Notas iniciais
Aye! Após um pequeno hiatus estamos de volta, reta final! Prestem atenção nas datas, o capítulo não é linear. Boa leitura!


You can’t run from the shadow
But you can invite it to dance

(Você não pode fugir da sombra
Mas pode convidá-la para dançar)

Tanya Geisler


19 de janeiro.

Alguém batia à porta. Ele colocou de lado o penúltimo de uma pilha de ridículos trabalhos dos terceiranistas sobre a poção Redutora, pensando que tipo de emergencia seria essa, afinal, já passava da meia noite.

Suas fichas estavam em Dumbledore, que gostava de aparecer rodopiando vestes brilhantes e fazendo pedidos absurdos noite adentro. Severus, você tem algo para constipação crônica de pássaros? Severus, você renovou a assinatura do Semanário Alquimico para esse semestre? Severus, será que você poderia, por favor, fazer uma poção que mantenha meu sorbet de limão congelado a noite inteira?

Mas o que entrou para o seu laboratório foi uma adolescente agitada com duas meia-luas roxas embaixo dos olhos, vestida em pijamas. Seu cabelo estava caótico como se tivesse acabado de levantar da cama e o olhar dela passava através dele com uma resolução aguda.

— Severus, me deixe fazer.

Antes que pudesse fechar a porta, um gato prateado se esgueirou para dentro do laboratório e saltou no balcão. Ele fez cara feia para o animal e o colocou na fila de implicâncias que estava pronto a listar:

— Srta. Black, você sabe que horas são?

Bervely não lhe ouviu. Ela andou até o armário de ingredientes, escancarou as portas duplas e começou a tirar coisas. Qualquer outro ser humano que ousasse mexer em seu estoque daquela maneira seria retirado do aposento sem uma camada de pele sobre os músculos.

— Eu posso fazer. Eu sei que posso. Me deixe fazer.

— Bervely, nós tivemos essa conversa. Seja razoável, será que já não basta…

— Nós não tivemos essa conversa – ela disse enfática, beirando o aborrecimento, ao enfileirar uma serie de coisas no balcão. Lúpulus, raiz forte, essência de lupiácia. O gato desfilou até ela e cheirou cada um dos frascos, como se fosse o inspetor de qualidade. – Nós tivemos você dizendo que era uma insanidade, uma arrogância e uma atitude desesperada pressupor que eu conseguiria!

— Sim, exatamente. Posso repetir os meus argumentos, mas parece que você já os tem decorados e me pergunto porque isso não é o suficiente.

— Por que você está errado! – ela exclamou, pousando com muita força a garrafa de seiva lunar no balcão. O gato miou indignado, olhando feio pra a dona. O mesmo fez Snape.

— Bervely, já basta!

— Não! Onde está a raiz de acônito? Eu preciso que seja fresca, isso aqui está velho e seco.

— Não mexa nisso sem luvas! – ele atravessou a distancia até ela com irritação e arrancou o pote de suas mãos. – Bervely, retorne agora mesmo ao seu quarto. Eu não ligo se está se torturando com remorso ou se mal pode conviver com si mesma pelo que fez, isso não significa… ah, em nome de Salazar, tire esse gato de cima da mesa de trabalho!

Ela estava vermelha, mas ainda assim abaixou o olhar para o gato. Sem que precisasse falar nada, ele desceu e foi se enrolar em seus tornozelos. Bervely o pegou no colo, acariciou entre suas olheiras e voltou a encarar o professor, muito séria.

— Isso não é sobre remorsos, professor. Eu estou dizendo que consigo fazê-la, eu estive aqui todas as vezes que fizemos juntos, eu prestei atenção em cada passo, nas medidas, nas proporções e em todas as tabelas do maldito livro.


— Há uma razão para o ‘maldito livro’ ser obrigatório para o preparo – disse ele, ao mesmo tempo em que andava até a última gaveta do armário de livros de poções e retirava algo lá de dentro. Ainda estava enrolado no cachecol, do mesmo jeito que ela lhe entregara, como se fosse o corpo de um pequeno animal morto. Snape o jogou em cima do balcão, pó preto de carvão espalhando-se com um rastro, escapando das brechas da malha – Ele registra todas as medidas usadas em cada produção. Se algo der errado, é assim que e provo que segui as instruções à risca.

Ela tinha desviado os olhos do livro, como se vê-lo irritasse seus olhos. O que era engraçado, visto que ela mesma lhe entregara aquilo há quinze dias, junto com um bilhete desaforado que dizia “ai está, ninguém falou que precisava ser devolvido inteiro”.

— Dane-se o maldito livro. Se algo der errado, eu me responsabilizo pelo erro, infernos.

Ele lhe de um olhar grave. Já aturara bastante de sua atitude, estava em muito esticando sua tolerância ao deixa-la entrar ali no meio da noite e fazer exigências incabíveis. Sem dizer nada, se moveu até a porta e a abriu. Seu olhar foi claro o bastante: fora.

Bervely abriu a boca para protestar, mas havia uma promessa homicida no olhar do professor que a impediu. Ela ergueu o queixo e saiu do laboratório com passos cheios de dignidade.

— Bom descanso, senhorita Black.

Bateu a porta atrás dela com um clique enfático, rolando seus olhos em seguida para o defunto carbonizado de Wolfsbane Edition no balcão. Seus olhos se demoraram nele um segundo, mas Snape meneou a cabeça para si mesmo. Era um absurdo sequer considerar a possibilidade, ele decidiu, voltando para a sua pilha de correções.

— BD –

Duas semanas antes, 2 de janeiro.


Nós podemos, por favor, por favor, visitar tio Remus hoje?

Bervely ergueu os olhos do ensaio de Transfiguração que estava terminando, aproveitando a pausa para esticar a coluna dolorida. Como consequência das suas ‘aventuras’ de Natal, todas as atividades do recesso tinham ficado para última hora e ela estava sentada naquela cadeira pelo que pareciam alguns séculos.

— Eu te levo lá mais tarde. – disse distraída, molhando a pena. Ainda tinha meio metro de pergaminho pela frente e queria se livrar daquilo o mais rápido possível.

— Não estou pedindo ajuda. Consigo ir sozinha, só quero que você vá junto, ele gosta quando você aparece.

Ela fez uma pequena careta para o papel, sem dizer nada.

— Bervely Rose Black, você está fazendo careta? – Anne retrucou com severidade, adivinhando.

— Não, pirralha, só estou ocupada. E essa é a razão pela qual não vou visitar seu padrinho lobisomem. Mas, vá em frente. Você já está enfiada aqui há uma semana, esse ar estagnado das masmorras vai acabar lhe fazendo mal.

— Estou enfiada aqui porque você está enfiada aqui. – ela informou, virando uma página do livro que tateava com as pontas dos dedos. – Se eu preciso respirar ar puro, então você também precisa.

— Seu raciocínio teria lógica, pequena águia, mas você está esquecendo que as masmorras são minha casa. Sonserinos não precisam de tanto oxigênio quanto o resto dos mortais.

Anne rolou os olhos – algo que Bervely podia vê-la fazer agora, pois ela deixava os óculos de lado quando estavam só as duas. Saltou da sua cama alta, o cabelo inflando atrás de si com o movimento. Tateou seu caminho até o cabide e encontrou o próprio casaco.

— Posso levar Jinx pra mostrar à ele?

— Se você conseguir. – disse, com um meio sorriso.

Jinx se enfiou numa prateleira alta e ficou olhando desdenhoso para baixo enquanto a caçula o procurava pelo quarto, chamando debaixo da cama, dos armários e dentro da banheira. Ela finalmente desistiu, resignada.

— Ele deve estar fora caçando, ou algo assim.

— Deve. – Bervely concordou, tentando não transparecer o riso pela voz. – Bom passeio.

Anne resmungou de novo algo sobre Bervely não ver a luz do sol, enquanto colocava os óculos no rosto. Estava saindo quando a irmã mais velha a chamou.

— O quê?

— Não fale nada com Lupin sobre Black. – advertiu.

— Eu não ia! – ela se defendeu, suas bochechas ganhando um tom rosado. Depois pensou melhor, voltou e inclinou a cabeça para dentro do quarto – Mas será que se a gente explicasse direitinho…

Não, Anne. – replicou com severidade. – Nem uma palavra. Ele não vai acreditar sem provas.

— Mas eu acreditei! – ela protestou.

— Isso é diferente. Você vai prometer? Ou eu vou ter que te colocar um feitiço trava língua para você guardar segredo?

— Eu não vou contar, Bervely. – disse amuada. – Argh, você às vezes é tão chata.

Anne fechou a porta. Bervely deu uma olhada para Jinx lá em cima, todo orgulhoso de sua escapada, e estalou a língua em descrença.

— Se o Chapéu fosse selecionar você, já saberíamos qual seria o veredicto, não é mesmo?

Anne retornou duas horas mais tarde, atipicamente silenciosa. Àquela altura Bervely já terminara seu ensaio para McGonnagal e tinha dado uma geral no quarto, recolhendo os indícios da furiosa partida de Snape Explosivo da noite anterior e também as peças de xadrez espalhadas pelo quarto. A irmã vinha tentando lhe ensinar a lógica do xadrez no fim do recesso, mas Bervely constantemente perdia a paciência com todas aquelas regras ou então mudava de estratégia no meio do jogo e recebia bronca. Por fim, as peças viraram o brinquedo preferido de Jinx, já que elas saiam quicando quando ele as perseguia e se escondiam em pequenos cantos obscuros do quarto, garantindo horas de distração.

Por ser a última noite do feriado, Bervely achou que Anne ia querer jantar no Salão Comunal. Todos os outros estudantes que tinham viajado para visitar as famílias estavam de volta agora, e ela poderia comer na companhia de seus colegas de casa, ao invés de fazer as refeições ali no quarto.

— Não, eu vou ficar. Pode ir se quiser. – foi a resposta que recebeu. Só então ela notou que a menina não tinha se movido muito do lugar onde estava, encarapitada em sua cama com um livro em cima das pernas cruzadas. Foi acima de tudo o tom amuado que chamou a sua atenção.

— Sério? Lovegood vai estar lá, você não reclama há uma semana sobre como ela é muito melhor companhia de xadrez bruxo do que eu?

— Eu só disse que ela mantém uma estratégia mais coerente. Além do mais não tem xadrez no jantar.

— Você me entendeu. – suspirou, indo até a cama e dando um tapinha no topo da cabeça dela. – Hey, pirralha, qual o problema? Tio Lobisomem não estava legal hoje? – então Bervely teve um mau pressentimento do que poderia ter acontecido – Não me diga que você falou alguma coisa sobre Black e ele…

— Não, Bervely, eu não falei nada. – ela rosnou, cruzando os braços e fechando a cara. – É outra coisa.

— Você vai dizer, ou eu vou ter que roubar uma bola de cristal do colégio para descobrir?

Anne bufou longamente, virando o rosto. Era raro vê-la tão chateada, especialmente desde o natal. Ela normalmente estava falante, entediada ou lhe azucrinando o juizo, fazendo um milhão de perguntas e investigando cada centímetro do seu dormitório em busca do que fazer. “O que é isso?” tinha sido a pergunta mais ouvida dentro daquelas paredes na última semana.

— Tio Remus não está bem. – ela disse por fim, num tom baixo.

— Bem, isso é esperado, não? A lua cheia foi há pouco tempo.

Anne balançou a cabeça, apertando os lábios, incerta de como explicar.

— Eu acho… eu acho que esse mês foi pior. Ele não quis me dizer, mas deu pra perceber, sabe. Ele se move mais devagar, fala de um jeito mais lento, eu não sei. Eu acho que ele se machucou mais do que nas outras vezes. Você acha que foi porque ele precisou voltar para casa e passou o natal sozinho?

— Não. Eu não acho que foi por isso.

Ainda que ver Anne aflita daquele jeito torcesse seu coração num nó, Bervely não podia dizer a verdade sobre porque a transformação fora ruim para Lupin aquele mês — ou ela não queria

— Você pode fazer alguma coisa para ele se sentir melhor? Uma poção, ou…

— Lupin é competente o bastante para fazer suas próprias poções regenerativas, Anne.

— Mesmo assim, seria legal da sua parte, sabe. – murmurou ela. Naquele mesmo silencio carregado, retornou à tarefa de desvendar um livro trouxa cheio de bolinhas em alto relevo ao invés de letras.

Bervely suspirou com impaciência. Ela tinha mais o que fazer do que ficar circulando Lupin com ajuda não solicitada. Seu relatório trimestral de monitoria e aquela redação de oitenta centímetros sobre o curso de vida do Espinheiro-Rei não iam se escrever sozinhos.

Lá pelas sete da noite, os elfos mandaram o jantar das duas para o quarto. Eles já tinham feito disso um hábito ao longo daquela semana, inclusive acertando em suas comidas favoritas. Bervely se perguntou quando, exatamente, sua irmã caçula tinha se tornado sua colega de quarto.

Os elfos também tinham instalado uma cama de armar ao lado da sua. Parecia desnecessário que a menina voltasse à sua torre vazia só para dormir, já que ela passava o dia ali. A maior razão disso era que havia tanto que Anne queria saber que ela não conseguia deixar Bervely em paz.

Como Bervely tinha conhecido Black, e quando. Como eles tinham se reencontrado. Como exatamente ela tinha ajudado em sua fuga da prisão, e o que aconteceu depois. Como ela descobrira que ele era inocente e decidira ajudá-lo. Por que ela tinha demorado tanto para lhe contar toda a historia. Bervely repassara cada uma das respostas até a curiosidade da irmã ser suprida, em retorno se surpreendendo com a sua aceitação natural para as respostas absurdas. Anne nem piscou quando Bervely lhe contou que tinha usado o corpo de outra pessoa para entrar em Azkaban. Ela ficou preocupada, mas não horrorizada, com o modo como tinham escapado por pouco de ser pega pelos aurores durante a fuga. Ela queria conhecer o castelo onde tinham se escondido e saber como era a aparência de Charlotte Summers.

Bervely prometeu lhe levar ao castelo algum dia. Ela se transformou em Charlotte uma última vez e deixou Anne tocar as suas feições e correr os dedos pelos cachos cor de trigo. Era inesperadamente bom dividir aquelas coisas com uma audiência interessada, que admirava seus feitos e – essa parte fora uma surpresa também – não guardava qualquer mágoa dos segredos mantidos até ali. Johanne era, no fim das contas, uma caixinha de surpresas. Não foi um grande sacrifício tê-la ali pelo resto do recesso, e Bervely quase sentiu muito quando a irmã precisou, no fim da noite, recolher seus pertences e voltar à Torre da Corvinal.

— Não fique ranzinza, eu venho te visitar. – disse a caçula, ainda um pouco cabisbaixa, mas tentando fazer graça. – Trago o meu xadrez e a gente continua tentando enfiar um pouco de tática nesse seu cabeção.

— Na verdade, é melhor você ficar longe das masmorras agora que as cobras, como você diz, estão de volta. Não é seguro ficar zanzando.

— Águias comem cobras, Bervely. – retrucou, naquele tom óbvio e ligeiramente pedante que Bervely achava que os corvinais praticavam uns com os outros em seu salão comunal no tempo vago até ficarem bem convincentes.

— Você é só um passarinho bem pequeno, irmãzinha. – debochou, dando um tapinha na cabeça dela.

Ela permitiu que Anne fosse embora só, mas sugeriu à Jinx que a acompanhasse no caminho até seu salão comunal e o gato acatou, piscando para ela antes de deixar o quarto. Depois que eles foram, Bervely andou até o armário e tirou a Sra.Calliway do maleiro.

Aproveitava os momentos em que Jinx estava fora para dar umas guloseimas à aranha, ainda que ela fosse perfeitamente capaz de pegar a própria comida. Não queria que a velha companheira se sentisse menosprezada em seu território, afinal ela tinha chegado primeiro. Bervely conjurou alguns besouros-de-botão e jogou em cima da mesa, depois ficou observando a aranha ir caçando um por um, com a cabeça apoiada na palma da mão e o cotovelo na mesa, o pensamento longe.

Então Remus Lupin tinha passado um péssimo natal. Bem, ela também tinha, ao menos em parte. Como ele, ela ia levar consigo novas cicatrizes, inclusive se pudessem se tornar cicatrizes, Bervely estaria bastante satisfeita.

Alguém bateu à porta depois que o relógio sobre a sua cabeceira tinha anunciado as onze da noite.

— Oi, você. – disse o seu visitante de um jeito teatral.

Bervely franziu as sobrancelhas, dando-lhe espaço para entrar. Oliver era a única pessoa que saia para as férias de inverno e voltava parecendo bronzeado, corado e bem disposto como se tivesse acabado de chegar de uma cabana na praia. Ele vestia um suéter novo, de listras azuis e brancas, e como sempre, cheirava maravilhosamente bem.

— Wood. – cumprimentou, dando uma olhada a esmo no corredor e fechando a porta.

— Teve um bom Natal, Rose? – perguntou, no mesmo tom enérgico estranho.

— Luminoso. Você?

— Dentro das expectativas. – ele bateu o olho na mesa, onde a aranha do tamanho de um punho devorava os infelizes besouros, e se voltou para ela. – Não te vi no jantar.

— Eu não fui no jantar. – informou, ainda mais desconfiada. Oliver parecia recitar algum tipo de conversa ensaiada.

— Notei.

No silencio seguinte, ele deu uma olhada distraída ao redor do seu quarto. Ela se perguntou o que raios ele estava esperando – onde estavam os longos beijos de língua, as mãos firmes em sua cintura lhe puxando para seu colo? Bervely estava precisando desse tipo de coisa mais do que de conversa fiada. Impaciente, ajeitou o casaco que usava por cima do vestido.

— Você conseguiu terminar o mapa dos doze alinhamentos de Saturno? – ele voltou a perguntar, no mesmo tom de bate-papo.

— Eu tive mais o que fazer no feriado do que sentar minha bunda doze vezes na Torre de Astronomia e ficar olhando um planeta.

Ele pousou os olhos nela de novo, intrigado. Bervely achou que Oliver ia perguntar o que, exatamente, ela tinha feito no feriado, já que ele fora uma das pessoas que Anne alarmara após o seu sumiço do castelo no natal. Mas Oliver fez um desvio completo do assunto e veio com:


— Sabe com quem eu acabei de falar no salão comunal da Grifinória? – Antes que ela desse a sua resposta engraçadinha, ele mesmo respondeu: – Potter.

— Certo. – Bervely já sabia que era melhor não contrariar o curso tortuoso das conversas do capitão.

— Potter. Que me disse que ganhou uma vassoura de natal.

Então não era tão tortuoso assim.

— Mesmo?

— Sim! – exclamou ele, seus olhos se alargando para ressaltar o fato – Adivinha qual? – e novamente, sem deixá-la responder. – Uma Firebolt!

— Hum.

— Uma Firebolt. Como aquela que você comprou – comigo – quando escapamos para Londres. Aquela que você se recusou a me dizer para quem era. Se lembra?

— Hum. – foi tudo que ela disse, tentando ficar tão sem expressão quanto um quadro em branco. Como era de se esperar, Oliver estava quase quicando ali em sua frente. O olhar louco estava de volta.

— Você comprou uma Firebolt para dar de natal. Potter ganhou uma Firebolt de natal.

Seguiu-se silencio às suas palavras. Ele ficou olhando para Bervely como se fosse dela a missão de resolver aquele enigma complexo. Ela soltou uma risadinha pelo nariz.

— Você não pode estar insinuando que eu dei a vassoura a Potter. Porque isso não faz qualquer sentido.

Era como torturar uma criancinha. Ele fez uma cara quase de choro, deu um passo à frente e olhou no fundo dos seus olhos com aquele olhar assustadoramente maníaco.

— Eu sei que foi você. Eu não me importo com o porquê. Eu realmente não me importo. Eu nem mesmo vou te fazer me dizer. Honestamente, se você quer dar uma Firebolt para o meu apanhador, faça isso. A qualquer tempo. Quantas vezes quiser. Para o time todo, se for a sua vontade! Eu te amo por isso. Sério.

— Oliver

Ele nem mesmo pareceu se dar conta do que dizia. Era um pouco assustador.

— Você precisa falar com McGonnagal.

Não era o tipo de frase que ela estava esperando para a sequencia.

— Como é?

Oliver começou a circular pelo quarto, deu uma volta completa em torno de si e bagunçou todo o seu cabelo.

— Ela acha que Black mandou a vassoura para Potter, então a confiscou para fazer testes! Testes com a Firebolt! Vá falar com ela, diga que você comprou vassoura e que está boa. Você precisa–

— Não, eu não vou fazer isso. Deixe-a fazer os testes, ela vai ver que está tudo bem com a vassoura e vai devolver.

Ele abriu a boca e fechou, como um peixe privado de água, ou talvez tentando encontrar as palavras para explicar as implicações catastroficas de se fazer uma serie de testes com uma Firebolt.

— Rose! Sério. Me escuta, você precisa, você tem que dizer… Potter tem que treinar! O time precisa se acostumar a ter uma Firebolt, você não entende, é como ter a taça nas mãos e então ser arrancada…

Ele falou um monte de blá blá blá sobre como ela tinha que ir imediatamente obrigar McGonnagal a devolver a vassoura e Bervely foi ficando entediada. No fim, estava parada no meio do quarto com os braços cruzados e as pálpebras pesando, Oliver estava prestes a se ajoelhar e implorar.

— Eu não vou falar nada com McGonnagal sobre vassoura nenhuma, e nem você vai. Há uma razão para Potter ter recebido um presente anônimo.

— Você está arruinando nossas chances de ter a taça de quadribol, percebe isso? Sabe há quantos anos a grifinória não ganha? Cinco, Rose! Desde Carlinhos Weasley! – ele exclamou, ligeiramente histérico.

— Eu não me importo, Oliver. Pela graça de Merlin. Eu não dou a mínima.

Um fogo contrariado cresceu por trás dos olhos dele, enquanto suas sobrancelhas se encrespavma e a linha do maxilar ficava dura.

— Essa é a sua palavra final?

— Sim. Finalmente você entendeu. Será que podemos dar uns amassos agora? Ou você quer discutir umas táticas de quadribol e eu vou ter que me jogar de algum lugar alto?

— Não dá pra acreditar. – ele estalou, revoltado – Eu faço tudo que você me pede! Vamos ali na prisão dos dementadores, Oliver! Vamos, Rose. Vamos fugir pra Londres e comprar uma vassoura, Oliver. Vamos, Rose. Mas quando eu te peço uma única coisa, você simplesmente...

— Não é simples, isso que você está me pedindo. – ela se impacientou, sem acreditar que ele estava trazendo tudo aquilo à tona por um motivo tão pequeno – Você não entende.

— Não, eu realmente não entendo. — devolveu com acidez, dando um passo seguro para trás. – E sabe o que? Eu não quero entender. – Bervely franziu. – Se você não vai falar com McGonnagal, eu não tenho mais nada para fazer aqui.

— Você não pode estar falando sério.

Mas ele estava. Oliver fez um gesto de ‘é assim que as coisas são’ com sua cabeça, girou sobre os calcanhares e foi embora, batendo a porta ao sair.

Bervely ficou encarando a porta, atônita.

— BD –

O mundo fez ainda menos sentido nos dias que marcaram a primeira semana de aulas de janeiro.

Para começar, Severus Snape não apareceu em sua porta com uma machadinha. Ela pensou que ia acontecer, pois enviara Wolfsbane Edition carbonizado para ele com um bilhete que obviamente seria encarado sem nenhum senso de humor.

Em lugar disso, o professor fora perfeitamente razoável em sua aula de poções da quarta feira. Estavam estudando Sangue da Lua¹, uma poção medicinal para aliviar os efeitos de cólicas menstruais e mudanças de humor em bruxas durante o período menstrual, e o professor fez questão de contar à turma que fora a própria Bervely a sugerir que a poção entrasse no currículo, quando ela ainda era a monitora da disciplina, no ano passado.

Então ele a chamou para a frente da sala para demonstrar a forma exata de triturar a sanguessuga luciferina. Bervely achou que era uma armadilha – que ele ia humilha-la de alguma maneira por sua técnica ou contar que havia um jeito muito melhor de fazer – mas não aconteceu. Ele não disse qualquer coisa e quando os alunos começaram a ter problemas, ele a colocou para ajudá-los.

Nenhuma palavra sobre o livro destruído, sobre ela arruinando sua carreira de pocionista ou traindo sua confiança. Afora o olhar analítico constante do mestre – como se ele procurasse alguma coisa fora do comum nela – nenhum comentário. Bervely não sabia se isso a aliviava ou a alarmava mais. Talvez ele estivesse preparando um castigo tão terrível para ela que precisasse amaciá-la primeiro.

Depois, não houve qualquer visita de Tara Romanesk ao seu quarto, ou outra forma de aproximação furtiva da colega. Isso era tanto um alivio quanto uma preocupação – Tara não deveria estar louca para saber como fora o recesso com Bervely ‘usando seu corpo’, ou para brigar com ela por não ter lhe enviado Wolfsbane?

Nenhuma das duas coisas. Nas vezes em que viu Tara no Salão Comunal ou nas aulas que faziam juntas, a colega parecia ignora-la por completo. Bervely até pensou que ela poderia saber o que tinha acontecido em sua casa no natal, mas então, sua reação não seria diferente? Você não ignora a pessoa que explodiu seu pai e a sua casa. Ainda mais se tratando de Tara, a garota que tinha tentado se jogar de cima de uma pedreira só porque não estava tendo atenção o suficiente.

Bervely ficara atenta aos jornais desde que tudo aconteceu na Mansão Romansek, mas nenhuma reportagem sobre uma mansão bruxa em chamas viera à tona. Isso não a surpreendia – apostava que os terrenos da Mansão Holmes na Inglaterra ficavam fora do alcance da mídia por feitiços muito poderosos.

Da mesma forma, nenhuma nota para Gavril Romansek ou Holmes surgira no obituário naquelas últimas semanas.

No sábado seguinte, Corvinal e Sonserina jogaram uma contra a outra num dia luminoso e com pouco vento. Bervely compareceu ao jogo com a sua camisa de madrinha de goles que, em sua opinião, lhe caiu muito melhor do que o uniforme da escola. Quando Sia Rockwood lhe viu com a camisa, ela lhe abduziu para a torcida organizada e forçou pompoms em suas mãos. Quando a sonserina fazia gols, eles explodiam em uma chuva de estrelas verdes e pratas sobre a arquibancada. Bervely naturalmente se recusou a sacudí-los.

Ela também descobriu qual era a exata função de uma madrinha para o time.

— Você tem que beijar a Goles. – Flint explicou, sorrindo com todos os seus setenta e quatro dentes, pouco antes da Sonserina entrar em campo.

— Desculpe?

— Beijar. É um rito de boa sorte. Se você não beijar, o time vai entrar azarado.

Ele falava aquilo com o melhor sorriso zombeteiro em seu rosto. Era óbvio que estivera esperando o momento ansiosamente só para ver a exata cara que ela estava fazendo agora. O resto do time, reunido em seu entorno, também sorria em vários estágios de diversão. Até mesmo Draco tinha o seu grande momento, um esgar torto em sua boca puxando para o lado esquerdo.

— Você está dizendo que quer que eu encoste minha boca nessa coisa asquerosa e que se eu não fizer, o time vai perder o jogo?

— Exato.

Mme. Hooch apitou na porta do vestiário, irritadiça. Eles eram supostos a entrar agora, e a resistência de Bervely os estava atrasado. Não que qualquer um parecesse com pressa.

— Você se comprometeu, Monitora Black. Não vai dar para trás em sua palavra agora. – Montague zombou em seu cangote, quase cantando. Os outros brutamontes deram risadas.

Ela se empertigou. Palavra era uma coisa muito séria na casa da Sonserina.

— Isso tem volta, Flint.

— BD –

Sonserina ganhou, mas o jogo foi apertado e só terminou quando já estava anoitecendo.

Havia uma festa nas masmorras agora. Bervely podia ouvir, mesmo através da sólida porta que separava seu dormitório do salão comunal, as batidas de uma música, a qual fazia força para ignorar. Não se sentia particularmente festiva; seu braço inteiro doía, do topo do ombro até a ponta dos dedos. Como toda noite, ela estava trocando o curativo que fazia em sua queimadura desde o natal. Consistia em uma grossa camada de pomada ditamno para aliviar o queimor e deixá-lo dormente e um monte de atadura para não ter de olhar pra ele.

Não dava para dizer que estava melhorando.

O ruído de arranhões em sua porta lhe indicou que Jinx terminara a caçada noturna e estava de volta. Bervely pegou a varinha em cima da mesa e acenou, abrindo uma fresta para deixá-lo entrar. O gato miou e saltou em seu colo, as patas ainda sujas de terra.

— Você cruzou com ele por ai? – ela perguntou, afagando entre as orelhas prateadas. Ele esfregou a cabeça em seu braço direito, lhe mostrando uma imagem escura de algum ponto da floresta e uma grande sombra negra. Do ponto de vista de Jinx, o cão parecia ainda maior do que era, praticamente um urso das montanhas. – Ele está bem?

Faminto.

Faminto era contornável, ela pensou. Comida era algo que não devia faltar na floresta. Será que Sirius achava ruim comer animais crus e recém caçados, quando estava em forma de cão? Depois se lembrou da forma como ele atacara o frango assado daquela vez antes do natal e fez uma nota mental de enviar comida de verdade pra ele quando tivesse a chance.

Sozinho.

Bervely suspirou e colocou o gato no chão.

— Você não precisa me dizer isso. Eu sei.

Com seu humor arruinado, Bervely terminou de guardar o kit de curativo e vestiu um casaco quente. Tecnicamente, ela precisava fazer a ronda do sábado. Tinha em muito passado da hora, mas podia falar aos professores que se atrasara por causa do jogo e tudo mais.

Explicar porque estava fazendo ronda do lado de fora, na orla da floresta, era outra coisa. Por mais que Snape viesse sendo estranhamente condescendente com ela, Bervely não achava que ele ia reagir bem se soubesse que estava vagando fora do castelo depois do toque de recolher, depois de tudo.

Oh, dane-se. Prendeu o cabelo num cabo de cavalo alto, enfiou a varinha no bolso, caçou seus sapatos e saiu pela porta independente. Jinx parou de lamber as patas traseiras e foi atrás dela como uma sombra prateada, iridescendo quando alguma nesga de luz alcançava seu pelo.

Ela ainda estava no corredor das masmorras, pensando no melhor jeito de sair do castelo, quando ouviu um barulho atrás de uma porta. Parecia um gemido. Bervely se deu conta que era a mesma sala que, há alguns meses, encontrara Tara num momento intimo com a lufa-lufa de tranças. Imaginar que atrás daquela porta havia uma cena parecia piorou ainda mais seu já intempestivo humor.

— O que você acha, Jinx? Detenção ou humilhação pública?

Poderia, é claro, passar direto. Talvez nem mesmo fosse Tara. E Merlin sabia como ela não queria flagrar, digamos, Flint vitimizando alguém numa sala vazia, isso era material legítimo de pesadelos.

No final das contas, ainda era a monitora chefe e não podia simplesmente ignorar o fato. De má vontade, Bervely destrancou e empurrou a porta, revelando o interior da sala de aula vazia.

O principal componente da sala era uma janela que ficava do lado oposto, ocupando quase a parede inteira. Dava para o lago negro, devia ter servido para aulas sobre as criaturas marinhas, uma espécie de observatório da lula gigante ou dos hábitos dos sereianos, talvez? Naquele momento, nenhum animal era visível através do vidro grosso, apenas uma fonte de luz indefinida iluminava a água e a filtrava para dentro da sala, fazendo-a parecer, ironicamente, o interior de um aquário.

Era na frente desse paredão de vidro que Tara estava, sentada sobre o parapeito, as pernas encolhidas contra o corpo. Sozinha, se fosse possível desconsiderar a companhia de uma garrafa quadrada de vidro em sua mão. Estava cheia pela metade com líquido âmbar, que se Bervely fosse adivinhar, vinha sendo esvaziado com certa constância na última hora.

Ela percebeu que o que tinha ouvido não eram gemidos, mas soluços.

Pensou em dar meia volta e ir embora; Tara não dera qualquer sinal de vê-la entrar ali.

— Você é uma covarde, sabia? – disse a ruiva em voz alta, no entanto, quanto Bervely fez menção de sair.

Bervely apertou a maçaneta na mão e mordeu a parte interior de suas bochechas. Assistiu Tara dar mais um gole longo em sua garrafa, de forma automática e descuidada.

— Covarde. – ela repetiu, saboreando a palavra, estalando-a em sua língua. – E eu uma idiota, por achar que podia contar com você.

— Bom que colocamos isso em termos. – devolveu, soando casual. – Não íamos querer deixar algo assim subentendido.

— Saia da minha sala! – ela exclamou de repente, fazendo um movimento errático com a mão. – Saia!

A garrafa escorregou e saiu deslizando pelo chão, indo parar debaixo da mesa. Tara xingou, tentou levantar e quase caiu, precisando se apoiar na mesa. Ela desceu devagar pelo pé do movel e ficou ali, agachada e praguejando.

— Merlin. Você está tão bêbada.

— Me deixa em paz, Bervely. Me. Deixa. Na. Droga. Da. Minha. Paz.

Com um suspiro pesado, Bervely atravessou a sala, se abaixou e pegou a garrafa antes que Tara a alcançasse. Ela cheirou o conteúdo, mas não reconheceu a bebida e nem pretendia prová-la – só o cheiro forte já a deixou meio embriagada.

— Me devolva isso.

Ignorando, a monitora-chefe deu a volta na mesa e sentou no largo parapeito, pousando a garrafa ao seu lado. Tara a acompanhou com seus olhos de gata irritada, fuzilando. Seu cabelo estava preso numa trança bagunçada, usava calças justas e uma camisa folgada do time, ainda que Bervely não a tivesse visto no jogo mais cedo.

— Posso ao menos entender porque eu estou sendo ofendida aqui?

— Oh, você sabe o porquê! – chispou a ruiva, se levantando com toda a concentração e indo na sua direção. – Eu te mandei uma maldita carta! Eu sei que a recebeu, porque Wy sempre entrega minhas cartas, ele te encontraria no inferno se precisasse! Mas você nem mesmo respondeu!

— Eu estava ocupada. – justificou. Pensou em dizer que a coruja tinha mesmo lhe encontrado no inferno, mas achou melhor não mexer naquele vespeiro.

— É mesmo? Eu posso imaginar. Se divertiu com meu corpo, Bervely? Aposto que sim. É um corpo ótimo para se estar, né? Agora, será que tinha alguém da sua família se transformando em lobisomem em pleno natal e precisando de uma droga de poção para não se destruir completamente? Não, eu acho que não, né? O que foi que houve? Seu padrinho queridinho descobriu que você estava contrabandeando a poção dele e te colocou de castigo? Ele ameaçou tomar seu distintivo se você continuasse? Tomar seus previlégios? A preferida dele ia ficar sem seu precioso quarto para poder foder com o capitão da casa rival?

— Sangue de Salazar, Tara…

— NÃO! – ela exclamou agudamente, apontando um dedo pontudo para ela – Não me venha com seu deboche, Bervely. Eu estou tão cansada de você. Você não se importa com nada a não ser seus próprios problemas! Eu não sei que merda eu tenho na cabeça pra confiar em você! Custava – custava— ter mandado a poção essa última vez? Era natal, pelo amor de Merlin!

Bervely deu uma risada sem humor, destampou a garrafa e tomou um pequeno gole no que quer que aquilo fosse. Era doce, quente e desceu pinicando em sua língua. Tara arregalou os olhos em ultraje, como se ela tivesse acabado de profanar seus deuses romenos.

— Não beba meu rum! Eu não te deixei beber o meu rum!

Ela fez uma pausa dramática, se jogou ao lado de Bervely no banco e deixou a cabeça cair pesadamente nas mãos.

— O livro que tem a receita da poção foi destruído, por isso não foi possível fazê-la esse mês. – explicou Bervely, com toda a sua sóbria paciência.

— E daí? Você é a rainha das poções, não precisa de receita. Faz de cabeça. Faz de olhos fechados e pendurada de cabeça para baixo, sei lá, você consegue, não me venha como uma desculpa furada como o livro foi destruído! Já te vi fazendo poções de cor um milhão de vezes!

Bervely cerrou os olhos. Não ia explicar para Tara Bêbada a incrível complexidade da Poção Wolfsbane, quando nem mesmo Tara Sóbria teria entendido.

— Não é tão simples.

Engraçado, não era a primeira vez que usava o argumento nos últimos dias. Na verdade, era impressão sua ou aquela briga era um grande Déjà Vu?

— Eu te odeio! Sabia disso? Eu te odeio. Muito. Eu quero que você vire uma barata nesse momento, pra eu te esmagar na sola do meu sapato, isso é o quanto eu te odeio agora mesmo.

— Eu ainda não estou tão boa em transfiguração.

— Idiota.

Bervely deu mais um gole e então lhe devolveu a garrafa. Tara a acolheu como uma mãe que recebe o filho separado ao nascimento, a aninhando carinhosamente na curva do seu braço.

— Anda, vou te levar de volta para o seu dormitório. Por mais divertido que isso esteja sendo. – acrescentou sarcástica, pegando a ruiva por um braço e tentando levantá-la. Quando Snape tinha lhe dado aquele distintivo, ele não dissera qualquer coisa sobre devolver colegas embriagados para a cama tarde da noite. Sentia que o contrato de monitoria precisava ser seriamente reformulado.

— Não. – Ela resistiu, teimosa, pesando seu corpo. – Olga está lá.

— Olga é sua melhor amiga. Vocês são inseparáveis desde que você entrou em Hogwarts… ou desde quando eu entrei, pelo menos.

— Olga é insuportável. Eu só a aturava pra você não pensar que eu não tinha nenhuma amizade em Hogwarts. Mas era melhor eu ter ficado amiga da lula gigante, porque até ela é menos pegajosa do que aquela menina.

Bervely a fez se levantar e a guiou – ela e a sua garrafa – para a porta, um pouco instável mas definitivamente se movendo, pelo menos até saírem da sala. Tara pareceu ligeiramente mais sóbria sob o ar estagnado do corredor.

— Por favor não me obrigue a aguentar Olga essa noite. Eu vou matá-la, sei que vou. Ela esteve o dia inteiro falando sobre como é importante que ninguém toque em sua escova de cabelo, mesmo quando ela a deixa sobre a pia do banheiro toda maldita vez cheia de cabelo nojento, como se fôssemos obrigadas a saber todas as duzentas vezes que ela o escova no dia.

— Eu pensei que você me odiasse.

— O que uma coisa tem a ver com a outra?

Bervely suspirou e virou para o lado oposto ao que as levaria para o salão comunal. Jinx, que sumira durante aquele momento de interação delas na sala vazia, reapareceu vitorioso com uma lagartixa ainda se contorcendo em sua boca.

— Gatinho bonitinho – Tara cantarolou, tentando abaixar para afagá-lo, mas quase perdendo o equilíbrio.

Ela se jogou na cama de Bervely no momento em que a garota abriu a porta.

— Tara, sapatos! Francamente.

As botas foram chutadas de qualquer jeito para fora. Tara abraçou o travesseiro de Bervely contra seu corpo e soltou um murmúrio feliz, enfiando sua cara nele.

Jinx saltou na cama, já tendo devorado seu lanche noturno. Deu de cara com a ruiva ocupando todo o espaço. Ele deu um miado indignado.

— Eu sei como se sente. – afirmou Bervely, franzindo os lábios.

A cama ‘de Anne’ ainda estava ali do lado, perfeitamente disponível. Bervely poderia usá-la. Ela até ficou um tempo ali parada, considerando, mas decidiu não dar essa ousadia à Tara de ter uma cama só pra ela. Deitou na faixa estreita de colchão que conseguiu conquistar, após arrancar a garrafa da mão fechada de Tara e colocá-la no chão. Apagou a luz e tentou manter uma distancia razoável da outra sonserina, que cheirava como uma esponja encharcada de rum e cereja.

Quando já tinha passado muito tempo e Bervely quase pegara no sono, ela ouviu Tara murmurar qualquer coisa.

— O quê?

— Dezoito.

— Dezoito o quê? – perguntou confusa, achando que ela estava sonhando. Mas Tara soou muito desperta:

— Essa foi a quantidade de vezes que Bae se mordeu durante a noite de natal.

— Ah.

— Sabia que as cicatrizes de mordidas de lobisomens ficam na pele para sempre?

Não. Ela não sabia.

— BD –

19 de janeiro— o dia da Dança — uma hora mais tarde.

Snape teve a nítida impressão de que ouvira batidas na porta do laboratório de novo.

Ele atravessou seus aposentos, as vestes de dormir rodopiando em seus tornozelos, e mal acreditou que ela tivera o atrevimento de retornar.

— Srta. Black! Agora, isso é completamente inaceitável!

Ela entrou no laboratório com deliberação, deitando sobre a bancada uma braçada de flores roxas com talos compridos e com um cheiro forte e ácido. Snape olhou horrorizando para as plantas.

— Onde conseguiu––

— Fui até a estufa numero cinco. Você há de pensar que a Prof. Sprout trancaria com feitiços melhores uma estufa praticamente dedicada à plantas venenosas, mas na verdade bastou um alohomora para invadí-la.

— Você não tem nenhum limite? – ela bradou – O que eu vou precisar fazer com você, Bervely? Será que uma advertência não é o bastante? Vou precisar suspendê-la? Tomar seu distintivo?

— Eu não me importo com o que o senhor fizer amanhã. – ela disse com muita sinceridade – Hoje, eu quero que o senhor me assista.

— Lhe assista… perdeu completamente o bom senso?

— Eu entendo que não pode produzir a poção sem o livro por conta de um contrato mágico, professor, mas eu não assinei nada e sou uma mera estudante. Se eu produzir Wolfsbane e errar, qual será o dano, realmente?

— Além de desperdiçar recursos extremamente caros e colocar vidas em risco com um ingrediente venenoso? O que é que você acha?

— Não vou envenenar ninguém. Eu estudo venenos desde que tinha sete anos.

Bervely estava parada no meio do laboratório, encarando-o com uma determinação furiosa e incontestável em seus olhos, os braços – mãos enluvadas até os cotovelos com grossas luvas de borracha – cruzados sobre o corpo, a postura em tudo informando que teimaria até o fim.

— Pela última vez, eu não posso coadunar com essa sandice!

— Professor Snape, eu vou fazer com ou sem a sua ajuda, mas eu realmente acredito que com a sua ajuda as minhas chances de sucesso são maiores. Além do mais, fugir do colégio essa hora com um buquê de acônico para invadir algum laboratório avançado de poções seria não só um aborrecimento como poderia me levar à cadeia. O senhor quer que sua afilhada vá morar em Azkaban?

Os olhos dele escureceram perigosamente.

Bervely

— Foi o que pensei. Ótimo! Temos tudo o que precisamos e exatas cinco horas até o amanhecer, o que deve bastar para o preparo e para o descanso antes de Lupin ter que tomar a primeira dose. O senhor não precisa tocar em nada, nem mesmo falar nada. Só ficar aqui e… não sei, dar uma tossidinha ou um pigarro se eu fizer alguma coisa estúpida? Não que eu vá fazer, mas só para o caso.

Ela não achava que já tinha visto Snape tão transtornado, incrédulo e irritado, tudo ao mesmo tempo.

— Você tem ciência de que pode envenenar o professor Lupin se qualquer passo do seu preparo der errado? E que você só saberá disso quando ele cair morto no chão?

— Deixe que eu me preocupe com o professor Lupin. – ela o fitou com impaciência – Então?

Snape deu de ombros, mandando o bom senso para o inferno.

— Vá em frente, Srta. Black. Que o tártaro devore minha alma, se isso não for uma completa insanidade.

Bervely abriu um grande sorriso, indo buscar o caldeirão de prata na prateleira.

— Positivamente surpresa em saber que o senhor tem uma alma, professor, ao contrário do que os boatos afirmam.

— BD –

Wood continuava fingindo que ela não existia. A única evidência do contrário fora no dia do jogo, uma semana atrás, quando ele lhe vira usando a camisa de madrinha de goles da Sonserina e seus olhos quase soltaram raios laisers.

Mais tarde, ele teve a audácia de mandar Katie do Time lhe comunicar — não pedir ou mesmo negociar, veja bem – que a partir de agora a Grifinória estaria treinando cinco vezes por semana, e que ela deveria incluir isso na sistemática de quadribol.

O resultado é que Bervely estava com um humor pior do que nunca na penúltima semana de janeiro. Não que ela sentisse falta do capitão ou algo do tipo, apenas achava muito inconveniente não ter um modo de se distrair de todas as tensões do sétimo ano e monitoria. Se perguntava como ele estava se virando, talvez com a ajuda de Katie do Time. Toda vez que ela pensava na possibilidade, a vontade de cometer um grifinoricídio pulsava em suas veias.

Isso, e seu braço continuava doendo. Seu corpo se habituara à formula do ditamno e a pomada não tinha qualquer efeito anestesiador. As agulhadas constantes não deixavam Bervely se concentrar em outra coisa, como na pilha de deveres de casa se acumulando ou nos relatórios de monitoria. Ela fazia longas rondas noturnas porque andar mal agasalhada pelo castelo, sentindo frio, era uma das poucas coisas que a distraía, mas ela nunca mais encontrou Tara se embriagando em outra sala vazia.


Passou pela sua cabeça que poderia tentar, talvez, ter algum tipo de relação social saudável com a colega. Mas todas as vezes que estudava a possibilidade, esbarrava num impedimento que parecia óbvio: como podia conviver com Tara e fingir que não sabia sobre sua casa destruída e seu pai – que sequer era seu pai de verdade – morto? Uma hora Tara iria descobrir, e Bervely não sabia se tinha sangue frio o bastante para permanecer indiferente. Por outro lado, não queria ser a pessoa a dizer para Tara que o homem que ela acreditara ser seu pai por toda sua vida era, na verdade, um bruxo psicopata, ladrão de corpos, mentiroso e homicida.

É, sem chances daquela amizade florecer.

No fim da tarde de sábado, Bervely se achou agoniada demais para ficar dentro do quarto, lendo o compendio dos Acordos Comerciais dos Bruxos Europeus, que mais parecia um instrumento de tortura psicológica lenta do que um livro de historia. Ela pegou frasquinho de ingredientes específico em seu estoque e foi dar uma volta no terceiro andar.

Remus Lupin abriu a porta da sua sala quando ela passou casualmente à sua frente pela terceira vez.

— Olá, Bervely. – ele disse com tranquilidade. – Tudo joia?

— Ah, oi, Lupin. – fingiu que estava surpresa em vê-lo ali.

— Só passando? – perguntou com desprendimento. Bervely assentiu. – Quer entrar para um chá?

Ela deu uma olhada para o corredor, como quem pensa se pode arranjar um tempo na agenda corrida para uma pausa.

— Tudo bem. Se for rápido.

Ele lhe deu espaço e ela entrou na já conhecida sala cheia de livros empilhados fazendo vezes de móveis. Remus fechou a porta e lhe indicou uma cadeira livre.

— Clássico ou Milky?

— Clássico.

O bruxo preparou o chá sem magia e num silencio distraído. Bervely teve a ligeira impressão de que ele puxava de uma perna ao andar. Além do mais, havia uma cicatriz longa do lado esquerdo de seu rosto, que descia na diagonal e sumia pela gola do pulover, ainda rosada e bem profunda.

Remus colocou o chá e uma lata de biscoitos sobre alguns livros que ocupavam uma mesa próxima. Bervely tirou o frasco de ingrediente do bolso e entregou para ele.

— É pó se sálvia refinada. Coloque em seu chá, dá uma energia extra. Também é boa reguladora do sono.

Remus analisou a oferta, depois sorriu para ela.

— Obrigado. Essa última lua não foi muito fácil.

— Anne pareceu pensar isso, após lhe visitar semana passada.

— Imaginei que ela tivesse. Sua irmã tem uma percepção assombrosa, especialmente para alguém que não pode captar pistas visuais.

Bervely experimentou seu chá preto com leite, que estava na temperatura certa. Se sentia um pouco estranha, porque ela nunca tinha visitado Lupin em sua sala antes sem usar como desculpa o fato de Anne tê-la arrastado.

— Está mantendo seu cabelo mais comprido? – perguntou ele, em tom de conversa.

— Ah… acho que sim.

— Fica bom nesse tamanho.

— Obrigada. – deu outro gole no chá. Lupin tinha profundas olheiras sob os olhos, do tipo crônico. – Eu, huh… eu sei que não houve Poção Wolfsbane na última lua. Sinto muito.

Ele assentiu, considerando.

— O professor Snape deu a entender que o livro de receitas tinha se extraviado. Eu imaginei que aconteceria, na verdade. Não que algo ia acontecer com o livro, digo, apenas que algo… algo ia entrar no caminho e ele não poderia produzir a poção o ano todo. É compreensível. Imagino que seja um grande desprendimento de energia fazer uma poção tão complexa uma vez a cada mês.

Aquele animal peçonhento da culpa se enroscou mais em torno do estômago de Bervely.

— Não, não é. É divertido. Digo, não é uma desculpa… – ela se irritou consigo mesma por sua confusão com as palavras – O que eu quero dizer é: o livro realmente se extraviou. O professor Snape não tem nenhuma culpa nisso.

Remus meneou a cabeça.

— Não tem importância, Bervely, de verdade. Só é uma pena porque isso vai abreviar a minha permanência em Hogwarts e eu estava realmente apreciando dar aulas de novo.

— Como assim abreviar? O senhor não está saindo…?

Ele assentiu, penalizado.

— Ainda não é oficial, mas estou procurando um substituto. Minha condição para dar aulas foi que eu não representasse qualquer risco para os alunos durante as transformações, mas sem a poção isso não se confirma. E eu não posso viajar para longe uma vez por mês, é dispendioso e demorado, além do mais a recuperação da lua cheia se prolonga um bocado e eu faltaria mais do que daria aulas. Agora, se você puder ser discreta e não comentar nada por enquanto…

— Acho que o senhor está sendo dramático. – ela o cortou abruptamente. Remus franziu suas sobrancelhas castanhas.

— Você acha?

— Sim. Tudo bem, então virar lobo uma vez por mês é um pé no saco, concordo. Mas se acovardar só porque vai ter algumas faltas? Aposto que você pode trancar o lobo em segurança em algum lugar, quero dizer, você é mestre em defesa contra as artes das trevas ou não é? Eu pensei que gostasse de dar aulas!

— Eu gosto! – afirmou, pego de surpresa com o sermão inesperado.

— Então pára de choramingar e fique! Anne disse que você é o melhor professor que ela já teve. Isso deve significar alguma coisa. Você mesmo disse que ela tem uma percepção assombrosa! E qual é a graça?

Remus tinha um sorriso cômico atravessado em seu rosto, o que não era nem de longe a reação que ela estava esperando conseguir. O bruxo balançou a cabeça, divertido.

— Não é nada. Você soa exatamente como alguém… do passado. – ele então esfregou o rosto, desfazendo o sorriso para a cara penosa de novo. – Eu sinto muito de verdade, mas se não é completamente seguro para os alunos, eu não posso continuar aqui.

E ela se perguntou, se fosse seu velho amigo Black usando os mesmos argumentos, ele teria sequer considerado?

— BD –

19 de janeiro, horas mais tarde – dançando.

Uma fumaça cinza azulada rodopiava para fora do caldeirão numa dança lenta.

Com a cara achatada contra o braço, este esticado no balcão de mármore, Bervely cochilava. Mantivera a concentração pelas horas necessárias e espremera cada porção de seu cérebro para não cometer erros, e no final isso a deixara completamente acabada. Na última etapa de cozimento, ela tinha deitado ‘um segundo para descansar os olhos’ e isso era tudo.

Felizmente, Snape estava lá para abaixar a intensidade da chama e não deixar que a poção queimasse. O caldeirão emitiu um pequeno chiado, que era parte do encantamento que avisava mudanças de temperatura, ao que ela ergueu o corpo, atarantada.

— O quê– a não– você…

— Apenas abaixei o fogo. – ele lhe informou com tranquilidade. – Mais um minuto e ia superaquecer e arruinar todo o seu trabalho.

— Ah – ela expirou em alívio – Obrigada.

— Sem problemas.

Bervely deu uma olhada apreensiva para dentro do caldeirão. A fumaça estava correta, bem como o tom e o cheiro. Isso não queria dizer nada, a não ser que ela não era uma inútil completa. A poção ainda podia ser venenosa e só havia uma forma de descobrir de verdade.

— Eu vou experimentar. – anunciou, pegando uma concha.

— Não seja absurda! – ele sibilou. – A poção é fatal para não-licantropos.

— Ah. É mesmo.

Estava tão cansada que não raciocinava direito. O professor, apesar de ter passado tantas horas acordado quanto ela, observando-a trabalhar com uma expressão vazia em seu rosto – não demonstrava grandes sinais de cansaço. Era nesses momentos que ela se perguntava se o mestre era realmente humano.

— Vá dormir, Bervely. A poção precisa esfriar antes de ser consumida.

— Não. Vou ficar aqui esperando. O senhor pode ir, se quiser.

Ele ficou. Lá fora e acima estava amanhecendo, mas as masmorras eram sempre escuras. O laboratório de poções era por completo isolado contra as variações externas de iluminaçãoe temperatura.

Bervely observou atentamente os padrões que a fumaça fazia no ar sob o caldeirão.

— Será que está certa? – perguntou por fim, deixando transparecer sua incerteza pela primeira vez na noite. Nas últimas horas, ela não duvidara nem por um segundo que podia fazer aquilo. Era fácil quando estava tomada pela energia vibrante da atividade, mas agora… agora, replicar Wolfsbane sem instruções, confiando apenas em sua memória e intuição, começava a parecer uma insanidade. Adaptara muitas medidas e estimara passos, sem poder recorrer às complexas tabelas. E se ela matasse Remus Lupin?

Snape foi buscar uma caneca de pedra no armário e a colocou em sua frente.

— Confie em seus instintos.

Era a coisa mais encorajadora que tinha ouvido dele a noite inteira. Mas podia ser só porque o seu padrinho estava louco para se livrar dela e dormir algumas horas antes de ter que se levantar e dar aula.

— BD –

— Deixa ver se eu entendi… – Remus Lupin sumarizou, cheirando o vapor da mesma caneca de pedra algumas horas depois – Você produziu a poção usando sua memória e não sabe se é completamente segura.

— Isso.

— E de acordo com seus cálculos, ela pode tanto funcionar quanto me matar instantaneamente?

— É. – Bervely trocou o peso do corpo de um pé para o outro. Se sentia nervosa, e francamente, um pouco ridícula. Uma parte dela queria arrancar a poção das mãos dele antes que Lupin fizesse a loucura de bebê-la, embora se tornasse cada vez mais claro que ele não beberia, porque era a pessoa mais sensata dentro daquele castelo.

— Uma morte indolor ou lenta e agonizante?

Ótimo, agora ele estava zombando. Bervely não deu o braço a torcer.

— Você morreria rápido. Nem ia notar, seu coração pararia em um quarto de segundo.

— E o professor Snape acha que é uma boa ideia fazer o teste? – sondou ele, num tom interessado.

— O professor Snape se redime de qualquer responsabilidade.

— Isso soa como ele. – Remus riu. – Muito bem, então. Vamos acabar com essa dúvida.

Remus virou o conteúdo do copo em sua boca, seu rosto se torcendo em uma careta, ao mesmo tempo em que Bervely perdia um batimento cardíaco. Ela teria fechado seus olhos para não ver o desastre, mas ele bebeu tão rápido que não deu tempo.

Houve aquele minuto em que eles ficaram olhando um para o outro, Remus esperando seu coração parar, Bervely no aguardo de se tornar uma assassina de lobisomens.

— BD –

Ela irrompeu na sala de Snape, só percebendo que a primeira aula do dia já havia começado quando quarenta cabeças se viraram em sua direção. Quarenta e uma, contando com a do professor, que se virou do quadro, onde anotava o passo-a-passo.

— E então? – ele perguntou, sem grande inflexão em sua voz. – Morto?

— Vivo! – exclamou, incapaz de impedir um sorriso de uma orelha à outra. Não dava a mínima para o que os alunos estavam pensando. O mundo inteiro que se explodisse naquele exato momento.

— Muito bem, Srta. Black. Estou impressionado.

(Continua…)

Notas finais
¹A poção Sangue da Lua é propriedade intelectual de Milena Vasconcelos. Você pode saber mais sobre ela na fanfic Laboratório de Poções. Meu computador pifou, o que implica em: 1. Sei que a formatação dos parágrafos está louca, mas não tenho como consertar isso pelo celular. 2. Não sei se consigo atualizar na semana que vem, já que o cap seguinte foi engolido pelo note pifado e nem mesmo sei se o perdi ou não. ;*