Indigna Rosa Negra
16 A Decisão da Rosa
Notas iniciais
– Você pode me expulsar se quiser – seus olhos se estreitaram, como ele se atrevia? – Só quero que saiba que eu sei a verdade sobre você.
– A verdade sobre mim? – o mestre de poções repetiu, lenta e perigosamente, os olhos de besouro brilhando.
– Isso. Eu vi na minha ficha, Snape. Eu vi o seu nome. E sei que você se deitou com Bellatrix quando ela não passava de uma menina, e que depois você se acovardou. Isso não o redime da responsabilidade… isso não muda o fato de que você é meu pai.
– Que eu o quê… como? O que? – ele foi soltando, a medida que interpretava cada parcela da acusação da garota.
Bervely não se deixou iludir. Ela estava cansada de pessoas escondendo fatos dela, e mentindo para ela sobre o seu passado, ou então fingindo que as coisas não eram o que eram.
– Apenas admita! É a única coisa honrada a se fazer, Snape. É obvio que eu puxei de você o talento para poções, aliás. Óbvio. De onde mais…?
Ele fez uma expressão de dor com o cenho franzido, a que se faz quando se identifica o início de uma enxaqueca.
– Deixe-me ver se eu compreendi corretamente. A senhorita está sob a impressão de eu tive relações com a sua mãe, Bellatrix Lestrange, quando ela era uma adolescente. E que eu fugi da responsabilidade de assumir uma criança fruto dessa relação, quem vem a ser você.
– Eu não estou “sob a impressão”! – exclamou, irritada – Eu vi! Na minha ficha de Hogwarts! O que significa que todo mundo sabe disso, menos eu, e todo mundo tem mentido pra mim, inclusive você!
O professor, ela via, estava desconcertado e incrédulo. O primeiro sentimento ela podia compreender, afinal talvez ele não esperasse um confronto tão incisivo, mas por que estaria incrédulo? Espantado com a sua ousadia? Bom, ele deveria saber que não ia conseguir esconder aquilo a vida inteira.
– Apenas… aguarde um momento, Sra. Black.
Para a sua surpresa, Snape sumiu de novo da porta em que saíra, para dentro do que ela supunha ser o seu quarto. Enquanto os minutos se arrastavam, Bervely se perguntou se ele resolvera, como última alternativa, ignorá-la até que ela cansasse e fosse embora.
Para então fingir que nada tinha acontecido, no dia seguinte? Um inferno que ele ia! Já estava andando em direção à porta quando o professor surgiu novamente, trazendo uma pasta verde em sua mão.
– Imagino que seja a essa ficha a qual esteja se referindo?
Bervely assentiu, reconhecendo-a como a mesma que vira na sala de McGonnagal no primeiro dia de aula. Snape estendeu o documento para ela, sua expressão impossível de ser lida.
– Para o benefício de ambos, meu e seu, por favor queira olhar novamente, Srta. Black.
Ela aceitou a pasta com desconfiança, arrancando lá de dentro sua ficha de Hogwarts, com sua foto piscando de volta para ela e tudo mais. Vagou os olhos pelos dados pessoais, procurando o que vira antes num relance.
Mãe: Bellatrix Black
Pai: Rodolphos Lestrange
Seu coração despencou.
– Mas isso é… eu juro que…
– Olhe um pouco mais abaixo. – ele sugeriu, embora seu tom soasse sempre como uma ordem e tivesse por trás um traço sardônico.
Havia mais um monte de informações sobre seus parentes, e bem no fim dos dados pessoais, os nomes de seus padrinhos em magia:
Madrinha: Narcissa Malfoy
Padrinho: Severus Snape
O que era quase tão surpreendente quanto a informação anterior. Ela piscou confusa para ele.
– Eu sempre pensei que Lucius Malfoy fosse o meu padrinho.
– Evidentemente você fez uma dedução equivocada.
Mas Bervely facilmente percebeu seu erro. Ela lera a palavra “padrinho” de forma incompleta¹, quando a vira de relance na mesa de McGonnagal, e armara uma fantasia em torno disso em sua cabeça. Agora a vergonha a engolfara como um gás venenoso, e ela preferia sumir a ter de encarar Snape novamente, por isso manteve os seus olhos no papel. Será que estava tão desesperada assim para fugir de quem era, que precisara inventar um novo pai para si mesma?
Isso era tão humilhante…
– Eu ainda estou aguardando o seu pedido de desculpas, senhorita Black.
Bervely travou seus dentes, o orgulho, apesar de tudo, a impedindo de aceitar aquela alfinetada com docilidade.
– Isso não muda o fato de que você ocultou essa informação de mim, muda?
– Eu teria lhe dado a informação de bom grado se questionado, embora honestamente nunca imaginei que não soubesse. Sou igualmente padrinho do seu primo, Draco Malfoy, e ele está não só perfeitamente ciente do fato, como orgulhoso em espalhá-lo entre os seus pares em benefício próprio.
Porque falar de Draco lhe causava um desconforto agudo, fazendo-lhe lembrar de que ele estava desfrutando mais um maravilhoso natal na mansão enquanto ela estava sozinha no castelo, e se submetendo a situações constrangedoras, afastou-o da sua mente. Haviam outras duvidas, milhares delas…
– Como? Como você acabou sendo o meu padrinho? Você e a minha mãe eram sequer amigos?
Snape deu uma risada esgarçada e zombeteira à isso.
– Não. Tenho uma forte desconfiança que a sua mãe nunca me suportou. Me tornei seu padrinho por mero e circunstancial acaso. Você pode considerar que foi uma… implicação das minhas atividades profissionais na época.
– Então você e a minha mãe eram colegas de trabalho?
– Pode-se dizer que sim. – ele respondeu, com cuidado. Ela sabia porque suas palavras eram lentas e reguladas, e com os olhos, ele investigava as reações dela meticulosamente.
– Onde?
– Isso é mais informação do que estou disposto a lhe fornecer no momento, eu receio. – sentenciou, de forma que deixou claro que por ali ela não conseguiria nada.
– Então você nunca realmente se importou com isso. Ser meu padrinho. Nunca teve um significado real para você.
– Você nunca precisou de qualquer auxílio nesse sentido, sempre esteve bem servida em termos familiares.
Bervely chegou a abrir sua boca para protestar aquele absurdo, mas o que poderia dizer? A maior parte da vida, tivera mesmo tudo que uma criança podia querer. O que lhe faltava, o que sempre lhe faltou era… inexplicável.
– Eu lamento pelo mal entendido. – ela disse secamente. Sentiu que precisava dizer alguma coisa, abrir caminho para sair dos aposentos de Snape e se afundar em algum lugar longe dos olhos enigmáticos de besouro.
– Nenhum dano feito, Srta. Black.
Foi a primeira vez que ele pronunciou o seu nome sem aquele tom velado de deboche, ela notou. E apesar de querer sumir dali, não se moveu.
– Na primeira aula, esse ano – começou, sem saber de onde aquilo estava vindo, ou pra onde ia – Eu pensei… o jeito que o senhor me tratou. Tive a impressão de que já possuía uma antipatia por mim. O jeito com que pronunciou meu sobrenome…
– Eu não sou um fã da família Black em geral. – Snape pontuou. A nota de amargura reapareceu, bem como uma faísca no fundo dos seus olhos.
– E especificamente? – ela arriscou.
Ele pareceu pensar por um momento.
– É, eu até que gostava de um, seu primo de segundo grau, creio. Regulus Black. Bom garoto.
Bevy assentiu vagamente.
– Me lembro desse nome. Fui ao enterro dele.
Pareceu que Snape ia falar alguma coisa, mas então ele não disse. Ela ainda segurava a ficha, e para preencher o silencio, deu uma outra olhada no pergaminho. Ainda parecia terrivelmente errada, equivocada em sua essência. E sabia porque.
– Ele não é meu pai. Lestrange.
Ela nunca tinha dito aquilo em voz alta. Snape lhe olhou intrigado.
– Por que pensa isso? Ele e sua mãe estavam noivos. E o fato de ele ter registrado você é uma forte indicação de que a reconhecia como herdeira.
Ela negou, aquilo era um monte de merda.
– Eu não penso, eu sei. Rodolphos não é meu pai.
O professor manteve o silencio, ao que ela ficou grata. Significava que ele não discordava, o que já era muito. Bervely achou que era hora, antes que os silêncios constrangidos começassem.
– Nesse caso, eu vou… retornar para os meus aposentos.
– Excelente ideia, Srta. Black.
Ela assentiu e entregou a ficha de volta para ele, ainda um pouco atordoada com aquilo que acabar de acontecer. Será que ele pensava que ela era patética, ou que era louca por aparecer assim na noite de natal o acusando de ser seu pai?
Já estava na porta quando se virou e viu que o professor não se movera do lugar, observando e esperando que saísse. Ela pigarreou, recuperando a voz segura e equilibrada.
– Eu quero que saiba, professor Snape, que eu não espero qualquer tipo de tratamento especial em razão desse vínculo entre nós.
Ele assentiu.
– Não haverá qualquer tipo de tratamento especial, Sra. Black. Isso eu posso lhe garantir.
– BD –
Algumas semanas depois do Natal, Bervely acordou ao som de gritos em seu dormitório. Ao colocar a cara para fora do dossel, deparou-se com Olga Greengrass de pijamas, os cabelos escorregando de uma touca rosa, a cara completamente vermelha.
– VOCÊ! – ela apontou transtornada para Bervely – VOCÊ TROUXE UM MONSTRO PARA DENTRO DESSE DORMITÓRIO!
Ela percebeu que a garota tinha remexido a sua gaveta do criado mudo, que estava pendurada precariamente para fora, as teias de aranha remexidas e sua moradora habitual, desaparecida. Bervely deu um salto tão ágil que foi aterrissar na frente de Greengrass, e antes que pensasse, estava agarrando a gola da camisola de seda dela e torcendo.
– Você diga agora mesmo o que fez com a Srta. Calliway!
– Aquela coisa horrorosa! – Olga guinchou, apertado os olhos, como se a lembrança da aranha a fizesse sofrer.
– AGORA! – exigiu a Black, alcançando a a varinha com a outra mão, e apontando-a para a testa de Greengrass, pronta para transformá-la numa mosca que daria de comer a sua aranha assim que a encontrasse. – Me diga AGORA o que fez com ela!
– Tire as mãos de mim, Black! Eu vou denunciar você, e vai ser expulsa!
– Você vai trazer a merda da minha aranha de volta, e é bom que ela esteja viva senão é você quem vai sair daqui com oito patas!
As demais ocupantes do dormitório, Sia e Pacey, já estavam bem despertas a esse ponto, e assistiam a cena sem ousar sair de suas camas. A primeira tinha um sorrisinho divertido no rosto, e estava quase conjurando uma pipoca. Pacey, por sua vez, olhava apreensiva para a cadeira onde tinha deixado o seu uniforme cuidadosamente estendido na noite anterior, provavelmente com medo de que as meninas o amassassem em sua luta.
– Você é uma selvagem, Black! Não é boa o suficiente para esse quarto! Eu soube desde o princípio!
– Eu suponho que você seja boa o suficiente! Com essa voz insuportável de agouro grasnando em nossos ouvidos o tempo inteiro, quase derretendo nosso cérebro em agonia, e essa overdose de cor de rosa, como se a droga da patrulha do mau gosto tivesse explodido nesse quarto! A sonserina é VERDE E PRATA, pelo amor de Merlin!
Sia abafou o que com certeza era uma gargalhada, e Pacey estava a ponto de intervir pela integridade das suas roupas, quando alguém irrompeu porta adentro.
– Mas que gritaria é essa nesse dormitório, alguém pode em explicar o que está acontecendo e a quem eu vou ter que indicar para uma detenção?
Era, obviamente, a monitora Holmes. Ela usava uma camiseta larga de time de quadribol e shorts curtos, e poderia ter causado uma grande sensação ao atravessar o salão comunal da sonserina em tais trajes, se ainda não fossee muito cedo.
– Essa anti-social invasora trouxe um monstro com ela!
– Ela não é uma invasora, Olga, pelo amor de… – Pacey começou, sem paciência, mas Tara a fez se calar com um aceno.
– De que monstro exatamente estamos falando?
– Uma aranha gigante marrom enorme venenosa! Eu sequer sei como estamos vivos por todos esses meses! – Greengrass acusou, de repente toda tremula e chorosa.
Bervely rolou os olhos. Quando terminou o movimento, os olhos de Tara estavam lhe espiando numa pergunta muda. Bervely levantou a sobrancelha para ela, desafiando-lhe, e a ruiva suspirou.
– Onde está a aranha, Olga? – perguntou, com calma excessiva.
– Fugiu quando a encontrei, quase saltou sobre mim pronta para sugar todo o meu sangue. – disse a loira, apontando dramaticamente na direção da janela.
– Certo. Caso volte a aparecer, por favor queiram me avisar. Black deve saber que é contra as regras da escola criar aracnídeos, e ela será submetida às punições cabíveis. – lançou um longo olhar à Bervely após proferir a sua sentença. – E por favor, deixem o resto dos seus colegas dormirem, são seis horas da droga da manhã.
Ela sumiu pelo corredor, não vendo o olhar vitorioso de Greengrass, nem o gesto com as mãos que queria dizer “você está tão ferrada e eu vou acender uma fogueira e dançar sobre a pilha dos seus ossos”, que dedicou à Bervely.
Quando entrou para o banheiro, Bevy pode finalmente parar de travar os seus dentes e soltar a varinha da mão tremula. Estava pouco se lixando para o que Olga achava que ia acontecer com ela, e sabia que se a Sra. Calliway tinha corrido, provavelmente se escondera em um canto seguro do quarto.
Mas o fato de Tara escolher o lado de Greengrass ao invés do seu, mesmo numa briga estúpida como aquela… ainda a irritava.
– BD –
Tarde naquela noite, Bervely descobriu que não era a única a estar se encrencando na família. Seu primo estava fazendo um papel sofrível para Holmes em um canto do salão, implorando para que relevasse o seu castigo.
Pelo que entendera da conversa, Draco fora pego pela professora McGonnagal fora da cama, e ela não só lhe tirara trinta pontos como lhe prometera uma detenção. Draco tentava convencer Holmes a falar com a vice-diretora e levá-la a retirar a punição. Era divertido assistir como o rosto dele estava cor de rosa e se contorcia.
– Mas tinha mesmo um dragão! – ele não parava de repetir – Potter e Granger tinham um dragão, e apenas não é justo que eu leve uma detenção por falar a verdade…
Se estivesse às boas com o primo, iria até ele, lembrar-lhe de um ensinamento precioso do seu pai: um Malfoy nunca implora. Sempre achou que a regra era baseada na manutenção do orgulho próprio, mas agora começava a pensar se não era uma questão de não se expor ao ridículo.
– Draco, faz um favor e não me enche. – a monitora exclamou, apertando a ponte de seu nariz – Quem sabe assim você aprende a ficar em seu dormitório no meio da noite ao invés de perseguir Potter.
– Eu não persigo Potter… Droga, meu pai vai me matar…
– Eu vou torcer para que isso aconteça antes de você me enlouquecer. Agora se me dá licença, você não é o único com mau comportamento nessa casa, e está tudo sobrando pra mim porque Sang tomou chá de desaparecimento. Black!
Bervely demorou um segundo para entender que Tara estava se referindo a ela. Muitos colegas olharam na direção das duas, intrigados, mas eram todos muito sonserinos para se importar de verdade, não se nenhuma fofoca adicional pairava no ar.
– Que é? – ela respondeu mal humorada a colega, que fez um aceno para que se aproximasse.
Bervely levantou a contragosto, e pela primeira vez naquele ano chegou perto o suficiente da garota pra sentir seu cheiro de cereja. Praticamente todos os produtos que usava tinha cereja como base, mas de alguma forma Tara manejava a fim de não tornar aquilo enjoativo.
– Eu já tenho a sua sentença – anunciou, e ao perceber que Draco continuava por perto, tentando espiar, fez uma careta – Vamos até meu quarto, antes que eu perca de verdade a minha paciência com esse menino.
Elas não entraram, no entanto, no quarto de monitora de Holmes. O seu acesso era por detrás da escada que levava aos dormitórios femininos, e havia um pequeno e reservado corredor no qual podiam conversar sem serem ouvidas.
– Desembucha, Holmes. – Bevy soprou com impaciência. Agora que finalmente se habituara com o distanciamento estranho entre elas, era esquisito estarem num mesmo lugar novamente.
– Falei com o Prof. Snape, e ele decidiu que a retirada de vinte pontos servirá como uma advertência. E você deve se livrar da aranha.
Ela cruzou firmemente seus braços.
– Não vou me livrar da aranha.
A ruiva lançou um olhar para o fim do corredor, e depois se voltou, levemente curiosa.
– É a Sra. Calliway?
Bervely ficou surpresa que ela se lembrasse. Mas então, não fazia tanto tempo assim que conversavam sobre seus bichos de estimação, sobre tudo o mais, mesmo que a sensação de distanciamento fosse tão sólida entre elas.
– Sim. – respondeu a contragosto.
– Me dê ela. – disse Holmes baixinho.
– O que? Pra você fazer o que com ela?
Foi a vez da ruiva rolar os olhos.
– Churrasco, o que acha? Oh, por favor. Vou colocá-la aqui no quarto em algum canto escuro até o fim do semestre, então você pode levá-la para casa nas férias.
Bervely lhe analisou com desconfiança.
– E por que você faria isso por mim?
– Porque acabou de dizer que não vai se livrar dela, e eu sei o quanto é teimosa. Eu também sei o quanto Olga pode ser estridente, e se ela esbarrar com a aranha de novo, dessa vez vai acordar o castelo inteiro. Só estou zelando pela minha paz, no fim das contas.
–Claro, a sua paz.
– Isso. Então?
– Ela precisa de um monte de comida. E vai ter que ser um lugar com um bom espaço para teias.
– Vou dar a ela um lado inteiro do meu guarda roupas. – disse, a sombra de um sorriso em seu rosto. Quase como era antes, mas então, tão rápido quanto veio, o tom divertido sumiu – Preciso ir agora. A coloque numa caixa ou qualquer coisa, e mande pra mim durante a noite. Agora, se me dá licença…
Ela desviou de Bervely e sumiu pelo corredor, deixando-a no escuro, e com a impressão de que Tara Romansek ainda existia ali, em algum lugar sob o distintivo de monitora e a insuportável atitude sonserina que criara para si mesma naqueles meses em que Bervely esteve longe.
– BD –
Seis meses depois…
Um ponto no final da palavra “década” e Bervely terminou a redação de oitenta centímetros de pergaminho dos seus N.O.M.S. com a cabeça rodando de informações sobre as três revoltas dos duendes, e tendo certeza que confundira Ícaro, o Pilantra, com Scar, o Pelegrino. Se recusando a revisar o texto para fazer a correção, ela enrolou o pergaminho e levantou de uma vez por todas da cadeira, sentindo-se aliviada.
No começo daquele ano, ir à Hogwarts não fora uma decisão, mas uma fuga, uma fuga de Durmstrang e tudo que significava voltar para a escola sozinha, admitir o seu fracasso e ficar atrasada em relação a sua antiga turma. Ela nem por um momento se preocupara se ia gostar de Hogwarts, afinal, o que importava isso?
Andando pelo corredor do primeiro andar com sua mochila a tiracolo, rumo aos terrenos gramados ao redor do lago, seu coração se apertava com algo que parecia saudade. O seu quinto ano terminara, e precisava ir embora por três meses. Não havia nenhuma perspectiva de que seriam boas férias, e precisou admitir para si mesma que preferiria continuar tendo aulas.
Mesmo se fossem de Transfiguração, apesar de não poder garantir que tiraria qualquer coisa maior que um Aceitável nesse N.O.M. Bem, ela não fora nada ruim em feitiços, e Defesa tinha sido um desafio cego, depois que o professor fora demitido numa história confusa sobre querer roubar um tesouro escondido na escola.
Já Poções… com um sorriso bobo de orgulho, sentou entre as raízes de uma árvore próxima à água, mas relativamente longe dos barulhentos primeiranistas e segundanistas. Seu sucesso na prova dos N.O.M.s de Poções era brilhante como a superfície do lago naquele momento. Não havia a menor chance de Snape lhe dar menos que um Excepcional, ele com certeza nem ia dormir de tão impressionado com os seus resultados para a Solução Enigma. Felizmente a relação entre ambos pôde se desenrolar de forma completamente profissional depois da conversa constrangedora no Natal, e ela descobriu que o bruxo era muito bom em fingir que o momento nunca tinha acontecido.
Com um misto de sentimento de auto-realização e melancolia, deixou o corpo escorregar na grama, mas quando o fez, alguma coisa cutucou as suas costas. Com um suspiro, arrancou o envelope de dentro do bolso, olhando zangada para ele, como se fosse o culpado de o seu dia não ser perfeito.
Trazia um selo verde com um brasão e ainda estava intacto, desde que o recebera via correio-coruja naquela manhã. Não permitira que a carta interferisse na concentração do seu último dia de provas, mas agora não havia outra desculpa, e com má vontade partiu a cera e arrancou de lá de dentro a carta escrita em pergaminho desnecessariamente caro:
Querida Bervely,
Gostaria que soubesse que, apesar da animosidade entre nós no verão passado, estamos ansiosos para o seu retorno neste verão. Lembre-se que a mansão Malfoy continua sendo o seu lar.
Afetuosamente,
Narcissa.
Ela torceu os lábios em desagrado, fitando as palavras “animosidade”, e depois “lar”, querendo enxergar através da tinta algum indicio de que eram hipócritas ou sinceras. Uma perda de tempo, pois a escrita de Narcissa Malfoy nunca tinha nenhum borrão, e nunca deixava margem para interpretações.
– Há algo estranho quando você precisa ler que uma casa ainda é o seu lar – disse uma voz atrás dela, e logo em seguida Nimphadora Tonks surgiu no seu campo de visão, trazendo uma trança amarela e outra preta, óbvia e extravagante homenagem à sua casa.
– Acho mais estranho gente que lê a correspondência alheia sem permissão – censurou, mas o seu tom nem era tão azedo como de costume, e Tonks deve ter percebido isso, porque abriu um sorriso maroto.
– Então, arrasou na tese de História da Magia?
Bevy deu de ombros.
– Não foi um fracasso completo.
– Nerd. – ela acusou feliz, sentando-se ao lado e esticando as pernas compridas, chutando os seus sapatos para longe.
– Eu leio a bibliografia indicada, me perdoe. – rebateu com ironia. Tonks era hiperativa demais para sentar a bunda numa cadeira e terminar um capítulo sobre guerra de duendes, e Bervely não perdia a chance de lembrá-la disso.
Elas ficaram num silêncio confortável por alguns minutos, Bervely esticando-se para o pouco sol que penetrava a copa da árvore sob a qual estava, e Nimphadora perseguindo um lanche em sua mochila caótica e orelhuda. Ela tirou lá de dentro metade de um sanduíche de figo, ruminou um pouco e perguntou como quem não quer nada.
– Então vai mesmo passar o verão com os Malfoy?
Bevy franziu ligeiramente.
– É onde eu sempre passei meus verões.
– Mas você não precisa, sabe.
– Até onde eu sei, Hogwarts não aceita estudantes aqui para as férias.
– Não, e isso seria muito patético. Com quem você conversaria, Hagrid?
Ela fez uma careta. Não havia assunto no mundo que pudesse preencher as férias inteiras em companhia do guarda-caças de Hogwarts. Suspeitava que ele não poderia manter uma conversação sequer por três minutos, quem dirá três meses.
– Você podia ir lá pra casa. – sugeriu Tonks, mordiscando o último pedaço do lanche em seguida, tudo em seu tom indicando casualidade distraída.
– Não comece com isso de novo.
– O que? Você é a família! Minha mãe ia gostar de te ter conosco.
A garota continuava com a mania irritante de insistir que eram aparentadas, e Bervely tendia a ignorar o assunto até que ela desistisse, mas por alguma razão, naquele momento foi como a gota d’água.
– Eu não tenho parentes sangue-ruins, Tonks! Mas que droga!
A lufa-lufa recuou ligeiramente diante do tom grosseiro, seus olhos se arregalando e sua boca se abrindo.
– Como é?
– Você continua insistindo nessa droga de parentesco! Tonks não é um sobrenome de uma das famílias nobres bruxas, na verdade eu sequer acredito que seja um sobrenome bruxo!
– Não, não é. – ela disse, se aprumando, muito séria. – Meu pai é nascido trouxa.
– Viu só? O povo da minha família nunca se casa com nascidos trouxas. Nunca. Eu não sou uma prima distante sua, nem droga nenhuma da sua família, e eu gostaria que parasse com essas insinuações, porque nem em um milhão de anos eu vou pisar numa casa de mestiços, quanto mais passar minhas férias em uma!
O cabelo de Tonks ficou rosa choque intenso, uma emissão mágica intracorpórea que só confirmou a Bervely que ela tinha sangue impuro em sua família. Seu rosto também estava tingido de cor de rosa, e os olhos estreitos e as abas de seu nariz infladas, e ela agarrara a sua mochila por uma orelha para se levantar.
– Isso foi muito rude, você sabe?
– Você foi rude primeiro, insinuando coisas sobre a minha família.
– Você não sabe nada sobre a sua família, você não faz a menor ideia de quem eles são de verdade. Quer saber, Bervely? Tanto faz. Esqueça que eu sequer tentei. Isso não vale a pena.
A garota se virou e saiu pisando duro na direção do castelo, e Bervely deixou as costas caírem novamente contra a árvore, sentindo-se exasperada, mas também com um suspeito bolo culpado em sua garganta.
Ora, Tonks que se danasse.
Certo?
Irritada consigo mesma por sequer se importar, mal percebeu que estava amassando a carta de Narcissa em seu punho firmemente cerrado.
– BD –
Durmstrang, 1988.
Era hora de voltar pra casa, o que significava andar de navio, e depois rever Draco, tia Narcissa, Charlotte e a Mansão. Para ser honesta, ela não estava com tanta saudade – o tempo tinha voado desde o Natal – estava mais era ansiosa para contar tudo que fizera e receber seus olhares de espanto.
Em seu primeiro ano em Durmstrang ela montara num hipocampo, cultivara Espiracéias, duelara com seus colegas todas as terças feiras, fizera trinta diferentes poções e estudara a história de Euclido, o Errante, o fascinante mago que descobriu os quatro usos do sangue de unicórnio, e um quinto que só se aplicava a unicórnios filhotes. Draco ia ficar com tanta inveja…
– Isso é meu ou é seu?
Tara suspendeu um suéter cor de laranja que já tivera dias melhores. Bervely fez uma careta para aquilo.
– Tem um boneco de neve animado nele. Com certeza seu.
Ela riu e guardou a roupa no malão já atolado de coisas.
– Precisamos ser mais organizadas com as nossas vestes no ano que vem.
– Eu sou organizada com as minhas – disse severamente, fazendo o último rolinho com um cachecol e encaixando alinhado ao lado dos outros – São as suas coisas que parecerem querer dominar e engolir o quarto inteiro.
A ruiva deu uma sonora gargalhada, enquanto fechava o malão e pulava sobre ele para conseguir afivelar. Quando ela finalmente o fez, tinha gotas de suor pela testa e as bochechas rosadas.
– Acha que vamos nos ver esse verão? – perguntou esperançosa. – podíamos praticar aqueles feitiços estuporantes para chegarmos afiadas ano que vem. Aquela medalha com certeza vai ser nossa.
Ela se referia à medalha de melhor dupla da turma, esse ano conquistada com louvor pelos gêmeos Ominsk. O que era muito injusto, porque eles eram tão sincronizados em tudo que faziam que com certeza compartilhavam um só cérebro, o que era uma séria vantagem em relação ao resto deles.
– Dificilmente. Eu estarei na Grã-Bretanha, e você…
– Romênia. Será longo, quente e chato. Papai trabalha o tempo inteiro e o meu irmão só quer saber de bonecos de ação.
– Sinto muito. Os verões são sempre incríveis lá na Mansão.
Tara a olhou com certa inveja, mas depois pareceu superar o sentimento e sorriu, cobrindo o espaço entre elas e estendendo a mão.
– Foi um prazer trabalhar ao seu lado esse ano, Black. Acho que fazemos uma boa dupla.
Ela olhou para a mão de Tara, que tinha as unhas longas e os dedos rosados. Estava sempre quente, nas ocasiões em que acidentalmente se esbarravam, enquanto a mão dela, Bervely, era sempre gelada. Aceitou o cumprimento.
– Não foi um fracasso total.
– Eu ficaria magoada com esse resumo – disse a menina ruiva muito sabiamente – mas vindo de você, sei que significa algo acima da média, e até que isso é bastante bom.
– BD –
1992, Expresso de Hogwarts.
A Sonserina não estava nada satisfeita com o desfecho da copa das casas, e o clima geral de inconformismo assombrou o humor daquela parte do trem na volta para Londres. Sentada numa cabine onde também estavam Rockwood, Oltman e – para o seu horror – o capitão do time da sonserina e sua terrível dentição, Flint, Bervely escutava já há algumas horas as mil maneiras pelas quais seus colegas gostariam de infligir dor ao grupo pequeno da Grifinória responsável por virar o jogo e ganhar cento e sessenta pontos para a sua casa, aparentemente tirados do seu chapéu.
– Aquele velho tendencioso odiável – Rockwood grunhia, pela quinta vez, torcendo um jornalzinho de guloseimas que recebera mais cedo, até que virasse um charuto – Eu aposto que ele foi da Grifinória há trezentos anos atrás ou seja lá quando ele frequentou a escola. Devia ser proibido colocar diretores parciais para assumir, a não ser é claro que eles fossem sonserinos!
– Talvez Potter e os outros tenham merecido um agrado pelos serviços prestados – disse Pacey azedamente – Mas cinquenta pontos pra cada? A última vez que alguém ganhou cinquenta pontos assim na sonserina foi quando Tayla Wyler mostrou os peitos pra o professor Binns, antes de ele virar fantasma!
– Isso é boato – disse Flint genialmente – Wyler tinha os peitos caídos, nunca iam valer cinquenta pontos.
– Seu nojento – Pacey lançou seu melhor olhar de asco para o colega – Como pode saber disso? Você nem era nascido.
– Meu avô tem uns recortes de revista no porão, de quando ela posou na PlayWizard.
– Eu acho que vou vomitar. – Sia anunciou fingindo náuseas – Quem convidou Flint pra essa cabine? Eu pensei que tínhamos decididos que só íamos deixar os humanos entrarem.
Bervely deu um sorrisinho para o comentário, mas de forma geral não estava interessada no desfecho da copa das casas. Ela teria torcido em uma outra ocasião, e ela certamente sentira uma pancada no ego quando Dumbledore mudara a decoração do salão para vermelha e dourada na noite anterior, mas agora tudo em que podia pensar era em como ia aguentar outro verão inteiro na Mansão, jogando o “faz de conta que ninguém sumiu” com seus tios e primo.
– Black. Tem um minuto?
A cabine se calou quando Holmes entrou e se virou para Bervely, sem reconhecer a presença do resto deles. Era em momentos como esse que ela gostaria de sacudir Holmes até ela cuspir fora a razão pela qual se tornara, num intervalo de poucos meses, uma vadia sem consideração que achava o resto do mundo um séquito de súditos.
Pensou em lhe dar uma resposta mal educada, mas sabia o que ela queria, então assentiu, se levantando.
– Melhor ser só um minuto mesmo.
Elas entraram numa cabine de manutenção a alguns metros dali, tomando cuidado para não serem vistas. As cabines de manutenção eram onde, normalmente, os alunos mais velhos entravam em pares para dar uns amassos de despedida antes do trem chegar ao seu destino final.
– Lumus – Bervely ordenou a sua varinha, que jogou sobre elas luz esbranquiçada, tornando imediatamente a pele de Holmes mais branca, e seu cabelo mais vermelho. Ela lhe estendeu uma caixa de madeira com buracos, tudo na sua expressão indicando que fizera-lhe um enorme favor e esperava no mínimo uma reverência e beijos na barra da sua capa. Tudo que Bervely fez foi um aceno mínimo de reconhecimento com a cabeça.
– Vê se não traz ela ano que vem, eu tenho teia de aranha sobre todos os meus vestidos bons. Tem ideia do quão difícil é tirar teia de lantejoulas, mesmo com magia?
Por que Tara precisava de vestidos como aqueles em Hogwarts, estava muito além da compreensão de Bervely.
– Próximo ano eu escondo ela melhor de Greengrass. Ou então eu ameaço logo raspar a cabeça dela enquanto estiver dormindo, e ela me deixa em paz de uma vez.
Um sorriso despontou no canto dos lábios de Holmes, mas ela o segurou.
– Pra mim tanto faz, desde que eu não tenha que ouvir mais gritos de madrugada.
– Ótimo.
Elas ficaram se olhando num silencio muito constrangedor por um momento, porque parecia que havia mais coisa a ser dita, mas nenhuma delas queria ser aquela que perguntaria primeiro. Da sua parte, Bervely nunca era a que cedia, então o fato de Holmes ter se tornado alguém que também não dava o braço a torcer as deixava num entrave de difícil solução.
– Se é tudo, eu vou voltar para a cabine dos monitores.
– Divirta-se. – desejou, zombando.
Holmes deixou escapar ar pelo nariz, impaciente, e se desvencilhou dela para deixar a cabine, mas então pareceu pensar melhor e se voltou com os olhos estreitos. Bevy achou que ia ter que ouvir mais sobre teias e vestidos, e já foi ficando mau humorada. Havia um certo limite sobre o tanto de futilidade que podia aturar num dia, e já houvera muita especulação sonserina na cabine até o momento.
– Vai dar a Hogwarts a honra da sua presença no ano que vem?
A pergunta a pegou de surpresa. Holmes se importava? Em seu rosto tudo que aconteceu foi um leve franzido entre as sobrancelhas.
– É só que você sumiu uma vez. Quem garante que não vai sumir de novo?
Havia toda uma máscara de indiferença desinteressada no rosto de Holmes, mas agora estava muito difícil para Bervely se deixar levar por ela.
– Eu acho que vou preferir cultivar o suspense, nesse caso.
– BD –
Uma semana inteira.
Foi o quando Bervely aguentou do Teatro Malfoy, Segundo Ato, até decidir que para ela bastava. Não é que as férias estivessem ruins, na verdade, estavam surpreendentemente suportáveis, principalmente porque ela achava que o seu tio estava tramando alguma coisa, o que o deixava muito ocupado para odiar a sua existência.
Narcissa oscilava entre cercá-la de atenção cuidadosamente calculada, e portanto dificilmente genuína, e esquecer que ela existia. Isso acontecera algumas vezes: ela calculava errado o numero de taças no jantar, ou ela parecia surpresa quando Bervely descia para o café, como se tivesse esquecido que havia mais alguém na Mansão além do seu marido, filho e empregados.
Às vezes ela quase parecia a Narcissa de antigamente, mas então Bervely piscava, e não estava mais ali. Algo se quebrara na relação entre as duas, e a mulher que lhe dera colo em todas as suas febres, por alguma razão já não estava lá.
Além de tudo isso ser péssimo o bastante, haviam os sonhos. Os chamava de pesadelos, apesar de não ser como aqueles aterrorizantes, causados pela rosa em seu braço. Eram só… irritantes, os sinos. Uma centena de sinos tocando acusadoramente em pares de três e lhe deixando completamente louca noite adentro, e quando acordava, estava tão cansada que parecia que não dormira.
Tudo bem, pensou na noite de domingo, após acordar de mais um desses sonhos, junto com os primeiros raios de sol. Tudo bem, já basta.
Quando Draco passou pelo corredor para ir tomar café, deu uma olhada para dentro do quarto e viu Bervely arrumando as malas. Resistiu em perguntar – prometera a si mesmo que ficaria longe dela o quanto pudesse – mas a sua curiosidade venceu, não sem certa exasperação.
– O que pensa que está fazendo?
De primeira, ela o ignorou. Precisava se concentrar em tudo que ia precisar levar.
– Hey! Eu não vou permitir que perturbe mamãe novamente com a suas loucuras, Bervely. É melhor desistir agora mesmo do que quer que esteja aprontando!
– Não posso desistir. – ela disse, sem se incomodar em olhar para ele. Uma vez a decisão tomada, já não havia tempo. Precisava ir imediatamente. Estava mais de um ano atrasada.
– Desistir de que?
– A minha promessa.
Draco deu um suspiro de exasperação, parado ali e louco para apenas comer seu cereal com leite, sem ter problemas com a prima maluca, se não fosse pedir demais.
– Ok, se você vai ficar falando em frases incompletas só pra me irritar…!
– Não quero te irritar, Draco. – Bervely colocou a última coisa na mochila, um mapa mágico da Europa equipado com um feitiço de localização que arrancara de um atlas velho, e puxou o zíper. Só então se permitiu erguer o rosto, sabendo que estava despenteada e provavelmente com os olhos inchados, mas sem se importar muito – Eu prometi que ia estar sempre lá para ele, como ele sempre esteve para mim. E agora eu eu preciso ir.
– Ir…? – o menino arregalou seus olhos, alarmado.
Mas não havia razão para alarme, na verdade era muito óbvio, agora ela via, e estava calma, mais calma do que estivera em qualquer momento desde que acordara no Hospital St. Mungus.
– Ir atrás de Hector. Como eu devia ter feito desde o primeiro momento.
(Continua…)
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