Indigna Rosa Negra

56 A Rosa Subterrânea


Notas iniciais
Atenção: o nome desse capítulo e do anterior foram mudados. Só pra ninguém ficar confuso ;) Boa leitura! ;*

Me and you what's going on?
(Eu e você, o que está acontecendo?)


— Hey, isso não é o Caldeirão Furado!

— É mesmo? Que perspicaz, Wood.

Numa inversão curiosa de eventos, daquela vez fora Bervely a aparatá-los. Mas, como o capitão bem observara, não no pequeno e sujo bar que precedia o Beco Diagonal. Estavam num terreno baldio em Old Lane Street, a duas quadras da Albert Avenue; o ponto de aparatação mais próximo que ela pode localizar no mapa da estação de Hogsmeade. Eles atravessaram uma boa porção de vegetação congelada até os portões do terreno, e Bervely esperou até ninguém estar passando para sair, Oliver logo atrás.

Ainda não tinha certeza de que fora uma boa ideia trazê-lo; parecia uma daquelas decisões impulsivas que iam voltar para morder sua bunda no fim do dia. Ela tinha um par de coisas para fazer antes de comprar a vassoura de Potter, e a própria compra da vassoura deveria ser um segredo absoluto.

Bom, ela sempre podia apagar a memória dele quando o passeio terminasse. Nunca fizera um feitiço de memória na vida, mas o que poderia dar errado?

— Você não vai me dizer onde estamos indo? — Oliver se alinhou a ela na calçada, sincronizando seus passos.

— Não.

Londres estava mais úmida que Hogsmeade, embora menos fria; não havia neve acumulada no chão. O dia, que estivera branco-luminoso na vila, ali se mostrava cinza-escuro, as nuvens pesadas e baixas no céu da capital inglesa. Bervely viu, pelo canto do olho, um sorrisinho afetado surgir no rosto dele.

— O que foi?

— Você gosta disso, não gosta? Ser toda misteriosa com suas botas de cano alto e seus assuntos secretos em Londres, porque o mundo é tão indigno do seu esforço e tudo isso é um grande aborrecimento.

— Minha nossa — debochou, pulando uma poça d’água — Ninguém nunca me descreveu tão bem. Vou até anotar isso no meu diário assim que voltar pro castelo.

— Você tem um diário? — A informação o animou mais do que deveria.

— Vai sonhando, Wood.

Eles seguiram em relativo silencio por duas quadras, até ela sentir que a mão dele alcançar a sua, que pendia ao lado de seu corpo. Oliver entrelaçou seus dedos nos dela firmemente.

— O que você está fazendo? — perguntou desconfiada, abaixando os olhos para a incomum conjuntura. Não era como se nunca tivessem feito isso antes, mas também não era como se tivessem acabado de sair de um filme de dinossauros e estivesse escuro e ela se sentisse em êxtase porque: dinossauros.

— Salvando seus dedos da grangrena.

— Só os de uma mão? Isso não faz qualquer sentido.

— Cala a boca, Rose.

— BD —

Ela lhe pediu para esperar do lado de fora do prédio – Oliver acatou sem fazer caso. Quando voltou, vinte minutos depois, ele estava caminhando pelo outro lado da rua com as mãos nos bolsos, olhando para o chão e parecendo pensativo. Bervely ficou ali por um momento, observando. Observando como ele se movia, adorável e errático, como alguém que não sabia muito bem onde estava se metendo, mas que não podia estar em qualquer outro lugar. Sentindo os olhos dela sobre si, ele ergueu o rosto e lhe deu um meio sorriso com a cabeça inclinada. Suas bochechas estavam rosadas por causa do vento frio.

Ela sentiu uma borboleteação estranha em seu estômago, que persistiu enquanto esperava que Oliver atravessasse a rua em sua direção. Era uma sensação diferente da antiga, do começo, quando estava olhando para o quanto ele era atraente com seus lábios rosados, sobrancelhas grossas e ombros largos. Ela não sabia o que significava agora. Aumentou quando ele estendeu a mão e colocou atrás da orelha dela uma mecha que voava em seu rosto.

— Eu lembrei que endereço é esse. — ele disse num tom cuidadoso. — É daquele apartamento que descobrimos pertencer à mãe de Anne, né? Bem, que eu descobri.

— Sim. — Não tinha motivos para mentir. A confirmação fez com que a neutralidade se transformasse em preocupação, vincando o espaço entre as sobrancelhas dele.

— E você está voltando aqui porque…?

— Há algo que eu queria pegar, para Anne.

Era só parte da verdade, e teve a impressão de que ele sabia disso. Em qual momento Wood começara a ler através de seus tons?

— Você não acha perigoso voltar aqui? Digo, a mulher era esposa de Black, ele pode estar de olho nesse lugar, ou então os aurores podem estar de vigiando para o caso de ele resolver se esconder aqui. Se eles pegam você e achar que está envolvida?

Ela segurou o riso. Tudo era muito possível, salvo o fato de que Black a enviara ali justamente para não chamar a atenção dos aurores. Ela entrara disfarçada de Remus Lupin, e dessa vez tinha a senha. Nenhum dos feitiços de proteção do apartamento disparara e nenhum dos vizinhos achara que algo estranho estava acontecendo.

— Você se preocupa demais, Oliver.

Ele suspirou, olhando de um lado e de outro. Devia estar esperando o Esquadrão de Aurores ou os dementadores pularem detrás das latas de lixo e anunciarem voz de prisão; Bervely conhecia a sensação.

— Ok, vamos sair daqui. Pegou tudo o que precisava?

Ela assentiu, indicando a mochila. Oliver passou um braço pelo seu ombro, por alguma razão desconhecida do universo, e seguiram andando pela calçada na direção de onde tinham vindo. Ele esperou que ela reclamasse, mas não aconteceu; a verdade era que o corpo dele era melhor do que qualquer sistema mágico de aquecimento que Bervely pudesse colocar em suas roupas.

— Nós passamos do ponto de aparatação, seu tonto. — avisou, quando o grifinório seguiu andando após encontrarem o portão do terreno, a levando junto consigo.

— Vamos de metrô. — disse tranquilamente, mas Bervely estancou.

— Nem pensar, não, não vamos na coisa trouxa que passa debaixo da terra, não.

Ele começou a rir, suas costelas se sacudindo bem ao lado das dela. Bervely, que não apreciava ser a razão do divertimento de ninguém, começou a fechar a cara.

— Wood, tenha o mínimo de bom senso!

— Anda, me deixa ter um pouco de diversão nessa viagem. — Ele a cutucou e ela se esquivou, voltando na direção no terreno com os passos duros. Ele a seguiu, ainda rindo. — Rose, qual é, metrô é legal!

— Aparatando vamos estar no Beco Diagonal em segundos.

— Nós estamos com pressa?

— O que nós não estamos é querendo nos embolar com um monte de trouxas e pegar uma minhoca de ferro maluca no subsolo. — retrucou, as mãos no portão.

— Eles tem uma televisão dentro do metrô, que passa filmes às vezes

— Não de dinossauros, eu aposto. — Empurrou o portão, decidida. Oliver e suas ideias absurdas. Essa era a razão para não trazê-lo junto, bem lembrado Bervely, ele não tem o mínimo de foco e nenhum bom senso…

— Eles vendem cachorro quente no metrô.

E foi assim que Oliver Wood venceu a segunda discussão do dia, senhoras e senhores.

— BD —

— Você mentiu pra mim. — ela acusou entre os dentes travados, sem nem olhar para ele tal era a sua tensão ao segurar a haste de segurança do vagão.

— Foi mais como uma adaptação da verdade. Eu juro que eles tem carrinhos de cachorro-quente na frente da maioria das estações, eu não tinha como adivinhar que justamente nessa não íamos achar uma.

— Eu vou matar você no minuto que sairmos daqui. — Bervely garantiu, sem abrir muito a boca. A voz que anunciava as estações mandou que se afastassem das portas, algo que ela já tinha feito tanto quanto possível, praticamente achatada contra o lado oposto do trem. Seus dedos estavam brancos de apertar a barra na qual deveria se segurar para ficar em pé, porque todos os assentos estavam cheios e aqueles trouxas, que eram muito espertos para fazer uma cobra subterrânea, não podiam inventar o equivalente à um feitiço de assentos auto-multiplicáveis, ao que parecia.

— Isso pode demorar um pouco, a estação do Beco Diagonal é praticamente do outro lado da cidade.

Ela ia responder — xingando — mas o metrô começou a andar e Bervely achou melhor manter a boca fechada para não expulsar o que quer que tivesse em seu estômago no momento. Começou devagar — bom — mas logo o trem começou a acelerar, o barulho se tornando ensurdecedor, e ela não podia ver nada pelas janelas a não ser a escuridão, e como é que os trouxas iam fazer se aquele túnel desabasse? E se saíssem dos trilhos e batessem em uma parede? Quem estava dirigindo aquela coisa? Como eles podiam estar tão tranquilos naquela velocidade alucinada?

— Calma. — disse uma voz em seu ouvido, e só então ela notou que tinha fechado os olhos. Oliver se colocara entre ela e o resto do trem, então seu suéter preto sendo tudo que ela viu quando os abriu.

— Estou calma. — disse, se recompondo tanto quanto pode. Não podia fazer nada sobre o fato de o sangue ter fugido de seu rosto.

— Você está encarando isso do jeito errado — ele disse suavemente, ainda em seu ouvido, ao mesmo tempo que uma mão ia parar sobre a dela na haste e a outra se apoiava no espelho da janela às suas costas. — Pense como é legal, estamos atravessando Londres pelo subterrâneo, uma coisa que nenhum bruxo faz por meios mágicos.

— Por que é uma completa insanidade. — disse, sentindo seu estômago embrulhar. — Eu nunca deveria ter ouvido você.

Ele riu – claramente não estava dando àquilo a importância necessária. Esse era o problema com os grifinórios, não levavam nada a sério. A vida toda era uma aventura. Atravessar a cidade por debaixo da terra num trambolho trouxa pouco confiável era uma aventura. Voar numa vassoura debaixo de uma tempestade de raios era uma aventura. Roçar a barba por fazer em seu queixo e os lábios em seu pescoço era…

— Mas o que é que você está fazendo? — ofegou, quando os dentes dele encontraram o lóbulo de sua orelha e deram uma mordidinha que imediatamente enfraqueceu seus joelhos.

— Distraindo você? Tentando revogar minha sentença de morte quando chegarmos ao nosso destino? Você escolhe. — tudo dito baixo e rouco em seu ouvido, e intercalado com mais mordidinhas.

— Wood, isso não é lugar… os trouxas estão olhando. — rosnou entre os dentes, sem chance de impedir seus avanços porque isso significaria ter que soltar suas mãos da barra.

— Deixa os trouxas olharem. — ele mordeu seu pescoço primeiro e depois chupou devagar, sua língua se arrastando molhada e quente pela sua pele já arrepiada.

— Oliver, eu vou cair.

— Se segura em mim…

Ela não teve opção senão obedecer, já que ele chegou à sua boca e, para lhe dar acesso, ela precisou soltar uma das mãos. Isso ofereceu a Oliver a chance de se encaixar em frente ao seu corpo, envolver sua cintura e firmá-la entre ele e a parede do vagão. Ela se viu entre a vibração do trem e o calor do corpo dele, com a língua quente e macia exigindo o atrito com a sua. A coisa toda era tão absurda, beijando daquele jeito em público debaixo da terra, como em nome de todos os deuses chegara àquele ponto?

Parou de pensar quando ele deu uma mordida exigente em seu lábio inferior, demandando sua total atenção para a atividade. A partir daí, a voz misteriosa que anunciava as estações virou um murmúrio de fundo, os trouxas deixaram de existir e ela estava derretendo na boca de Oliver.

Dezessete estações passaram num piscar de olhos.

— BD —


Sirius lhe advertira sobre as duas opções de saque no Banco Gringotes — com e sem emoção — e lhe aconselhara a optar pela última, dado a necessidade de ser rápida. Ela ficou feliz em saber, enquanto esperava, que se livrara de uma viagem por trilhos à outro subsolo macabro, dessa vez nas entranhas sob o Beco Diagonal, e ao invés disso estava esperando numa sala confortável cheia de sofás de couro marrom e tapetes que deviam custar seu peso em ouro.

Uma parte dela esperava que Gavril Romansek entrasse pelas portas duplas talhadas em motivos célticos, arrastando um olhar arrogante e exigindo saber o que ela fazia em seu território. Era besteira, sabia: o Olho de Hóris certamente não ficava ali na sede de Londres, tomando conta dos trabalho dos duendes. Não quando precisava dar conta dos detalhes sórdidos da vida dos outros para depois fazer chantagem baixa.

Mesmo assim, parecia que tinha um bicho nervoso palpitando sob as costelas, e Oliver não parava de falar.

— …e então eu vomitei em cima de Megs, por acidente claro, e é por isso que fiquei uns cinco anos proibido de acompanhar a família até o cofre quando vínhamos sacar dinheiro. — Oliver terminou sua fascinante história, recostando-se ao sofá com uma postura digna de ‘e nós vivemos felizes para sempre’.

— Fascinante. Você conta história de vômito para todas as garotas, ou isso é um privilégio meu?

— Eu só estava tentando explicar porque sacar dinheiro aqui é pior do que andar de metrô. Não sabia que tinha a opção de mandar o duende ir sozinho e ficar esperando numa sala coberta de ouro.

Ela rolou os olhos pela sala, que era apenas dourada, não coberta de ouro; mas nem por isso menos coquete. No fundo, desconfiava que tinham sido mandados aguardar ali por causa do seu sobrenome; o duende que os atendera tinha realmente olhado para ela quando o mencionara – coisa que não acontecia por todo o tempo em que estivera usando o distintivo enfeitiçado, em Hogwarts. Quando Bervely percebeu que talvez tivesse sido melhor dar um nome falso, já era tarde demais.

Ele lhe perguntara se ela queria acessar o cofre ‘da família’, e a tentação de dizer sim foi enorme, mas não era como se ela tivesse a chave ou qualquer tipo de autorização para isso. Não parecia o momento certo para descobrir se era mesmo herdeira de Bellatrix Lestrange, não com Oliver ali do lado todo curioso e empolgado. Bervely desconfiava que as coisas que haviam dentro do cofre ‘da família’ eram do tipo que fariam Oliver reavaliar sua escolha de acompanhá-la naquela ‘aventura’ ou em qualquer outra pelo resto da vida.

— Não, quero sacar do cofre Canis Major. — dissera ao duende, entregando a chave cheia de entraves que pegara no apartamento, escondida sob uma tábua solta debaixo da cama do quarto de casal, liberada por um feitiço específico. Ela gostaria de ter perguntado a Sirius porque ele tinha uma chave secreta de seu cofre secreto guardada secretamente no apartamento da noiva, mas não lhe ocorrera e agora era tarde.

O duende os colocara naquela sala e um elfo tinha vindo servir biscoitos de gengibre e água de gilly minutos antes. Ele tinha-na chamado de ‘Madame Black’.

— Por que o cofre se chama Canis Major? — Oliver perguntou ao seu lado, ainda com a cabeça inclinada para trás, olhando os desenhos que decoravam o teto da sala de espera.

— Não faço ideia. – mentiu.

— De quem é esse cofre? Seu?

— Não.

— Foram duas perguntas.

— Eu só posso responder uma.

— Os mistérios da ‘Madame Black.’ — ele zombou, arrastando a voz com efeito.

— Não me chame desse jeito.

Felizmente o duende não demorou muito para voltar com um enorme saco de dinheiro que ela enfiou logo na mochila. Recebeu a chave de volta, guardou em segurança em seu bolso e olhou impaciente para trás.

— Wood, vai ficar ai o dia todo?

Ele ainda estava sentado e olhando para o teto, seus olhos apertados e desconfiados de onde ela podia ver.

— Estou indo, mas olha ali… aquilo não parece uma corrida de vassouras pra você?

— Tenho bastante certeza que é só uma árvore. Vamos, Oliver.

— BD —

Um chuvisco suave começou a cair quando eles deixaram o banco dos bruxos e saíram à procura da loja de artigos para quadribol. Bom, não exatamente à procura, mais como ‘na direção’, já que Oliver sabia exatamente onde ficava. O maior centro de compras da Grã-Bretanha também estava todo decorado com motivos natalinos para onde quer que olhasse: renas e fadinhas, neve encantada e música natalina, sinos pendurados nas portas da loja, eletrizando sua espinha toda vez que alguém entrava e saia de uma loja por perto. O motivo natalino destoava fortemente dos cartazes de ‘procurado’ com a cara de Black, colados onde quer que seu olhar alcançasse.

Artigos de Qualidade para Quadribol ficava entre o Apotecário e a loja de animais. Logo ficou claro para Bervely que a fascinação de Wood pela tal Firebolt era compartilhada por outras pessoas insanas — só isso explicava uma vitrine dedicada exclusivamente à ela. Fora colocada em destaque no centro, num mostrador dourado exuberante e forrado com um veludo mais macio do que sua colcha de Hogwarts. Um monte de crianças abaixo da idade escolar pareciam atraídos magneticamente naquela direção, e até mesmo alguns adultos.

Oliver se tornou um deles, é claro. Quando chegaram perto o suficiente, o grifinório ficou encarando a vitrine como se estivesse diante de uma aparição do próprio Merlin em sua versão madeira e cerdas. Ela meneou a cabeça e entrou na loja… que era gigantesca.

Possuía três andares, o segundo e o terceiro visíveis do térreo porque ocupavam apenas as laterais da loja — no centro fora instalado uma espécie de aquário enorme e alto onde as pessoas podiam entrar e testar as vassouras, dispostas em suportes ao longo da parede ao fundo da loja. Haviam manequins encantados, vestidos com uniformes completos de vários times famosos circulando pela loja, pomos de ouro zumbindo em torno do balcão, uma série de Goles comemorativas em um mostrador que ocupava grande parte do segundo andar…

Um vendedor veio correndo até ela, tentando lhe mostrar as últimas novidades em equipamentos de segurança, mas ela não queria ver qualquer coisa. Sua cabeça estava dando sinais de dor só de estar ali dentro cercada de tanta energia quadribolistica.

— Eu quero a melhor vassoura que você tiver. — disse, reprimindo um suspiro resignado. Ainda não acreditava que Sirius Black lhe confiara aquela missão – e que aceitara.

O vendedor, por outro lado, parecia estar tendo o melhor dia da sua vida.

— BD —

Difícil foi achar – e arrancar – Oliver de dentro de Artigos de Qualidade Para Quadribol. Ele trazia um olhar ligeiramente insano, que ficava lançando para uma coisa e outra como se não pudesse se controlar — kit de polimento de vassouras profissional, uma goles de couro de dragão cheia de escamas que acendia em brasas quando passava pelo aro, a própria Firebolt, que queria testar à todo custo, apesar das cinquenta pessoas na fila de espera…

— Eu estou indo, Wood. Nos vemos ano que vem, que é quando você vai conseguir chegar ao fim dessa fila.

— Mas você ainda tem que comprar a vassoura! — ele disse com uma nota de desespero, seus olhos meio maníacos indo dela para o aquário de testes e depois para ela de novo.

— Eu já comprei.

— A Firebolt?

— Talvez.

— Mesmo?

— Eu disse talvez. Pare de me olhar assim, você está me assustando. — acrescentou, torcendo o nariz. Ele saiu da fila como um sonâmbulo, os olhos vidrados.

— Você não pode fazer esse tipo de coisa comigo. Você não pode ter uma Firebolt de verdade com você e se recusar a confirmar essa informação.

— Eu mandei entregar, não estou com ela aqui.

— Você tem que me dizer para quem é, Rose. — Ele lhe segurou pelos ombros, colocando a cara perto da sua. Ela se afastou uns passos para trás.

— Estou saindo daqui, ok? Não gosto do Oliver dentro dessa loja, há alguma coisa seriamente perturbadora com esse lugar e o que ele faz com você.

— Rose… Rooooose…

Ela balançou a cabeça e foi se afastando em direção à porta, segurando o riso quando o grifinório começou a imitar um zumbi, indo em sua direção com os braços estendidos e tropeçando.

— Roooose, me dê a vassoura, Rooose, me mostre a vassoooura…

— Você é um ridículo, eu desisto. — avisou, empurrando a porta com o cotovelo e saindo de costas para a calçada. Acabou esbarrando com um passante e virou ao perceber que a pessoa tinha derrubado alguma coisa. — Sinto muito, senhora–

Mas ela não tinha esbarrado em alguma senhora desconhecida. Quando a mulher se ergueu, e o cabelo loiro lustroso deslizando da frente do seu rosto para os ombros em perfeito alinhamento, Bervely sentiu o coração ir parar na boca. O par de olhos azuis vítreos pousaram nela, crescendo na surpresa do reconhecimento.

— Bervely? — Narcissa Malfoy perguntou, seus olhos muito abertos.

Oliver saiu da loja, falando.

— Rose, me espera, larga de ser… — Mas se interrompeu quando percebeu a estranha cena, a senhora loira e elegante e a adolescente paralisada. — Oh, olá.

Não que Narcissa tivesse notado a presença dele. Ela deu um passo para frente, na direção da sobrinha que não via há dois anos, sua mão estendida.

— Bervely…

A garota recuou, escapando do contato, sua boca entreaberta e os olhos pregados na imponente bruxa em vestes esmeralda bordadas. Viu a sua mão branca cair lentamente ao lado do corpo, e viu também que ela erguia a máscara por sobre a surpresa momentânea com muita habilidade.

— O que está fazendo aqui, você não deveria estar na escola? E quem é o seu… amigo?

Oliver olhou desconfiado de uma para a outra, especialmente para a palidez fantasmagórica no rosto da sonserina.

— Rose, você conhece essa senhora?

— É claro que ela me conhece — disse Narcissa altivamente, suas lascas azuis se estreitando — Eu sou a tia dela.

Mas Bervely negou vagarosamente. De repente ela parecia estar se movendo sob água. Seus pulmões se sentiam da mesma maneira.

— Não. Eu não sei quem ela é. Com licença.

E saiu. Saiu andando depressa e sem direção, sem querer saber para onde estava indo, só para longe. Havia um gosto amargo espalhando-se em sua boca, seu coração palpitava forte e ela não estava vendo o caminho, porque seus olhos estavam cada vez mais embaçados.

Esbarrou em um monte de gente, mas continuou em frente, sem ligar para as reclamações. Não tinha culpa se eles atulhavam a rua, todos em seu caminho, não tinha culpa se não conseguia respirar, não tinha culpa…

— Rose!

A voz dele a levou a estreitar o passo, dobrar uma esquina, escorregar e quase cair numa parte molhada da calçada. Continuou em frente no entanto, o coração ainda aos pulos, pronto para escapar pela garganta e ir correndo na frente se não o acompanhasse.

“É claro que ela me conhece, eu sou a tia dela.”

Como ela se atrevia?

— Rose, por favor!

Mãos seguraram cada lado de seus ombros, e ela teve uma sensação de dejà vu que veio como um soco no estômago. Oliver deu a volta em torno dela, fazendo com que ficassem frente a frente e forçando-a a olhá-lo.

— Hey! O que aconteceu, quem é aquela mulher?

— Eu não sei. — Sua voz falhou e junto com os seus olhos pinicando, ela sabia o que estava por vir. Tinha plena consciência de que seus olhos estavam vermelhos e prestes a transbordar, mas não ia cair em prantos na frente de Oliver mais uma vez.

Tirou as mãos dele de seu ombro e virou de costas, apertando os olhos com os punhos da blusa até secá-los.

— Rosie… por favor. Eu sei que ela conhece você, porque ela te chamou pelo nome, ela fez alguma coisa…?

— Está tudo bem, Wood. — disse com a voz controlada, depois de respirar profundamente várias vezes.

— Não me venha com “Wood”. — brigou, passando um braço pelo ombro dela. Era incrível como ele não sabia quando manter distancia. — Eu sou “Oliver”, lembra? E você é minha Rose, e precisa me dizer o que aquela mulher fez para lhe chatear, porque eu vou lá espetar ela com o cabo da Firebolt, que você vai me emprestar, é claro.

E Bervely riu. Por que ele era tão idiota. Por Merlin, era ela quem devia espetá-lo bem forte com o cabo de uma vassoura. Talvez devesse considerar usar a varinha. Por que sabia que ele ainda estava esperava resposta, deu um suspiro contrariado.

— Eu só não esperava encontrá-la aqui hoje. Ou nunca, pra falar a verdade.

— Ela é mesmo sua tia?

— Sim. — assentiu, apertando os lábios.

— Irmã de Bellatrix ou…

— Bellatrix. — respondeu rápido. Ele assentiu, parecendo compreender. Ainda estavam no meio da rua, a chuva começara a cair mais grossa e ele devia ter reparado que ela estava tremendo, embora não fosse muito do frio.

— Vamos tomar um chocolate quente, assim você pode me contar tudo sobre sua tia. Ou sobre a Firebolt e quem será o felizardo a ganhá-la… você escolhe.

Bervely girou os olhos, olhando na direção para onde ele apontava. Estavam bem na frente da Florean Fostercue — é claro que seus pés lhe levariam ali. Previsível.

— BD —

Oliver não conseguiu convencer Bervely a dar mais uma volta na ‘geringonça trouxa subterrânea’ depois que saíram da Florean Fostercue, de forma que eles aparataram de volta à Hogsmeade em segurança. E apesar de sua ausência não ter sido notada, agora a grande parte dos alunos estava ocupando a vila, a neve parara de cair e o dia estava mais ameno – por consequência, mais movimentado. Num acordo silencioso, eles decidiram se despedir na própria estação, usando como esconderijo a área de guarda-volumes atrás dos guichês.


— Eu ainda estou digerindo o fato de que você é parente de Draco Malfoy. Se eu passar a lhe evitar a partir de agora, é porque a realidade dessa afirmação foi completamente assimilada.

Ela lhe deu um olhar de advertência, mas não com muito afinco. Contara a Oliver sobre Narcissa, mencionara ter passado a infância com a família Malfoy e narrara por alto como deixara a casa aos quinze anos, omitindo as razões pelas quais saíra. No final, sua história ficou parecendo um caso de rebeldia adolescente, mas era melhor assim. Ela teria evitado falar sobre os Malfoy, mas a outra opção era ele continuar insistindo a respeito da Firebolt e ela definitivamente não podia falar mais à respeito.

— Você não conseguiu me evitar depois de descobrir o passado criminal de meu pais, Oliver. Dificilmente vai conseguir agora.

— Você tem um ponto aí. — respondeu com um sorriso resistente. — Mas se você não me der nem uma pista de para quem essa Firebolt vai, talvez eu tenha de parar de te ver porque eu estarei estatelado de curiosidade na minha cama. Honestamente, não acho que resisto à essa noite…

— Dramático. Eu não vou lhe dar nenhuma pista. E você tem que prometer que vai ser discreto sobre isso.

— Se essa vassoura for… ah, meu MERLIN. Se essa vassoura for para Malfoy eu juro que vou dar um jeito de ela se encontrar o Salgueiro Lutador no próximo jogo! — jurou, cheio de horror.

Oliver. — grunhiu, segurando o queixo dele entre o seu indicador e o polegar para trazê-lo à razão. — Discreto. Nem um pio. Entendeu?

— …é óbvio que todo mundo sabe que eu jamais faria isso com uma Firebolt, mas eu posso muito bem jogar Malfoy contra o Salgueiro…

Ela puxou o rosto dele contra a sua boca – o melhor jeito de calá-lo. Quando se afastaram, Oliver tinha um sorriso bobo de uma orelha à outra.

— Entendi. — Assentiu exibido todos os dentes.


— Precisamos ir. — Ela lhe deu um pequeno tapa no ombro, como sinal para ele se desenroscar de sua cintura, mas o resultado foi ele lhe apertar mais ainda. — É sério, capitão, vão dar por nossa falta.

— Como posso te largar quando você me chama assim?

Ela lhe deu um sorriso convencido. Oliver se inclinou para beijar seu queixo, provocando ao roçar o rosto no dela, lhe dando a chance perfeita para murmurar em seu ouvido:

— Posso pensar em te chamar assim mais tarde, se estiver interessado.

Ele estremeceu, cerrando os braços em torno do seu corpo.

— Eu estou muito interessado.

— Eu posso sentir, capitão. — confidenciou com malícia. Não era nenhuma mentira, o interesse dele pressionava a sua barriga de forma bastante contundente.

— Você vai me matar desse jeito, eu juro. — gemeu Oliver em seu ouvido, meio sem ar.

Por mais que ela apreciasse deixar Wood sem fôlego, precisou afastá-lo rapidamente, porque achou que tinha visto um rosto conhecido. Seus olhos se arregalaram para a multidão de pessoas que iam e vinham na estação, para as quais estavam relativamente fora de vista ali. Mas não havia ninguém familiar, devia ter sido alarme falso.


— Precisamos mesmo ir. — salientou, ignorando o olhar faminto dele, tarefa das mais difíceis.

— Eu vou aceitar esse convite para mais tarde, se continuar de pé. — disse ele baixo quando ela ia embora.

Bevy lhe deu uma piscadela, depois seguiu até sumir porta afora, para a temperatura negativa. Não ligou. No saldo daquele dia o seu interior estava estranhamente aquecido, e era tudo que importava.

— BD —

À essa altura, ela já devia saber que qualquer sentimento de bem aventurança em sua vida não durava muito tempo.

No dia seguinte – um domingo luminoso, nem por isso menos frio do que o anterior – ela foi acordada com batidas insistentes na porta de seu quarto. Tentou ignora-las, mas só se tornaram mais fortes, virando um pesadelo dentro da sua cabeça semi-adormecida.

Praguejando, Bervely se enrolou num lençol e foi abrir uma fresta. Estava supondo uma emergência com primeiranistas; alguém que tinha resolvido duelar de madrugada e acabara passando a noite no salão comunal petrificado – porque eles ainda faziam isso? Ou então uma reunião de emergencia com os professores porque Black voltara a invadir o castelo… diabos, ela esperava tudo, menos uma Tara Romansek muito sorridente parada no corredor.

— Desde quando você bate? — rosnou, a voz rouca de sono, abrindo o resto da porta e dando as costas para voltar à sua cama. Certamente que não era urgente, se a ruiva estava tão bem humorada.

— Desde quando eu não quero dar de cara com a bunda pelada de um grifinório por acidente. Mentira, eu quero sim. Onde ele está?

— Não tem ninguém aqui, Tara. — murmurou para o travesseiro, onde acabara de enfiar a cara.

Não com muita surpresa, ouviu a porta ser fechada e segundos depois, seu colchão afundar. Ficou quieta, fingindo que caíra do sono novamente para ver se a garota desistia e ia embora. Admitia que não era uma estratégia com histórico de sucesso.

— Mas tinha, não tinha? — a menina ronronou, interessada. Houve mais movimento no colchão e então, um suspiro prazeroso — Humm, cheiro de capitão-magia impregnado nos travesseiros. É assim que chamam ele, não é?

— Pare com isso. — resmungou, esquecendo que fingia dormir. Seu rosto estava quente, bem como outras partes de seu corpo, apenas em pensar no cheiro de Oliver que sempre ficava em sua roupa de cama.

— Humm, você não o deixa passar a noite? Assim é mais emocionante, esse amor bandido de vocês? — provocou, deitando-se ao lado dela, pelo que Bervely pode deduzir dos movimentos atrás de si. — Me conte, B. , você e o capitão-magia passaram a noite em claro fazendo muito exercício, é por isso que está tão mau humorada? Não devia ser o contrário? Acordar felizinha e relaxada…

Pare de chamar ele assim. — censurou sob a respiração. Podia sentir a proximidade dela desde seu pescoço até os pés, e se arrepiou quando as unhas de Tara roçaram em sua pele, abaixando a alça da camisola do seu ombro. — Tara, o que é que você pensa que está fazendo?

— Procurando evidencias — disse rouca, arrastando as unhas até seu pescoço e tirando seu cabelo do caminho. Desnecessário dizer que Bervely se arrepiou em partes que ela nem sabia que podiam arrepiar. — Uau, isso é uma mordida?

— Vai pro inferno. — praguejou, tirando a mão dela dali com um tapa. Tara deu uma gargalhada, sua mão pousando na base das costas de Bervely. O indicador começou a desenhar círculos no cetim de sua camisola.

— Se você quisesse mesmo isso, não tinha nem me deixado entrar.

— Eu não estava pensando, é muito cedo. — se defendeu, apertando os dentes quando a carícia teve resposta em seu corpo sensível. Ela não queria dar o braço a torcer e deixar Tara saber que tinha tanto efeito nela, então resistiu em se mover e afastá-la mais uma vez.

— Anda, B. , me conta alguma coisa… minha vida anda tão desinteressante, deixa eu me divertir com a sua. O capitão é bom com as mãos? Com a boca? Ele gosta de chup…

— Wood é muito bom em tudo. — disse com altivez, girando seu corpo na cama até ficar de frente, o que consequentemente fez com que a mão de Tara fosse parar em sua barriga. Mas o pior eram seus olhos, cheios de malícia divertida, tão dilatados que estavam quase negros. — E eu não vou dividir os detalhes da minha vida sexual com você só porque está entediada!

— Não é porque estou entediada. Merlin, Bervely, sua versão pós-sexo é tão sexy, que vontade de terminar o que Wood começou e te morder inteirinha.

Pare de falar essas coisas.reclamou, erguendo o corpo para sentar, porque ficar deitada ali enquanto Tara estava em posição de ataque a deixava em clara desvantagem. Além do mais, suas estranhas tinham acabado de responder ao comentário com um contorcionismo comprometedor. — Tara, eu espero que haja um motivo para essa invasão ao meu dormitório, a não ser esse assedio fora de propósito e completamente… perturbador.

Ela lhe deu um olhar atravessado muito típico.

— Perturbador, é? Sei. Tenho motivo sim, minha flor de obsidiana. Seu professor favorito quer ver você.

Essa noticia sim era perturbadora. De uma forma totalmente diferente.

— Por quê?

Como se ela não soubesse. Como se o frio arrepio do medo não estivesse se alastrando pela sua espinha naquele exato momento.

— Se eu não soubesse que você é a rainha das masmorras e do coração do morcego, diria que está em apuros.

— BD —

— Entre, Srta. Black.

Apesar de ter batido na porta, a última coisa que ela queria era entrar no laboratório de Snape. Só havia um motivo para ele ter lhe chamado ali. Faltavam duas semanas para a lua cheia, e era hora de começar Wolfsbane.

Correção. Seria a hora de começar Wolfsbane.

— Bom dia, professor Snape.

Snape estava cortando uma serie de raízes de siracuza em pequenos pedaços perfeitamente iguais. Não ergueu o rosto para responde-la:

— Para alguns, talvez, mas suponho que não para o professor Lupin. Faça a gentileza de informá-lo que esse mês não será possível cozinhar Wolfsbane.

Ela sentiu seu coração cair até o pé.

Eu preciso avisar a ele? — Sua voz atingiu um tom mais agudo que o normal, contra a sua vontade.

— Evidentemente.

Ela teve certeza que ele sabia. Seu rosto apontou para o chão porque, apesar de Snape nem estar olhando para ela, Bervely se viu incapaz de encará-lo. Provavelmente para o resto da vida.

— Sim senhor, professor.

Se virou para sair, devagar. Intimamente, estava esperando que o buraco que ia engolir seu corpo e salvá-la da humilhação se abrisse no chão naquele exato momento.

— E Srta. Black?

Estancou, a mão na maçaneta, mas sem realmente sentí-la sob os dedos dormentes.

— Sim, senhor?

— Da próxima vez que eu vê-la, eu espero que esse livro esteja em sua mão. Eu não me importo com o motivo que a levou a roubá-lo do meu acervo. Eu nem mesmo quero saber que tipo de leviandade estúpida levou-lhe a pensar que eu não saberia exatamente o que fez. Eu suponho que possa prever as consequências que recairão sobre mim no momento que o departamento de controle de artefatos mágicos souber que o livro não está mais em minha posse.

— Sim, senhor. — ela disse, sua voz parecendo sair de debaixo de uma pedra, de tão abafada.

— Eu quero lhe assegurar que qualquer e todo ônus à minha carreira profissional será refletido na sua carreira acadêmica, e eu não preciso dizer para quem isso será mais devastador.

— Não, senhor, não precisa.

— Lembre-se que eu sou um Mestre de Poções com uma reputação distinta, ao passo que a senhorita é nada mais do que uma estudante irresponsável. – Ele fez uma pausa, na qual encarou o caldeirão fixamente embora não parecesse vê-lo. – Pode se retirar agora.

Ela se retirou. E andou cinco passos, encontrando uma sala vazia na qual pudesse se trancar.

E então chorou, pelo resto da tarde, como não chorava desde que tinha cinco anos.

— BD —

Ao fim do dia, Tara encontrou Bervely sentada em frente à lareira do salão comunal da Sonserina, olhando fixamente para as chamas esmeraldas como se estivesse num estágio avançado de hipnose. Alguém comentara que a garota já estava ali há horas, sentada na mesma posição, ignorando qualquer um que se aproximasse (embora poucos tivessem reunido a coragem).

Bem, Tara tinha coragem.

— Hey, B. — Sentou-se ao lado da colega, cruzando as pernas em lótus. — Será que podemos conversar um minuto?

Silencio, sem qualquer sinal de reconhecimento.

— Foi tão ruim assim com Prof. Snape? Ele colocou você pra limpar caldeirões de Poção Furunculosa? — Nada. — Hey, o que está lendo?

Catou no chão um livro antigo, cujo título dizia La Voix du Sang. Tara folheou algumas páginas marcadas. “Canção Vermelha”, “Rubi Maleficarium”, “Infernus Sanguinis”. Não conhecia nenhum daqueles feitiços, mas não lhe pareceu uma leitura saudável, mesmo se tratando de Bervely.

— Estamos sem senso de humor hoje? – tentou de novo. – Ok. Não vou forçar a barra. Só preciso de um favor mínimo. Na verdade são dois, mas um meio que está dentro do outro, então é como se fosse um só.

Tara esperou que ela fizesse a reclamação de rotina sobre as suas requisições constantes, mas tudo que Bervely fez foi piscar para o fogo. Ela não parecia em transe, só desinteressada. Seus olhos estavam avermelhados, as bordas rosadas e irritadas, como se tivesse chorado. Tara aproveitou o silencio para ir em frente:

— Bem, o primeiro deles não é nada demais, apenas me mandar Wolfsbane para mim quando a hora chegar. — disse isso num sussurro mínimo para os outros colegas no salão não ouvirem. — A outra é que eu decidi passar o Natal com Bae, em Snowfall. Mas eu assinei que ficaria no castelo e meio que preciso que você me cubra durante esse feriado. Eu encomendei um pouco de poção polissuco, então se você apenas puder ser vista como eu um par de vezes, para os professores acharem que eu estou por aqui muito ocupada estudando… acha que pode fazer isso?

Bervely lhe olhou como se a visse através de água turva.

— Polissuco?

— Sim. — Tara sorriu, feliz de que estavam tendo avanço na comunicação. — Vou deixar uma mecha do meu cabelo em seu quarto. Você pode, então? Já que vai ficar no castelo para o Natal? Eu vi que assinou seu nome na lista também.

— Claro. — disse quietamente. Tara abriu um grande sorriso.

— Não deixem te chamarem de vadia do coração de pedra. B. Você é demais. E quando eu voltar, vou lhe retribuir com muitos, muitos beijos. Alguns deles serão em lugares que o capitão não aprovaria.

Ela saltou para fora dali feliz e leve, acreditando que tudo estava resolvido.

Bervely não se moveu de seu lugar por outras três horas, vendo o fogo queimar até se tornar cinzas.


— BD —

Quando a segunda feira chegou e o trem partiu levando os alunos até as suas casas para o feriado de Natal, Tara se infiltrou nele e deixou, como combinado, polissuco e um cacho de cabelo ruivo em seu travesseiro.

Mas apesar de ter concordando com o plano de Tara, Bervely não acreditava nem por um segundo que conseguiria enganar Gavril Romansek sobre o paradeiro da sua filha, ficando ali em Hogwarts e fazendo aparições ocasionais no corpo da ruiva. Ela jogou a polissuco pelo ralo, mas guardou a mecha de cabelo. Pareceu-lhe uma estupidez jogá-la fora mesmo que não precisasse dela para dar um álibi à Tara.

Ainda assim, ela o fez por uma semana inteira — surgindo aqui e ali com a aparência da garota, perambulando também com a sua própria aparência ao longo dos dias de recesso. Ela se certificou de que Anne receberia o seu presente de Natal, e deixou um bilhete preso à haste do seu caldeirão, no acaso remoto de Snape ir procurar por ela.

Então, foi até a sala da diretora, dar seguimento ao plano. Parecia-lhe muito errado desperdiçar a chance.

— Prof. McGonnagal?

— Entre, Srta. Holmes.

Entrou quietamente na sala, um olhar obstinado nos olhos verde-oliva quando sentou na cadeira com as costas retas. McGonnagal estranhou a falta dos acessórios usuais da garota, e até do batom escuro que ela normalmente usava, em contravenção constante ao uniforme.

— Professora, eu mudei de ideia sobre o feriado. Se não for muito incomodo, eu poderia usar a sua lareira? Sei que não é o procedimento padrão, mas eu estou com saudades de casa.

Se Minerva tinha um ponto fraco, era seu espirito natalino aflorado. Ela estreitou os olhos, mas Tara Holmes se manteve firme e talvez um pouco miserável, que no fim foi o que endossou a sua concordância ao pedido.

— Está bem, Srta. Holmes, dessa vez abrirei uma excessão e farei a ligação com a sua casa. Eu acredito que o seu pai esteja lhe aguardando?

— Ele não está, professora. Mas é essa a questão… eu quero fazer uma surpresa.

A face de Tara Holmes sorriu convincente. Mas no seu interior, que atendia pelo nome de Bervely Black, só havia uma fria obstinação em funcionamento.

'Cause I need more time just to make things right
Yes, I need more time just to make things right

(Pois eu preciso de mais tempo para acertar as coisas
Sim, eu preciso de mais tempo para acertar as coisas)

(Don’t Go Away – Oasis)

(Continua…)

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Notas finais
Lembrando que esse é o último capítulo a ser comentado para a participação no sorteio! ;*