Indigna Rosa Negra
57 A Caixa, a Rosa e a Coleção
Notas iniciais
Blackbird singing
in the dead of night
(pássaro negro cantando
na calada da noite)
Take these broken wings
and learn to fly
(pegue essas asas quebradas
e aprenda a voar)
Hogwarts, 23 de dezembro.
Ela pensou que a época dos maus pressentimentos tinha ficado para trás.
Rolando em sua cama sem conseguir cair no sono, Johanne Black era incapaz de afastar o peso incomodo que pressionava seu peito, deixando rasa a sua respiração e os seus movimentos, inquietos.
Você está imaginando coisas, disse severamente para si mesma, para ver se conseguia se convencer. Mas a Orbe, quente contra seu peito por debaixo da camisola, dizia que havia sim alguma coisa tentando emergir, e sendo bloqueada antes que lhe atingisse consciência. Ela achava que tinha a ver com a caixa.
Desistindo de dormir, Anne se sentou na cama em seu dormitório da Corvinal e esfregou os olhos. Então ela tateou até sua mesa de cabeceira e alcançou o objeto pequeno, passando os dedos sobre o entalhe que havia na tampa. Já descobrira que se tratava de uma árvore, não era difícil diferenciar o formato em baixo relevo do tronco e o ponto onde se tornava uma copa ampla e achatada. E bem abaixo dela havia uma frase. Passou seus dedos pelas palavras, mas é claro que não podia lê-las desse jeito, ainda.
Havia um feitiço, no entanto. Mais cedo, quando a caixinha fora deixada em sua cama por uma coruja, sem nenhum bilhete, Anne usara a sua varinha para fazer as palavras soarem alto. Ela tomou um susto ao perceber que a voz era familiar; o feitiço fazia com que as palavras soassem na voz de quem as escrevera, e então Anne soube que quem gravara as palavras sobre aquela caixa fora sua mãe.
“Quando precisar de força, procure no amor.”
Por isso, ela não precisou de muito tempo para entender à quem aquela caixa fora dada por Olivia Loren. Até onde seu avô lhe contara, sua mãe amara uma única pessoa em sua vida, e este fora Sirius Black.
Sirius Black, o homem que destruíra tudo que ela amava, deixara aquilo em seu dormitório, e ela não conseguia entender bem porque ele o faria. Para aterrorizá-la? Como se não fosse o bastante invadir a escola no Dia das Bruxas e estraçalhar a mulher gorda. Ou Anne saber que ele estava rondando a escola, porque mesmo que usasse a Orbe o tempo todo, ela sempre tinha a sensação de que Black estava espreitando no escuro.
Talvez tivesse enviado aquela caixa para que ela, sabendo que era de sua mãe, abaixasse a guarda. Mas só Merlin podia saber que coisa haveria ali dentro, e Anne estava pensando se deveria entregá-la a um professor, ou mesmo jogá-la direto na lareira.
Ela não fez nenhuma das duas coisas. Ao invés disso, ficou rolando na cama, convencendo a si mesma a não tirar a orbe do seu pescoço, porque da última vez que algo assim tinha acontecido, ela vira todos os passos de Black dentro do castelo e ele era o assustador cão negro que parecia um Sinistro, seus olhos brilhando no escuro, procurando sabe Merlin o que, talvez ela ou Bervely. Prometera à irmã que não ia contar aos professores o que vira, mas se ele podia enviar corujas para seu quarto quando bem entendesse, isso não era perigoso?
Então ela soube o que faria. Assim que amanhecesse, iria achar Bervely e lhe mostrar a caixa. Ela saberia o que fazer, e se fosse perigoso, ela ia concordar em contar sobre Black para os professores.
Depositando a caixinha de madeira de novo ao lado da cama, Anne voltou a deitar e ajeitou o lenço sobre o rosto, a pressão em torno dos seus olhos lhe provendo uma sensação de segurança. Mesmo assim, não conseguia ficar tranquila.
A orbe ainda queimava. Alguma coisa ruim estava prestes a acontecer.
— BD –
Mansão Holmes-Romansek, 24 de dezembro.
Ao fim do dia, Bervely estaria se perguntando se sairia daquela casa viva.
Ainda estava a várias horas disso, no entanto – acabara de passar a sua primeira noite na Mansão Romansek e tudo tinha corrido melhor que o esperado.
Os elfos tinham-na recebido com a típica subserviente comoção, e fizeram questão de preparar seu jantar, arrumar seu quarto e deixar ‘Miss. Tara’ o mais confortável possível. Eles tinham se oferecido para avisar ao Sr. Romansek que ela estava em casa, mas fora rápida em lhes dizer que avisaria ela mesma.
Elfos obedeciam. Não precisava se preocupar com eles, desde que mantivesse o seu disfarce. Estava bem claro que Tara mandava e desmandava naqueles elfos com a autoridade de dona da casa na ausência do pai.
Manter o disfarce, por outro lado, não era tão fácil. Havia uma certa complexidade envolvida em estar na pele de Tara Romansek.
— Miss. Tara, está precisando de alguma coisa para o banho?
Bervely cobriu rápido o próprio corpo, que estivera analisando no gigantesco espelho no banheiro. Se esquecera como elfos podiam ser invasivos na privacidade dos mestres. A maioria não se importava, mas ela nunca apreciara aquelas aparições súbitas em sua época de Mansão Malfoy.
— Não, saia daqui.
— Mas seus sais de cereja…
— Saia!
O elfo deu um gritinho e desaparatou, deixando-a só do banheiro de novo. Recuperando-se do susto, deixou cair o penhoar no chão de mármore e rolou os olhos para o reflexo no espelho. Ela tinha sentimentos conflitantes sobre aquela aparência; especialmente porque era errado se sentir atraída pelo seu próprio reflexo…
Suspirando, se afundou na banheira de Tara, que mais parecia um pequeno lago, e ficou boiando na água quente e aromática enquanto tentava fingir que tinha tudo sobre controle. Já estava ali, isso era grande coisa. Agora, precisava de um plano. Um plano esperto, bem construído, que a possibilitasse sair sem ser desmascarada e sem chamar a atenção do Olho de Hórus.
Pegar o livro. Dar o fora.
Isso era tudo que sua genial mente conseguia planejar no momento. Desde que pisara ali, era só o que pensava. Nem dentro de Azkaban estivera tão nervosa, e eles tinham dementadores, pelo amor de Merlin. A noite fora intranquila, cheia da sensação de que estava sendo observada, e não ajudou que no pouco tempo em que conseguira tirar umas sonecas, tivera sonhos perturbadores, mas de um teor diferente. Sonhos relacionados ao cheiro do cabelo de Tara impregnado nos travesseiros, e da carícia sedosa dos lençóis de seda que cobriam sua cama e pareciam um toque suave.
Isso não está ajudando, Bervely Black. Foco!, reclamou consigo, esfregando o rosto molhado. Ela tinha uma hipótese bastante solida de onde estava Wolfsbane Edition – no escritório de Gavril, onde ele guardava as coisas importantes. Era como entrar lá que precisava descobrir. Devia ter todo tipo de feitiços de proteção, mas se fora capaz de entrar numa cela de Azkaban, com certeza invadir um escritório estaria ao seu alcance.
Essa era a sua versão otimista. Bervely quase não a conhecia.
— BD –
Por mais que reclamasse de precisar ser constantemente acompanhada por um dos colegas – normalmente Luna – para se locomover pelo castelo, Anne precisava admitir que ainda era complicado desvendar as centenas de corredores de Hogwarts sozinha. Já tinha sido difícil quando podia ver, mas no escuro a tarefa se tornara uma espécie de tortura, e não só pelas várias vezes em que tropeçava em coisas ou pessoas e precisava pedir desculpas.
Sorte que o castelo estava relativamente vazio, por causa do feriado de Natal. Se por um lado não havia ninguém para escoltá-la – os poucos alunos que tinham ficado da sua casa eram os mais velhos, estudando para os NOMS ou NIEMS, e ela preferia cair de uma das escadarias a ter que pedir ajuda a eles – havia muito pouca gente no corredor para topar com ela. De fato, Anne conseguiu fazer todo o caminho até os aposentos do seu padrinho sem nenhum grande problema; tudo isso para descobrir que ele não estava lá.
Ela arriscou o caminho para a Sala dos Professores, confiando na memória e seguindo as paredes com os dedos para se guiar e saber onde virar. Sabia que devia ser uma cena estranha, alguém caminhando com uma mão na parede e a outra esticada à sua frente, mas não ligava. Era melhor do que dar de cara com uma pilastra ou uma armadura – experiência própria, infelizmente.
— Entre. – uma voz soou do outro lado da porta, quando ela bateu no que estava certa ser a Sala dos Professores. Ao reconhecê-la, Anne quis dar meia volta e sumir dali, mas reuniu coragem e obedeceu o comando.
— Olá… prof. Snape.
— Srta. Loren. Em que posso ajudá-la? – respondeu ele com o tom severo de sempre. O professor de poções tinha o dom de fazê-la achar que estava fazendo alguma coisa errada, mesmo quando não estava.
— Eu só estava me perguntando… se o professor Lupin não estaria por aqui?
Ela esperou à porta, mordendo seu lábio. Se pudesse ver, bastaria passar seus olhos pela sala para ter sua pergunta respondida, embora tivesse certeza que se Remus estivesse ali já teria se pronunciado.
— O prof. Lupin está ausente da escola em razão do feriado.
— Ah. — soltou o ar com desapontamento. Estavam a alguns dias da lua cheia, então ela achou que Remus passaria o feriado na escola, já que ele tinha um local especial e seguro para se transformar em lobo ali por perto quando era necessário.
— Se isso é tudo…
— A monitora Black. – disse, quase se arrependendo em seguida. Mas agora era tarde, precisava completar a frase ou o professor a acharia uma idiota (ou confirmaria suas suspeitas, porque ela tinha bastante certeza que ele já pensava isso). — O senhor saberia onde ela está?
— Eu teria lhe dado a impressão de que me atualizo do paradeiro dos alunos desta escola, Srta. Loren? – Snape retrucou, sua voz retumbando pela sala. Anne deu um passo para trás por reflexo.
— Não, senhor. Sinto muito–
— E se me permite o conselho, eu não ficaria rondando pela escola vazia na sua condição. A escola não precisa do tipo de desastre que você produziu em minha sala da última vez que esteve lá.
Ela sentiu o fundo dos olhos formigarem, e apertou os óculos escuros de Andie em frente ao rosto, embora não estivessem escorregando. Deixou a Sala dos Professores tão rápido quanto pode, mas o caminho de volta a sua torre foi longo, e cheio de tropeços pelo caminho.
— BD –
— Mais chá, Miss Tara?
— Não… – tentou lembrar, mas não fazia ideia de como esse elfo se chamava.
— Dill.
Bervely ergueu os olhos para a criatura que trouxera a bandeja e lhe servira a primeira xícara. Ela tinha certeza que era o elfo que vira em Hogwarts – franzino, menos enrugado que os outros dois, olhos grandes e azuis – mas ele não tinha o sotaque que se lembrava. Talvez estivesse confusa, afinal elfos eram sempre tão parecidos.
— Seu pai contratou Dill… comprou, digo… faz poucos meses. É um prazer servi-la.
Ela se perguntou se Gavril Romansek exigia que seus elfos fossem alfabetizados, porque aquele nível de domínio do inglês era no mínimo estranho.
— Por que meu pai precisava de outro elfo? Já não temos o bastante?
A elfa não pareceu ofendida. Ela piscou seus grandes olhos e serviu mais chá, a despeito de sua negativa.
— Dill é elfa acompanhante de Mestre Gavril, não serve a casa como os outros.
— Ah, é, e porque não está com ele agora, então?
A elfa ia responder, mas um vulto atravessou a sala de jantar dos Romansek, quase provocado um ataque cardíaco em Bervely. No fim das contas era só um gato cinzento desbotado. Ele veio correndo até a criatura e deixou uma aranha morta aos seus pés, depois se sentou orgulhoso.
— Oh, não aqui. – A elfa lamentou, esfregando a testa – Sinto muito, Miss. Tara. Cobe não tem muita educação. Pra cozinha, vamos, gato mau… Com licença, Miss. Tara.
Ela observou a elfa ir e quando ficou sozinha, se permitiu soltar a respiração, colocando a mão sobre o coração disparado. Tinha tomado susto semelhante em seu caminho para o café da manhã, ao ver um vulto no corredor. Resultou que era o seu próprio reflexo, num dos muitos espelhos da Mansão. Eles refletiam uns aos outros fazendo jogos de imagem, de forma que nunca se sabia onde sua silhueta ruiva ia surgir.
Então, Gavril tinha um elfo acompanhante. Que devia ser outro nome para o comparsa que fazia o trabalho sujo, como colocar moedas sorrateiramente no bolso de outras pessoas. Sendo imunes aos feitiços de aparatação normalmente usados para bruxos, os elfos podiam ser muito furtivos e ninguém prestava muita atenção deles, na maior parte das vezes. Elfos eram invisíveis em sua insignificância… e Gavril Romansek era um esperto filho da mãe.
Bervely usou aquela manhã para explorar a casa, tentando ficar fora de vista dos empregados. Ela se lembrava apenas da sala de jantar na qual se sentara com Gavril e Tara, da primeira vez que visitara o lugar, no início das férias de verão; do terraço com vista para todos os lados, do hall de entrada e do caminho para o escritório, que ficava no terceiro andar.
Os quartos se localizavam no segundo andar – o de Tara, dois de visita, e mais dois que deviam ser o antigo quarto de Bae e o do próprio Gavril. Bervely resolveu dar uma volta pelos três primeiros, tentando não parecer muito suspeita.
Não havia nada de excepcional no de Tara, fora a decoração repleta de veludo creme e rosa chá, coisas brilhantes incrustadas, um closet que fazia inveja ao seu guarda-roupas modesto em Hogwarts… a cama da garota abrigaria umas seis Taras lado a lado e era macia como uma nuvem. O tapete que cobria o quarto inteiro era peludo e fofo; nem imaginava quantas chinchilas tinham dado suas vidas para forrar aquele chão.
Os quartos de visita eram desinteressantes e completamente impessoais, apesar de seguirem a lógica ostentosa da decoração. Galeões não tinham sido poupados para recobrir aquela casa do que havia de mais caro, mas ao contrário da Mansão Malfoy, tudo ali parecia ter como objetivo o conforto. As camas eram amplas, os móveis eram acolhedores, as janelas largas, feitas para a luz entrar e para tirar o máximo proveito da paisagem marítima. A lógica a surpreendia… era como se Gavril tivesse projetado a casa para ser um lar, não uma vitrine, como sugeria sua arquitetura singular pelo lado de fora.
Ela também foi ao quarto de Bae, embora não esperasse encontrar nada demais. Só ia dar uma espiada… mas por alguma razão, ficou parada na porta por um tempo, sem conseguir se mover. Havia uma grande foto do garoto, sua mãe, seu pai e Tara pendurado em uma das paredes, ao lado da cama. Bae era pequeno, devia ter uns três anos, Tara um pouco mais velha, Berennin sorria… e eles pareciam uma daquelas famílias que apareciam nos folhetos de família feliz no Natal, que distribuíam no Beco Diagonal em dezembro.
— Miss Tara, procurando alguma coisa?
A elfa novamente, com seus olhos atentos sobre ela, o gato em seus calcanhares.
— Não, elfo. Não que seja da sua conta.
Deu meia volta, tomando a direção do quarto de Tara, mas a elfa continuou ali parada.
— Sente falta do seu irmão, o menino Bae?
Bervely parou à porta. Havia um longo espelho ao seu lado e ele se estendia por todo o corredor. De relance, podia ver o perfil de Tara e os cachos escapando do coque descuidado que fizera mais cedo. O olhar que viu no rosto do reflexo era parecido com o que via em Tara, às vezes, quando falava do garoto.
— Sim. — disse, tão breve quanto possível.
— Eu não o conheci, mas os outros elfos dizem que ele era um bom garoto.
Ela se virou, resistindo ao impulso de entrar no quarto antes que falasse demais. Infelizmente, resistir à impulsos nunca fora um grande talento seu.
— Meu pai o fez sair de casa porque ele era um aborto. – disse, mais mágoa em sua voz do que deveria haver. Não era seu irmão, afinal. Não importava. Precisava se lembrar disso.
— Tenho certeza que o Mestre tinha em mente o melhor para o menino.
A elfa deve ter notado pelo olhar em seu rosto que fora longe demais, porque de repente seus olhos se alargaram. Ela fez uma exagerada reverência, o nariz pontudo quase tocando o chão de mármore.
— Dill sente muito. Com a sua licença, Miss. Tara.
A elfa desaparatou. O gato miou alto, desaprovando a retirada brusca, deu uma boa olhada para Bervely e saiu desfilando para o andar de baixo.
— BD –
Uma coisa boa – talvez a única – sobre ficar no castelo para o feriado de Natal era que a diretora da casa liberara a lareira para ligações, então Anne pode chamar o chalé dos Tonks através das chamas e falar com Andrômeda. Os primeiros quinze minutos da conversa foram preenchidos com a bruxa dizendo que ela e Bevy deveriam ter ido passar o Natal com eles, e que poderiam ter ido todos juntos visitar Tonks na Academia de Aurores no dia seguinte.
— Isso é muito gentil, tia Andie, mas eu acho que a Bevy preferiu ficar para atualizar a tarefa de casa. Ela tem estado muito ocupada, com a monitoria e tudo mais.
— Eu espero que essa seja a razão pela qual ela responde minhas cartas com menos de três frases! – ouviu Andrômeda ralhar, ligeiramente transtornada. Anne riu.
— Ao menos ela responde as suas. Mandei uma carta pra ela hoje mais cedo e nada.
— O que quer dizer? Ela não está no castelo? Onde ela está? – seu tom flutuou para o alarmado, fazendo Anne perceber que não devia ter dito aquilo.
— Ela está, é só que Hogwarts é enorme e eu não tenho exatamente como sair procurando. – Deu de ombros, como se não fosse nada demais. – Tenho certeza que uma hora dessas ela aparece.
— Não gosto da ideia de que você está aí sozinha, querida. Está tudo bem com você? O que são essas olheiras?
— Eu estou bem. – a tranquilizou, produzindo um sorriso – Um bom Natal para vocês, e mande o meu abraço para Dora.
A conexão se encerrou logo mais, embora ela pudesse dizer, pelo tom com que Andrômeda se despedira, que ela ainda ficara preocupada. Pelo menos agora Anne sabia que Bervely não tinha ido para o chalé sem avisá-la – uma possibilidade que teria sido um pouco decepcionante, caso confirmada, mas ao menos lhe daria certeza de que Bervely estava bem.
Já fazia um dia inteiro que não tinha notícias dela, e o mau pressentimento persistia. Até passara a orbe para fora de suas roupas, pois o calor constante estava começando a machucar a sua pele. Ela pensou na caixa lá em cima em seu criado mudo, e se perguntou se as duas coisas estariam relacionadas. Esperava que não…
Pegando mais um punhado de flú, chamou a segunda pessoa que poderia ter alguma noticia de Bervely Black.
— Não, Anne, Rose não está aqui comigo. Eu falei com ela no último dia antes do recesso, e ela disse que ia ficar em Hogwarts para o feriado. Por que, aconteceu alguma coisa?
Anne tentou não parecer muito decepcionada com a resposta, mas se nem Oliver Wood sabia onde sua irmã estava, onde raios ela tinha se metido então?
— Não, tudo bem. Aposto que ela está em algum canto do castelo e eu apenas não estou conseguindo achá-la.
Um suspiro incerto foi tudo que ela ouviu da parte do capitão da Grifinória. Era difícil adivinhar que tipo de expressão ele estaria fazendo, com o estalo das chamas perto do sue ouvido, abafando quaisquer pistas auditivas mais sutis que ela pudesse capitar.
— Tá. Faz o seguinte… você já a procurou no quarto dela?
— Como eu faria isso? Não faço a menor ideia de como chegar nas masmorras.
Ele ficou em silêncio por um momento, talvez deliberando se essa era ou não uma informação a se passar para uma corvinal cega e indefesa, o que até Anne achava que era um ponto válido a se considerar.
— Vou te explicar um outro jeito de achar, sem ter que passar pelo ninho das cobras. Presta atenção…
Ele lhe disse tudo sobre a entrada alternativa para o dormitório privado de Bervely, como chegar lá e até a senha. Ela achou melhor não perguntar como ele sabia de tudo aquilo – a resposta bem que podia custar a sua inocência.
— Acha que pode encontrar o caminho sozinha? Porque eu acho que Rose arrancaria meu couro se qualquer outra pessoa soubesse. Talvez ela tire um pedaço só porque eu contei pra você, pensando bem.
— Eu posso encontrar sozinha. – lhe garantiu, tentando estar tão segura quanto soava. – Obrigada, Ol.
— De nada, Jô. Se cuida.
Ela achou contraditória a recomendação de Oliver após ter lhe dado o endereço do covil das serpentes de Hogwarts, mas achou melhor não comentar.
— BD —
Oi B. ,
Como vai você no meu lindo corpo? Se aproveitando dele um bocado, eu imagino?
Acabei de receber uma carta do meu pai. Wy me rastreou até aqui, mas não se preocupe – ele provavelmente não me encontrou em Hogwarts e procurou mais um pouco. Eu deveria saber que minha coruja não se deixaria enganar por uma poção polissuco!
Enfim, meu pai acredita que vou ficar em Hogwarts estudando porque temos tanto assunto para os NIEMS, e tal. Ele vai aproveitar os feriado para resolver coisas de trabalho fora do país, já que o Banco entrou em recesso também, pelo menos a parte administrativa.
Estou escrevendo para perguntar sobre Wolfsbane. Bae deveria começar a tomá-la há dias, mas nada chegou aqui ainda. Será que a coruja se extraviou? Você pode tentar mandar de novo? Mande por Wy, ele é confiável.
Não faça nada com meu corpo que eu mesma não faria (a não ser que seja bom, então depois você me conta!)
T.
Bervely deu um suspiro de exasperação para o nível de narcisismo da carta, depois a amassou e queimou, porque já se fora o tempo que deixava provas de seus crimes para trás.
Wy, a coruja homicida de Tara, tinha lhe dado várias bicadas pouco gentis nos dedos; quando finalmente conseguira um pouco de sangue, fora repousar feliz em sua gaiola – uma cúpula de ferro no canto do quarto, que mais parecia um palácio em miniatura e tinha sua própria fonte de água fresca.
Bervely decidiu que investigaria o terceiro andar à tarde, mas para isso precisaria de uma distração para os elfos domésticos. Quando retornou ao seu quarto após o almoço, ela deu um jeito de fazer o lustre de princesinha pendurado no teto do quarto desabar. Os cristais explodiram para todos os lados com um barulho ensurdecedor, unido aos berros estridentes na voz de Tara.
— EU PODERIA TER SIDO MORTA POR ISSO! – ainda gritava, quando os elfos imploravam para que saísse do quarto antes que se cortasse.
Ela tinha certeza que eles passariam boa parte da tarde se certificando de ter tirado todo o vidro do quarto; mesmo com a magia que possuíam, aquele era um trabalho e tanto. Deslizou pela escada até o andar de cima, encontrando exatamente a porta que procurava. Era larga, e ao invés de fechadura, tinha uma aldrava. Quando parou em sua frente, a aldrava se tornou uma orelha de ferro à espera de suas palavras.
Senha. Droga.
Meio que esperava que a porta tivesse um sistema de reconhecimento físico. Por mais que odiasse a ideia de se metamorfosear em Gavril Romansek, ela sabia que poderia fazer isso. Descobrir a senha dele, por outro lado…
Dono do Universo? Umbigo do Mundo? Rei dos Contratos Controversos e Possivelmente Mais Danosos do Que Parecerem?
Ela era terrível em adivinhar esse tipo de coisa. Devia ter trazido a corvinal da família para resolver a parte intelectual da coisa.
— Miau.
— Merda! Gato infernal. – praguejou, tendo quase cuspido o coração tamanho seu susto. Normalmente o gato desbotado acompanhava a elfa, mas estava sozinho agora. Ele se sentou no corredor para olhar sua agonia, como se ela fosse um daqueles filmes trouxas de cinema com dinossauros que você assistia com um saco de pitocas. – Sai fora daqui, vai seguir sua elfa ou assassinar umas aranhas inocentes, ou sei lá que outra estranheza de gato.
Ele não se moveu. Por um momento, Bervely fantasiou a possibilidade de Gavril Romansek se transformar num gato e estar ali lhe observando, esperando o melhor momento para anunciar sua emboscada.
Balançou a cabeça, se achando ridícula. Se o Olho de Hórus fosse um animago, ele seria uma águia de garras afiadas, ou um búfalo pronto para enfiar os chifres em suas entranhas, não um gatinho inócuo balançando a cauda de um lado para o outro atrás do traseiro.
— Você não saberia a senha para essa porta, saberia? – debochou, desanimada. O gato ergueu suas orelhas pontudas, provavelmente confundindo saberia com ‘sardinha’. – E se soubesse, certamente não me diria…
Ela ouviu passos no corredor, leves demais para serem humanos. O gato também percebeu, se virando e miando quando Dill surgiu na escada.
— Ah, ai está você, Cobe. Por que está vagando pela casa? Já disse que quero você perto de mim o tempo todo.
Bervely achou estar fora do alcance de visão da elfa; isso até Dill erguer sua cabeça na direção dela e estreitar os olhos.
— Miss Tara, é você? Está precisando de alguma coisa?
Ela refreou um esgar de impaciência. Tinha a impressão de que a criatura a seguia pela casa, embora soubesse que isso era devido ao seu estado de ultra-vigilância. Dill só estava fazendo seu trabalho, sendo disponível para o que precisasse, mimando a filha do seu mestre tanto quanto podia… malditos elfos domésticos.
— Eu estou bem, Dill. Vim ver se meu pai não tinha um tinteiro no escritório, o meu terminou. Não imaginei que estaria trancado.
— Dill pode pegar o tinteiro para a senhora. – disse, solícita.
Bervely ficou bastante impressionada quando a elfa sumiu com um estalo e voltou em seguida, o tinteiro em suas mãos ossudas. Ela não esperava que Gavril confiasse em um elfo o suficiente para deixá-lo ter livre acesso ao lugar.
— A senhora vai escrever para o seu pai avisando que veio para o Natal?
— Sim. – mentiu, aceitando o tinteiro e o enfiando no bolso da calça. – Vou fazer isso agora mesmo, Wy finalmente voltou de sua última entrega.
— Não é melhor Dill avisar pessoalmente? Para garantir que mestre voltará em tempo?
Bervely franziu, confusa.
— Como você faria isso? Meu pai está fora do país, certamente elfos não tem permissão para aparatar livremente através das fronteiras?
A elfa piscou os olhos azuis confusamente.
— Dill quis dizer por lareira.
— Eu mesma posso fazer isso, basta me dar o endereço dele. – abriu um sorriso de quem encontrara a solução para um problema complicado – Você é uma elfa esperta, Dill. Não me surpreende meu pai ter lhe contratado para ser sua acompanhante.
— Comprado. – ela corrigiu com um olhar amotinado.
— Sim, isso. Me atrapalhei. Estou aguardando o endereço em meu quarto, certo?
Sem esperar resposta, ela deixou a elfa no terceiro andar e passou direto até o patamar inferior. Quando atingiu o quarto, percebeu que o seu coração estava disparado e as mãos tremendo. Estava sobretudo envergonhada porque, no meio de todas as coisas que tinha a temer naquela casa, era a elfa que estava lhe perturbando. Em sua defesa, não era como qualquer outra de sua espécie. Havia algo de errado com ela – nem duvidava que fosse justamente isso que a fizesse a elfa acompanhante do bruxo mais errado que conhecia.
Resignada, puxou um pergaminho. Não pretendia escrever para Gavril, é claro, mas precisava enviar alguma carta ou a presença de Wy em seu quarto levantaria suspeitas.
— BD –
Analisando em retrocesso, ‘se cuidar’ e ir até as masmorras de Hogwarts sozinha era não só contraditório mas uma péssima ideia para alguém cego. Como pudera pensar que podia achar o caminho num ambiente completamente desconhecido, usando a vaga memória espacial que tinha do lugar e as direções de Oliver?
O que ele tinha dito, direita ou esquerda depois da estátua dos três elfos sem orelhas? E quantos passos depois disso, doze ou vinte, até virar para a direita de novo? Devia ter considerado que os passos de Oliver eram muito maiores que os seus… isso se sequer estivesse na direção certa, o que tinha certeza que não era o caso. O ar estava muito seco para as masmorras, e o som soava amplo, não abafado, e havia uma corrente de ar que Anne tinha certeza que pertencia a um dos primeiros andares…
Frustrada, ela se sentou no degrau de uma escada e enterrou o rosto nas mãos. Não era a primeira vez que se perdia no castelo aquele ano, absolutamente. Ela odiava estar perdida. Seu senso de direção fora ótimo a vida inteira, ela sempre sabia o caminho de volta para casa, era capaz de decorar rotas com facilidade, mesmo de lugares que fora uma única vez, nunca tivera dificuldades com mapas, e de repente tudo isso se fora junto com sua visão. E poucas coisas eram tão desesperadoras quanto se achar sozinha, no escuro, sem ter a menor ideia de onde estava ou que direção tomar.
Tentou respirar fundo, impedindo que a sensação de pânico a dominasse. Se isso acontecesse, até as coisas familiares se tornariam estranhas. Ela poderia estar ao pé da escada para a sua própria torre comunal e não saber, era assim que funcionava com o pânico. Outra coisa sobre o pânico: uma vez dado a largada, era difícil impedir que não se instalasse completamente. Logo, respirar fundo não era mais uma possibilidade, pois sua garganta estava se fechando em um nó.
— Olá?
Ela ergueu a cabeça na direção da voz desconhecida, se recompondo.
— Oi.
— Tudo bem aí? – o dono da voz perguntou, intrigado. Anne achou que era algum menino de outra casa, pois não soava como um de seus colegas.
— Estou perdida. – admitiu, sem graça. Sentiu o rosto ficar vermelho, afinal, que tipo de segundanista ainda se perdia no castelo? Ela era uma vergonha para a sua própria casa.
— Ah, tudo bem. Até eu ainda me perco de vez em quando. Para onde estava indo?
— Hum. Masmorras. Minha… minha sala comunal nas masmorras.
— Você é sonserina? – ele soou duvidoso. Anne tentou se lembrar se estava vestindo qualquer coisa com as cores da sua casa, o que seria péssimo para a sua mentira, mas saíra do salão comunal apenas com um casaco branco e uma saia azul escuro. Supunha que azul não era proibido para outras casas.
— Sim. – se ia mesmo mentir, era melhor fazer direito. Levantou, desamarrotando a saia, e se preparou para usar a carta que nunca falhava. – Eu fiquei cega recentemente. Desde então tem sido difícil para mim andar pelo castelo sozinha.
— Ah, sinto muito. – ele disse, parecendo sincero. – Acho que posso te mostrar o caminho, se quiser. Não que eu já tenha ido até o salão comunal da sua casa, é só que, sabe como é, há boatos de onde ele fica. – completou sem jeito.
— Tudo bem, isso seria ótimo. – ela disse antes que ele se enrolasse mais. Sua intuição dizia que o colega bom samaritano sabia exatamente a localização secreta do covil verde e prata.
Após um breve momento de desajeito, ela pousou a mão no ombro dele e seguiram pelo corredor, quase lado à lado. Ela muito atenta aos sons e tentando não tropeçar em nada, fazer papel de boba na frente do garoto. Ele lhe avisou quando precisaram descer alguns lances de escada, mas não puxou conversa. Também estava sem graça, ela sabia. Todo mundo que ficava assim em torno dela, agora.
— Você viu a monitora-chefe por ai? – perguntou, quando estavam em chão plano de novo. Pela umidade no ar e o eco estranho agindo sobre sua voz ela soube que estavam nas masmorras.
— Quem? Ah… não. Será que ela ficou para o feriado? Eu sei que o Percy não ficou. Você precisa falar com um monitor?
— Não. Tudo bem.
— Aqui estamos. – ele anunciou, com ares de dever cumprido. – Pelo que dizem, a entrada fica bem ali na frente. Não conte a ninguém que você me ouviu falar isso.
— Obrigada. Hey – lembrou-se, de repente – Você não me disse seu nome.
— Ah, é. – ela teve a impressão que ele sorria meio sem graça – Esqueci que não pode me ver. Sou Harry. Harry Potter.
~
Uma vez nas entranhas geladas do castelo, Anne conseguiu seguir as instruções de Oliver e achar a entrada secreta para o que ele dissera ser o quarto de Bervely. Ela bateu sua varinha contra a porta, usando a senha que ele lhe passara.
— Privilegium.
Uma vez dentro, Anne lamentou que não pudesse ver, porque morria de curiosidade para saber como eram as dependências sonserinas. Apostava em tapeçarias de serpentes, móveis sisudos e imponentes, provavelmente algum veludo. Como a poltrona na qual tropeçou, que tinha veludo e brocados e que apostou que era verde.
— Bevy? – tentou chamar, mesmo sabendo que a irmã não estava ali. Se estivesse, já teria aparecido exigindo saber como entrara ali sem sua autorização. Podia até ouví-la resmungando “eu não acredito que Wood te deu a senha! Vou matar aquele infeliz.” E ela lhe responderia que matar de beijos não era matar, tecnicamente.
Imaginar o diálogo fez seu coração apertar, porque lhe lembrou que a razão de estar ali era porque Bervely não estava. E Anne não conseguia afastar a certeza de que havia algo errado com aquele sumiço. Elas eram supostas a passar juntas o Natal, certo? Não que tivessem combinado isso, mas eram família, e era isso que família fazia, afinal de contas. E se ela tivesse sido levada por alguém? Se Black tivesse entrado no castelo de novo, e levado sua irmã, como num daqueles sequestros onde se pede coisas em troca da vida da pessoa que foi sequestrada?
O pensamento lhe deu um calafrio de puro horror, e Anne sacou a varinha. Seqüestradores deixavam notas de resgate, ou assim vira nos livros.
— Accio nota!
Dois pedaços de papel vieram voando até sua mão. Ela fez o feitiço que lia em voz alta no primeiro deles.
“Boa garota”
Anne não conhecia a voz, que era de um homem e tinha um tom cruel de zombaria. Seria essa a voz de Black? Por que ele escreveria para Bervely um bilhete dizendo aquilo?
O outro tinha a voz da própria Bervely:
“Fui recuperar o livro. Se eu não voltar…”
Não havia destinatário. A mensagem era emblemática o suficiente para fazer Anne pensar que não tinha sido escrita até o final, talvez porque a irmã fora interrompida? As perguntas só a deixavam ainda mais nervosa, e agora com a certeza de que algo estava errado. Se ela não voltassse… então o quê? E onde tinha ido?
O quarto não lhe forneceu mais respostas, ao menos não para ela que não podia procurar por pistas com aquele par de olhos inúteis. Anne voltou para seu salão comunal, manejando, por algum milagre, atravessar a escola inteira sem se perder. Estava tão preocupada com Bervely que esqueceu de se preocupar com o caminho e seus pés a guiaram ao seu destino final como se tivessem posse de um mapa próprio de Hogwarts todo aquele tempo.
De volta à segurança de sua cama, ela puxou as pernas para cima do colchão e abraçou os joelhos. O que ia fazer? Sua primeira reação era correr para um dos professores e contar sobre o sumiço da irmã, mostrar os dois bilhetes que guardara em seu bolso e lhe contar suas teorias. Mas então ela talvez colocasse Bervely em apuros por sair da escola sem permissão, e ela teria de contar o resto também – por onde Black entrara na escola da primeira vez, e que ele podia virar um cão. E os professores iam perguntar porque ela tinha guardado aquilo por tanto tempo, a conclusão óbvia sendo que ela compactuara com Black desde o início. Seria expulsa de Hogwarts, com toda certeza. Não era como se estivesse tendo um mar de rosas por ano letivo, mas ser expulsa significava ter que voltar à St. Sensille, e ela não podia imaginar nada pior que aquilo…
… mas Bervely podia estar em perigo. E precisava ajudar a irmã, mesmo que isso custasse sua vaga em Hogwarts. Além do mais, se fosse ela que estivesse em apuros, Bervely faria qualquer coisa para ajudá-la, sabia disso.
Decidida a fazer mais uma vez o caminho para a Sala dos Professores, Anne levantou num rompante, o que a fez esbarrar no criado mudo com violência. Todas as coisas em cima dele caíram no chão, a maior delas – a caixa de madeira misteriosa – fazendo barulho ao rolar para debaixo da cama.
Ela se ajoelhou no chão, praguejando. Sorte ser a única no dormitório aquela noite, ou suas colegas já estariam reclamando. Recuperou o objeto e sentou no chão, ofegando ainda com a dor da pancada.
Foi quando percebeu que estava segurando uma provável pista e sequer se dera conta. Estivera com tanto medo de a caixa ter sido enviada por Black que deixara passar o fato de que se fosse, poderia conter alguma indicação do que ele fizera com Bervely. Talvez aquela fosse a nota de resgate.
Se enchendo de coragem, ela destravou a tranca da caixinha em seu colo, tateando cuidadosamente lá dentro. Eram folhas – não de papel, como imaginara, mas folhas secas de árvore. Quando seus dedos as tocaram ela teve um flash em sua mente, mas ele foi um bocado borrado. Como uma lembrança através de um vidro sujo, ela não podia ver com clareza. Percebeu que era a Orbe, mais uma vez, filtrando aquilo que chegava até sua consciência.
Anne soltou as folhas e, após um momento de deliberação, retirou a corrente do pescoço. Ela esperou, com o rosto contraído, os seus sentidos se adaptarem à liberdade novamente, e depois enfiou a mão na caixa mais uma vez.
Ela pôde ver com clareza e cores, luzes e sombras o conteúdo da caixa– algo que não acontecia desde o acidente na floresta.
Blackbird singing
in the dead of night
(pássaro negro cantando
na calada da noite)
Take these sunken eyes
and learn to see
(pegue esses olhos fundos
e aprenda a enxergar)
— BD –
A noite caiu, preenchendo de sombras o quarto de Tara e também os pensamentos de Bervely deitada na cama-nuvem da garota ruiva.
Já contava vinte e quatro horas que estava naquela casa, e não conseguira sequer confirmar que o livro estava mesmo dentro do escritório. No auge do desespero, ela pensou que poderia entrar pela janela; lembrava-se que o escritório tinha um janelão de vidro por detrás das cortinas. Não fazia qualquer ideia de como chegaria até ela no terceiro andar pelo lado de fora, talvez pudesse se dependurar a partir do terraço… só de pensar na altura e na queda, seu estômago deu um giro completo.
O dia seguinte era Natal. Bervely não gostava da ideia de passá-lo dentro do covil do inimigo, mesmo que não tivesse grandes planos para a data do lado de fora. Ela vinha desenvolvendo uma forte antipatia pelo Natal, mas gostaria de sobreviver à este em especial – coisa que talvez não acontecesse se dessem pela falta de Tara em Hogwarts e avisassem à Gavril que a menina estava sumida…
Algo pulou no colchão, e Bervely abafou um grito, mas por muito pouco. No estado de nervos em que se encontrava, até uma sombra se movendo pela parede fazia seu coração perder o compasso. Ela investigou no escuro, a varinha já na mão, e quando a acendeu, olhos brilhantes lhe fitaram em retorno. Era o maldito gato de novo.
— Chispa daqui! – ralhou com irritação. Já não bastava a elfa perseguindo seus passos, agora havia aquele gato estranho. Não estava nem um pouco disposta a deixá-lo se aproveitar do calor de sua cama.
Naturalmente, o gato não deu mostras de que lhe obedeceria. Ao invés disso, andou dignamente até ela e esfregou a cabeça em seu braço.
— Não faça–
Uma imagem nítida se infiltrou em sua mente: a porta do escritório de Gavril Romansek. Ela demorou só um segundo para perceber que era uma memória do gato – primeiro porque estava de um ponto de vista próximo ao chão, e depois, porque tinha o esquema de cores diferente daquele a que os olhos humanos estavam acostumados.
— Ok, gato, isso foi estranho.
O gato esfregou-se de novo contra seu cotovelo, e a imagem piscou em sua mente mais uma vez. Depois ele saltou da cama e a esperou na porta, o corpo virado na direção da saída, olhando-a por cima do ombro.
Miou com exigência um segundo depois, quando ela não se moveu. Bervely jogou os lençóis para o lado e saltou da cama, descalça.
— Calma aí, já estou indo.
O gato a guiou até o terceiro andar, parando em frente à porta do escritório. Ele esperou pacientemente ela chegar lá e ver a aldrava se transformar num ouvido.
— Agora o que, espertão? Vai me dizer a senha?
Ele se enrolou em seus tornozelos. Ela viu outra imagem, dessa vez de Tara. O que não fazia o menor sentido.
— Isso não me diz muito, orelhudo. Essa sou eu, e dai?
O gato deu uma nova volta em seus tornozelos, insistindo. Tara. Não ela, mas Tara. E não uma lembrança especifica de sua mente de gato, como fora a anterior; era mais como uma imagem evocada da sua própria mente. Como quando ouvia um nome e o ligava imediatamente à uma imagem, só que ao invés de ouvir o nome, ela estava recebendo uma ‘impressão’ de um nome, que automaticamente evocava a imagem em sua memória.
— Ah, não me diga… sério mesmo? Ai está algo que eu nunca adivinharia.
Se virou de novo para a porta, sem saber porque confiava no gato. No fundo ela achava que era falta de opção, ou até uma nota de desespero, porque era isso ou se dependurar pelo lado de fora da casa numa queda de uns trinta metros, para tentar quebrar uma janela que nem sabia se era do tipo que quebrava. Pigarreou, inclinando-se para a aldrava como quem sussurra um segredo.
— Tara Ioana Romansek.
A aldrava retornou ao formato normal. Justamente quando achava que não tinha dado certo, que aquilo era mesmo tão impossível quanto parecia. A porta estalou três vezes… e se abriu diante dela, lhe dando todo o acesso que precisava.
A senha de Gavril era o nome de sua filha? Aí estava algo a se pensar…
O gato cinza ficou na porta, montando guarda, o que provavelmente foi a cereja do bolo de estranhezas daquela noite.
Bervely não teve qualquer dificuldade para encontrar Wolfsbane Edition depois disso; estava numa caixa idêntica à que Romansek deixara em seu dormitório, bem em cima de sua mesa. Ela percebeu indignada que ele sequer tocara no livro, tal era seu interesse num exemplar tão raro e importante. Mais importante é ferrar com a vida do próprio filho e de todos os lobisomens que podiam se beneficiar com a poção, é claro. Não vamos esquecer as prioridades.
Então, ela devia ter ido embora. Devia. Teria dado tempo de chegar à lareira e viajar até Hogwarts em segurança, com o livro perfeitamente salvo em suas mãos. Naquela mesma noite, ela teria devolvido para Snape e recuperado, senão a confiança dele, pelo menos um pouco da própria dignidade.
Não foi o que Bervely fez. Ao invés disso, ela caminhou para onde Gavril guardava os outros livros – uma estante bem ao lado da fonte que não corria água. Alguma coisa tinha chamado sua atenção naquele canto, mas Bervely não soube o que até se aproximar e ver uma lombada familiar. Se destacava – azul pervinca em meio às outras, que eram de couro escuro ou papel grosso e pardo. Além do mais, as letras eram douradas, meio desbotadas, de uma tipografia inconfundível. E o título…. ela sentiu o coração dar uma volta completa dentro do peito, quando deslizou para fora da prateleira, cuidadosamente, Aventuras em Neverland.
Não qualquer exemplar. Bervely foi invadida pela certeza no minuto em que o tocou, ela soube que era o exemplar de Hector. O manuseara a sua infância inteira. Conhecia o arranhão na contracapa, daquela vez em que Draco sacudira o livro pra ver se conseguia tirar dele pó de fada; o livro escapara de sua mão e fora se arrastando pelo chão até o outro lado do quarto. E depois, havia a primeira página com uma mancha amarela em forma de flor – suco de abóbora, que ela tinha derrubado sem querer sobre o livro enquanto se recusava a tomá-lo.
E é claro, haviam as ilustrações mágicas de Dallas Malfoy, nas quais Peter tinha o rostinho travesso de Hector, e Wendy, longos cabelos castanhos e olhos amendoados da cor do miosótis.
Achou que o chão estava se movendo, mas no final, era ela que estava tonta. Por que o Olho de Hórus tinha Aventuras em Neverland em sua estante?
Bervely se sentou na beirada da fonte, os joelhos fracos demais para sustentá-la. O gato veio correndo da porta até ela e se esfregou em suas mãos, que seguravam o livro com força, os nós dos dedos se tornando esbranquiçados. Dessa vez o gato não lhe passou nenhuma imagem, e ela teve a estranha sensação de que ele estava agitado.
— Como…? Quer dizer, como…?
Parou de falar em voz alta. A última coisa que queria era acordar algum elfo e ser flagrada invadindo o escritório do ‘pai’ e fazendo bagunça. Ela colocou Aventuras no topo de Wolfsbane Edition e tentou se acalmar. Pensaria sobre aquilo depois. Talvez não estivesse diretamente relacionado com Hector, quer dizer, o livro acabara ficando na Mansão Malfoy depois que tinha ido embora, Gavril poderia ter conseguido enquanto fazia sua perturbadora pesquisa sobre ela.
Certo, mas isso não explica porque ele o guardou bem aqui. Como algum trofeu, ou um… um…
O gato tocou a cabeça em seu joelho, e mais uma imagem se esgueirou em sua mente: era a fonte, ou ainda, o espelho d’agua que ficava sob ela. Aquela transferencia de imagens intra-espécies estava começando a lhe dar uma dor de cabeça horrível, ao que Bervely afastou o gato, ao mesmo tempo que olhava a fonte.
— Que foi? Não tem nada demais aqui. É só uma porcaria de uma… espera ai. – Estivera tão distraída por achar o livro de Hector no escritório de Gavril que não se dera conta de um detalhe estranho – a água não refletia o teto, ou a ela, quando se inclinou para olha-la. Mostrava uma abertura, como se não houvesse um fundo falso. Lá embaixo, algo que parecia uma sala escura com estranhas silhuetas brancas. Era difícil ver através da água o que eram exatamente. Móveis cobertos por lençóis, talvez?
Era loucura descer. E se houvessem feitiços de alarme? E se algo lá dentro a atacasse, e ela ficasse inconsciente, ou até morta? Por tudo que sabia, ele podia guardar algum monstro lá embaixo, como Salazar tinha feito em Hogwarts com a câmara secreta.
Ela não era Potter. Se Romansek tivesse um Basilisco encerrado sob o seu escritório, ela não poderia matá-lo com uma espada – sequer havia uma espada ali por perto! Bervely sentiu uma estranha admiração por Potter naquele momento, o que só provou o quanto ela estava perturbada com toda a situação. E apesar de que a última coisa que havia em si naquele momento fosse coragem, ainda assim jogou as pernas para dentro da fonte, em seguida o resto do corpo.
Não foi coragem. Ela estava louca para descobrir algum segredo sujo que pudesse usar contra Gavril Romansek num futuro próximo.
— BD –
Blackbird fly
(pássaro negro, voe)
Into the light
of the dark black night.
(para a luz
dentro da escuridão da noite)
Sirius não tinha grandes expectativas para o Natal. Suas últimas doze vésperas não haviam sido em nada especiais – dentro da cela, acuando para o fundo da mente qualquer sentimento natalino ou lembrança de natais em Hogwarts, para que os dementadores não roubassem isso dele – e sem muita surpresa ele fazia o mesmo aquela noite, apesar de não estar mais em Azkaban.
Era um velho hábito, afinal, reprimir as lembranças boas do passado. A maioria delas lhe fazia mal – coisas que ele nunca teria novamente, e assim por diante. Ao invés de Natal, ele se concentrou nas estrelas; poucas, ofuscadas por nuvens esgarçadas contra o céu invernal e pela luz de uma lua quase cheia.
Nos bons tempos de Hogwarts, isso significaria que ele e o restante dos Marotos estariam tramando o itinerário da noite seguinte, aos sussurros e com muita animação, sob olhares atravessados de Remus Lupin, que todos três sabiam que eram desaprovador apenas na fachada.
Ah, essas também não eram coisas nas quais deveria estar pensando. Entravam na lista do que jamais teria novamente. James estava morto, Remus lhe odiava e Peter estaria morto em breve, assim que ele pudesse…
O ruído característico de neve sendo esmagada por sapatos lhe chegou aos ouvidos, e Sirius rapidamente se transformou em cão. Ele estava numa clareira perto da orla da floresta, que era pouco conhecida pelos alunos e tinha uma boa vista para os terrenos do castelo, e só imaginava uma pessoa que pudesse estar desbravando os terrenos na direção do Salgueiro Lutador àquela hora.
Mas farejou o ar, e seu sentido apurado de cão lhe avisou que não se tratava dela. O cheiro não era completamente desconhecido, no entanto. O cão soube imediatamente, mas sua parte humana e cética duvidou. Afinal, Sirius não acreditava em milagres de Natal fazia muito tempo.
Ele seguiu em direção ao ruído, se mantendo nas sombras das árvores o tempo todo. Suas patas não faziam barulho na neve fofa, mas assim que viu a silhueta pequena do intruso, seu cabelo solto chicoteando no vendo, ele pisou sem querer numa pilha de gravetos, fazendo ruído.
A figura se sobressaltou, virando a cabeça em sua direção. Estava escuro, o bastante para olhos humanos pelo menos, e ele sabia que não tinha sido visto daquela distancia. Então foi uma surpresa quando foi chamado pelo nome.
— Sr. Black? — disse ela corajosamente, embora estivesse sussurrando.
Após um minuto em que com toda certeza seu coração parou, Sirius teve a presença de espírito de se transformar de volta em homem. Mesmo assim ficou parado ali, pensando se não se tratava de uma alucinação.
Tivera um bocado de alucinações em Azkaban. Até pensara que Bervely fosse uma delas – até que seus dedos tinham deixado marcas no pescoço da garota, pelo menos.
Mas, alucinação ou não, a garotinha que ele via entrecortada pelas luzes distantes do castelo veio se aproximando a passos muito cuidadosos. Cada um deles parecia lhe custar uma quantidade considerável de bravura. Ele reparou que as mãos dela, sem luvas e segurando algo como uma caixa, tremiam.
— Sr. Black? – ela chamou de novo, incerta. Lá no finzinho, sua voz também estava um pouco tremula.
Sirius encheu os pulmões de ar e deu um passo à frente, para fora das sombras. Dissessem o que quisessem sobre ele, não era um covarde. Enfrentava seus fantasmas de queixo erguido e isso não ia mudar agora.
A garotinha parou de andar, e ele notou que usava óculos escuros redondos que já não eram moda quando fora para a prisão. Engraçado, e até um pouco adorável. Eram grandes para seu rosto estreito e naquele momento, corado de frio. Ela usava um cachecol azul e cobre bem enrolado em torno do pescoço mas, além dele, não parecia paramentada para uma noite tão gelada.
— Olá? — perguntou, parada no mesmo lugar.
— Olá. — lhe respondeu, a voz arranhando. Ele pigarreou, querendo soar jovial e simpático, não assustador – Boa noite para uma caminhada fora do castelo, não é? Parece que tivemos a mesma ideia.
Ela mordeu seu lábio, muito nervosa. Se balançava sobre os pés, como se parte de si estivesse num dilema sobre ficar e encarar ou dar a volta e sair correndo.
“Você é o bicho papão dela, pelo amor de Merlin!”
De forma que voz simpática nenhuma no mundo seria o bastante.
— Você é Sirius Black? – ela voltou a perguntar, como se ter certeza fosse essencial para o próximo passo. Apesar de tudo, seu tom era prático, o que o fez sorrir.
— Sim, a não ser que você seja uma auror ou um dementador, então minha resposta é não.
Ela não sorriu. Na verdade, a caixa quase escorregou de suas mãos.
— Eu não sou nenhum dos dois, eu sou… Johanne. Loren. – acrescentou rápido, como se existissem no mundo muitas Johannes daquele tamanho e com aquele rosto inconfundível e que provocassem nele o calor, o pânico e a efusividade que estavam causando naquele momento. Ele odiou que ela achasse que precisava se apresentar. A reconheceria a qualquer tempo.
— Eu sei quem você é, garota. – ele lhe respondeu, rouco. Sua voz falhou na última palavra; quase dissera filha. Mas não queria assustá-la… mais do que ela já estava.
— BD —
As silhuetas não eram mobílias.
Eram corpos flutuantes, cobertos por lençóis brancos.
Dezenas de corpos. Ela não precisou investigar debaixo deles para saber – os contornos se tornaram bem óbvios uma vez que escorregou pelo alçapão e até o chão. Não era alto, e havia algum feitiço flutuante de tubo agindo, de forma que o pouso era suave.
Mas novamente: corpos.
Bervely ficou paralisada por um bom tempo sob a abertura, seus sistema nervoso todo formigando como se tivesse acabado de levar um choque. Ela não queria se mover, porque tinha a impressão de que a cada passo que dava dentro daquele lugar as descobertas pioravam. Mas então, mesmo parada, ela não conseguia parar de pensar de quem eram aqueles corpos.
Será que era para lá que ele levava as pessoas nas quais ‘dava fim’? Ele as escondia… colecionava? Guardava como troféu, ou apólice de seguro? Se lembrou do que ele lhe enviara junto com o contrato, o chumaço loiro de Charlotte que ela deveria ter usado com polissuco. Teve ânsia de vômito ao imaginar Gavril descobrindo um daqueles corpos e cortando uma mecha de cabelo. De Charlotte. Guardada ali. Conservada de alguma maneira que fizesse polissuco funcionar. Haviam certos feitiços…
Talvez Gavril guardasse ali dentro as pessoas que quebravam seus contratos. Bervely sentiu urgência em reler os termos do que assinara e se certificar de que não tinha alguma clausula dizendo ‘o último destino dos caloteiros é o meu porão de defuntos’. Ela devia ter lido aquele contrato com mais atenção, pensou, não pela primeira vez.
Vá embora agora mesmo, ordenou uma voz em sua mente que soava razoável. Parecia uma boa ideia, ir embora. Precisaria arrancar os olhos para não ter que rever aquele lugar toda vez que fechasse os olhos. Depois pensar como faria para não ir parar na coleção, especialmente quando Gavril descobrisse que tinha estado ali em sua ausência.
Mas então havia aquela outra voz, que não era tão sensata – soava até meio louca – mas era a que ela normalmente seguia. Você precisa saber.
Bervely apertou os dentes, deixando escapar um pequeno gemido que era de repulsa e agonia, enquanto dava um passo para frente, até o primeiro corpo flutuante à sua esquerda. Ela agarrou a ponta do lençol, mas seu braço parecia travado na altura do cotovelo, incapaz de terminar o movimento.
A imagem da primeira pessoa morta que tinha visto na vida – Hector – retornara à sua memória com grande nível de detalhes. A morte não era bonita. Era pálida, arroxeada e gelada.
Mesmo assim Bervely se forçou a puxar o lençol, porque precisava.
Não era ninguém que conhecia. Nem arroxeado ou mesmo se decompondo. Um feitiço em forma de névoa esbranquiçada envolvia o corpo todo, impedindo que visse os traços com clareza. Quando movimentou a mão perto do rosto, a névoa gelada se afastou e ela notou que era um homem jovem. O nó em sua garganta se apertou, mas ela se recusou a pensar sobre ele mais à fundo.
O próximo corpo era de outro homem, dessa vez pequeno e atarracado. Familiar o bastante para ela afastar um pouco da névoa fria que o cobria, e logo seu rosto se provou conhecido. Ela teve que puxar da memória para descobrir quem era, mas acabou lembrando; aquele bruxo horrível, chefe do Projeto Orcus, Hominus Criodilus. Como ele fora parar ali, Bervely nem imaginava. Então essa era a razão para que Gavril a tivesse colocado tão fácil dentro do projeto, o chefe tinha um contrato com o Olho de Hórus? Não um bem sucedido, aparentemente.
Ela o cobriu de volta, sua mão tremendo. O corpo seguinte era grande demais para ser de uma garota, mas não se desviou dele. Uma vez que tinha começado, queria ver todos. Queria conhecer as pessoas que Gavril ‘dera fim’, uma por uma.
Puxou o terceiro lençol. Com névoa ou sem, o reconheceu imediatamente.
Só que era impossível.
Bervely recuou, horrorizada. Ela sentiu seus olhos se turvarem, e sabia que eram lágrimas de horror e confusão mais do que qualquer coisa. Como aquele corpo poderia estar ali, se o vira há pouco mais de um mês, bem vivo e ameaçador projetado em seu quarto?
Mas era ele, com toda a certeza. Mesmo com a névoa, era inconfundível com sua estatura larga e a espessa barba ruiva. Gavril Romansek – ou seu corpo – estava ali flutuando, envolto em névoa, sem respiração ou batimentos cardíacos.
Sua cabeça deu uma pontada horrível frente ao impossível. Como… como?
No meio de sua confusão, ela esbarrou no corpo de Criodilus, quase se desequilibrando. Ela achou que o corpo de Gavril tinha dado um espasmo – ou fora sua imaginação lhe pregando peças?
Quando olhou de novo, Gavril Romansek estava perfeitamente imóvel, como os defuntos eram supostos a ficar.
Certo?
— BD –
Johanne pressionou seus lábios um no outro, ficando muito quieta. Sirius achou que ela iria embora, e até se surpreendeu quando ao invés disso, ela soou mais firme.
— Eu tenho uma pergunta para o senhor. Na verdade… na verdade são duas.
— Vá em frente. – encorajou, medindo as palavras com cuidado. Tinha a impressão de que qualquer coisa que fizesse a espantaria dali. Uma parte dele ainda achava que ela era uma criação de sua mente, ali tão pequena, tão bonitinha, com seu nariz arrebitado, os óculos engraçados e o cabelo cheio e selvagem como o da mãe, apesar de escuro como o dele e do resto da sua família.
— O senhor me mandou essa caixa?
Ele olhou mais uma vez, confuso, para a caixa na mão dela.
— Não. – disse com sinceridade.
— Mas era sua. – ela completou, dessa vez sem o tom de pergunta. Ficou esperando confirmação. Sirius reparou que ela não olhava na direção do seu rosto, e lhe passou pela cabeça que sua filha não podia suportar olhar nos seus olhos.
— Posso ver?
Ela lhe estendeu a caixa, ao que ele deu uns passos para frente para alcança-la. Pode sentir a garota ficando tensa com sua proximidade, retesando seus ombros. Quando alcançou a caixa, ele se afastou dela de novo. Analisou o objeto e o reconheceu com grande surpresa.
— Onde conseguiu isso?
— Foi entregue ontem no meu quarto. Tinha um… laço de fita. Mas nenhum bilhete.
Ele compreendeu, estreitando os olhos astutamente.
— Bervely.
— O que disse? – Johanne se alarmou.
— Sua irmã deve ter pego isso no antigo apartamento de sua mãe, em Londres. Eu sequer me lembrava… Sua mãe me deu durante a primeira guerra. Eu viaja com frequência e precisava ficar longe de vocês, e ela quis garantir que eu pudesse ter algo com que matar as saudades.
Ele se perguntou se tinha falado demais. A garota se tornara um pouco pálida e ainda olhava para um ponto através dele, o que estava começando a incomodá-lo. Ele se recordava dos seus grandes e espertos olhos negros, e gostaria de revê-los, olhar dentro deles e entender se ela ainda tinha medo, o que exatamente estava sentindo.
— Johanne, ouça… se você viu o que tem dentro da caixa…
— Eu vi as memórias. – ela o interpôs com rapidez. – Ainda não decidi como me sinto sobre elas. Preciso pensar.
— Oh… ok.
— Posso fazer minha segunda pergunta?
— Claro.
Porque, que outra opção ele tinha?
— Você sequestrou Bervely Black?
Apesar da tensão do encontro, Sirius quase deu risada da sugestão. Até onde ele sabia, era muito mais provável o contrário, Bervely Black sequestrando ele.
— Eu, hum… porque a pergunta?
Dava para notar que era o que a estava deixando mais aflita naquele momento. Ela voltara a ficar inquieta, se balançando em seus pés sobre a neve.
— Ela não está em nenhum lugar do castelo, e ninguém sabe onde ela foi. E eu fui até o quarto dela, achei um bilhete estranho, então se você a sequestrou, é melhor saber que eu vou avisar aos aurores e aos dementadores. E que se você me levar também eles vão saber de qualquer maneira, porque eu deixei uma carta para o Prof. Dumbledore…
— Hey, hey, calma ai. – Sirius tentou, erguendo as mãos no ar, palmas para frente e dando um passo adiante. Isso fez com que ela recuasse bruscamente e quase caísse, de forma que ele desistiu de se aproximar. – Não sequestrei Bervely, Merlin me livre, ela deve ser a refém mais irritante da história dos sequestros. O que quer dizer com bilhete estranho? O que dizia?
Seu peito subindo e descendo em respirações ofegantes, Anne enfiou a mão no bolso e estendeu na direção dele um papel amassado. Sirius se esticou para pega-lo com movimentos cuidadosos. Ele leu franzindo o rosto.
— “Fui buscar o livro, se eu não voltar…”? Isso não faz sentido, de que livro é que ela está–
Mas ele se interrompeu ao ver que o rabisco ao lado da palavra ‘voltar’, que pensou que era uma rasura, se tratava na verdade de um símbolo. O mesmo que ele vira uma vez desenhado com pedras nas areias da praia de Tantallon Castle, e que deixara Bervely aterrorizada.
— Como eu disse, eu não sequestrei sua irmã… mas isso não significa que alguém mais não a tenha nas mãos agora.
— BD —
Bervely catou tudo que precisava numa questão de cinco segundos. Ela tinha os dois livros consigo, sua varinha em punho e honestamente, ela ia chutar o primeiro elfo que a impedisse de chegar até a lareira da sala de visitas.
O gato ainda a seguia, mas não estava preocupada com ele, nem pensando porque ele podia colocar imagens dentro da sua cabeça ou lhe ajudara a recuperar o livro.
A sala de corpos não deixara espaço em sua mente para se apegar à detalhes.
Bervely sentiu uma onda de alívio quando alcançou a sala de visitas escura sem ser interpelada por ninguém. Com o barulho que fizera correndo do escritório até a o quarto de Tara – onde passara para pegar a sua mochila, que poderia servir como evidencia da sua passagem ali – ela tinha certeza que acordara a casa inteira.
Com o coração espancando suas costelas, meteu a mão no pote de flú ao lado da lareira, e com a outra, acendeu uma chama mágica. A sala se iluminou. Na sua afobação para escapar, nem notou que não estava sozinha.
Não até que ele falasse, pelo menos.
— Indo à algum lugar, filha?
Bervely girou lentamente. Tinha acabado de perder todo o sangue do corpo, e o susto fora tão grande que o flú escorregou dos seus dedos. Parte caiu na lareira, fazendo subir labaredas esmeraldas que inundaram a sala.
Sentando à poltrona, tranquilo e iluminado em luz verde de baixo para cima, Gavril Romansek era como a imagem do próprio demônio lhe fitando em retorno.
(Continua…)
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