Indigna Rosa Negra
9 A Culpa da Rosa
Notas iniciais
Havia uma plaquinha de latão na porta, que dizia “Chefe do Departamento de Danos Causados Por Magia” e embaixo, com uma letra diferente e mais recente, “Dra. Andromeda Tonks (temporária)”.
Ela bateu com os nós dos dedos, ignorando a mão que tremia.
– Entre! Quem… oh.
A Dra. Tonks, se esta era mesmo ela, era uma mulher madura, mas cujo cabelo cacheado, castanho e volumoso conferia uma jovialidade revigorante ao rosto comprido. Seus olhos eram escuros, e o nariz bem marcado, aristocrático. A impressão geral era de uma bruxa eficiente, mas tranquila. A não ser naquele momento, em que encarava a paciente que acabara de entrar em sua sala com uma marcada surpresa.
– Olá. – disse a garota, que lembrou–se o porque estava ali e do primeiro aborrecimento do seu dia – Eu gostaria de fazer uma reclamação a respeito de como o Dr. Fritz está conduzindo o meu tratamento.
– É mesmo? – a medibruxa chefe se recuperou da surpresa inicial, e se levantou para apertar a mão da menina – pode se sentar. Eu estava mesmo prestes a passar no seu quarto e me apresentar, acabei de assumir o departamento temporariamente. Estava me atualizando do seu caso.
– Então você deve saber que eles querem me colocar num quarto coletivo. – não pode evitar o tom de acusação. – Com aquele bando de loucos, contaminados e perigosos do quarto andar.
A bruxa, que a olhava como se ela fosse uma coisa intrigante dentro de um mostruário, franziu ligeiramente as sobrancelhas arqueadas.
– Normalmente danos por magia não são contagiosos. E ninguém perigoso é colocado no quarto comunitário.
– Continuam sendo um bando de loucos. Por favor, eu realmente acho que é um engano. Eu não vejo como conviver com aquelas pessoas pode ser bom. O Dr. Fritz pensa que ainda há razões para prosseguir com o tratamento, mas honestamente, olhe para mim, você vê alguma coisa de errado? Por que razão eu não poderia receber alta?
A medibruxa mordeu o seu lábio, incerta, observando a garota, que não era apenas uma paciente para ela. Não a via há quatorze anos, desde que Bervely tinha três dias de idade, no entanto, obviamente algo estava errado com ela. Não precisava ter lhe visto crescer para identificar um problema com a sua aparência.
Mas a própria garota não estava ciente disso. Pelo menos, a questão não fora abordada em nenhuma das suas sessões com o Dr. Fritz, cujos relatórios a Dra. Tonks lera com bastante atenção.
– Sinto muito, querida. Não há nada que eu possa fazer em relação a isso. Os quartos individuais são usados de acordo com a necessidade dos pacientes. Você não precisa mais de um, e eu tenho outros bruxos que precisam, compreende? Não seria justo.
Ela cruzou seus braços, irritada. A medibruxa era suave, mas inflexível, e havia um tipo de olhar nela, uma postura que Doze conhecia bem. Dizia “você pode insistir, e eu continuarei sendo gentil, mas você não pode me fazer mudar de ideia”. Tentou a sua última cartada:
– Vou entrar em contato com a minha família. Eles não ficarão satisfeitos em saber que estou sendo transferida para um quarto comunitário, com outros tipos de bruxo quaisquer. Você vai receber uma mensagem deles, e não será agradável.
Uma sombra de sorriso surgiu no rosto da médica – Eu vou correr esse risco.
A garota estreitou os olhos perigosamente.
– Você sabe quem eu sou? Faz alguma ideia de com quem está mexendo?
Ela sorriu ainda mais, como se Doze estivesse falando alguma coisa remotamente engraçada.
– Oh, querida, eu sei exatamente com quem estou mexendo.
A garota se levantou, intempestiva, pronta para bater a segunda porta do dia.
– Espere. – disse a outra, e ela se virou, imaginando que bruxa reconsiderara. A medibruxa–chefe Tonks ostentava um sorriso tranquilo. – gostaria de lhe fazer um convite.
A adolescente não respondeu, só ergueu uma sobrancelha, querendo dizer “como você se atreve a me fazer um convite depois de tudo isso?”
– Sempre organizamos uma pequena comemoração aqui no hospital, para os aniversariantes. O que acha de participar este mês?
– O meu aniversário é em agosto. – ela respondeu com arrogância. A bruxa assentiu.
– Eu sei. Mas a festa de agosto só será no meio do mês. Talvez já tenha recebido alta até lá.
Doze não fazia ideia de como a conversa chegara até ali, mas o fato da medibruxa achar que podia contrariá–la e depois tapeá–la com uma festa a deixava muito irritada.
– Desculpe, mas eu não acredito em aniversários, Dra. Tonks. – disse, friamente, deixando a sala em seguida.
A medibruxa ficou encarando a sua porta e imaginando o que teria acontecido naqueles quatorze anos, para transformar a garotinha rosada e miúda que ajudara a trazer ao mundo naquela jovem perturbada, que escondia seus danos atrás de arrogância e do que era, claramente, uma forte magia de defensiva que a afetava tão intimamente a ponto de estar estampada em seu rosto.
– BD –
Se chamava Ala Janus Thickey para residentes de longo período, mas essa não foi a parte que Doze menos gostou de ver escrita na placa acima das portas duplas do seu novo quarto. Ela estava encarando a sub-inscrição: “permanentes perdas de magia e outras debilitações” com o nariz muito torcido.
Qualquer que fosse o motivo para ter sido internada ali, tinha certeza que não estava relacionado com um problema de perda da sua magia. Quer dizer, ela ainda podia fazer mágica, muito bem, obrigada, se lhe dessem a sua varinha (que imaginava estar confiscada em algum depósitos de bens empoeirados no hospital, junto com chapéus pontudos e outros pertences dos pacientes). O complemento, “outras debilitações”, soava ainda menos encorajador.
– Não será tão ruim, você vai ver – disse o curandeiro que a ajudou a fazer a mudança do quarto individual, abrindo a porta para ela – Alguns internos podem até mesmo se sentir em casa, com o tempo.
– Esse nível de conforto não está nos meus planos – resmungou baixo, seguindo o homem para dentro. A ala permanente era um amplo quarto com janelas altas e retangulares, e cujas paredes tinham sido recobertas com uma espécie de azulejo cinza auto-limpante. Havia camas em intervalos de alguns metros, do tipo com uma cortina que podia ser fechada ao redor delas, e ela logo percebeu que aquele era o máximo de privacidade que encontraria ali.
– Fique com essa – ele indicou a última cama da direita, perto de uma cortina florida que isolava a parte de trás do quarto. – A última pessoa que a ocupou foi uma garotinha que tinha sido possuída por um demônio sombrio. Oh, veja, parece que esqueceram um desenho dela.
Havia de fato uma folha de papel pendurada na parede atrás da cama. Uma chuva de sangue e três corpos enterrados de cabeça para baixo foi tudo que Doze conseguiu identificar.
– Adorável – comentou, observando a obra de arte. – O que aconteceu com ela?
– Engasgou com um lápis colorido, um acidente falta, pobrezinha. – ele disse brandamente, esticando o lençol para ela – Você vai gostar daqui. Chame se precisar, o jantar será servido às sete. Alguma pergunta?
– Onde eu consigo um desses lápis coloridos?
O curandeiro lhe olhou feio, provando que não havia mais senso de humor na ala Janus Thickey do que ela encontrara no resto do hospital. Então ele foi embora e a deixou ali sozinha para fazer o reconhecimento do terreno.
– Certamente fatal – disse uma voz à sua esquerda – mas dificilmente um acidente.
Se virou rápido, mas levou um segundo para identificar o que estava vendo. Uma das camas tinha sido envolvida com uma redoma gigante, meio parecida com uma bolha de sabão a não ser pelo fato de que não parecia suscetível a uma agulhada. A voz tinha vinha lá de dentro, onde estava um menino meio turvo.
– Olá – ele acenou quando percebeu que tinha a atenção dela – sou João. João Arty, mas pode me chamar de Arty, a não ser que queira falar de algum assunto sério, porque ai é João mesmo. E você é…
– Eu sou contra perguntas pessoas, não estou aqui pra fazer amigos – avisou, antes que o menino da bolha começasse a ter ideias.
– Ow, uma durona. Deve durar mais do que a última. – pelo seu tom, parecia que estava sorrindo.
Ela o ignorou, começando a fechar as suas cortinas, quando mais três pessoas entraram no quarto. Reconhecendo uma delas, o garoto com quem falara mais cedo e a levara até Dra. Tonks, Doze manteve uma fresta aberta e os assistiu atravessar o corredor entre as camas, passar pela frente da sua e abrir as cortinas floridas, revelando algo como um pequeno anexo que contava com duas camas, uma mesinha de refeição e até um guarda roupas.
– Aqui, mamãe – disse o garoto, ajudando a mulher que ela já conhecia da ala de convivência a se sentar em uma das camas. Ela arrastou vagarosamente sua sandália, murmurando uma cantilena, seus olhos perdidos pelo quarto.
– Olha, querido, parece que seu pai já acordou, porque não conta pra ele a novidade?
– Vó… – o garoto Longbotton deu um suspiro para a senhora que fechava o grupo, desanimado com a ideia. Era uma mulher muito austera com um robe longo, cinza e mostarda, e um chapéu alto com uma codorna empalhada no topo. Doze não tinha superado a coisa da codorna ainda quando Neville puxou ar, pegando coragem, e andou até a outra cama – pai, adivinha o que chegou hoje pra mim?
O homem na cama era franzino e lembrava um balão desinflado, ou alguém que perdera muito peso, muito rápido, e nunca o recuperara. Suas bochechas pesavam aos lados do rosto, e o olhar dele era tão vago quanto o da esposa. Mesmo assim, aceitou o pergaminho que o filho estendia.
– É a minha carta de Hogwarts – recomeçou o garoto com empolgação forçada – pode imaginar? E eu achando que ela não ia chegar. Mas eu vou em setembro, e vovó disse que eu posso usar a sua varinha. Espero que não se importe.
O Sr. Longbotton não fez menção de responder, mas sacudia de um lado a outro o pergaminho errantemente, parecendo gostar do farfalhar da folha na corrente de ar. Neville lançou um olhar inseguro a sua avó, que lhe fez um aceno para que continuasse. Ele respirou fundo.
– Vovó acha que eu vou ficar na Grifinória. Mas não seria tão ruim se eu fosse para a Lufa Luf… oh, não, pai, não faç—
Muito tarde, O Sr. Longbotton acabara de mergulhar a carta de Hogwarts de Neville em sua sopa fria. A avó correu para resgatá-la, dizendo “não tem problema, não tem problema, é só secar”, mas o menino parecia mais devastado do que preocupado com o estado do pergaminho. No restante do tempo da visita, em que a bruxa mais velha ficou tagarelando um monólogo com o filho, Neville sentou na pontinha da cama da mãe e manteve a sua cabeça baixa, a não ser para aceitar duas vezes pedacinhos de guardanapo que a moça veio lhe oferecer.
Os dois foram embora antes do jantar, mas Doze, que se afastara da cena e sentara em sua cama, não teve motivação para se mover até a curandeira do turno da noite chegar com a comida. Ela abriu as cortinas e ficou anunciando “canja de galinha com milho” em um tom festivo, mas foi sumariamente ignorada. As cortinas floridas foram fechadas novamente.
Quando a curandeira serviu o prato duvidoso para o quinto integrante da ala – que era o Sr. Murton, o cara que coaxava – e saiu, Doze percebeu que era observada pelo garoto-bolha do outro lado do quarto.
– Bem triste esses dois, não é – puxou conversa, enquanto dava colheradas ávidas em seu jantar – ficaram birutas durante a guerra. Mas dizem que eram uns batias duns aurores antes disso. Agora eles não sabem nem o próprio nome.
– E como eles se chamam? – ela perguntou, ignorando o prato de comida, completamente sem fome.
Arty se remexeu, feliz em obter a atenção da garota nova.
– Alice e Frank. E o menino é Neville, e a avó dele se chama Augusta. Eles visitam todo mês, é de partir o coração. Bem, parte o meu. O Sr. Burton não liga muito. Quantos anos você tem? Você parece velha.
Ela suspirou, impaciente.
– O que eu te disse sobre as perguntas pessoais?
João Arty sorriu: – Você me lembra a minha irmã, mas só na aparência. Ela não é tão mal humorada assim.
Doze observou que dificilmente poderia se parecer com alguém da família dele, pois João era um tipo bem comum, mas não disse nada. Talvez ele não pudesse lhe ver muito claramente através da bolha.
– Você é velha o suficiente para ter ido a Hogwarts, não é? Oh, poxa, eu gostaria de ir para Hogwarts, se eu pudesse. Mas isso me mataria. É verdade que eles tem uma lula gigante, um professor fantasma e uma floresta com lobisomem? O quê? Isso não é pessoal! Oh, por favor…
– Eu não saberia, ok? – disse com mau humor – Nunca estive em Hogwarts.
– Oh, é mesmo? Puxa, qual a sua doença? Você não parece assim tão mal a ponto de não poder ir para a escola. Se bem que às vezes a coisa é dentro, e só se percebe quando não tem mais jeito. Foi assim para Risa – ele indicou com a cabeça o desenho preso na parede, para fazer alusão à sua artista – quando perceberam o que tinha dentro dela, tarde demais para consertar. Pobrezinha, até que desenhava bem. Mas os gritos no meio da noite…
– Você nunca pára de falar? – resmungou. Ela não entendia como um garoto que morava numa bolha podia ser tão feliz e tagarela – eu não sei qual a droga da minha doença, tudo o que sei é que de repente eu acordei e estava aqui, e me disseram que eu tinha dormido por seis meses.
– UAU! – Arty arregalou seus olhos, impressionado. E depois ele sorriu faceiro – sabe, isso na verdade foi muito pessoal, você não tem vergonha de contar coisas assim para o primeiro estranho que aparece?
Ela quis resistir, mas acabou rolando os olhos e deixando escapar um sorriso de consternação.
– Vá terminar sua canja, garoto-bolha. Pelo menos se você sobreviver, eu vou saber que essa gororoba é comestível.
– BD –
“Nós não vamos dizer a você! Nós não vamos dizer!”
Gritos despertaram Doze aquela noite, e dessa vez eles não vinham de um pesadelo seu. Alarmada, ela sentou na cama e ficou ouvindo com atenção, tentando descobrir de onde eles se originavam.
– Não machuque! Não! Nós não sabemos! NÃO! – o último ‘não’ se emendou com um grito agonizante e muito próximo, e a garota saltou da cama, puxando as cortinas com o coração aos saltos. Por um momento teve certeza que alguém ali estava sendo atacado, horrivelmente torturado, mas do lado de fora tudo parecia calmo.
A não ser pelos gemidos por detrás da cortina florida.
– Puxa, você deu azar. Logo na sua primeira noite a Alice ficou encalhada de novo.
Ela procurou na escuridão até encontrar o perfil de Arty do outro lado, atrás da bolha. Ele nem tinha levantado da cama, apenas sua cabeça, e ao contrário dela, aparentava somente um pouco zangado.
– Encalhada? – ela repetiu, exangue. Ali do lado, Alice continuava a gemer: “Não, não, não… nós não sabemos, nós não vamos falar a você…”
– Sim – o menino suspirou – encalhada em um pesadelo.
Um arrepio de horror passou pelo corpo da garota quando a mulher, ao invés de falar, começou a soltar lamentos horríveis de dor lá atrás. Arty deve ter interpretado o seu silêncio como confusão, pois sentiu a necessidade de explicar melhor.
– Os medibruxos acham que ela às vezes sonha com o dia em que… você sabe. Só que ela não consegue sair do pesadelo, então fica revivendo a cena repetidamente em sua cabeça.
– Nós não devíamos chamar alguém? – sugeriu. Os contínuos lamentos de Alice arrepiavam toda a sua pele e faziam seu estômago se revirar.
– Você pode chamar, mas tudo que eles vão fazer é lançar um Abafiatto na cortina, e esperar passar. Ela sempre acorda, mesmo que dure horas… você se acostuma.
– NÓS NÃO VAMOS DIZER! – Alice gritou, recuperando seu fôlego. Sua voz era clara e forte e enviou um choque para sua coluna – Não vamos dizer para você, Bellatrix!
– Oh, chegamos nisso. É a pior parte. Hei, onde você…?
Doze correu para fora do quarto, incapaz de ouvir mais um segundo da tortura que sua mãe provocara a Alice Longbotton há quase uma década. Ela fugiu do quarto e atravessou o corredor às cegas, empurrou as portas duplas e derrapou na sala de convivência, onde se deixou escorregar para o canto de uma das paredes. Sua cabeça rodava, era um redemoinho dos gritos de Alice. Não podia parar de imaginar aquela cena, não podia parar de pensar que enquanto Bellatrix destruía a vida daquelas duas pessoas, ela estivera em casa, esperando a mãe voltar, ansiosa para vê-la…
O olhar devastado de Neville Longbotton piscou em sua mente, como se ele estivesse bem ali parado, assistindo seu pai enfiar sua carta de Hogwarts na sopa. Por causa de Bellatrix, Neville jamais seria alvo do orgulho de seus pais. Haveria ele alguma vez acordado a noite, ao sons dos gritos de sua mãe, sendo torturada?
A visão de um Neville pequeno, um garotinho de rosto redondo e olhos amendoados assustados, tateando no escuro, com medo dos gritos e dos gemidos, provocou nela uma onda de agonia quase nauseante. Doze ficou encolhida ali o quanto pode, com a certeza de que não poderia pisar na ala novamente enquanto Alice estivesse presa em seu passado.
Quando os primeiros raios da manhã começaram a se infiltrar pelas janelas da sala, ela se levantou, mais calma, mas ainda com o peso da angustia pressionando seu peito. Incapaz de voltar para o quarto, tomou um caminho diferente da ala Janus Thickey e esperou que seu plano desse resultado positivo.
– BD –
Ian Fritz estava preocupado, e como não era um homem de deixar pra lá facilmente, continuava a sua busca pelo hospital St. Mungus apesar de não ser seu dia de trabalho. De fato, acabara de sair de um turno de vinte e quatro horas e estava cansado, pronto para ir para casa e para a sua cama acolhedora.
A não ser pelo fato de que Doze estava desaparecida.
Às quatro e meia da manhã, ela fugira do quarto comunitário. Segundo João Arty, a garota saíra correndo após ouvir os gritos do terror noturno de Alice Longbotton. Fritz reclamara com a Drta. Tonks sobre colocar Doze naquele quarto, e não no outro, onde ficavam as crianças mais novas. Talvez ela estivesse um pouco acima da faixa etária para a ala infantil, mas a ideia de alocá-la junto às vítimas de sua mãe parecia um tanto de mal gosto.
A Dra. Tonks discordara. A Dra. Tonks era a chefa, e acreditava em amor duro. Agora Doze estava sumida e o Dr. Fritz não lhe tirava a razão, mas estava preocupado com ela e não podia ir para casa antes de ter certeza que estava bem.
Ele esteve uma vez no laboratório de poções, mas Mme. Grandgnol negou ter visto a sua “pupila” (ele fez uma nota mental para conversar sobre aquela designação mais tarde com a mulher, lembrá-la de que Doze era uma paciente, e não uma estagiária, não importava o quão talentosa em poções ela fosse). Ele esteve nos outros andarem e até no shopping do hospital, mas não pode encontrá-la. A moça da recepção jurou que nenhuma garota com tal descrição tinha usado o ponto de apartação, a rede de flú ou a porta da frente.
A Dra. Tonks estava calma, garantindo que se Doze queria um tempo para si, ela podia ter, e ela seria encontrada quando quisesse ser encontrada. Fritz, pela primeira vez, considerou que talvez o parentesco entre as duas estivesse influenciando o julgamento da medi-bruxa chefe, mas não disse nada.
Ao invés disso, foi procurar no último lugar que um paciente pudesse imaginar se meter, especialmente porque nem os funcionários iam lá. Só os elfos domésticos, dezoito deles, para ser exato. Esse era o contingente com o qual o Hospital St. Mungus contava para produzir a alimentação de todos os pacientes e funcionários. Como eram fruto de doações, eles não tinham lealdade a um mestre, mas ao hospital.
Foi com um pouco de incredulidade que Ian Fritz encarou Doze, no fundo da cozinha, usando um balcão que fora liberado só para ela, e com as mãos cobertas de farinha, além de um pouco em seu rosto e no cabelo preso de qualquer jeito no topo da cabeça. Ela estava tão compenetrada sovando uma massa que não o viu se aproximar.
– Eu não sabia que cozinhava.
Doze levantou seu rosto com surpresa, seus olhos arregalados. Eram um par impressionante de olhos azuis, mas que mostravam um pouco de desorientação também. Ela piscou por um momento, voltando à realidade.
– Dr. Fritz?
– Eu sei, difícil me reconhecer sem o lindo jaleco verde catarro. – ele brincou. – Também quase não te reconheci no meio dessa nuvem de farinha, sem contar com o fato de que a cozinha está fora dos limites para os internos do hospital.
– É, eu achei que você fosse dizer isso – sem fazer grande caso, a garota pegou um rolo enorme e começou a abrir a massa no balcão. Ele reparou que havia uma certa habilidade em seu modo trouxa de realizar aquele trabalho, como se não fosse a primeira vez que fizesse uma receita à mão.
– Você é boa nisso – ele reconheceu – mas como uma bruxa puro sangue criada em meio à elite mágica sabe fazer bolo à maneira trouxa?
– Era só uma coisa que a minha tia fazia – ela murmurou, tão compenetrada na atividade que mal percebia o que estava revelando – toda vez que ela estava feliz. Não é ao modo trouxa, leva ingredientes mágicos. E não é bolo, é torta.
– Ah, eu vejo. E você, também faz torta quando está feliz?
– Não. Ela me colocava pra ajudar quando queria que eu ficasse feliz…
Suas palavras morreram, quando se inclinou para medir a espessura da massa. Tratava a receita com a minuciosidade com que trabalhava no laboratório de poções: medidas, pesos, texturas, quantidades, tudo era de suma importância para a perfeição. Por um momento esqueceu que o doutor estava ali, até ele falar de novo.
– Ouvi dizer que você presenciou um dos pesadelos da Sra. Longbotton.
A pergunta ficou no ar, enquanto ela procurava uma forma do tamanho exato para a massa.
– É. – disse depois de um tempo, quando já começava a untá-la, usando os dedos.
– Como se sentiu?
Terminou de espalhar a manteiga por onde precisava, concentrando-se na sensação mais do que no que estava passando em sua cabeça. Ajudava a esquecer, ajudava. O mesmo não se podia dizer do bruxo ali, insistindo em fazê-la pensar.
– Pensei que hoje fosse seu dia de folga. – disse por fim, quando percebeu que ele ainda esperava a resposta.
– Na verdade é sim. Mas achei que poderíamos conversar, desde que o nosso último encontro foi um tanto tempestuoso.
– Você está se sentindo culpado por me expulsar da sua sala? – ergueu uma sobrancelha, cética. Agora colocava a massa aberta cuidadosamente sobre a forma, tentando não parti-la.
– Eu quero que saiba que nunca concordei em colocá-la na mesma ala de Alice e Frank. Continuo acreditando que a convivência com outros pacientes é boa para você, mas não… não esses, em especial.
– Por que? – quis saber, sua voz controlada, só um fio de zombaria lá no fundo – só porque eles são as vítimas de Bellatrix Lestrange? Acha que eu não posso lidar com eles?
– Eu acho que pode ser difícil, e talvez não esteja pronta.
Ela deu uma risadinha zombeteira, enquanto despejava o recheio de maçã caramelada sobre a massa. O cheio se espalhou em torno deles naquele canto da cozinha, mas a garota não tinha fome. Muito pelo contrário, o estômago continuava embrulhado e garganta, bem apertada, quase trancada. O Dr. Fritz permaneceu em silencio enquanto ela fechava a parte superior da torta, fazia os furos e a colocava no forno pré-aquecido. Depois Doze voltou e lavou a farinha das mãos, se perguntando o que ele ainda estava fazendo ali. Como tudo o que restava era esperar, voltou para o balcão e o observou.
Ele parecia culpado sim. O Dr. Fritz aparentava estar em torno de seus quarenta e cinco, não muito alto, o cabelo escuro e um cavanhaque começando a ficar grisalho. A única coisa especial em seu rosto eram os olhos, pequenos, astutos, debaixo de sobrancelhas grossas, e que acompanhavam os movimentos dela esperando uma reação. Culpado, mas não o suficiente. De que lado Fritz estava? Hoje, ele a incomodava.
– Você sabia que a minha mãe pegou prisão perpétua em Azkaban por causa dos Longotton? – ela sondou, encostada ao balcão, as mãos apoiadas de cada lado do corpo. Fazia calor ali, e gotas de suor brotavam de sua testa. O medibruxo não parecia incomodado com a temperatura.
– Sim. – foi tudo o que disse.
– Está na minha ficha? – perguntou com deboche.
– Sim.
– Talvez eu esteja aqui por causa dela. Talvez vocês estejam me prendendo aqui para que eu não saia por ai, e faça algo como o que ela fez aos Longbotton.
– Por que diz isso? Você acha que poderia fazer alguma coisa parecida?
Ela sorriu apesar de si mesma, e do seu estado interno destroçado.
– Eu acho que seria loucura da parte de vocês arriscar. Ou então… ou então você está mentindo, e me colocou naquela ala de propósito, para que eu pudesse ver o estrago que ela fez em Alice e Frank, e para que eu ficasse assustada ou então tivesse alguma empatia milagrosa e não seguisse o exemplo dela.
A acusação, ela soube no momento em que disse, o afetou intimamente, pela forma que seu rosto se contraiu, por um segundo. Mas logo ele estava sereno de novo.
– Você não é como a sua mãe, garota. Você não é como ela.
Doze desviou o seu olhar para o teto, cruzando seus braços em frente ao corpo. Ela parecia agoniada, e fez um barulho de incredulidade com o nariz.
– Como pode saber disso?
– Bom, para começo de conversa você está aqui, e não em um centro de recuperação para menores infratores. Isso me diz que você é a vítima, não a algoz.
Ela chiou de incredulidade novamente. A cozinha estava ainda mais quente, a medida que o forno cozia a torta e ela corava lá dentro. Mas a verdade era que Doze se sentia fria por dentro, o tempo todo.
– Eu fiz coisas terríveis, Fritz. A única diferente entre mim e Bellatrix, é que eu não fui pega.
– Você tem quatorze anos. O que quer que tenha feito…
– Não diga que eu não sabia das conseqüências – o interrompeu, irritando-se – Eu fiz por causa das conseqüências. Crianças podem ser ruins, doutor, acredite em mim. Eu fui uma delas.
O forno começou a emitir um silvo agudo, o que significava que a torta estava pronta. Doze fez um movimento para tirar a travessa lá de dentro, mas o doutor fez um aceno para indicar que ele mesmo o faria. Com um feitiço, fez a forma flutuar cuidadosamente até o balcão, o aroma da torta de maçã agora invadindo toda a cozinha, doce e apetitoso, enquanto a torta em si estava agradavelmente estufada e corada.
– Parece boa – ele elogiou, se aproximando para espiar melhor.
Ela negou com a cabeça, encarando o chão.
– Só parece, doutor. Mas por dentro, está arruinada.
– BD –
1982, nove anos antes.
Era o quarto domingo de junho, e a família Malfoy tivera há pouco um jantar caprichado preparado por seus elfos. Eles estavam sentados na sala de estar; Lucius bebericando um raro vinho de fadas numa taça comprida, conversando coisa de adultos com a esposa, o pequeno Draco, sonolento, sendo embalado pela mãe.
Charlie e Bervely brincavam de snape explosivo no tapete perto deles. Elas formavam pilhas, construções, ou então carreiras intermináveis que podiam desabar quando se empurrava a primeira carta. Mas elas só conseguiam jogar em paz quando Draco não estava a solta, pisando, esbarrando ou derrubando as cartas em sua ânsia de participar da brincadeira.
– Charlie, você se importa em levar Draco para o quarto? Ele está quase lá. – Cissa precisou interrompê-las. Se o filho pegava no sono em seu colo, ele fazia um show na hora de passar para o berço.
Obediente, Charlotte se levantou e recolheu o bebê do colo da mãe, que não protestou, mas se agarrou ao pescoço dela, enfiando o rosto nos seus cachos desenfreados. Bevy observou a dupla desaparecer pela porta e, sabendo que o jogo estava arruinado, guardou as cartas de volta na caixinha.
Depois disso, ela se esgueirou de mansinho até Narcissa, e pediu por seu colo.
– Eu não acredito nisso – Lucius zombou quando a tia a deixou deitar a cabeça em seu ombro, e começou a alisar seu cabelo. – Narcissa, por favor, ela tem quase sete.
– Deixe-a em paz, Lucius – disse a loira, com um sorriso brando no rosto. – o que você estava falando, sobre Dumbledore?
Apesar de encorajar o marido a continuar com as queixas sobre o velho diretor de Hogwarts, no fundo não estava prestando atenção. Secretamente amava quando a sobrinha procurava seu colo, e ela o fazia muito raramente e há pouco tempo. Demorara meses, após retornar à mansão, para recuperar aquele nível de confiança de Bervely novamente.
Ela aproveitou o momento para sentir o seu corpinho pequeno e quente, e a sua respiração tranquila, enquanto os olhos grandes e negros pesavam rumo ao sono. Distraidamente, desembaraçava o cabelo muito fino que produzia nós com facilidade.
– … o que é completamente absurdo. Eu lhe disse que se queixasse para o Conselho, se estava tão inconformado. Mas é claro que ele não vai. Ele sabe que EU sou o Conselho, a essa altura. Ontem mesmo Burnabie me pediu o adiamento do seu processo na Corte Internacional dos Bruxos, e é claro que eu consegui pra ele. Mais um voto garantido, isso fecha sete de treze. E o velho ainda acha que pode chiar?
– Oh, não, tem razão. – ela disse logo a tempo, antes que pausa de alongasse e delatasse a sua distração – Tem razão, querido, ele está fora de si.
– É claro que ele pode tentar nos afetar de outras maneiras. Estive pensando em fazer uma doação para Durmstrang.
– Uma o quê? – a súbita mudança no assunto a assustou – por que?
– Bem, Karkaroff acabou de assumir a direção da escola, e você sabe que não terminamos sob os melhores termos. Todas aquelas diferenças de opinião durante o Serviço, quero deixar claro que isso ficou no passado.
Lucius chamava os seus tempos como comensal da morte de Serviço, e se Narcissa bem lembrava, ele e aquele velho desagradável Karkaroff sempre tinham tido enormes desavenças ao que se referia às estratégias durante a guerra. Mas ela estava confusa sobre porque de repente era importante estar às boas com o ex-comensal.
– Oh, espere. Está querendo dizer que pensa em enviar Draco para Durmstrang? – ela arregalou os olhos, alarmada, quando percebeu o que Lucius pretendia.
– Precisamos ter um plano B. Não dá para depender da boa vontade de Dumbledore, ele já me odeia agora por ter escapado impune, não vejo isso melhorando ao longo dos anos.
– Mas Draco tem dois anos! Não é muito cedo para pensar nisso?
– Eu não estaria onde estou hoje se não pensasse muito à frente dos meus oponentes, Narcissa. – disse Lucius, num leve tom aborrecido, como se ela estivesse criticando sua estratégia para vencer na vida.
– Claro, meu marido. – concordou com um suspiro, forçando-se a relaxar no sofá. Felizmente, a respiração tranquila de Bervely era muito calmante. – Tem razão. Um plano B é uma ótima ideia.
Naquele momento Charlotte retornou ao quarto, sua cabeça baixa quando passou por Lucius, de quem ela não parecia ter superado o medo ainda.
– Eu -hum-, Draco está dormindo, senhora. Quer que eu leve Bevy agora?
– Não, querida, pode ir deitar. Ela já está muito pesada pra você de qualquer maneira.
A menina assentiu e deu boa noite, pronta para se retirar, mas algo veio a mente de Narcissa, e a chamou de volta.
– Senhora?
– Quantos anos tem agora, Charlotte?
– Completei onze no começo de dezembro – ela disse, como sempre ávida para responder qualquer questão que lhe fosse feita, mas sem ocultar sua curiosidade a respeito.
– Certo, isso é tudo, pode se recolher. Eu mesma levo a Bevy daqui a pouco.
Quando Charlotte deixou a sala, Narcissa olhou de relance para Lucius, que se servia de mais vinho. Ele não parecia ter percebido a razão da sua pergunta para a garota, ou talvez estivesse apenas fingindo que não tinha.
– A carta dela vai chegar em breve. – o lembrou, esperando sua reação.
Lucius deu um bufo incrédulo, areando seu vinho. Isso pareceu ser tudo o que tinha a dizer sobre o assunto, pois logo começou a divagar novamente a respeito de estratégias políticas e pensar adiante.
– BD –
– Eu tenho algo para você, Dobbyzinho! – Bervely cantarolou, entrando na cozinha. Ficava no subsolo da mansão, era ampla e quente, e o teto baixo em relação ao resto da mansão, tornando-a um pouco claustrofóbica. Rapidamente procurou o elfo com os olhos, mas haviam quatro ali, e eles eram todos muito parecidos.
– Dobby não fuja de mim – ela continuou cantarolando, olhando debaixo das mesas e atrás do forno, depois no armário de mantimentos – isso é uma ordem direta, apareça aqui agora mesmo, mocinho.
Sem opção, o elfo veio até ela, mas pelo jeito com que repuxava suas orelhas, não estava muito satisfeito em ser requisitado.
– Menina Black sabe que Dobby estar ocupado – ele resmungou com a voz guinchada – menina Black quer arranjar problema para Dobby com Mestre Malfoy.
– Não, Dobby, eu não, nunquinha – jurou, exagerando na intensidade de seu não, enquanto tirava do bolso uma folha de jornal dobrada – só vim te emprestar uma coisa. Se você for querer, é claro.
Ele arregalou seus enormes olhos verdes, que brilharam de cobiça. Se os elfos não lidavam bem com presente de seus donos, aquele em especial parecia muito afeito à noção de empréstimo, como Bevy logo descobrira. O fato de que ela raramente voltava para lhe cobrar o que trazia até ele era um mero detalhe.
– Dobby não poder aceitar isso – ele fez uma firula, torcendo a barra imunda da fronha que usava – Mestre Malfoy castigar Dobby…
– Oh, por favor, não seja bobo – ela suspirou com impaciência – isso é meu. Porque tio Lucius ia querer as cruzadinhas mágicas do jornal? Eu juro, essa folha é só minha. Pode pegar.
Ela estendeu a folha de jornal para o elfo, com sua cara mais inocente. Mas Dobby não era bobo, e estava desconfiado.
– O que menina Black vai querer de Dobby em troca do empréstimo?
Um amplo sorriso destruiu a fita angelical da menina.
– Umas respostinhas de nada. Mas tia Narcissa não pode saber que eu perguntei.
– Não, não, não, Dobby não mentir pra senhora Malfoy! – ele foi correndo para a mesa, já mirando a quina com sua cabeçona, e ela o segurou bem a tempo.
– Espera ai, elfo bobinho. Não é mentir, só não vai fofocar com ela. Ok?
– Mas se ela perguntar a Dobby… – ele olhava para o pedaço de jornal como se ele fosse feito de ouro.
– Já sei, já sei, você tem que falar. – rolou os olhos – Ela não tem porque te perguntar isso. Temos um acordo ou não?
O elfo olhou para um lado e para o outro, para ver se os outros prestavam atenção neles, mas Byo, Iva e Pollock estavam ocupados indo de um lado para o outro a fazer o almoço. Ele aceitou o jornal e fez um aceno para irem debaixo da mesa, onde ficavam relativamente fora de vista.
– Menina Black pode fazer pergunta, mas Dobby não vai responder mais nada sobre acasalamento de aranhas. – ele teve um tremelique, ao lembrar do que lhe custara sua última cruzadinha mágica.
– Não, isso é sobre Hogwarts. Você sabe o que é, certo? Hogwarts?
– Isso ser a escola bruxa que vão todos os bruxinhas e bruxinhos aprender mágica. Mas menina Black ser muito nova para pensar nisso, não poder ir até os onze anos.
– Sim, eu sei. Mas só bruxos de verdade podem ir pra lá, certo?
– Sim. Só receber a carta quem tem sangue mágico. Nenhum trouxa ir para escola de magia.
Ela assentiu, mas ainda não estava completamente tranquila.
– Todos os bruxos recebem a carta? Mesmo que eles não estejam mais em casa, com os pais, mesmo que ninguém saiba onde eles estão?
– Oh, sim – o elfo assentiu com segurança, as orelhonas balançando junto com a cabeça – todo menino e menina bruxa, em qualquer lugar, receber a carta. O diretor da escola saber achar todos eles, sem erro.
– Oh, Dobby, isso é terrível. E quanto tempo é preciso ficar aprendendo magia?
– Anos. Muitos anos. Sete anos, Dobby pensa, sete anos na escola até saber tudo que precisa.
Ela arregalou seus olhos, horrorizada. Sete anos era, para ela, a eternidade inteira. Sete anos era impensável. Era mais do que a sua idade! Ela agarrou os elfos pelos ombros.
– Dobby, você tem que me prometer que se chegar uma carta de Hogwarts, você vai entregar ela pra mim.
– Mas Dobby ter de entregar toda a correspondência para senhora Malfoy!
– Eu sei. Mas só essa. Eu trago outra cruzadinha pra você! Trago duas!
– Não, não, não, Dobby ter de entregar correspondência dos Malfoy aos Malfoy! Ou senão, Dobby precisar se castigar muito, muito mesmo.
Ela ficou pensando numa solução por um momento, mordendo seu lábio, até perceber que o próprio elfo tinha apontado a resolução.
– Está tudo bem, porque a correspondência não será para nenhum Malfoy. Será para Charlie! E ninguém ordenou você para entregar correspondências de Charlotte à minha tia, certo?
O elfo estancou no meio do movimento de negação automático que fazia. Ele piscou, surpreso.
– Não, Dobby não tem essa ordem.
– Ótimo! Estamos combinados, então? – ela voltou a abrir seu sorriso matador que, embora não soubesse, tinha genética paterna.
– Dobby vai entregar carta de Hogwarts da senhorita Charlotte para menina Black – ele repetiu, ansioso – mas Dobby quer três cruzadinhas mágicas por isso.
Ela deu uma gargalhada. Precisava parar de chamar aquele elfo de bobo.
– Feito, orelhudo. Negócio fechado.
– BD –
Prezada Sra. Charlotte Summers,
Temos o prazer de informar que V. Sa. tem uma vaga na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Estamos anexando uma lista dos livros e equipamentos necessários. O ano letivo começa no dia primeiro de setembro, estamos aguardando sua coruja no mais tardar, 31 de julho.
Atenciosamente,
Minerva McGonnagal,
Vice-diretora.
Bervely releu a última linha mais uma vez, para ter certeza que entendera certo. “Estamos aguardando sua coruja, no mais tardar, 31 de julho”. Ela queria se certificar que, se eles não recebessem uma resposta, eles acreditariam que o convite fora declinado.
Não iam levar Charlotte embora.
Charlie não ia para longe, ficar uma eternidade aprendendo magia, enquanto ela tinha de ficar sozinha na Mansão com o seu primo chorão.
Bervely jogou a carta no fogo, antes que alguém aparecesse e a pegasse no flagra. Escolhera até mesmo a lareira da biblioteca, que era limpada pelos elfos. Se fizesse no quarto, talvez Charlotte visse as cinzas do papel e desconfiasse.
Assistiu o pergaminho queimar lentamente, primeiro as bordas, enquanto o selo partido derretia com o calor.
– Bervely! – tia Narcissa chamou lá de baixo, sua voz amplificada com um feitiço sonorus para alcançá-la – Já terminou a lição? O jantar está na mesa!
Ela deu um pulo, saindo da biblioteca, a prova do crime sendo deixada para queimar e desaparecer lentamente dentro do fogo.
– BD –
1991, de volta ao hospital.
– Eu vejo uma travessura entre primos, apenas. Um pouco maldosa, sim, mas perfeitamente compreensível. Você não queria que ela fosse embora da mansão.
Fritz se servira de uma fatia de torta, agindo muito mais à vontade do que costumava, no consultório. Doze o assistia, ela mesma se abstendo de experimentar a sua receita, e agora encarando o comentário com resistência.
– Você não entende, não foi só uma travessura. Ela nunca foi para Hogwarts. Primeiro de setembro veio e foi embora, e Charlotte nunca embarcou.
Ele pareceu pensativo por um momento, ou talvez estivesse apenas saboreando a torta, que aparentemente não estava assim tão arruinada por dentro.
– Você comentou outras vezes que Charlotte Summers era um aborto. Se isso for verdade, não haveria sentindo em ir para Hogwarts, não é mesmo?
– Se ela fosse, não teria recebido a carta. – rebateu, quietamente.
– Não pode ter havido um erro? É difícil saber quando uma criança mágica é um aborto, é preciso que se passem anos antes de ser ter certeza de algo assim. É algo muito complicado de se confirmar por meios mágicos, afinal, como saber se a criança não tem magia, ou simplesmente não a manifestou ainda? Algumas são mais lentas que outras.
Ela respirou o ar quente e viciado da cozinha, enquanto o Dr. Fritz se servia de mais torta. Apesar de ser seu dia de folga, apesar do serão de vinte e quatro horas, ele não aparentava pressa.Estava apoiado num armário, uma perna cruzada sobre a outra, que usava como apoio, e o prato apoiado na palma de uma mão. Sem perceber, cada vez que colocava um pedaço na boca fechava os olhos, saboreando.
– Dr. Fritz? – A dúvida estava lhe matando. Uma resposta que ela nunca soube. – É possível convencer alguém de que é um aborto?
Ele refletiu, suas sobrancelhas grossas se aproximando.
– Eu suponho que sim. Bom, se a pessoa internaliza isso, realmente se convence… ela dificilmente teria uma emissão mágica, quanto mais fazer magia voluntariamente. E com o tempo… bom, estudos indicam que se um bruxo renega ou abstem-se de sua magia por muito tempo, ele pode perdê-la para sempre.
Era a resposta que ela temia, e um nó prontamente se formou na sua garganta, amarrando-a em culpa. Mais uma para a conta… talvez eles estivessem certos, em prendê-la ali dentro. Ela era perigosa, era cruel. Não podia ficar lá fora a solta, estragando vidas como Bellatrix fizera um dia. Que outras coisas horríveis fizera, e não estava se lembrando? Ainda havia uma parte de sua memória que era um branco completo, e sua cabeça doía quando tentava se recordar.
De repente, uma perspectiva aterrorizante lhe ocorreu, e Doze se voltou para o seu medibruxo, sua expressão de choque e medo. Ele captou seu novo estado de animo e lhe olhou com preocupação.
– Dr. Fritz… o que eu fiz? O que eu realmente fiz?
– Se acalme – ele deixou o prato de lado, se aproximando dela. Doze ficara subitamente pálida, sem razão aparente. – como assim o que você fez?
– Eu fiz algo terrível – ela arfou. – eu sei que fiz. Algo terrível para estar aqui, mas eu não me lembro. É por isso que meus tios me enviaram pra cá, não é? É por isso que você não me deixa sair? Me diga o que eu fiz, me diga… me diga!
Ele se apressou para acolhê-la, sabendo reconhecer um ataque de pânico quando via um. Ajudou-a a se agachar e abaixar a cabeça, e a respirar lentamente até recuperar a calma, o que demorou longos e torturantes minutos. Ele queria abraçá-la, tranquilizá-la, e dizer que tudo ia ficar bem, mas não lhe cabia fazer tais coisas.
Precisava lembrar que era seu médico, e no momento em que escorregasse desse papel, talvez todos os avanços com Doze fossem perdidos.
Não agora. Não quando tinham ido tão longe.
E estavam tão perto.
– Você está bem?
– S-Sim. – ela ofegou, agora sentada no chão, fitando o teto, seus olhos inundados. Estava tão afogada naquela aterradora certeza de que fizera uma atrocidade, e nada a dissuadiria do contrário.
– Eu preciso lhe mostrar algo, mas será difícil para você. Confia em mim?
Ela assentiu, fechando seus olhos. Não confiava em sua voz. Mas confiava nele.
– Muito bem, muito bem mesmo. Vamos levantar. Vamos até a minha sala…
Doze obedeceu ao comando, ficando de pé com a ajuda dele, mas protestando quando lembrou-se que era sua folga.
– Mas você precisa ir para casa. Trabalhou o dia todo…
– Não se preocupe comigo. Essa é a hora certa, e não vamos adiar nem mais um segundo. Vem comigo?
Ela assentiu, indo com ele para fora da proteção abafada da cozinha, de volta para o quarto andar. Para confiar no Dr. Fritz. Para ver alguma coisa.
Alguma coisa difícil para ela.
Por mais que odiasse admitir, estava morrendo de medo.
(Continua…)
Flashback bônus
1982.
Narcissa não gostava de interromper o marido quando ele estava revisando a construção de sua defesa para um processo da corte, mas ela precisou, e embora soubesse que o assunto que justificaria a interrupção o deixaria irritado, ela foi até o escritório dele mesmo assim.
Sem preâmbulos, pousou o envelope na mesa. Estava queimado em suas bordas, ainda quente, com o selo espalhado em uma poça sobre a aba frontal, e dispersou cinzas sobre o mogno e sobre os papeis de Lucius. Ele levantou a cabeça loira, dividido entre intrigado e impaciente.
– E isso seria…?
Com um aceno da varinha, ela virou a carta de costas, onde havia o nome do remetente.
– Carta de Hogwarts para Charlotte Summers. – anunciou, sem refrear o tom convencido. O prevenira de que aconteceria. O bruxo analisou a carta com desinteresse, fez um barulho de pouco caso e voltou aos papeis.
– Suponho que ela ter queimado a carta resolve a questão, não é?
– Ai está, ela não queimou. Não acho que ela sequer saiba que chegou para ela. – quando obteve de novo o interesse do marido, explicou – Bervely quem queimou, eu arranquei de Dobby a verdade há pouco. Ele disse que Bervely lhe perguntou sobre Hogwarts e o convenceu a interceptar e lhe entregar a carta quando chegasse. Só posso supor que ela me ouviu falar sobre a carta enquanto conversávamos, domingo passado.
– Bem ardilosa a sua sobrinha – ele comentou divertido – Depois você não quer que eu diga a quem ela puxou. Suponho que o elfo já esteja se auto-inflingindo as medidas cabíveis?
– Naturalmente – rolou os olhos – Mas Lucius, isso não resolve nada. Essa é só a primeira carta, mas chegarão outras quando eles não obtiverem uma resposta. Você sabe como funciona.
– Então responda, oras.
Ela encarou o marido, que dera a questão por encerrada e já tinha abaixado a cabeça de novo. Mas Narcissa não se moveu.
– Responder o quê, exatamente?
Ele pousou a pena, no limite da sua tolerância.
– Que ela não vai para droga de escola nenhuma, porque ela é um maldito aborto! Oh, Narcissa, tenha pena de mim, não vê que eu tenho coisas sérias pra resolver aqui?
Ela ignorou sua exaltação, pensando que ele só estava sendo cabeça dura.
– Dumbledore não cometeria esse erro, Lucius. Sabe muito bem disso.
Agora ele definitivamente levantara a cabeça, e muito zangado. Seus olhos azuis cintilavam perigosos.
– Aonde quer chegar com essa conversa? Quer mandar a empregadinha para Hogwarts? Quer que eu PAGUE pra ela estudar magia? Oh, Narcissa, por favor!
– Mas se ela tem o direito…
– EU digo se ela tem o direito, enquanto ela estiver sob o MEU teto, e eu digo que a menina não vai para lugar nenhum!
– Lucius!
– Você tem alguma ideia de como anda a minha situação com Dumbledore ultimamente, Narcissa? Ele está fazendo frente a mim no Conselho de forma declarada! Ele mal pode esperar por uma oportunidade de ter algo contra mim, e você quer que eu mande essa menina à Hogwarts, para debaixo da asa dele, quando ela esteve na minha casa, e na da sua irmã, e ela sabe coisas sobre nós que nas mãos de alguém esperto como aquele velho maldito pode nos levar à corte? Eu poderia muito bem entregar nossa coleção de artefatos de tortura no Ministério, junto com os livros de magia negra. Ora essa, eu poderia muito bem TOMAR VERITASSIUM E BATER UM PAPO COM O MINISTRO, DE UMA VEZ!
A mulher tinha os olhos arregalados com a explosão do marido, e ela nem se moveu do seu lugar enquanto Lucius se sentava, respirava fundo e se recompunha.
– Eu não confio nessa garota. Eu não a quero longe dos meus olhos. Ela não sai dessa casa sob hipótese nenhuma, a não ser que esteja sem memória ou sob Imperius. – disse lentamente, como quem explica a uma criança com retardo mental porque ela precisa amarrar seus cadarços – se eu digo que Charlotte Summers é um aborto, ela é um aborto. Responda. A maldita. Carta. Estamos entendidos?
– Sim, marido. – Narcissa sibilou, a boca seca.
– Ótimo. Obrigado. E não me faça perder tempo com questões ridículas como essa novamente.
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