Indigna Rosa Negra
3 A Mãe da Rosa
Notas iniciais
– O que foi, Peter? — Wendy perguntou (…) — Onde é que está doendo?
– Não é esse tipo de dor. — Peter respondeu, soturno.
– Que tipo é?
– Wendy, você está enganada sobre as mães.
(Peter Pan — James Barrie)
– Como tem dormido? — Dr. Fritz perguntou quando sua paciente entrou na sala de atendimento. Era sexta feira, e ele tinha sido avisado que Doze resistira em vir até a sala de atendimento naquele dia.
Ela certamente parecia relutante. Sentou e ficou olhando para um ponto atrás do ombro dele, os braços cruzados. Tinha bolsas de cansaço sob os olhos.
– Eu recebi um relatório da curandeira responsável pelo turno da noite. Entendo que houve um pequeno… tumulto em seus aposentos, ontem?
– Eu queria sair do quarto. — ela bufou — isso por acaso é um crime?
– Existe um toque de recolher no hospital. Nenhum paciente deve ficar nos corredores após as onze da noite. É para a sua segurança. Mas não, não é um crime. Só uma regra.
– Regras — soprou, irritada — vocês tem um monte de regras idiotas. E eu vi um cara comendo pergaminho, quando estava vindo para cá. Isso é alguma espécie de alas de loucos, por acaso?
– Alguns dos pacientes da ala tem disfunções psicológicas, sim.
– E eu? Estou louca também?
– Você se sente assim?
A paciente Doze arfou, um pouco ultrajada com a pergunta. Depois pareceu pensar melhor.
– Às vezes. Desde que eu acordei, eu apenas… — ela coçou os olhos nervosamente — você faz muitas perguntas.
– Por isso não queria vir me ver hoje?
– Não… não só por isso. E eu não consegui dormir, mesmo com a poção. Isso está certo? Eu não devia conseguir dormir?
– A poção não é para você sentir sono.
– Eu sei para que a poção é. — resmungou, torcendo os lábios — só que não confio nela.
O doutor Fritz assentiu. Fazia muito sentido, dado o histórico da paciente.
– Quer me falar sobre os seus sonhos?
Unhas na cadeira, novamente. Arranhando a madeira.
– Não. — murmurou.
– Sobre o que quer falar?
Ela lhe olhou, para seu rosto, pela primeira vez desde que tinha entrado. A sombra de um sorriso no rosto emagrecido.
– Você quem faz as perguntas, doutor. — zombou, só um pouquinho. — Não é agora que você me pergunta sobre a minha infância?
– Só se quiser falar sobre a sua infância.
– Ou então sobre a minha mãe — continuou, irônica — não é sempre tudo culpa da mãe?
– Ele sorriu. Havia energia ali. Muita, borbulhando atrás dos olhos. Gostava disso.
– Eu não sei, é? — provocou.
Doze parou da arranhar a cadeira. Ao invés disso, ela apertava os encostos de braço.
– Você saberia se a conhecesse.
– BD -
Dez anos atrás, 1980.
Narcissa entrou em sua sala de visitas, receosa sobre o que encontraria. Quando vira a irmã caçula pela última vez, ela tinha acabado de dar a luz e era uma adolescente confusa sobre o seu futuro, ou assim a mais velha pensara. Bella ter largado o bebê para trás não a surpreendera; mas sumir por tanto tempo e jogar ao alto todas as expectativas da família para o seu futuro, isso sim fora motivo de espanto.
E depois de todos aqueles anos, o que o tempo teria feito com sua irmã? O que o Lord negro causara a ela, tendo-a a isolado à seu serviço por quatro anos inteiros?
– Ai está você, Senhora Malfoy — disse Bella, num tom macio e zombeteiro, abaixando um capuz largo que caiu pelos seus ombros e revelou o cabelo preto e brilhante. Cissa ficou magnetizada por aquela figura por um momento, incapaz de falar.
Imaginara privações, desgaste, até mesmo maus tratos. Qualquer coisa que tivesse obrigado Bella a se privar do convívio com o resto do mundo deveria tê-la desgastado terrivelmente. Em lugar disso, a sua irmã mais nova brilhava, e não era mais uma garota. Era tudo sobre sua postura, principalmente. Ela se moveu como a dona do lugar, quando se sentou numa poltrona com as costas retas e fez um ruído de impaciência.
– Você não vai me oferecer uma bebida? Eu acabei de chegar de viagem, onde estão os modos impecáveis que nossa tia lhe enfiou goela abaixo por anos a fio?
Narcissa fez um sinal para o elfo servi-la, seus olhos estreitos a analisando.
– Você sumiu por quatro anos — acusou — E você aparece na minha casa sem um aviso e reclama de bebida? Por onde esteve? O que foi feito de você?
Bella saboreou o vinho de fada e meneou a cabeça, muito tranquila.
– Eu não tenho interesse nas suas recriminações, irmã, ou no seu rancor. Onde eu estive não era um assunto seu antes, e continua não sendo agora. Eu fiz questão de vir pessoalmente, no entanto, e você deve imaginar o porquê. Você ficou responsável por algo meu quando eu fui embora.
O peito de Narcissa se apertou em ansiedade.
– Se você está falando de Bervely…
– É lógico que eu estou falando da minha filha. — ela rolou seus olhos, com uma nota de impaciência — imagino que você tenha seguido a minha carta e a educado como uma Black deve ser?
– Eu ainda estou fazendo isso. — sua voz saiu mais defensiva do que pretendia.
– Ótimo. — Bella sorriu. O sorriso dela lhe deu arrepios, por detrás da taça de cristal. — Isso é ótimo, Narcissa. Felizmente seus esforços com a garota vão chegar ao fim. Eu estou de volta e já posso assumir sua educação a partir de agora, então queira fazer quaisquer que sejam os preparativos para a sua ida à Lancaster.
– Lancaster?
– É claro, querida. Onde acha que eu vou morar após o casamento?
– Casamento? — repetiu, sentindo seu sangue fugir todo do rosto. — Com quem…? — por um momento, teve o vislumbre do Lord Negro em vestes matrimonias esperando Bellatrix num altar. A mera imagem mental lhe deu um calafrio gelado.
Bella fez um gesto casual com a mão, pousando sua taça. — Que desatenção a minha, eu esqueci completamente…- ela cavou o bolso interno da sua capa e estendeu à Narcissa um envelope cor de cobre — aqui está, é o meu convite de casamento. Eu teria enviado por coruja, mas já que estava vindo aqui de qualquer jeito.
A loira partiu o selo e leu as palavras escritas no pergaminho, cada vez mais descrente da mensagem.
– Rodolphos Lestrange? Você o convenceu a se casar com você, depois de tudo?
– Oh, por favor, aquele homem faz qualquer coisa por mim. Espere, essas palavras não são suas? Não sei qual o motivo do espanto. Não eram esses os planos desde o começo?
A loira a olhou com assombro, não conhecia aquela mulher sentada a sua frente. Havia alguma coisa de perigosa, até mesmo sombria, nela, por detrás dos olhos. Entendeu porque seu coração estava batendo tão rápido entre as costelas, e porque suas mãos suavam. Não queria entregar Bervely àquela mulher estranha. Aquela mulher que passara os seus últimos anos à serviço do homem mais assustador do mundo mágico.
– Bella, você não tem que levar Bervely com você. — ela sentiu as palavras saindo de seus lábios antes que pudesse contê-las.
Bellatrix franziu ligeiramente.
– É claro que eu tenho.
– Não, veja… ela está bem aqui, comigo. Eu a tenho educado como uma boa sangue-puro. E que benefício faria a você levá-la, não é mesmo? Ela seria um entrave ao seu casamento, eu aposto que Rodolphos odiará a ideia de tê-la sob o teto dele, isso sequer seria apropriado…
Sabia que estava se excedendo, mas não podia evitar. A perspectiva de entregar Bervely estava se tornando facilmente em terror. Tudo que recebeu da irmã foi um olhar inclinado e divertido.
– Oh, pelo sangue de Slytherin. Não me diga que você se afeiçoou à criança.
– Essa não é a questão aqui. — insistiu, à beira de um desespero que estava contendo muito mal. — Pare para pensar um segundo. Ela tem quatro anos!
– Eu sei contar, Narcissa, obrigada.
– Mas você não saberá como cuidar dela! Já pensou nisso?
– Oh, por favor — a mulher finalmente perdia sua paciência. Ela pousou a taça vazia na mesa e se levantou — é uma criança, não um dragão. Eu terei elfos. Ela vai sobreviver.
Parecia estar dando a conversa por encerrada, pois se dirigia à porta. Cissa a acompanhou, pensando em um argumento bom o suficiente para dissuadir a irmã da ideia.
– Bella, você não é uma mãe!
A caçula Black se virou, já com a mão na maçaneta da porta. Era impossível ler seu olhar, mas ela assentiu lentamente.
– Tem razão, eu não sou.
– Você nunca quis ser uma. — lembrou-a. — Você odiou cada minuto da sua gravidez. Você tentou dar um fim nela três vezes. Como pode achar que vai amá-la como sua filha?
– Quem falou alguma coisa sobre amor? — havia um toque de surpresa em sua voz, como se achasse que os pensamentos de Narcissa estavam fora de propósito.
A porta da sala se abriu, quebrando o contato visual entre as duas. Lucius estava lá e deu uma olhada desinteressada para Bellatrix, se voltando para a esposa. Havia um gravidade pesarosa em seu rosto quando ele lhe estendeu um pergaminho.
– Cissa, eu sinto muito.
Ela aceitou a carta, se perguntando quantas notícias ruins precisaria aguentar aquele dia. Ficou cada vez mais pálida enquanto lia, e Lucius colocou uma mão em seu ombro, como forma de suporte.
– É um comunicado de óbito — murmurou para a irmã — Regulus… Como isso pode acontecer?
– Ah, é verdade. Uma lastima. — seu tom foi tão vazio de surpresa que provocou desconfiança em ambos os Malfoy.
– Você já sabia?
– Ouvi boatos. — ela analisou brevemente a manga de sua capa, desfazendo um vinco. — Sabe, ele não estava sendo competente como comensal. Essas coisas acontecem, os acidentes.
Narcissa olhou com horror para a irmã, pela segunda vez naquele dia.
– Bella, Regulus era só uma criança. Oh, meu deus, tia Walburga deve estar devastada… primeiro tio Orion e agora Regulus… isso é terrível. Terrível.
– Eu suponho. — a morena deu um suspiro entediado — Eu já estava de saída, acho que nos vemos no casamento?
– Você não vai para o enterro?
– Eu não recebi um convite, recebi? — ela sorriu, como se aquilo fosse remotamente engraçado — E se estamos conversadas sobre a criança, leve-a com você à cerimônia do casamento, ela partirá de lá conosco para sua nova casa. Até mais, irmã, cunhado.
Eles ficaram parados ali entre a porta da sala de visitas e o hall, assistindo Bellatrix ir embora como se fosse a rainha do mundo. Lucius balançou a cabeça, sem acreditar em tamanha arrogância.
– Eu disse a você para não se apegar à bastarda.
Narcissa abaixou a carta lentamente. Ela estava se sentindo gelada e meio morta por dentro, e não só por causa do falecimento do primo.
– Pare de chamar ela assim. Eles vão se casar… Bella e Rodolphos.
Lucius, como a maioria das pessoas que sabiam da existência de Bervely, acreditavam que Rodolphos fora o responsável em engravidar Bellatrix na escola. Narcissa não se preocupara em corrigir a informação.
– Eu nunca pensei que ia dizer isso — ele continuou, o tom pesado em divertido deboche — mas tenho pena do que essa garota vai passar com pais como estes. Felizmente não é da nossa conta, não mais. Vamos, querida, temos um velório para comparecer, os mortos não gostam de ficar esperando.
Ela se deixou arrastar pelo marido, sem conseguir decidir se doía mais perder o primo ou ter de abrir mão de Bervely, sua bruxinha emprestada… no fundo, torcera para que o dia de devolvê-la nunca chegasse.
– BD —
Bervely não entendia porque todos os adultos estavam circulando e cochichando em torno de uma caixa. Tudo que ela sabia sobre velórios era que eles aconteciam quando alguém da família morria, mas nunca tinha estado em um antes e decidira que era algo muito chato.
Ela gostava do Natal, e da páscoa, e do aniversário. Velórios, estes não tinham a menor graça.
Entediada, começou a circular pela sala da casinha onde eles estavam, que ficava num cemitério. O cemitério era muito interessante, mas não estava autorizada a explorá-lo. Ela andou e andou sentindo a saia pesada do vestido ondular pelos tornozelos. Era um bonito vestido preto com um laço de cetim nas costas.
Até tia Narcissa tinha vestido preto aquele dia, uma cor que ela raramente usava. Quando Bevy escalou em um dos bancos de mármore que circulavam a sala toda, e cruzou os braços, sua tia se sentou ao seu lado, olhando pensativamente para a caixa grande no meio da sala.
– Tia? Você está triste?
Narcissa piscou, espantando seus pensamentos.
– Sim, Bevy, eu estou. Regulus era um primo muito querido. Eu não o via há algum tempo, mas ainda assim… ele só tinha dezenove anos.
– Oh — a garotinha exclamou, se dando conta — ele está dentro da caixa?
– Sim, e não é uma caixa, é um caixão. É onde os bruxos colocam as pessoas, quando elas morrem. Depois elas são enterradas debaixo da terra.
– E depois disso, o que acontece? — Bervely estava mesmo surpresa com aquilo. Sabia o que era morrer, mas ir para a caixa parecia um pouco assustador. Não é a toa que todo mundo na sala também estava triste.
– Depois… depois você volta para o céu, se for um Black. Vai ocupar seu lugar entre as estrelas.
– Ah, sim — ela sorriu, aliviada. Aquilo soava bem melhor do que a caixa debaixo da terra. — Ele era um Black, não era? Eu posso vê-lo?
Cissa se virou para ela, incerta.
– Eu não acho que… oh, tudo bem. Se não for ficar com medo.
– Eu não vou, eu pometo.
Ela sorriu fracamente e colocou a sobrinha no colo, indo com ela até o caixão. Bevy se inclinou para o rapaz pálido, deitado em uma posição rígida, com seus olhos fechados. Um cabelo preto ondulado emoldurando o rosto, os lábios bem cerrados e cinzentos. Era a primeira pessoa morta que ela via, mas não estava com nem um pouquinho de medo. Achou que ele parecia tirar um cochilo e que ia acordar a qualquer momento.
– Ele era seu primo também, querida — ela disse para a menina que não podia tirar seus olhos do corpo de Regulus — e ele salvou sua vida mais de uma vez… — sorriu com as lembranças — acho que ele teria gostado de lhe conhecer.
– BD -
Era uma fria manhã de novembro aquela em que Bellatrix Black e Rodolphos Lestrange se casaram. A caçula Black andou até o altar, exuberante em um vestido bordô bordado em rubis, levada pelo braço por seu pai. A maioria da família Black — a parte que não fora queimada fora da árvore genealógica — compareceu e homenageou os noivos, bem como membros das outras famílias de sangue puro.
A Narcissa, fora um cerimônia carregada de hipocrisia, mas nem por isso menos bela. Para a última Black da geração, nenhum dinheiro foi poupado e o salão cintilava em cristal, prata, diamante, luxo, arabescos, elfos, uma centena de elfos à serviço dos convidados. Claramente Bella estava perdoada pelo seu sumiço e suas faltas do passado, talvez porque realizava a vontade longeva de Cygnus Black, de estreitar seus laços com a família Lestrange.
Ao final do dia, após todos os cumprimentos feitos aos recém-casados, os convidados começaram a se retirar, e Bella veio até a mesa onde Narcissa estava sentada bebericando um champanhe. A irmã estava altiva, sorridente, mas nada afastava de Cissa a sensação de que ela desempenhava um papel. Ela era boa atriz, mas não havia calor em seus olhos bem maquiados, só aquele perigo frio que Narcissa conhecera em sua casa semanas antes.
– Meus cumprimentos à Senhora Lestrange — Lucius, ao lado de Narcissa, ergueu sua própria taça para a cunhada. Ele também era bom em desempenhar papeis em público, era um dos melhores. Bella agradeceu, embora visualmente uma faísca foi trocada, antes de Lucius retomar sua conversa com Rabastan Lestrange e Milton Carrow.
– Foi um lindo casamento, Bella. Mamãe se superou dessa vez.
Ela deu levemente de ombros, o bordado do busto cintilando na iluminação baixa.
– É como ela expia suas culpas, afinal. Aparece uma vez a cada cinco anos e nos faz uma linda festa. Além do mais, precisava ser uma cerimonia grandiosa a fim de esfregar na cara da alta sociedade bruxa que a caçula “desviada” de Cygnus Black conseguiu laçar o melhor pretendente da geração. — zombou, lançado um olhar para Rodolphos do outro lado do salão, num círculo de homens, e cujo sorriso parecia genuíno.
– Eu estou feliz por você. — disse Cissa sinceramente.
– Alguém tem que estar, não é mesmo? — Bella sorriu. — Ah, o que me lembra. Você preparou a criança?
– É claro. — suspirou. Não gostava do modo como Bella se referia à Bervely, mas “criança” tinha de ser melhor do que “a coisa”, que era como chamara a sua filha durante a maior parte da gravidez. — Eu a trouxe, está na mesma das crianças, brincando com os gêmeos Flint.
Uma faísca de interesse brilhou nos olhos da bruxa, e ela procurou a mesa referida. Havia uma meia dúzia de crianças pequenas, mas não era difícil distinguir Bervely entre eles. Ela usava um vestido azul claro rodado e luvas brancas, e tinha os braços cruzados, enquanto assistia criticamente os gêmeos fazerem uma pilha com os copos de prata.
– Eu conversei com ela sobre a mudança para Lancaster. Ela aceitou bem.
– Certo. — a bruxa assentiu, ainda fitando Bervely por detrás dos cílios pesados. Narcissa daria um punhado de suas jóias para saber o que se passava na cabeça da irmã naquele momento.
– Ela se parece com você nessa idade, um pouco. Fisicamente. Mas a personalidade…
– Não me diga — a irmã a cortou com um esgar de humor amargo.
– É, mas é uma boa menina. Uma ótima… — Cissa soltou o ar, irritada porque tinha voltado a tremer um pouco — Bella, você pode mudar de ideia sobre levá-la. Eu vou cuidar bem dela, não é grande coisa. Pelo menos até ela estar mais velha, crianças podem ser complicadas, e eu tenho certeza que você terá muito a fazer em Lancaster, administrar uma casa é uma responsabilidade imensa.
– Você não confia em mim. — a mulher observou, um ar divertido. — Eu não posso culpá-la. Mas Bervely não é só uma criança, ela é também uma promessa. Eu tenho que levá-la.
– O que isso quer dizer? — a afirmação não fazia sentido para Narcissa, mas não podia significar algo bom, vindo da sua irmã.
– Um dia você vai saber. Talvez através dela mesma. — e saiu, deixando no ar o suspense e uma sensação ruim na boca do estômago da primogênita.
– BD -
– Você irá me visitar, titia?
– Sempre que eu puder, meu anjo.
Narcissa a estava embarcando na carruagem que levaria a sobrinha para a Mansão Lestrange. Queria que Bervely parasse de fazer perguntas, porque estava difícil manter a voz impassível ao vê-la tão confiante quando qualquer criança no seu lugar optaria pelo medo. Bervely não ia chorar; como Bellatrix na sua idade, ela raramente o fazia.
– Obedeça a sua mãe, e a Rodolphos.
– Está bem.
– Cuide das suas coisas, das suas roupas, não ande sozinha pela propriedade.
– Está bem.
Narcissa abaixou mais o tom de voz.
– Eu estou enviando Tamby com você, temporariamente. Se alguma coisa urgente acontecer e você precisar falar comigo, ele saberá como.
– Certo. – ela assentiu.
– Você vai ficar bem? – perguntou por fim, soando mais fraca e insegura do que deveria.
– Eu vou ficar bem, titia.
– Muito bem, então – Narcissa voltou à posição normal, estivera agachada – Faça uma boa viagem, tente dormir, se sentir frio vista o seu casaco. – Lucius, ao seu lado, rolou os olhos com impaciência. – Tenho certeza de que tudo correrá bem.
A menininha assentiu, os olhos escuros em firme contraste com o rostinho branco. O elfo que a acompanharia entrou na carruagem e ela em seguida, toda destemida e séria com a mala ao lado.
– Fique de olho nela, Tamby. – ordenou pra o elfo.
– Tamby vai cuidar, Sra. Malfoy.
Fora um sacrifício convencer Lucius a abrir mão de um dos elfos da Mansão, e ainda mais difícil convencer Bellatrix de que ele era necessário, mas Narcissa lutara por aquilo, pois assim ficaria mais tranquila de que Bervely seria minimamente assistida. Os cavalos alçaram voo e a caleche se perdeu na escuridão da noite. Narcissa virou-se para o marido com uma expressão dolorida no rosto.
– Ela é tão pequena!
– Ela vai crescer, endurecida e arrogante como o fazem todos em sua família, não se preocupe. – ele a tranquilizou, embora não estivesse fazendo grandes esforços para ocultar o próprio alívio.
– Eu tenho medo de que ela cresça para se tornar alguém como Bellatrix. — confessou a loira.
– Eu suponho que esse seja o bom cenário. Se ela crescer muito diferente disso, ai sim seria um desastre, não acha?
Narcissa sabia que seu marido tinha certa razão, pois se Bervely batesse de frente com Bellatrix, talvez sua convivência se tornasse problemática. Quisera não estar tão preocupada, e sabia que errara ao se apegar demais. “Blacks não eram feitos para amar”, era uma falácia repetida ocasionalmente em sua casa.
Quis que fosse mentira. Quis que Bellatrix pudesse, para o bem da sua sobrinha.
–BD-
– Esse será o seu quarto. Os elfos vão organizar suas coisas nos armários, junto as outras que eu providenciei para você. Lancaster tende a ser mais frio no inverno do que Wiltshare. Ali fica o seu banheiro, imagino que o seu elfo vá se responsabilizar por sua higiene pessoal enquanto estiver aqui.
Bevy, que tinha entrado timidamente no quarto que lhe fora designado, olhava ao redor com fascinação. Havia muito mais cor ali do que no antigo quarto da Mansão Malfoy, e ao invés das matizes creme e douradas às quais se acostumara, ela via bordô e mogno nos móveis, nas portas duplas, no papel de parede rebuscado. Não parecia com um quarto de criança, a cama tinha quase a sua altura, e ela poderia facilmente entrar na enorme lareira.
Ela reparou que a bruxa parara de falar, e se virou, curiosa.
– O que é higiene pessoal, senhora?
– Seus… banhos. — Bella franziu.
– Oh. Eu já sou grande. Sei tomar banho sozinha.
– Se você diz — deu de ombros, com certa descrença. Ela não conseguia se lembrar do que podia ou não fazer aos quatro. Nem de ter sido tão pequena nessa idade. — Você sabe o que são regras?
Bevy assentiu, começando a recitar, ao mesmo tempo que escalava para a sua nova cama usando sua mala de mão como um degrau.
– Não se atrasar para o jantar. Não dar roupas para os elfos. Não mexer na varinha de ninguém. Não colocar insetos no aparador de tio Lucius, mesmo que sejam joaninhas e elas estejam com frio.
– Certo, nada de insetos em móveis, e as demais são boas também. Mas eu tenho outras, preste atenção nelas. Nada de vagar pela casa e entrar nos cômodos em que não tem permissão, e fique fora do caminho de Rodolphos enquanto ele estiver em casa. Quando tivermos visita, você deve permanecer em seu quarto. Entendeu?
Ela assentiu. Era boa com regras, e queria muito seguir as de Bellatrix, para que a bruxa não se aborrecesse com ela. Era a primeira vez que tinha uma mãe, e não queria arranjar problemas.
– O que eu posso fazer? — ela perguntou de supetão. Recebeu um olhar surpreso da adulta, que não estava esperando a pergunta.
– Você pode… eu não sei, brincar com suas bonecas?
– Não gosto de bonecas. — anunciou, ofendida. Tinha a opinião muito forte de que bonecas eram bobas.
– Certo. E do que você brinca?
– Eu gosto de animais. Você tem um cão? — a última palavra se emendou em um bocejo. Fora uma longa viagem afinal, depois de um longo dia. Não era sempre que uma garotinha mudava de casa e de mãe, e estava aguentando tudo com bravura, mas já era tarde.
– Não, eu não gosto de cães. Talvez você devesse repensar a coisa das bonecas.
Mas a menina fechara seus olhos, a respiração calma indicava que ela tinha caído no sono.
– BD -
A mansão Lestrange em Lancaster se chamava Blackburn Hall, estava completando os seus quatrocentos anos de existência e acolhia o inverno em sua estrutura como um antigo amante. Não importava quantas lareiras acesas e feitiços de aquecimento lançados pelos dois elfos domésticos, os cômodos da casa eram sempre gelados. O frio se infiltrava através do assoalho e esfriava os tapetes e o carpete, e havia uma infinidade de correntes de ar sorrateiras ao longo dos corredores.
Na altura de dezembro, a única coisa que diferenciava estar dentro das paredes de Blackburn Hall ou fora era o vento frio que soprava no alto da colina ao ar livre, capaz de congelar a pele após poucos minutos de exposição.
Mas o pior para Bervely não era o frio, mas o tédio. Usara o primeiro mês para explorar a casa — Tamby em seus calcanhares — mas, os cômodos em que tinha permissão de entrar não eram tantos assim — só a sala de visitas, a sala de inverno, o hall, a biblioteca (quando ninguém a estava usando) e o seu próprio quarto. Às vezes ela ia até a cozinha, só para ver o que os elfos estavam fazendo, mas logo se tornava chato. Eles não lhe davam guloseimas para beliscar como os da Mansão Malfoy faziam.
Na falta de animais de verdade para brincar, ela tirava alguns de sua imaginação. Estes eram bons, porque lhe obedeciam e também porque podiam mudar de forma. Uma hora era um gato gordo subindo na lareira, mas podia logo se tornar um rato e investigar um buraquinho, se ela assim decidisse.
Um dia daqueles longos e frios, Bellatrix ficou em casa ao invés de sair bem cedo em sua capa de viagem. Bevy ficou surpresa quando o elfo lhe disse que a mãe estava requisitando sua presença do lado de fora, e achou logo que tinha se metido em problemas. Será que quebrara alguma regra?
Atravessou o jardim cheio de neve com o elfo em seus calcanhares, e nervosa porque achava que ia ficar de castigo, além de tremendo por causa do frio. Porque Bellatrix estava zangada com ela. Oh, aquilo seria muito ruim, se sua nova mãe estivesse zangada.
Percebeu que estavam parados em frente a um muro antigo, coberto de hera e de neve fresca. Com um leve toque do elfo, o muro se abriu revelando uma larga clareira e em seu centro uma longa estufa de paredes de vidro embaçadas, e Bellatrix a esperava à porta.
– Não toque em nada lá dentro, Bervely. – recomendou, indicando que entrasse.
A porta se abriu quando Bellatrix deu um toque na maçaneta, revelando um cheiro adocicado, um bafo quente, úmido e agradável que imediatamente a abraçou. Ali dentro era mais espaçoso do que parecia visto de fora, era estreito e longo como um corredor, e o teto era alto em forma triangular. De um lado e de outro duas bancadas intermináveis repletas de vasos e caqueiros com plantas diversas, diferentes das que ela conhecia. A garotinha olhava para um lado e para o outro enquanto Bellatrix, à frente, seguia reto até o fim do caminho.
O fim da estufa tinha a forma esférica onde as bancadas se encontravam. Sobres elas, vasos de cristal cintilante, todos abrigando roseiras floridas. Eram diferentes entre si, cores e tamanhos, assim como não estavam plantadas em terra como as outras plantas; suas raízes boiavam em um líquido turvo.
Bevy olhava tudo encantada. Bellatrix sentou num banco e indicou outro para a menina, que respirava em arquejos o ar pesado da estufa.
– Esse lugar é um segredo. — Bellatrix advertiu a criança, lhe dando um olhar sério — você não deve contar a ninguém que esteve aqui.
– É tão bonito, senhora. — disse Bevy sem fôlego.
– Então, gosta de rosas? — indicou as flores que dominavam o espaço.
Bevy balançou a cabeça. Bellatrix ficou em silêncio e ela completou:
– Sim, senhora.
– Bom. — observou a menina por um tempo, atentamente, e ela mexeu-se desconfortável no banco, se perguntando novamente se a bruxa estava zangada com ela. — O que Narcissa lhe falou sobre ser uma Black?
– Que nós somos uma família muito importante.
– Por que…? — a encorajou.
– Por que os Black são bruxos puros. Que não se misturaram com os trouxas. Que não traíram a magia.
Tinha decorado mais do que entendido aquilo tudo. Sempre parecera importante para tia Narcissa que ela soubesse aquelas coisas, mas Bevy não fazia a mínima ideia do que era ‘trair a magia’.
– Isso é alguma coisa — Bella pareceu ligeiramente mais feliz com a resposta — ela lhe disse que você é uma bruxa especial?
– Sim — seus olhos se acenderam, daquilo ela entendia melhor — a flor mais bonita para a minha boca e os botões mais redondos para os meus olhos e uma estrela cheia de luz para pensamentos brilhantes! — recitou com satisfação.
Bella franziu o cenho para ela.
– Ok… mas ela disse algo sobre pureza de sangue? Ou só foi baboseira de contos de bardo e metáforas com material de alfaiataria?
A pequena lhe olhou confusa, sem entender as palavras complicadas. Bellatrix suspirou.
– Ok, Bervely. Esqueça flores, botões e estrelas, é o sangue que importa. Quanto mais mágico ele for, mais puro um bruxo é. E quanto mais puro, mais poderoso. Você entende? O seu sangue é assim… muito, muito puro. O que lhe fará uma bruxa muito, muito poderosa.
– Eu já sou poderosa — ela contou, se lembrando do verão anterior — uma vez eu cai no lago e consegui boiar até a outra margem sem me afogar. E no outro dia eu não queria cortar o cabelo para o Natal, e todas as tesouras da mansão viraram espátulas.
– Fascinante. Mas, eu me refiro a mais poder do que isso. Aqui, me dê sua mão. Segure essa rosa. — ela lhe estendeu uma das flores brancas que acabara de colher — aperte firme.
– Mas tem espinhos. — a garotinha murmurou, sentindo as pontas espetarem sua mão.
– Isso mesmo. Aperte firme. — Bella envolveu a mão pequena com a sua e fechou seus dedos com força. Os espinhos entraram na carne macia da criança e ela segurou um lamento de dor, os olhos se enchendo de lágrimas.
O que aconteceu a seguir a distraiu da dor — as pétalas da flor, antes esbranquiçadas, ganharam um forte tom vermelho escuro e em seguida, um negro brilhante, a cor mais bonita que já vira em uma flor, e uma textura de seda macia. Ela ficou impressionada por seu sangue ter provocado a mudança, e soltou uma exclamação de surpresa.
– Vê? — Bellatrix parecia satisfeita com o resultado, e com um aceno de varinha, fechou os cortes na mão da filha – Só um sangue puro e mágico como o seu poderia provocar tal transformação.
Bevy assentiu maravilhada. Ela entendia agora. Aquilo era grande, era importante. Ela era importante.
– Todo grande bruxo deve ter um grande mestre. Amanhã nós vamos conhecer alguém que vai lhe ensinar a ser a melhor bruxa que você poderia ser.
– Quem, senhora? — perguntou curiosa. Desde que chegara em Blackburn Hall não conhecera ninguém novo a não ser os elfos, que nem contavam como pessoas de verdade.
– Você vai chamá-lo de mestre, como os outros fazem, mas deve saber seu nome. — ela abaixou o tom para um murmúrio solene — ele se chama Lord Voldemort.
(Continua…)
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