In-victus
4 Capítulo 4
Quando Magdalena alcançou o topo da torre estava ensopada, exaurida e sem fôlego algum. As escadas eram externas, o que a fez subir o maior número de degraus com que já teve contato na vida. Carregava uma trouxa que lhe fora amarrada no ombro e pendia solta em suas saias, pesada e incômoda. Se a chuva era violenta, o vento era ainda mais. Por isso, quando finalmente alcançou a única porta que precisava ― e ironicamente, a última daquela maldita torre ― entrou na sala em que ela dava e caiu no chão, tentando desesperadamente respirar. A idéia de ficar ali e descansar as pernas era deliciosa, tranquilizante e tentadora, mas não dispunha desse tempo. Com os pulmões ardendo, levantou e seguiu a passos apressados pelo pequeno salão.
Estava escuro, mas ainda assim, não demorou muito para encontrá-las. As crianças. Escutou as vozes delas por sob uma grossa parede de mármore. A maioria deveria estar dormindo, e as demais, amontoadas no chão do quarto, na completa escuridão. Estava escuro até para ela, embora houvesse pequenas tochas acesas em seus respectivos suportes. Apanhou uma das tochas e tateou as paredes, tentando achar alguma porta. Sentiu as maçanetas com os dedos e, embora fosse completamente esperado que estivesse trancada, a decepção não deixou de ser menor.
Seus olhos já marejavam, teimosos. Não era possível que tivesse se arriscado tanto! E para nada. Tão perto, mas tão perto de conseguir, que podia escutar com clareza a voz da pequena Florence, cantarolando no cômodo ao lado.
― Florence? ― Chamou, aflita. ― Consegue me ouvir?
O cantarolar de Florence cessou em instantes. Houve um pequeno alvoroço, as crianças se agitando. Elas perguntavam: Lena? Essa é a voz da Lena? E Florence, com voz manhosa:
― Lena, é você?
Magdalena sorriu, sentindo seu coração se esfacelar.
― Sou eu, querida.
Um alvoroço alto, animado. E depois, Florence:
― Você veio tirar a gente daqui?
Ela não foi capaz de responder aquilo. Não poderia mentir, poderia? Quiçá, dizer a verdade. A resposta subiu-lhe a garganta e depois voltou, morrendo no silêncio. E depois:
― Lena? Ainda está aí?
Dessa vez não era Florence.
― Rudy? ― Perguntou ela, animada. Porque Rudy, de alguma maneira, não ia lhe fazer perguntas de cortar o coração. Das crianças, filhas e filhos dos serviçais do castelo, todas emboladas num quartinho apertado em uma torre para que seus pais não se rebelassem contra seu senhor inconsciente, Rudy era o mais velho. Todas as outras crianças tinham entre 4 e 7 anos. Rudy tinha 10. ― Escute, eu não tenho muito tempo. Ninguém sabe que estou aqui, e os guardas chegarão em minutos, e... Eu não estou conseguindo enxergar nada. Eu já tentei abrir as portas, mas não tenho as chaves. Há algum tipo de janela, portinhola por aqui, alguma abertura por onde eles passem a comida?...
― Comida? ― Rudy riu ― Não. Aqueles miseráveis aparecem de vez em nunca para nos dar água ou algum resto de trigo mofado. Mas sempre pela porta.
Então era isso. No final, ela mal poderia ajudá-los. Aquilo era decepcionante. Como diria para esses meninos e meninas que, nesse caso, não poderia fazer absolutamente nada? Que a única solução agora seria dar as costas e ir embora, feito uma corça assustada?
― Mas... ― Continuou Rudy, com a voz rouca pelo desuso. ― Que tipo de abertura você tava falando?...
Lena aguçou os sentidos, confusa e ligeiramente esperançosa.
― Qualquer tipo abertura, por menor que seja. Eu... Eu tenho algo.
Ela o ouviu falar alguma coisa que não entendeu, sua voz se distanciando aos poucos. Estava empoleirada no chão que beirava a porta e, ouvindo-o se afastar, agarrou-se mais a ela. Concentrou-se em tudo o que podia ouvir. Seguiu-se o som de um raspar, como se houvessem pedras friccionando-se umas a outra. E Rudy, com a voz longe:
― Eu tenho trabalhado nisso há algum tempo...
O som do raspar continuou e Lena tentou encontrá-lo com os olhos. Ergueu a tocha em chamas e, curiosamente, se perguntou por que o som vinha da parede.
― Rudy, o que você... ― Mas então um pedaço de tijolo se desprendeu da mármore e Lena observou, boquiaberta, enquanto o tijolo do tamanho e grossura de uma salamandra foi empurrado para fora da parede.
Ergueu as chamas para encarar o buraco na parede e tudo o que viu foram dois olhos grandes e azuis num rosto que parecia ter levado uma chuva de sardas. Ela não conseguia parar de olhar para Rudy, que perguntou, intrigado.
― E então?
Ela não disse mais nada. Tirou a alça da trouxa pelo ombro e foi tirando maçãs e goiabas de dentro, passando uma a uma para as mãos de Rudy, que ia passando a frente. O alvoroço tomou conta, e foi preciso Rudy lembrá-los de que os guardas chegariam a qualquer momento.
E então, o silêncio.
― Espero que você tenha furado o chão da cela também... Porque não sei quando poderei voltar.
― Certo, eu vou cuidar disso.
― Ótimo.
E sem mais nenhuma palavra, ergueu o tijolo feito de mármore nas mãos e encaixou-o no buraco. E então, aquela voltou a ser uma parede sólida, impenetrável. Recolheu sua trouxa, repôs a tocha em seu suporte e voltou a travar uma batalha com a chuva.
Quando chegou aos fundos do castelo, nas cozinhas, parecia um tufão de água em pessoa. Rostos apreensivos a encaravam, esperando por alguma coisa, alguma coisa que não poderia ser boa. Lena, que durante a volta correra com o medo de ser pega no caminho, lutava para recobrir o fôlego agora. Tentou falar, mas seus dentes estavam trincados e sua voz, inaudível. Mas, para acalmar o coração de todas aquelas mães desesperadas, deu um aceno com a cabeça, matando de vez a fera que as consumiam por dentro.
E então, elas voltaram ao trabalho. Algumas limpando, outras mexendo o caldeirão, algumas criando sulcos na massa de pão... Ao fundo, dois guardas cochichavam entre si, atentos a qualquer alvoroço. Lena dirigiu-se a um banco perto do forno, onde podia quebrar um pouco do gelo que endurecia os ossos. Instantes depois, a comida estava sendo servida. Não era exatamente um banquete, apenas um aperitivo para os personagens importantes que restaram do exército de Aaron.
Que ainda sofria e agonizava em seu leito. O herdeiro do castelo e fortuna Lafontaine ainda não havia se recuperado, sequer acordado. Nas últimas semanas, queimava em febre. Sor Gregory Marchiori ameaçara de entregá-la para a cavalaria a fim de usá-la como bem entendesse, caso algum dano ocorresse a Aaron. E nesse caso, “dano” era bastante significativo à morte. Já haviam sidos enviados centenas de corvos para as cidades vizinhas, a fim de trazer pessoas capacitadas para cuidar do seu ferimento, mas até agora não haviam recebido nenhuma resposta. A maior preocupação do Lorde Regente Tiberius II ― responsável pela educação de Aaron durante a adolescência e principal aliado na invasão do castelo ― era a localização absurdamente exilada em que se encontrava Lafontaine e os constantes temporais que a região sofria.
Antigamente tido como o maior fornecedor de âmbar da história, Lafontaine atualmente só vivia da produção de tecidos e tapeçarias, principalmente da seda. Uma cidade grande, pobre, com poucos habitantes e que abastecia o maior centro de comércio do país: a capital. Devido à exclusão de Lafontaine em relação às outras cidades, que se localizavam muito além da Floresta de Pinheiros ― abismo florestal equivalente a uma ou duas civilizações juntas, com suas feras e naturezas desconhecidas ― foi criada a Rota de Seda. Antigamente conhecida como a Rota de Âmbar, eram as principais rodovias que cruzavam o grande abismo de pinheiros, e interligavam o comércio com as aldeias próximas a capital.
Mas, devido à distância e os constantes temporais, era provável que os corvos se perdessem no caminho. Ou, se por um milagre dos céus chegassem ao destino, os pergaminhos escritos à tinta com certeza estariam danificados. E tudo o que Magdalena podia fazer era rezar para que os pequenos mensageiros negros obtivessem sucesso em sua jornada. Estava ciente de que seria culpada se, por um acaso, Aaron perecesse. Apenas o pensamento lhe causava arrepios.
Enquanto os mansuelos ― de Mansuelo, lar de Tiberius ― acabavam com o estoque de corvos do castelo Lafontaine, um grupo de busca foi formado para adentrar a Floresta de Pinheiros, em busca da senhora Antoinette. Lena escutou pelos corredores, há algumas semanas atrás, que a jovem senhora seria oferecida em casamento a um mansuelo. O relator do boato ― uma das cozinheiras do castelo ― não soube dizer se o caso tratava-se de um herdeiro ou do próprio Lorde Tiberius. Lena não conseguia imaginar a senhora Antoinette com seus 14 anos bem-feitos sendo desposada por alguém como Lorde Tiberius, velho, feio e ranzinza.
Mas não podia esperar menos de gente como essa. Já ouvira boatos de moças ― crianças ― que mal floresciam e já eram entregues nas mãos de lordes de oitenta anos. Aquilo era, no mínimo, triste. Mas não lhe era permitido julgar. Esperou que as cozinheiras voltassem uma a uma do salão onde os nobres se alimentavam, e então, aguardou. Todas aguardaram, sentadas nos bancos ou encostadas nas paredes, escutando risos e alvoroços, vindos do salão.
Havia um ar de angustia naquele lugar.
Haviam dezenas de rostos angustiados naquele lugar e isso não era porque sempre haviam de esperar seus senhores comerem para depois, alimentar-se das sobras. Não por isso. Não era por isso que Oksana, uma senhora alegre, bondosa e rechonchuda passou a trocar sorrisos por suspiros. Era por Florence. Também não era por isso que Obadiah, uma viúva que ainda irradiava vida, deixou de emanar brilho. Era por seus dois gêmeos, Simon e Simeon, que dormiam no chão frio daquela torre sonhando com peras e maçãs.
E talvez fosse por isso que Augustine, que antes parecia andorinhar pelos corredores, agora era apenas um triste borrão. Um borrão ruivo que estava de pé, encostada à parede do lado da porta em que Magdalena entrou segundos atrás sugando todo o ar do mundo. Lena podia escutá-la chorando no meio da noite, quando ela achava que todos dormiam. Era a irmã mais velha do pequeno Rudy, e isto era tudo. Não tinha mãe, não tinha pai, não tinha nada. Só Rudy.
Alguém sussurrou ao seu lado. Lena não conseguiu entender o que a pessoa disse, mas ponderou sobre o comentário quando viu dois guardas que faziam vigia na torre. A mesma torre da qual, furtivamente ela invadiu e levou mantimentos. Esperava que nenhum deles percebesse que, no meio de tantas mulheres aquecidas e quentinhas, havia uma magricela empapada de água dos pés a cabeça. E esperava ― profundamente ― de que não tivesse deixado nenhum vestígio seu por lá. Porque se algo fosse descoberto, Aaron não seria mais seu pior pesadelo.
Eles passaram pelas mulheres, encarando-as, completamente ciente de que eram seus filhos que guardavam trancafiados na torre. O primeiro viera junto com o exército de Aaron, chamava-se Hélio, alto e moreno. O segundo era um mansuelo grandalhão chamado Nico, temido por seu temperamento explosivo. O primeiro passou pelas mulheres e sumiu para o lado de fora. O segundo parou na porta. Aproximou-se de Augustine, que estava empoleirada no canto da parede e sussurrou alguma coisa que a fez empalidecer.
E então, foi embora. Augustine ficou imóvel, sem sequer levantar o olhar. Parecia amedrontada. Mais soldados entraram na sala e saíram, um a um. O grande salão finalmente ficou vazio e todas as mulheres foram retirar a mesa. No alvoroço, Lena percebeu Augustine sumir entre a procissão.
E não encontrou-a pelo resto do dia.
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