In-victus
6 Capítulo 6
A noite não tardou a cair sobre o frequente cinza do céu nublado, e naquela noite, Magdalena não conseguiu dormir.
Acordou três vezes durante a noite. Na primeira, foi por causa de um sonho. Nele, ia fazer as vistorias matinais no quarto mais luxuoso do castelo Lafontaine, o antigo quarto de Lorde Richard. E nele, estava repousado um Aaron magro, pálido e sem vida. A palidez mesclava-se com um tom de azul bastante familiar, um azul desbotado, doentio. E, aos fundos, Sor Gregory Marchiori observava, com o cabo de um machado repousando tranquilamente em sua mão. Acordou afogando-se no mar do próprio suor. Seu coração parecia querer saltar para fora do peito. Olhou para o lado e encontrou as suas companheiras de quarto dormindo tranquilamente. Anastácia parecia uma criatura quase adorável, aninhada entre as cobertas. Prudence estava esparramada em sua cama, roncando com fervor. Só havia uma cama ainda feita, vazia, sem nenhum corpo a lhe utilizar: a cama de Augustine.
Lena ponderou sobre seu sumiço, mas antes que pudesse pensar em procura-la, o sono cegou-lhe as vistas. A segunda vez que acordou, foi por conta de um choro. Era um som familiar, baixo, rouco e mucoso. Revirou-se em sua cama e focou seus olhos na escuridão até encontra-la. Estava encolhida em sua cama, com os braços a abraçar os próprios joelhos, ensopada de água ao ponto de suas roupas colarem-se a ela como uma segunda pele, os cabelos ruivos mesclando-se a um tom negro... Como em todas as outras noites, Magdalena não se permitiu dormir até que os soluços de Augustine fossem transformados no som de um respirar constante e irregular. Só então, se permitiu fechar os olhos e dormir.
Por pouco tempo. Parecia ter sido há segundos que fechava os olhos ainda com o som do choro da menina na cabeça, quando sentiu alguém chacoalhando-a.
― Lena? Lena...
Abriu os olhos e a primeira coisa que viu sob a luz da lamparina, foram dois olhos grandes e azuis e um rosto que parecia ter sido atingido por uma chuva de sardas.
― Abraham. ― Foi a única coisa que Augustine disse, antes de sumir com a luz e voltar para a cama.
Lena rapidamente vestiu um robe simples e foi ao encontro de Abraham. Ele estava parado em frente à porta, esperando-a. Abraham era um senhor idoso, com uma cascata de cabelos brancos escorrendo-lhe pela cabeça ligeiramente calva. Tinha noventa e um anos.
― Desculpe a demora. ― Disse Lena, quando encontrou-o de costas para ela. Tinha a mesma lamparina que Augustine segurava em suas mãos instantes atrás. ― Está melhor?
Abraham virou-se e presenteou-a com um sorriso sem dentes. Lena ergueu o instrumento que irradiava luz e pela centésima décima vez se encontrou espantada com o que viu: a imensidão do azul doentio que denunciava a cegueira do pobre Abraham. Ele estendeu-lhe o braço, como de costume. Lena rapidamente o amparou, agora guiando-o lentamente pela escuridão.
― Não se pode melhorar da velhice, minha cara. ― Ela podia escutá-lo sorrir entre a tosse arranhada e o falar arrastado.
Lena gostava de Abraham. Desde que passou a servir no castelo, nunca encontrou alguém tão gentil quanto o velho Abraham. Ele fora trazido de dentro do povoado da cidade, para auxiliar no que fosse preciso. E, nesse caso, significava a saúde de seu suserano. Antes de ficar cego, Abraham servia auxiliando a população mais desabastada pela fome, o frio e a miséria do povoado. Por isso, quando Lorde Tiberius II percebeu que os corvos não estavam dando resultados, requisitou que curandeiros se apresentassem ao castelo. Abraham não atendeu as ordens por ser demasiado velho, cego, e não praticante das artes medicinais há muito tempo, mas, ainda assim, um grupo de soldados bateu à sua porta e o arrastou até os aposentos de Aaron.
Foi quando Magdalena o conheceu. Ele estava sujo de lama e fedia a estrume e suor, como qualquer habitante comum do povoado de Lafontaine. Pavoroso, foi a palavra que usou para descrevê-lo. Mas não podia deixar de sentir alívio com a presença daquele velhinho que saberia cuidar melhor da saúde do herdeiro que uma simples aia. Desde então, Abraham deixou de ser pavoroso e se revelou uma boa companhia. Um bom amigo. Sempre fazia perguntas, perguntava a cor do menino, o aspecto da ferida, o fluxo do sangue... E aconselhava-a sobre qual planta seria mais adequada para tal recuperação, embora Aaron não reagisse a nenhuma delas. Era por isso que todas as madrugadas eles subiam as infinidades de escadas do castelo até o quarto do garoto, com esperança de domar a frequente febre. E nesta noite, nenhum deles estava particularmente na expectativa de um progresso. Abraham estava guiando-a com palavras fora de foco, entre um cochilo e outro. Como Lena já usava métodos corriqueiros, deixou-o cochilando na cadeira de balanço que repousava à esquerda da cama, enquanto na direita, sentada timidamente à beira do colchão, cuidava dos ferimentos do jovem.
Já havia pegado o jeito depois de algumas orientações de Abraham, tornando o processo menos desajeitado e mais eficiente. Ao seu lado, o tronco forte e esguio de Aaron subia e descia a cada golfada de ar, ainda que fraca e quase imperceptível. Aaron era pesado para um jovem de 17 anos. Lena tinha problemas em levantá-lo de seus travesseiros para trocar o curativo da cabeça. O ferimento crescera como um calombo por entre os cachos loiros que, do vermelho ferrugem pavoroso que tinha se materializado no dia da batalha, voltaram ao louro uniformemente acobreado. Abraham havia lhe dito que a pasta que havia usado sobre os ferimentos de Aaron eram alfazemas, plantas que não só cicatrizavam os ferimentos do corpo, mas também os limpava das impurezas. Agora, usava uma combinação pastosa das alfazemas com uma espécie de tônico, e cobria com folhas úmidas, para que a ferida tendesse a secar e cicatrizar. Mas de todos os aspectos, tudo o que a saúde de Aaron fazia era regredir. Anastácia, uma das suas companheiras de quarto ― que anteriormente era a aia responsável pelo senhor Quentim, agora copeira de Lorde Tiberius II ― contou que o filho mais novo de Sor Gregory Marchiori o encontrara emergido em uma poça de sangue em frente aos portões, bem longe de onde a batalha acontecia, e o arrastou bravamente pela chuva até o próximo quarteirão, onde conseguiu ajuda para leva-lo até algum aposento. A verdade era que Anastácia tinha um apreço bem grande por Harwin, o que fez com que a narrativa se tornasse bem heróica e pouco esclarecedora. Segundo ela, Harwin não havia reconhecido o rosto do agressor de seu senhor porque o mesmo fugiu, com o elmo coroado na cabeça.
Quem quer que tenha agredido Aaron com a intenção de matar, o fez perfeitamente bem. O jovem emagrecera e estava incrivelmente pálido, devido à perda de sangue. Lena tentava se agarrar a ideia de que uma manhã, a febre baixaria. E no dia seguinte, a cor voltaria a corar o rosto sem vida, e no outro as feridas melhorariam de aspecto e assim por diante. Terminou de amarrar uma tira de pano sobre a cabeça e então inclinou-a sobre os travesseiros, com o maior cuidado do mundo. Levou as mãos ao que sobrou da pasta e espalhou-a sobre o peito do jovem em pontos estratégicos, onde havia hematomas e cortes. A pele de Aaron estava incrivelmente quente, febril. Teve de abrir as cortinas para que alguma brisa fria reivindicasse o corpo do garoto para si. A cor do céu já se tornava mais clara, mais límpida, e em poucas horas não seria mais necessário manter as velas do quarto acesas.
Olhou para Abraham. Seu cochilo transformou-se num profundo sono, porque ele não pareceu se incomodar com a brisa fria que chegou até mesmo nela, beijando-lhe os cabelos. Sentou-se á beira da cama e suspirou, exaurida pelo sono que o seu senhor lhe privava todas as manhãs. Olhou para Aaron. Uma vez, a senhora Antoinette lhe confessou que o irmão, às vezes, a assustava profundamente. E que, se tivesse como única opção casar-se com alguém para desfazer-se da sombra dele, ela o faria imediatamente. Na época Lena não entendeu o que a menina queria dizer, mas desde que ele revogou o castelo para si, ela pode entender perfeitamente. Olhando-o agora, Aaron não parecia o assassino ingrato que viera a conhecer. Ele se parecia com uma criança, no meio de seu sonho. Todos os monstros tem o rosto de crianças enquanto dormem. Foi tudo o que concluiu, quando um espalhafatar sonoro invadiu o quarto, vindo em direção da janela. Lena podia jurar ter visto um vulto preto, como se um pássaro enorme tivesse se chocado com a torre de seu senhor. O silêncio parecia algo tão grande, tão uniforme e intacto pela manhã, enquanto todos ainda dormiam que o barulho de um grasnado a fez pular de susto.
Levantou, sobressaltada. Encarou a janela e tudo o que enxergava era a cor do dia engolindo a noite. Mais uma vez aquele grasnar, que a fez estremecer. E então, uma criatura negra se materializou na janela, repousando-se no batente. Um corvo. Lena levantou a mão até o peito, como se para tentar impedir o coração de pular para fora. Suspirou, aliviada. O corvo grasnou mais uma vez, dessa vez tão sonoro que foi uma surpresa Abraham ainda não ter acordado. A criatura se empertigou num bater de asas convulso e então, algo pequeno e pardo escapou de suas garras e caiu no chão. Lena encarou aquilo, absorta. Um pergaminho, se ela não estivesse delirando. A ave grasnou mais uma vez e bateu asas, sumindo na imensidão do céu. Lena permaneceu intacta. Não ousava pegar a mensagem nas próprias mãos, quanto mais levá-la para alguém. Avisaria o guarda que cochilava ao lado da porta para comunicar a alguém, sim. Tomou passo para fazê-lo, quando algo que ela considerava improvável a impediu.
Lena sentiu seu estômago revirar, nauseada. Não teve coragem de dirigir o olhar, e só o fez quando a mão cheia de dedos que estava agarrada a seu pulso firmaram o aperto sob o mesmo, comprimindo-a. O contato de pele sobre pele era febril, e ela não deixou de ficar espantada quando finalmente se virou e encontrou-o acordado, com dois olhos incrivelmente verdes encarando-a, bem abertos.
Aaron.
No horizonte, uma ave grasnava a canção do luto.
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