Inconfidentes

2 Não se pode mandar nela...


Sol acordou cedo naquela sexta-feira. Bateu no despertador e levantou em seguida, foi direto tomar banho de água gelada. Não gostava muito de água quente por alguma razão, mesmo no frio. Parou em frente ao grande espelho do banheiro nua, passou a mão em sua barriga, vendo ali cicatrizes. Já tinha se acostumado com as formas e as cores, mas não com as lembranças que carregavam.

Estava morando com a tia no sul. Ela tinha um corpo lindo, bem, ela achava lindo, mas o escondia em calças e camisetas folgadas, cardigãs e sapatilhas, por que não queria distração para seus estudos, um dos pontos para estar ali era manter notas altas, já tinha sofrido com o assédio e não precisava sofrer isso ali também. Quer dizer, escondia seu corpo na escola, porém às vezes, quando saía com seus amigos, sabia colocar uma roupa bonita.

Mas aquele era um dia de escola. Por isso ela procurou seu jeans escuro e folgado. Ela tinha apenas duas calças – por que as odiava e só usava na escola –, por isso usava uma enquanto a outra lavava e assim era o lindo ciclo da vida. Viu a perna de sua calça saindo de debaixo da cama, tentou puxar com o pé, mas algo impediu de vir, se abaixou e quase chorou quando viu que o cachorro da sua tia tinha feito xixi na calça. O pior de tudo é que não podia entrar na escola sem usar a maldita. E não tinha nenhuma limpa.

Vestiu um short antes de ir até o quarto de sua tia, esperando que uma calça dela coubesse, por que Sol tinha um quadril bem maior. Bateu na porta e esperou resposta.

— Pode entrar, querida. — Sol entrou, sentindo de imediato o ar frio do ar condicionado, e viu sua tia colocando a saia lápis, quase um uniforme pessoal da advogada, com o coque perfeitamente alinhado na cabeça. Catarina virou e sorriu ao ver a sobrinha. — Em que posso ajudar?

— Tia, seu cachorro fez xixi na minha calça e a outra está lavando. Pode me emprestar uma calça?

— Claro, querida, e eu espero que você encontre uma que caiba. — Apontou para o closet e sorriu, logo voltando a se arrumar.

Sol foi até lá e abriu uma das portas, calças, muitas calças. Pegou uma preta e tentou vestir, mas a maldita empacou exatamente embaixo de sua bunda, não subindo nem mais um milímetro. Desistiu e tentou com uma de lavagem clara, deu na mesma, com as duas próximas ocorreu o mesmo.

Suspirando irritada, ela pegou uma com tecido macio, quase aveludado, de lavagem azul escura e... Graças a Gandalf, aquela coube... Bem, pelo menos passou da bunda e se estabeleceu bem alta, quase na cintura. Mas a bendita não queria fechar, Sol apertou e pulou, prendeu a respiração puxou mais para cima e com mais força e, finalmente, conseguiu fechar o botão. Respirou fundo, satisfeita. Se sentou em um dos pufes que ficavam no closet, só pra ter certeza que aquela calça não ia estourar ou algo assim. Estava ótima, só levemente apertada na cintura, levantou e olhou no espelho, estava bem justa, virou de costa e olhou sua bunda, totalmente marcada. Meu deus... Eu sou bonita demais, pensou.

Quando entrou no quarto viu que sua madrinha já tinha acabado de se vestir, estava usando uma blusa social cor de vinho belíssima e saltos finos pretos.

— Valeu, tia. — Sol simplesmente passou de volta para seu quarto.

— De nada, querida. — Gritou um segundo antes da morena fechar a porta do quarto.

Uma das manias da menina era com portas, simplesmente ela tinha muita agonia quando estava em algum lugar com portas abertas, e ela realmente sentia quando as portas estavam abertas, mesmo que não estivesse vendo. Uma vez ela acordou agoniada, tudo por que alguém tinha entrado no seu quarto e deixado a porta aberta.

Pegou o sutiã de algodão e sem enchimento que estava na cama e vestiu, a blusa alternativa da escola, que era preta, um cardigã azul escuro e sapatilhas vermelhas. Pegou a bolsa preta de tecido grosso, jogou o celular dentro e desceu, encontrando sua adorável tia já na mesa.

— Bom dia. — Sol desejou com um enorme sorriso do rosto.

— Bom dia, princesinha. Dormiu bem? — Perguntou Catarina enquanto se virava. Sol não teria imaginado que ela encontraria tanto carinho ali.

Catarina começou a chama-la de princesa desde a primeira vez que se encontraram, só por que Sol usava um vestido roxo rendado, rodado, com a cintura bem marcada e que ia até o joelho, sapatos vermelhos no melhor estilo Dorothy e uma tiara de pérolas posta num charmoso topetinho que previa uma onda de cachos. Apesar de ter sido com carinho, foi ai que Sol lembrou que deveria mudar seu estilo antes de as aulas começarem.

— Dormi sim, minha rainha. — Sol piscou.

Rapidamente Sol comeu e foi escovar os dentes. Indo a pé para a escola em seguida. Olhava para o céu e sorria para as pessoas que passavam por ela, incrivelmente todas sorriam de volta. Nesses momentos ela sempre era feliz por nada. Olhar o céu, contar os passos, fechar os olhos e imaginar que estava voando, conversar consigo mesma... Era Sol.

Chegou à escola antes da aula começar, sentia-se leve, de bom humor e animada. Adorava a escola, principalmente por que ninguém ligava para ela, estava sozinha, ninguém conhecia sua história ou fazia perguntas sobre as coisas que já tinha feito na vida, não havia mais histórias de suas façanhas rodando os corredores, nem pessoas que a admiravam ou odiavam. Sua vida ali era fantástica, pois pôde recomeçar do zero. Só quem sabe o que é ser o centro das atenções conhece a dor e a maravilha de poder começar de novo.

— Hey, baby. Como está? — Sol virou e se deparou com um enorme garoto que, graças à blusa, ela soube: era do time da escola. O menino tinha incríveis olhos cinzas, cabelos negros e era muito forte. E devia medir no mínimo 1,90m, o que era uma diferença gritante aos 1,67m de Sol. Ele era lindo.

— Oi. — Ela respirou fundo. — Posso ajuda-lo em alguma coisa? — Disse educadamente e com um sorriso. Sinceramente ela já tinha brigado com um carinha do time no outro dia, o humor dela estava péssimo na véspera, mas, poxa, ela tinha levantado com o pé esquerdo também, isso tira qualquer um do sério.

— Todo mundo me chama de Eddie, então pode me chamar assim também, gatinha. Queria me apresentar, qual seu nome? — Gatinha? A abordagem muito sutil de Eddie fez o humor de Sol cair consideravelmente. Meu deus, pensou, o que eu fiz para merecer isso?

— Meu nome é Sofia, muito prazer Eddie. — Era o nome da personagem principal de um de seus livros favoritos e o primeiro em que conseguiu pensar. — Já nos apresentamos e agora eu tenho que ir. — Ela começou a andar e ele a puxou de volta pelo braço.

Sol cerrou os punhos, assim que ele a pôs onde queria ela o olhou do jeito que todas as pessoas de seu passado diziam que dava medo. Pareceu dar certo, pois ele logo a soltou e pareceu constrangido.

— Me desculpe, Sofia. — Eddie disse após de algum tempo. — Depois disso tem alguma possibilidade de você sair comigo? — Olhou para os tênis depois de falar isso e Sol achou incrível como um cara grande como ele podia parecer fofo. Um pouco da raiva dela sumiu e ela se imaginou saindo com ele... Não podia ser tão ruim assim, uma parte dela argumentou. Uma parte que ela ignorou totalmente. Sinceramente, aquilo deixava seu ego muito bem, ah... A sensação era ótima.

— Olha Eddie... — Disse suavemente. — Eu não quero ser grossa nem nada... Você me parece um cara legal e tudo mais e você é muito bonito, as garotas devem se matar por você. — Era verdade, um dos piores defeitos de Sol era ser sincera. Até demais. Ele lhe olhou esperançoso. — Mas mesmo antes desse episódio... Mesmo antes, na verdade, de eu sequer conhecer você... Nunca teve uma chance. — Ele parecia ofendido e Sol sabia o porquê.

Garotos como ele tinham uma autoestima enorme, mas incrivelmente instável, eles se achavam o topo do mundo e ser recusados era algo que nunca havia passado na cabeça deles. Não era como se a garota devesse ter o prazer de sair com eles, era mais como se tivessem a obrigação de se sentirem felizes por eles sequer falarem com alguma delas. Algo como a mortal que teve a sorte de ser tocada por um deus. Ridículo.

— Então, se você me der licença, eu preciso ir. — Sol disse em um tom muito doce.

— Ok, tanto faz. Espero que você tenha um bom dia, Sofia. — Ele bateu uma espécie de continência estranha e saiu. Sol notou que não parecia tão abalado. Ou ele já esperava uma resposta negativa ou o ego dele era grande demais para se importar com a recusa.

— Bom dia, Eddie. — Ela disse rindo para si mesma. Era incrível o que recusar uma cantada podia fazer com o ego de uma pessoa. Ela deu de ombros e seguiu para sua primeira aula: História. E o fato de a primeira ser justo sua matéria favorita fazia voltar seu bom humor.

Chegando à sala Sol se decepcionou levemente ao saber que iam ver filme, ela adorava filmes, mas preferia ter aula. O professor se sentava atrás, perto do projetor e Sol foi se sentar ao lado dele. Acabou que já tinha visto o filme por indicação de seus antigos professores, por isso ela passou a aula toda conversando com Alex, um dos professores mais novos da escola, tinha em torno de seus 26 anos. Alguns antigos amigos de Sol diziam que ela tinha sorte fazendo amizade com professores. Dificilmente ela não se dava bem com algum.

— Você ficou sabendo que vai ter uma exposição de arte greco-romana mês que vem? — Alex perguntou depois de o filme ter acabado, quando Sol, a única aluna na sala, estava prestes a sair.

— Não brinca! — Sol ficou animadíssima na hora.

— Sério, no museu. Mas é por tempo limitado. A coleção é exclusiva e está viajando o mundo, indo nas principais cidades e tal. As obras são belíssimas, são mais de 150 e é uma oportunidade única. — Ele informou.

— Professor, isso é fantástico. Eu adoraria ir. Em qual museu? — Ela adorava arte e amava o mundo greco-romano.

— Vai ser na capital e vai durar uma semana. — Isso desanimou consideravelmente Sol. Alex pareceu notar. — Algum problema?

— É que, tipo, a capital fica há três horas e meia, mais ou menos, daqui, se eu for de ônibus. Mesmo que eu fosse de manhã ainda ia chegar lá tarde e 150 obras... Quero olhar e entender todas e isso demoraria muito tempo. Minha responsável com certeza não me deixaria voltar tão tarde de ônibus para casa. E ela não tem como me levar. — Sol despejou tudo e já estava se conformando com a ideia até, mesmo que isso a deixasse triste.

— Você pode ir comigo. — Sol levantou a cabeça rapidamente e olhou para ele esperançosa. — Quer dizer, olha, eu também vou a essa exposição, não sou louco de perder. Sol, você é minha melhor aluna e muito dedicada. É um prazer ajudar a aumentar o seu nível intelectual. Já estou indo mesmo, não faz mal nenhum levar você e talvez outros alunos tão bons quanto. Não vai passar de três, tenho certeza. — Ele riu e Sol acompanhou. — Então, se quiser vir eu levo. Vou até na sua casa e falo com a sua responsável, sei como é essa situação.

— Oh, eu quero. Sim, com certeza! — Sol deu alguns pulinhos e abraçou seu professor, saindo da sala em seguida.

Com certeza seu dia estava ótimo. Nada poderia estraga-lo.

É, ela com certeza achava isso.

Notas finais
Ok, ok... Mais uma parte. Mas comentem, se tiverem gostado... ♥