Inconfidentes

5 O passado nos Astros


Notas iniciais
"Quando eu me pergunto quem sou eu, sou o que pergunta ou o que não sabe a resposta?" Geraldo Eustáquio

O jogador de futebol amigo de Dan ainda estava ali, com uma cara meio espantada. Ela tinha esbarrado com ele na escola, mas nunca iria imaginar que jogava RPG. Era o tipo de coisa que Sol não assimilaria com ele. Bem, bem... Não importava. Roberto começou a explicar para o jogador como funcionava o jogo. O rolar dos dados decidiu que ela não seria a primeira a jogar, então em seguida se distraiu, imersa em pensamentos.

“—Vamos logo, Sol. — Júpiter gritou para a garota de cabelo negro parada na calçada. Essa apenas ria.

— Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronta! Digam ao povo que vou! — Ela riu novamente enquanto parafraseava D. Pedro I, pulou na par de trás da caminhonete.

— Ai está a minha garota! — David, ou Júpiter, gritou, fazendo todos ali rirem.

Ele se sentou no chão, ela sentou entre as pernas dele e Vênus – que na chamada da escola se chamava Elena – sentou entre as pernas de Sol. Ele passou os braços pelas duas.

— E lá vamos nós! — Sol gritou rindo e todos os sete adolescentes na caminhonete levantaram as mãos rindo também. Lua não estava ali... Onde será que ela tinha se metido?

— Sua mãe não vai criar caso com isso? — Perguntou Júpiter.

— Fala sério. Como se ela ou meu pai se importassem, eles só se importam com eles mesmos. E quando ela se lembra de mim é só pra gritar, então realmente não me interessa, mando uma mensagem mais tarde dizendo que vou para a casa da Elena. — Sol disse risonha. — Para onde vamos?

— Não sabemos exatamente, mas vamos parar em alguma espécie de... Lugar escondido. É tipo uma clareira que é depósito de carros usados. — Respondeu Vênus, Sol somente via os cabelos loiros e lisos de sua melhor amiga na frente.

— Parece bem legal, sem horário, né?

— Completamente. — Respondeu David rindo. — Da ultima vez quase não consegui disfarçar em casa quando cheguei chapado.

— É um mistério como seus pais não te descobriram ainda. — As duas riram.

— Até parece que vocês são mais cuidadosas, são duas vadias, isso sim. Só não estão piores por que tem a mim. — Tanto Sol quanto Vênus se acabaram de rir. — O que seria de vocês duas sem mim? — Ele deu um tapa carinhoso na cabeça de cada uma.

— É bem o contrário, não? Quem ia ensinar você como ser o melhor na cama? Você precisa da gente. — Elena disse séria.

— Realmente, quem ia te apresentar pra garotas mais lindas da escola, depois de nós duas, claro, e depois te escutar falando sobre elas? — Sol riu. — Você precisa das rainhas da escola com você, querido.

— E quem ia ensinar vocês duas sobre...

— Ah, cala a boca. Ok, empate, nós três precisamos um do outro. — Vênus o cortou rindo.

— Mas que eu sou a mais necessária, isso ninguém pode discordar. —Sol disse indiferente e depois riu, levou tapas dos amigos.

— Quanta humildade, senhorita Carmona. — Júpiter falou repreensivamente.

— Nem parece que estuda em colégio de freira. — Vênus riu.

— Primeiramente, caro Júpiter: Essa é apenas a verdade. — Sol disse séria. — Segundo, Vênus: Nós fomos expulsos hoje do colégio, então tecnicamente não estudo mais em colégio de freira.

— Falando nisso como os pais de vocês reagiram à notícia? — Perguntou David brincalhão. — Meu pai me deu um sermão e depois riu dizendo que também já tinha sido expulso de várias escolas, ele não reclamou mais por que minhas notas ainda estão altas, então... — Júpiter deu de ombros.

— Mamãe reclamou, reclamou, depois papai também. Estou de castigo, tiraram meu cartão de crédito, meu celular, internet, tudo. Durante um mês inteiro. Dá pra acreditar? Um. Mês. Inteiro. Acho que eles estão exagerando, tipo, nem a primeira vez que sou expulsa de uma escola, já aconteceu antes. — Júpiter e Sol concordaram.

— Bem, não contei para os meus pais ainda. Quer dizer, eu nunca tinha sido expulsa de lugar nenhum. Então ainda não posso responder. — Sol também tinha medo de falar, mas não ia dizer isso.

Eles sentiram a caminhonete parar, mas ainda nem tinham saído da cidade. Sol empurrou Vênus e viu que o motorista tinha parado ao lado de uma menina que Sol conhecia muito bem: Raquel, a menina mais pateticamente chata de toda escola. Meu deus... Era, com certeza, o tipo de gente que podia estragar toda a diversão de um lugar.

Raquel se aproximou do carro com um sorriso ridículo e convencido no rosto. Ela realmente tinha pedido carona no carro dos Astros? Ok, era mais que ridículo. E que merda de motorista era aquele que tinha parado?

— Ei, se afastem para eu poder subir. — Era patético como Raquel sempre tentava ser... Perfeita. Sol olhou rapidamente em volta e viu que nenhum dos Astros estava gostando da situação. Se virou para olhar Raquel nos olhos.

— Não. — Disse simplesmente, em alto e bom som, com um sorriso enorme e arrogante no rosto. Virou o para frente de novo e bateu na lataria do carro, que recomeçou a andar.

A morena nem se deu ao trabalho de virar o rosto para ver Raquel se distanciando, aquela lá não merecia a perda de tempo. Os Astros parabenizaram Sol por ter feito o que era certo e ela os instruiu a mandarem mensagens a todos os convidados da festa para que ninguém parasse para pegar nenhum ‘chato’. Foi o que eles fizeram. Eles sempre faziam.”

Sol foi salva da lembrança quando algo caiu em seu decote. Ela olhou para baixo e viu uma bolinha de papel em seu sutiã, entre seus peitos. Sol riu e olhou para frente. Era Chuck quem jogava, naquele momento jogou outra, mas ela desviou. O idiota tinha pegado uma folha inteira de papel pra fazer bolinhas.

— Então, Sol, como ficou a situação com o jogador de futebol? Vai sair com ele? — Chuck perguntou enquanto preparava outra bolinha, os meninos fizeram uma pausa rápida e ela nem tinha notado. Passou os olhos pelo jogador de futebol presente, antes de falar.

— Sim, ele vai passar lá em casa. — Ela riu suavemente. — E eu vou ser tão estúpida que ele nunca mais vai querer passar perto de mim. — Não via problemas em contar para seus amigos sobre isso.

— Quer dizer que você não quer mesmo sair com ele? — Eduardo tinha um sorriso irônico no rosto.

— Nem um pouco. Eles não são o... meu tipo. — Sol fez careta. — Mas o bom é que temos um representante dos jogadores aqui que pode me dizer o porquê de eles estarem no meu pé. Por que... Jonathan, certo? — O garoto loiro arregalou os olhos ligeiramente, mas depois sorriu e assentiu. — O Jonathan é da minha escola e, caso vocês não tenham notado, ele é do time.

— Caramba, é verdade... Já tinha esquecido o símbolo do time, faz tanto tempo que não o vejo. — Roberto parecia quase impressionado e o jogador pareceu se estufar um pouco mais, o que fez Sol querer rir.

— Como assim “tanto tempo”, vocês estão já estão na universidade? — Jonathan parecia incrédulo.

— Sim, a mais nova é Sol aqui, que tem apenas dezessete anos. Eu faço oceanografia. — Eduardo informou.

— Eu estudo engenharia civil. — Disse Marcos, sério. Sol ainda tinha dúvidas se ele gostava ou não dela.

— Bem, eu estou totalmente comprometido com sistema de informações. — Roberto sorriu, sempre amigável.

— Faço advocacia. — Chuck olhou rapidamente para Jonny antes de encarar Sol de novo, ele sorriu e ela sorriu de volta, dando língua pra ele em seguida.

Ela tinha de parar com aquilo. Nunca tinha se apaixonado por ninguém, mas corria um risco de se apaixonar pelos olhos castanhos de Chuck, quase podia sentir. E ele era tudo que ela não devia querer. Perigoso demais, divertido demais, inteligente demais e galinha demais. Ele tinha tudo que um garoto poderia invejar e que uma garota podia querer. Mas o pior é que o vagabundo sabia disso.

Por sorte Sol tinha uma consciência muito racional para desenvolver qualquer tipo de sentimento amoroso por qualquer pessoa. Ela praticamente não tinha sentimentos por ninguém, a não ser por si própria. Era egoísta e não negava, apesar de tentar combater tudo que achava ruim em si, não conseguia ter bons resultados. O fato é que ela continuava tentando.

— Eu era do time da minha escola também. — Chuck informou voltando seus olhos preguiçosamente para o jogador. — Fui capitão, por dois anos. — Seu jeito era relaxado, como se o que dizia não tivesse importância nenhuma, mas o conhecendo como conhecia, Sol sabia que não era assim.

Nada que seu melhor amigo fazia era sem proposito. Assim como ela, Chuck era calculista, sempre havia por trás um motivo, uma reação que ele queria provocar. O interessante é que ela sabia o porquê daquilo. Algo interessante que eles descobriram em comum: Ambos conseguiam antecipar as reações das pessoas, por isso podiam escolher qual ação usar para obter a reação desejada. Era empolgante e ao mesmo tempo chato. Empolgante por que você tinha o poder do controle em mãos, chato porque todos eram previsíveis.

Era provável que esse fosse um dos motivos de Chuck ser tão interessante a ela e Sol a ele. Eles eram guardados, não conseguiam controlar o outro, não se bajulavam e conseguiam controlar o mundo a sua volta de forma sutil, o moldando para que ficasse de acordo com as vontades do momento. Eles eram frios e calculistas.

Era engraçado, algum tempo atrás Sol amava essa sua qualidade, mas naquele momento tudo que ela tentava fazer era desligar seu instinto dominador. Por que ela era uma conquistadora, pegava o que queria e ponto. Mas não queria mais ser assim, queria apenas paz, solidão... Queria ser invisível. Sol se autoconvenceu que era uma pessoa ruim e reforçava aquela ideia a todos os momentos, seu ego, entretanto, era um ótimo orador.

Será que era assim tão difícil virar uma pessoa humilde e resignada? Era tão difícil deixar o orgulho ir embora? Para ela, sim. Tinha de batalhar todos os dias contra respostas automáticas desdenhosas – mesmo com péssimos resultados –, atos egoístas ou mesquinhos. Todos os dias tentava ser uma pessoa ideal, aquela que tinha formado em sua cabeça. Mas para isso teria de deixar todo o seu passado para trás, tudo que ela tinha sido durante toda a sua vida. Tudo que tinha visto, ouvido, aprendido, sofrido e ganhado. Como se apaga quem se é quando se quer ser uma nova pessoa?

Afinal, deveria deixar sua personalidade livre ou doma-la por completo. Ser ou não ser, eis a questão. O que ser e o que não ser. Ser o que se é ou ser quem você quiser. Quantas dúvidas, nenhuma resposta, nenhuma certeza. Apenas tentativas, mas a vida não passava de um grande salão de tentativas, então tudo bem. Era uma questão de sorte, probabilidades e estatísticas. Simples assim, teoricamente.

— Sol? — Escutou seu nome e virou em direção a Roberto. Droga, tinha se distraído novamente. Sorriu para ele e fez um gesto para que prosseguisse. — Então vocês são amigos de escola? — Apontou para o jogador.

— Não, acho que o vi apenas uma vez durante o tempo que estou lá. Não temos nenhuma aula juntos também, até onde me lembro. — Respondeu pensativa. — Mas, bem, eu sou um pouco distraída para assuntos não acadêmicos, então... — Deu de ombros, encarou o jogador. — Mas você ainda tem de me responder.

— O que? — O garoto pareceu confuso, Sol revirou os olhos, se divertindo.

— Ela quer saber porque o garoto do time está atrás dela. — Chuck explicou.

— Acho que deveria perguntar isso a ele, mas, se quer sair com você, é por que você despertou o interesse dele. — Sol conferiu o garoto e ele parecia sincero, mas alguma coisa nele a fez duvidar, era como... Algo que ela não sabia explicar. Foi estranho não conseguir desvendar as intenções de uma pessoa por completo.

— Seja como for, vou tentar ser desagradável. — Comentou dando de ombros.

— No caso, vai agir normalmente? — Dudu perguntou com um sorriso de escárnio no rosto. Sol olhou pra ele com um sorriso irônico de canto nos lábios.

— Na verdade estava pensando em imitar você. — Aquilo era plena brincadeira entre eles, que sempre se tratavam assim, por isso morena riu e deu língua para o amigo, que logo foi chamado por Marcos, que queria lhe mostrar algo no celular.

— Acho que vai conseguir assim. — Disse o jogador, Sol voltou-se para ele, que continuou. — Nathan gosta de garotas delicadas, bem femininas, então agindo de forma contrária... — Ele deu de ombros.

— Ótimo, então só preciso agir normalmente mesmo. — Percebeu que o jogador estava com um rosto estranho para ela, achou divertido. — O que? Eu não sou nenhum exploração de delicadeza e meiguice. Não é como se eu fosse um poço de feminilidade, de qualquer forma... — Ela riu, Chuck sorriu junto.

— É verdade. Essa aqui tem o espírito de um moleque. — Sol riu com a comparação, mas uma parte dela se incomodou que ele tinha concordado, quer dizer, será que Chuck não a via como mulher? Olhou para seus seios, não tão valorizados assim naquele sutiã de algodão, mas era confortável e conforto sempre vem antes.

Jonathan, o jogador, olhou seu celular, fez uma cara que Sol percebeu ser encenação e ela já sabia o que ele dizer antes que ele abrisse a boca:

— Pessoal, vou ter que ir embora. Minha mãe me mandou uma mensagem e precisa da minha ajuda em casa. — Bingo! Qualquer dia ela deveria jogar na megasena.

— Ih, entendo bem isso. — Disse Roberto. — Quando mãe chama a gente tem que estar lá antes até da mensagem chegar. Vai na paz. — Ele riu.

— Ok, cara, mas aí... Vê se volta pra jogar com a gente. — Edu disse e se levantou, a casa era dele, ele que abrisse a porta.

— Tchau. — Disse Marcos, sempre sucinto.

— Vai de que? A rua aqui é meio vazia. —Chuck perguntou.

Então o telefone de Sol tocou e ela atendeu enquanto os garotos conversavam.

— Alô, tia? — Era difícil Catarina ligar, bem difícil.

— Querida, preciso da sua ajuda aqui em casa, o encanador está aqui concertando o banheiro e eu vou ter que sair nesse momento por conta de um caso, dá pra você chegar aqui em dez minutos? — Ela falou rápido e sem fôlego, é deveria estar com pressa mesmo.

Sol ficou chateada, queria jogar, mas é a assim. Alegria de pobre dura pouco... Não, não, alegria de pobre não existe, é ilusão. Sol começou a rir e os meninos olharam pra ela.

— Sol? — Sua tia indagou confusa. Que mundo era esse que a pessoa nem podia mais rir de uma piada interna em paz?

Sol pigarreou — Tia, não tem como eu chegar em dez minutos, eu estou à pé, lembra? No mínimo meia hora e...

— Eu te levo, tô de carro. — O jogador ofereceu e Sol sorriu em agradecimento.

— Ok, tia, arrumei carona. — Sol riu, ela geralmente era tão sortuda, outra coisa que gostava em si mesma.

— Tudo bem, querida, estou te esperando. — E desligou.

Era isso? Catarina era uma advogada, ela não deveria estar preocupada? Tipo: Será que a minha sobrinha não está vindo com um psicopata? Ou, sei lá, pelo menos ter dado um aviso como "Tome cuidado”? Sol, deixa de ser fresca, já é muito velha pras pessoas ficarem se preocupando contigo, sua mente apontou sempre tão gentil, Sol concordou rindo mentalmente. Se ele se preocupasse você ia reclamar dizendo que ela estava enchendo seu saco! Era verdade, Sol concordou. Ah... Como ela se sentia doida.

— Vai ter mesmo que ir? — Edu perguntou. Sol fez um bico torto e concordou, chateada.

— Vou ter de ficar vigiando um encanador, acredita nisso? — Eduardo riu.

— Se ele se chamar Mario você liga pra gente. — Roberto brincou e todo mundo riu, até o jogador.

— Tudo bem... — Ela disse e pegou a bolsa, jogando o cinto dentro em seguida. E foi se despedir.

Abraçou Beto primeiro, já que ele estava mais perto. Sol não adorava abraçar, na verdade ela não gostava muito de nenhum tipo de demonstração de afeto, só se ela gostasse muito da pessoa, mas ainda assim as pessoas adoravam abraça-la, aparentemente ela tinha um bom abraço. Beto foi seguido por Edu, ela deu apenas um leve aceno para Marcos. Chuck a abraçou com força e a tirou do chão, ela riu e devolveu o abraço com toda a força que tinha. Quando se soltaram ela virou rapidamente para o jogador.

— Vamos logo, estou com pressa. — E sorriu.

Notas finais
Uhm... Bubbles *-* Gostaram do presente de natal? Será que agora um pouquinho dos mistérios da nossa Sol ficaram mais claros? Ou só piorou tudo de vez? O que será que aconteceu pra ela estar estudando do outro lado do país? Ou para querer desaparecer na multidão uma vez que seu passado foi o justo contrário? Vocês concordam com ela? Gostaram dos meninos? Me contem, o que acharam? Beijos de Luz *3*