Inconsciente

3 O jardim


Havia três dias desde o momento em que Hermione se sentira diferente — segura ao lado de alguém que jamais lhe transmitira tal sensação. Pelo contrário, nunca pensou em sequer trocar palavras amigáveis com Draco Malfoy, aquele que sempre atormentou à ela e seus amigos. E para piorar a sua situação de descrença no que estava acontecendo percebeu que estava gostando.

Três longos dias de aulas nas quais somente uma vez pode sentir a presença daquele garoto. Em uma aula de Herbologia, enquanto todos os alunos realizavam a atividade que a professora Sprout explicou, Hermione terminou antes da maioria, como de costume.

Assim que guardou seu material para sair da sala, seus olhos encontraram os de Draco por um breve instante. O leve sorriso de lado que ele lhe lançou foi suficiente para fazê-la corar.

Finalmente era a manhã de um lindo domingo em que Hermione poderia descansar, pois o sábado todo esteve no salão comunal da grifinória estudando. Então decidiu que iria aproveitar o domingo para ler algum dos livros trouxas que trazia consigo nas viagens. Resolveu sair dos quartos e ir para o jardim, um de seus lugares favoritos de Hogwarts.

Desceu sozinha, sem a companhia dos amigos. Pois era muito cedo, todos ainda estavam dormindo. Tomou seu café da manhã, e dirigiu-se ao jardim. Chegando lá, viu que por ser outono, eram poucas as flores, porém com um lindo sol.

Avistou o local onde esteve com seu mais novo amigo a alguns dias. Para ela, aquele sempre fora o melhor ponto do gramado — a grama parecia mais macia, mais verde, mais acolhedora.

Ela sentou-se no chão e abriu seu livro, antes é claro aproveitando a sensação boa de descanso, de paz que o lugar trazia à ela. Começou a ler seu livro, um romance clichê bem descontraído. Foi quando percebeu que leu rápido demais. Não havia prestado atenção em nenhum parágrafo da primeira página, e isso não é algo normal em sua rotina de leitura.

Sempre foi muito dedicada a cada leitura, mas hoje, nessa manhã, esse lugar estava a distraindo. Pois só de estar ali, as imagens vieram sem aviso: o casaco sobre seus ombros, o cuidado inesperado, o perfume que parecia ainda impregnado em sua roupa.. Era como se ela ainda conseguisse sentir.

Um aroma amadeirado, suave, mas persistente — o suficiente para conduzir seus pensamentos inevitavelmente até ele. Lembrou que Gina, sua melhor amiga, notou a sua diferença, pois sim, ela apesar de focar nos estudos, estava sonhadora e com um sorriso bobo nos últimos dias.

Flashback on:

Ao entrar no salão principal, naquela mesma noite, Hermione sentia um desconforto agradável, na verdade sentia a algum tempo. — Estranho! — Pensou ela. Porém deveria ser a fome, como constatou mais cedo. Ao chegar à mesa sentou-se ao lado de Gina, que lhe sorriu e disse:

— Oi Hermione, por onde andou? Você sumiu…– disse com um sorriso malicioso nos lábios. Apesar de mais nova, Gina era muito divertida e esperta em alguns assuntos segundo Hermione.

— Oi amiga, eu não sumi, apenas sou estudiosa e dedicada! — Falou com convicção, pois era uma meia verdade do que estava fazendo.

Mas Gina pensou coisas demais e ela sabia ao ver o seu semblante.

— Sim, é claro que é — Gina respondeu, divertida. — Mas eu conheço o seu perfume. E definitivamente não é esse. – ela surpreendeu Hermione que ficou corada. Sabia que não conseguiria esconder da amiga seu novo amigo, e paixonite da escola. Apesar de que essa última opção ela achava improvável.

— Ginevra não é isso que você pensa, depois te explico, aqui tem muitas pessoas que podem escutar. – indicou os melhores amigos com os olhos, ambos não paravam de comer e falar sobre quadribol. Harry, apesar de preocupado em saber quem é Sírius Black, e angustiado com dementadores, conversava parcialmente tranquilo.

— Não me chame assim, mas tudo bem, vamos subir mais tarde para o salão. Quero saber tudo. – falou Gina, ansiosa.

Assim elas foram subindo as escadas sozinhas enquanto caminhavam Hermione contou tudo, com todos os detalhes. Gina ouviu tudo com muita atenção e entusiasmo.

— Hermione… — Gina começou, mais baixa, enquanto subiam as escadas — desde quando você fica vermelha só de alguém comentar seu perfume.

— Gina, por favor… — suspirou — não é nada disso.

— Eu não disse nada ainda — respondeu a ruiva, divertida. — Mas você está diferente. Distraída. Sorrindo sozinha

Hermione parou por um instante no degrau.

— Eu só… conversei e fiz um trabalho com alguém. Nada demais.

— “Alguém” costuma ter nome — Gina insistiu, erguendo uma sobrancelha.

— Malfoy — afirmou Hermione em um suspiro — mas não o Malfoy que você pensa — apressou-se Hermione. — Ele foi… educado. Gentil.

— Isso é justamente o que me preocupa — Gina afirmou. — Você nunca ficou assim por alguém.

Hermione mordeu o lábio.

— Eu sei. Só… me sinto diferente perto dele. E isso me assusta.

— Então só promete uma coisa — pediu Gina. — Sendo certo ou errado.. me conta.

Hermione sorriu, grata.

— Prometo.

Assim subiram as escadas animadas, e Gina contava a Hermione como sua paixão por Harry somente aumentava.

Flashback off.



Após lembrar-se do momento com Gina, Hermione fechou seu livro e o deixou ao seu lado, e então resolveu aproveitar o momento de descanso. O sol brilhava em seu rosto, estava um clima bom para sentar sob ele.

O vento batia de leve em sua face, e como consequência, seus cabelos voavam levemente, e ela, ainda com lembranças de certo “trabalho de runas antigas", sentia de leve o perfume de Draco Malfoy.

O vento foi se findando, e ao longe ela pode analisar ele ir embora, envolvendo as folhas das árvores e gramas no chão. Era tão engraçado como o simples balançar de folhas parecia tão lindo e encantador naquele momento.

Era como se dançassem juntos, embalados pela brisa suave da manhã de setembro. Mas o mais curioso, era que mesmo com o vento soprando, o perfume continuava tão preso a ela, como se ele estivesse ali, naquele momento.

Hermione julgou-se boba por pensar isso, e pior, por desejar isso. seria boa a companhia dele. E então, ela pôs se a pensar, com mais clareza sobre o por que de se sentir tão atraída pela presença dele?

Talvez fosse por saber que com ele, ela não precisava ficar bancando a sabe tudo, pois com seus amigos, Harry e principalmente Rony, precisava ficar explicando tudo, isso a deixava cansada, ela não poderia ficar até terminar a escola emprestando deveres para Ron fazer o seu.

E com Draco, isso jamais aconteceria, ela percebeu quando eles construíram um excelente trabalho. Ele sabia que por mais inteligente que ela fosse, ele também era, e jamais seria um garotinho com dificuldades de estudar. Sempre seria uma conversa interessante, com argumentos afiados e variados de ambas as partes.

Logo, ela notou o cheiro amadeirado ficando mais intenso, poderia jurar que ele estava ao seu lado, ou chegando perto, fechou os olhos e respirou fundo, sentindo o perfume e as lembranças chegando com mais intensidade. E então foi que ouviu uma voz.

— Hermione? – O som da voz dele fez o calor subir imediatamente ao seu rosto. – Já acordada? – sentiu um arrepio subir em suas costas.

Ela respirou fundo, abriu os olhos para ver se não estava sonhando, e enfim conseguiu ar para responder.

— Draco.. Oi. Ah, bom, sim! Estou, estou acordada! – e sorriu, o sorriso que dizia que gostaria de cavar um buraco e entrar, e só sair quando tivesse certeza que ele não estivesse mais ali. Como ela pode gaguejar e perder as palavras daquela maneira? “Que ridículo Hermione!” pensou consigo mesma.

— Humm, e o que faz aqui tão cedo no domingo? Está tudo bem? Parece nervosa! – perguntou o garoto.

Hermione por um momento pareceu relaxar, ao ver aquele sorriso de lado tão lindo à sua frente. A pergunta de Draco fez Hermione se perguntar se ele estaria preocupado com ela. Então, mais uma vez ela puxou fundo o ar em seus pulmões e respondeu.

— Bem, eu vim ler, porém o dia está tão lindo, que eu me permiti relaxar e admirar a paisagem, o sol e essa leve brisa. – falou já bem mais calma e convicta de sua resposta.

Não pode evitar sorrir para o sonserino, que parecia encantado com alguma coisa, e ela percebeu que ele dirigia o olhar sobre ela. Mas pensou, “não seja boba Hermione, por que ele olharia para você desse jeito? Não se iluda garota!”. Resolveu perguntar. – E você, o que faz aqui?

— Pensei em vir ao jardim para pensar. realmente o dia está lindo, e aqui, virou meu lugar favorito, e eu estava pensando “nele". – ele falou com um ar tão sério, e ao mesmo tempo com aquele sorriso lateral, que Hermione o olhou pasma, ela sabia que ele estava falando dela, não poderia ser do trabalho ou do próprio jardim por mais lindo que fosse. “ não foi uma indireta, na verdade foi, mas a intenção era que fosse bem compreendida!” pensou ela. Então respondeu.

— Tem certeza do que está dizendo, Draco Malfoy? — perguntou, mantendo o olhar fixo no dele.

— Absoluta, Hermione Granger — respondeu, com um meio sorriso seguro. – Vai dizer que não ficou pensando em nossa aproximação? Eu dou um palpite por sua reação de surpresa quando cheguei, de que estava pensando algo parecido com o que eu estava! – finalizou o sonserino.

Como ele pode ler tão bem as feições dela? Como pode saber de tudo isso? E ele também estava sentindo o mesmo? O que estava acontecendo? O que ela iria responder? Só sabia que deveria ser autêntica, e demonstrar a mesma confiança e convicção que ele.

— Você observa bem, Malfoy. Não achei que teria chegado a essa conclusão, para ser sincera não esperava que pensasse o mesmo! – falou sincera.

— Não é de hoje que observo as pessoas — disse, com um meio sorriso confiante. — E, curiosamente, você é… fácil de ler. Fica nervosa quando chego perto. Sorri quando finge que não se importa.

Hermione por um momento sentiu suas bochechas mais quentes, desviou o olhar para a grama que nesse momento estava muito interessante.

— E o que exatamente você estava pensando? — com muita coragem a grifinória voltou a olhar nos olhos cinzas.

— Pensei que, por mais improvável que pareça, estar com você não é… difícil. — ele passou a mão pelos cabelos, desconfortável — Não foram muitos momentos, eu sei. Ainda assim, não me importaria que se repetissem. Com mais frequência.

Hermione respirou fundo antes de responder.

— Você diz que sou fácil de ler? — repetiu, inclinando levemente a cabeça. — Interessante, vindo de alguém que claramente está tentando parecer indiferente.

Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.

— Mas, se essa é a sua maneira de convidar… aceito.

— Que tal deixarmos essas formalidades de lado e passarmos um tempo juntos hoje? — completou Draco com um sorriso.

— Para mim está perfeito.

Hermione ajeitou o livro no colo e sentou-se na grama. Draco fez o mesmo, mantendo uma distância respeitosa. O silêncio inicial não era incômodo, apenas novo — e bastou um comentário casual para que ele se desfizesse.

Draco inclinou levemente a cabeça ao vê-la fechar o livro mais uma vez.

— Então… — começou Draco, com um meio sorriso provocador — a famosa Hermione Granger resolveu tirar folga do cronograma impecável de estudos?

Ela ergueu uma sobrancelha e pôs as mãos na cintura, fingindo indignação.

— Cuidado, Malfoy. Está prestes a destruir uma reputação cuidadosamente construída.

— Ah, sabia. Aposto que existe uma tabela até para os momentos de descanso.

Hermione riu, finalmente mostrando seu livro.

— Para sua informação, eu não estudo todos os dias. E gosto de ler outras coisas para variar, por exemplo, esse romance.

Draco piscou, genuinamente surpreso.

— Romance?

— é um livro trouxa de romance — completou ela, observando atentamente a reação dele.

Ele se inclinou um pouco mais para ver melhor o livro, curioso.

— Nunca li um. Do que se trata?

Hermione explicou brevemente a história, gesticulando enquanto falava, os olhos brilhando de entusiasmo. Draco a ouvia com atenção incomum, como se cada palavra dela fosse mais interessante do que o próprio enredo.

— Então você não é apenas a sabe-tudo — comentou ele, com um sorriso enviesado. — Também é… romântica.

Ela bufou.

— E você não é apenas arrogante. Também faz perguntas decentes, de vez em quando.

Draco riu baixo. Então, quase distraidamente, puxou o livro com cuidado.

— Posso?

Hermione assentiu.

Ele abriu o livro próximo à margem da página em que ela estava lendo e, com a ponta da pena, desenhou uma pequena Runa no canto inferior.

— O que é isso? — perguntou ela, inclinando-se para ver.

— Uma runa antiga — explicou. — encontrei em um dos livros após o trabalho que fizemos. — Significa vínculo — explicou. — Algo que permanece… mesmo quando é esquecido.

Hermione sentiu um arrepio leve, mas afastou o pensamento.

— Está rabiscando meus livros agora?

— Considere um presente — respondeu ele, fechando o livro e devolvendo a ela. — Para lembrar que você realmente sabe relaxar.

Ela segurou o livro com cuidado, como se aquele pequeno símbolo tivesse adquirido um peso inesperado.

— Vou considerar — disse, sorrindo.

E assim eles seguiram conversando até o horário do almoço, onde infelizmente sentaram-se em mesas diferentes, porém seus olhares se cruzavam repetidas vezes, fazendo com que ambos se perdessem nas conversas ao redor.

Na mesa da Grifinória, Harry e Rony chamaram Hermione algumas vezes, a amiga aparentava estar desligada, e sorria constantemente, Gina a olhava divertida, e revirava os olhos, sabia que a amiga estava se apaixonando, e pelo que via na mesa Sonserina, os olhares eram intensos, e Hermione precisava contar as novidades à ela.

Os olhares não passaram despercebidos por Harry. Teve um pressentimento estranho. Ainda assim, ao ver o brilho esperançoso nos olhos da amiga, decidiu confiar que ela saberia quando contar.