Indigna Rosa Negra

39 A Longa Noite da Rosa


Notas iniciais
Maldição do 24 vencida!! Obrigadíssima a todos que ajudaram à combatê-la!!! Att extra prometida é att extra cumprida!! Boa leitura, Indignad@s!


Eu esperava nunca mais ter que pisar meus pés nesse lugar.


Era a primeira frase que Bervely falava desde que tinham chegado ao hospital St. Mungus, e Oliver levantou o rosto, surpreso.

– Quando foi que você esteve aqui?

Ela empalideceu, dando-se conta de que pensara em voz alta.

– Wood, você não tinha que ter vindo até aqui, sabe. – desviou o assunto.

Ele a fitou por um período de silêncio. Quando Bervely ia entender?

– Eu me importo com Johanne também. – disse por fim. Mas Bervely mal pareceu ouví-lo, ela tinha um ar vago e agitado e seus olhos se perdiam em direção ao corredor, suas mãos tamborilando nervosamente no encosto de braços da cadeira. – Ela vai ficar bem. – ele acrescentou, com toda a segurança que não sentia, procurando a mão dela, mas a garota a tirou rapidamente do seu alcance.

– Preciso achar Andrômeda. – levantou-se num rompante. Já estavam na sala de espera do hospital há dez minutos, e nada da sua tia aparecer com notícias. Até onde sabia, aquela demora podia significar que Loren estava morta.


Seu interior estava frio. As paredes do seu equilíbrio estavam rachando. Quantas pessoas mais ao seu redor ainda morreriam? De quanto mais ela precisava abrir mão? Será que depois de Hector, não aprendera nada? Não podia continuar se importando se sempre terminava da mesma maneira.

– Bervely, espera, eu vou com você! – ele se levantou da cadeira de madeira, estendendo a mão para alcançá-la.

– Me deixa em paz, Wood! – sua voz saiu mais alto do que esperava. Havia um zunido em sua cabeça. Parte dela tentava ser racional, e se distanciar da situação usando uma lógica fria.


E daí se Johanne Loren morresse? Não é como se ela significasse alguma coisa em sua vida. O que ia mudar? Absolutamente nada. Sua rotina continuaria a mesma, e não havia qualquer plano de um futuro em comum, Johanne era apenas…

Apenas a sua irmã de sangue. Apenas a filha que Sirius Black amara.

O racional tornava-se nebuloso, e seus pulmões ardiam sem ar. O que estava acontecendo com ela?

“Eu só pensei que seria apropriado fazermos um programa de irmã durante as férias.”


Eu só estou tentando ajudar, sabe. – Oliver a alcançou, soando um pouco magoado.

– Eu não acho que você pode.

Bevy se apoiou na parede, sentindo o corredor do hospital rodar. Sua vontade de deixar aquele lugar, onde passara seis meses da sua vida internada enquanto tinha a mente aprisionada e torturada, era pungente, mas ela disse a si mesma que precisava ficar.


E saber.

Bervely! – uma voz familiar chamou, e ela ergueu a cabeça para avistar o Dr. Fritz vindo em sua direção. Por um momento de confusão, seu corpo reagiu ao fato de que estava com a sua aparência original, e não a de Charlotte, até ela lembrar a si mesma que estava tudo bem, ali não era Azkaban, não tinha que se disfarçar. – Bervely, você está bem?

Ela piscou com força, tentando colocar o mundo em foco.

– Não realmente. – murmurou, a voz arranhada.

– Que bom que consegui te encontrar, já estava deixando o meu turno, mas sua tia me pediu para falar com você se te encontrasse. Venha comigo, você está pálida.

– Onde está levando ela? – Oliver exigiu saber. O doutor Fritz o analisou rapidamente, e depois lançou à Bervely um olhar de questionamento.

– Esse é Wood. Ele é um amigo.

– Você pode vir, nesse caso. Vou levá-los para o meu escritório, onde podemos conversar com mais tranquilidade.

Conversar, ele dissera. Se ele queria tirá-la do meio das pessoas, se precisavam de privacidade, era porque tinha as piores notícias. Se Johanne estivesse bem, ele poderia lhe dizer logo de uma vez ao invés de ficar fazendo rodeios.


Se sentou na mesma cadeira com braços largos de madeira que ocupara várias vezes, há dois anos, tentando se lembrar de quem era. Não gostava da sensação de familiaridade daquela sala. Oliver pousou uma mão em seu ombro, e ela sentiu um impulso imediato de tirá-la dali. Por que de repente estava ultra-consciente de que Wood era uma das pessoas que estavam perto demais.

– Apenas diga. – mandou, assistindo Fritz sentar-se calmamente. Como ele podia estar calmo? O bruxo lhe servia um copo com água, que empurrou em sua direção.

– Beba um pouco, Bervely. Tente respirar.

– Apenas diga de uma vez que ela está morta.

Ao seu lado, Oliver se contraiu levemente. Fritz desistiu de lhe oferecer água e suspirou.

– A Srta. Loren está viva.

Ela esperou qualquer onda de alívio, mas não aconteceu. Seu coração continuava espancando seu peito.

– Ela sofreu alguma espécie de acidente na floresta ao lado da vila onde mora, e foi trazida para o hospital com muitas lacerações e hemorragia. Estava consciente, mas precisamos dopá-la, devido à extensão dos ferimentos. Ela solicitou a sua presença antes de ser sedada.

As palavras faziam só metade do sentido. Como assim, acidente? Ferimentos…

– Ela solicitou…? – seu cérebro se apegou às últimas palavras.

– Sim, segundo os curandeiros, quando lhe perguntaram quem era o seu responsável para que pudéssemos chamar, ela disse que queria ver a sua “irmã Bervely Black”. Quando Andrômeda fez a checagem da varinha dela e descobriu sua identidade, deduziu que era de você que falava.

Bervely nunca chegara a dizer à Andrômeda que conhecera Johanne em Hogwarts, mas pensou que a tia poderia ter entendido essa parte facilmente. Agora sua cabeça começava a doer, e ela tinha a sensação de que estava se esquecendo de alguma coisa importante.


– Ela está fora de perigo? – ouviu Oliver perguntar, e uma hesitação preceder a resposta do medibruxo.

– Ela está estável. Seus ferimentos foram extensos, e a perda de sangue muito maior do que podemos repor com poções, então, estamos aguardando uma evolução do quadro.


A palavra “floresta” não parava de rondar a cabeça de Bervely.

– Que tipo de acidente ela sofreu? – exigiu, procurando ler a expressão de Fritz de novo. Era pesarosa.

– Não posso dar detalhes, sinto muito. Tecnicamente, você não é da família, pelo menos não nos registros oficiais…

– MAS ELA É MINHA IRMÃ! – rugiu. Estava farta de pessoas lhe dizendo que não era da família, primeiro sobre Sirius em Azkaban, e agora sobre Johanne…


O Dr. Fritz deixou transparecer surpresa com o imperativo da afirmação.

– Bervely, eu realmente sinto muito… Já falei mais do que devia, porque reconheço a peculiaridade da situação, mas mesmo nesse caso há fronteiras legais que não podem ser ultrapassadas. Se quiser, pode aguardar na sala de espera até que a avó dela chegue, e então se a Sra. Loren quiser lhe passar as informações que receber da equipe…

– Ela odeia a avó!

Fritz estranhou a informação.

– Estou certo de que isso não é verdade.

– Do que você sabe, Fritz? Eu quero falar com Andrômeda agora mesmo! Ela vai me dizer o que aconteceu com Loren!

A sensação de déjà vu foi inevitável, e o silêncio pesou na sala por um momento.

– Ela está cuidando para que a sua irmã sobreviva, Bervely. – disse ele gentil, mas conclusivo – Há mais alguma coisa que eu possa fazer por vocês?

Mais alguma coisa? – disse com sarcasmo – Não, você já fez o bastante, obrigada.

Levantou e saiu da sala tão logo quanto pôde, e com um suspiro Oliver a seguiu, mas ela não foi muito longe. Desabou numa das poltronas da sala de convivência do quarto andar, aquela em que os pacientes eram permitidos a circular, mas que estava vazia no momento. Enterrou a cabeça nas mãos. Ele puxou um puff e se sentou ao seu lado.

– Anne é uma garotinha muito persistente – disse, tentando soar animador – Se há qualquer chance de superar isso, não posso pensar em ninguém com mais força de vontade.

– Bem, e se não houver uma chance?

– Ela não vai morrer, Bervely. Ela só tem doze anos.

– Crianças também morrem, Wood.

Uma pontada no fundo de sua cabeça ainda insistia, havia alguma coisa que estava deixando passar…

– Merda! – exclamou, tão de repente que o garoto ao seu lado teve um sobressalto. – A carta!

– Que carta?

– Ela me mandou uma carta há uma semana.

– O que dizia?

– Eu não abri. – confessou, mortificada. – Com… todas as coisas que aconteceram na semana, eu esqueci completamente!

– Tudo bem, não devia ser nada demais, só ela querendo marcar aquele encontro de vocês duas.

– Pare de ser tão condescendente! – Bervely reclamou, perdendo a paciência. – Loren está entre a vida e a morte, e eu não pude nem abrir a maldita carta!

Ele ficou em silencio, o que foi pior, porque ela sentia o sentimento de culpa já familiar inflando como um balão de gás venenoso em seu interior.

– Podemos ir buscar a carta, se quiser. – ele ofereceu em voz baixa. Mas ela se viu negando veementemente.

– Não, eu vou ficar. Até ela acordar, ou…

– Ela vai acordar, Rose.


– BD –


Bervely quis voltar para a sala de espera principal do hospital, decidida a estar presente quando a Sra. Loren chegasse. Parte por curiosidade – queria conhecer a mãe de Olivia Loren, a mulher que roubara Sirius de Bellatrix. E, talvez conseguisse mais informações sobre a condição de Johanne se ficasse por perto.

Andrômeda não apareceu nas três horas seguintes, o que só aumentou a sua aflição. Sabia que a tia já não estava mais no cargo de Chefe do Departamento, que fora um posto temporário, e seu trabalho voltara a ser de medibruxa comum. Era ela a responsável por manter Loren respirando, tentar repor seu sangue? Estaria tão ocupada nessa tarefa que não podia deixá-la um segundo?

Os pensamentos faziam sua garganta arder. Oliver lhe trouxe o sexto copo de chá da noite, e sentou ao seu lado quietamente. Enfim parara de tentar puxar conversa, ao perceber que Bervely não iria emplacar nenhuma amenidade.

– Acha que é aquela ali? – ele cochichou, quando uma senhora saiu da lareira e se dirigiu ao balcão de informações, apertando um chalé azul em torno de seu corpo magro.


A analisou, achando que ela não se parecia com alguém cuja neta estava entre a vida e a morte numa maca. E por que a demora em vir ao hospital?

– Vou tentar ouvir alguma coisa. – ele pulou da cadeira, indo até o balcão.


Bervely o observou enquanto ele fingia que olhava umas brochuras sobre caldeirões envenenados, tentando entreouvir a conversa. Ocorreu-lhe vagamente o quanto eles dois deviam parecer estranhos ali, naquelas roupas trouxas arrumadas, mas felizmente a maioria dos outros bruxos na espera estavam por demais envolvidos em seus próprios dramas para notá-los.

A mulher se dirigiu para o corredor que levava às escadas, e Oliver voltou à cadeira ao seu lado.

– Confirmado. Ela foi falar com a equipe.

– Ela parece indiferente. – comentou, estreitando seus olhos para onde a mulher sumira.

– Talvez esteja em choque.

– Talvez tenha provocado o acidente.

– Rose! – ele se horrorizou.

– O quê? – ergueu a sobrancelha, bebendo o fim do seu chá – Ela parece com alguém que faria a neta se perder na floresta para lhe dar uma lição.

– Que coisa horrível pra se dizer, ela é avó de Anne!

Bervely deu um sorriso jocoso.

– Você claramente foi sorteado com um bom kit de parentes, Wood, mas não é como funciona para todas as pessoas.


A madrugada se arrastou. O peso da jornada longa que Bervely tivera até ali – do momento que acordara para ir à Azkaban, passando por um dia inteiro de exposição aos dementadores e depois o encontro com Oliver – cobrou o seu preço, e ela sentiu os olhos se fecharem e o corpo pesar uma tonelada. Tentou lutar contra a exaustão, mas eventualmente perdeu.

Oliver esperou ela dormir para lhe acomodar melhor em seu ombro, sabendo que talvez reclamasse ao perceber, mas não se importando. Ficou acordado, para o caso da tia de Bervely aparecer.

Quando já amanhecia, um homem chegou pela lareira. O som das chamas despertou Bervely, que aprumou o corpo e esfregou o rosto.

– Andrômeda apareceu? – perguntou, atazanada.

– Não.

Ela observou o homem, que usava umas roupas rotas e parecia que tinha acabado de escapar de um ataque de lobos. Havia um grande e recente corte em seu maxilar, do queixo até o pescoço, e outros menores pelas partes aparentes do seu corpo. Suas olheiras eram crônicas.

– Remus Lupin – ele disse para a recepcionista, negando quando ela perguntou qual a origem dos seus ferimentos – Não vim como paciente, estou aqui para saber sobre alguém.

Ela se atentou ao reconhecer o nome; não identificara o velho amigo de Sirius Black, seu aspecto estava muito pior do que quando o conhecera em Londres, no apartamento de Olivia Loren. Ele parecia terrivelmente doente.

– Johanne Loren deu entrada no hospital essa noite. Eu sou o padrinho…

Oliver também estava prestando atenção, e lançou um olhar intrigado para Bervely, mas ela já tinha se levantado. Quando Lupin se virou, a primeira pessoa com quem deu de cara foi ela.

– Você. – ele a reconheceu de imediato – O que está fazendo aqui?


– Johanne requisitou minha presença. – disse desafiadoramente. Mas tudo que aconteceu na expressão de Lupin foi alivio.

– Então ela esta consciente?

– Não mais.

– Eu não entendo. – ele deu um suspiro pesaroso, sentando-se numa cadeira próxima. Ela percebeu que ele mal estava se aguentando em pé. – Pensei que ela estivesse segura em St. Sensille.

Bervely nada disse, o observando com ressalvas. Não tinha sua opinião completamente formada sobre ele, mas sabia que Lupin não gostava dela por ser filha de quem era.

– Você a viu? – ele voltou a perguntar, como se fosse esperado que mantivessem um diálogo. Como quando você tem um parente em comum que está em um hospital, e mesmo que vocês não se vejam sempre, isso não importa porque o que está em questão é a pessoa que tem em comum, e com a qual se importam.

Ela percebeu com certo choque que era exatamente o que estava acontecendo.

– Não. Eles dizem que ela sofreu um acidente na floresta, teve hemorragia e foi sedada.

– Na floresta? – repetiu ele, alarmado. Bervely assentiu. – Mas por que raios ela iria para a floresta? Ela tem de saber o quanto é perigoso!

O tom a inquietou.


– O que tem na floresta?

Mas Lupin não lhe respondeu, na verdade levantou-se com inesperado ímpeto para quem parecia tão frágil, e foi andando na direção do corredor. Bervely percebeu quem ele avistara; Andrômeda. Ela se levantou também, mas nesse meio tempo Lupin já chegara na medibruxa e exigia respostas.

– Andrômeda! Me diga que não é o que eu estou pensando!

– Remus! – a bruxa se espantou com a abordagem brusca, seus olhos castanho escuros se arregalando momentaneamente – Se acalme…

– O que a atacou na floresta, Andrômeda? Por favor apenas me diga que não foi…

– Não foi um lobisomem. – ela disse num tom mais baixo, e alivio varreu o rosto do homem imediatamente. – Mas isso não significa que a gravidade é menor. Ah, Bervely! Fritz falou com você mais cedo? Eu sinto muito que não pude vir antes!

Bervely ficou satisfeita ao ver que a tia deixou Lupin para ir até onde estava, e quase não ligou quando seus braços a envolveram num aperto firme.

– Ah, Oliver, não é? – estendeu a mão para o garoto, em seguida. – Obrigada por fazê-la companhia nesse tempo!

– Eu não poderia ter feito diferente, Sra. Tonks.

– Vocês dois podem rasgar essa seda depois – ela bufou, impaciente. – Como Loren está? Que conversa é essa de lobisomem? E que raio de floresta é essa?

Só depois de despejar suas perguntas reparou como Andrômeda parecia exausta. Estava sendo uma noite difícil para todos eles.

– Me acompanhem, você e o Remus, e Oliver, se quiser… prefiro falar com todos de uma vez, acabei de ter essa mesma conversa com a avó de Loren, e não posso ficar muito tempo aqui com vocês, infelizmente.

Ela os levou à um conjunto de poltronas ainda na sala de espera, perto de uma janela e meio oculta por uma pilastra, e esperou até estarem acomodados.

– Desculpe o pedido Remus, mas eu oficialmente preciso da sua autorização para passar essas informações à Bervely e Oliver. Se importa?

– Claro, Andrômeda, vá em frente. – ele fez um aceno ansioso com a mão. Bervely reparou sangue seco sob as unhas sujas.

– Tudo bem… aliás, me desculpe pela minha mensagem brusca, eu não tinha qualquer detalhe sobre a situação dela para lhe passar naquele momento, temo tê-lo assustado.


– Sem problemas… eu vim tão logo… acordei. – completou, mas Bervely achou que essa não era a palavra que pretendera usar – Quando a sua mensagem chegou, eu não estava em condições, você sabe, de lê-la.

– Sim, é claro. – ela assentiu, parecendo entender o que para Bervely não fazia qualquer sentido. – Como eu disse na carta, e também para você pela lareira, Bervely, Johanne Loren chegou aqui em um estado grave, e mal conseguia falar. Precisamos sedá-la por causa das dores e da extensão dos ferimentos. A nossa hipótese é que foi atacada por algum animal dentro da floresta… não um lobisomem, já fiz exames, mas algum igualmente letal.

– Como o quê? O que tem nessa floresta? – Bervely exigiu saber.

– Há lendas – Andrômeda explicou – De que a Floresta Branca ao lado de St. Sensille é amaldiçoada. Nunca se provou nada, mas alguns eventos aconteceram ao longo da história para reforçar a teoria, alguns relativamente recentes… – aqui ela trocou um olhar significativo com Remus, que abaixou a cabeça.

– Por exemplo?

– Por exemplo a tortura dos Longbotton – disse a medibruxa com seriedade – e o desaparecimento de Olivia Loren, mãe de Johanne.

– Céus, Andrômeda, será que ela…?

– Não vamos pular para conclusões precipitadas – Andie se adiantou às suspeitas de Remus – Pode ter sido apenas um acidente. O importante é que Johanne está estável, conseguimos repor grande parte do sangue perdido e estancar os ferimentos, e ela será retirada da sedação.

– Eu quero vê-la. – Bervely anunciou de imediato. A tia assentiu, como se já esperasse o pedido.

– A prioridade é da avó, mas assim que ela sair, vocês poderão entrar para vê-la.

– Eu prefiro não entrar. – Remus recuou. – Acho que não seria uma boa ideia… na minha condição. Além do mais… penso que a Sra. Loren não vai aprovar a minha presença aqui.

Bervely achou uma decisão sábia, mas Andrômeda discordou.

– Você é o padrinho dela, Remus. Se Johanne quiser que entre, eu acho que você deve. Além do mais, devo avisá-lo, não fará qualquer diferença a sua “condição”, ela não poderá realmente vê-lo.

– Por que diz isso?

– Um dos danos que ela sofreu em razão do ataque foi em seus olhos. Estamos trabalhando para recuperá-los, mas ela não vai poder enxergar por algum tempo.

Ele exalou lentamente, pesar em seu rosto cortado, mas Bervely não se conformou tão fácil.

– O quê a atacou na floresta, afinal de contas, se não foi um lobisomem?

– Não sabemos, querida. A equipe está desconfiando de algum pássaro selvagem, a julgar pelo formato das lacerações. Mas a esperança é que a própria Johanne possa nos dizer quando acordar.

– BD –


Oliver estava cochilando numa poltrona, o pescoço pendendo num ângulo estranho. Apesar de toda a bravura e frieza grifinória que demonstrara ao longo da noite, acabara por sucumbir ao cansaço como um mero ser humano.

Mas Bervely estava ansiosa e cheia de perguntas, e não conseguia parar de ir e vir pelo corredor do primeiro andar, seus saltos fazendo barulho no chão de taco. Parecia impensável que há algumas horas estivera num cinema trouxa com Wood vendo dinossauros, e ainda mais improvável que passara o dia analisando prisioneiros em Azkaban com Fritz antes disso.


Repassava esses aspectos do seu dia quando alguém esbarrou em seu ombro pouco gentilmente.

– Olha por onde anda, menina! – uma voz austera lhe reclamou. Bervely reconheceu a velha que chegara mais cedo, a Sra. Loren. Tinha olhos azuis claros irritados, e tomou o caminho da saída antes que ela respondesse, resmungando.


Ela estava apenas deixando Johanne no hospital?

– Bevy, querida – chamou Andrômeda do outro extremo do corredor. – Ela está acordada e quer ver você.

Seu coração se apertou, envolvido de ansiedade e nova onda de culpa. Se tivesse aberto a carta quando a recebera…

– Por que a Sra. Loren acabou de ir embora? Ela chegou não tem nem uma hora. – perguntou para Andie quando esta a acompanhava até o quarto.

– Johanne se recusou a vê-la. Parece que elas tiveram algum desentendimento antes do acidente, então eu lhe aconselhei a voltar mais tarde, quando os ânimos estiverem menos exaltados. Aqui, enfermaria 14. Eu receio que Remus ainda está lá dentro.


Ela entrou na enfermaria coletiva da ala de Ferimentos Induzidos por Criaturas, seu nariz sendo agredido por um cheiro pungente de ditamno. Desde sua estadia em St. Mungus há dois anos ela adquirira um horror de enfermarias compartilhadas, mas esta estava quieta – os pacientes dormiam, as cortinas ao redor de suas camas, fechadas. A única aberta era aquela em torno da cama de Johanne, e ao lado do leito havia uma cadeira de metal onde Remus Lupin estava sentado.

Pouco se via da garota, por outro lado. A parte inferior do seu corpo estava coberta por um lençol, e a superior, por ataduras bem amarradas em torno de seu torso e braço esquerdo. O braço direito, aparentemente ileso, fora perfurado com cânulas por onde entravam as poções direto em seu sistema sanguíneo, inclusive a de reposição de sangue. Em sua cabeça, uma atadura fora enrolada, e cobria seus olhos completamente, deixando visível apenas o nariz pequeno e a boca.


O cabelo dela ainda estava grudado com resquícios de sangue, apesar da óbvia tentativa da equipe de limpá-los. Ela virou a cabeça na direção da entrada e tentou mover o braço bom.

– Monitora Black?

Bervely sentiu uma pontada de alívio misturado com angustia ao ouvir a voz fraquinha.

– Tente não se mover muito, Anne. – Remus recomendou. Bevy lhe deu um olhar feio antes de andar até a cama. Por que ele não lhes tinha dado alguma privacidade, afinal? Ia ficar ali plantado o dia todo?

– Monitora Black, você diz agora? Para os curandeiros, acho que o que falou foi outra coisa.

A menina sorriu timidamente.

– Eles não iam entender se eu falasse monitora.

Ela estava tão vulnerável, e tão pequena. Bervely não fazia ideia de como agir ao seu redor… não era do tipo carinhosa ou confortadora, não era nada do que a garota precisava naquele momento… além do mais, a vigilância insistente de Lupin estava lhe dando nos nervos.

– Você está… você está com dor?

– Ah, não, agora não. Eles me deram tanta poção da Seça¹ que me fiquei até meio dormente.

– Acho que dormente é melhor do que dolorida.

Johanne sorriu fracamente, assentindo. Um silêncio se estabeleceu entre elas, enquanto Bervely não sabia o que dizer, e a menina respirava cuidadosamente, como se fôlego profundos fossem incômodos.

– Monitora Black, será que eu posso… – ela mordeu seu lábio inferior, incerta por um momento. – Eu gostaria de perguntar uma coisa.

Bervely olhou de relance para Lupin, que ainda as observava de forma atenta. Ela suspirou, e voltou os olhos para a menina.

– Claro. Mas antes precisa parar de me chamar de Monitora Black, sabe muito bem que eu perdi a monitoria.

– E o que eu vou te chamar?

– Que tal usar meu nome?


Ela assentiu, surpresa, e depois incerta.

– Posso usar o apelido, então? Como Oliver te chama?

Ela rolou os olhos.

– Mas você é mesmo uma coisinha abusada, não é?

Johanne riu, dessa vez mais sonoramente. Mas o momento passou e ela ficou seria de novo. Mesmo Bervely que não era a mais sensitiva das pessoas sabia que algo estava incomodando terrivelmente a garota.

– Então… – começou, querendo lhe dar uma deixa de encorajamento – Quer me contar como foi parar numa floresta e quase virou uma torta fatiada de carne?

Remus estreitou os olhos para o comentário, mas este não pareceu ofender Anne especialmente. Ela mais uma vez mordeu seus lábios.

– Tem a ver com o que eu quero te perguntar.

– Vá em frente.

– Bem, tudo começou na semana passada, quando eu briguei com a minha avó. Ela viu aquela carta que eu escrevi para você em cima da minha escrivaninha, e descobriu que eu tinha te conhecido.

Bervely ocultou a culpa do seu rosto. A carta novamente. A que ela não lera.

– Ela não ficou nada satisfeita por estarmos nos falando, e me proibiu de enviar. Disse que eu devia ficar longe de você, que podia ser perigosa. Mas se recusou em me explicar o porquê, e eu mandei a carta escondido de qualquer jeito, porque não acho que você seja perigosa.

Bervely sorriu. Pessoas menos ingênuas do que Johanne já tinham feito aquele julgamento errôneo antes.

– Então a sua resposta nunca chegou, e eu pensei que ela tinha interceptado a minha coruja. – admitiu com aborrecimento. – E fui fazê-la confessar. Quando ela descobriu que que eu tinha desobedecido, ficou furiosa…


Seus ombros se encolheram levemente, talvez ao se lembrar da reação da avó. Bervely olhou de soslaio para Remus e percebeu, pela sua expressão, que ele já ouvira aquela história.

– Ela fez algo com você, algo para te machucar? Por isso não quis ver ela hoje? – foi direto ao ponto. Johanne se encolheu ainda mais, apertando os lábios.

– Não… mas ela me disse coisas. Coisas horríveis… que eu achei que eram mentira.


Um peso no peito avisou à Bervely o que a Sra. Loren poderia ter dito à sua neta; sabia o rumo para o qual a conversa estava indo. O momento chegaria, hora ou outra. Aparentemente a hora era aquela.

– O que ela disse? – encorajou, precisando colocar neutralidade na voz. Sentia o olhar de Lupin perfurando seu crânio naquele exato momento.

– Que… que você é filha de Bellatrix. A mulher… que fez a minha mãe desaparecer. E que enlouqueceu os pais de Neville. E ela disse que eu não devia acreditar em nenhuma palavra que você dissesse, porque você seria como ela. Traiçoeira e… c-cruel. Como todo mundo na família Black.


Bervely sentiu a raiva direcionada à Srta. Loren queimar dentro de si. Quem era aquela mulher, aquela bruxazinha infeliz, para definir assim a sua família? Aquela mulher horrorosa. A sensação era parecida com como se sentira quando a Sra. Longbotton invadira a Ala Janus Thickey para lhe dizer que não a queria perto do seu filho, mas agora Bervely se sentia muito mais propensa e queimar, do que ser queimada. Apertava tanto os seus dentes que não conseguiu separá-los para dar uma resposta à Johanne.

– Rose? É verdade? – a voz da menina tremeu – Você é filha daquela mulher?

– Sim. – exalou. – Sim, eu sou.


Era difícil entender que reação Loren estava tendo, sem ter acesso aos seus tão expressivos olhos. E ela demorou um longo tempo para falar de novo, cada segundo de seu silencio uma agulhada no peito de Bervely.

– Por que não me disse antes? – perguntou por fim, num tom magoado.

– Eu não achei relevante na ocasião. – informou, dando um olhar rápido para Remus. Agora ele tinha as sobrancelhas muito franzidas para o desenrolar da conversa.

– Você não achou que importava que eu não tenho uma mãe por causa da sua mãe? – repetiu a menina, perturbada.

Bervely não disse qualquer coisa. O que ela poderia? Gostaria apenas de não estar tendo aquela conversa no dia em que Johanne passara por dor suficiente por toda a sua vida.

– Anne, ainda não está claro por que entrou na Floresta Branca depois que brigou com a sua avó, quer nos explicar essa parte? – Remus interrompeu, ao que Bervely se sentiu, na verdade, muito grata.

– Eu achei que a minha avó estava errada, então eu pensei, se eu pudesse descobrir o que aconteceu de verdade com a minha mãe…

– Mas isso foi há onze anos, como você poderia?

Ela deu de ombros cuidadosamente.

– Eu… achei que se chegasse até o lugar certo, conseguiria ver alguma coisa.

A informação pareceu tanto ser suficiente para Remus como confirmar as suas piores suspeitas. Bervely, no entanto, sentia que estava perdendo algo ali.

– Como assim ver alguma coisa? Uma pista?

– Não… – Johanne pareceu envergonhada novamente. – Há essa coisa que eu consigo fazer… às vezes… eu consigo ver coisas… que aconteceram há muito tempo.

– Como, exatamente?

– Johanne tem uma propensão para a vidência natural… do tipo que nasceu com ela, como um dom mágico. – Remus explicou didaticamente.

– Não é um dom! – a menina reclamou, fazendo uma careta. – É assustador… e horrível.

– Mas mesmo assim você quis ir para a floresta usá-lo? – Bervely rebateu. Não acreditava muito em vidência, em Durmstrang, adivinhação sempre fora tratado como uma espécie de piada. A maioria dos bruxos que se diziam adivinhos apenas se confiavam em informações muito vagas para fazer previsões ainda mais incertas usando coisas como borra de chá e bolas de vidro.

– Por que era importante! Eu precisava saber o que aconteceu de verdade!

– E o que descobriu, então?

– Eu não sei! – sua voz desafinou-se, chorosa. – Eu não me lembro!

– Ela não se lembra qualquer coisa sobre o que aconteceu na floresta, ou como foi atacada. – Remus ajudou, já que Johanne parecia prestes a cair no choro. Bervely via como ela tentava se controlar arduamente, mas ainda assim transparecia o quanto estava assustada com tudo.


Quis deixá-la em paz, afinal esquecer não era nem de longe o pior dos desfechos. O que ela daria para esquecer novamente o corpo de Hector estendido no chão, seus olhos abertos, e seus lábios azulados? Lutara para se lembrar por tanto tempo, sofrendo quando sua mente não podia lhe revelar a verdade… e agora, se pudesse voltar atrás, talvez esqueceria perder essas memórias uma vez mais.

– Você não precisa se lembrar. – disse-lhe seguramente, estendendo uma mão para tocá-la, mas a recolhendo antes que pudesse.

– Eu não sei se quero. – ela soluçou, respirando rápido agora. – Mas eu não s-sei… eu não sei o que me atacou!

– Você vai ficar bem, Anne, e isso é tudo o que importa. – Lupin lhe disse, numa voz tranquilizadora. – Eu acho que o melhor que pode fazer é descansar agora. Se já disse tudo o que precisava para a Srta. Black, então nós dois podemos nos retirar e lhe deixar dormir…

– Não! – ela gritou, paralisando a ambos. – Não, por favor, eu não quero ficar aqui sozinha.

O pedido partiu o coração de Bervely em dois pedaços. Pela expressão surpresa de Remus, ele também não esperava por isso.


– Eu… eu posso ficar, apenas durante o dia. – disse, incerto.

Johanne virou a sua cabeça na direção de Bervely, lhe pegando de surpresa com a pergunta seguinte.

– E você, Rose… pode vir quando for de noite?

Ela trocou um olhar completamente espantado com Remus Lupin. Em sua cabeça, ao fim daquela conversa Johanne Loren não ia querer vê-la novamente, jamais em sua vida, não a filha da algoz de sua mãe.

– Tem certeza que quer que eu volte?

– Tudo bem se você não quiser, eu apenas… eu pensei… – ela emudeceu um pouquinho. – Deixa pra lá, eu entendo.

– Eu virei. – ouviu-se dizendo. – Quando Lupin for embora, eu estarei aqui, ok?

Ela lhe abriu um sorriso aliviado.

– Obrigada.

– Anne, eu tenho certeza que a sua avó vai querer passar a noite com você, ela saiu daqui bastante preocupada. – Lupin comentou. Ele estava visivelmente reticente com a combinação envolvendo Bervely, e não fez esforço para esconder isso.

Mas o jeito com que a menina se retesou, deixou bem clara a sua opinião sobre o assunto.

– Ela pensa que a minha irmã é ruim. Eu não quero ver ela de novo.

– BD –

Apesar da insistência de Remus para que a afilhada descansasse, ela insistiu em falar com Oliver quando ficou sabendo que ele estava do lado de fora. Para evitar o excesso de visitantes na enfermaria o bruxo mais velho deu seu lugar ao mais novo, mas não antes de fazer a menina prometer que iria ficar só alguns minutos a mais com os seus visitantes e depois descansaria.

Bervely assistiu o quanto Wood agia muito mais naturalmente em torno do leito de Johanne do que ela. Ele era um otimista nato, fazendo comentários engraçados e não perguntando qualquer coisa sobre o acidente ou que pudesse aborrecê-la.

– Então vocês estavam juntos antes de virem aqui pro hospital? – Johanne sondou, com um sorrisinho interessado, à certa altura da visita.

– Nós estávamos num encontro. – Oliver revelou antes que Bervely pudesse sequer lhe alcançar com seu olhar perigoso. O sorriso dele cortava seu rosto de uma ponta à outra, e fazia par com o tom satisfeito.

– Finalmente! – a menina vibrou. – O que fizeram?

– Levei Rose para o cinema. – ele revelou, ignorando por completo a cara feia de Bervely. – Fomos ver um filme de dinossauros.

– Ah, legal! Meu avô me levou uma vez para o cinema dos trouxas! É tão mágico, como eles conseguem?

– Minhas exatas palavras. – Oliver lançou um olhar cheio de si para Bervely, que rolou os olhos.

– O que são dinossauros?

– Animais muito grandes e perigosos que viveram na Terra antes dos humanos. Talvez Rose possa lhe contar mais sobre eles, ela está praticamente uma expert agora.

Mas Johanne não lhe perguntou sobre dinossauros.

– Você gostou do encontro, Rose?

Oliver também virou sua cabeça, interessado na resposta. Ela mudou o peso de um pé para o outro, desconfortável.

– Não foi uma perda total de tempo, como eu já disse pra Wood mais cedo.

Johanne abriu um amplo sorriso na direção do garoto.

– Ela gostou. – disse cheia de certeza. – Convide-a para outro.

– Eu ainda posso ouvir vocês, sabe? – exasperou-se Bervely. Aparentemente nem um acidente quase fatal era capaz de diminuir a ousadia de Johanne Loren.

– Nesse caso, trate de aceitar quando ele chamar de novo.

– Eu acho que esta visita já foi longa o bastante – anunciou, aprumando-se – E você precisa repor o resto do sangue que perdeu, para ver se toma mais um pouco de vergonha nessa cara.

A menina riu de novo. O som de sua risada parecia uma musiquinha.

Quando eles estavam saindo, ela chamou seu nome e fez um esforço para estender o seu braço saudável.

– Eu acho que ela quer um abraço. – Oliver sussurrou ao seu lado.

Após um momento de hesitação, Bervely andou até a cama e se inclinou para ela, perto o bastante para que Johanne tocasse seu ombro.

– Você vai voltar de noite?

– Eu disse que vou, não disse?

Ela assentiu, ensaiando um sorriso relutante.

– Eu não acredito no que a minha avó diz sobre você. Você não é má.

Fitou por um momento a garota, sentindo por não poder ver seus olhos, mas sabendo exatamente que tipo de olhar ela estaria lhe dando naquele momento; aquele esperançoso de filhote de cachorro. Falou baixo, para que só a menina pudesse ouvir, enquanto cobria a mão dela, pousada em seu ombro, com a sua própria.

– Eu realmente espero corresponder à essa expectativa, Johanne.

– BD –


– Não entra em minha cabeça como alguém pode deixar uma criança ir sozinha para uma floresta, ainda mais uma tão perigosa como essa parece. – Oliver ainda resmungava enquanto eles deixavam o primeiro andar em direção ao térreo. – Quero dizer, acidentes acontecem, mas não lhe parece estranho que a avó dela não a viu saindo de casa no meio da noite?

– Muitas coisas estão estranhas nessa história. – Bervely concordou, pensativa. Eles tinham virado a esquina de um corredor, mas então ela avistou Remus Lupin e ele parecia estar tendo uma conversa tensa com uma mulher loira. Ela empurrou Wood de volta para a esquina e tentou ouvir o que conversavam, ao mesmo tempo que fazia um gesto para que ele não dissesse nada.

– … e infelizmente, eu não posso ficar, Remus. – dizia a mulher, cuja voz possuía um sotaque estranho, levemente francês.

– Bom, e quando foi que você pôde ficar, Sophia? – ele retrucou com clara irritação. – Nem quando a sua afilhada estava correndo risco de vida…

– Eu estive lá quando ela foi atacada, se não fosse por mim ela estaria morta agora!

– E se não fosse pela sua ausência nos últimos onze anos, talvez ela nem tivesse entrado naquela floresta para começo de conversa!

– Oh, não isso de novo, eu já expliquei um milhão de vezes…

– E eu não quero ouvir mais nenhuma! O que está fazendo aqui, afinal? Se não vai entrar para vê-la? Não acha que ela está se perguntando onde você foi depois que a largou no hospital sangrando e morrendo?

– Não. Ela não se lembra que eu estava lá.

– E todo o resto que ela não se lembra, isso é coisa sua também?

Houve uma pausa tensa, onde só se ouvia a respiração deles, alterada. Já deviam estar tendo aquela discussão há algum tempo.


– É melhor do jeito que está, acredite. E eu só voltei aqui para lhe pedir para entregar isso à ela.

Bervely se inclinou enfiando a cabeça no corredor, em tempo de ver o que estava sendo entregue; uma corrente dourada com um pingente em forma de gota, sem dúvida um artefato mágico pelo brilho característico ao seu entorno.

– O que te faz pensar que eu entregaria isso à ela mais uma vez? E onde está a antiga, por sinal? – o bruxo retrucou.

– Ela retirou a antiga quando entrou na floresta, e a quebrou. Foi como eu soube que estava em apuros, aliás.

– Não acha que há uma razão para ela ter querido retirar?

– Sim, há uma razão, e olhe onde isso a levou! Remus, apenas entregue a Orbe para Anne, ela ficará mais segura desse jeito.

Bervely pode ouvir o seu suspiro resignado mesmo à distância.

– E o que eu digo para ela, que a sua madrinha mais uma vez foi embora sem lhe dar uma satisfação?

– Ela entenderá.

– Você superestima a capacidade das pessoas entenderem as suas ausências, Sophia. O fato de não importar para você, não dá às pessoas automaticamente o mesmo sangue frio e insensibilidade.

– Isso é sobre Johanne, ou é de você que estamos falando?

Outro silencio gelado.

– Eu falo de uma experiência própria sim, uma que eu certamente não desejo para Johanne.

– Ela ficará bem. Você no entanto, parece péssimo. Não devia se esforçar tanto nessa época do mês.

– Não se ocupe com isso, eu posso dar conta da minha própria saúde, obrigado.

– Nesse caso, adeus, Remus. Certifique-se de que ela usa a Orbe. Eu entrarei em contato em breve, para saber como foi a recuperação dela.

Ele fez um ruído de incredulidade ácida.

– Daqui à mais uns três anos, então?

Os passos indicaram que a mulher chamada Sophia estava indo embora. Quando Remus dobrou o corredor, mais uma vez ele deu de cara com Bervely, e ela tinha os braços cruzados, deliberadamente em seu caminho.

– Uma amante de épocas antigas, Lupin?

Ele tinha um aspecto irritado, o que era uma surpresa, pois mesmo quando a pegara invadindo o apartamento de Olivia, mantivera sua calma por todo o tempo.

– Vejo que herdou dos seus pais o péssimo hábito de ouvir conversas escondida. – disse com azedume.

– Esse talvez não seja o pior dos hábitos herdados. Então, quem é essa mulher e porque ela está saindo de fininho e dando ordens sobre o que é melhor para Loren?

Ele considerou não responder qualquer coisa. Mas se conhecia bem aquele olhar, sabia que uma das heranças que Sirius deixara para a garota era a teimosia. Ela não lhe deixaria em paz até falar a sua história, e Remus se sentia cansado demais para lutar.

– Sophia é a madrinha de Anne. Foi quem a trouxe da floresta até o hospital essa noite, mas ela… raramente fica. Aparece em intervalos de anos, e vai embora muito antes do que deveria.

– E o que é isso que ela lhe entregou, que Johanne tem que usar?

– É um artefato mágico que ajuda a manter sob controle essas percepções anormais que Anne tem, as quais ela comentou com você mais cedo. Aparentemente, a que ela usava antes se quebrou na floresta.

– Mas você acha que Johanne a tirou de propósito?

– Ela teria feito isso, se queria ver algo do que aconteceu com a mãe no passado.

– E como isso a deixaria em perigo? – inquiriu, desconfiada.

Ele deu ombros, esfregando o seu rosto com a mão. Um de seus cortes recentes se abriu e começou a sangrar, mas Lupin não pareceu sentir.

– Às vezes essas percepções podem ser muito intensas… da última vez que estava sem a Orbe, Johanne viu o avô falecer, mesmo ele estando em outro país, à milhas e milhas de distância. Foi um episódio muito doloroso, e ela era bem mais nova do que agora. Pareceu fazer sentido que ela usasse o objeto em tempo integral para que desfrutasse de uma vida normal.

Bervely considerou as palavras, sem saber exatamente o que pensar a respeito.

– Você realmente vem à noite? – o bruxo perguntou por fim, mudando o assunto. – Como eu disse, não posso ficar, mas não se sinta obrigada, posso arranjar outra pessoa para cobrir o turno.

– Eu virei, Lupin. – retrucou, sentindo-se desafiada com a insistência dele. – É a mim que Johanne quer aqui.

Ele assentiu.

– Vocês parecem ter desenvolvido uma conexão especial nesses últimos meses. Ela confia em você… e ela não confia muito rapidamente nas pessoas em geral.

– Nem você, eu percebo.

– Eu apenas tenho experiências o bastante, Srta. Black. Mas estou disposto a lhe dar o benefício da dúvida, nesse caso.

– É suposto que eu seja grata por isso?


– Apenas esteja aqui antes do sol se pôr. – ele pediu, em nada combativo como ela se mostrava. – Se é tudo… tenha um bom dia.

– Uau, isso foi um pouco tenso. – Oliver comentou com um assobio, quando Lupin saiu em direção à enfermaria de Johanne, mancando. – Que acha que aconteceu com ele, para estar assim todo ferrado?

– Não sei… mas reparou como ninguém, nem Andrômeda, nem a tal da Sophia, pareceram surpresas? Há algo de estranho em Remus Lupin. Eu não consigo afastar a sensação de que ele esconde alguma coisa.

– Acha que ele é perigoso?

– Não. – ela mordeu seus lábios, pensativamente. – Não para alguém a não ser si mesmo, eu penso.

Bervely tentou achar Andrômeda no hospital antes de ir embora, mas ela não estava em lugar nenhum, e o relógio na recepção informava que eram sete horas da manhã. Ela se sentia tão exausta que estava meio entorpecida, além de atrasada.

– Posso te acompanhar até em casa. – Oliver ofereceu, quando eles se aproximaram da lareira de visitantes. – Não quer que eu te aparate para St. Catchpole? Você deve estar exausta para encarar mais uma viagem de flú.

– Eu não vou pra casa. – disse automaticamente. Ele franziu, e Bervely percebeu que a exaustão estava afetando a sua capacidade de filtrar as informações. – Eu preciso ir pro trabalho.

– Desde quando você tem um trabalho?

– É só uma coisa de férias.

– Mas hoje é sábado!

– Sim… os horários um pouco irregulares.

– Tenho certeza que você pode faltar hoje, explique para eles que passou a noite no hospital, que a sua irmã sofreu um acidente!

– Eu não posso faltar… – ela suspirou. Na verdade quase daria uma parte do seu corpo para não ir para Azkaban naquele momento. Daria todas as partes do corpo de Charlotte, se pudesse.

– Rose, qual é. Tenho uma proposta ainda melhor, porque não volta lá pra casa? Minha mãe vai fazer um super café da manhã pra gente, e depois você pode descansar em minha cama o quanto quiser… juro que te deixo em paz. Ou então posso te fazer uma massagem, eu faço uma ótima massagem. – para demonstrar, ele colocou as mãos em seus ombros e começou a apertá-los. Ela sentiu que poderia desmontar bem ali ao pé da lareira, do tanto que estava cansada.

A proposta era tão absurdamente tentadora que por um momento se entregou ao delírio de seguí-lo, e mandar o resto para o inferno. Se Bervely tivesse qualquer ideia do que aquele dia ainda lhe reservava, teria ficado feliz em aceitar… mas lembrou a si mesma que enquanto a vida de Oliver era tão simples quanto resolver um drama com um café feito pela sua mãe e uma massagem, ela era Bervely Black, e sua vida era feita de acidentes fatais ou quase, dementadores e se disfarçar dentro do corpo da pessoa que mais odiava.

– Eu realmente preciso ir, Oliver. – murmurou a despeito de si mesma, decidida. – E eu agradeceria que você parasse com isso que está fazendo, antes que eu esqueça porque não posso voltar com você.

Ele obedeceu, mas foi apenas para escorregar as mãos pelos seus braços, encaixar os dedos nos espaços entre os seus, e puxá-la contra seu corpo. Ela não resistiu, ao invés disso deixou a cabeça tombar no ombro dele. Mesmo após tudo, ele ainda cheirava a roupa lavada e algum perfume masculino de madeira.

– Eu já te disse que você é a garota mais forte e incrível que eu conheço? – perguntou em seu ouvido.

– Não.

– Você é.

– Ok. – concordou, apesar de na verdade se sentir fraca e perdida.

– Eu sinto muito que o nosso encontro terminou desse jeito. Era pra ser perfeito.

– Só você poderia colocar numa mesma linha de raciocínio dinossauros, cachorro quente e perfeição. – ela retrucou, levemente revoltada.

– Viu? Eu surpreendo.

Bervely riu. O que foi outra surpresa: não sabia que apesar de tudo, ainda conseguia produzir uma risada. Ele pareceu aprovar a sua reação, porque envolveu os braços mais ao seu redor, sem soltar as suas mãos. Era um tipo engraçado de abraço onde os braços dela estavam levemente torcidos para as suas costas, mas surpreendentemente confortável.

– Tem certeza que não quer que eu te aparate para o seu trabalho?

– Do jeito que você está cansado, estruncharia as nossas cabeças fora.

Ele riu, seu peito se sacudindo em contato com o dela.

– Está certo, pensando melhor acho que também vou pra casa via flú. Promete que vai ficar bem?

– E eu não fico, sempre?

Ele fez um riso incrédulo pelo nariz, e beijou o topo da sua cabeça. Ela sentiu um aperto firme no ponto bem abaixo de sua garganta, uma espécie de urgência agoniada e morna, que não sabia o que era.

Estava tudo tão estranho, pensou, assistindo ele ir embora. Depois sacudiu a cabeça, cogitando onde conseguiria uma poção energizante aquela hora. Afinal, um turno inteiro em Azkaban estava vindo pela frente.

– BD –


Bervely se lembrou à meio caminho do porto que não poderia aparecer em Azkaban com seu vestido trouxa e salto altos, então precisou voltar para o chalé e se vestir apropriadamente. Acabou precisando pegar o segundo barco do dia, o que lhe rendeu um bom atraso, e quando enfim chegou à prisão, se arrastou até a enfermaria onde requisitou poção energizante.


Quando enfim encontrou o Dr. Fritz na sala de arquivos, ele lhe analisou atentamente de cima a baixo, de tal maneira que ela ficou preocupada de haver qualquer coisa errada com o seu disfarce. A metamorfomagia podia falhar quando o corpo estava exausto.

– Você se sente bem, Srta. Summers?

– Sim, senhor. Me desculpe o atraso, eu perdi o primeiro barco.

– Tudo bem. Isso me deu tempo para organizar a programação das avaliações da próxima semana, e separar os internos de hoje. Eu pensei, já que cobrimos o seu treinamento específico ao longo dessa semana, você não gostaria de tentar fazer uma avaliação sozinha hoje?

Não, porque eu me sinto tão cansada que provavelmente dormirei em cima do primeiro prisioneiro que eu precisar avaliar.

– Claro.


O doutor Fritz informou o código do primeiro interno da lista para o Quarter que já os esperava na porta, e Bervely observou com crescente alarme enquanto eles se encaminhavam cada vez mais para o interior da fortaleza. Tudo que precisava, realmente, era que estivessem indo para a ala de segurança máxima. Com a maior concentração de dementadores possível, prontos para afetá-la através do estado vulnerável em que se encontrava, e arrancar suas piores lembranças para a borda da sua mente, a impedindo de fazer o trabalho corretamente e arruinando o seu disfarce…

Suas suspeitas se confirmaram quando atravessaram um dos corredores que levavam ao último e mais central anel da fortaleza. O seu coração disparou com mais força, e ela começou a se sentir gelada. Um pensamento louco sobrevoou sua cabeça… e se fosse Black, o prisioneiro que estavam indo ver? É claro, entre centenas de possibilidades, qual era a probabilidade de acontecer? Mas conhecendo a sua sorte… ou azar… não sabia bem como definir o que um encontro com Black naquele exato momento significaria.

Seu nervos estavam se esticando até o extremo enquanto atravessavam o pátio redondo de pedras da segurança máxima. Ela nunca estivera naquela parte, que só era acessível para o pessoal interno de Azkaban. Tratava-se de uma espécie de poço circular muito alto, e o pátio onde estavam era o fundo do poço. As celas dos prisioneiros ficavam distribuídas ao longo das paredes, e entre elas haviam escadarias que se ramificavam como veias negras. Era um lugar escuro, esmagador e com cheiro ocre de dementadores que ardia a garganta.

Havia uma torre de vigilância que se erguia no centro do pátio, e uma escada em espiral levava até o seu topo. Lá em cima, numa espécie de câmara vazada, os dementadores se acumulavam, entrando e saindo e sobrevoando como urubus entre as celas. Aquela câmara não tinha teto, mas era tão alta que a luz mal entrava, mesmo porque a parcela mais pesada e escura das nuvens se localizavam bem ali em cima da abertura.

Enquanto o guarda procurava exatamente onde a cela se encontrava aquele dia (elas mudavam de lugar de tempos em tempos), Fritz chegou ao seu lado.

– Tenho a ficha aqui, mas acho que devemos seguir com o protocolo e deixar para olhar ao final, quando terminar a sua avaliação, o que acha?

Ela assentiu. Uma das premissas do protocolo de avaliação era que não tivesse conhecimento das informações pessoais do interno até após examiná-lo. Isso no intento de impedir um julgamento preconcebido que pudesse interferir na imparcialidade do exame. Para ela não fazia diferença… não lhe importava a identidade de quem avaliaria, a não ser que fosse Black.

E se fosse ele, ela saberia.


– Cela 93 – o Quarter anunciou enfim. – Oitavo quadrante, linha seis. Podem me acompanhar.

Eles subiram uma escadaria e mais outra rente à parede, se afastando cada vez mais do chão… e Bervely foi se sentindo mais e mais gelada à medida que se aproximavam dos dementadores. Por que estavam usando a Chama Patronal, eles não lhe dedicavam especial atenção, mas seu efeito impregnado pelo ambiente ainda era pungente e doloroso.

Ela se viu incapaz de afastar pensamentos que envolviam Johanne morrendo em razão dos seus ferimentos… uma certeza inquestionável de que quando voltasse ao hospital aquela noite, ela já não estaria mais respirando.

– Aqui está. – Fritz lhe entregou a prancheta, uma pequena maleta e uma varinha especial de avaliações, a única permitida dentro de Azkaban, e que só realizava feitiços específicos do protocolo.

Para o seu estranhamento, o Quarter não pediu ao interno que se aproximasse e colocasse suas mãos nas algemas. Ele destravou as grades pesadas e se afastou, lhes dando espaço sem dizer nada.

Bervely entrou, um pouco nervosa, e Fritz a seguiu, logo atrás.

Ela logo percebeu que não era um prisioneiro, mas uma prisioneira. Sentada na cama, não mexeu um músculo quando entraram… não deu qualquer indicio de que percebia a sua presença. Pensando que talvez estivesse adormecida, ela se aproximou mais, acendendo a iluminação da varinha.

Uma bile amarga se desprendeu das suas entranhas e queimou a sua garganta no momento que a reconheceu, no momento em que pousou seus olhos nas orbes sorumbáticas da mulher em seu frente.

– Você a conhece? – Fritz perguntou baixo ao seu lado, num tom neutro.

Não.

Apesar de que sim, a conhecia. Nascera de seu ventre, habitara a sua casa, e por muito tempo, também estivera aprisionada em sua mente.

Bervely achou que ia vomitar, e fechou os olhos firmemente por um momento. Precisava ser de propósito, pensou. Era muita coincidência que a sua primeira avaliação fosse a da sua mãe. Fritz a estava testando? Desconfiava dela?

– Algum problema, Srta. Summers?

– Nenhum. – murmurou, sua garganta arranhando, e as pernas petrificadas impedindo que se movesse.

– Então pode dar continuidade à avaliação?

– Claro.

Bellatrix continuava imóvel – se não fosse a postura sentada de seu corpo, poderia muito bem estar morta. Ao contrário de quando a vira da última vez, na páscoa, ela não parecia como alguém que ia começar a gritar o quanto indigna do seu sangue e da sua linhagem Bervely era. Estava, se possível, mais magra e descarnada do que antes… podia ver o contorno de todos os seus ossos, e o mais assustador eram aqueles da cavidade ocular e das maças do rosto saltando de sua face encovada, tornando seu rosto, um dia belo, o rascunho áspero da degradação.

Bervely era suposto se aproximar e medir sua pulsação. Avaliar o estado de sua pele, mucosas, cabelo, o ruído dos pulmões. Deveria colher uma amostra do seu sangue. Mas tudo que ela podia era ficar ali parada enquanto eu corpo todo se rebelava em repulsa e horror.

Olhe pra mim, uma parte dela revoltou-se, uma parte que ainda conseguia, porque você não olha para mim, sua mulher maldita?

Bellatrix permanecia imóvel como uma estátua. E quando o seu cérebro finalmente deu uma guinada, a compreensão do que poderia ter acontecido ali a atingiu com uma sensação de esmagamento.

– Ela foi… ela foi… beijada?

– Você diz, se a alma dela foi tomada por um dementador? Não. Penso que não.

– Mas ela está… ela parece…

– Você conhece essa mulher, Srta. Summers? – ele perguntou mais uma vez, calmamente.

Bervely fechou os olhos. O que parecia o começo de um dia horrível estava se tornando rapidamente um pesadelo. Como tudo podia se desmoronar tão rapidamente em sua vida? Seus olhos caíram para o pulso de Bellatrix, onde era suposto haver a rosa. Será que estaria adormecida, como a dela? Mas não conseguia encontrar qualquer resquício de coragem em si mesma para se inclinar e verificar.

– Você talvez queira parar de mentir agora, enquanto eu estou lhe dando a chance. – Fritz disse, atrás de si.

– Eu não estou mentindo.

– Se não está mentindo sobre conhecê-la, então está sobre a sua identidade, porque Charlotte Summers conheceria Bellatrix Lestrange. De fato, chegou a morar em sua casa enquanto cuidava da sua filha por pelo menos um ano.

Ela abriu a boca para ele, um tanto surpresa. Em sua exaustão, deixara passar o fato de que Fritz saberia daquelas informações, afinal ela mesma lhe contara, durante os atendimentos no hospital St. Mungus, há dois anos.

– Você está certo, eu a conheço. – fingiu um suspiro de rendição contrariado, disposta a manter o seu disfarce a todo custo – Não é algo que eu me orgulho de falar por ai, no entanto, que servi na casa de uma Comensal da Morte. Como… como sabe disso?

– Eu sei de muitas coisas. Como por exemplo, eu sei que você continua mentindo sobre a sua identidade, você não é Charlotte Summers, não há qualquer possibilidade de isso ser verdade.

– O que lhe faz afirmar com tanta certeza, Dr. Fritz?

– O fato de que eu fui médico de Charlotte Summers há alguns anos, e eu receio de que ela está, sem sombra de dúvidas, morta.


As palavras dele foram como o ultimato final para o seu corpo, que como derradeiro ato de rebelião ao disfarce formigou e foi, lentamente, retornando à aparência original. À medida que ela recuperava as feições familiares, reparou no crescente choque do medibruxo; com certeza, entre todas as pessoas, o Dr. Fritz não esperava encontrar ali em Azkaban justamente a sua antiga paciente, Bervely Black.

– BD –


– Eu não acredito nisso… eu não acredito nisso! Bervely, no que você estava pensando?

Ele não ia xingar – o pensamento flutuou em sua mente estranhamente abafada. Apesar do absurdo da situação, o perfeitamente polido Ian Fritz não ia falar um palavrão, nem quando as circunstâncias mereciam. Ela podia sorrir disso.

– Qual a graça? – ele retrucou, sem compreender.

– Eu estou apenas tão cansada. – replicou, num longo suspiro exausto.

Eles tinham retornado à sala de arquivos, e Fritz batera a porta deixando o Quarter do lado de fora. Bervely fora capaz de manter a aparência no caminho de volta, mas por pouco. Ela sentia a metamorfomagia lhe escapando ente os dedos, se recusando a trabalhar sobre um corpo tão fatigado.

Então Fritz começara a falar, mas só o que ela conseguia pensar era: por que Bellatrix não se movia? Por que parecia uma morta viva apática, um esqueleto vivo, um… corpo sem alma?

– Você teve algum sono essa noite? Entre ter passado o dia aqui ontem e a madrugada no hospital?

Ela piscou confusamente. Lembrava de ter dormido um pouco no ombro de Wood, mas fora um sono consciente e muito desconfortável.

– Eu não estou bem certa…

– Bervely, será que você pode me explicar o que significa isso, você disfarçada com a aparência de Charlotte Summers dentro de um programa do governo internacional? Mas por favor, de um jeito que me convença de que não está tentando se matar!

– Eu sou metamorfomaga. – ela disse vagamente. – Posso me transformar em qualquer pessoa… com um pouco de treino.

– Eu deduzi essa parte sozinho! – ele reclamou, indo até ela e colocando um polegar sob seu olho para checar a cor de sua conjuntiva, depois colocando a mão em sua testa.

– O que você andou bebendo?

– Energizante… e refrigerador. Um monte.

– Refrigerador?

– É uma coisa de trouxas.

Fritz se ajoelhou na frente dela, olhando em seus olhos.

– Bervely, eu preciso que se concentre, e me explique porque está disfarçada de Charlotte Summers e infiltrada em Azkaban. Agora.

Ela assentiu, e puxou uma boa quantidade de ar, enchendo seus pulmões até o limite. No fundo da sua mente, um alarme de perigo avisava que fora descoberta, o disfarce estava em jogo, mas isso dificilmente importava agora. Esfregou seu rosto, tentando ficar atenta e responder.

– Eu precisava ver alguém. Eles não me deixavam. – falou com o máximo de articulação que conseguia.

– Quem, Bellatrix Lestrange? Você queria ver a sua mãe?

– Não. Não… Bellatrix foi beijada?

– Ela não foi beijada, Bervely. O torpor que você presenciou há pouco é um efeito da exposição de longo prazo aos dementadores. Chama-se torporis animae… um mecanismo de autopreservação, onde a alma se recolhe para um estado inativo, evitando assim ser afetada pelas criaturas.

– Não faz sentido. Ela estava bem… não bem, mas ativa há alguns meses, na páscoa… eu a visitei.

– E o que aconteceu, então?

– Nós discutimos. Ela tentou destruir a marca em meu braço.


– De acordo com a ficha dela, sua condição começou exatamente nessa data. É possível que emoções fortes desencadeiem o torporis animae…

Bervely negou, um sorriso rancoroso distorcendo a sua face.

– O único sentimento que Bellatrix tem dentro dela é ódio.

Ela ainda se sentia como se o mundo estivesse instável sob os pés, apesar de estar sentada em uma cadeira. O Dr. Fritz não estrava em foco de jeito nenhum.

– Tem alguma coisa errada comigo. – avisou à ele, enquanto tentava manter os seus olhos abertos.

– Acho que você está apenas exausta. Esse último momento de exposição aos dementadores, e o choque de ver a sua mãe assim deve ter lhe esgotado… ah Bervely, eu sinto tanto, se eu soubesse, jamais teria lhe levado até ela… eu só queria desmascarar quem estava usando a identidade da pobre Charlotte Summers, nunca pensei que seria você por trás disso! Você precisa ir para casa descansar imediatamente, mas antes eu preciso saber o que está fazendo aqui!

– Vim ver alguém.

Quem? Quem não lhe deixaram visitar?

– Meu pai… Sirius… Black.

O Dr. Fritz demorou apenas meio minuto para juntar as peças, ele era um homem esperto, afinal de contas.

– Sirius Black é seu pai? O homem quem lhe deu a coleira? Isso na verdade explica muita coisa. Mas como descobriu… esqueça, pode me explicar a história inteira depois. Por que quer tanto ver Sirius Black, à ponto de arriscar sua vida se infiltrando aqui desse jeito?

Era uma boa pergunta, mas não para o estado esponjoso que seu cérebro se encontrava. Muito complexo… tanta coisa… a coleira, a estrela e o cão… Johanne, sorvete de pistache… traição, comensal da morte… o sorriso dele, a carta… Eles tinham o mesmo osso proeminente do pulso, ela precisava saber…

– Bervely?

– Eu preciso saber quem ele é. – murmurou, assustando-se. Era tão simples, na verdade. Era só isso.

Uma resposta que a Bervely de cinco anos teria elaborado sem dificuldade.

– Mas quem quer que ele era antes… já não será agora, Bervely. Treze anos é muito tempo, ainda mais aqui dentro.

– Mas eu preciso saber. – teimou, debilmente. Sem perceber, segurava firme a coleira, que estava enrolada em seu braço; na pressa de sair de casa, esquecera de transfigurá-la.

O olhar de Fritz foi tão terno, tão inundado de compreensão, que ela sentiu seus sentimentos transbordarem… a barragem se partindo, fragilizada pelo caminho, pela solidão e pelas perdas. Ela estava exposta, e sabia disso. Tudo que não conseguia dizer, estava em seu rosto agora. A urgência, necessidade… a carência, que não admitia nem pra si mesma, ele viu tudo disposto na vitrine de seu par de olhos negros.

Fritz assentiu em compaixão.

– Tudo bem. Amanhã, nós vamos ver Sirius Black. Vamos fazer isso juntos.

Bervely balançou a cabeça negativamente.

– Isso vai te colocar em problemas.

– Daremos um jeito. Vou arranjar tudo… colocá-lo na nossa lista de avaliações de um modo que ninguém suspeite. Quem quer que Black seja, amanhã você saberá. Com uma condição.

– Qual? – perguntou fracamente. Tão aliviada que seu corpo todo estava dormente.

– Hoje você vai pra casa e descansa. Se vai conhecer seu pai, vai querer estar em seu melhor estado.

Ela assentiu.

– Tudo bem.

– Boa garota. – Fritz lhe deu um beijo terno na testa, antes de despachá-la. – Não faça nada impensado até lá, está bem? Vou resolver tudo.

Ela assentiu. Tão grata que queria chorar. Dividir o peso daquilo com alguém era uma sensação maravilhosa.

– Até amanhã, Bervely. Não esqueça o seu disfarce.

Foi preciso o extremo de suas forças para levantar a aparência de Charlotte mais uma vez, e ela tinha certeza que havia falhas… certamente seus olhos não estariam tão azuis. Seus cabelos deviam estar mais escuros. Mas o que importava? Não é como se alguém ali prestasse atenção especial nela.

Quando pisou no pátio e a luz do dia a atingiu, Bervely se sentiu tonta de novo e se sentou num banco, tentando normalizar a respiração. Nunca na vida se sentira tão exausta, e só estava acordada há umas trinta horas. Ela se deu conta de que a Chama Patronal pendurada em seu pescoço se encontrava completamente apagada. Desde quando?

– Não pode levar isso para casa. – um guarda se aproximou. Ela o reconheceu como aquele que a ajudara na sua primeira visita à Azkaban, e a levara para a enfermaria. Era o mesmo da reunião de abertura do Projeto Orcus… o filho do diretor da prisão.

Não conseguia de jeito nenhum se lembrar seu nome.

– Sinto muito, eu me esqueci. – pediu, entregando o objeto à ele.

– Você está bem? – lhe perguntou, dando à ela uma segunda olhada.

– Apenas cansada.

– Não precisa pegar o barco desse jeito. Não prefere descansar um pouco antes? Posso te arranjar um lugar.

– Vai me dar uma cela?

Ele riu, negando, e lhe indicou que o seguisse.

– Azkaban tem aposentos temporários para funcionários. Você pode usá-los sempre que se sentir muito cansada, é bem comum, por causa dos dementadores… não são nenhum luxo, mas dá pro gasto. Aqui, pode ficar neste. Posso lhe chamar antes da última barca partir.

– Você é uma pessoa boa.

Ele achou graça.

– Bom descanso, Srta. Summers.

– BD –


Bervely acordou poucos minutos depois. Ou pelo menos ela achou que fossem poucos minutos, mas uma olhada através da janela minúscula informou que já era noite, e a lua cheia estava alta. As memórias dos últimos acontecimentos foram retornando numa rápida sucessão, culminando na percepção de que perdera completamente o horário. Ela prometera à Johanne que estaria no hospital quando Remus tivesse que ir embora, e ele dissera que isso seria antes do anoitecer…

Se levantou do pequeno aposento desesperada, lembrando-se de que a última barca saía ao por do sol. Perder a última viagem significava ter que passar a noite na ilha, e no momento Bervely não podia imaginar uma possibilidade pior do que essa.

Ela correu através do corredor circular até o pátio externo da prisão, estranhado a falta de movimento. Então ela conseguiu avistar um acúmulo de guardas no ancoradouro e teve um breve sentimento de esperança de que ainda houvesse um barco, mas isso foi até ver a sua inquietação e perceber que algo estava terrivelmente errado.

Avisou entre eles o Quarter que lhe oferecera o quarto, e avançou até ele cortando a pequena multidão.

– Você! Você me disse que ia me chamar antes do último barco partir!

– Eu sinto muito – ele pediu ao reconhecê-la – No meio de toda a confusão, acabei esquecendo. Mas, então não sabe? Não houve último barco… Na penúltima viagem, Caronte foi atingido e afundou.

– Atingido pelo quê? – Bervely não podia imaginar o que podia avariar um barco daquele tamanho, a não ser outro barco, mas isso era impossível naquelas águas fortemente protegidas com feitiços anti-navegação.

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– Um raio. – disse, um tanto pálido. – Isso nunca aconteceu antes.

Ela teve só um minuto para se escandalizar com o absurdo da notícia, mas logo estava olhando ao redor, alarmada.


– Onde está o Dr. Fritz? O medibruxo do programa Orcus, você sabe? Ele normalmente fica para ir na última viagem. Ainda deve estar na ilha.

O rosto jovem do Quarter se contorceu pensativamente, mas depois se agravou e pela sua expressão, ela adivinhou a resposta antes que fosse dada.

– Eu me lembro de ver ele saindo… comentando que estava muito cansado, e ia mais cedo. Sinto dizer isso… mas tenho bastante certeza de que ele estava à bordo do Caronte quando afundou.

(Continua…)

Notas finais
Catástrofe atrás de catástrofe, alguma dúvida de que um mau agouro anda rondando a Bervely? 
 #PelaPreservaçãoDasFadas