Notas iniciais
Eu tenho leitores fantásticos, incríveis, que me deixaram comentários de muita qualidade no capítulo passado. Adorei cada um deles, Vocês são mil!


“O que tinha chegado não era a noite, ela sabia, mas alguma coisa escura como a noite. Não, pior que isso. A coisa escura não tinha chegado: tinha enviado aquele arrepio para avisar que estava chegando.”

(J. B. — Peter Pan)



As mãos segurando os dois lados da caixa da janela aberta, ela impulsionou o seu corpo para a frente e o deixou pender. A brisa morna da noite adejou seu rosto, e uma leve vertigem ondulou em sua barriga quando olhou para baixo, para a queda de quatro andares e o concreto cinza da calçada. Forçou os olhos a não se fecharem, enquanto sentia o coração disparando, para sua satisfação.

“Faz um bom estrago”, analisou, imaginando o percurso do seu corpo até o chão. Se perguntou se existiriam feitiços a fim de impedir alguém de se jogar dali de cima, porque abrir a janela não lhe custara muito. Com cuidado, moveu os pés dois milímetros para frente no umbral da janela, esticando o rosto para a noite em busca de mais um pouco do ar pesado do verão.

– Não faça isso! — um grito vindo de trás a sobressaltou, e uma de suas mãos escorregaram, seu corpo sendo içado para fora, o equilíbrio perdido — Aresto mobilis!– e o movimento se congelou, evitando que a paciente se esborrachasse lá embaixo, contra o chão da rua Leadenhall.

A curandeira que gritara avançou e eficientemente removeu a garota de sua posição de risco, puxando-a até a cama no centro do quarto, e selando bem as janelas com a sua varinha. Ela prendeu uma anilha de contenção em seu braço direito antes que a jovem pudesse reagir.

– Hey!- protestou — tira isso do meu braço!

– Está tudo bem querida, tudo bem — a curandeira tentou tranquilizá-la, apesar de a sua própria voz estar agitada e tremula. — é para a sua segurança. Mas o susto já passou…

– Você quem me assustou! Quase me fez cair da janela! Não, pára — a mulher tentava prender o seu outro braço, mas não estava conseguindo porque a paciente numero doze usava uma espécie de pulseira de couro em torno do pulso — não mexe nisso!

– Você precisa se acalmar, ou vou ter que lhe aplicar uma poção intravenosa — a mulher lhe advertiu, pouco gentil — agora, fique quieta…

Mesmo se debatendo, estava fraca e com o corpo tão cansado que não pode resistir a ter o outro braço amarrado. Ela soltou um lamento quando o braço esquerdo queimou, e a bruxa, buscando a fonte da dor, pousou os olhos na face interna no seu pulso. Seus olhos cresceram em preocupação.

– Isso está infeccionado.

– Não é nada — disse a garota com apreensão. É claro que ela não podia fazer nada a não ser ter o braço examinado.

– Desde quando está assim?

– Não quero falar sobre isso — ela cuspiu, irritada. Sua franja entrava em seus olhos, e a posição em que estava sentada na maca que fazia as vezes de cama era desconfortável.

– Você pode não querer falar comigo, mas precisa falar com alguém. — avisou, e com um último olhar preocupado, deixou o quarto.

Ela tombou no colchão, o corpo todo doendo e o coração ainda em taquicardia. Não era muito confortável, mas estava tão cansada… seus olhos pesavam como duas bolas de chumbo, as pálpebras foram se cerrando lentamente. Não, brigou consigo mesma. Ela puxou seu braço machucado contra a anilha, atiçando a dor.

A dor ajudaria.

Quando o Dr. Fritz entrou no quatro 12, uns vinte e cinco minutos depois , encontrou sua paciente fitando o teto, mordendo firmemente os lábios, os olhos grandes bem abertos. Ele soube que fora visto por ela, embora não tivesse virado a cabeça para olhá-lo diretamente.

Ele conjurou uma cadeira e se sentou perto da cama, observando o local onde a curandeira responsável pelo turno da noite lhe contara haver uma infecção. Por detrás do anel em torno de seu pulso, entrevia os contornos de uma tatuagem cujas bordas estavam fundas, cravadas na carne, enquanto que a pele ao redor, muito vermelha e irritada.

Não era com uma velha pintura trouxa que ele estava preocupado, mas com o que sua paciente fora pega fazendo aquela noite de domingo. O que o tirara de sua cama àquela hora da madrugada.

– Você vai ficar ai parado me olhando feito um banana? — ela o atacou, irritada, ainda fixada num ponto do teto cinza.

– Eu estou preocupado com o que ouvi da curandeira de plantão. Gostaria de saber a sua versão dos fatos.

– O que aquela incompetente falou? Ela me amarrou aqui como se eu fosse um bicho. É inadmissível, para não falar ridículo.

– Desculpe por isso, mas é o procedimento padrão de emergência em situações como essas.

– “Situações como essas” — ela repetiu zombando — Que situações, aquelas onde os funcionários tentam matar os pacientes de susto?

– Não. — ele a olhou por um momento. Decidiu que seria sincero. Doze era uma garota sensata, até onde conversara com ele naquela semana de atendimentos. — Tentativas de suicídio.

O que veio em seguida foi um silvo incrédulo e um rolar de olhos.

– Foi isso que ela falou? Oh, por favor. Não foi o que aconteceu.

– Você estava de pé sobre a janela, inclinada para frente e olhando para baixo? — ele enumerou, parafraseando a curandeira. Doze suspirou e assentiu. — E o que pretendia fazendo isso? Sabe que a queda poderia lhe matar, se não causar danos físicos graves.

– Eu não ia me jogar. Só estava tentando ficar acordada.

A declaração o fez franzir ainda mais em preocupação.

– Eu pensei que tínhamos superado os seus problemas para dormir.

– Parece que não. Pode me soltar? Essas algemas realmente machucam.

Ele atendeu ao pedido dela, abrindo os aros de couro com um movimento da varinha. Doze se sentou, esfregando o pulso inflamado, e só então o medibruxo percebeu o quanto a aparência dela piorara desde sexta. Suas olheiras duplicadas de largura, uma palidez ressaltada, os lábios secos, e suas mãos tremiam ligeiramente. Conhecia os sintomas.

– Há quanto tempo está sem dormir? — perguntou sem rodeios. Ela o fitou desafiadoramente:

– Uns cinco dias. E vou continuar tanto quanto eu puder.

– Nós conversamos sobre isso, o sono é importante para a sua recuperação, e a poção impedirá os seus pesadelos. Eu imagino o quão difícil é saber que esteve dormindo por seis meses seguidos, mas não há razão para acreditar que você não vai acordar após algumas horas, se é isso que teme.

Ela lhe deu um sorriso amargo, abaixando os olhos.

– Você não entende. Não são pesadelos comuns… eu nem mesmo acho que sejam pesadelos.

– Como assim?

Ela balançou a cabeça, mas não falou nada a fim de explicar a afirmação. Olhava para a marca em seu braço, que pulsava dolorosamente como se estivesse viva. O desenho era uma flor em tinta negra, as pétalas abertas e preenchidas, o caule retorcido e cheio de espinhos dando uma volta inteira em seu pulso.

– Você nunca me perguntou sobre isso. — ela murmurou depois de alguns minutos de silencio.

O medibruxo concordou, entendendo que ela falava da sua tatuagem.

– Achei que chegaríamos a ela quando fosse da sua vontade. É recente?

Ele sabia que alguns bruxos adolescentes em crise de identidade tendiam a buscar experiências no mundo trouxa, principalmente quando um de seus pais eram trouxas e havia um conflito sobre onde eles pertenciam. Não era o caso de sua paciente, mas ela poderia ter procurado a experiência trouxa por outras razões, talvez para chocar a família. Mas a garota negou.

– Eu a ganhei quando tinha quatro anos.

O Dr. Fritz a olhou sem evitar a surpresa.

– Mesmo? Como isso aconteceu?

– Eu te contaria, mas não quero lhe dar pesadelos. — ela lhe olhou sombriamente por debaixo da profusão de cílios. Havia uma sombra de desafio em seu olhar que ele captou. Como se ela duvidasse que o doutor pudesse lidar com os seus segredos. Ele sustentou o olhar dela.

– Eu acho que posso aguentar uns novos, pra variar.

Doze assentiu, mordendo seu lábio inferior pensativamente.

– Eu conto, com uma condição. — o Dr. Fritz fez um sinal para que ela dissesse seus termos — Me deixe fazer a minha Poção do Sono Sem Sonhos.

– Oh, isso não, não seria apropriado ou seguro, e eu lhe garanto que as poções do nosso departamento são perfeitamente eficazes.

– Certo. — ela cruzou os braços — eu imagino que alguém possa mesmo morrer de privação de sono. Li em algum lugar que o coração não aguenta e pára de bater.

A chantagem não lhe agradava, mas o doutor novamente cedia à sua incurável curiosidade. Além do mais, não era nada que arriscaria a segurança de Doze, se fosse feito a seus termos.

– Tudo bem, você pode observar a produção da poção do sono por um dos nossos pocionistas, apenas isso. Está bom para você? Assim pode ter certeza de que vai afastar os pesadelos.

Ela pensou por um momento, e enfim cedeu, com um suspiro vencido.

– Melhor do que nada, eu suponho.

– BD —

Nove anos antes, 1981.

Era começo de primavera em Blackburn Hall, e Bellatrix estava no seu quarto antes mesmo do amanhecer. "O Lorde não tolera atrasos", disse, e Bevy abriu os olhos à menção do título. O dia em que conheceria o homem que ensinara a sua mãe como ser uma grande bruxa vinha sendo aguardado com ansiedade.

Bellatrix usava, por cima de um vestido cinza, sua longa capa negra de comensal. Algumas mechas pendiam na frente do seu rosto branco e o resto do sedoso cabelo fora contido num prendedor de prata. O cabelo era a coisa preferida de Bervely sobre a mãe. Tudo que queria era crescer para ter uma cabeleira como a dela.

Assistiu a bruxa separar um dos seus vestidos, aquele que usara para o velório de Regulus, com um laço de veludo nas costas. Mandou que fosse se lavar, coisa que ela foi fazer orgulhosamente, porque era uma menina crescida. Quando retornou, Bellatrix lhe fez um sinal para se sentar à penteadeira.

Bevy olhou a sua imagem sonolenta no espelho, e a de sua mãe atrás dela, pela primeira vez achando que se pareciam.

– A apresentação é um fator importante quando se é uma Black – Bevy a viu dizer pelo reflexo do espelho.


– A senhora vai... – a voz da menina morreu ao ver nas mãos de Bellatrix um pente dourado, cujo cabo exibia um padrão cravejado de pedras vermelhas.

– Vou, se você fizer o favor de ficar quieta. – disse a mulher, aproximando-se.

Os dentes maciços do pente escorreram pelo cabelo liso da garotinha. Por algum tempo, em movimentos suaves e seguros, desembaraçou toda a extensão dos cabelos da filha. As vezes as pontas dos dedos frios de Bella tocavam na pele da nuca de Bevy e ela tentava não se esquivar. Acompanhava a movimentação hipnótica pelo espelho e de fato pareceu sair de um transe quanto, de penteado pronto, recebeu um leve toque no ombro.

– Ande, Bervely – o seu tom foi repentinamente tão frio que assustou a menina, que sentiu como se tivesse feito algo errado – Não tenho todo o tempo do mundo para você.

Bella saiu pela porta, rodopiando com a corrente de ar a barra do vestido, e a menina não entendeu porque seu coração batia tão forte.

– BD -

Uma viagem dentro da carruagem puxada por cavalos invisíveis os levou até a morada de Lord Voldemort. Era um casarão cujo exterior tinha um ar abandonado e hera cobrindo-lhe os muros altos. Bevy seguia os passos da mãe olhando para os lados apreensiva.

Chegaram a uma porta corroída pelo tempo, e Bellatrix deu três batidas curtas. Bevy aproveitou para passar Rodolphos e ir para o lado da mulher.

– Senhora, e se o Mestre não gostar de mim? – perguntou baixinho.

– Não seja boba, ele vai gostar – Bella deu um meio sorriso sem olhá-la – você tem cinco gerações de sangue puro. Só precisa se comportar de acordo.

Rodolphos deu uma risada debochada atrás delas, mas ficou sério diante do olhar seco que a esposa lhe lançou.

– Tem algo a dizer, marido?

Ele negou, evitando olhar para ela e apertando os lábios firmemente para não sorrir.

– Essa é uma grande honra, Bervely — a mulher continuou, sem dar importância a ele — Um dia, você crescerá e também lutará ao lado do Lord. Lembra do que eu lhe disse? O mundo está sujo. Só nós podemos acabar com a escória. Certo?

A menina assentiu, um pouco assustada com o tom feroz que Bella usara. Rodolphos voltara a rir.

– Tão jeitosa com as crianças, Bella. Você não para de me surpreender.

Um homem encapuzado abriu a porta, fazendo com que a resposta ácida de Bellatrix fosse deixada para depois.

– BD -

Bevy estranhou as paredes de pedra bruta e tapeçarias obscuras nos cômodos que eram tão diferentes dos espaços amplos e luminosos da Mansão Malfoy, e muito abafados e opacos se comparados à Blackburn Hall. Durante o caminho por corredores que pareciam um labirinto, ela não viu elfos, nem pessoas, só algumas aranhas e um rato gordo cruzando seu caminho. No final do último corredor, deram com portas duplas de carvalho que iam do chão até muito alto, perto do teto. Em frente a elas, um par de encapuzados aguardavam.

– Bellatrix Lestrange – ela se anunciou, arregaçando a manga da capa e exibindo uma o desenho da caveira que Bevy já entrevira antes – O Lord está a minha espera.

– De certo, minha cara cunhada. – o encapuzado da esquerda deu um passo à frente, revelando o queixo fino e pontudo e cabelo loiro platinado como trigo. Bevy involuntariamente sentiu um calafrio ao reconhecer o tio Lucius Malfoy. Ele parecia muito terrível com aquela capa.

Ninguém a notou. Bellatrix adquiriu um semblante ligeiramente simpático.

– Lucius. Há quanto tempo não o encontro em serviço.

– Muita coisa para fazer em casa. Soube da novidade?

– Já fui informada, recebi uma carta de Narcissa. Diga-lhe que mando meus cumprimentos. Agora, se não se importa, Lucius, tenho assuntos de maior relevância a tratar do que a sua vida familiar.

– Ao que me parece, é você quem está misturando vida familiar e trabalho aqui, não? – alfinetou, apontando com o queixo para Bervely. Bellatrix fez um barulho de escárnio com a língua.

– Sinto muito, deve ser ruim estar por fora dos planos mais importantes do Lorde. Eu não saberia — se vangloriou — Vamos, Bervely.

As portas duplas se abriram para elas e permitiram a entrada num salão amplo, iluminado com tochas de luz verde e tapeçarias imundas nas paredes.

Bevy não conseguiu tirar os olhos da enorme cobra que achou enroscada aos pés de uma cadeira de espaldar alto. Nunca estivera perto de um animal enorme como aquele. Seu couro preenchido de marcas losangulares brilhava sob a luz do fogo, e ela ficou olhando fascinada até que uma voz gélida sibilou das sombras.

A menina nem se mexeu, a não ser para erguer o olhar e o ver.

– Minha cara Bella. Você tem feito falta. Fiquei sabendo que tomou certas providências em sua vida pessoal desde que a dispensei das nossas atividades.


Bellatrix se aproximou do seu mestre e curvou-se, ignorando uma Bevy paralisada ao seu lado.

– Milord – no rosto de Bella, um brilho de satisfação que era incapaz de ocultar. – É uma pena que não possa ter comparecido ao meu casamento, mas entendo que tinha coisas mais importantes a fazer.

– Ora, Bella, pense bem, talvez a minha presença causasse certo constrangimento aos seus convidados... sabemos como alguns se sentem despreparados diante da minha… insidiosa grandiosidade, não é mesmo?

– Sim, Milord. – a mulher assentiu, sorrindo.

– Lestrange, pode nos deixar a sós agora.

Rodolphos acatou a ordem, embora não parecesse muito satisfeito nem disposto a deixar o salão. Logo que o fez, Voldemort dirigiu-se a Bellatrix e a chamou para perto.

– Então, Bella, pronta para assinar o contrato?

– É claro, Milord.

Da varinha de Voldemort surgiu um pergaminho que pairou no ar a frente de ambos e, logo acima, uma pena longa e negra que, sozinha, se pôs na iminência de escrever.

– Pois bem, Bellatrix, apesar da origem paterna reprovável da sua filha, estou aceitando a menina em troca dos ensinamentos e treinamento que ofereci a você durante esses quatro anos, em arte das trevas. Ela deve ser educada com base no código de conduta e nos axiomas de sangue originais, até que atinja a maior idade, quando deve se apresentar a mim e me reconhecer como seu único mestre, respondendo aos meus desejos e colocando a minha disposição suas habilidades mágicas, seus serviços e tudo mais que eu lhe requisitar. Assine aqui, minha cara, com uso dessa bonita pena de agoureiro-do-diabo.

Bevy viu sua mãe pegar a pena negra e assinar seu nome logo abaixo das palavras que, enquanto Lord Voldemort recitava, haviam sido escritas em floreios negros. O tom vermelho vivo da assinatura deixou claro que a tinta provinha de suas veias.

– Ela precisa assinar também, por precaução.

Bella olhou com incerteza para a garota, e depois para Voldemort. — Ela só tem quatro, eu não acho que…

– Eu s-sei… — Bevy murmurou — eu sei assinar. — apesar de assustada, não queria que a mãe pensasse que ela não podia escrever seu próprio nome. Enquanto o bruxo sorria divertido, Bella lhe estendeu a pena e segurou o pergaminho para ela.

“Bervely Black”, escreveu em letras de forma, como treinara com tia Cissa, usando o espaço abaixo da assinatura elegante de Bellatrix. A tinta também saiu vermelha, e ela sentiu uma leve vertigem.

Seus olhos acompanharam o pergaminho, que enrolou-se no ar e que o próprio Voldemort depositou sobre uma prateleira no canto do aposento.

– Um digno pagamento, Bella. – o tom do bruxo era suave agora, e ele olhava para a menina com ares de possuidor.

– Mas, Milord – ela receou, recebendo e repassando a pena ao seu dono – Lembro que o senhor me disse que havia uma série de diretrizes importantes para a educação que deseja que eu dê... a minha filha.

– Sim – O Lorde sorriu, satisfeito consigo mesmo, e com um toque de varinha, algo veio planando da mesma prateleira que agora abrigava o contrato. Algo grande e retangular trazendo consigo uma nuvem de poeira caiu pesadamente aos pés de Bella.

Ela se abaixou e limpou a poeira com um feitiço. Inscrições em símbolos estranhos eram talhadas na capa de couro do que se mostrara ser um livro velho e espesso. Uma tranca tolhia acesso a suas centenas de folhas. Na face de Bellatrix, reconhecimento e adoração, unidos.

– Milord! É o Signo Negro!

Fosse o que fosse, fazia as orbes escuras de Bella brilharem como estrelas. Enquanto ela acariciava as inscrições com a ponta dos dedos, cheia de fascinação, Bevy viu que o olhar de Voldemort estava novamente sob si. O par de pupilas vermelhas como rubis penetravam nos seus, causando uma sensação estranha, como aquela dor aguda no cérebro quando você está se afogando. Ela ofegou, descobrindo que estava presa e não conseguia desviar o olhar, havia uma força invisível segurando sua cabeça no lugar.

– No entanto, Bella – Voldemort lhe chamou a atenção e ela imediatamente levantou, retomando a postura altiva habitual – Você precisará de mais que lições para manter o controle sobre a criança até que cresça. Queremos evitar que, durante o seu crescimento, haja alguma falha em sua educação que a impeça de ser a boa serva que queremos formar, entende?

– É claro. – Bellatrix assentiu, olhando de relance para Bevy como se ela já fosse previamente culpada por alguma "falha".

– Desse modo, creio que vocês vão precisar de um... elo.

– Acho que o compreendo, Milord.

Mas Bevy não entendia. Não fazia ideia do que o bruxo assustador estava falando. Nunca aprendera a palavra ‘elo’.

– Naturalmente – ele completou com um sorriso maligno que não atingia os olhos – eu quebrarei essa ligação pessoalmente no momento que ela me for entregue. Por hora, venham até aqui.

Bellatrix pegou a menina pelo braço e a levou para perto do Lord, ignorando sua resistência. Bevy não queria sentir aquela sensação ruim dentro da cabeça. Queria ser corajosa e se aproximar dele com o rosto erguido como sua mãe o fazia. Mas ela não conseguia se obrigar a isso diante do brilho maligno que aquele homem tinha ao encará-la.

As mãos brancas de dedos longos do Lord das Trevas envolveram o pulso esquerdo da menina, onde veias azuis pulsavam ao sabor de seu coração disparado. Ela ainda estava mordendo o lábio inferior com força, embora este já não possuísse mais sensibilidade. Ele torceu suavemente o braço pequeno para fora, expondo a pele da parte interior do pulso, onde ele plantou a ponta da varinha.

Soprando os lábios finos, sibilou o que Bevy mais tarde descobriria se tratar de uma maldição:

Dominus Gemnia.

Um fio negro entrou em sua carne e foi percorrendo um caminho doloroso, deixando um rastro negro por onde passava, e com ele uma terrível queimação. Ela abriu a boca para gritar, mas o olhar severo da mãe lhe forçou a engolir o lamento. Se contentou em morder a parte de dentro das bochechas, tão forte que sangrou.

Estava com medo de olhar para o braço e ver a marca de caveira com a cobra que a mãe, e também Rodolphos, tinham em sua pele, mas o que havia lá, tatuado e brilhando como tinta úmida, era uma rosa de traços delicados. Um desenho bem familiar. Ao redor estava vermelho como se o seu sangue estivesse concentrado sob a pele, borbulhando.

O mesmo foi feito no pulso de Bellatrix, mas ela mostrou-se tão irreativa que Bevy achou que talvez houvesse algo de errado consigo mesma. Porque ela sentira dor, e Bellatrix não?

Sua mãe a encarou dentro dos olhos, então, e a criança sentiu algo mais aterrador que a dor da sua nova marca – como se parte do ar que respirasse não fosse mais seu, como se mesmo parte do que pensava não morasse apenas dentro da sua cabeça.

– Domine o elo e você a dominará, Bella – assegurou Voldemort, determinando naquele momento o teor dos muitos pesadelos que Bevy viria a ter nos meses seguintes.


– BD -

1991, de volta ao hospital

– Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado
fez essa marca em você? — o doutor repetiu quando a paciente terminou de contar a sua lembrança. Ele tentava manter a voz limpa de qualquer tom, mas dava para ver em seus olhos um misto de assombro e descrença.

Ela assentiu, um tanto incerta de ter sido ou não uma boa ideia fazer a revelação. Era a primeira vez que dizia a alguém o que a rosa significava, e agora, ao ver a expressão oculta dele, preferia não ter contado.

– Você precisa manter segredo sobre tudo que eu lhe falar, certo? — ela quis se certificar, preocupada. — Contrato de confidencialidade, não é?

– Claro… claro. Eu não contaria… como eu lhe disse, a não ser que você esteja correndo risco de alguma maneira, porque nesse caso eu deveria notificar uma instancia de proteção à criança.

– Isso foi há muito tempo — ela rebateu com rapidez — não há nada que notificar a essa altura.

Ele assentiu, parecendo no entanto, com o pensamento distante dali. Desacostumada a ver o Dr. Fritz perturbado com qualquer coisa, começou a ficar ansiosa.

– Eu só te contei pra você me deixar fazer… digo, ver a poção sendo feita. Foi nosso acordo.

Ele assentiu, — Sim, é. Eu vou falar com o setor de poções do hospital, não tem problema. Se é disso que precisa para ter uma boa noite de sono, tomarei as providências… vou agora mesmo ver com o pocionista de plantão.

– Obrigada.

Ela assistiu o Dr. Fritz fazer anotações em sua prancheta, com um franzido preocupado entre as sobrancelhas. Discretamente, ela pegou de volta a tira de couro que a enfermeira retirara em seu afã de prendê-la, e a recolocou no pulso esquerdo, dando três voltas e fechando a fivela. Se sentiu imediatamente mais calma do que antes.

Nesse meio tempo o doutor levantou, verificou se as janelas estavam mesmo seladas (talvez não confiasse, afinal de contas, na sua explicação para estar pendurada no parapeito), e ia sair, mas parou e virou-se com a expressão pensativa.

– O que foi agora? — ela perguntou com impaciência, achando que ele ia pedir para recolocar as contenções “para a sua segurança” enquanto estivesse sozinha.

– Você contou que a sua mãe recebeu uma marca igual a sua.

– Sim. — confirmou de má vontade, de repente sem querer dar mais informações do que as que revelara impulsivamente.

– A marca as conectava, não é? Como… do mesmo jeito que a Marca Negra funcionava, com Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado e os seus seguidores? — a possibilidade de o raciocínio nefasto ser aplicado a uma criança horrorizava o doutor Fritz, e ele apenas torcia para que voz estivesse soando casual o bastante.

Ela deu de ombros a contragosto — Talvez.

– Vocês ainda tem… uma conexão? Você e a sua mãe, até hoje?

Ela o encarou por um momento, apesar de toda a privação do sono, capaz de ler nos olhos dele o quanto a ideia o perturbava. Doze sorriu minimamente e balançou a cabeça.

– Não. Não desde que ela foi para Azkaban, nós meio que perdemos o contato. — mentiu, tranquilizadora.

Quase pode ver os ombros dele relaxarem, muito sutilmente.

– Ainda bem. — o doutor lhe deu um sorriso sincero e aliviado — imagino como isso teria sido terrível.

(Continua…)

Notas finais
Eu só queria esclarecer que nem tudo que aparece na parte referente ao passado de Bervely ela está contando para o Dr. Fritz. Obviamente ela não teria o conhecimento das cenas em que não esteve presente, e era pequena demais para lembrar fidedignamente de outras. 
 Palpites: o que será que a marca da rosa tem haver com os pesadelos que não deixam nossa Bevy dormir? Depois desse capítulo, ficou fácil, né?