Indigna Rosa Negra
13 A Rosa à Espera
Notas iniciais
“– Ah, bons tempos aqueles, em que eu sabia voar...
– Por que você não sabe mais, mamãe? – Porque eu cresci, querida. A gente desaprende quando cresce.
– Por que a gente desaprende? – Porque a gente não é mais alegre, inocente e sem coração. Só as pessoas alegres, inocentes e sem coração sabem voar.
– O que é alegre, inocente e sem coração? Eu queria ser alegre, inocente e sem coração.”
(Peter Pan — James Barrie)
A grande, e agora gorda aranha castanha passeava de sua mão esquerda para a direita, então de volta para a esquerda, e parecia estar se divertindo.
Isso fazia uma delas, Bervely pensou entediada, sentindo só com metade da sua atenção as cócegas que as oito patas peludas faziam nas palmas das suas mãos. Ficara surpresa em encontrar a Sra. Calliway na mesma gaveta de sempre, e descobrir que ela se tornara uma desbravadora destemida, tendo dominado com teias todo o interior do seu guarda roupas. Não era de se espantar que estivesse tão rechonchuda, já que aquela armadilha enorme conseguiria prender até mesmo um roedor incauto.
Fez a nota mental para buscar algum eventual esqueleto de rato morto entre suas roupas (seria útil se se um dia precisasse fazer Esquelecresce), e numa reflexão posterior, decidiu que levaria a Sra. Calliway para Hogwarts consigo. Se ela precisava engolir aquela escola, então eles iam ter que aturar o seu bicho de estimação. Não era um gato, uma coruja ou um sapo, como descrito na carta, mas e daí?
Ótimo, agora eu estou construindo uma defesa para a aranha, pensou com sarcasmo, soltando um suspiro de impaciência. A mansão estava anormalmente silenciosa, pois a Família Perfeita tinha ido para o Beco Diagonal comprar o material escolar de Draco. Mas não ela. "Você já tem o telescópio, o caldeirão, o kit de frascos. Estou com a lista dos livros e a Mme. Malkim tem suas medidas, então não há necessidade de você ir", dissera Narcissa, fingindo que estava alinhando a capa para não ter de olhar para ela.
Não que estivesse morrendo de vontade de ir às compras. Não estava morrendo por nada ultimamente, mas desde que tinha sido comunicada que ia para Hogwarts, a ansiedade para o primeiro de setembro crescia. Oh, ela não ligava para a escola (afinal não era nenhuma Durmstrang), mas a convivência e o tratamento silencioso ali na Mansão estava perto de deixá-la louca.
Além disso, precisava ficar ouvindo Draco tagarelar aos quatro ventos sobre o teto encantado do castelo, um lago com uma lula, quadribol e Sonserina. E tudo que ela queria, cada vez mais desesperadamente, era ir embora dali. Apesar de Narcissa ter feito um esforço consciente e cruel para varrer todas as lembranças de Charlotte e Hector da casa, e agir como se ambos nunca tivessem existido, ainda assim para todo lado que olhava havia uma memória associada ao passado.
Quando deitou de costas no chão, colocando a aranha cuidadosamente sobre a barriga, seus olhos pousaram no novo teto da biblioteca, ela sentiu uma punhalada sem aviso no peito ao reconhecer traços do que um dia fora o teto do quarto de Hector. Quase todo o encantamento que ele lançara ali para parecer com o céu de uma floresta fora embora, mas aqui e ali haviam calombos retorcidos que podiam ser os contornos dos galhos, e de vez em quando um reflexo de luz filtrada de verde, como a lembrança do sol entre as folhas.
— BD —
Quatro anos antes, 1987.
— Tia Narcissa vai te matar por isso.
Hector fez um aceno despreocupado com a mão, e continuou agitando a sua varinha e transformando seu quarto em uma floresta. Era bem incrível de se assistir, ele fazer magia, e Bervely acompanhava com os olhos arregalados para não perder nada. As paredes se transformaram em troncos de árvore, e folhagens se despencavam do teto, os móveis viraram pedregulhos, moitas ou troncos, e aquele carpete raríssimo se tornou um chão de terra úmida e marrom. Ele conseguiu reproduzir o cheio fresco e o ar úmido e até o som de pássaros e grilos, bem como o abafamento místico no ar, que era aquele detalhe a mais que fazia você acreditar que lá no meio da floresta, qualquer coisa podia acontecer.
Por fim, o rapaz acenou para o alto, dizendo Lumiattus Extereo, e raios de sol incidiram obliquamente através das copas bem fechadas do teto de folhas, gerando uma iluminação difusa e bonita.
— O que acha? Está bom assim?
— Se o cara não te der um Exepcional, ele é um maluco. — ela lhe garantiu, ainda olhando encantada para o que era o trabalho de férias do primo. A depender do quão boa fosse sua apresentação ao retornar para a escola, ele seria aceito em Transmutação Humana, que era a turma mais avançada de Transfiguração em Durmstrang. Mas Bervely tinha certeza que ele conseguia; Hector era bom em tudo que fazia, pelo menos era o que ela achava.
— Demério Liopov é difícil de agradar. E eu tenho certeza que ele me odeia por causa daquela vez que me pegou fazendo uma imitação sua no meio do corredor.
— Ninguém pode te odiar — rolou os olhos. — tenho certeza que ele achou boa, só não quis admitir.
Ele lhe sorriu de volta, um sorriso do tipo "aposto que foi isso mesmo", e continuou aperfeiçoando o seu projeto, adicionando borboletas e texturas aos troncos, enquanto repassava mais sobre a Sr. Liopov e os outros professores de Durmstrang. Desde que ela fora aceita, Hector fazia questão de lhe explicar como as coisas funcionavam lá, às vezes lhe deixando ligeiramente nervosa. Parecia rígido e cheio de regras e pequenos detalhes que não podia se esquecer, e coisas que eram esperadas dela logo no início.
— Você vai querer ter um bom caldeirão para a aula de Miranda Pepper. Eu sei que diz estanho na lista, mas se você levar um de zinco, vai chamar a sua atenção de primeira.
— Será que a tia Cissa deixa eu comprar um de zinco? — seus olhos brilharam com a possibilidade. Estava muito ansiosa para poções, depois de descobrir que o livro usado seria Mil Ervas e Fungos Mágicos, um livro que ela tinha desde os sete anos e já memorizara completamente.
— Aposto que sim. — ele deu uma olhada no relógio, que costumava ficar na parede à esquerda, mas agora fazia parte do tronco de um salgueiro — Vocês não iam comprar o material agora de manhã? Já são quase onze.
— Eu sei — ela se contorceu com ansiedade — eu estou pronta, mas Charlotte ainda não tinha levantado para olhar o Draco, aquela dorminhoca.
— Mesmo? — ele se virou, intrigado — ela nunca dorme até tarde.
— Ela deve estar fazendo de propósito, só porque vou ao Beco Diagonal e ela não.
Ele franziu mais um pouco.
— Ou talvez ela não esteja se sentindo bem.
Bervely deu de ombros, mas dali há pouco Cissa apareceu no quarto. Ela estancou na porta ao se deparar com uma floresta onde deveria haver o perfeitamente decorado quarto azul celeste e branco de Hector. Os dois primos se entrolharam esperando a bronca, Bervely com um sorriso de antecipação, mas a mulher sorriu minimamente.
— Bom trabalho, querido.
— Obrigada, tia. — ele disse tranquilamente, depois dando uma piscadela para Bervely, que rolou os olhos. Se um dia ela transformasse o seu quarto em floresta, no mínimo ia receber uma bronca.
— Hector, querido, pode levar a Bevy ao Beco Diagonal no meu lugar? Charlotte não está se sentindo bem, então vou ter que ficar em casa com ela e Draco.
O resquício de sorriso no rosto dele sumiu.
— O que ela tem?
— Não é nada demais, não há razão para se preocupar.
Bevy achou que a tia estava escondendo alguma coisa. Será que Charlie estava muito, muito doente com algo horrível e Cissa não queria assustá-los? Hector pareceu seguir o mesmo raciocínio, pois deixou o quarto rapidamente, ao que Narcissa suspirou.
— Ela está morrendo? — Bervely perguntou alarmada. Cissa riu, balançando a cabeça.
— Vocês crianças são tão dramáticas. Ela vai sobreviver, eu garanto.
Não completamente convencida, ela foi espiar o quarto de Charlotte. A jovem estava sentada na cama ainda em sua camisola, e com o rosto um pouco franzido, como se sentisse dor, e o cabelo, que Bevy se acostumara a ver trançado, numa bagunça de cachos volumosos em torno do rosto e pelos ombros até a cintura. Hector se sentara na beira da sua cama, segurando a sua mão, e eles falavam baixinho.
Ela ficou ali um tempo tentando captar a conversa sem sucesso, até Hector falar alguma coisa que fez Charlie rir e corar, abaixando o rosto.
— Hector, você vai ou não vai me levar no Beco? — perguntou impaciente, irrompendo quarto adentro e sobressaltando os dois. As mãos deles se separaram.
— Lógico — ele se levantou, mas depois pensou melhor e se voltou para Charlotte, beijando o topo da cabeça dela — até mais tarde, Srta. Summers.
— Até mais tarde, engraçadinho.
Eles usaram flú até o Caldeirão Furado, Hector elegante numa veste cinza clara e Bevy se sentindo satisfeita no seu vestido preferido, o xadrez preto e branco de alças. Era a primeira vez que se lembrava de ir a Londres sem um adulto, e estava quase saltitando com aquela a sensação de liberdade.
— Podemos almoçar sorvete? — sugeriu ao passarem pela Florean Forstecue, que estava exatamente como ela se lembrava da sua primeira visita ali. Segurava firme a mão do primo, pois o lugar estava muito cheio de crianças e seus pais comprando material escolar, e dessa vez não queria se perder.
— Se você não contar em casa, eu acho que tudo bem. Aqui, me de sua lista... Você já tem uma boa varinha, e aquele kit de penas que ganhou do tio Lucius... Ok, no boticário primeiro, já que precisamos sentir todo aquele fedor.
Nas horas seguintes eles cumpriram cada item da lista, providenciando os ingredientes para poções, os livros e as vestes, depois o caldeirão (de zinco, número 2, com sistema de distribuição de calor especial e um kit de utensílios de prata), um conjunto de pergaminhos, e até foram numa loja incrível de instrumentos musicais, onde Hector perguntou o preço de um visanto (um complicado instrumento de cordas e buraquinhos, que se parecia com a cruza entre um violino troncho e uma flauta).
Algumas horas depois, cheios de pacotes que Hector fez ficarem bem pequenos e caber dentro da sacola, finalmente se dirigiram até a sorveteria, onde ele pediu um sunday tônico de limão e ela, o sorvete verde da última vez.
— Pistache? Que raio de sabor é esse?
Ela deu de ombros, provando uma colherada. Era engraçado, mas a mesa e a cadeira pareciam ter encolhido desde a última vez que estivera ali, e ela quase podia tocar os pés no chão agora.
— Foi o Homem do Cachorro que me mostrou — explicou, e ele fez uma expressão de compreensão teatral com a boca em "ah".
— O famoso Homem do Cachorro. Então foi aqui que vocês vieram?
— Ele já estava aqui, já estava até saindo, mas decidiu ficar comigo quando viu que eu tinha me perdido.
O primo fez uma careta engraçada,
— Hum, bonzinho ele, não é? E depois ele te deu a coleira?
— Ele concertou ela e me deu de aniversário — disse, sorridente, girando a velha tira de couro em seu pulso para reforçar a história, que já contara ao primo outras vezes. — E ele era muito legal. E bonito.
— Mais bonito que eu? Duvido. — resmungou, num sopro convencido. Ela deu uma gargalhada, assentindo. Hector fez careta de novo. — Não gosto do Homem do Cachorro, você gosta mais dele do que de mim.
— Não seja bobo. Eu só o vi uma vez e nunca mais, e você eu vou ver todo dia para sempre.
O que era, aliás, uma das grandes coisas a respeito de ir para a mesma escola que Hector. Passara quatro anos da sua vida dividindo o tempo em dois momentos: o primeiro era o que tinha Hector, durante as férias de verão, e depois o que esperava por ele, o resto do ano inteiro. Ela sabia que o mesmo servia para Draco e Charlie, mas só ela passaria o tempo inteirinho com ele a partir de agora, e a perspectiva era maravilhosa.
— Devíamos levar alguma coisa para a Charlie, o que você acha?
Ela franziu atrás da grande taça de sorvete de pistache, fazendo cálculos.
— Mas ainda falta uns três meses pra o aniversário dela.
— Não seria de aniversário, só para animá-la, ela está sentindo dor. Podíamos levar um pouco de sorvete...
— Tia Narcissa falou que ela vai ficar bem. — comentou, em dúvida, mas Hector estava tranquilo e havia até uma sombra de graça em seu rosto, como se soubesse de algo divertido a respeito do mal estar de Charlotte.
— Bem, ela com certeza vai, pelo menos até o próximo mês. E depois todos os outros a partir de agora.
Bevy não entendeu que tipo de doença era aquela que voltava todo mês, mas apesar de insistir, Hector se recusou a explicar e suas bochechas até ficaram um pouco coradas.
— BD —
31 de agosto de 1991.
Bervely era uma adepta à arrumação sistemática do malão, mas só daquela vez mandou a organização às favas e começou a jogar tudo lá dentro; tudo que precisava ir para Hogwarts e até algumas coisas que não precisavam. Por exemplo, todos os seus livros de herbologia, poções e alquimia que usara em Durmstrang. Aventuras em Neverland. Um monte de objetos que ela tinha medo de deixar para trás e "sumirem" como as coisas de Hector tinham sumido.
Havia algo mais faltando, e se deu conta com uma certa surpresa, pois há muito tempo não pensava nisso. Largou a arrumação pela metade e deixou o quarto, indo até a biblioteca onde — sem surpresa — Narcissa estava plantada, agora colocando em ordem a coleção de Compêndio Magico Ancestral de Balduck, que tinha nada menos que duzentos volumes e o hábito de sair da ordem quando ninguém estava olhando.
— Você terminou de arrumar sua mala?
— Quase — olhou ao redor, procurando um lugar onde o que procurava estaria guardado, talvez na sessão de Ancestralidade e Sangue Mágico? Podia ser um palpite muito óbvio, mas depois de tanto tempo, talvez ele tivesse se misturado com o resto dos livros e sido esquecido. Mas não encontrou, e ela se dirigiu para o armário privado de Lucius, que ficava trancado, mas cuja senha julgava poder descobrir com um pouco de esforço (seu tio era um monte de coisas, mas criativo não era uma delas).
— O que quer ai, Bervely? — a tia se sobressaltou ao vê-la se aproximar da "zona proibida".
— Meu Signo Negro. Seu marido o pegou, mas ele me pertence e eu o quero de volta.
— É um pedido justo — disse a mulher, e para a sua surpresa, destrancou o armário e tirou lá de dentro o volume requerido. Era mais bonito e imponente do que ela se lembrava, com a lombada em prata e a capa em couro macio de rabo-córneo húngaro. — acredito que a essa altura já seja uma leitura apropriada.
Sem responder, se virou para ir embora, o livro nas mãos, mas a tia a chamou.
— Bervely?
— O que? — se virou, impaciente. Mas o que encontrou foram os olhos da tia, azuis vítreos nos seus, o contato visual era uma novidade que a pegou de surpresa.
— Eu não culpo você.
— O que?
Narcissa inspirou longamente, mas com cuidado, como se o ar ali fosse perigoso.
— Eu não a culpo pelo que aconteceu com eles.
Bevy mordeu com força seu lábio inferior. Estava o tempo todo pensando neles (e tentando não pensar) mas quando o assunto vinha a tona, isso ainda machucava como uma topada numa ferida aberta. E a tia, ela nem mesmo falava os seus nomes, ninguém falava os nomes, e os nomes tinham virado um eco surdo e constante à medida que eram ignorados. Queria gritar o nome deles, mas ao invés disso, tudo que fez foi assentir secamente.
— Ótimo. — seus olhos ardiam.
— Mas você precisa entender que é difícil olhar pra você. Quando... Quando você ainda está aqui, mas eles não estão. E toda vez que eu olho pra você eu...
— Só pra mim? — interrompeu, ferozmente — só pra mim, não para o Draco, não para o Lucius?
Narcissa negou com a cabeça, amortizada.
— Eu sinto muito, mas eu realmente não controlo. Eles não...
Narcissa engoliu, a voz se quebrando, e virou-se de costas para esconder as lágrimas.
"Eles não tiveram culpa", Bervely completou mentalmente. Eu tive.
—Para a sua sorte, não vai ter que olhar mais para a minha cara amanhã, tia Narcissa. — disse, amarga. A mulher se virou, os olhos estreitos, o tom ofendido.
— Não seja ingrata. Se você soubesse como foi difícil convencer o seu tio Lucius a lhe aceitar de volta, quando soubemos que recebeu alta do hospital...
— Porque ele também acha que a culpa é toda minha.
Houve a chance, mas a mulher não negou. Voltara a olhar não em seus olhos, mas um ponto atrás dela, o que a irritava profundamente.
— Se tiver um pouco de empatia para compreender o nosso lado, ele era como um filho pra nós...
— Ele era tudo pra mim! — não aguentou, a voz saindo aguda e partida — Tudo, e mesmo assim ninguém está tentando compreender o meu lado! Mas tudo bem. Tudo bem tia, porque é mais fácil fingiu que nada aconteceu e seguir em frente, não é? Apagar a existência dele e manter a pose e jogar a culpa para o alto? Você pode fazer o mesmo comigo. No momento em que eu pisar o pé fora da Mansão, faça um favor para nós todos e apague a minha existência daqui também. Merlin sabe que esse último mês foi bem como se eu já não existisse pra vocês!
— Bervely!
Ela se virou ferozmente da porta, pela segunda vez na mesma discussão.
— O que, tia Narcissa? O que dessa vez? — rosnou, o rosto quente de raiva.
— Cuidado com as suas palavras. Algum dia elas podem ser levadas a sério e vai precisar lidar com as consequências do que está pedindo para mim.
— BD —
1º de Setembro de 1987, quatro anos antes.
Havia um grande cais de embarcações mágicas na Grã-Bretanha, e Bervely já estivera lá pelo menos um par de vezes com o resto da família, a fim de buscar Hector para mais um verão na mansão, mas só agora ela descobrira que o lugar se chamava Rackham’s Cay — o nome vinha escrito no bilhete do navio, junto com o horário do embarque e o número do seu assento.
A viagem para Durmstrang durava o dia inteiro, enquanto o navio navegava por debaixo d'água e passava por ancoradouros de outros países da Europa para pegar o resto dos estudantes. Ela estava ligeiramente apreensiva em passar o dia todo sob o oceano, mas quando a vela vermelha despontou de dentro d'agua, seguida da embarcação e o do brasão, tudo em seu coração alucinado era excitação e ansiedade.
— Seja uma boa menina e nos deixe orgulhosos — Cissa lhe deu um abraço mais longo que o normal, a sufocando um pouco. — Escreva toda semana.
— Hector não precisa escrever toda semana, porque eu preciso? — reclamou, sentindo-se injustiçada.
— Porque eu estou dizendo. Ande, dê tchau ao sue tio.
Ela deu um aceno de má vontade na direção de Lucius, que acenou a cabeça minimamente em retribuição. Enquanto Cissa constrangia Hector com um beijo estalado em seu rosto, e Draco se pendurava na perna do primo mais velho, decidindo de ultima hora que não o deixaria ir embora, Charlotte se aproximou dela e ajeitou a sua franja que caia nos olhos. A mais velha tinha um sorriso bobo e feliz no rosto.
— Eu estou tão orgulhosa, Bevy. Você vai ser uma incrível bruxa.
— Pode apostar que eu vou.
— Não esqueça de nós — ela disse melancólica, e baixou seu tom um pouquinho, divertida — não arranje outra amiga para me substituir.
Ela ia abrir a boca para discordar daquele ponto, mas Hector chegou perto e arrancou Charlotte num súbito abraço de urso que a fez soltar um gritinho. Ele a pousou no chão; apesar de ser dois anos mais novo que ela, já era uns quinze centímetros mais alto.
— Não precisa chorar, pequena Wendy. Nós voltamos logo.
Os olhos azuis claros dela se encheram de lágrimas, os dois trocaram um desnecessariamente longo olhar e o navio deu seu último apito de alarme, avisando que os atrasados deviam entrar ali agora ou ficariam para trás.
— Ah! Draco! — Bervely se lembrou, puxando o primo para o canto. — pode fazer uma coisa pra mim?
— Depende. O que vou ganhar com isso? — ele cruzou seus braços e ergueu uma sobrancelha. Só tinha seis anos, mas a astúcia para "negócios" de um profissional.
— Preciso que cuide da Sra. Calliway pra mim, em troca trago pra você o que quiser de Durmstrang.
Ele fez uma careta de nojo ao ouvir o nome da aranha, mas sua expressão se abriu em interesse ao ouvir "qualquer coisa". Pensou por um momento, olhando ao redor até seus olhos pousarem na embarcação do colégio.
— Tudo bem. Quero um chapéu de pirata.
— Um chap-? Argh, certo! É melhor ela está viva quando eu voltar!
— É melhor ser um bom chapéu de três pontas!
Negócios acertados, os primos se separaram, as últimas recomendações foram feitas e Hector ofereceu sua mão para Bervely, que a segurou com segurança. Ela voltou a se concentrar aro quanto estava alegre em estar indo para Durmstrang, aprender magia, ter Hector só pra ela o ano inteiro, e quando entrou no navio, nem mesmo se lembrou de olhar para trás uma última vez.
— BD —
1º de Setembro de 1991.
King's Cross era uma estação de trem essencialmente trouxa, a não ser no primeiro dia de setembro. Magia obvia, vibrante e caótica dominava os arredores da plataforma nove e dez, além de, é claro, uma centena de crianças com corujas, malões, gatos e pais com combinações de roupas das mais estranhas andando de lá para cá e eventualmente atravessando uma parede que deveria ser sólida.
Ela acompanhava o movimento com desinteresse, andando um pouco atrás dos tios, que em troca, continuavam fingindo que não estava ali. Draco ainda resmungava sobre o pai não lhe ter deixado comprar uma vassoura (como ele ia entrar no time se não tinha uma Nimbus 2000 para treinar?) e Narcissa lhe lembrava de sempre checar os sobrenomes antes de fazer amigos.
— Eu escreverei hoje à noite – disse Draco confiante, usando um sorriso treinando que aperfeiçoara observando pai — confirmando que fui selecionado para a Sonserina.
— Mande os nossos comprimentos ao Prof. Snape — lhe disse sua mãe, desviando os olhos com desgosto de uma família de trouxas cujo filho pequeno esperneava — lhe diga que apareça para o Natal se desejar.
— E fique longe dos Weasley. — Lucius acrescentou em um tom baixo e severo — você sabe como reconhecê—los...
Draco assentiu com eficiência, enumerando: — Ruivos, sardentos, caras tolas, roupas de segunda mão.
— E se os boatos forem mesmo verdade, e Potter estiver entrando na escola esse ano, pode ser uma boa ideia se apresentar. — o pai completou sugestivamente. Draco arregalou ligeiramente seus olhos, como se tivesse deixado essa passar.
— Já chega, Lucius, deixe o menino curtir um pouco seu primeiro dia na escola sem ficar atolado de política. — Cissa suspirou, afagando o cabelo do filho. Depois girou o corpo, o tom ficando mais seco — e quanto a você...
Mas calou-se, surpresa. Pretendera dar a sua parcela de recomendações à Bervely, mas a garota fora embora sorrateiramente, e não estava mais à vista.
(Continua...)
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