Indigna Rosa Negra
58 O Corpo da Rosa
Notas iniciais
Past the point of no return
No going back now
(Além do ponto sem retorno
Não há como voltar atrás agora)
Sentando à poltrona, tranquilo e iluminado em luz verde de baixo para cima, Gavril Romansek era como a imagem do próprio demônio lhe fitando em retorno.
— Indo a algum lugar, filha?
— Como…?
— Como eu descobri que estava aqui, apesar de você tentar me enganar dizendo que ia ficar em Hogwarts para o feriado?
Na verdade sua pergunta era “como você pode estar aqui em cima e morto lá embaixo”, mas Bervely decidiu que essa também servia.
— Dill me avisou, quando se tornou claro que você não pretendia fazê-lo por si mesma.
Seu terror devia estar claro em seu rosto, e provavelmente era por isso que Romansek parecia tão deliciado. Ela não tentava ocultá-lo, pois estava usando todas as energias para não deixar o disfarce cair. Sentia o seu corpo tentando voltar para a segurança de sua própria aparência, como mecanismo de defesa.
— Diga-me, onde estava indo? – ele perguntou suavemente. Bervely deu uma olhada para a lareira, cujas chamas já tinham voltado à cor laranja original. Será que ela seria rápida o bastante para pegar mais flú e escapar antes que ele a alcançasse?
Que piada. Era patética, merecia ir para a sala de corpos.
Os corpos. Sua coluna se retesou em repulsa.
— Lugar nenhum. – respondeu, tentando neutralizar a própria expressão e não parecer um animal acuado. Era preciso cada gota do seu sangue Black para aparentar indiferença depois do que tinha acabado de ver na sala sob o escritório.
— Deixe-me adivinhar… – ele cantarolou, um sorriso brincando nos lábios – Snowfall? Sim, Tara, eu sei onde seu irmão está se escondendo junto à traidora da sua mãe. E eu sei no que ele se transformará em alguns dias. O fato de que você anda se metendo com esse tipo de coisa é apenas… decepcionante.
Ela fechou os olhos com algo que para ele deveria se parecer com vergonha, mas na verdade era uma tentativa desesperada de auto-controle. Pelo amor de Merlin, entre no personagem.
— Sinto muito, pai. – murmurou, as palavras saindo amargas – Não vai se repetir. Foi mesmo uma ideia estúpida.
Gavril a analisou atentamente sob a luz alaranjada, que Bervely sabia que fazia os cabelos ruivos parecerem em chamas. Mas era o olhar dele que queimava. Ela tinha certeza que a qualquer momento o bruxo saberia que ela não era sua filha de verdade e a jogaria no fogo.
Teria sorte se fosse jogada no fogo.
— Esvazie sua mochila. – ele disse de repente. Ela se segurou para não trazer a mochila para perto de si protetoramente
— Por quê?
— Porque estou mandando, Tara. Agora.
Bervely sentou no sofá e, devagar, começou a retirar as coisas de dentro da mochila. Não eram muitas; um casaco, um pote de poção, sua varinha e os dois livros. Ela teve o cuidado de colocar a varinha nas sombras, ao lado de sua perna, para que ele não notasse que era diferente da de Tara. Gavril fez ambos os livros flutuarem até suas mãos; ela sentiu algo morrer dentro de si quando ele os teve em sua posse.
— Eu até posso compreender porque veio atrás de Wolfsbane Edition… aquela garota Black lhe contou, não foi? Vou precisar dar um jeito na língua dela, qualquer hora dessas. Agora isso… – ele apontou para Aventuras em Neverland, intrigado. – Qual o seu interesse em contos infantis?
— Não era pra mim. – disse, a mentira fluindo mais fácil dessa vez, escorrendo na frieza da desesperança – Peguei para Bae. Presente de Natal.
— Você se lembra do que aconteceu da última vez que pegou coisas que não lhe pertenciam, Tara? Porque você deveria.
Com um aceno brando, Wolfsbane Edition foi para nas chamas da lareira.
— NÃO! – gritou, se jogando na direção do fogo, mas Gavril acenou a varinha mais uma vez e as chamas explodiram fortes, o consumindo completamente. Ele riu debochado.
— Diga a sua amiga para deixar de ser uma covarde e vir buscar pessoalmente as coisas que quiser de volta, está bem? Ao invés de fazer você agir como sua alcoviteira.
Ela o olhou atravessando, e depois respirou muito fundo. Teve certeza que seus olhos tinham brilhado pretos por um momento, a raiva dentro de si queimando vermelha. Fechou seus punhos, porque por mais que quisesse gritar que não era nenhuma covarde e estava bem ali, ela tinha uma dúzia de motivos – um para cada corpo lá embaixo – para não agir impulsivamente na frente do Olho de Hórus.
— Agora, isso volta para a prateleira. – Um novo toque de sua varinha e Aventuras sumiu de vista. – Uma vez que resolvemos esse pequeno momento de rebeldia da melhor forma, me deixe dizer o quanto estou feliz que tenha vindo passar o natal em casa.
Ela se ergueu devagar, admitindo que o livro – que se tornara uma massa escurecida no fogo – estava perdido para sempre. Notou o emprego questionável de ‘feliz’, especialmente quando o esgar irônico em seu rosto não refletia o sentimento.
— Posso imaginar. – disse, os dentes travados com muita força.
— Oh, não fique assim. Não me diga que realmente achou possível aparecer aqui sem que eu soubesse, meu anjo. No fundo, tenho certeza que você esperava a minha presença para poupá-la dessa atitude vergonhosa.
— Se você tem certeza.— murmurou com ironia fria.
Ele riu sonoramente.
— Vá para o seu quarto. Amanhã faremos um bom jantar de Natal, com tudo a que se tem direito neste país de glutões. E melhore esse humor, quero vê-la radiante, entendeu?
— Sim, senhor.
— Ah, não se esqueça do presente de natal da sua amiga. Embale em um papel bem bonito. – Fez um novo aceno com sua varinha e o livro carbonizado foi parar aos seus pés, ainda saindo fumaça. Ela tentou pegá-lo, mas as pontas dos dedos queimaram no couro enegrecido.
Gavril lhe deu seu amplo, malvado sorriso. Havia nele a certeza de ser o absoluto rei do universo, e a curvatura dos lábios não atingia os olhos, que permaneciam como duas lascas afiadas de vidro de garrafa.
— Não ouvi a sua gratidão, Tara. Onde estão seus modos?
Bervely sentiu o queixo tremer em resistência enquanto forçava as palavras para fora.
— Obrigada, senhor.
— Isso mesmo. Boa garota.
— BD –
A cada tentativa de folhear o livro para ver se algo se salvara, as páginas se esfarelavam entre os seus dedos, virando cinzas sobre o colchão. Tentando não ceder ao desespero, Bervely passou grande parte da noite testando os feitiços que sabia para recuperar Wolfsbane Edition, mas não obteve qualquer sucesso.
Era de se supor que um livro importante como aquele fosse à prova de fogo, afinal de contas! Mas ela sabia que existiam fogos e fogos, e Gavril teria usado algum feitiço incendiário poderoso para garantir que nada ficasse para trás.
Por fim, ela o enrolou em seu cachecol da sonserina e o colocou dentro da mochila. Precisava admitir que haviam problemas mais urgentes; como estar presa na casa do homem que tinha uma coleção de corpos no porão, e um dos corpos era o dele.
Não lhe passara desapercebido que os trajes que Gavril usava ao encontrá-la na sala de visitas era o mesmo que o do corpo lá embaixo, deixando claro que ele de alguma forma retornara ao corpo do porão rápido o bastante para interpelá-la à lareira e impedir sua fuga.
Então, ele tinha vários, e ele podia usá-los à sua disposição. Agora que achava que as pessoas da sala estavam de alguma forma sendo mantidas para servirem como fantoches, a ideia fazia seu estômago embrulhar num nó apertado.
Quem era aquele homem, qual era sua verdadeira face?
Fosse quem fosse, Bervely sabia que não poderia fugir de sua casa aquela noite, não enquanto ele acreditava que era Tara Romansek.
E certamente não fugiria nunca, se ele descobrisse que ela não era.
— BD –
Os primeiros raios da manhã de natal se infiltraram através das cortinas vaporosas, encontrando uma Bervely esticada na cama, com os olhos bem abertos.
Ela gostaria de não ter desperdiçado Wy com uma carta de feliz natal pra Andrômeda. A única providência que tomara para tentar se resguardar de uma falha no seu plano fora deixar um bilhete em seu próprio quarto, mas agora pensava que ele poderia ter sido mais claro.
Quando alguém o encontrasse e desvendasse sua mensagem, provavelmente já seria tarde demais para ela.
— Bom dia, Ms. Tara. Pronta para o seu café?
Bervely sentou-se rápido na cama, a juba de cachos desordenados tomando seus ombros e rosto, mas ainda assim pegou a silhueta da elfa andando pelo quarto. Dill não parecia ter qualquer gota de culpa em seu corpo por ter contrariado sua ordem e contado à Gavril que estava em casa.
Ela depositou uma bandeja sobre o criado mudo, onde havia um suco, sanduíche e frutas cortadas. Bervely franziu as sobrancelhas vermelhas para os serviço de quarto:
— Eu pretendia tomar o café da manhã com meu pai na sala de refeições. – mentiu, porque achava que esse seria o esperado, caso ela fosse mesmo Tara. A elfa dobrou cuidadosamente o guardanapo de pano ao lado do prato enquanto respondia.
— Você não tem permissão para sair do quarto até a hora do jantar.
Bervely se alarmou.
— Como é?
— Mestre quer que você passe o dia pensando na sua indisciplina da noite passada.
— Mas é natal! – protestou tolamente, negando a onda de desespero que tentou subir pelo seu peito.
Tudo que a elfa fez foi se inclinar sem grandes sentimentos, apenas uma vaga curiosidade.
— Seu inglês britânico sofreu uma sensível melhora, Ms. Tara. Você quase não tem sotaque.
Bervely arfou, lançando um olhar para a porta fechada do quarto. Então ela estava de castigo por ter tentando roubar o livro. Aquele era o jeito de Romansek disciplinar sua filha?
— Você não deve ficar chateada. Yurik e Iodole estão preparando um grande jantar para a noite. Seu pai quer que use as vestes douradas. Tudo será perfeito, você vai ver. Dill vai preparar o seu banho agora. Bom apetite.
Ela ficou olhando a elfa atravessar o quarto, enquanto aquela horrível sensação se desenrolava em seu interior. Jantar? Não pretendia ficar tanto tempo na Mansão Romansek, certamente não ia passar o natal na companhia do Olho de Hórus! Eles sentariam frente à frente e ele saberia que não era sua filha no mesmo minuto.
Quando a elfa sumiu para dentro do banheiro, ela pulou da cama e cobriu a distancia até a porta, forçando a maçaneta – que se provou firmemente trancada. Ela conjurou sua varinha e tentou os feitiços que sabia, sem sucesso. Estava considerando explodir a maldita coisa como fizera com o lustre quando ouviu a elfa atrás de si novamente.
— Precisa de algo do lado de fora? – perguntou a criatura com suavidade. Bervely achou que identificara uma nota de deboche, mas não tinha certeza.
— Não, eu… – mas então ela baixou os olhos para o pescoço da elfa, onde alguma coisa sobrepunha a camisola folgada. – O que é isso em seu pescoço? Desde quando elfos usam acessórios?
Dill se apressou em enfiá-lo de volta para dentro, mas Bervely ainda podia ver o fio cor de carne que passava pelo seu pescoço.
— Dill deve retornar aos serviços do Mestre agora.
Ela desaparatou com um estalo rude antes que Bervely pudesse dizer outra coisa. Só então notou que o gato não a acompanhara daquela vez, como de costume.
— BD –
Da mesma forma que o café da manhã, o almoço foi servido em uma bandeja por volta de meio dia. Outro elfo veio trazê-lo e deixou a refeição ao lado da anterior, intocada.
— Yorik! – ela chamou, quando ele fez menção de ir embora sem qualquer palavra. – Se importa em abrir a janela? Está meio abafado aqui dentro, mal consigo respirar.
O elfo mal olhou em seus olhos para lhe dar uma resposta nervosa.
— Eu ser Iodole. Mestre não dar permissão para abrir as janelas do vosso quarto. Iodole sentir muito, Ms. Tara.
Ela deu um suspiro desanimado; valia a tentativa, certo?
— Seu mestre é um psicopata controlador e doente. – murmurou com raiva quando ele saiu. Esperava que não tivesse ouvido.
Ela caiu de costas na cama, nervosa e incapaz de comer qualquer coisa. Passara a manhã pensando num plano para escapar com vida antes do jantar, porque só haviam dois desfechos possíveis: no primeiro, o homem a que chamavam Gavril Romansek acreditaria que ela era mesmo Tara, e ela seria forçava a ficar na mansão até o fim do feriado. No outro, ele a desmascararia e Bervely iria parar em sua coleção de marionetes no andar de baixo ainda aquela noite.
Talvez ele usasse seu corpo para andar por ai, e ninguém jamais saberia. Imaginou a hipótese – o Olho de Hórus se passando por ela em razão de algum propósito escuso, circulando por Hogwarts e tendo acesso à Anne, Oliver, Sirius…
Não ia deixar isso acontecer. Decidiu que se não pudesse sair dali como ela mesma, não sairia de forma alguma. Tomada essa decisão, Bervely puxou sua mochila e de dentro dela tirou um frasco de poção para a qual seu algoz não prestara qualquer atenção na noite anterior.
Ela trouxera a poção consigo esperando não ter que usá-la. Sabia que a tinha produzido corretamente, mas o seu resultado era imprevisível. Todos os encantamentos presentes em La Voix Du Sang pareciam muito instáveis…
Saltando da cama e se certificando que estava sozinha no quarto, Bervely rasgou um pedaço do tapete, expondo o chão forrado em madeira debaixo dele; afinal, era importante que o feitiço penetrasse nas fundações da casa. Pegou a página avulsa do livro, que trouxera enrolada junto a um bolo de pergaminhos limpos, e desenhou o símbolo no chão, usando a poção vermelha e densa como tinta.
O símbolo reluziu por um momento como larva incandescente, depois foi absorvido pelo chão e tomou seu caminho.
Ela esfregou o rosto com um suspiro nervoso. Ainda esperava que a situação não chegasse ao ponto em que precisaria ativá-lo, mas suspeitava que era uma esperança vã a qual se agarrar.
— BD –
Quando Bervely teve qualquer noticia do lado de fora, a luz do dia já esmorecia através das janelas fechadas do quarto. Ela passara por vários estágios – de ansiedade para impaciência, de impaciência para agonia e desta para uma estagnação conformada – então quando o bilhete se materializou sobre a mesinha, ela o pegou com um movimento desinteressado de seu braço.
Você deve descer para o jantar em quarenta minutos. Espero que o dia tenha sido produtivo.
Amor, papai.
Se ironia fosse gordurosa, Bervely sabia que a carta estaria pingando. Ignorando o calafrio que se espalhou por sua espinha, ela se levantou e se recobriu de fria resignação. De alguma forma, precisaria passar por aquele jantar não só convencendo-o de que era Tara, mas agradando-o de alguma forma para que relaxasse no seu ‘castigo’. Era literalmente sua única chance, e não ia desperdiçá-la por mais que a ideia de se sentar à mesa com aquele homem lhe causasse repulsa.
Quarenta minutos depois desceu a escadaria para o hall, sua mão deslizando pelo corrimão sinuoso, emulando as costas retas e o nariz empinado que Tara sempre usava para avisar ao mundo que era uma parcela da realeza. Viu pelos muitos espelhos do hall o cintilar do vestido que estava usando – era justo, o material escamado e dourado-brilhante se assemelhava à cauda de uma sereia. Teria ficado horrível nela, mas não no corpo de Tara – a palavra certa para o efeito era deslumbrante. Arrumara os cachos ruivos num coque, deixando o pescoço livre para que o decote em v do vestido fizesse seu trabalho, em conjunto com os brincos pendentes de ouro.
Como Tara teria feito, ela carregara na pintura dos olhos, usando a vasta coleção de maquiagem encantada que a garota guardava nas gavetas da penteadeira. No braço esquerdo, diversas pulseiras trançadas disfarçavam a coleira, bem como a rosa negra. Quando estava nervosa, esconder a rosa com metamorfomagia era quase impossível.
No minuto em que entrou na sala de jantar, percebeu que esta recebera um tratamento natalino elegante. Havia uma longa e sinuosa árvore prateada ao canto, laços de cetim vermelhos e pratas, a toalha de mesa tinha um bordado mágico de flocos de neve, renas e fadas.
O Olho de Hórus estava sentado numa das pontas da mesa comprida e abriu um sorriso largo quando a viu. Ela tentou corresponder, para dar a entender que não estava magoada por ter passado o dia presa no quarto ‘refletindo sobre seus erros’. Radiante, ele dissera. Bem, ela ia tentar pelo menos não ficar homicida.
— Boa noite, querida. – ele disse numa voz leve e bem humorada. Bervely fez um aceno com a cabeça.
— Boa noite. Pai.— acrescentou ao final, escondendo o contragosto. Se dirigiu para a outra ponta da mesa, mas ele fez um aceno negativo.
— Onde pensa que vai? Sente aqui do meu lado. Se eu quisesse jantar tão longe de você, poderia muito bem ter ficado na Suíça.
Ótimo. Ela obedeceu, sentando-se na cadeira ao lado dele e de frente para o grande espelho na parede. Assim podia ver-se de frente, e a ele de perfil. Gavril era cerca de dois palmos mais alto, mesmo sentado. Ele ainda sorria.
— Você está fantástica. Quando prende o cabelo dessa forma, se parece com a minha falecida mãe.
Ela forçou os cantos de seus lábios para cima; não tinha certeza de que era um elogio. Os elfos serviram hidromel, ao que ela ficou muito grata por ter algo com que ocupar mãos e boca. Esperava que a relação de Tara com sei pai fosse fria, porque ela não saberia ser mais intima. Não quando suas entranhas estavam se revolvendo para dar o fora daquele lugar o mais rápido que suas pernas permitissem.
Gavril se serviu de conhaque e apreciou sua bebida demoradamente, sem tirar os olhos dela. Bervely fingiu reparar na decoração, depois beliscou um pouco de pão no prato de entrada, mas estava ficando sem ter com que se ocupar. Se perguntou se ele podia ouvir o seu coração batendo acelerado, ou seu sangue correndo rápido nas veias. Sendo metamorfomaga, ela bem que gostaria de ter controle sobre essas partes de seu corpo como tinha da aparência externa.
— Você está silenciosa, querida. Algo lhe incomoda? Não me diga que ainda está aborrecida em razão do nosso pequeno impasse ontem à noite?
— Não. – se apressou em dizer, erguendo o rosto – Eu entendi o seu ponto. Foi uma decisão estúpida tentar recuperar o livro.
— Não deixe aquela garota entrar em seus nervos, Tara. – ele recomendou, parcimonioso – Você é melhor do que isso. E no que se refere ao seu contato inapropriado com seu irmão, eu ainda espero que o seu bom senso retorne e por isso não tomei nenhuma providência à respeito, até o momento. Você não quer me ver resolvendo as coisas por mim mesmo, quer?
Ela achava que Tara não ia querer. Ainda se lembrava da marca vermelha e posteriormente roxa em seu rosto, quando a menina ajudara Bae a escapar da Reintegração.
— Não, eu…
— Ótimo. Nesse caso, eu espero que as visitas à Snowfall durante as luas cheias terminem por aqui.
Ela baixou a cabeça, apertando os lábios. Aquilo não estava indo bem; esperava que Gavril ficasse satisfeito com ela, o que não ia acontecer se o assunto girasse em torno de Bae. Por outro lado, ele ainda acreditava que ela era Tara. E Bervely não podia deixar de pensar em como ele estava sendo muito mais tolerante sobre o assunto ajudar irmão lobisomem do que ela teria suposto. Quer dizer, esperar que seu bom senso voltasse? Isso vindo do homem que tinha uma coleção de corpos?
— Não fique assim. Eu trouxe um presente para você.
Ela voltou a erguer a cabeça, surpresa. Gavril floreou sua longa varinha de seixo e uma caixa comprida se materializou à sua frente.
— Feito especialmente para você pelos duendes de Liechtenstein. Com suas pedras preferidas…
Dentro da caixa havia uma joia, a pulseira mais bonita que ela já tinha visto. Era trançada com fios delicados de ouro e intercalada de gotas de pedras vermelhas. Reconheceu rubi, safira e topázio imperial, as duas últimas muito raras naquele tom. Uma joia de valor inestimável, com certeza, mas Bervely sabia que Tara tinha muitas. Seu pai lhe dava joias nos natais e nos aniversários desde que ela a conhecia; costumavam chegar em Durmstrang, trazidas por aquela terrível coruja bico-de-ferro ano após ano.
— Obrigada, é muito bonito. – disse, sendo sincera pela primeira vez aquela noite. A joia ficaria linda em contraste à pele de Tara.
— Me deixe colocá-la.
Ele fez menção de pegar seu braço esquerdo, o que usava as diversas pulseiras e a coleira, mas ela se esquivou, lhe oferecendo o direito. Ele franziu as sobrancelhas.
— Esse braço está livre. – justificou, estendendo-o para ele.
Gavril segurou seu pulso, e Bervely achou que ele podia sentir sua pulsação fora de controle. Ela controlou o asco de ter aquelas mãos sobre si enquanto Gavril passava o metal frio em torno do seu braço e a pulseira se fechava magicamente quando as pontas se uniram.
— Ficou perfeita.
Para sua profunda surpresa, ele levou sua mão até os lábios e beijou. Carinhosamente. Como um pai faria à sua filha mais querida.
Bervely franziu os lábios, inclinando o rosto para o outro lado. Ele pegou o fim do seu movimento quando voltou a olhar para ela.
— Algum problema, Tara?
— Não! Só estou com fome. Não comi muito bem durante o dia.
A verdade é que ela não tinha comido nada, mas isso não fazia o seu estômago mais propicio a aceitar alimento, contraído em nervosismo como se encontrava. Mesmo assim ele anuiu, inclinando sua cabeça como quem reconhece uma informação óbvia.
— É claro que não. Sei que detesta comer sozinha.
Chamou os elfos e os ordenou que servissem o jantar. Foi um alivio, porque o movimento dos pratos vindo lhe poupou de falar qualquer coisa, e teve tempo para se acalmar com alguns goles generosos do hidromel em sua taça.
Logo a mesa estava repleta; havia peru assado com batatas, cenoura cozida, couve de Bruxelas e Yorkshire pudding, ensopado de ervilhas e alguma comida romena com repolho que Bervely sempre achava repulsiva. Os elfos fizeram os pratos, mas Dill não estava entre eles. Por ela não era uma elfa doméstica, se lembrou. Era de companhia. Se lembrou que de acordo com a conversa que tiveram no dia anterior Tara não a conhecia e deixou sua curiosidade guiar o rumo da conversa, já que não poderia fazer greve de silencio o tempo inteiro.
— Então… sua nova elfa. – começou, espetando com o garfo um pouco de carne de peru. – A que me denunciou na noite passada.
Ele deu um breve sorriso, como se a situação ainda o divertisse.
— Não fique com raiva, ela estava apenas seguindo minhas ordens. Eu a orientei a me informar qualquer coisa de anormal que acontecesse em casa na minha ausência.
— Como eu sou anormal? Eu moro nessa casa. – protestou, porque era o que Tara teria feito.
— Filha, por favor, não se faça de desavisada. De toda forma, ela só está de passagem. Vai retornar comigo na próxima viagem, porque não há necessidade de três elfos numa casa vazia.
— Ela disse que é uma elfa de companhia. – repetiu, num tom de questionamento zombeteiro. Ele deu de ombros.
— Ela gosta de se denominar assim.
— Onde a achou?
Ele ergueu os olhos da comida, uma sobrancelha arqueada em alerta.
— Por que o súbito interesse em minha elfa, posso saber?
Bervely recuou, sabendo que tinha passado dos limites. Gavril devia ter uma tolerância mais baixa à questionamentos do que o resto das pessoas, mesmo que estas viessem da sua filha. Ela deu de ombros, fingindo um branda curiosidade.
— Nada demais, a achei educada. Além disso, eu nunca tinha visto um elfo que vem com um gato de estimação junto.
Ele não lhe disse mais nada, continuou comendo sua comida, e ela pensou se tinha dito alguma coisa errada. Por outro lado, como se conjurado, o gato cinzento de Dill apareceu na sala, atravessou o tapete e sumiu debaixo da mesa. Bervely o tinha visto através do espelho mas Gavril, que estava de lado, não o percebeu entrar.
Ela desejou que o gato não começasse a fazer seu estranho truque de transmissão de imagens com ela novamente, porque a dor de cabeça resultante do último persistira por longas horas. Além do mais, ele só a tinha colocado em apuros – tudo bem, ajudara com a senha, mas se não tivesse lhe mostrado a entrada para a sala de corpos, ela já estaria bem longe dali aquela altura. Estaria passando o natal em Hogwarts, provavelmente com Anne. Pensar na irmã lhe causou um estranho nó na garganta. Teria ela visto a caixa de memórias? Bervely estava quase certa de que mesmo cega ela poderia acessar as memórias de Olivia Loren, mas não fazia ideia do que a menina pensaria delas…
E graças à Gavril, talvez ela nunca chegasse a saber.
— Eu acho que sei porque está agindo tão estranhamente hoje. – disse Gavril de súbito. Bervely se forçou a voltar ao presente, com um calafrio de antecipação.
— Eu não estou…
— É o nosso primeiro natal sem Bae. Você também ficou chateada no primeiro natal sem a sua mãe… mas passou, não é? Nós não precisamos deles, Tara. Estamos melhores sem eles, na verdade. Quem não valoriza o que construímos não merece estar aqui para desfrutar da nossa companhia. – o discurso era arrogante, mas apaixonado e ele buscou seus olhos para dizê-lo. Quase como se tentasse consolá-la, embora não fosse muito bom na tarefa, pois não conseguia evitar soar imperativo.
Ela deu um suspiro entrecortado, assentindo.
— Vou me lembrar disso.
— Faz bem, filha. – deu batidinhas em sua mão, que estava apoiada no tampo da mesa. Bervely tentou não saltar com o contato inesperado. Gavril continuou, num tom mais brando. – E então… como vai a escola?
À medida que o jantar se desenrolou, Bervely acreditou que conseguiria. Falava o mínimo possível, é verdade, mas a desculpa de que estava triste com a ausência de Bae viera a calhar perfeitamente. Ela até teve a impressão de que Gavril tentava levantar o seu astral, como quando mandou vir a montanha de krasenkake da cozinha – o doce possuía quase a altura do elfo que a trouxe. Tara teria amado aquilo, mas ela não conseguiu fingir mais do que vago interesse. O que a dominava era ansiedade para que o jantar chegasse ao fim e pudesse voltar ao quarto. Estava tão perto! Se pudesse apenas comer a sobremesa…
Foi quando o gato pulou em seu colo, sobre as escamas delicadas do vestido. Ela tomou um susto e esbarrou sua mão no copo, derrubando-o, o hidromel traçando um caminho dramático sobre a toalha prateada. Gavril interrompeu seus comentários – sobre como esperava ter alguns turnos livres para estar com ela durante o feriado de Natal e talvez pudessem fazer uma rápida viagem para uma estação de esqui – e olhou para o animal no colo dela como se visse um diabrete, não um felino inofensivo.
— DILL! – chamou, a voz retumbando pela sala. A elfa apareceu no segundo seguinte.
— Mestre? – respondeu nervosa, os olhos azuis muito arregalados.
— Por que o gato está em cima da minha filha?
A elfa percebeu a localização de Cobe e seu rosto se torceu em horror. Ela correu para retirá-lo, mas o gato resistiu, cravando as garras nas pernas de Bervely através do pano do vestido. Ela soltou uma exclamação de dor e a elfa se afastou como se tivesse sido ela própria a machucá-la.
— Você está tendo problemas com o gato? – Gavril exigiu para a empregada. Ela balançou a cabeça, as orelhas sacudindo.
— Não, mestre, ele apenas…
— Ele pode ficar, não tem problema. – disse Bervely rápido, antes que a situação piorasse. Não entendia porque Gavril parecia tão zangado e a elfa tão agitada, afinal era só um gato sendo impertinente. Gatos fazia isso o tempo todo.
— Não minta para mim, elfa. – ele disse com severidade.
Um elfo comum, diante de palavras tão duras vindas do seu mestre teria corrido para colocar os dedos no forno. Dill, em lugar disso, levantou um olhar ferido para ele e não lhe respondeu qualquer coisa. Então ela avançou e arrancou o gato do colo de Bervely, segurando-o enquanto ele esperneava em seus braços miando sem parar.
— Prenda o gato e retorne imediatamente. – ordenou, irritado. Bervely assistiu Dill ir embora, tendo dificuldades para levar Cobe junto com ela e quando se foi, o silencio reinou na sala. Arriscou olhar para ele, só para ver seus olhos fumegando.
— O que está acontec–
— O que o gato mostrou a você? – ele exigiu, num tom muito diferente do gentil que estava dirigindo a ela momentos antes. Bervely até deu uma olhada em seu reflexo no espelho, para se certificar de que ainda se parecia com Tara.
— N-Nada. – se apressou em responder. – Ele apenas pulou…
— Eu estou tão cansado de todos mentindo pra mim nessa casa! – exclamou, batendo sua enorme mão na mesa, fazendo a prataria inteira tilintar. Ela encolheu os ombros, discretamente pousando a mão sobre a varinha que escondera nas dobras do vestido. Seu coração voltara a palpitar fora do ritmo.
Dill retornou à sala, os ombros pequenos de elfo contraídos, os olhos azuis injetados. Ela se aproximou da mesa como quem caminhava para execução, e certamente o olhar no rosto de Gavril lembrava o de um carrasco, naquele momento.
— Eu exijo que me diga o que está acontecendo. – ele disse, a voz mais controlada, mas não menos letal. A elfa se encolheu, olhando para o tapete.
— Eu sinto muito, mestre. O gato parece ter se afeiçoado à Ms. Tara, mas tudo já está sob controle. Se pudermos conversar um minuto em seu escritório após o jantar, eu explicarei…
— Agora, Dill. Você vai me explicar agora. Não se incomode com a presença da minha filha, tenho certeza de que, para o que quer que esteja acontecendo, ela pode dar a sua contribuição.
Bervely sentiu um calafrio. Ela sabia que as coisas estavam desandando. Seja lá o que a elfa queria falar em particular com o Olho de Hórus, não poderia ser boa notícia para ela.
— Jin… C-Cobe parece ter mostrado à Ms. Tara algumas informações… indevidas. Mas eu já o puni, mestre. Ele passou o dia inteiro trancado. Não vai fazer de novo.
— Que informações? – exigiu Gavril, que claramente não ia deixar Dill se safar com metade da história.
— A… senha do vosso escritório. E ele lhe mostrou… o livro na prateleira, mestre. E a sala… a sala dos vossos vasos.
Bervely estava ouvindo só com metade da sua atenção, porque a outra estava trabalhando no que a elfa dissera antes. Jin…
— Jinx. – disse em voz alta no momento em que deu-se conta. Aquele era Jinx. O gato de Hector. O livro de Hector e o gato de Hector estava naquela casa. Havia um limite para o que podia ser deixado a cargo da coincidência.
Nem percebeu que os outros dois ocupantes da sala tinham ficado momentaneamente em silêncio. Dill lhe olhava com incrédula confusão, e Romansek…
Bem, havia um tipo novo de olhar no rosto dele, um que ela conhecia. O de predador farejando a caça.
— Mestre. – chamou Dill, sua voz tremula, desistindo de entender como ela poderia saber o nome verdadeiro de seu gato, mais preocupada em salvar sua pele – Eu o castigarei mais uma vez, prometo. Sua lealdade não voltará a falhar, ele tem sido obediente todos esses anos…
— Cale-se. – mandou o homem friamente, sem olhá-la. A esse ponto, tudo que ele via à sua frente era a garota, que em tudo se assemelhava à sua filha, empalidecendo. – Deixe o gato para mais tarde.
— C–Certo. Ms. Tara, minhas sinceras desculpas pelo comportamento de Cobe. Deseja mais alguma coisa?
— Ela não deseja mais nada, o jantar acabou. Tara, me acompanhe até o meu escritório. Precisamos ter uma conversa sobre suas aventuras nessa casa ontem, enquanto eu não estava.
— BD –
Parte de Bervely tinha curiosidade para saber como um pai explicava para filha os doze corpos guardados em casa.
Era uma parte pequena. A maioria absoluta dela estava concentrada em manejar seu pânico de voltar para o escritório e ficar sujeita à um Olho de Hórus fora de si. Porque ela sabia que era assim que ele estava, mesmo que o exterior fosse controlado. Ela gostaria de saber exatamente o que o irritava. Era o fato de ela – “Tara” – ter descoberto sua sala secreta, ou era porque o gato fugira do controle de Dill?
Não “o gato”, se corrigiu. Jinx. Poderia tê-lo reconhecido mais cedo, convivera com aquele gato por quatro meses em Durmstrang, os seus últimos também com Hector, antes daquele fatídico natal. Sabia que o gato era um familiar, mas nuca entendera muito bem o que isso significava, a não ser que era herdado. Bervely sempre achara que Hector o herdara do pai – que ele encontrara na Suíça tantos anos após achar que morrera num incêndio. A história toda era confusa, e ela não pensava nisso há muito tempo… lembrava que Jinx costumava ser prateado brilhante, mas aquele gato era cinza fosco, desbotado. Mas a aparência de animais mágicos podia mudar em algumas circunstancias, como em situações extremas ou maus tratos…
— Sente-se. – o Olho de Hórus ordenou quando pisaram os pés no escritório. Bervely obedeceu, sua cabeça girando. E doendo. A fome, o hidromel e a tensão finalmente se combinando numa enxaqueca muito fora de hora.
Seus olhos inevitavelmente alcançaram a fonte no canto da sala, e Gavril notou seu interesse. Ele estreitou os olhos para ela como se quisesse extrair cada grama de pensamento que estava tendo no momento.
— Então. – começou num tom altivo. – O gato lhe mostrou a entrada da minha sala anexa.
— Sim, ele mostrou. Mas eu não a visitei.
Gavril meneou a cabeça, sem tirar os olhos dela.
— Não minta para mim, garota.
Garota. Mas ela sabia que seu disfarce ainda estava erguido e que seu rosto e corpo ainda eram os da herdeira Romansek.
— Pai, eu sinto muito. Eu não queria bisbilhotar. Só vim pegar o livro, o senhor sabe, para fazer a poção para Bae…
Ele não estava prestando atenção. Dera a volta em sua mesa e procurava algo nas gavetas, abrindo-as e fechando com movimentos furiosos. Bervely queria desesperadamente pegar a sua varinha, mas uma vez que mostrasse uma posição defensiva ele desconfiaria dela e seria um caminho sem volta.
Poderia apelar para a chantagem emocional? Tara era a rainha da chantagem emocional. Supunha que funcionasse em casa, se era tão boa em aplicá-la fora dela.
— Pai, por favor… foi um acidente. Eu não queria ver nada. Eu nem mesmo… eu jamais tentaria bisbilhotar seus escritório, pai, acredite em mim.
Ele voltou com um frasco em mãos. Era uma poção clara, aquosa, ela não sabia exatamente qual. Ele parou em sua frente, lhe olhando com seriedade.
— Você deve ter muitas perguntas. – considerou, a analisando. – E eu as responderei. Mas não antes de eu tirar uma dúvida que por acaso me ocorreu, de forma tardia, eu arriscaria dizer.
O assistiu destampar a poção, cujo cheiro ocre alcançou seu nariz. Bervely reconheceu – era antídoto para Polissuco. Nunca o tinha produzido, mas lera sobre as suas propriedades em Poções Mui Potentes em seu quarto ano. Ela arregalou os olhos quando ele avançou, duas certezas lhe acometendo – a primeira, que ele ia forçá-la a beber aquilo. A segunda… que ele desconfiava que ela não era Tara.
— Pai! Não, o quê–
Mas ele a segurou com rudeza pelo queixo, inclinando sua cabeça, forçando a poção pela sua garganta enquanto ela lutava. Bervely tentou resistir, cuspindo o que pode, mas ele tampou seu nariz e ela foi obrigada a beber uma parte, engasgando.
Quando teve certeza que engolira ele se afastou, assistindo-a tossir sem se comover. Bervely ergueu o rosto com um olhar ferido, cheio de lágrimas.
— O que o senhor está fazendo? – protestou, num perfeito tom ofendido. Agora que sabia que ele estava desconfiando, os modos de Tara estavam vindo mais facilmente. Talvez porque enfim sua personagem e ela estavam em sintonia no estado de humor: apavorado.
Ele não lhe respondeu; esperava a poção fazer efeito em silencio. Ela sentia um calor se espalhar por debaixo da pele, e se tivesse bebido polissuco o efeito estaria se cancelando agora, sua pele borbulhando de volta ao normal. Era inútil contra a metamorfomagia.
Mesmo com sua aparência imutada, viu Gavril estreitar ainda mais seus olhos de felino, intrigado.
— Sem Polissuco, então. Interessante.
Pegou sua varinha, apontando para ela. Bervely ofegou.
— O que o senhor vai fazer? Pai, por favor…
— Você não é minha filha. Occulte ostendere! – uma onda quente de magia fluiu da ponta da varinha, envolvendo o corpo dela, como se tentasse arrancar sua pele. Fora um ardor em todas as partes expostas, nada mais aconteceu, ao não ser a sua reação. Ficou de pé, sacando sua varinha.
— Pare com isso!
Ele meneou a cabeça, sacudiu a varinha e ela foi lançada contra a cadeira como se uma força a unisse ao assento. Suas costas machucaram contra a madeira, mas Bervely estava assustada demais para se lamentar. Se ela não o convencesse de que era Tara, tinha a certeza de que não sairia viva daquele escritório.
— Eu sou sua filha, pare com isso, está me machucando! – gritou, soando exatamente como Tara quando se descontrolava. Algo no timbre o atingiu e ele abaixou sua varinha, a liberando.
Bervely respirou fundo, tremendo. Mantenha o disfarce. Não importa o que, mantenha o disfarce.
— Eu sinto muito por ter entrado no seu escritório. – disse, sem fôlego, as palavras se atropelando no sotaque romeno de Tara. – Não farei de novo, eu prometo. Nunca mais vou ver Bae. Não vou decepcionar o senhor, eu prometo…
Mas ele parecia distraído com qualquer coisa que não era sua tentativa constrangedora de comovê-lo. Os olhos passeavam pela sala, ágeis, até pousarem na prateleira. Na lombada azul de Aventuras em Neverland, que havia voltado para o mesmo local que Bervely o encontrara na noite anterior.
— Bae odeia contos de fadas. – ele disse.
Ela piscou, confusa.
— O quê?
— Você disse que pegou Aventuras em Neverland para dar ao seu irmão como presente de Natal, mas ele odeia contos de fadas. Entre todas as pessoas, você saberia disso.
— Eu… esquecei. – ela disse, seu sangue gelando.
A varinha de Gavril se ergueu. Antes mesmo que Bervely pudesse pensar em produzir um feitiço escudo, a sua foi voando direto para as mãos dele. Ele a analisou com curiosidade, suas sobrancelhas grossas e ruivas se franzindo.
— A minha filha jamais ergueria a sua varinha contra mim. E se por acaso o fizesse, certamente seria sua própria, de cerejeira, e não essa.
A cor fugiu do seu rosto. Com a certeza de que nada que fizesse a partir daquele momento podia realmente melhorar sua situação, ela voltou a se sentar na cadeira, calada. Ergueu seu rosto no entanto, para que ele não achasse que ela estava acuada ou rendida.
Isso só o deixou ainda mais interessado. Gavril voltou a florear sua própria varinha, lançando outro feitiço em sua direção, esse penetrando em seu peito e a deixando sem ar, enquanto fazia uma pressão de dentro para fora. Aguentou. Reconheceu o encantamento de revelação que anulava qualquer glamour que estivesse usando.
— O senhor teve sua questão respondida? – perguntou de forma petulante, quando o feitiço não obteve resultado. Ela viu que a mão da varinha dele tremeu levemente.
— Não da forma que eu esperava. – disse, gélido. – Mas sim.
— Então é a minha vez. – continuou, muito séria. – Aquele gato que está com a sua elfa pertencia à Hector Carmichael. Como ele chegou aqui?
Sabia que a pergunta era arriscada, mas não adiantava fingir que não sabia quem o gato era, afinal, deixara escapar seu nome há poucos minutos. Os olhos de Romansek faiscaram perigosamente.
— Que interesse você tem no gato?
— Isso não é uma resposta justa.
Ele assentiu vagarosamente.
— Hector Carmichael está morto. O gato passou sua lealdade adiante.
Ela sentiu um beliscão doloroso em seu peito diante das resposta direta. Não esperava… não tinha certeza se queria ir adiante. Mas ela precisava, certo? Se ele ia responder com a mesma sinceridade…
— E o livro… como o livro de Hector chegou aqui?
— Eu o peguei durante uma visita à Mansão Malfoy há algum tempo.
— Por quê? – disparou, sem conseguir segurar sua língua. O olhar dele era misto, jocoso, mas algo por trás que ela não conseguia entender… incomodo?
— Isso não é justo, é? Você também precisa responder as minhas perguntas. – adejou ele, pousando . – Quem é você? Por que invadiu minha casa? Quem pensa que é para ter a ilusão de que sairia daqui ilesa?
— Eu sou sua filha. – ela repetiu com calma, reprimindo as notas de ironia. Não podia evitá-la toda, no entanto. – Você está me ofendendo, pai. Eu vim passar o natal com você e é assim que me trata?
Gavril cerrou seus olhos, como se buscasse autocontrole para não estrangulá-la. Bervely aproveitou para dar uma boa olhada ao redor, procurando uma rota de escape. Havia muito pouco a se fazer sem a varinha, no entanto. A janela era feita de um vidro grosso, e a porta, muito embora não estivesse trancada, exigia a travessia da mansão inteira até a saída. Aparatar estava fora de questão, ela já tinha tentando isso mais cedo em seu quarto.
— Como você conheceu Hector Carmichael? – perguntou, decidida a prolongar a conversa. Gavril gostava do som de sua própria voz e ela podia se aproveitar disso para ganhar tempo. Viu os olhos dele cintilarem enquanto cogitava lhe responder. Não que precisasse… ela imaginava que ele sabia tudo sobre Hector, se investigara o seu passado como tinha dito uma vez.
— Eu o conheci há vinte anos. Eu fui a primeira pessoa a seguro-lo no colo.
Agora, aquela resposta não fazia o menor sentido. Gavril estava apenas brincando com ela, tentando distraí-la ou qualquer coisa. Ela riu pelo nariz, sem humor.
— Como é? Há vinte anos? Isso não tem graça.
— Nós concordamos nesse ponto. Não é engraçado. – ele disse, seus olhos correndo de novo para o livro da estante e depois para ela. Para o seu braço esquerdo, o braço que ela tinha se recusado a lhe estender para que colocasse a pulseira. Gavril se demorou ali, pensativo. Depois a olhou nos olhos de novo. – Eu conheci Hector quando ele nasceu. O que faz certo sentido, já que eu sou o pai dele.
Ela deu um sorriso fraco, negando com a cabeça. Aquela era a coisa mais absurda que já ouvira na vida.
— Não, você não é. O pai de Hector se chamava Thor Carmichael. Ele morava na Suíça. Ele…
Mas ela foi emudecendo, oprimida pelo olhar cínico dele e pelas peças se encaixando à força em sua cabeça. Então foi como um soco em seu peito. Sua cabeça continuou fazendo o movimento de negação, mesmo assim, como se estivesse no modo automático.
— Você não pode– ele… –não…
Gavril abriu um sorriso de empolgação que desfigurou seu rosto.
— Agora, isso é fascinante! – disse, lhe olhando com uma quase adoração.
E ela soube que seu disfarce havia caído. O choque da noticia subvertera sua metamorfomagia, fazendo-a se parecer de novo consigo mesma em toda sua gloria Black.
Gavril se aproximou como quem analisa um fenômeno curioso numa placa de Petri. Como se ele a visse pela primeira vez e ela fosse uma planta rara brotada no chão do seu escritório.
— É claro que eu pensei nisso, mas parecia tão improvável… se manifestar num sangue puro como o seu, quero dizer. Cinco gerações de pureza, e ainda assim… ah, isso muda tudo, não muda? Isso muda tudo. Oh, querida, você é tão sortuda.
— Eu conheci Thor Carmichael uma vez. – ela ofegou, mal ouvindo o que ele falava, enquanto seu cérebro trabalhava para contestar a informação que acabara de receber – Ele era… loiro. E… diferente. Mais baixo, mais… diferente.
Não podia culpar sua falta de eloquência. Tinha sorte de ainda conseguir emitir palavras naquele momento.
Gavril riu, como quem presencia uma criança que a descobrir algo pouco usual do mundo dos adultos.
— Sim, querida. Você me conheceu num corpo diferente. Você não é muito esperta, não é? Ainda não entendeu o principal sobre mim. Triste, mas não se pode ter tudo na vida. Metamorfomaga e inteligente… eu teria de começar a temê-la como uma ameaça à minha altura.
Ele deu uma gargalhada ruidosa, o que levou Bervely a perceber que tinha perdido aquela batalha. Ele retornara ao controle, qualquer desconforto com a sua invasão e quebra de segurança anuladas pela descoberta da única coisa que ela conseguira ocultar dele por todo aquele tempo. Mas ela continuava aturdida demais em saber que o homem à sua frente era o mesmo que colocara Hector no mundo. Ainda faltavam peças, e ela precisava saber… o resto. Tudo.
— Vamos lá embaixo, minha garota. – ele disse suavemente, como se falasse com alguém que era lento de raciocínio – Prometo responder todas as suas perguntas. Sei que lhe devo as respostas, além do mais… bem, serão as últimas que você fará por um longo tempo.
Past the point of no return
No backward glances
Our games of make belive
are at an end
(Além do ponto sem retorno
Sem olhar para trás
Nossos jogos de faz de conta
estão no fim)
— BD –
Bervely teve um pequeno momento de inconsciência. Ela não tinha desmaiado de verdade, mas foi como se piscasse e de repente estava de volta à sala de corpos. Não se lembrava de ter descido pela fonte, restara apenas da vaga sensação de queda e agora ela presa à uma cadeira. Seus braços e pernas bem firmes conta as pernas e braços do móvel, sem que nenhum feitiço aparente a segurasse.
Os corpos flutuavam ao redor deles. Onze, agora. É claro, um deles estava sendo ocupado por Thor, Olho de Hórus, Gavril…. sua cabeça estava rodando. Precisava se concentrar. O que ele tinha dito lá em cima? Ah, sim, suas últimas perguntas.
Moveu a cabeça, procurando pela silhueta do bruxo ruivo pela sala. Ele estava em um dos cantos escuros, manejando objetos de uma caixa sobre um aparador que ela não se lembrava de ter visto antes. Também havia um fogo azulado queimando num dos cantos, que cheirava como criogênio, um gás que se desprendia de alguns processos de combustão mágica. Não era um cheiro bom; era tóxico e fazia seus olhos arderem – o que nem de longe era o maior de seus problemas.
— Como… como você faz isso?
O bruxo ergueu o rosto, oculto nas sombras. Apenas seus olhos cintilaram no escuro, refletido pelas chamas.
— Trocar de corpo. Possuir corpos de outras pessoas. – explicou ela, diante do olhar vazio dele – Achei que só demônios das sombras podiam fazer isso.
— Houve um tempo em que só eles podiam, mas os bruxos dominaram a técnica eventualmente. Bem… alguns bruxos. Uma parcela muito seleta. Não é o tipo de coisa que queremos sair espalhando por ai, para o uso de qualquer pessoa.
Ela mandou a sensação ardente de agonia em seu peito se aquietar. Não adiantava nada entrar em pânico agora. Respirou fundo.
— Eles estão mortos? Seus… vasos?
— Depende da sua concepção de morte. Se por mortos você quer dizer sem funções metabólicas básicas, então não, não estão. Mas se estar vivo implica na existência de uma alma, ou… uma consciência individual, bem, isso já se quebrou há muito tempo.
Ela passou seus olhos pelos corpos cobertos, um por um, pensativa.
— Você é como um dementador. – murmurou – Você os deixa sem alma, mas ao invés de largar o corpo vazio para trás, você se infiltra neles como um parasita.
— A comparação não é lisonjeira, mas em linhas gerais, não está equivocada. – concordou, e por sua voz, ela soube que sorria. Ah, se divertia com ela novamente.
Bervely tentou se mover e livrar seus braços, mas uma dor excruciante atingiu seus músculos, como se fosse espetada por agulhas de dentro para fora. Ela gritou, voltando a ficar imóvel, mas a dor não passou imediatamente. Seus olhos se inundaram de lágrimas.
— Eu não tentaria sair daí se fosse você. – ele disse tranquilo, ainda fazendo o que quer que fosse na parte escura do aposento. – Vai danificar seus membros. Nada que eu não possa consertar depois, mas realmente, prefiro que mantenha seu corpo intacto para não me dar muito trabalho.
Uma lágrima quebrou a tensão e rolou por sua bochecha, contra a sua vontade. Doía muito, mesmo que estivesse parada. Era como o feitiço que ele lhe lançara em seu dormitório quando a visitara em Hogwarts, mas mil vezes mais intenso. A única coisa que podia mover sem sentir dor era sua cabeça. Sua boca. Engoliu em seco, piscando para liberar as vistas da umidade de suas lágrimas, decidida a não perde-lo de vista.
— S-Sobre… sobre Hector. – ela pigarreou, firmando sua voz. – Você o viu antes que ele… você o viu naquele verão. Você o convidou para morar com você, para entrar em sua… sua organização, ou sei lá o que. Mas ele não queria, não é? Ele não confiava em você. Não queria deixar a verdadeira família dele para trás.
A resposta demorou a vir. Ela ouviu um baque surdo, como se ele tivesse pousando um recipiente na superfície de trabalho com força demais.
— Meu filho estava equivocado, mas ele teria recuperado seu senso eventualmente. Eu tentei lhe dar tempo para isso. E eu estou certo de que ele teria voltado para mim, se não fosse…
O Olho de Hórus se interrompeu, deixando a informação pender no silencio. Ela viu que ele se aproximava, surgindo ao alcance da iluminação azul. Trazia outra poção – essa transluzida, verde-brilhante. Conjurou uma cadeira na frente dela e se sentou, seus joelhos quase tocando os de Bervely, de tão perto. Ela o encarou com firmeza.
— Se não fosse…? – encorajou. Ele ergueu a mão, segurando seu queixo delicadamente.
— Se não fosse você, Bervely.
— Eu?
— Beba.
Ele fez do mesmo modo, tampando seu nariz para que ela não tivesse opção senão beber o líquido que escorregou pela sua garganta, horrivelmente amargo, um gosto venenoso de ervas maceradas e sumagre. Ela não lutou, no entanto. Não queria voltar a sentir a dor. Quando ele deixou que ela o encarasse, ela voltara a ter os olhos aguados, dessa vez por causa do gosto forte do líquido em sua língua.
— Eu nunca pedi para Hector ficar. – disse, desejando que tivesse pedido. Pedido para ficar com ela, talvez assim as coisas tivessem sido diferentes. Mas ele meneou a cabeça.
— Você o matou, querida.
Ela abriu a boca, mas a fechou em seguida, porque contestar seria mentir. Ele assentiu, aprovando a anuência dela.
— Eu sei sobre a sua poção, sei que não foi de propósito, mas isso não importa, você o matou. Intenção, ou a falta dela, não anula a culpa, não é mesmo? Eu sei que o remorso corrói você até hoje… quando você fala o nome dele, está escrita em seus olhos de forma muito clara.
Ela desviou os olhos dele, incapaz de encará-lo. Não queria revisitar aquele sentimento, fora difícil o bastante aprender a conviver com ele – fingir que não estava ali o tempo inteiro – nos últimos anos.
Então ela viu a elfa surgindo do alçapão, seus olhos arregalados de agitação, torcendo suas mãos nodosas na frente do corpo.
— Mestre? Eu sinto muito, sei que não devia interromper, mas…
Congelou quando viu Bervely ali sentada, nas roupas de Tara, imobilizada e com seu queixo ainda preso nas mãos de seu mestre. Bervely conhecia aquela expressão – era a de quem via seu bicho papão diante de si sem aviso. Puro horror, estagnação. Podia apostar que uma onda de choque sacudira seu pequeno corpo de elfo e o paralisara.
O bruxo se virou com impaciência.
— O que foi agora, Dill? Dill! – exclamou, ao não obter resposta – Fale de uma vez, o que aconteceu?
— Eu… eu ap-penas… – ela correu os olhos pelo resto da sala de forma errante – Cobe está aqui? Ele escapou… sinto muito, acho que eu não o prendi direito, quando fui verificar, ele não estava mais na dispensa!
— O gato pouco importa agora. – o ruivo fez um aceno de desinteresse com a mão, ajeitando a postura e soltando Bervely. – O dano já foi feito.
A elfa voltara a olhar para Bervely com todo o assombro que cabia em sua pequena face.
— O que o senhor… o que o senhor vai fazer com ela?
Ele pareceu apreciar a pergunta. Bervely também tinha certo interesse na resposta.
— Eu pretendia eliminar nossa pequena invasora. Você vê, eu lhe dei inúmeras chances de provar seu interesse em colaborar comigo, mas ela dispensou ou arruinou cada uma delas. E invadir minha casa, se passar por minha filha… inadmissível. Você sabe que já me livrei de inconveniências como ela por menos. Mas então, veja você, eu descobri uma coisa curiosa. A nossa amiga aqui… é uma metamorfomaga. Sabe o que isso significa, Dill?
— S-sim. – ela murmurou, seus olhos crescendo ainda mais, se isso era possível. – Significa que ela pode… mudar sua aparência o quanto quiser, sem precisar de uma varinha.
— É, essa é uma definição simplificada, mas verdadeira. Estudiosos de transmutação humana dizem que metamorfomagos, quando verdadeiramente habilidosos, podem fazer coisas incríveis com seu corpo. Podem se tornar literalmente qualquer coisa viva, as possibilidades são infinitas. Não acha essa uma informação interessante, Dill?
— Muito, senhor.
Bervely não tinha certeza em como isso funcionava com elfos, mas Dill estava exangue, se sua aparancia amarelada dizia alguma coisa.
— Você poderia ter me informado desse pequeno detalhe antes, não acha?
— Eu não sabia! – ela exclamou, atemorizada.
— Bem, sem danos feitos. – suspirou Gavril. – Sua habilidade especial será o que poupará sua vida, no fim das contas. Quero dizer… isso depende da sua definição de vida, como já conversamos. – e ele sorriu de forma diabólica.
Bervely entendeu o que ele pretendia. Era tão óbvio, não devia ter demorado tanto para compreender, se não fosse toda a coisa de pai-de-Hector ocupando sua cabeça.
— Você me quer na sua coleção. – disse em voz alta. Não havia entonação de questionamento, mas mesmo assim ele assentiu.
— É claro que sim. Estou pensando até em torná-la um item único, afinal de contas, você torna os outros obsoletos. Para que ter doze, se com um eu posso ter… infinitos?
Ele soava triunfante. Certamente não tinha esperado, ao voltar para casa na noite anterior para disciplinar sua filha furtiva, que encontraria tal minha de ouro. Bervely foi invadida por uma onda de asco ao imaginá-lo explorando as suas habilidades de metamorfomagia e perpetuando seus crimes e estratagemas com o corpo dela.
— Você. – ela disse, sua voz soando mais firme e clara do que em qualquer momento anterior – É um homem desprezível.
— Como quiser, minha cara. – o bruxo se ergueu da cadeira, enérgico. – Dill, me ajude com o rito de marcação, eu já ministrei a poção de resfriamento, mas ainda preciso do instrumento, acredito que ele esteja em minha maleta lá em cima…
A elfa não se moveu. Hesitava.
— O senhor vai mesmo marcá-la?
Gavril se virou, olhando para sua serva com dureza.
— Sim. Por que, tem alguma objeção? Não se preocupe, eu deixo você brincar também… quando estiver melhor nisso. Não queremos arruiná-la por acidente.
A elfa deu um último olhar atravessado para Bervely, antes de deixar a sala. O Olho de Hórus se aproximou do fogo azul, que queimava numa espécie de nicho da parede, e o encantou com movimentos fluidos de sua varinha até que ele se tornasse claro, quase branco. Ele estava silencioso e compenetrado, o que era de certa forma ainda mais preocupante do que a versão eloquente.
Bervely se forçou a continuar falando, porque ficar calada assistindo a cerimonia de sua execução era uma opção pior.
— O que você quer dizer com “me marcar”? Não me diga que vai estampar em mim aquele seu símbolo ridículo, como fez com sua filha?
Ele prolongou o silencio até ter a chama ao seu contento – ardendo ativamente, sacudindo-se como se tivesse viva. A luz branca-azulada forte, mais concentrada, lançava sombras em seu rosto cheio de ângulos. Ele nunca parecera tanto um demônio como agora.
— Sim, vou marcá-la com o olho esquerdo* de Hórus. – disse, se aproximando dela com um copo. Voltou a se sentar numa cadeira e o encheu de água com a sua varinha. – Beba, você deve estar com sede. Ficar desidratada não nos ajudará em nada.
Ela estava, mas tentou virar o rosto mesmo assim. Quando ele forçou a água pela sua garganta, ela não conseguiu ficar parada e o feitiço de contenção alfinetou seu corpo de novo. Ele fez uma expressão condescendente, como quem lida com uma criança teimosa.
— Fique quieta, Bervely. E não, eu não marquei Tara, ela fez aquilo por si mesma, e foi estúpido. Estava tentando me agradar, é claro. Não pude ser muito duro com ela em razão disso.
— Tara não faz a menor ideia do monstro que você é, faz? – cuspiu, enraivecida. Odiava ter coisas forçadas pela sua boca, mais até do que odiava estar contida naquela maldita cadeira. – Quando ela souber, você vai perder mais um filho. Minha nossa, você é terrivelmente bom nisso.
Não esperava que a mão dele se chocasse contra seu rosto com a força de uma barra de ferro. A dor foi ofuscante, somada àquela em seu corpo quando o impulso do movimento a levou a forçar o feitiço para o lado esquerdo. Sentiu a pele arder, o maxilar estalar e luzes pretas piscaram diante dos seus olhos. Achou que ia perder os sentidos, mas ainda conseguia ouvir a voz dele bem perto.
— Eu sei que eu disse que gosto da sua impertinência, minha garota, mas você está passando dos limites.
Dill voltou com o objeto que lhe fora pedido. Bervely achou que viu um brilho prateado atrás dela, mas devia ser sua imaginação, afinal sua visão ainda estava turva e a dor a impedida de abrir os olhos completamente.
Ela os fechou. Por alguma razão, a primeira imagem que viu foi a de Hector, sorrindo pra ela em algum dia luminoso que fazia com que seu cabelo quase branco parecesse um halo angelical. Devia ser a poção, lhe provocando alucinações.
Isso era bom. Se ia morrer, pelo menos Hector seria a última coisa que veria. Bervely sentiu um peso em seu colo, mas não ligou muito. Hector era mais importante naquele momento… e não era mais verão, mas inverno. Natal, três anos atrás. Dera-lhe Neverland, sem saber que dali a algumas horas ele tomaria a poção do morto vivo. Elas reagiriam, matando-o…
— Hector estava fugindo. – murmurou, sem entender direito o que estava dizendo. Que importava? Nem achava que o Olho de Hórus ainda estivesse prestando atenção nela. – Fugindo… do pai dele… de você. Ele tinha um plano.
Uma imagem substituiu a de Hector, mas não era nada que ela tivesse visto antes. Era Charlotte, retirando um vidro de poção de dentro de um envelope pardo que acabara de chegar por uma coruja bico-de-ferro. O ponto de vista era rente ao chão e o esquema de cores variava entre o azul e o cinza, como num sonho desbotado. Ela reconhecia a poção no frasco, no entanto. E ela reconhecia a caligrafia da carta, embora não pudesse lê-la.
— ESSE GATO MALDITO! TIRE ESSE DEMÔNIO DAQUI!
O grito do Olho de Hórus a despertou de sua alucinação e a dor, consequência do seu espasmo de susto, deixou-a alerta de novo. O peso em seu colo sumiu, em seguida a silhueta prateada sumiu nas sombras, enquanto Dill se apressava atrás dele, mas não o alcançava antes que sumisse pelo alçapão.
— Mestre, sinto muito! – a elfa se desculpou, chorosa. – Não sei o que está acontecendo com ele!
— Como não sabe? O gato estúpido transferiu sua lealdade para a garota, é óbvio!
— Mas ela não é uma parente consanguínea de Hector! – a elfa protestou, inconformada.
Gavril zombou dela:
— E você muito menos, não é?
Bervely viu o que ele tinha na mão; um ferro longo, cuja ponta possuía uma placa acoplada, como uma espécie de carimbo. Ele a esquentava nas chamas e a placa ia ganhando uma colocação vermelha à medida que ficava em brasa.
— Não se preocupe, minha garota. – ele disse suavemente, ao perceber que ela estava de volta e o modo como olhava para seu pequeno instrumento de marcação – Não vai doer. Bem, vai doer, mas não tanto quanto o segundo passo. Então, apenas relaxe.
Bervely desviou os olhos daquilo, enjoada. Ela não gostava nem um pouco da ideia de sentir mais dor. Desejou que Jinx voltasse e lhe mostrasse mais coisas – o rosto de Hector, o sorriso que ela já não via há tanto tempo, mas que ainda era capaz de enternecer seu coração. Fechou seus olhos e o chamou. Sabia que estava sendo tola, gatos não atendiam a pensamentos de garotas desesperadas.
Algo se infiltrou pela sua mente; uma ideia, no lugar de uma imagem. Como tinha acontecido antes, quando ela fora levada a pensar em Tara, mas dessa vez a ideia evocava um sentimento, ao invés de uma pessoa.
Paciência.
Bervely balançou a cabeça. Odiava poções que a faziam delirar. Ela piscou, voltando a observar Thor aquecer pacientemente o pirografo* ao fogo. A aponta estava vermelha incandescente e emitia um chiado suave.
— Sr. Carmichael… – chamou rouca, usando pela primeira vez o nome verdadeiro dele. – O que fez com Charlotte Summers?
Ele considerou sua pergunta por um momento.
— O que a leva a pensar que eu fiz algo com ela?
— O senhor disse… que Lucius Malfoy lhe solicitou que desse fim nela. E eu apenas supus que a tivesse matado. Mas o senhor me enviou cabelo de Charlote quando fechamos aquele contrato, e eu sei que o cabelo só funcionaria na poção Polissuco se a matéria viesse de alguém vivo. E por vivo, eu quero dizer ‘com suas funções metabólicas ativas’.
— A Srta. Summers não está em minha coleção, se é o que está insinuando. – ele disse prático e quase bem humorado. Pareceu satisfeito com o estado de seu pirografo, porque o tirou de dentro das chamas e sacudiu no ar. Fumaça fina e esbranquiçada fluía do objeto em ondulações espirais, fazendo um caminho às suas costas à medida que se aproximava. – Aquela pequena porção de cabelo… ela me ofereceu como um presente há muitos anos e eu o guardei imaginando que seria útil, eventualmente. Mas eu entendo que foi desperdiçado em suas mãos, não é? Você nunca precisou de polissuco para se infiltrar em Azkaban.
Gavril se sentou à sua frente, um brilho de antecipação em seus olhos verdes. Ela podia ver que ele apreciava aquele tiro de marcação – não era assim que tinha chamado? Bom, é claro que apreciava, ou não teria feito doze vezes, ou até mais, quem sabe se não tinha mais corpos em outros lugares, em outras salas como aquela.
— O que mais… o que mais Charlotte lhe ofereceu, Sr. Carmichael? Nós dois sabemos como o senhor manipula as pessoas a fazer o que deseja.
— Não vá por esse caminho de insinuações impertinentes, meu anjo. Eu não quero ter que lhe dar outro tapa.
E ela não queria sentir aquela dor de novo, não quando o local em que a mão dele atingira ainda pulsava. Estava certa de que machucara o interior de sua boca, pois sentia um pungente gosto de sangue sobre a língua.
Ficou perfeitamente imóvel enquanto ele abaixava uma das alças douradas do seu vestido de sereia, expondo o ombro, depois encantava a sua pele com um feitiço desconhecido e gelado. Bervely fechou os olhos, decidida a não mostrar vulnerabilidade, ou o quanto estava com medo tendo as mãos dele sobre ela.
Ia morrer, e não havia nada que pudesse fazer a respeito.
Como se não fosse ruim o bastante, ele ia usar o seu corpo. As pessoas com quem ela passara a se importar naqueles últimos anos jamais iam saber o que tinha acontecido com ela. Talvez ele nunca voltasse a Hogwarts e todos achariam que ela tinha dado as costas sem qualquer palavra de adeus. Ou então ele voltaria como ela… e os faria sofrer, de alguma forma.
— Para que a marca serve? – perguntou, a voz baixa. O silencio era pior. A tensão se esticava no silêncio.
— É uma porta de entrada para o seu corpo. Vai me dar acesso e exclusividade, é como a minha assinatura. Cada bruxo que pratica Incorporação tem a sua.
Ela sorriu, apesar de tudo, os olhos ainda fechados.
— Um dia eu conheci um bruxo que gostava de marcar pessoas com sua assinatura. Veja onde isso o levou… derrotado por um bebê, há mais de uma década. Você devia aprender com os erros dele, sabe.
— Oh, eu aprendi. – ele disse suavemente. – Você vê, nos frequentamos a mesma escola. Mas eu era um aluno muito mais aplicado. Tom… era um arruaceiro.
Bervely abriu seus olhos, o que foi uma má ideia, porque ele estava muito perto com aquela coisa fumegante, talvez procurando o melhor angulo para estampá-la. Ela não sabia porque estava se importando com a conversa curiosa, porém irrelevante diante das circunstâncias. Que importava o passado em comum de Lord Voldemort e Thor Carmichael, diante do fato de que ela ia perder sua alma em alguns minutos? Mesmo assim, a pergunta escapou de seus lábios dormentes:
— Você e Voldemort foram colegas? Onde, na escolinha de formação dos vilões grafiteiros?
Ele flexionou os lábios.
— Você é divertida, Bervely Black. Vou sentir sua falta.
Ele estava segurando sua cabeça um angulo inclinado com uma mão firme, mas ela mal notara. Foi quando o ferro incandescente se aproximou e Bervely teve um breve vislumbre de sua extremidade – o olho de Hórus em alto relevo sobre a placa, laranja brilhante e invertido.
E então ele foi cravado contra a pele de seu braço, logo abaixo do ombro, emitindo um chiado longo quando a carne queimou.
Past the point of no return,
The final threshold,
What warm unspoken secrets will we learn?
Beyond the point of no return
(Além do ponto sem retorno
A última porta de entrada
Que segredos quentes e não ditos
Nós aprenderemos, além do ponto sem retorno?)
(Continua…)
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