Incompreendidos
2 Chapéu de palha e Baratie
Usopp fitava os dois rapazes estáticos no beco, sendo que um estava numa caçamba de lixo. E não só isso, mas aquele aluno conhecia Zoro, a pessoa mais antissocial do mundo. Quase sempre, seu amigo não tinha saco pra conversar com os outros, nem na internet. Era constante Usopp se esforçar para mantê-lo num ciclo social, mas todo o seu esforço, cada gota de seu suor, nada era o bastante.
— Zoro, você o conhece? — Cochichou para o esverdeado, ainda estava perto e segurando o braço dele. No entanto, ouviu um barulho de uma latinha de refrigerante rolar no chão e passou a observar o loiro novamente. Ele saia da caçamba, tirando lixos da cabeça e dos ombros, enquanto segurava um chapéu de palha.
E Usopp reconheceu aquele chapéu, era do aluno lunático da escola. Ai, merda! Quando Zoro resolve se socializar, se socializa com gente maluca!
Sanji cheirou sua roupa e fez uma careta, fedia pra caralho e odiava gente fedida. Porém, quando resolveu se aproximar de Zoro, tropeçou na latinha de antes e caiu em cima dos dois. Sua cara bateu com força contra o peitoral extenso do marimo e ficou tão surpreso de como era forte, que tateou de leve com as mãos.
— É duro. — Exclamou chocado.
Ao ouvir isso, Usopp só pensava que seu dia estava agitado demais. O zumbi só não saiu da caçamba, como também apalpou os peitos de Zoro — que nem notou por ser lerdo demais. — Ei, saiam de cima de mim!
Era necessário que Sanji saísse de cima de Zoro para que esse saísse de cima de Usopp. Já em pé, o loiro voltou a pegar o chapéu do chão, que havia soltado da mão para apalpar o marimo. Os outros dois também já estavam erguidos.
— Por que estava numa caçamba? — Perguntou Zoro e Sanji já iria respondê-lo, mas uma quarta sombra se juntou ao beco.
— Sanji! Você achou! — Um rapaz magrinho e sorridente, com uma cicatriz debaixo do olho esquerdo, se aproximou muito contente por ver seu chapéu novamente.
Sanji sorriu, ver Luffy feliz o deixava feliz. — Toma, eu disse que se nós procurássemos no lixo, encontraríamos.
Luffy pegou o chapéu e mergulhou na sua cabeça, segurando firme a aba com as duas mãos. — Shishishi!
Usopp não tinha mais dúvidas, Zoro se envolvera mesmo com o lunático da escola. Deu um suspiro pesado. — Ei, Zoro, por que não seguimos pra nossas casas?
Zoro o ignorou. — Oi, meu nome é Zoro. — Se apresentava para Luffy, que piscou os olhos por só naquele momento notar a presença de Zoro e Usopp.
— O meu é Luffy! São seus amigos, Sanji?
— O narigudo tô conhecendo agora também.
Com essa fala de Sanji, Zoro deu uma cotovelada em Usopp e pediu para que ele dissesse seu nome. Mais uma vez, Usopp pensou que havia algo de errado. Quando que Zoro dizia seu nome pros outros? E não era só isso, ele parecia muito interessado naqueles dois.
— Sou Usopp.
Passaram a caminhar para o restaurante do tio de Sanji, que planejava alimentar todos e tomar um banho. Havia alguns ternos do seu tamanho e não se importava ficar vestido de garçom quando fedia tanto. Não tinha muitas opções.
— Estou te dizendo que Pateta é um cachorro. — Usopp tentava convencer Luffy, que se divertia com o seu aborrecimento.
— Mas e o Pluto? Se Pateta fosse um cachorro, ele seria como Pluto. — Rebateu Luffy.
— É, Usopp, isso que ele disse faz sentido. — Zoro se meteu na conversa, mas se arrependeu ao ver o olhar fulminante que Usopp lhe transmitia por não estar do seu lado. A ideia de perder uma discussão para um lunático era inaceitável para Usopp. — Aliás, Luffy, por que seu chapéu estava no lixo?
Definitivamente, essa era a primeira vez que Usopp via Zoro tão interessado em fazer amigos, estava até puxando — e se metendo onde não se deve — assunto.
— Ah, um professor ficou irado que eu usei na aula dele e jogou fora.
— Sério? — Dessa vez foi o narigudo que se meteu na conversa dos outros e, por alguma razão, sentiu pena do garoto lunático da escola. — Mas você usa esse chapéu o tempo todo.
— Sim, só que esse professor não gosta.
Nos corredores da escola, Usopp ouvia falar que Luffy não batia muito bem das ideias quando acreditava que era um pirata e que tinha um grande apreço por um chapéu de palha. Boatos diziam que era o seu maior tesouro. Achou cruel um adulto jogar fora algo precioso para uma criança sonhadora. Talvez Luffy nem fosse maluco, apenas era simples como já vinha mostrado naquela caminhada. No entanto, o garoto começou a andar de costas.
— Ei, Sanji, vou até o Baratie andando de costas, quer apostar quanto?
— Boa sorte. — Respondeu o sobrancelhas, indiferente. Estava acostumado com as loucuras do amigo.
Usopp estapeou a própria testa por ter cogitado por 1 segundo de que Luffy não era doido, mas estava enganado. Aquele ali não batia mesmo bem da cabeça.
Chegaram no restaurante com um peixe imenso esculpido no teto, seu nome era Baratie e sua arquitetura era bucólica, como se fosse um casarão no interior da Itália. Flores de diversos tipos adornavam a fachada, assim como as delicadas mesas de madeira expostas ao ar aberto.
— WOW! — Usopp exclamou empolgado. — QUE PEIXE LEGAL!!
— MUITO LEGAL!! — Luffy se juntou igualmente maravilhado, mas acabou recebendo um chute de Sanji, alegando que ele via aquele peixe todo dia.
— Tsc, não aja como se nunca o tivesse visto. — Resmungou com as mãos na cintura e observava Luffy alisando a cabeça, tristonho. — Bora entrar, preciso do banho urgentemente. Nunca pensei que um dia estaria assim.
— Obrigado, Sanji!!! Por ter vasculhado uma caçamba atrás do meu chapéu!!! Eu deixo você colocar o rango na conta do tesouro!!
— Não foi uma, foram várias. Falar nisso, você não conseguiu andar de costas até aqui, né?
Os dois seguiram em frente, Zoro estava perto de ir atrás deles, mas Usopp o parou.
— Não falei nada até agora, mas por que você se interessou por eles?
Zoro não percebeu o tom amargo na pergunta de Usopp e o respondeu da forma mais natural possível. — Aquele sobrancelhudo me fez rir.
Sanji ia andando pelo salão, deixando os clientes de cara feia por conta de seu fedor. Deu de ombros e continuou seguindo, até um certo garçom o parar.
— O que acha que está fazendo, Sanji?! — Era Patty, o cara mais problemático do Baratie depois de Sanji. Tinha um jeito bruto e não parecia ter tido pais, por ser um sem educação que gritava a todo momento. Era normal você sair molhado depois de ter apenas uma conversa trivial com Patty, porque ele falava gritando e cuspia muito.
E bem, era de um banho que Sanji precisava.
— Se ficar no meu caminho, só vai piorar a situação! Anda, deixa eu passar pra esse cheiro ir embora logo!!
— Não antes de falar com o chef.
— Quê?! — Por um instante, Zoro e Usopp tiveram a impressão de que Sanji perdera a cor de sua pele. — Não envolva o velhote de merda nisso!!
Os dois passaram a discutir, Zoro e Usopp chegaram num consenso de que a discussão atrapalhava mais os clientes que o fedor de Sanji, Luffy tirava meleca do nariz.
— QUE BARULHEIRA É ESSA?
Se estava ruim, podia piorar. Um terceiro homem de perna de pau e com o chapéu de chef entrara no salão. Um terceiro homem de perna de pau. Perna de pau. Zoro e Usopp se entreolharam e tiveram o mesmo pensamento “por que estou aqui?”. E tinha mais o problema de que o chef era igualmente barulhento.
O homem marchava mancando até chegar naqueles dois, ele desferiu um chute no garçom que barrou o caminho de Sanji. — Patty, idiota! Deixa esse gambá ir ao banheiro logo!
Sanji deu um sorrisinho petulante e satisfeito ao ver Patty no chão com cara de choro, mas, repentinamente, algo muito forte atingiu sua cabeça. Zeff lhe dera um chute também.
— Berinjelinha! O que tem na sua cabeça pra vir num lugar que tem gente metida comendo, fedendo a bosta?
Alisava o galo na cabeça e amaldiçoava com o olhar o cretino de seu tio. Não via a hora de alcançar a maioridade e se mandar dali.
O tempo passou, o restaurante voltou a ficar calmo e nem a pressa com que Luffy comia estragava o ambiente, por já fazer parte do Baratie o rapazinho que comia demais. Na mesa também se encontravam Zoro, Usopp e Sanji — já tomado banho e vestido com o uniforme de garçom.
— O seu tio tem esse costume de te bater? — Perguntou Usopp para Sanji.
— Não se preocupe com isso, eu mereço.
Usopp riu com sua franqueza. — Até porque eu sou o último que devo julgar nossos responsáveis, meu pai deixou minha mãe e eu.
Luffy quase se engasgou com o que Usopp disse, assustou todos da mesa, mas conseguiu engolir o salame que enfiara goela abaixo. — Meu pai também me deixou!!! — Disse feliz por ter algo em comum com o narigudo, que retornou o sorriso, pensando que Luffy era legal.
— E quanto a você, marimo? — Sanji fumava um cigarro, pouco se importando de ser proibido fumar no estabelecimento.
— Eu? — Indagou e Usopp passou a fitá-lo com um aperto no coração. — Eu perdi minha irmã...
Um silêncio tomou a mesa, só se ouvia o tilintar da prataria nas mesas vizinhas. Sanji apagou o cigarro no cinzeiro. — Não faça com que ela vire um peso, acho que ela não gostaria de se tornar um encosto. Apenas se lembre dos bons momentos como nós nos lembramos da infância, um período que só por pensarmos voltamos a sentir calor e nos liberta.
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