Incompreendidos

3 Incompreendidos


— Como assim Jennifer Lawrence não é a mulher mais linda do mundo?

A noite havia chegado, os rapazes perambulavam com suas mochilas pelas ruas sem um destino. Sanji cravava os dentes no cigarro e suas mãos já não estavam mais repousadas nos bolsos do uniforme de garçom, se sentia exaltado pelo simples fato de Usopp discordar dele.

— Olha, ela é tão linda que eu fui ver um filme chato, esses “cults”, não sei o nome e nem tenho paciência com quem gosta — Uma gastura tomou o corpo de Sanji por um segundo ao se lembrar de um amigo intelectual chamado Law. —, mas o que quero dizer é que ela estava tão linda, que eu vi até o final! Tá que meu amigo não me deixava nem ir ao banheiro, mas tanto fazia, eu não ia perder nenhum tempo de tela dela!

— É só minha opinião, Sanji. Sei lá, ela não tem “traços” que me chamam atenção. — Usopp andava de costas junto de Luffy, nem parecia que o chamara de louco por andar desse modo. Zoro e Sanji precisavam ficar um pouco atrás, caso quisessem ter uma conversa com um deles.

— “Traços”? E daí?! Ela ficou sem sutiã o filme inteiro! E usava uma camisola!!!

— Aí é outro quinhentos... — Usopp admitiu e Sanji riu.

Zoro andava ao lado de Sanji, um pouco incomodado com aquele assunto e assustado por seu melhor amigo ter esses interesses. Todo esse tempo esteve com Usopp, mas não sabia que ele era tão à vontade pra falar sobre esse tipo de assunto.

— Por que não mudamos de assunto? — Murmurou e os outros três ouviram.

— Concordo! — Exclamou Luffy de braços pro ar. — Eu não sei quem é Jennifer Taorence.

— Ué, marimo, por acaso não gosta de peitos? — Sanji jogou o braço nos ombros de Zoro, que deu um grunhido por ele estar insinuando outra coisa.

— Não é isso, é só um assunto idiota que só idiotas gostam!

— Quê?! — Tirou o braço do esverdeado, consternado. — Não faz sentido, porque você é o idiota dos idiotas!

Os dois começaram a trocar insultos e até mesmo pegaram na gola do outro. Usopp e Luffy pararam os passos e se entreolharam.

— Ei, galera! Se acalmem! — Disse o narigudo, enquanto separava os dois que estavam prestes de trocarem golpes.

No entanto, um vento forte surgiu, tão forte que fez os dois pararem de brigar imediatamente. As árvores sacudiram, assim como as folhas secas no concreto subiram. Fuligem entrou num dos olhos de Luffy, que o esfregava de tão incomodado. Mas seu chapéu de palha ficou desprotegido, pois não tinha nada para segurá-lo — as mãos estavam ocupadas coçando o seu olho — e restou voar longe.

— Meu chapéu!! — Gritou e os outros olharam para si.

O vento passou e tudo voltaria ao normal de novo, se não fosse o tesouro precioso de Luffy voar por cima de um muro e entrar numa propriedade privada.

— Meu chapéu... — Caiu de joelhos no chão e começou a chorar. — Perdi ele de novo!

Os outros três franziram as testas, tristes. Usopp se agachou ao seu lado e pegou no seu ombro. — É só apertar a campainha e explicarmos tudo pro dono da casa.

— Ele vai me devolver?

— Claro que sim, é só um chapéu... embora seja seu tesouro.

— Usopp tá certo. — Disse Sanji. — Bora encontrar o portão e apertar a campainha!

A casa era simples, não havia cerca elétrica e nem mesmo cacos de vidro por cima dos muros, cogitaram de haver um cão de guarda, daqueles bem bravos, mas não ouviam latidos quando batiam as mãos e apertavam o interruptor. O portão era uma grade, eles observaram o quintal e não acharam o chapéu.

— Acho que não tem ninguém em casa. — Concluiu Zoro. — O que faremos? Já está tarde para esperarmos por sua volta.

— Isso se ele voltar, né. — Emendou Sanji.

— Quer dizer que vou ficar sem meu chapéu?

Luffy voltou a chorar. Usopp ficou tão frustrado em ver o lunático da escola daquela forma, que teve uma ideia, embora tal ideia não ser das melhores e que devia ser usada só em caso extremo.

— Vou invadir a casa. — Disse decidido.

Zoro piscou os olhos, mais uma vez teve a sensação de que não conhecia seu amigo de infância. Usopp costumava ser muito covarde e agora estava propondo uma invasão? Parece que não foi só o esverdeado que mudou naquele dia, mas seu amigo também estava se esforçando para ser uma pessoa melhor.

— Está diferente, Usopp. Está mais corajoso.

Luffy abraçava firme Usopp, estava muito feliz e agradecido. Sanji percebeu que o narigudo não respirava direito e deu um chute no seu amigo. Quando se viu livre dos braços de Luffy, Usopp achou melhor responder Zoro.

— Você também. Está mais sociável.

Perto do portão, havia uma árvore que Usopp disse ser muito fácil de escalar. Mas precisaria da ajuda de alguém para erguê-lo, Zoro disse que podia ajudar. Usopp tirou sua mochila e a colocou encostada no muro, mas antes de se afastar, resolveu dar uma olhada no celular. Sua mãe havia feito muitas chamadas, devia estar preocupada. Não era comum seu filho ficar tanto tempo fora de casa, mas aquele dia era diferente de tudo. Tinha essa impressão, assim como Zoro teve também. Luffy e Sanji eram pessoas diferentes e de um jeito estranho, isso era acolhedor.

Sem mais delongas, ele colocou o pé nas mãos de Zoro com os dedos entrelaçados para servir de “pézinho”. Depois escalou a árvore e conseguiu pular para o outro lado, os outros passaram a observá-lo pelo portão de grade. Olhou em volta e, embora estivesse um pouco escuro, encontrou o chapéu de palha muito rápido no gramado e estava impecável.

— Rapazes, achei!! — Gritou muito feliz e os garotos comemoraram ao ouvir.

Mas Usopp não esperava por um empecilho. Um muito grande, afiado, salivando e bufando, muito bravo. Um cão de guarda saíra na penumbra da casa e agora o encarava com toda sua raiva. Não pensou muito e passou a correr.

— SOCORRO!!!!

Zoro, Sanji e Luffy ficaram confusos, mas ouviram o latir do cachorro e compreenderam. Daquela parte da casa, ainda não conseguiam ver Usopp e passaram a gritar “Corre, Usopp!”. Ficaram mais calmos quando viram finalmente o narigudo se aproximando com o chapéu. O medo era tão grande, que Usopp escalou o portão como se fosse nada e se jogou nos três.

O cachorro ficou do outro lado saltando e latindo, muito furioso. Sanji foi o primeiro a se levantar, ajeitou sua franja loira e se aproximou do portão.

— Que foi? Não sabe escalar um portãozinho, hein? Não é alto o suficiente para pular, hein? — Baixou as calças e mostrou seu membro. — Não tá a fim de comer essa salsicha?

Zoro e Luffy ainda estavam no chão, porque Usopp havia caído mais neles do que no loiro. O esverdeado ergueu a cabeça e viu Sanji provocando o cachorro com o pau? Puta que pariu, infantilidade tem limites.

— O que ele tá fazendo? Tá falando com um cachorro? — Perguntou Usopp ainda zonzo.

— Ah, ele é meio lunático. — Respondeu Luffy.

— Ei, sobrancelhas! Por que não larga esse cachorro e nos ajuda a levantar?

Os quatros se encontravam erguidos e Luffy ainda tinha o seu chapéu, agradeceu Usopp muito feliz e o narigudo até ficou sem graça, dizendo que não foi nada — quase se cagou todo, mas não foi nada.

Decidiram ir até a praia para observar a lua cheia refletida no mar e ver as estrelas também. Chegando lá, molharam os pés na água e caminharam na areia batida, pararam por um momento e sentaram na areia fofa. Usopp e Luffy resolveram mergulhar na água, porque, sem querer, Usopp deixou escapar que nunca mergulhara a noite, e Luffy se sentiu obrigado de arrastá-lo até o mar. Portanto, estavam apenas Zoro e Sanji sentados na areia. Sanji fumava e Zoro observava a lua. Não falavam, mas a ingenuidade de Zoro fez com que expressasse o que sentiu por todo aquele dia.

— Sinto que hoje pude fazer coisas que ninguém faria.

Sanji passou a fitá-lo. — É? Como o quê?

Zoro umedeceu os lábios, um pouco nervoso por falar de um assunto que evitava tanto. — Você quer saber por que falei que comeria a mãe do meu professor?

— Não foi porque ele tava falando do seu futuro?

— Na verdade, foi porque ele não me perguntou se estava incomodado com algo.

Sanji estava deitado na areia e apoiava o peso do corpo nos cotovelos, ele resolveu mudar de postura e passou a ficar sentado como Zoro. — E o que te incomoda é a sua irmã?

Zoro chorou e enxugou as lágrimas em seguida com o dorso da mão. — Talvez... mas, quando você entrou na sala de audiovisual, te achei tão maneiro que senti vergonha de mim, eu nunca havia me comparado com alguém antes. E pensei que precisava mudar...

Sanji pigarreou, meio sem graça com aquilo que podia ser um “elogio”. — Pois é, eu pensei algo também... eu tava me culpando por ter mandado o professor chupar meu pau, sabe, o velhote de merda não me ensinou isso, eu “fiquei” assim... e não sei por que. Mas me senti aliviado quando você me disse que comeria a mãe do professor na cara dele. Daí eu pensei que, por ter um outro doido no mundo, talvez não fosse tão anormal “ser” assim.

Zoro olhava para a lua, olhava os meninos apenas de calças e tomando caldo do mar. — É como se fôssemos incompreendidos.

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