Inconfidentes
6 Como se afogar num lago...
Notas iniciais
Jonathan saiu junto com Sol da casa. Era engraçado como a mentirinha dele tinha cabido tão bem ao momento. E ela estava tão diferente, era quase outra pessoa perto dos amigos, bem, ela não tinha deixado o sarcasmo de lado, isso é fato.
Eles saíram em silêncio e Sol alternava em olhar para ele e para o caminho. Jonny estava começando a detestar aquele olhar dela, era tão... Imprevisível. Ela podia estar pensando qualquer coisa e ele não teria a mais mínima ideia. Podia estar pensando em gaivotas cegas armando um atentado terrorista, assim como podia estar pensando em chuchu cozido. Mas, por outro lado, também era algo incrível, por que o dava vontade de descobrir o que Sol pensava.
Jonny destrancou o carro, ia abrir a porta do passageiro pra ela, mas Sol foi mais rápida e abriu sozinha. O garoto suspirou e entrou também, assim que deu partida o som começou a tocar. Estava num dos seus CDs do Nirvana. Ficou em dúvida se deveria deixar tocar ou não.
— Tem problemas se deixar tocando? — Resolveu perguntar, que era um caminho mais seguro.
— Tá brincando? — Ela inquiriu com um sorriso irônico no rosto. — Eu adoro Nirvana, não ouse tirar. — A diferença do dia anterior para aquela sexta feira era gritante no humor de Sol.
— Posso perguntar algo? — Viu o sorriso dela sumir devagar e aquela expressão inescrutável tomar conta de sua face.
— Posso te impedir? — Ela perguntou com o tom de voz sem inflexões. Deus, como alguém podia ser tão... Impenetrável?
— Bem, se você disser que não, eu não pergunto nada... — Sol o olhou nos olhos.
Ele lembrou de uma vez, quando foi viajar com os pais. Pararam a beira de uma lagoa com água muito escura. Jonathan devia ter seus dez anos, na época. Andou numa espécie de ponte, que ia até alguns bons metros da margem, se ajoelhou e olhou para a água. Tão escura. Não dava para ver nada além de seu próprio reflexo. Ele se inclinou mais para perto, curioso, queria ver qualquer coisa. Não era possível que uma lagoa tão grande estivesse vazia, como aparentava.
Então Jonny não pôde suportar mais de tanta curiosidade, ele se agarrou às tábuas que sustentavam a ponte e enfiou a cara lá dentro, o mais fundo que conseguiu. E então ele finalmente conseguiu ver algo: a ponta de uma plantinha escura, parecida com uma alga, que vinha do fundo, mas também só viu aquilo, nada mais.
Como era possível que algo tão enorme e que, ainda por cima, se fazia de misterioso só tivesse uma plantinha? E por isso ele decidiu que mergulharia ali, ele tinha dez anos e já nadava muito bem, além disso, estava realmente muito curioso. Ele soltou os braços, mas ao invés de cair, como era esperado, foi puxado pelas roupas para encarar um pai muito zangado. É, bem, ele nunca descobriu se tinha algo no fundo da lagoa.
O fato é que os olhos de Sol o lembraram daquela lagoa, mas ela piscou e olhou para frente, fazendo com que ele ficasse calado e começasse a dirigir. Ficaram em silencio, apenas ouvindo a música tocar.
— Pode perguntar. — Sol disse, por fim, depois de alguns segundos. Jonathan relaxou, sem saber que estava tenso.
— Por que seu nome é Sol? Quer dizer... É apelido ou nome mesmo? — Estava curioso. Pelo canto de olho ele viu ela abrir um sorriso mínimo e a postura ficar mais aberta.
— Ah, minha tia, que estava prestes há morrer alguns dias antes de minha mãe dar à luz, fez seu último pedido, dizendo que queria que meu nome fosse Sol. — A morena riu. Jonny franziu o cenho.
— Qual a graça? — Sol riu mais, uma risada irônica.
— Bem, a graça é que minha tia melhorou um mês depois de eu ter nascido e meu nome já era Sol, coisa que minha meu pai não queria. — Ela revirou os olhos e arqueou uma sobrancelha. — Segundo, é um nome que, se você pegar a estrela com esse nome, não me representa muito bem. O sol é quente, grande, dá vida às coisas, enche de luz os caminhos que passa e ele é tão... Tão... Luminoso. Chega a dar raiva. — Falou rápido, a voz com um leve tom de sarcasmo.
— Então, você não gosta do seu nome?
— Eu adoro meu nome, até por que eu não consigo me imaginar com outro nome, entende? Não seria eu, se eu não me chamasse Sol. Quer dizer, você consegue se imaginar se chamando, sei lá, Vitor? — Jonny abriu a boca, pensando em algo mais esperto para rebater, mas não seria verdade.
— Não, não consigo. Eu só consigo imaginar outra pessoa quando penso.
— Exatamente, seria estranho me chamar de outra coisa além de Sol. — Finalizou.
— Então por que mentiu seu nome, duas vezes? — Ele perguntou, sua boca sendo mais rápida que sua mente.
— Bem, isso é muito simples: Por que eu não queria que soubessem meu nome. — Sol soprou uma espécie de riso pelo nariz, com ironia, fazendo com que Jonathan ficasse estressado. — Se soubessem meu nome seria muito fácil procurar por mim e eu não quero ninguém procurando por mim. Além disso, foi divertido. — Ela deu de ombros e Jonny ficou calado, achando mais sensato da parte dele.
— Onde você mora? — Ele perguntou, lembrando que deveria de leva-la para casa, tinha percebido que estavam andando em círculos, apenas. Sol deu uma risada curta que, pela primeira vez, não tinha nenhum traço de sarcasmo.
— Na verdade eu não sei o nome da rua, mas você sabe onde fica a lanchonete Dommer's? É naquela rua, uns dois quarteirões depois, pra esquerda. Vai passando que quando chegar na casa eu te falo.
— Hm, tinha um amigo meu que morava por ali. — Comentou.
— Agora, minha vez de perguntar: Por que você mentiu? — Sol falava com a mesma voz inflexível de sempre.
— Hm? — Ele ficou confuso.
— Ok, olha, eu admito quando estou errada. Não estou te julgando, nem nada. Só quero saber por que mentiu sobre conhecer Daniel e depois pra ir embora. — Como diabos aquela garota sabia disso? — Não fica com essa cara, você mentiu pra ir embora e ficou muito tenso praticamente todo tempo, sem contar que Dan não avisou ninguém que estava mandando um amigo e, ainda por cima, eu sei que você não é exatamente o tipo de amizade dele. Não foi difícil deduzir. E eu estou tentando não imaginar o pior aqui.
— Eu estava indo pra casa, então te vi na rua com os meninos, resolvi parar na casa junto com vocês, então eu... Hm...
— Você...
— Eu vi na janela o menino, Chuck, correndo atrás de você e você batendo nele, imaginei... Bem, eu imaginei coisas ruins. — Falou num fôlego só. Nem mesmo ele sabia qual reação esperar dela, só sabia que não era aquela.
Sol começou a rir. Rir de verdade, do tipo gargalhando. O som era tão engraçado e ele não sabia dizer se ela estava rindo dele ou com ele, mas ela ria e ele acompanhava, por que não dava pra aguentar, Sol fazia umas caretas estranhas e começava a ficar levemente vermelha. Depois de alguns minutos ela finalmente parou, fechando os olhos e respirando fundo diversas vezes.
— Ok, ok, ok, ok... Então você achou que ia ser meu herói, ou algo do gênero? — Ela não o deixou responder. — Hm, então acho que eu meio que te devo um obrigado, por tentar me ajudar. Você ia se foder, se fosse verdade, mas... Ah, saiba que isso também parece meio psicótico. — Riu mais um pouco.
— Achei que ia ficar... Sei lá... Zangada.
— Não, não... Na verdade isso é o tipo de coisa que eu vou rir muito ainda. E, acredite, eu não seria pega tão facilmente, sei... Umas coisas. — Ele olhou pra ela e sorriu, sem saber por que.
Mais a frente ele percebeu uma blitz, desacelerou e esperou. Um policial moreno e com cara de tédio chegou perto deles. — Documentação.
— Pode pegar aí no porta-luvas, por favor, Sol?
Ela foi rápida em abrir o compartimento e dar os documentos para Jonny, que logo passou para o policial. Quando o policial trouxe os documentos, com tudo já certo, e Jonny estava prestes a devolver para o lugar e voltar a dirigir, viu que Sol estava com algo na mão: o livro da semana, O Corcunda de Notre Dame. O humor dele escureceu, enquanto o olhar dela brilhava.
— Desculpe a pergunta, mas o que você faz com esse livro? — Ela perguntou sorrindo misteriosamente, pegando os documentos e colocando dentro do porta-luvas de novo.
— Estou usando de papel higiênico. — Respondeu ironicamente e a morena revirou os olhos, o sorriso sumindo. — Estou lendo, é o que se supõe que se deva fazer com um livro.
Sol virou o livro, começando a ler a sinopse no verso e ignorando Jonny completamente. Jonathan estava incomodado, mas decidiu não falar nada, eles seguiram viajem. Sol apenas abriu o livro e começou a lê-lo, como se ele fosse seu e Jonny não estivesse do seu lado, quase tendo uma sincope.
— O que um livro de Vitor Hugo faz no seu carro? E não jogue piadinhas dessa vez, você entendeu muito bem a minha pergunta. — A pergunta de Sol saiu naturalmente, mas Jonny apertou os dedos no volante. Esquecera-se de tirar o livro de dentro do carro e agora teria que explicar por que ele estava ali.
— Eu tenho um trabalho de literatura pra fazer sobre esse livro. — Inventou uma desculpa, na qual Sol não caiu. A verdade é que ele só lia por causa da mãe.
— Sei.
O jogador apertou ainda mais o volante. Olhou rapidamente para Sol e notou o quanto os olhos dela brilhavam. Ele só tinha visto outra pessoa com o mesmo olhar em cima dos livros. E no que tinha resultado? Morte. E era por isso que ele tinha agonia desse amor desmedido em livros, tinha lhe custado muito, mas do que ele podia aguentar.
— Você pode, por favor, colocar o livro onde você achou? — Pediu tentando ser educado, numa tentativa falha de conter seu irritamento.
Ele sentiu os olhares dela em seu rosto. Queimando. Coçou a bochecha. Em silêncio, Sol colocou o livro no porta-luvas. Cruzou os braços e afundou-se no banco, ficando com o semblante fechado e os lábios apertados, o loiro sentia que ela queria perguntar algo, mas não o fez. Ele agradeceu a deus por isso.
— Você gosta muito de ler? — Perguntou, apenas para tirar a dúvida de um ponto.
— Os livros são a minha vida. Leio como alguém que respira... Para me completar. Os livros são a minha ação, meus sentimentos, mostram no que fracassei, quanto sou medrosa, eles me mostram que tipo de pessoa quero ser, entre outras coisas. Além disso, existe forma de viver mais nobre, ou em melhor companhia, do que a literatura? — A entonação da voz dela demonstrava o amor, a paixão que não podia ser fingida, então ele lembrou da única outra pessoa que ele ouviu falar daquela forma.
Desse ponto em diante ambos ficaram num silêncio constrangedor. Daquele tipo que grita "seus imbecis". Mas, por sorte, não demorou muito para que chegassem na casa, com Sol indicando o caminho. E Nirvana também ajudava a relaxar ambos.
— Obrigada, de verdade, eu estaria realmente com problemas se... Enfim, eu agradeço. Valeu. — Sol falou enquanto tirava o cinto e abria a porta.
— Sol.
— Sim. — Ela se virou e o encarou com aqueles olhos de imã.
— Desculpe se eu fui grosseiro com a história do livro. — Jonny olhava nos olhos dela, ele admitia que exagerou. E deu um sorriso sedutor, de canto. A morena o olhou por um tempo, com a expressão que sempre o deixava sem saber o que pensar.
— Tudo bem, não foi nada demais. — Ela falou, saiu do carro e entrou em casa.
Jonny foi embora em seguida, um cansaço lhe abateu e ele ainda tinha que terminar de ler o livro.
...
Sol entrou em casa e Catarina quase lhe atropelou.
— Minha querida, tenho que correr, fique olhando o cara lá e quando ele acabar o dinheiro do pagamento do encanador está em cima do armário da cozinha, tranque tudo assim que ele sair, acho que eu vou demorar. — Ela falou tudo isso enquanto saia da casa.
E então Sol estava sozinha. Ou nem tanto, já que o tal encanador estava na casa. A primeira coisa que ela fez foi tirar os sapatos e jogar longe, como tinha estranho em casa, não ia tirar a roupa ainda. Foi até a cozinha e preparou um sanduíche de queijo e presunto e nescau.
E o nome do encanador era Tadeu, não deu. Enquanto ele acabava o serviço, Sol ficou lendo, mas não demorou muito a acabar, então foi pago, saiu e a morena trancou a casa inteira. Nenhuma janela, porta ou cortina aberta. Ela, finalmente, pôde tirar a roupa. Ficou nua, subiu para seu quarto e se jogou na cama, sentindo os músculos tensos se torcendo até relaxarem. Fechou os olhos, respirou fundo e...
*Tan, tan, tan, tan, tan*
Seu telefone estava tocando. Será que Catarina tinha esquecido algo? Sol suspirou e foi pegar o telefone na bolsa, que estava no chão perto da porta do quarto. Mas não era Catarina, era Elena. Os olhos de Sol se arregalaram sutilmente, mas a ligação terminou. Será que era engano? Só podia ser engano... Entretanto voltou a tocar. Sol atendeu, com o cenho franzido.
— Alô. — Falou devagar, como quem tem medo de assustar passarinhos.
— Sua vaca, como é que você se muda sem falar pra ninguém? — Elena praticamente gritou. Sol ficou mais perdida que filho da puta em dia dos pais.
— Espera, como assim, Elena?
— Você, Sol, como... Por que não me falou nada? Ou pra alguém? — Sol franziu o cenho e voltou a se deitar na cama.
— Bom, depois que você disse que queria que eu desse um espaço pra você pensar e que a escola inteira não estava lá muito contente comigo, eu não vi motivos pra falar com alguém, foi uma decisão minha. — A morena deu de ombros, mesmo que ninguém estivesse vendo, e revirou os olhos.
— Não revire os olhos pra mim, Sol. Escuta aqui, eu só estava um pouco confusa, isso não muda o fato de você ser minha melhor amiga. Então, no primeiro dia de aula, eu e alguns outros amigos seus organizamos uma surpresinha e você não apareceu. Até aí tudo bem, você podia estar viajando. Passou duas semanas e nada, fui à diretoria e descobri que você não estava mais na escola. Liguei pro seu número e descobri que ele não existia mais. Fui a sua casa e a empregada era nova e sempre dizia que você não estava. — Ela falava rápida e zangada.—- Então eu deixei mais um tempo passar, pra ver se você dava as caras, seus perfis nas redes sociais todos apagados, nem sinal de fumaça seu eu vi. Então encontrei ontem com sua mãe no supermercado e ela me falou onde você estava e me deu seu número.
— Calma, Elena, não é pra tanto. Relaxa. — Sol tentou acalmar ela, sem muito sucesso.
— Relaxar é o meu sapato na sua cara. — Ela gritou e Sol afastou o telefone do ouvido. — Você simplesmente foi para o lugar onde nós duas sempre combinamos que íamos terminar o ensino médio, está estudando na escola que escolhemos, NÃO ME AVISOU NADA E QUER QUE EU RELAXE?!
Sol se estressou e começou a falar mais alto. — Não grita comigo que você não tem esse direito! — Elena parecia ter se acalmado, provavelmente por Sol raramente aumentar o tom de voz, por isso a morena continuou em tom mais ameno. — Não venha cobrar de mim nada, ninguém tem o direito de me cobrar uma vírgula! Eu fiquei sozinha... Eu sou sozinha. Ninguém acreditou em mim, ótimo. Eu errei, ótimo também, já te pedi desculpas por isso há muito tempo. E agora estou em paz aqui onde estou. Você não tem o direito de gritar comigo ou de ficar estressada. — Sol desabafou e respirou fundo.
— Você tem razão. — Elena falou em tom choroso.
— Eu sei, me considero uma pessoa justa. — A loira riu do outro lado da linha, mas logo ficou em silêncio por um tempo.
– Estou com saudades de você, Sol. — Falou, por fim.
– Admito que também estou com saudades de você, loira aguada. Muita, pra ser sincera. — A morena disse e sorriu, apesar de não ser necessariamente verdade, Sol sentia falta de Elena às vezes, mas na parte do tempo ignorava sua existência. — Mas então, me conte o que está acontecendo por aí?
— Bem, todo mundo sente saudades de você, eles já esqueceram o que aconteceu, acho que conseguimos convencer eles de que tudo foi uma grande fofoca. De qualquer forma, sem você não tem Astros, afinal, você era o sol. — Elena riu e Sol olhou o teto de seu quarto, cheio de estrelas que brilhavam quando no escuro. Suspirou. — Ele ainda está apaixonado por você, Sol.
— Problema dele, eu avisei. — O coração dela apertou levemente, mas ela era firme.
— Mas e você... Me conte como vão as coisas por aí? — Elena pediu.
— Aqui? Nada demais. — Falou, com preguiça de contar as coisas que aconteciam.
— Não me enrola que eu não sou teus baseados, bora, conta logo. — Sol suspirou e começou a contar desde que se decidira a se mudar até a o dia presente.
— Então, de repente, vários garotos do time estão me chamando pra sair. Eu aceitei sair com um deles, minhas "amigas" daqui meio que me obrigaram. Na verdade, eu estava tentando sumir das vistas do mundo, mas tá meio difícil.
— Você não vai ficar invisível, por que não consegue. Você será sempre o tipo de gente que chama atenção, não importa aonde vá, Sol. Acostume-se. — Elena riu e Sol fez careta. — Mas então, me conte mais sobre esse Chuck e esses jogadores do time, quero saber tudo, detalhe por detalhe. Ah, e já que você vai sair com um deles, é bom descobrir o porquê desse interesse repentino em você, acho que ao invés de tentar espantar, deveria tentar é trazê-lo pro seu lado. Enfim, nunca se sabe...
— Estou com cefaleia, não dá pra pensar nisso outra hora? — A morena perguntou, mesmo que já soubesse a resposta.
— Sol, fala logo, bora...
— O que você quer que eu conte mais, sua tarada? — Sol começou a rir, contente de recuperar sua melhor amiga.
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