In-victus
7 Capítulo 7
A velha tinha hálito de alho.
Foi uma das primeiras coisas que constatou enquanto mãos enrugadas passeavam por seu rosto. Isso, e o olhar incrivelmente morto que a velha, sem nem mesmo perceber, emitia.
― Sua pele é tão lisa, tão macia, tão... ― Tão jovem. Seria impossível para ela não compreender. Observou a velha, com os seus dedos trêmulos, roçar a pele de suas bochechas, seu nariz e suas pálpebras, com uma admiração quase invejosa. Os olhos que levavam um aspecto vidrado, demasiado branco ― evidenciando a profunda cegueira ― pareciam devorá-la. Antoinette ainda estava absorta naquela expressão, levemente consciente do carinho que a velha fazia em seu cabelo, que a esta altura já estava seboso e embaraçado, quando ela gritou. ― Rufus!
O homem de meia idade que estava alimentando o cavalo da própria carroça empertigou-se, e só então se aproximou. Seus passos ressoaram nas folhas que quebravam-se aos seus pés.
― Me diga, filho. ― Alvoroçou a velha, tateando com a mão trêmula o ombro do homem, enquanto a outra ainda perpassava pelo comprimento do cabelo da menina. ― Qual a cor do cabelo dessa jovem?
O olhar que o homem lançou a Antoinette fez tempestades dentro de seu estômago. O mau humor do homem era evidente, e ela não soube discernir exatamente a expressão que viu no rosto dele, até que ele começasse a abrir a boca:
― Está sujo, escuro e imundo, mas acho que um dia já foi loiro.
Aquele homem, definitivamente, não emanava confiança a garota. E parecia esse ser um sentimento recíproco, com Rufus encarando-a como se ela fosse uma andarilha leprosa. Mas a velha permanecia ignorante desses pequenos acontecimentos.
― Ah, como o meu! ― Exaltou a velha, e Antoinette não pode deixar de voltar os seus olhos para as cascatas branco-leite que lhe cobriam a cabeça. A velha se adiantou. ― Já fui jovem, menina. E formosa, e loura e provida da visão.
― Mãe... ― Interrompeu o homem. A velha não deu-lhe atenção.
― Meu filho, Rufus, só não herdou as madeixas louras por parte de pai. Porém, basta olhar para Branca e ver o quanto...
― Já chega. ― Interrompeu Rufus, olhando para Antoinette de maneira repreensiva. ― Sinto muito, mas não podemos ajudá-la.
Toda a sua esperança dispersou-se como névoa. Havia encontrado os dois por um acaso que quase lhe custara a vida. Havia adormecido encostada ao tronco de uma árvore, segurando a pequena trouxinha amarrada ao corpo, com seus poucos pertences. Não se orgulhava do que fizera, mas teve de assaltar os pertences do rapaz de olhos negros que tentou atacá-la. Roubou-lhe as botas, um manto, alguns pedaços de pães ― que nessa altura do campeonato já haviam sido devorados ― moedas e a longa espada que quase arrancara sua cabeça fora. Esta última era grande, e a menina teve de improvisar para prendê-la na perna, debaixo de suas saias, assim como o pequeno punhal que carregava desde o dia da fuga. Incomodava, mas era melhor que exibi-la em um cinto furtado, ainda mais quando se aproximava das aldeias. Uma menina de vestido sob medida, com saias de seda, carregando um cinto com uma espada do tamanho do mundo embainhada em sua cintura? Era pedir para ser desmascarada.
Mas não achou que fosse encontrar aldeões tão rapidamente. Por isso, enquanto adormecia com a imagem de Quentim em seus sonhos ― um dos primeiros sonhos em que não via o rosto de Aaron ― não sentiu o solavanco atingir-lhe o corpo. Só acordou com os gritos. Abriu os olhos e tinha uma pessoa em cima de seu corpo. O susto foi tão grande que gritou também, até que, num coro de horrores, um homem com um machado apareceu. Não é preciso dizer que quase teve a cabeça esmagada pelo instrumento. Se não fosse a velha para esclarecer as coisas, toda a sua fuga acabaria ali.
A velha contou que voltavam do coração da Floresta de Pinheiros, de uma clareira específica onde jazia o corpo do marido da qual ela tinha necessidade de visitar todo outono. Apesar de tagarela, a acolheu com água e alguns grãos de centeio, embora o descontentamento de Rufus fosse de um nivel quase maldoso.
― Por favor... ― Implorou Antoinette, quando o mesmo já lhe dava as costas, indo em direção ao cavalo. ― Eu... Eu tenho algo.
Ela tentou esconder as pernas, virando-se de lado enquanto levantava e remexia nas saias de seu vestido. Rufus não fez questão de esconder sua curiosidade quanto ao pertence da menina, e pouco menos disfarçou a visão privilegiada que conquistou ao ser um dos únicos daquele lugar que enxergava. Ela conseguiu soltar a espada de sua perna com dificuldade e estendeu-a para ele. Ainda estava embainhada. Rufus apanhou o instrumento sem dificuldade, como se já fosse familiarizado com o peso do ferro. Analisou o cabo, desembainhou-a com um ranger sonoro e depois passou-a de uma mão a outra.
― Material simples, de aço bom... ― Ele ponderou, antes de completar, encarando-a ― De quem você a roubou?
Antoinette sentiu o coração parar.
― Rufus! ― Exclamou a velha.
Rufus não respondeu. Continuou fitando-a, esperando uma resposta. Ela vacilou, sem saber o que dizer.
― O que te faz pensar que eu a roubei? ― Arriscou, sentindo o rosto queimar enquanto se esforçava para parecer ofendida, embora seu rosto estivesse com expressões totalmente contrárias.
Rufus meneou a cabeça, apontando para o sangue seco que se estendia por seus tornozelos, expostos pela barra da saia rasgada, que havia sido propositalmente retalhado para cobrir o ferimento ali discutido.
Tentou colocar a cabeça para funcionar.
― Há lobos nessa mata.
Rufus sorriu, presunçoso.
― E você espera que eu acredite que uma menina franzina como você sobreviveu a um ataque de lobos?
Por um instante, Antoinette achou que não poderia mais respondê-lo. Arriscou:
― Não preciso que acredite em mim, e tenho certeza de que não espera que eu tente convencê-lo disso.
Ele parecia achar aquilo divertido.
― Talvez... ― Disse, olhando-a com atenção. ― Se você tiver mais da sua “mercadoria roubada”.
O que mais ele queria? Que mais ela poderia lhe dar? As lágrimas vieram junto com a frustração, sem saber o que fazer. Seu único tesouro era o punhal. A lâmina cujo sangue ainda secava em seu ferimento, fora o único consolo durante seus dias de tormenta. A única coisa que ainda a recordava de que estava viva. Poderia ela desfazer-se dele?
― Bem, nesse caso... ― Empertigou-se Rufus, prontificando-se a sair.
O desespero cresceu igual erva daninha no interior da menina, que recusava-se a deixar o contato humano. Desde a fuga ― e o rapaz de olhos negros ― aqueles dois haviam sido os únicos. Tinha a leve consciência de que se privar de pessoas como ela a enlouqueceria.
― Espere! ― Gritou, aflita. Tentou não encará-lo enquanto voltava a remexer nas saias e tatear as ataduras, até sentir o cabo do punhal nos dedos.
Estendeu-o para ele. Rufus tomou o punhal de suas mãos e passou a analisá-lo. Algo na feição de Rufus deixava Antoinette aflita. Porque, se ele fosse um indivíduo bem informado, saberia que aquele punhal não fora feito pelas mãos de um ferreiro qualquer. Ela estava ali, rezando para que ele fosse ignorante de sua condição, quando ele levantou os olhos da lâmina e fitou-a, perplexo. Aqueles eram olhos desconfiados. Olhos que diziam “Eu posso desmascará-la, se eu quiser”, mas que, de alguma maneira, ainda não sabiam como. Até que, sem deixar os olhos dela, guardou o punhal no próprio cinto e disse:
― A espada e o punhal bastam. O resto, entenda-se com ela. ― E apontou para a velha, que estava absorta com os dedos passeando pelos fios do próprio cabelo, sussurrando coisas incompreensíveis, com o olhar sempre vidrado em direção ao nada.
― Mas... ― Começou, deixando as palavras serem propositalmente interrompidas por falta de crença no que havia acabado de escutar.
― Vivemos numa estalagem há alguns quilômetros daqui. É ela quem dirige a estalagem e é a única que pode te dar uma cama e comida. Agora vamos depressa, que eu não tenho o dia inteiro.
E saiu, subindo no banco da carroça, mexendo nos próprios bolsos.
Sentia-se traída. Trapaceada, como quem fora passada para trás. Sentia raiva, ódio. Mas também sentia medo. Deus, como era incrivelmente estúpida! Encarou as costas do homem, que parecia horrivelmente tranquilo. Seu rosto corou violentamente quando levantou a voz para negociar com aquela senhora. A velha ouviu-a como se já esperasse por aquilo.
Até finalmente responder:
― Te darei comida para matar a fome, uma cama para descansar os ossos e até roupas novas, se assim preferir. ― Falou com a voz rouca pelo desuso. ― Contudo, desejo algo que lhe diz respeito.
Antoinette assentiu, sem fazer ideia do que a velha estava falando. Deus, como era estúpida! Repetiu esses pensamentos com fervor em sua cabeça quando a velha pediu em forma de pagamento sua longa cascata de cabelos louros e incrivelmente sujos. Só de pensar em um lugar para deitar o corpo e descansar a angústia que vinha carregando nos últimos dias era tão aprazível e deleitoso, que não pode deixar de aceitar a oferta.
Ela mesma cortou suas madeixas.
Rufus havia bufado algo parecido com “E por que diabos a senhora quer esse cabelo imundo?!” para a velha, mas ela apenas silenciou-o e requisitou que ele lhe desse algo de corte. Foi lhe dado o mesmo punhal que visitara as entranhas de sua perna e, mecha por mecha, o cabelo que batia até depois da linha do quadril foi ao chão.
O resto, em sua memória, é feito de um borrão. Lembra-se de subir na carroça, junto com a velha e Rufus, encolhidos pelo aperto e pelo frio. Lembra-se da velha ao seu lado, falando da neta e, vez ou outra, estendendo a cabeleira de Antoinette e alisando-as, recostadas aos ombros, como se fossem suas. Lembra-se do chacoalhar da carroça e seu cavalo. E a última coisa que se lembra é do aperto do manto ― um dos poucos pertences que lhe restou ― em seu corpo ora quente, ora frio, junto com a repentina sonolência.
E depois, mergulhou fundo na escuridão.
Quando acordou, encontrou seu corpo recostado em cima da grama, com pequenas folhas roçando seu rosto enquanto o torpor sonolento se dissipava na névoa. Estava tonta, a visão esvaindo-se aos poucos para então, retornar a cegá-la com o azul do céu em tons indistinguíveis por conta dos exorbitantes raios de sol.
Sol. Que estranho. O solo nem sequer estava úmido, ao contrário. Estendia-se pela vegetação como uma grande lagarta, banhando-se do calor solar. Algo que dizia que o calor, o verão e qualquer coisa lhe fosse relacionado ao clima eram ideias distantes, longínquas, mas não sabia por que. Sentia-se sonolenta, incapaz de manter os olhos abertos por mais de três segundos, sem delirar entre sonho e realidade. Devia estar assim, entre o sonho e o despertar, porque ouviu ao longe o chamado de Quentim. Chamava por seu nome, ao mesmo tempo em que gritava com alguém. Tentou se mover, mas quando o fez, uma dor lancinante atingiu-a, imobilizando seus movimentos por completo. Tentou localizar a dor e ficou atemorizada quando não conseguiu. Ardia, latejava e contorcia-se dentro de si, e mal tinha noção de onde começar ao tentar descortiná-la. Sua voz não saiu e, de repente, o desespero tomou conta. Parou de se mover, angustiada. Seu peito subia e descia enquanto tentava recobrar a respiração. Sentia pequenas gotas de suor tomarem forma em seu peito, o pequeno pingente em forma de gota, feito de obsidiana, esquentar em seu colo.
Escutou passos. Eram descompassados, o que sugeria que mais de uma pessoa se aproximava. Tentou se acalmar, mas sentia-se perdida, flutuando sob mares desconhecidos.
― Ali! ― Gritou a voz de um garoto. ― Ali, estou vendo-a! Está ferida, está sangrando...
E então, desabou sobre ela. Mãos rechonchudas seguraram seu rosto com a delicadeza de quem tocava um objeto de vidro fino, encarado-a com olhos grandes, assustados e incrivelmente verdes. Quentim chamou-a, preocupado:
― Irmã?
Então, pareceu deixar aquele corpo. Ainda sentia dor, a aflição e até mesmo a mão carinhosa de Quentim que lhe afastava os cabelos do rosto, mas não estava mais ali. Estava em algum lugar, onde alguma coisa ― ou alguém ― afagava-lhe os cabelos da mesma maneira desajeitada, preocupada e carinhosa de Quentim.
― Ela está perdendo a consciência! ― Gritou uma voz que, ao mesmo tempo em que parecia pertencer a Quentim, parecia pertencer a outrem.
Sentia-se afogar em aflição.
― Vá chamar alguém. ― Disse a voz de um estranho, alguém muito longe de ser Quentim. E então, uma versão mais velha de seu irmão mais novo apareceu sobre ela, e sentiu seu estômago retorcer. Era alto, corpulento e esguio, detendo em si olhos idênticos aos do irmão mais novo, com grossos cachos louros pendendo-lhe da cabeça.
Segurou seu rosto com as mãos em concha, de dedos grossos, ásperos pelo manejo de machados e espadas. Curiosamente, não sentiu o carinho grosseiro. Sentiu mãos pequenas, de dedos finos e trejeitos femininos no rosto, com uma voz ressoando em seu consciente quando o homem à sua frente sequer havia aberto a boca. A voz dizia:
― Ela não quer acordar. Por Febo, o que faremos?
Só agora havia dado conta de que alguém gritava. O homem louro aproximou-se de seu rosto apreensivo, com alguma espécie de temor contido. Encarando-a, fazia perguntas, e seu rosto mesclava de aspectos rudes para feições femininas, quase familiares. Aquele rosto era...
Era seu rosto?
― Branca, acalme-se! E trate de me ouvir com atenção, se não quiser encontrar um cadáver em sua cama pela manhã. ― Alguém, de voz cansada e gutural disse, em tom preocupante. Mas tudo o que ela podia ver eram os olhos profundamente verdes que a fitavam, estáticos. Pareciam mesclar-se de emoções entre curiosidade, temor e ― constatou, horrorizada ― desejo.
E então o desespero a envolveu por completo, e deixou-se afogar na maré de escuridão pela segunda vez consecutiva.
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