para os gritos que espremiam seu peito – Você viu a minha memória, você sonhou…

– AQUILO É UMA MENTIRA!


– O quê? Não!

– Você! – Black parou bem em sua frente, à poucos passos, estreitando seus olhos para ela como se tivesse acabado de se dar conta de algo extremamente importante,mas que passara desapercebido. – Você é uma mentira.

– Não, eu não sou!

– Você acha que é a primeira alucinação que eu tenho em doze anos? – ele zombou, num chiado irônico. – Fantasma! Quando apareceu na outra noite, você tinha o rosto dela

Dela? – perguntou, a garganta seca.

– Não se faça de idiota. Aquela vadia do inferno. Ousando aparecer em minha mente e me assombrar, como se já não bastasse ter destruído a minha vida!

Bervely sacudiu sua cabeça lentamente, pasma.

– Eu não sou Bellatrix.

– Então me diga porque você se pareceu exatamente como ela. – ele desafiou, mas depois lançou seus braços para cima em frustração. – Olhe para mim,, discutindo com um fantasma, louco, louco… completamente… não. – parou e fechou seus olhos em concentração. – Eu me recuso a ter alucinações com aquela filha do demônio desgraçada.

Bervely mal conseguia falar uma palavra. Ela balançou a sua cabeça lentamente, horrorizada.

– Eu sou real. Eu sou…

Mas Black não estava lhe ouvindo. Estava deliberadamente fingindo que ela não existia.

Irritada, deu um passo à frente e pegou a mão dele, erguendo-a, percebendo que com a ação, Black congelara e abrira seus olhos de novo. Com a outra mão ela tirou o lenço, depois encaixou a mão dele, seus dedos magros, longos e frios, em torno do seu pescoço. Se encaixaram ali suavemente, sobre os hematomas que tinham provocado antes.


Pela sua profunda surpresa e inação, talvez ele não fosse tocado há muito, muito tempo. Ela lhe ofereceu um sorriso fechado.

– Quantas das suas alucinações você poderia matar, se assim desejasse?

Ele lhe olhou nos olhos pela primeira vez, e ela percebeu que os dele eram cinza chumbo, e não pretos. E quase não havia nada neles do que se lembrava, mas então… então havia. Algo. Quase inexistente, mas ali. A sombra daquele olhar que fora o mais terno, o mais atencioso que se lembrava, vindo de um completo estranho.

– Eu não sou ela. – disse baixo, porque ele estava tão perto, e não havia necessidade. – Você precisa se lembrar de mim.

Ela deixou que a mão dele se soltasse da sua garganta, mas a guiou até o seu pulso esquerdo, onde a coleira estava. Abriu o fecho que um dia ele consertara, e deixou que o objeto ficasse na mão dele. Black olhou para aquilo como se jamais tivesse visto coisa mais estranha.

– Você não pode… possivelmente… ser real.

– Mas eu sou. – jurou, sua voz de repente embargada. Ele negou com a cabeça.

– O que você quer de mim, garota?

Ela tremeu. Não fazia qualquer ideia. Ela apenas…

– Eu lhe disse. Essa lembrança… do dia em que nos conhecemos… ela salvou minha alma, se tornou uma espécie de amuleto.

– Então você deveria se apegar à ela e esquecer o resto. – ele disse bruscamente. – Por que é tudo que vai ter. Aquele homem que conheceu, ele está morto. Ele morreu há doze anos.

Black…

– Agora me ouça bem. Não volte jamais à minha cela. Se há qualquer resquício de dignidade em você, qualquer um, respeite a vontade de um homem que não tem nada a não ser o direito de escolher quem quer ver. Eu não quero lhe ver aqui novamente. Não há nada aqui para você… você entendeu?

– Eu…

– Você entendeu, garota?

– Sim. – murmurou, fechando seus olhos, sentindo duas malditas lágrimas quentes rolarem pelas suas bochechas.

– Agora, vá embora. Eu não quero ouvir falar que você alguma vez voltou aqui em Azkaban… nunca.

– BD –


Contrariando a vontade de Black, ela praticamente não tinha saído de Azkaban por dias. Salvo por passar as noites em casa – estava tendo o cuidado de não perder o último barco para não alimentar as desconfianças de Andrômeda mais do que o necessário – ela ficava na prisão todo o tempo disponível.

No entanto, o mais longe possível da segurança máxima.

– Sua tatuagem… é uma rosa?

Bervely puxou a manga de sua blusa para cima da marca, fazendo uma cara impaciente para o Quarter. Ele lhe oferecera uma mesa na sala de comando para que ela não ficasse “tão sozinha na sala de arquivos” enquanto escrevia o relatório parcial para entregar na sexta feira.


– É apenas uma coisa de família.

– É mágica? Quero dizer, o símbolo tem alguma função em especial?

– Tem… enfeitar meu braço.

Ele assentiu, ensaiando um sorriso. Não parecia ter muito costume de fazer isso, o Shadowtamer, o que não era uma surpresa. Passando tanto tempo em Azkaban, quem teria?

– Não que você… não que você precise. Se enfeitar, digo.

Ela ergueu uma sobrancelha, meio incrédula com o “movimento”. Também não era uma coisa para a qual ele parecia especialmente acostumado, mas novamente, quantas chances, em Azkaban?

Não lhe respondeu qualquer coisa. Tudo que Bervely queria era chegar ao fim daquele maldito relatório parcial e alcançar a sexta feira. Quanto mais cedo conseguisse ir ao banco – sábado de manhã, no caso – mais rápido estaria livre do Projeto Orcus e de Azkaban.


Azkaban, mais do que nunca, estava lhe sufocando. E já não havia mais nada ali para ela.

– Você trabalhou um monte hoje. – ele disse um tanto aleatoriamente, fazendo-a erguer a outra sobrancelha, sem tirar os olhos de suas anotações.

– Eu trabalho um monte todos os dias.

– É, verdade. O que acha de dar uma volta?

– Eu adoraria dar a volta para fora dessa ilha e até minha casa, mas não é como se eu pudesse, certo? O próximo barco só sai em duas horas. – murmurou, preenchendo o fim da última folha com notas sobre a prisioneira que avaliara aquele dia. Uma mulher completamente sem dentes que achava que era a encarnação de Morgana LeFay.

– Não, eu quis dizer, uma volta aqui.

– Dentro na prisão? – estranhou. – Já não basta o quanto eu preciso circular por causa do trabalho?

– Uma volta na ilha. – ele explicou – Podia lhe mostrar ao redor. Ela não se resume à prisão, sabe?

Não, Bervely não sabia. E honestamente, não estava particularmente interessada no que a Ilha de Azkaban se resumia. Mas, não seria completamente terrível distrair a mente. E seus pulsos doíam.

– Talvez você possa me mostrar mais o seu laboratório, o que acha?

Ele franziu, como quem não estava entendendo as entrelinhas da proposta.

– O que há de tão interessante no laboratório?

– O que ali não é interessante? – ela pousou a pena no pergaminho, virando-se pra ele – Aquele lugar é incrível.

– Tenho uma proposta, então. Você me mostra o que há de incrível sobre o meu perfeitamente normal laboratório de poções, e eu lhe mostro algo sobre a ilha que talvez te surpreenda.


Bervely concordou. O que ela tinha a perder?

No fim das contas, o que Shadowtamer queria lhe mostrar era a terceira linha de segurança da fortaleza de Azkaban.

– Eu espero que você goste de cães.

Havia duas dezena deles. Enormes cães em tons de areia com focinhos compridos e rabos bifurcados, que vieram ao encontro deles em uma plataforma do lado externo da prisão, esperando serem alimentados. Theodor os chamava pelos nomes e lhes dava enormes pedaços de carne crua e ossos de boi. Eles devoravam tudo como se fossem feitos de biscoito.

– São meio-crupes¹, na verdade. – explicava, enquanto lançava os pedaços de carne para os cães famintos de cima da plataforma. – Eles garantem que nada entre ou saia da ilha pela praia sem que tenhamos conhecimento. Por isso só são alimentados uma vez por dia, é bom que estejam sempre um pouco famintos. Ah, olha, aquele ali é o Besta… e o com as orelhas escuras é o Chicote… a fêmea maior é Navalha… é a mãe da maioria deles, mas não é do tipo maternal, se você me entende.

– Os cães não são afetados pelos dementadores? – perguntou, curiosa, notando que eles pareciam saudáveis e perfeitamente felizes com seus bifes pingando sangue.

– Não… dementadores não entendem a mente animal, isso os deixa confusos. Na maioria das vezes eles preferem manter distância.

– Então é por isso que os dementadores ficam longe das praia?

Ele de um sorriso mínimo.

– Você acabou de descobrir um dos métodos secretos dos Shadowtamer para o controle dos dementadores, Srta. Summers. Não espalhe por ai.

– Não irei. Esse não seria o primeiro segredo seu que eu guardo, certo?

Ele lhe deu um olhar cúmplice. Theodor não mencionara em qualquer relatório as visitas que ela fizera à Black, e até onde ele sabia, ela fora lá majoritariamente à pedido dele e porque “se importava”. Percebera que ele não era como os outros aurores de Azkaban, ou como as outras pessoas da comunidade bruxa, aliás. Ele realmente se importava com a condição dos prisioneiros. Por mais que não houvesse muito que pudesse fazer à respeito.

Depois da última vez que visitara Black, na quarta-feira, Theodor lhe confidenciara a razão pela qual tinha batido na porta dela no meio da noite para contar que ele estava preso em um pesadelo.

– Fiquei receoso de que ele fosse beijado. Já vi acontecer antes. É horrível.

– Eu pensei que os dementadores fossem proibidos de tirar a alma dos prisioneiros sem permissão. – Bervely retrucara, na tentativa de manter uma conversa normal apesar de… apesar de tudo.

– Eles são. A não ser que tenham o consentimento do prisioneiro para isso. Se o prisioneiro entregar a sua alma de bom grado, não há nada que podemos fazer, é uma questão de livre arbítrio.

– Isso acontece muito? – ela não pode evitar se lembrar de Bellatrix barganhando a sua alma em troca da dela para os dementadores, através da conexão da rosa.

– Mais do que gostaríamos… afinal os dementadores pedem, e pedem bastante. Imagine estar sob a influência deles por horas a fio, e ouví-los dizer que se entregar sua alma, você não precisará mais sofrer com as sua piores lembranças. Eles fazem parecer como um alívio. É horrível, mas é como acontece.

– Você soa como alguém que não aprova o uso de dementadores.

Ele tinha lhe dado um olhar preocupado.

– Você não vai me ouvir dizer isso. É o uso dos dementadores que tem mantido a minha família nos negócios por séculos.

Não haviam voltando à esse assunto outra vez.


No laboratório aquele dia, Theodor sugeriu que Bervely o ajudasse no seu mais novo projeto, que estava fazendo nas horas vagas para se distrair. A receita, chamada Essência da Aurora Boreal², estava no livro Poções Ocidentais Impossíveis. Ela se inclinou sobre o livro para ler os ingredientes, alguns muito improváveis.

– Raiz de verbena, solução de olíbono, hissopo… como consegue essas coisas?

– Tenho fornecedores.

– Eu não vejo como a equipe de segurança de uma prisão deixaria entrar metade disso. – duvidou, cética.

– Eu sou a equipe de segurança, Srta. Summers. – retrucou, indo buscar os instrumentos de que precisariam. Ela deu uma lida no modo de preparo, enquanto isso. Mas foi o efeito da poção que a surpreendeu.


“– Aquele que respirar o aroma da essência deverá ser capaz de sentir os cheiros e odores que estarão presentes em sua morte. Será útil para aqueles que desejam adiar o encontro com a morte, já que assim como a arte da Adivinhação, essa poção não é definitiva e tão pouco mostra um futuro inevitável.”
– leu, erguendo a cabeça para o Quarter – Isso é mórbido, mesmo para um guarda de Azkaban, Shadowtamer.

Theodor deu um sorrisinho, colocando o caldeirão de bronze em sua frente.

– Espero que tenha um bom nariz. – foi tudo o que disse.


Ela sentia falta – terrivelmente – de fazer poções. Estivera ocupada demais para pensar nisso desde o começo das férias, mas se ver em contato novamente com os ingredientes, o processo, a concentração necessária, tudo isso se mostrou muito bem vindo.


Além do mais, ela nunca tinha realmente trabalhado com outro pocionista. É claro que constantemente fazia dupla com os colegas em Hogwarts, mas eles nunca tinham ideia do que estavam fazendo. E quando estava com Snape, a maior parte do tempo eles apenas dividiam o laboratório, cada um em seu projeto, o professor supervisionando o seu trabalho de tempos em tempos.

Por um longo tempo de silencio eles trabalharam, seguindo as instruções. Quando Theodor adicionou a myristica e o oenocarpus, ela pegou a concha para mexer o caldeirão, e ele não sentiu necessidade de lembrá-la que não devia encostar a colher no caldeirão, apenas no líquido. Um voto de confiança e tanto, já que raspar o bronze naquele estágio arruinaria tudo.


No fim, havia tinha um líquido bordô opaco e leitoso no caldeirão, que ele despejou cuidadosamente em duas taças compridas, entregando uma para ela. Ela sorriu, pegando a taça que reservara para si. Encostou a borda ao nariz e aspirou profundamente. Theodor lhe olhava com expectativa.


Lhe passou pela cabeça, por um momento, como eles poderiam parecer estranhos ali, interessados em saber o cheiro que sentiriam no momento da sua morte. Mas Theodor agia com naturalidade, então talvez houvesse mais em comum entre eles do que ela imaginava.


– A sua cheira à quê?

– Aí está outra pergunta muito pessoal, Shadowtamer. – mas rolou os olhos, cedendo. – Acho que é apenas… sangue?

– Uma morte violenta, então? – ele sugeriu, e ela deu de ombros. O Quarter se adiantou para cheirar a sua. – Só sinto o cheiro dos cães. Talvez eu não tenha lavado minha mão direito.

– Talvez um deles vai te tomar por um bife cru.

Theodor meneou a cabeça com segurança.

– Eles me reconhecem como o líder da matilha, jamais fariam isso.

Bervely voltou a cheirar a sua, se concentrando. Franziu o nariz.

– Na verdade, eu também sinto um pouco de cheiro de cachorro. E… água salgada?

– Isso é praticamente como Azkaban cheira na maior parte do tempo para mim. – ele deu de ombros.

– Talvez eu morra aqui. No fundo até desconfiava que não ia sair viva daquele relatório parcial.

– Nem brinque com isso. – repreendeu, recolhendo as taças e o caldeirão. – Vou guardar uma amostra disso, pode ser interessante.

– Só dura de seis à oito dias. – ela lhe lembrou.

Theodor guardou as amostras num dos armários e levou os utensílios para a pia de mármore, dobrando as mangas da sua camisa a fim de lavá-los. Era comum que pocionistas fizessem isso manualmente, já que os utensílios eram muito delicados para feitiços de limpeza. Bervely notou os antebraços dele; eram traçados com linhas azul escuras em padrões que chamaram a sua atenção imediatamente.

– O que são as suas tatuagens?

Ele foi pego de surpresa pela pergunta, e tentou escondê-las, mas era em vão. Ela tinha descido do banco para se aproximar e vê-las mais de perto.

– São muito parecidas com a dos prisioneiros. – notou, enquanto ele tentava baixar as mangas.

– Não, são completamente diferentes.

– Essa aqui é idêntico ao que eles tem no peito, do lado direito, só foi desenhanda de cabeça para baixo. – insistiu, apontando para um dos desenhos.

– É uma coisa de família, Charlotte. – o Quarter retrucou. – Você não me disse o que a sua significa de verdade, então não tem o direito de saber a minha.

– Muito maduro.

Ele bufou, largando os utensílios sujos na pia e se afastando. Nunca vira Theodor fora do sério, desde o dia que o conhecera, e isso só estava aumentando a sua curiosidade. Ela lembrava das diversas tatuagens sobre o peito e mãos de Black e sabia que eram referentes à prisão, continham informações sobre eles, mas então, por que um guarda precisaria delas? Não fazia sentido…

– Está bem. – ela barganhou, sua curiosidade vencendo – Eu lhe conto a razão da minha, se você disser a das suas.

– Não.

Foi a vez de Bervely bufar. Ela sentou de novo no banco e ficou reparando nos movimentos cuidadosos dele com os utensílios, perdida em pensamentos, mal notando quando ele terminou e veio andando até ela. Quando seus olhos se encontraram de novo, ele tinha chegado perto, e a encarava com intensidade incomum.

– Charlotte… foi um prazer trabalhar com você hoje.

E ali estava, Bervely notou. Não que não desconfiasse antes, mas nunca estivera mais claro como naquele momento. Theodor estava, obviamente, atraído. Por Charlotte Summers.

Ela lutou contra a repulsa que acompanhou aquele pensamento, enquanto apertava firmemente os seus dentes. Quando o Quarter lhe olhava, ou quando era gentil, ou quando se preocupava com o seu bem estar, não era ela quem ele via. Eram os olhos azuis puros, o rosto de porcelana, as expressões de Summers. E a consciência disso era tão insuportável e confusa, que ela apenas… ele queria Charlotte… como podia se sentir atraído por ela?

Como qualquer um podia? Como Hector pudera?

– O que foi? – Theodor perguntou, franzindo suas sobrancelhas grossas em preocupação.

– Nada. Foi bom trabalhar com você também. – se forçou a dizer, através do aperto em seu estômago, que era agonia só em parte.


– Mas então eu te aborreci?

Assentiu. Não havia sentido em negar. A agonia estava passando, enquanto respirava fundo os vapores ainda presentes no laboratório.

– Eu apenas queria saber mais sobre as suas tatuagens. – mentiu. – Fiquei curiosa.

Ela sabia que sua voz estava mais macia que o normal. Que ele estava mais perto que o necessário, e que alguma coisa estava acontecendo ali. E a ideia… não lhe pareceu tão terrível, por um momento. Que importava? Que importava qualquer coisa? Estava sendo prudente desde que se infiltrara no programa, e o que ganhara em troca?

Fritz quase morto no hospital…


Black queria distancia dela…

– Charlotte? – ele chamou, a trazendo de volta. – Posso te falar sobre elas, se quer tanto.

– Pode me mostrar?

– Estão pelo corpo todo. – ele a preveniu. Ela sentiu um arrepio de perigo.

– Algumas, então?


Ele olhou preocupado em direção à porta, e depois de volta para ela.

– Isso é completamente indecente, você sabe.

– Estamos só nós dois aqui. E eu não vou contar.

No fim, a aura angelical de Charlotte venceu. O Quarter começou a desabotoar o uniforme cinza chumbo, botão por botão, e depois a camisa dentro dele. Tirou ambas, deixando seu peito exposto – moreno e moldado, tomado de traços azuis por quase toda extensão da pele descoberta, todo o tronco e até os pulsos de ambos os braços. Ela abriu sua boca levemente, enquanto tentava entender os padrões, alguns eram familiares, semelhantes aos de Black.

– São runas comuns… – estreitou os olhos, tentando reconhecer – e…

– Runas alquímicas. – ele ajudou.

– Ah! Sim, elas são. Isso é fascinante. Que tipo de tinta é?

– É uma receita própria.

– Outro segredo Shadowtamer? – sondou, levemente sarcástica.

– Na verdade a receita foi um presente da minha mãe, para que eu fosse menos afetado pelos dementadores.

– Como funciona? – ela tinha se aproximado para observar mais de perto.

– A tinta mágica traz à superfície da pele os aspectos evocados pelos símbolos. Por exemplo, se eu uso algiz, uma runa de defesa, é suposto que eu me sinta mais resistente.

– E o que são essas? – ela indicou um símbolo que se repetia várias vezes em sua pele.

– Invisibilidade… contra as forças das trevas.

Bervely ajeitou a sua postura, acabando por ficar cara a cara com ele. Theodor tinha uma barba rente, muito preenchida e escura em seu rosto. Olhos claros, acizentados, o maxilar numa linha dura e quadrada… era um homem, ela pensou. Não um garoto. O que ela estava fazendo?


– Isso é… muito interessante. – disse, a garganta seca. – Não se vê muito por ai.

– A maioria dos bruxos acredita que pintar o corpo com runas é um tipo de mágica um tanto… primitiva. A questão é que os dementadores são primitivos, também. E afora o patrono, ainda não inventaram uma maneira completamente eficiente de se proteger deles.


– Por que você não ensina… para os outros aurores?


Estava muito perto agora. Podia ser a sua imaginação, mas ela achava que podia sentir o emanando do seu corpo dele até o seu.


– Os outros aurores nem sabem da possibilidade. – confidenciou, seus olhos pregados nos lábios dela… não, nos lábios de Charlotte. – Vai guardar o meu segredo?

– Claro. Eu… – Bervely fechou os olhos, tentando se concentrar. Qual era a desculpa mesmo? – Preciso ir. Se eu não for embora agora, vou perder o barco.


Ele assentiu, sem no entanto se afastar.

– Não se esqueça de manter segredo, Charlotte. – avisou, num tom de brincadeira, quando ela deu um passo para trás e espanou uma dobra imaginária na roupa. – Eu não quero ter que fazer nada, mas foi você mesma quem disse que a sua morte tinha o cheiro de Azkaban nela.

– BD –


Sexta-feira, 23 de julho.


“Por favor, por favor, ache a minha filha… antes deles. Por favor.”

Bervely balançou a sua cabeça, tentando impedir que as palavras do prisioneiro ∑Ω 087 parassem de soar repetidamente em sua cabeça. Ela voltou a escrever no pergaminho, listando as conclusões a que tinha chegado após as avaliações da primeira etapa do Projeto Orcus. Desejando intimamente que o Dr. Fritz estivesse ali, porque não fazia ideia do que estava fazendo. Seguira as instruções deixadas por suas anotações, mas ainda assim, o que ela sabia sobre relatórios de medibruxaria?

Eles vão trazê-la para cá… ela é inocente. Por favor. Ela pode estar em perigo. Eu preciso saber se ela está bem.”

Pousou a pena, deixando o rosto cair entre as mãos, completamente exausta. Aquele fora o último prisioneiro avaliado na semana, e décimo quinto da lista. Com a metade das avaliações feitas, o relatório era tudo no que ela deveria se concentrar. Mas aqueles momentos dentro da cela 087 continuavam lhe perturbando.

Você só está assim por que ele se importa. Ele é um pai e ele se importa. Não seja sentimental, isso está ficando ridículo, ralhou severamente consigo mesma. No entanto, ela ainda podia ver o rosto arranhado e destruído do homem, implorando para que achasse a sua filha antes que o ministério chegasse até ela… “Por favor, ela só tem 15 anos. É só uma criança. Deve estar assustada…”

Bervely xingou, ao mesmo tempo em que afastava a pilha de pergaminhos no qual consistia o seu errático relatório. Puxou então a ficha do prisioneiro ∑Ω 087, relendo as anotações feitas pelo auror responsável.

O prisioneiro se chamava Jordel, e tinha 52 anos. Sofria de licantropia há 20 anos e nunca relatara a sua condição para o Ministério. Por grande parte da sua vida mantivera a doença em segredo, passando as noites de transformação num bosque próximo ao vilarejo, contando com a ajuda de sua esposa para se esconder dos moradores locais. Há cerca de três meses a mulher falecera, e a filha do casal ficara então responsável por auxiliar o pai nas luas cheias. Na última delas, no entanto, algo saíra do controle, e Jordel por alguma razão se transformara dentro casa da família, e não na floresta… levando a morte de quatro trouxas e um bruxo nas proximidades.

Uma equipe especial do Ministério fora até o local, a fim de obliviar a população não mágica e fazê-los acreditar que haviam sofrido um ataque de lobos comuns. Jordel se entregara e a sua filha de quinze anos estava desaparecida. Quando Bervely estive em sua cela para fazer a sua avaliação, ele lhe implorara para encontrá-la. Tinha medo que a menina tivesse sido acidentalmente mordida, e pudesse atacar alguém. Ele achava que a menina estava com medo dos aurores, mas que talvez aceitasse a aproximação de uma medi-bruxa que pudesse cuidar dela. Salvá-la, ele dissera, antes da próxima lua cheia.

Bervely não era nenhuma medi-bruxa, mas sabia que não havia cura para a licantropia. Estudara criaturas das trevas em Durmstrang o suficiente para entender que, umas vez mordida, a garota estaria infectada e se tornaria um monstro quando a próxima lua cheia subisse. Era só uma questão de tempo para que os aurores a encontrassem, bastaria que seguissem a trilha de sangue… enquanto sua linha de pensamento ia nesse sentido, ela passava os olhos pelas demais informações do caso. A garota desaparecida se chamava Vindemiatrix… um nome bastante incomum…

Snowfall.


Ela retornou, certa de que tinha lido errado. Quais eram as chances de o ataque ter acontecido exatamente no mesmo vilarejo em que morava a mãe de Tara, e agora seu irmão, Bae? Sentiu um calafrio, ao lembrar que dos quatro mortos, dois eram crianças. E se…

Não.

Bervely fechou a ficha, ordenando a si mesma para parar de ser absurda. Ela tinha um milhão de coisas para fazer. Não podia se preocupar com o irmão abortado de Tara. Se havia alguém que devia se preocupar com isso, era a própria Tara. Ela certamente andava em contato com o irmão, certo? Saberia se algo tivesse acontecido com ele!

Algumas horas mais tarde, Bervely estava saindo da ilha, parando na portaria para devolver a varinha de exames e pegando a “de Charlotte” e a moeda-chave-de-portal do Olho de Hórus, que continuava a usar, apenas porque não havia outro método prático o suficiente para voltar para casa todos os dias. Ela poderia usar a varinha para aparatar, já que certamente em seu registro pertencia a um bruxo maior de idade, e não ia disparar avisos no Ministério, mas ela não confiava em fazer isso na maioria das vezes que deixava a prisão, devido à sua exaustão.

Naquele dia, no entanto, Bervely não usou a chave de portal quando o barco a deixou no ancoradouro. Havia uma inquietação em seu peito, que estava lá, verdade seja dita, desde a sua última conversa com Sirius Black. Não, o nome certo era agonia. Por que depois tudo que ela fizera para chegar até Azkaban, os esforços se provaram completamente vãos. Black simplesmente não estava interessado.

Foda-se ele, pensou ferozmente, olhando as ondas quebrarem na praia de rochas. Foda-se o maldito Black, aquele filho de uma puta dementado.


Seus olhos ardiam, e não era em razão do vento forte do mar. Ela os enxugou violentamente, lembrando a si mesma que, para o bem ou mal, cumprira o seu intento em Azkaban. Vira Black. O que mais esperava?

“Aquele homem que você conheceu está morto.”

Negou com a sua cabeça, inconformada, olhando para o céu cinza claro, respirando muito fundo. Se perguntando por que, enquanto alguns pais temiam por seus filhos, outros não se importavam.

“Por favor, salve a minha filha.”


Não podia fazer nada por Vindemiatrix. E quanto à Bae… Sempre havia a chance de Tara não estar em contato frequente com ele, ela estava tão estranha… E o pai de Bae, Gavril Romansek, certamente o entregaria para os lobos, se tivesse a chance, então nenhuma ajuda viria do seu lado.

Por que você se importa?

Usando o frêmito inquieto que a dominara desde o último encontro com Black, guardou a chave de portal de volta no bolso, e pegou, ao invés disso, a varinha.

Aparatou para Snowfall. Se não podia fazer nada por si mesma, não podia fazer nada por sua irmã, nem por Vindemiatrix… o mínimo que poderia fazer, naquela sexta feira – a sexta parcela de uma terrivelmente frustrante semana – era garantir que Bae Romansek continuava seguro.

(Continua…)

Grupo no face!

Notas finais
Apenas pedindo para que tenham paciência com Sirius, e tentem se colocar no lugar dele, antes dos gritos ;) ¹Crupe: “O crupe é originário do sudeste da Inglaterra e é muito parecido com um terrier, exceto pelo rabo bifurcado. É quase certo que seja um cão criado por magia porque é muito leal aos bruxos e feroz com os trouxas. É um grande comedor de refugo, ingere qualquer coisa desde gnomos a pneus velhos.” (Animais Mágicos e Onde Habitam) – Só que meus crupes são malvadinhos, grandões e adoram um ossinho de prisioneiro fugitivo. ²A Essência da Aurora Boreal é propriedade intelectual de Lara Pena (LC_Pena) e eu tenho a permissão para usá-la. No entanto, eu fiz vista grossas para alguns detalhes (como ela precisar esfriar de um dia para o outro), para fins oportunistas de plot. Para saber mais sobre a poção, leia Laboratório de Poções ;) Comentem bonitinho, vou responder tudo que estou devendo ao longo do fim de semana *.*