Indigna Rosa Negra

8 A Rosa à Casa Torna


Notas iniciais
Surprise, surprise! Obrigada pelos comentários ao cap passado! Estou percebendo que as férias vão chegando ao fim, e alguns estão ficando ocupados. Sem problemas, eu espero por vocês :) Só peço que quando tiverem um tempinho pra ler, deixem um comentário por cap, pois cada um deles é escrito com carinho e gera a expectativa a respeito da sua opinião ;) Boa leitura!


“— Como você se chama? — ele quis saber.
— Wendy Moira Angela Darling — ela respondeu com certa satisfação. — E você?
— Peter Pan.
Wendy (…) achou o nome comparativamente curto.
— Só?...
— Só — ele confirmou num tom seco; pela primeira vez na vida se deu conta de que seu nome era meio curto.
— Desculpe — Wendy Moira Angela falou.
— Tudo bem — resmungou Peter.”

(Peter Pan — J. Barrie)

1981, nove anos antes

Dois dias após o seu retorno para a Mansão Malfoy, Bervely e Charlotte tentavam se adaptar à rotina da sua nova casa.

Calada e taciturna, Bevy caminhara pela casa e também fora dela, dando voltas pelos terrenos da propriedade ladeando a orla do bosque, onde fora advertida a não entrar.

Narcissa observava essa movimentação com atenção, dando-lhe tempo e espaço. Lembrava-se bem da sua irmã mais nova, quando pequena; Bella sempre lidava melhor com mudanças quando deixada só para significá-las no seu próprio ritmo. Estaria ali se — quando — a sobrinha precisasse dela.

Charlotte a preocupava um pouco mais, sabia muito pouco sobre a garota. Era tímida e se fechava fácil, mas sua afeição à Bervely lhe vinha naturalmente, e era muito perceptível.

Lucius, por outro lado, demonstrava seu descontentamento com volta de Bervely através de um silêncio sepulcral que carregava consigo quando estava em casa. Pelas manhãs, passava pela mesa sem tomar café, alegando que tinha muito trabalho devido ao caos pós–guerra do Ministério, e olhava de relance para as duas meninas, com os maxilares travados. Quando aquela cena aconteceu pela terceira vez, Narcissa suspirou longamente.

– Os elfos da senhora fazem uma torta muito boa – Charlotte elogiou.

– Oh, não, essa fui eu que fiz. O Draco também gosta – indicou o menino, que lambuzava o recheio cremoso pelas bochechas. Bevy lhe deu um olhar atravessado.

– E você, Bevy, também gostou?

Ela deu de ombros, empurrando o prato para o lado, depois de comer duas ou três garfadas.

– Não se apresse, ainda temos algumas horas até precisarmos escolher os modelos e os tecidos dos seus vestidos novos.

A criança levantou os olhos do prato para a tia.

– Porque não podemos pegar as minhas coisas em Blackburn Hall?

– Nós não podemos entrar lá por enquanto. – Narcissa não sabia exatamente como explicar para uma criança de seis anos que a casa em que morava fora confiscada pelo ministério, assim como todos os bens de Rodolphos e Bellatrix.

– São os homens dos cavalos que não deixam? Tomaram a casa para eles?

Ela se sentiu um pouco mais aliviada por aquele resumo simples.

– Sim, foram eles. Mas não se preocupe com isso, não podem achar você aqui. – a tranqüilizou – tem alguma coisa importante que deixou lá?

Bevy pensou no seu antigo quarto repassando tudo o que se lembrava dele. Tinha uma cama grande e macia, um lustre bonito, o vento que apagava a lareira sempre que abria a janela a noite. O vento que trazia o cheiro amargo da fermentação do trigo e que gostava, mas às vezes era tão forte que fazia seu estômago embrulhar. A mansão Malfoy cheirava à grama fresca do bosque e torta assada todas as manhãs.

Ela negou. Não deixara nada de importante para trás.

– Nem um brinquedo, uma boneca talvez? Sei que têm muitas no seu quarto novo, mas se sente falta de alguma especificamente...

Bevy negou. Bellatrix nunca havia posto brinquedo algum em seu quarto.

– Quando eu tive que comprar roupas, Bellatrix me levou no Beco Diagonal – ela lembrou-se.

– Foi? E você gostou de lá?

Charlie lançou um olhar ansioso para a menina, mas não houve reação da parte de Bervely. Se ela se lembrava de qualquer coisa relacionada ao incidente que levara sua mãe a um ataque histérico e a um acidente quase mortal, guardou para si mesma.

– Eu gostei. Havia um cachorro.

– É mesmo? Que interessante. Dessa vez não precisaremos ir até lá, a Mme. Malkin concordou em vir até nós ao invés disso.

Cissa não completou que elas não podiam ir até o Beco Diagonal porque o lugar estava cheio de aurores, e eles iam adorar achar alguém da família Malfoy para interrogar, se lhes fosse dada a chance.

– BD –

– Bevy, são lindos!

Charlotte desempacotava os vestidos recém chegados, trazidos por uma coruja tão gorda que parecia uma bola voadora. Nenhum deles tendia para o vermelho, o verde ou o azul escuro e todos eram bem mais leves do que ela estava acostumada a usar. Bevy olhou para as roupas das bonecas enfileiradas na prateleira e não viu diferença entre aquelas e as que estavam espalhadas pela sua cama. Charlie colocou em frente ao corpo um branco, com pequenas flores azuis e que lhe batia quase aos joelhos.

– Esse não está muito grande para você, Bevy?

– Esse é seu, Charlotte – disse Narcissa, que acabara de entrar e colocou Draco sentado na cama de Bervely – afinal você também precisa de roupas novas, espero que eu tenha acertado o seu tamanho.

Os olhos da menina brilharam. Já os lábios de Bervely, estes se estreitaram de descontentamento duplo. O segundo motivo era o pequeno bebê Malfoy engatinhando em sua direção.

– Experimente–os e depois me diga. As duas, aliás – completou olhando para a sobrinha – se precisar de qualquer ajuste me avisem que posso resolver.

Naquele momento um elfo apareceu na porta do quarto.

– Sra. Malfoy, senhor Malfoy estar na lareira mandando chamar.

– Claro – Cissa suspirou, um tanto descontente – Podem olhar Draco por um segundo?

A loira se foi antes de Bervely poder negar a presença do primo em seu quarto.

– Mamã – disse ele apontando para a garota. Ela fez uma careta de desgosto.

– Eu não sou sua mãe. Sai de cima dos meus vestidos novos agora!

Charlie se aproximou rindo, sentando–se na beira da cama.

– Ele não pode entender você ainda, Bevy. Mas Draco não vai estragar seus vestidos, não é, bebê? – ela estendeu os braços para o garotinho, que tentou ir na sua direção se enrolando numa das saias cor–de–rosa – conte para a sua prima que ela também já foi do seu tamanho...

– Eu nunca fui tão pequena. – defendeu–se olhando de soslaio para aquela coisinha que, apesar daquele tamanho, podia fazer uma quantidade inexplicável de barulho quando aborrecido.

– Venha cá – disse a mais velha para Draco, trazendo-o para o colo e reparando nas mãozinhas gordas que foram direto aos seus cachos – gosta de cabelo grande, não é? Ai, não puxe assim, Draco!

– Porque você deixa ele puxar seu cabelo? – Bevy se aproximou um tantinho para assistir melhor a luta de Charlotte para livrar sua mecha da mão bem fechada de Draco.

– Ele não faz por mal. Ele não sabe que dói.

– Mostre a ele que dói! – ela exclamou, contrariada.

– O quê? Eu disse, ele não entende ainda...

– Assim ele entende! – ela rapidamente chegou perto do primo e puxou um punhado do cabelo loiro que caia pela sua testa.

– Bevy! Você não pode fazer isso! – Charlotte reclamou, se levantando para longe dela com Draco nos braços.

O bebê começou a fazer beicinho, os olhos se enchendo de lágrimas. Ele não demorou nada para abrir um berreiro bem audível e aborrecido.

– Viu, você o fez chorar!

– Ele chora por tudo! – ela reclamou de cara fechada.

Quando Narcissa voltou ao quarto não dava para definir qual era a expressão mais transtornada, a do seu filho ou a da sua sobrinha que tinha os braços cruzados firmemente sobre o peito.

– O que houve? – quis saber, tirando o bebê choroso dos braços de Charlie.

– Ele deve estar com fome – justificou ela rapidamente. Depois olhou feio para Bevy, que torceu a boca, sem mostrar remorsos.

– Pare de me olhar desse jeito. – a pequena mandou assim que a tia saiu do quarto. A outra ainda estava bem aborrecida.

– Draco é pequeno, Bervely, você não deve ser má com ele!

– Porque está tão preocupada? Ele não pode contar nada para tia Narcissa, ele não sabe falar, esqueceu?

Charlie não tinha argumentos e só lhe deu mais um olhar de incredulidade.

– Apague a luz, estou com sono. – disse a garotinha por fim.

Era mentira. Assim que Charlotte apagou a luz e se acomodou no sofá espaçoso em que vinha dormindo naqueles últimos dias, Bevy se virou de costas para a cama e ficou encarando o teto do quarto escuro.

Apesar de cansada por ter mais uma vez explorado o lado de fora da mansão durante quase todo o dia, ela não conseguia dormir. Precisou de alguns minutos para perceber o porquê; seu pulso esquerdo formigava, e quanto mais se concentrava naquela sensação, mais forte parecia ficar.

Levantou o braço na altura dos olhos e estes, acostumados com o escuro, conseguiram divisar o contorno da rosa marcada em sua pele. Estava sem dúvida mais forte do que durante toda aquela semana e do que na semana antes dela. Começara a arder. A menina apertou os olhos com força.

Não foi uma boa idéia. Um par de olhos vermelhos como duas brasas flutuaram debaixo de suas pálpebras. Ela sentiu um inevitável arrepio de pavor ao ouvir claramente o sibilar, como se estivesse bem ao lado do seu ouvido. Tentou se mover para longe, mas aquele silvo agudo a acompanhava. Então o silvo agudo foi mudando até virar uma gargalhada fria.

"Desse modo, creio que vocês vão precisar de um... elo."

Não importava onde estivesse. Ele a marcara e agora Bellatrix a encontraria em qualquer lugar... ela estava longe, mas ela estava ali... estava dentro da sua cabeça.

E Bevy se encontrou parada em frente à uma sólida grade de ferro. Através dela via a sua mãe, dentro de um vestido vermelho sangue que era a única cor ali dentro... entre o branco do seu rosto e o preto das sombras, o vermelho vibrava. Ou talvez fosse aquele olhar se cravando na mente de Bervely que fazia com que todo o ar vibrasse.

– Olhe para você... tão bem cuidada. – Bellatrix sussurrou. Ou ela estava sibilando? – A sua tia tomou você de mim uma vez mais.

– Ela não tomou – disse Bevy, embora não achasse que estava realmente ouvindo a própria voz – A senhora não voltou para me buscar.

– Eu não pude. Mas eu já lhe busquei uma vez e lhe trouxe comigo, você não se lembra? Era a sua vez.

A face da criança se inundou de uma compreensão arrasadora. Tinha acontecido. Ela falhara com Bellatrix. Por isso vinha tendo aqueles sonhos horríveis por cada noite desde que chegara à Mansão Malfoy... estava sendo castigada pela sua falha.

– Bervely, você esqueceu de tudo que lhe ensinei? – Bella exigiu, cheia de acusação na voz – Você desrespeitou as leis que regem a nossa linhagem. Quando devia ter insistido em ficar ao meu lado, tudo que fez foi me ignorar, como se eu nunca tivesse existido... como se você não tivesse o mesmo sangue que o meu...

– Não! Eu quis ir...

– Você traiu a sua origem, Bervely.

– Eu não...

– Você traiu o Signo Negro, eu lhe disse para nunca deixar de segui–lo, nem um segundo, eu lhe disse para carregá–lo com você onde fosse...

– Eu o trouxe comigo!

– É tarde demais agora, criança.

– NÃO!

Ela não soube se acordou pelo seu próprio grito do mesmo jeito que não tinha percebido que adormecera. Tinha realmente visto Bellatrix, não fora apenas uma voz ditando ordens na sua cabeça. Não via nada na escuridão, mas não podia aceitar que era tarde demais, não podia trair Bellatrix. Saltou da cama tateando o chão até suspender a tábua solta e pegar o Signo Negro. Não se importava com o que tia Narcissa dissesse sobre Azkaban, e que era pequena demais para ir até lá.

Ia chegar até Bellatrix e de alguma maneira a traria consigo. Voltariam para a Mansão Lestrange. Seriam só as duas e quando os homens maus do ministério chegassem, sua mãe estaria lá para os expulsar. Ela poderia fazer aquilo facilmente.

Já estava fora do quarto, correndo pelo corredor, os passos abafados pelo carpete verde musgo. Ia direto para o celeiro, onde ficavam as carruagens voadoras, e mandaria Dobby ordenar que lhe levassem para Azkaban. Atravessava as portas duplas do hall de entrada quando Charlotte, no quarto, percebeu a sua ausência.

O vento cortante que vinha do bosque soprava na direção contrária o seu caminho, atrasando seus passos ansiosos, penetrando pela camisola de linho e deixando a sua pele gelada. Era uma ventania forte, sacudindo seu cabelo para todos os lados e fazendo seus olhos arderem, mas estava acostumada, aquilo não era pior que os ventos dos campos abertos de Lancaster.

Foi quando percebeu que estava sendo seguida. Charlotte vinha correndo na sua direção, tendo problemas ainda maiores com vento e cabelo, já que o seu era quase três vezes mais longo que o de Bevy.

– Hey! – ela gritou para conseguir ser ouvida pelos metros que a separavam – Bervely, pra onde você pensa que vai?

– Volte para dentro, Charlotte!

– Você tem que voltar comigo para dentro de casa!

– Eu não vou! E você não pode desobedecer a uma ordem minha! Vá embora!

Charlie só ia chegando mais perto. Reparou no livro debaixo do braço da criança. Se ela estava levando aquilo consigo, era porque realmente pretendia sair.

– Eu não sou um elfo! – protestou a mais velha.

– Bellatrix avisou a você! Você deve fazer exatamente o que eu mandar ou ela lhe põe de castigo no porão!

Charlotte franziu o cenho, sem compreender a ameaça.

– Bellatrix não pode fazer nada de onde está, Bevy! E ela não vai mais voltar...

– Ela vai voltar!

– Eu ouvi seus tios conversando, a sua mãe pegou prisão perpétua. Sabe o que significa? Ela vai ficar presa para sempre.

– Não, ela não vai! Eu estou indo buscá–la!

Bevy retomou o caminho para as carruagens, deixando uma Charlotte de olhos arregalados para trás. A garota demorou alguns segundos para continuar seguindo Bervely depois daquele anuncio tenebroso.

– Você não pode, Bevy, você não vai nem achá–la! Eles não deixam crianças entrar.

– Eu posso fazer o que eu quiser! – protestou, se virando. Não parecia tão onipotente sendo quase derrubada pela ventania que jogava o cabelo escuro para todo o lado.

– Narcissa me disse para cuidar de você! – a pegou pelo braço com força – E você é pequena demais para sair sozinha!

– Eu não sou pequena demais. Eu não preciso de uma babá. – encarou–a com ferocidade – eu demito você!

Isso fez Charlotte largá–la e dar um passo para trás. Bevy pareceu satisfeita com o efeito que tinha conseguido com aquelas palavras.

– Porque está aqui, aliás? Porque tia Narcissa te trouxe? Essa não é sua casa, você não tem nenhum tio aqui.

A constatação a atingiu em cheio, talvez porque fosse aquilo que estivesse revolvendo intimamente desde que chegara. A senhora Malfoy era uma mulher muito gentil por lhe deixar ficar, mas ela não devia estar ali, não pertencia àquela família. Bevy já conseguia se cuidar sozinha, e a tia tinha tempo o bastante em casa para lhe ensinar a ler e escrever como se devia. Charlie se apegou à única justificativa que repetia para si mesma como a razão de não ir embora.

– Eu pensei que você me quisesse aqui com você...

– O quê? – Bervely só queria que ela se arrependesse de estar lhe atrapalhando naquela missão tão importante – Eu nem mesmo gosto de você, Charlotte!

A mais velha não falou mais nada, um nó muito sólido tampara a sua garganta. Assistiu Bevy seguir adiante, bem próxima das carruagens estacionadas. Foi quando reparou algo que a menina não tinha visto – havia uma carruagem a mais, em relação ao que se podia contar dois minutos atrás, e dela saiu uma figura alta e imponente. Parou bem no meio do caminho de Bervely. O cabelo loiro não sacudia desajeitado para todas as direções – flamulava como um véu agourento.

Lucius Malfoy era a definição da contrariedade.

– O que está fazendo fora da cama, garota? – arrastou a voz para a sobrinha, com uma nota de ameaça.

– Eu estou indo embora, senhor. – ela disse com muita seriedade.

Ele ergueu uma das sobrancelhas loiras.

– Sua tia foi informada disso?

– Ela não me deixaria ir se eu pedisse.

Ele riu friamente pelo nariz.

– Certamente que não. Dê meia volta e entre em casa antes que eu realmente perca minha paciência com você.

Bevy não se moveu. Ela não gostava de Lucius Malfoy muito mais do que gostara de Rodolphos Lestrange, mas não sentia medo do tio. Aqueles olhos perigosos não lhe prenunciavam coisas piores do que as que vira em seus pesadelos.

– Merlin sabe como eu gostaria que realmente fosse embora, garota, mas explicar as circunstancia para a sua tia seria no mínimo trabalhoso. Vamos fazer um trato, sim? Pela manhã você lhe diz que quer ir embora, e eu a levo para onde desejar.

– Até mesmo para Azkaban? – desafiou.

A expressão casual de Lucius desapareceu imediatamente.

– O que você pensa que vai fazer em Azkaban?

– Vou salvar minha mãe. – explicou, séria e decidida.

Aqueles tons de vermelho já estavam inundando o branco dos olhos de Malfoy, o fazendo aparentar um tanto mais monstruoso do que parecia comumente. Nada como aquela frase o teria irritado mais. Aquilo era exatamente o que Lucius sabia que ia acontecer, e muito mais cedo do que esperava. Advertira Narcissa. Não importava o quanto abrigassem Bervely e lhe dessem uma criação digna, ela sempre voltaria a suas origens falhas.

Aquela cria podre de Bellatrix nunca seria digna de viver entre Malfoys. Aquela menina sempre seria uma mancha de traição, trazendo consigo a pior parte da mãe e do pai. Ele não podia suportar aquilo dentro da sua casa.

– Você acha que ela precisa ser SALVA!? – o grito fez Bevy cambalear um passo para trás – É isso que você quer, voltar para os braços daquela mulher fraca e covarde?

– Não fale assim dela!

– Você não entende nada, sua criança estúpida! E ainda assim você é a união do pior que pode vir dela e daquele amante de trouxas! Porque não pode ser grata a tudo que Narcissa está fazendo por você?

– Tia Narcissa não quer me deixar ver a minha mãe – disse rápido – E eu preciso ajudá–la, eu não posso decepcioná–la...

– É claro que não pode vê–la! Quem gostaria de ver o trapo decadente que a sua mãe se tornou? Sua tia está protegendo você. Sua pequena ingrata!

– Não fale assim da minha mãe! Ela é uma Black! Você não pode falar assim dela!

Ele bufou de consternação. Seus olhos estreitos finalmente alcançaram o livro que Bevy carregava consigo. Ele o arrebatou antes que ela pudesse se afastar e olhou a capa rapidamente.

– O que é isto? Aqui está, não é? – ele sacudiu o Signo Negro na frente da garota – é daqui que tem tirado essas idéias tolas! Quem lhe deu isso?

– Minha mãe me deu! Devolva! – ordenou estendendo as mãos.

– É melhor esquecer isso, criança – Lucius voltara ao seu tom frio e arrastado, enquanto guardava o livro dentro da capa – Você nunca mais vai ver sua mãe. Ela condenou a si mesma e você não pode salvá–la. Ela é a traidora e você deve entender isso para não ter o mesmo destino que teve Bellatrix. Esqueça o que ela lhe disse. Esqueça esse livro, não vai vê–lo novamente.

O bruxo deu meia volta em direção à mansão, ignorando os gritos de protesto da sobrinha. Charlotte se aproximou silenciosa e foi a única a presenciar o olhar feroz e vingativo de Bervely. Daquele jeito, se parecia mais com Bellatrix do que nunca.

Passou um braço pelos ombros da menina e a levou de volta para dentro de casa. Bevy não relutou. Estava fervendo de raiva em volta do buraco que Lucius lhe fizera ao levar o Signo Negro. Sem ele, não se sentia somente traidora.

Sem ele, ela se sentia menos Black.

– BD –

Bem antes de Bevy acordar, Charlotte saltou da cama. Encontrou a senhora Malfoy passeando pelos jardins segurando o filho pelas mãos. Draco estava dando seus primeiros passos, e cansava fácil. Aproximou–se dos dois quando se sentaram na beirada de mármore da fonte. Eles não diferiam muito das estátuas de anjos um pouco atrás deles, mas a menina não se ateve muito a comparação.

– Senhora Malfoy, preciso da sua permissão.

– Para que, exatamente? – os olhos azuis dela se franziam debaixo do sol. Os cílios eram claros a ponto de parecerem transparentes debaixo do sol forte.

– Para ir embora.

Narcissa se mexeu surpresa, deixando Draco sair de seus braços e sentar na grama.

– Você também? De repente parece que ninguém está satisfeito com a minha casa.

Ela tinha passado metade da noite ouvindo Lucius contar sobre a pretensa fuga de Bevy. Diante do comentário, Charlie sorriu sem jeito.

– Não é isso, senhora. É que não quero... não devo morar aqui. Eu não... não sou da família.

– Não, você não é. Está aqui porque preciso de ajuda com a Bervely.

– Ela não pensa dessa maneira, senhora Malfoy.

Narcissa torceu os lábios. Tinha certeza que chegaria àquele ponto em algum momento.

– O que Bervely disse a você, Charlotte? – inquiriu severamente.

– Ela não... bem, eu só penso que...

– É melhor que me ouça ao invés de ficar pensando. – a cortou. – Bevy é muito decidida sobre si, mas só tem seis anos e como bem sabe, nessa idade não podemos resolver muita coisa sobre nós mesmos. E eu, eu tenho o Draco, não posso dar conta dos dois sozinha. Além do mais você, querida, só tem onze anos. Não tem nenhum parente que possa cuidar de você, e não é grande o suficiente para se sustentar lá fora.

– Eu só não acho justo... – completou com um suspiro. Não achava justo viver sob o teto dos Malfoy como um fardo, e era assim que vinha se sentindo.

– Eu tenho uma proposta. – disse Cissa. – Você não tem muita escolha sobre ela, mas acredito que vai lhe parecer justa.

Charlie sorriu um pouco.

– Eu lhe contrato para cuidar da Bevy e do Draco junto comigo. Faço uma conta para você no banco e deposito todos os meses um salário, descontando as suas despesas nessa casa. Quando tiver dezessete anos vai ter direitos sobre esse dinheiro e pode então repensar, se realmente vai querer ir embora. O que acha?

Ela assentiu. Parecia justo.

– Então, Charlotte, voltaremos a ter essa conversa daqui a seis anos.

– BD –

Havia, no entanto, outra conversa que não poderia esperar. Mais tarde no mesmo dia, Narcissa entrou no quarto da sobrinha e a encontrou sobre a cama, emburrada, os braços cruzados em frente ao peito.

– Bom dia, Bervely.

– Eu quero ver a minha mãe. – ela disse imediatamente.

Sem se apressar, a loira sento-se na cama e afagou o cabelo preto e fino da criança, que se esquivou do toque. Cissa suspirou.

– Eu entendo. Também gostaria de vê-la. Mas, Bervely, nem sempre podemos fazer tudo o que temos vontade. Eu quero que saiba que comportamentos como o da noite passada não serão mais tolerados. Você não pode fugir de casa para ir atrás de Bellatrix, você é pequena demais para andar por ai sozinha e, mais importante, o seu comportamento me deixou muito decepcionada.

– Vai me trancar no closet, então? – desfiou, o olhar duro de teimosia.

– No closet? Por que eu… – mas ela rapidamente imaginou. Seu coração pesou com a ideia – não, aqui nesta casa você não será posta de castigo desse jeito. Mas haverá punições para comportamentos impróprios, você deve entender isso.

Ela ficou calada, esperando, sem dar o braço a torcer.

– Seu tio me contou que ele pegou o seu livro ontem.

– Minha mãe me deu aquele livro de aniversário. – queixou-se zangada – é meu, é meu e eu quero ele de volta.

– Você não o terá, essa será a punição.

Virou a cabeça, com os olhos arregalados com a injustiça, o nariz inflado. Narcissa lhe olhava serenamente.

– Quando for maior, poderá visitar a sua mãe em Azkaban. Mas vai ter que conquistar esse direito, agindo de forma responsável e me provando que pode lidar com algo assim.

Aquele era um pedido e tanto para uma garotinha, mas valia a tentativa. Reconhecendo que não obteria qualquer simpatia de Bervely no momento, resolveu que poderia deixá-la se acalmar em seu quarto.

– Eu odeio tio Lucius! – a menina exclamou com raiva quando a tia pesava pela porta. Cissa se virou, assentindo.

– Não precisa gostar dele. Só precisa respeitá-lo.

– BD –

Os meses passaram com relativa tranquilidade na Mansão Malfoy, e apesar das preocupações de Bervely, os pesadelos com Bellatrix ficaram escassos. Mais cedo do que a menina previa, se aproximava dezembro.

E com ele o Natal. O primeiro Natal de verdade de Bervely. No ano anterior, a data fora atropelada pelas buscas de Bellatrix à Voldemort, de forma que tudo que tinha visto fora muita neve através janela e muito frio dentro de casa.

Daquela vez, pode tocar a neve com seus dedos, ao invés de só assisti-la cair. Houve guerra de bola de neve do lado de fora, e o jogo preferido de Bevy, o Draco de Neve, que consistia em envolver o primo com neve até que ele se parecesse um boneco, com apenas os bracinhos e a cabeça loira para fora. O toque final era colocar em seu pescoço o cachecol preferido de tio Lucius, para a infelicidade do patriarca Malfoy.

A casa foi ficando toda enfeitada de fadinhas brilhantes e um grande pinheiro brotou na sala de estar. Ele ganhou enfeites de cristal e miniaturas de anjos animados que tocavam harpa cada vez que alguém passava por eles. A parte dos anjos era muito irritante.

Mas nem todos os preparativos a advertiram para o efetivo dia do Natal na Mansão Malfoy.

Aquela enorme sala de estar cheia de luzes e enfeites de Natal ficou pequena demais. Bervely seguiu as recomendações da tia à risca: sorrir para as visitas, fazer uma reverência sutil aos mais velhos e não ficar encarando ninguém. Aquela ultima parte tia Narcissa tinha repetido mais de uma vez, se assegurando de que ela tinha entendido bem. E a última instrução: se lhe perguntassem, se chamava Bervely Lestrange.

A menina ainda estava se remoendo sobre ter que usar um nome falso, sentada num sofá ao lado do enorme pinheiro de Natal, quando a Mansão Malfoy começou a se encher de pessoas. Ela não via tantos bruxos juntos desde sua primeira visita ao Beco Diagonal, todos tão bem arrumados e cheios de si, cumprimentando respeitosamente Lucius e Narcissa, bebendo enquanto os elfos circulavam com as bandejas e as taças e salgadinhos.

A tia lhe apresentou a uma infinidade de pessoas que tinham uma horrível tendência a apertar sua bochecha e bagunçar a parte de cima do seu cabelo, então na primeira oportunidade que teve, Bevy refugiou–se num canto do salão, meio escondida pelo pinheiro de natal, e chamou Dobby baixinho quando o elfo passou próximo o suficiente.

– Onde Charlie está? – perguntou, já que a outra sumira logo após ajudá–la a entrar no seu vestido lilás, aquele cuja saia engomada lhe pinicava as pernas toda vez que se movia.

– A senhora Malfoy mandar menina Summers ficar fora de vista.

– Por quê?

– Dobby não saber. – disse ele aparentando pressa para voltar ao serviço.

– Dobby – insistiu – me diga onde a Charlie está ou eu te dou uma meia.

Ele arregalou os olhos com terror.

– Estar no jardim cuidado de menino Malfoy – ele sibilou – senhorita Bevy não deve ir lá!

Bervely não fazia questão de ir num lugar onde seu primo chorão estivesse. Cruzou os braços sobre o peito, entediada e a irritação que o burbúrio de tantas vozes causava aos seus ouvidos, e cerrou os olhos desejando que sumissem. Pelo contrário, uma voz grave próxima às suas costas somou–se ao barulho. Ela abriu os olhos ao sentir um cheiro estranho, uma mistura de ervas e algo amargo e forte.

– Lhe vi chegar junto com Alvo Dumbledore, não me diga que se juntou àquela corja de bajuladores que ele gosta de carregar nas barras das vestes, Severus.

– Numa época como essas, o melhor que qualquer um pode fazer é manter alguns laços valiosos, meu caro. Consegui uma vaga como professor de poções em Hogwarts.

O interlocutor, que tinha um sotaque cheio de erres fortes, deu uma gargalhada estúrdia e grosseira. Sua reação não abalou o homem que se chamava Severus, pois a sua voz continuou num tom frio e zombeteiro.

– É o que deveria estar fazendo se quer evitar surpresas desagradáveis, Carmichael.

– Eu não sei do que está falando. Fiz questão de não me envolver nessa picuinha britânica lamentável que vocês chamaram de guerra.

E começou a rir de novo, sendo o único apreciador da própria piada. Bevy se moveu um pouco e conseguiu ver entre os galhos juntos do pinheiro os dois homens que conversavam. Um era alto, com uma capa preta até os pés e o cabelo escorrido rente à cabeça. Estava de perfil, e um enorme nariz adunco se destacava em seu rosto.

O outro era quase duas vezes mais largo – tinha uma vasta barba loira e olhos bem escuros por detrás das sobrancelhas espessas. Apesar das roupas elegantes, a aparência era grosseira assim como soava sua voz. A menina custou a ver, parado ao lado do segundo homem, um garoto que parecia tão entediado quanto ela.

Apesar da intenção de Bervely de ficar incógnita atrás dos enfeites de Natal, algum movimento a tinha denunciado e o garoto encontrou seu olhar atrás dos galhos. Ela sentiu o breve choque ao ser descoberta, que se repetiu um segundo depois ao ser chamada pela tia.

– Bevy! Lhe procurei por todos os lugares, o que está fazendo aqui? Ah, não importa agora. Quero que conheça Dallas, prima do seu tio Lucius.

A acompanhante de tia Narcissa era tão alta, tão clara, tão elegante quanto ela. Tinha o queixo fino, olhos do perfeito azul cristalino, e um cabelo curtinho como o de um garoto. Bervely se preparou para mais um apertão na bochecha, mas não aconteceu.

– É uma criança muito graciosa, Narcissa, estou impressionada com um exemplar Black tão convincente.

– Você deve se lembrar de Bellatrix quando era pequena, elas guardam muita semelhança.

– Ah, não me fale em semelhança – Dallas sorriu, de um jeito orgulhoso – precisa ver o seu afilhado como se parece com o padrinho, é incrível, todos comentam.

Narcissa torceu um pouco o lábio, divertida.

– O seu marido não deve fiar nada satisfeito em ouvir essa comparação, imagino.

– E esta é a nossa Narcissa, sempre com seus julgamentos precipitados.

O homem largo que estivera falando com Severus agora se aproximava do grupo. Bevy o achou ainda mais rude de perto, e aparentemente Narcissa compartilhava daquela opinião, ao menos foi o que sua expressão de desagrado deixou transparecer por um segundo, antes de sumir, tornando seu rosto educadamente amigável.

– Thor, eu estava justamente falando a Cissa sobre o Hector – Dallas indicou o menino loiro, o trazendo para perto com uma das mãos em seus ombros – Em como ele se parece com esse lado da família. Filho, cumprimente a sua madrinha, ela não lhe vê desde que era um bebê.

– Sra. Malfoy – o jovem se aproximou e beijou o torso na mão de Narcissa, que achou graça – fico muito feliz de ter vindo, a senhora tem uma casa fantástica.

– E você é um garotinho muito gentil, querido – ela afagou o topo da cabeça de Hector – essa é a minha sobrinha, Bervely.

– Olá, é um prazer. – ele estendeu a mão para Bervely também, mas ela não lhe deu nenhum sorriso simpático em troca, muito menos a sua mão.

– Porque não vem comigo até o jardim, Dallas? Ainda quero que conheça meu filho...

As duas mulheres tomaram o caminho para fora da casa e Narcissa indicou que Bevy a seguisse. Hector fez o mesmo, seguindo a mãe. Logo recebiam um vento fresco e suave ao invés do frio e úmido que prenunciava mais uma tempestade de neve. Mais cedo, aquela parte do jardim fora enfeitiçada com um Feitiço de Clima Constante que garantiria a distância da neve no mínimo até o dia seguinte.

Charlotte estava com Draco perto da fonte, e o bebê parecia empolgado tentando capturar algumas fadinhas. Era um caçador ruim, conseguindo no máximo fazer manobras engraçadas e cair sentado na neve. Dallas não poupou elogios ao bebê, logo o tomando no colo, e Hector fez uma careta que Bervely não deixou passar. Antes que a menina tivesse a atenção de Charlie esta já tinha sumido de vista mais uma vez.

– Estamos nos mudando para a Suécia, agora. Ano que vem o Hector entra em

Durmstrang, será mais fácil se estivermos por perto.

– E porque não Hogwarts?

– Ah, o Thor não quer, ele faz questão de que o filho tenha a mesma formação que ele, você sabe bem como é, Narcissa. Que siga os passos da família, essas coisas. Eu gostaria que fosse Hogwarts é claro. Mas se ele prefere desse jeito...

Bevy nem reparou Hector se aproximando até o garoto sentar bem ao seu lado. Algumas esferas de luz flutuavam a metros do chão e daquele ângulo uma delas o iluminava por trás, fazendo seu cabelo muito claro parecer quase branco.

– Então você é uma Lestrange.

– E uma Black. – completou rápido.

– Black? Nunca ouvi falar dessa família.

Ela abriu a boca, aprontando um protesto, mas o que poderia dizer. Todo mundo conhecia a família Black. Aquele menino, ele era realmente muito absurdo. Bervely fez o melhor que pôde para salvá-lo de sua ignorância.

– É uma família nobre e puro sangue muito grande.

Ele achou graça. Curvou seus lábios, excessivamente vermelhos para um garoto, num sorrisinho esperto.

– Se tem uma família tão grande, porque mora com a sua tia?

– Porque ela está cuidando de mim enquanto a minha mãe não pode vir me buscar. – disse com aborrecimento.

– E você tem de obedecer a ela enquanto isso?

– Tenho.

– Você faz tudo que ela manda?

– Você não faz tudo que a sua mãe manda?

Ele se ajeitou no banco com as costas retas.

– Não tudo. Por exemplo, ela me mandou não andar pela propriedade dos Malfoy. Mas eu vou.

– Aonde você vai?

– Ouvi dizer que tem um bosque atrás da mansão.

Ela lhe lançou um olhar alarmado.

– É proibido entrar no bosque. – comunicou séria.

Mas aparentemente tudo que era assunto da maior importância para Bervely tinha um teor de humor incomum para Hector.

– O quê, você nunca entrou no bosque? Isso é inacreditável! Se eu morasse aqui entraria no bosque todos os dias. Aliás, é o que vou fazer agora mesmo.

Ele se levantou tomado daquela decisão, ajeitando a parte da frente do cabelo com os dedos. Bevy continuou sentada assistindo ele se afastar alguns passos, de modo meio atônito.

– Você não vai? Não me diga que está com medo.

– Você vai se meter em problemas. – ela advertiu.

– Não se for comigo. Vamos lá, você não disse que era uma Black? Pensei que fosse destemida tanto quanto os seus antepassados.

– Eu não tenho medo do bosque! – protestou. Como ele poderia saber que os Black eram destemidos,não chegou a ser considerado.

– Nós nunca vamos saber, não é mesmo? – ele piscou, e rindo se virou na direção da casa.

Ela olhou rápido para Narcissa, mas a tia e Dallas estavam tão entretidas assistindo Draco treinar seus passos tronchos na neve que não tinham percebido a conversa dos dois nem a saída de Hector. Ela se levantou e foi atrás dele.

– BD –

Para quem nunca tinha vindo à Mansão Malfoy, Hector parecia saber o que estava fazendo. Deu a volta pela lateral da casa se abaixando quando passava por janelas, e atravessou o gramado em direção ao aglomerado de árvores muito altas que seguia dezenas de metros à frente. Ele dava passos grandes e a menina tinha que andar rápido para acompanhá–lo.

Olhava o tempo todo pra trás, assegurando que Lucius Malfoy não ia aparecer de repente e barrá–los. Narcissa ficaria muito decepcionada com ela se aprontasse mais uma vez, e ela vivia dizendo como o bosque era perigoso, escuro, que podia se perder...

Estivera seguindo a nuca de Hector, que tinha um redemoinho loiro no topo. Mas agora ele tinha virado a cabeça e estava achando graça de alguma coisa de novo. Ela percebeu que tinham passado pelas carruagens e estavam exatamente no ponto onde as árvores começavam.

– Você é bem corajosa para a sua idade. Tem certeza que quer entrar ai?

– Tenho. – disse desafiante, tirando um pouco de cabelo do rosto.

– Pode ter algum animal perigoso morando lá dentro. – ele comentou.

– Nós somos bruxos. – Bevy argumentou cheia de coragem – Não vão se meter com a gente.

As copas muito juntas das árvores tinham impedido a neve de chegar ao chão e o vento não soprava com tanta força quanto em campo aberto. Apesar disso, avançar era uma constante superação às raízes altas, que muitas vezes precisavam ser escaladas por Bevy, tornando a marcha lenta. Hector tinha as pernas maiores e estava sempre mais a frente, e ela cogitou pedir que ele esperasse, desistindo todas as vezes.

– Para onde estamos indo? – ela perguntou quando Hector parou um pouco e pode alcançá-lo, arfando pelo esforço.

– Não sei – respondeu sussurrando – escute isso.

Fizeram silêncio e ouviram um estalar forte e próximo se repetir. Os pêlos da nuca da garota se arrepiaram sem aviso.

– Acho que estamos sendo seguidos.

Longe de preocupado, seu rosto mostrava uma excitação fora do comum.

Aparentemente estarem sendo seguidos só tornava a aventura mais empolgante. Ele fez um aceno para continuarem em frente e o vestido de Bevy agarrou num galho caído no chão. Ela bufou, irritada. Tinha sujado a roupa de terra, os cachos feitos caprichosamente pela varinha de Narcissa estavam se desmanchando, e quanto mais avançavam, mais úmido o ar parecia ficar, grudando desconfortavelmente em sua pele.

– Eu acho que devíamos voltar. – disse por fim, amuada – Seu pai vai ficar bravo com você.

– Estamos quase chegando.

Ela subiu mais uma raiz alta e pulou ao lado dele, derrapando na terra. De repente as árvores tinham simplesmente acabado, e a neve cobria todo o chão da enorme clareira onde chegaram. Era tão extensa que não se podia ver onde terminava no lado oposto, e poucas árvores se espalhavam aqui e ali, curvadas, retorcidas e lançando sombras assustadoras pelo tapete branco de gelo. Ela reparou, no entanto, algumas formas também cobertas de neve, em dimensões estranhas, como se brotassem do chão.

– Lápides. – disse o menino com uma satisfação estranha brilhando nos olhos, que pareciam feitos de vidro no escuro.

– Que lugar é esse?

A lua incidia sobre onde estavam. Ela pode ver o quão vitorioso ele parecia.

– É um cemitério abandonado.

Ela travou os dentes, aborrecida.

– Como sabia que tinha isso aqui? Você disse que nunca tinha vindo ao bosque!

Ele não respondeu, a deixou sozinha e avançou entre as lápides, somente seu contorno escuro se movendo e o som dos seus pés chiando na neve fofa. O vento voltara com força. Ela não estava agasalhada o suficiente para aquele tempo. Aquele lugar lhe dava uma sensação estranha, como a de ter uma pedra de gelo derretendo no fundo da barriga.

Era tão silencioso que poderiam estar usando abafadores de ouvido sem saber. Alguma coisa a impelia para frente, para segui–lo, mas nos primeiros passos sentiu o gelo entrar pelos seus sapatos e enregelar seus pés.

Se apressou em alcança–lo, estava realmente disposta agora a arrastar o garoto de volta para a mansão, porque tinha acabado de lembrar o que tio Lucius dizia sobre invasores de propriedades alheias e o destino do garoto intruso parecia muito cruel.

Via a silhueta dele muito mais à frente e quis cortar caminho por uma área que parecia ter menos neve. Foi uma má idéia. No primeiro passo seus pés deslizaram e ela caiu, de alguma forma, duramente com os joelhos no chão. Soltou um audível lamento de dor quando o chão inesperadamente duro cortou sua pele.

Hector estava de volta mais rápido do que achou que fosse possível.

– Não faça barulho ou vão nos encontrar! – advertiu aos cochichos, antes de perceber onde ela tinha caído, ao que rolou os olhos com impaciência – o que deu em você para andar sobre o lago congelado? – a ajudou a levantar, voltando para a neve fofa.

– Eu me machuquei – ela protestou sem se importar com o tom. O corte pulsava como se ainda estivesse forçando seu joelho contra o gelo. Se apoiou numa lápide, mordendo o lábio inferior com força.

Hector se inclinou um pouco e apertou os olhos, mas estava escuro demais para enxergar qualquer coisa. Ele a fitou preocupadamente.

– Só não comece a chorar como um bebê, está bem? – advertiu, inseguro.

– Eu não sou um bebê – reclamou – mas está doendo.

– Pense em voar numa vassoura e vai parar de doer – sugeriu. Ela franziu o cenho, sem entender – É o que eu faço e sempre ajuda.

Bevy apertou os olhos, aquilo realmente doía mais do que aparentava. Sentia o vento frio formigar, enquanto balançava devagar a perna para um lado e outro, provocando uma corrente de ar. Nunca tinha se embrenhado por árvores, desobedecendo sem razão, estragando uma linda roupa de festa, e indo explorar um lugar proibido.

Uma sensação de nervoso fazia o seu coração bater mais rápido ao mesmo tempo em que a pedra de gelo ainda derretia no fundo da barriga.

– Eu acho que devíamos voltar agora – sugeriu incerta, vendo–o ainda olhar tudo ao redor com excitação.

– O quê? Só mais um pouco... – barganhou. – um cortezinho desse tamanho não pode incomodar tanto assim...

Mas ele se aproximou quando viu que todo o rostinho branco dela estava tenso, os lábios apertados e as sobrancelhas franzidas de incomodo. Suspirou, resignado.

– Está bem, vamos volt...

Ouviram novamente o estalo de passos, e uma figura apareceu entre as arvores, vindo na direção dos dois.

– Estamos em apuros? – perguntou baixo no ouvido dela, mas Bevy saltou da lápide de repente tão aborrecida que esqueceu o joelho machucado. Tinha reconhecido num segundo aquele cabelo cheio e claro entre as árvores.

– Você me seguiu! – acusou para Charlotte, que também não parecia muito satisfeita com isso.

– Eu não acredito que desobedeceu Narcissa, Bevy! Vir no bosque, o que estava pensando? – a mais velha reclamou de aproximando de onde os dois estavam, com maior facilidade já que usava botas de cano alto.

– Isso não é da sua conta – disse malcriada.

– Cissa mandou ficar de olho em você. Até parece que ela sabia que ia aprontar alguma! Porque faz isso? Justo no dia da festa que ela preparou tanto para nada dar errado! Dessa fez eu aposto que vai ficar de castigo!

Hector tomou a frente e só então Charlie percebeu que ele estava ali. O rosto franzido dela relaxou, até a boca ficou meio entreaberta e seu sermão se perdeu totalmente.

– Não brigue com ela, foi tudo minha culpa. Eu a convenci a vir comigo.

– Eu vim porque quis! – Bevy reclamou.

– Não conte nada para a Sra. Malfoy. – ele disse com uma expressão convincente demais para se ignorar – Vai arranjar problemas para nós dois.

– Mas eu...

– Por favor? – pediu, erguendo um pouco as sobrancelhas, a fitando com os expressivos olhos azuis – Não fizemos por mal. Como se chama?

– Eu... Charlie... Charlotte Sumers – atrapalhou–se abaixando o rosto.

– Hector Carmichael – ele estendeu a mão, e quando pegou a dela, beijou o dorso como tinha feito com Narcissa.

– Você não precisa falar com ela assim, ela é a empregada. – Bevy avisou, olhando feio para as mãos que se soltaram em seguida.

– Eu não conto nada com uma condição – Charlie avisou após um breve silêncio – temos que voltar agora. Os convidados começaram a ir embora e vão dar falta de vocês.

– Vou ficar só um pouco, você pode levar ela com você – disse indicando a pequena – ainda nem vi tudo que queria...

Ele certamente teria convencido Charlotte sem dificuldade, no entanto, os três ouviram um chamado vindo das árvores.

– É a minha mãe – ele rolou os olhos – Estou indo, mãe! – avisou num tom mais alto.

Dallas Carmichael os alcançou e Charlie rapidamente puxou a mais nova pelo braço para trás de uma estátua, saindo de vista. Dali podiam ver a cena, através das pernas separadas do grande e corroído anjo de pedra.

– Hector, meu filho! – a jovem loira tinha um tom transtornado – Porque será que eu sabia que o encontraria aqui?

– Já temos mesmo que ir? Acabei de encontrar o cemitério, mãe.

– Eu devia lhe deixar semanas de castigo, e que tipo de fixação é essa agora? Vamos embora antes que o seu pai desconfie do que andou aprontando. Seu pestinha! – ralhou, bagunçando o cabelo do filho e lhe dando um beijo na testa. – Podia ter se perdido, e com certeza vai pegar um resfriado...

A voz e as advertências da mãe de Hector foram ficando mais baixas até sumirem, enquanto andavam para fora do bosque, de volta à mansão, deixando as duas meninas sozinhas. O joelho de Bevy começou a latejar dolorosamente mais uma vez, e ela reparou que perdera a oportunidade de dizer tchau ao garoto mais impetuoso que já conhecera.

(Continua…)

Notas finais
Mais um pouco sobe o passado. E ai, que acharam do retorno da Bevy? Da Bella fazendo pressão psicológica nela? Do Natal, do Hector? Louca pra saber as impressões dos meus leitores maravilhosos ;) Mais duas coisas: 1. Sobre a freqüência de postagem: para terminar IRN ainda esse ano, pretendo postar uma média de 5 capítulos por mês. Isso significa toda quarta, e ainda postagem extra em um sábado do mês, como hoje. Só pra deixar vocês situados. 2. O capítulo II de Fragmentos está no ar. Beijo!