Inconsciente
2 Runas antigas II
Draco Malfoy não costumava perder tempo pensando em coisas banais, principalmente sobre seus sentimentos.
Ainda assim acordou com uma sensação estranha após ter uma noite mal dormida, marcada por sonhos fragmentados que se recusava a lembrar por completo.
Respirou fundo e resolveu tirar esses devaneios de sua mente.
Enquanto caminhava pelos corredores de Hogwarts durante aquele dia, percebeu que estava fazendo exatamente isso, pensando demais.
Isso não fazia nenhum sentido. Hermione Granger não era ninguém que merecesse sua atenção — pelo menos era isso que sempre lhe disseram e ensinaram. Era uma nascida-trouxa, da Grifinória, e, acima de tudo, alguém com quem ele passara dois anos trocando provocações.
Mesmo assim, havia algo diferente.
Ele se lembrava do modo como ela se sentara ao seu lado na aula de Runas, da forma concentrada com que anotava tudo, como se o resto do mundo simplesmente deixasse de existir. Lembrou-se do perfume que sentiu com a proximidade, um perfume doce e inesperado e, irritantemente, lembrava-se também de como fora fácil… falar com ela.
Aquilo não significava nada. Pelo menos era o que ele insistia em pensar!
Ao final do dia, após longas aulas, percebeu que chegaria o horário combinado com Granger para realizar o trabalho. Sentindo uma ansiedade desconhecida até o momento, percebeu que seus passos o levaram naturalmente em direção aos jardins.
…………………………………………………………………………………………………...
O sol estava se pondo, Hermione encontrava-se sentada na grama dos lindos jardins de Hogwarts, onde combinou de esperar seu colega para fazer um trabalho. Não um simples colega, era Draco Malfoy. DRACO MALFOY.
Ela gritava o nome dele em sua mente para que a sua ficha caísse, pois não conseguia acreditar na sua aula de Runas Antigas e nos próximos momentos que iriam acontecer. E, estranhamente, estava ansiosa para esse encontro. É claro que ela não admitia isso à si mesma, apenas estava com fome e queria logo jantar, era essa a clara explicação para o formigamento em sua barriga.
Alguns metros de onde ela estava, um certo loiro aproximava-se devagar, sem entender o que estava acontecendo e por que mesmo estava indo. Por que foi educado com uma “sangue ruim” na aula? Ela, “A sabe tudo”, que sempre trocou alfinetadas desde o primeiro ano. Sua família, na verdade seu pai, sempre ensinou a desprezar pessoas como ela. Aquilo deveria ser simples. Não era.
Também se perguntava o por que de observá-la na aula, enquanto prestava atenção, e por que nesse momento estava observando-a nos jardins e... como ela era linda. Estava atrás de uma árvore, estava ansioso, não podia negar, até que uma voz o tirou de seus pensamentos.
— Malfoy? O que faz atrás de uma árvore? – perguntou Hermione com curiosidade achando estranho e engraçada a situação.
A pele branca do garoto agora poderia dizer-se que estava se possível, ainda mais branca. O gelo que sentia em sua barriga era algo parecido com o que sentia quando era pego por sua mãe, fazendo algo errado em sua casa. Respirou fundo e saindo para olhar a garota nos olhos, pensou na primeira desculpa que veio a sua mente.
— Estava só pensando... que ... eu... – mas por que ele estava gaguejando? Isso nunca aconteceu antes, vergonhoso Malfoy! Pensou consigo mesmo – pensando que eu deveria ter comido algo antes de vir, acho que o trabalho será extenso!
Foi a desculpa mais medíocre que foi capaz de inventar. Por favor, que falta de criatividade, nem parece que é um excelente mentiroso e que sempre se sai impune de suas encrencas.
— Ahh, certo, vamos começar o quanto antes para podermos ir à janta. Trouxe algum material? — perguntou Hermione achando estranho o que foi dito por ele, afinal nunca o vira gaguejar antes.
— Sim, eu vim com os materiais. — respondeu Draco.
Então eles iniciaram o trabalho, aos poucos foram construindo três folhas de pergaminho sobre o tema que a professora havia solicitado. Eles nem ao mesmos notaram o quão natural estava sendo, como eles trabalharam bem juntos. Suas ideias e pensamentos, ambos inteligentes, sendo os melhores e mais inteligentes bruxos de sua idade, se complementavam muito bem. Algumas vezes até riam de algum possível erro, ou algumas leves brincadeiras que estavam trocando.
— Malfoy, acho que acabamos, você poderá matar sua fome logo — falou Hermione com um sorriso divertido, não imaginava que poderia ser tão agradável a presença de Draco. Ele riu de sua piada e a olhou nos olhos e falou.
— Na verdade não estava com fome, apenas te observava, como fiz hoje na aula. — Admitiu e desviou seu olhar.
Nesse momento Hermione ficou vermelha e sem reação, não entendeu por que o loiro a analisava? Será por não gostar dela? Por nojo de seu sangue? Mas porque faria isso? Ele nem parecia o mesmo garoto, não se provocaram com maldade nenhuma, pelo contrário, com muita educação e respeito. Ela temia a resposta, mas por quê? Nada ela sabia responder, estava frustrada!
–Eu estava pensando, por que essa rixa tão grande entre nós? não nos leva a lugar algum.. nós, dois alunos muito inteligentes, perdendo tempo com xingamentos bobos e desrespeitosos.. sei que posso ter sido o culpado pelas provocações, mas acho que estava errado.
Hermione ainda permanecia em choque, escutando cada palavra. E ela concordava com ele, pois era muita insensatez todas aquelas brigas. Enfim, respirou fundo e respondeu.
— Concordo com você, isso é uma grande bobagem, mas por que eu deveria acreditar em você? Como sei que está dizendo a verdade? E se for um truque seu para me fazer de boba para seus amigos? — ela ainda não perdera a lucidez, se chama Hermione Jean Granger, e não confiava tão facilmente em alguém.
— Entendo você, também reagiria dessa maneira no seu lugar, então gostaria de pedir desculpas, pelos xingamentos que dirigi a você, a seu sangue — quando falou isso, pôde notar o brilho nos olhos dela, e se sentiu muito feliz por falar o que achou que seria o certo. Se perguntava, por que não? Por que não ser amigo de Hermione Granger pela futilidade de casas e sangue? Percebeu em pouco tempo como ela era linda, carismática, educada, inteligente, divertida e pelo visto, uma ótima amiga. Decidiu que era o certo a se fazer.
— Nossa, bom, eu aceito suas desculpas, e gostaria de pedir também pois nunca medi minhas palavras com você! – falou sincera, ela notou a sinceridade que ele referia às palavras à ela, e gostou da companhia dele, não podia negar. Então por que não? Uma amizade com Draco Malfoy? quem sabe…
Um silêncio percorreu o jardim, onde já era iluminado pelas estrelas e a lua, estava ficando um pouco mais frio, tanto que, Hermione sentiu um arrepio, o que não passou despercebido por Draco, que logo falou:
— Vamos entrar, está esfriando – ele não compreendia por que estava sendo tão prestativo com ela?
Enfim, estava. E achava que devia fazer isso e fazia. Essa é uma característica muito forte de sua personalidade, o que julga certo a ser feito é o ocorrido, sem importar com opiniões alheias.
Após o garoto perguntar do frio, ela fez que sim balançando a cabeça verticalmente, e sentindo outro arrepio, considerando que deixou sua capa em sua cama. Foi nesse momento em que sentiu ser aquecida por algo muito macio e cheiroso. Draco tirou sua capa do uniforme e pousou nos ombros de Hermione, que sorriu e agradeceu um pouco corada.
— Vamos subir – falou Draco.
Eles então subiram para o castelo juntos, lado a lado, conversando amenidades sobre o ótimo trabalho que haviam feito e como tirarão uma boa nota. Ao chegarem à porta do salão principal, Hermione entregou o casaco a Draco. Ela sabia que seria motivo de perguntas se alguém a visse com ele ou com sua vestimenta.
—Obrigada Malfoy, foi um ótimo fim de tarde e trabalho com você, tenha uma boa noite! — respondeu e sorriu.
— Igualmente Granger, foi bom estar com você, e sei que também achou o mesmo! — falou com um tom brincalhão enquanto piscava apenas um olho, fazendo com que Hermione revirasse os olhos levemente enquanto ria. – Boa noite!
Assim Hermione devolveu o casaco de Draco, e cada um seguiu caminho para suas mesas. Enquanto ia em direção a mesa da Sonserina, Draco acompanhava os passos de Hermione, não conseguia parar de olhá-la. Ao colocar sua capa percebeu o perfume que ficou, aquele cheiro doce, só o fazia lembrar dela.
Ao sentar à mesa, respirou fundo, percebeu que pensava demais e que não tirava os olhos dela.
— E ai cara, onde esteve? — perguntou seu amigo Blaise Zabine.
— Fazendo um trabalho, nada demais. — respondeu com indiferença.
— Eu sei bem que trabalho foi esse — comentou com deboche — vi você com a sabe tudo no jardim. — Blaise sabia, conhecendo seu amigo desde sempre, que toda aquela implicância se resumia a algo a mais.
— A qual é Blaise, foi a professora quem escolheu as duplas, não tive escolha. — respondeu com sinceridade.
— Desde quando você fica tão pensativo depois de um trabalho? — provocou Blaise
— Não viaja — respondeu Draco, curto.
— Eu já vi esse olhar antes.
— Você não sabe do que está falando — encerrou Draco.
Draco terminou sua refeição em silêncio. Viu Hermione deixar o salão principal ao lado de Gina Weasley e, sem perceber, acompanhou cada passo dela com o olhar. Perto da porta, ela hesitou por um instante e lançou um rápido olhar em direção à mesa da Sonserina. Seus olhos se encontraram por um breve segundo — rápido demais para ser confortável — e ambos desviaram quase ao mesmo tempo.
Alguns minutos depois, Draco se levantou e seguiu para as masmorras. Enquanto caminhava pelos corredores frios, teve a incômoda sensação de que estava pensando demais, como se algo estivesse fora do lugar. Irritou-se consigo mesmo e decidiu ignorar aquilo.
Já no dormitório, tomou um banho rápido e se deitou, determinado a ter uma noite tranquila. Como deixou sua capa do uniforme perto da cama, sentiu novamente o perfume doce que ainda permanecia no tecido. Franziu o cenho, incomodado, antes de fechar os olhos.
Concluiu, mais uma vez, que aquilo não significava nada.
Mesmo assim, adormeceu com aquela sensação estranha, persistente — como se algo tivesse sido despertado sem que ele percebesse.
Fale com o autor