In-victus

3 Capítulo 3


Invencível. Inflexível. Indestrutível.

Irrefreável. Todos estes eram termos que cairiam perfeitamente bem nos pensamentos de Antoinette sobre a chuva. Quando pequena, costumava escutar histórias de que quando caía a chuva, forte, violenta e destrutiva sobre a terra, era o símbolo da ira dos deuses. E sua fúria descia sobre a terra em forma de raios, trovões e aguaceiro. Sempre havia achado essas idéias uma completa bobagem, mas desde a sua estadia na Floresta de Pinheiros, todas as suas opiniões pareciam estar em constante mudança.

Outra quinzena havia se passado. Tudo em relação ao seu corpo ― sua disposição, sua resistência física ― pareciam querer desistir desta vida. A única coisa que parecia definitivamente invencível, era a chuva. Nestes tempos em que passara na companhia de um outono chuvoso, ensopada dos pés à cabeça, com água circulando nas veias e nos ossos, percebeu que o temporal era ausente da “fúria” dos deuses. Não haviam trovões, relâmpagos e nem clarões explodindo no céu. Só havia a água. E ela não era violenta e nem destrutiva, era apenas... Constante. E isso fazia Antoinette questionar se os deuses realmente se permitiram enlutar-se por seu pai. Se o céu realmente chorava.

Seu pobre pai... Perguntava-se se a dor da morte doeu mais que a dor induzida pelas mãos do próprio filho. Aaron. Tentava não se lembrar constantemente dele. Mas então vinha a fome, o frio e a febre... E a expectativa do que lhe aguardaria se deixasse fraquezas como essas vencê-la. Mas a rapidez com que se movia era tão lenta e árdua e desgastante devido à ferida na perna que Antoinette já não sabia mais distinguir se o som dos cascos em sua cabeça eram em seus pesadelos ou em alguma planície próxima...

Era noite. O solo parecia um lago pantanoso, e quando Antoinette, exausta, deitou-se sobre o tronco de um carvalho grosso, a lama parecia querer engoli-la para um buraco dentro do chão. A sensação era quase parecida com o seu antigo colchão de penas. E isso foi a única coisa que fez a dor em sua perna parecer menos pior. Mas parecia impossível dormir com aquele aguaceiro e, mesmo que contra a sua vontade, Antoinette pôs-se a manter o som dos cascos na cabeça, como um prelúdio do que viria a acontecer se fosse capturada.

Eles a queriam viva, pensava. O que viria depois, descobriria ela mesma pelas mãos de Aaron. E eram esses pensamentos que lhe causavam tremores. Especular as maneiras e atos que o irmão utilizaria para lhe infligir a dor à fez lembrar que, existiu uma época em que ele não a fazia sentir tanto medo. Aliás, medo nenhum. Era algo quase parecido com proteção.

Era uma época distante, longínqua, mas que ela ainda recordava com saudade. Foi logo depois de perder a mãe, quando a Guerra Civil começou. Não lhe era permitido sair dos aposentos e a sua aia não lhe proporcionava nenhum sentimento a não ser um frio desinteresse. Ainda lembrava-se da própria voz, rouca, chorosa e envergonhada reverbando pelas paredes de pedras e morrendo na escuridão.

― Aaron, eu não consigo dormir.

No início o irmão questionava, dizia que não era bem visto que uma moça dormisse fora de seus aposentos e que a aia certamente a puniria. Mas no final da noite, ela sempre ia dormir escutando-o respirar no aposento quieto e sem vida. Isso durou por algum tempo, até que o irmão completasse 7 anos e fosse enviado a uma terra distante e fora de alcance para ser criado. “Seu irmão irá para se tornar um cavaleiro, criança. Agora, pare de chorar.”, diziam-lhe. Tinha 4 anos e aquilo tinha o gosto de um joelho ralado, de um tesouro roubado, de uma infância infeliz.

Levou 10 anos para que o irmão retornasse como um rapaz mais alto do que se lembrava, mais forte e mais audacioso, um homem feito. Totalmente diferente daquele que esperava encontrar. Surpreendeu-se com a semelhança que compartilhavam a pele pálida, os olhos claros, o formato do rosto e os cachos louros. Nem mesmo Quentim, seu irmão mais novo, tinha certas semelhanças expressas no rosto em comparação a Antoinette, que todos diziam ser a cara da falecida mãe.

Aquilo a deprimia. Olhar para si mesma a lembrava o quanto ela se parecia com ele. E aquilo definitivamente a enojava. Por isso, Antoinette evitava qualquer superfície que refletisse seu rosto. Por isso tinha asco de espelhos. Porque eles a lembravam de que ela, ― ingênua, boba e estúpida garotinha ― jamais seria diferente de pessoas como Aaron. De monstros como Aaron.

Por conseqüência disso, quando o dia amanheceu e a menina desnudou-se à beira do lago para limpar o corpo, os ferimentos ― e mais preferivelmente a alma ― não notou nada ali. Estava ocupada demais, tentando não olhar para a água, não enxergar-se através dela.

Desatou o que achou ser uma dezena de nós do vestido feito sob medida e entrou na água apenas com a última camisola da combinação do vestido e o espartilho. Não pretendia mergulhar na água, até porque estava muito frio, seus dentes trincavam e já estava farta de tanta água. Era uma surpresa que o dia tenha amanhecido sem chuva e uma surpresa maior ainda que ela ainda não tivesse pegado uma febre. Não queria abusar da sorte. Mas quando tocou os pés na margem, sua pele foi beijada por água morna. Deliciosamente morna, quase quente. Surpresa, observou os vapores ― que anteriormente julgou ser de uma esperável neblina ― e entendeu. E não conseguiu resistir. Sabia que sairia dali tremendo fervorosamente, mas a sensação era tão boa, que permitiu-se usufruir daquele luxo. A ferida ardeu ao primeiro contato, para depois acostumar-se ao delicioso carinho da margem. O lado parecia escuro, sujo, mas quando Antoinette mergulhou, surpreendeu-se com o quão profundo e bonito um lago podia ser. A luz da manhã clareava a água de aparência verde, azul e cristalina, e aquilo lembrava tanto de casa, que chegava a doer. Foi a primeira vez desde a fuga do castelo que se permitiu relaxar, igualar seus músculos a massa de uma pena, boiar, voar e libertar-se.

Quando saiu do lago, a trança que prendia seus cabelos havia se soltado e estava colada ao corpo, assim como o tecido do vestido. Torceu os fios até o quanto pode e, quando percebeu que o comprimento de seu cabelo media até o quadril, teve o súbito desejo de cortá-lo. Ainda mantinha o punhal que atravessara sua perna preso à atadura do ferimento, para acesso fácil e rápido caso precisasse. Mas antes que pensasse em puxar a lâmina, viu-o ali.

Estava tranqüilo, com o corpo estirado no tronco de uma árvore e aparentemente, feliz consigo mesmo. Ou com a visão que tinha no horizonte, enquanto observava de braços cruzados.

― Finalmente. ― Sorriu. ― Achei que nunca fosse me ver.

Ele não parecia um dos homens de seu irmão, embora suas roupas fossem de couro aparentemente novo e suas botas de aspecto semelhante. Mas aquilo era ruim de qualquer modo. Ele estava ali, parado, há dois metros de distância dela, que estava desprevenida e sem ação. E praticamente nua com suas poucas roupas íntimas. Como ele havia chegado tão perto sem que ela percebesse?

Não se deu ao luxo de pensar. Olhou para o chão, onde jaziam intocadas suas vestes de festa, suas botas e seus lenços. Depois, olhou para ele. E então, correu. Não fazia muita importância que deixasse suas roupas para trás, desde que permanecesse viva. Correu para o meio da mata, onde podia se camuflar com a paisagem, mas de qualquer maneira não deu muito certo. Não demorou a escutar os passos atrás de si, o quebrar dos galhos pisoteados e os risos de seu perseguidor. Seus pés não eram tão ágeis sem as botas, pisavam em falso em pedras, cascalhos e galhos retorcidos e, se isso não fosse ruim o suficiente, sua perna começava a ceder.

Não demorou muito para se encontrar contra o tronco grosso de um carvalho, com uma espada atravessando seu pescoço e dedos carnudos apertando seu braço.

― Onde a princesinha pensa que vai?

O horror criou garras e alcançou-as facilmente à menção do nome. Ela não era uma princesa, de fato. A única moça verdadeiramente princesa nesse continente estava muito, muito longe de Antoinette e seus infortúnios. Mas ainda assim, estremeceu a menção deste título. Havia sido dito ironicamente, claro. Mas havia um brilho ligeiramente malicioso no rosto do rapaz que a fez arfar sob a guarda do aço frio contra a pele.

Ele era alto, esguio e jovem, jovem demais para alguém com tamanha força.

― Qual o seu nome?

― L-Louise. ― Mentiu, tremendo. Não sabia dizer se tremia de demasiado frio ou de demasiado medo, porque no momento, sofria dos dois.

― Louise? ― Ele perguntou, com uma sobrancelha arqueada. O rapaz fedia a vinho, mas, para o desgosto de Antoinette parecia perfeitamente sóbrio em seus propósitos. Quantas Louises deste Vale tem cachos tão claros quanto os seus?

Aquela pergunta havia um quê de “eu sei quem você é” e Antoinette não estava gostando nem um pouco do rumo que aquilo estava tomando. A menina ficou calada e ele sorriu, diante daquele silêncio.

― Mais curioso ainda, quantas Louises desde Vale tem olhos tão grandes e claros... e acesos como os seus? ― E sorriu, brincalhão. ― Ou sardas tão encantadoras como estas?

Castigou-se, mentalmente. É claro. Não bastava ela ser jovem, bem vestida e manca de uma perna... Não. Ela tinha que ter os olhos. As chamas que, vivas, corroem. O fogo que consome, que castiga e que deleita. Os olhos da mãe. Antoinette crescera escutando esses versos tocarem nos salões Lafontaine, e até mesmo fora deles, desde que se entendia por gente. Era uma das muitas canções que trovadores e jardais escreveram para sua mãe, ainda em vida. Ela não entendia bem o porquê, mas esta, dentre todas as outras, era a mais conhecida.

E isso era ruim. Muito ruim. Porque quando as pessoas deparassem com uma menina jovem, bem vestida, manca de uma perna, de olhos castanhos em chamas, lembrariam da canção e associariam a menina perdida. Exatamente como o rapaz, que continuava intrigado, encarando-a com atenção.

― O que Louises como você fariam no extremo norte da floresta, sozinha, ainda antes de o Sol nascer, eu me pergunto?...

Extremo norte, ele disse. Isso significava que a fronteira estava perto. Engoliu em seco e prendeu as palavras na garganta, com medo de que elas escorregassem por sua boca e lhe entregassem ao carrasco. Existiam muitas pessoas no mundo de olhos castanhos em chamas. Ele não tinha como saber. Tentou falar. Ele ainda a fitava com curiosidade e algo que parecia ser divertimento. E sua cabeça estava a mil, tentando lembrar a si mesma de como respirar, pensar, balbuciar palavras e respondê-lo com astúcia suficiente para dobrá-lo, mas não foi preciso. Tanto porque ele não parecia fazer muita questão de uma resposta. Disse algo relacionado com “ a corte”, “buscas”, “recompensas” e um “eu não me importo” e no minuto seguinte ele estava sobre ela. Mãos cheias de dedos foram parar em seus quadris e Antoinette guinchou algo que nem mesmo entendia. A espada fora retirada de seu pescoço e a manga de seu vestido puxado com força. Ela tentou empurrá-lo e quando o fez, teve os últimos centímetros de distância devidamente preenchidos com os lábios dele.

Ele sabe.

Ele sabe quem eu sou.

Sabe quem eu sou e não se importa.

E entendeu que se ele conseguisse despi-la e usá-la como pretendia, não lhe seria concedido nada mais além de uma morte rápida e limpa. E decidiu que não. Mordeu o lábio do rapaz com força e o gosto metálico do sangue escorreu-lhe pela língua. Alguém gritou, mas não ele. Ele apenas riu, interrompendo os protestos dela, com sangue escorrendo dos lábios. Provavelmente foi ela quem gritou, porque ele suspendeu-a pelas pernas e respondeu, zombeteiro:

― Ah, não?

Os dedos segurando-a por debaixo dos joelhos machucavam, enterrados em sua pele. E a perna ferida, suspensa no ar contraiu como nunca desde o último encontro com o irmão. Mas a dor foi bastante oportuna, e veio para lembrá-la de seu causador, sua lâmina afiada e sua localização. Fez de seus músculos pedra bruta, incapaz de se mover ou protestar.

Olhou-o profundamente nos olhos e soube que eles iriam persegui-la pelo resto da vida. Olhos grandes, escuros e perversos. O rapaz abaixou sua cabeça e invadiu seu decote com uma fome desesperada, enquanto firmava-a sobre as mãos, prensando-a um pouco mais naquele carvalho. Antoinette aproveitou a proximidade e alcançou o cabo do punhal preso à batata da perna. Apertou-o com firmeza entre os dedos, enquanto preparava o seu interior para o que estava prestes a fazer.

Nunca matou nada antes na vida, então não pensou muito. Não planejou em que parte do corpo enfiar o gume do punhal, e quanta força seria necessária para isto. Não mirou nem dirigiu o olhar. Apenas apertou os olhos e atacou-o, às cegas. Mais tarde, tentaria não ficar lembrando da sensação da lâmina afiada ao roçar na pele do rapaz. Ignorou a vertigem no mesmo momento em que empurrou-o de si, enquanto ele a xingava entusiasmadamente.

― Filha de uma...

Talvez ela pensasse que ele fosse despencar na mesma hora, desfalecer e fingir-se de morto no chão... Não foi o que aconteceu. E aquilo pareceu provocar umas boas dores no rapaz, mas não o bastante para fazê-lo parar. Provavelmente ele ainda fosse morrer agonizando naquela floresta, o corpo sangrando e os sentidos lentamente se esvaindo. Mas aquilo ainda dava tempo de levá-la para o mesmo inferno que ele.

E então, tentou fugir. Correu, correu e correu, só para ter o tornozelo puxado bruscamente para trás e desequilibrar-se em cima de um punhado de pedras. A queda a fez bater o rosto, o queixo e as bochechas nos cascalhos com tanto força que aquilo certamente haveria de ter doído mais que a própria morte. E agora ele a puxava. Seu punhal havia fugido de suas mãos e não tinha nenhuma outra arma a não ser ela mesma. E quando ele virou-a para que suas mãos alcançassem seu pescoço pálido e esguio, Antoinette ouviu gritos. Ouviu-os quase na mesma hora em que começou a proferi-los e a estrebuchar feito uma presa agonizando nos braços da morte.

E então ele caiu em cima dela.

E tudo o que Antoinette pode relacionar foram os gritos, o coração enlouquecido dentro do peito, a pedra em sua mão e sangue.